
«(…) Através do que foi tornado público, sabe-se que mais
de 2/3 do volume das manifestações de interesse se referem a opções que
priorizam o mercado externo, nomeadamente, o consórcio EDP-Galp-REN para Sines,
o Green Flamingo, ou mesmo os projetos da Bondalti e da Fusion Fuel.
Deixar o
mercado manifestar à vontade as suas preferências, num quadro que atribui ao
Estado o papel de promotor da iniciativa privada, de financiador de último recurso
e de reparador de “falhas de mercado”, facilitou aos diversos projetos uma priorização ao lucro sustentada por uma desproporcionada
valorização do acesso à cadeia de valor global do hidrogénio. Isto é
penalizador da sustentabilidade ambiental. Em nosso entender, esta atuação descura
o planeamento e hierarquização das prioridades da agenda nacional, com
potenciais custos sociais e económicos.
Seria (e ainda poderá ser) importante valorizar a produção própria
de energia, nomeadamente por parte das instituições públicas, como os hospitais
e as escolas, levando-os a aderirem à iniciativa enquanto produtores e
consumidores de energia solar e de hidrogénio. Será um erro seguir políticas que se limitem a replicar a
abordagem da Comissão Europeia sem considerar devidamente uma estratégia de planeamento
de política industrial, as necessidades socioeconómicas e a especificidade
contextual portuguesa. É preciso ter em conta as próprias tendências de reterritorialização e aproximação dos
circuitos de produção e consumo. (…)
Deve ficar vedada a possibilidade de recurso
a engenharia financeira especulativa, à utilização de paraísos fiscais, à disseminação
de trabalho precário e indignamente remunerado, a fossos salariais
desmesurados, ou a desigualdade salarial entre géneros. Além de tudo isto, é
indispensável assegurar, desde já, a participação dos trabalhadores e suas organizações,
em particular os sindicatos, na discussão de opções, na delineação da estratégia e na sua implementação.»
Eugénia
Pires e Manuel Carvalho da Silva, Estratégia para o hidrogénio: alinhá-la com
os interesses do país – Público.