Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

Mostrar mensagens com a etiqueta agricultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta agricultura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

DINAMARCA: EÓLICA CONTESTA APOIO ESTATAL A CONCORRENTE SUECA

  • A Dansk Vindenergi, uma empresa dinamarquesa do setor da energia eólica terrestre, interpôs uma ação no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) contra o novo sistema de leilões de energia eólica marítima da Dinamarca. A empresa argumenta que o apoio estatal à energia eólica marítima distorce a concorrência, podendo fazer baixar o futuro preço de venda da energia eólica terrestre. A empresa sueca de energia Vattenfall já ganhou contratos para dois projetos eólicos offshore dinamarqueses. Se o processo for bem-sucedido, esses contratos poderão ser revogados, o que poderá paralisar novamente a construção de energia eólica offshore na Dinamarca. Fonte.
  • Um em cada 12 clubes de golfe em Inglaterra infringiu as regras relativas à captação de água nos últimos cinco anos. Os clubes oram apanhados a retirar água ilegalmente do meio ambiente, quer por terem retirado mais do que o permitido, quer por o terem feito fora do período autorizado. E tudo isto sem terem sido multados. Fonte.
  • Um pequeno número de agricultores está a incluir cereais perenes na rotação de culturas para reforçar a resiliência face a fenómenos meteorológicos extremos, como a seca e as chuvas intensas. Os investigadores estão a trabalhar no desenvolvimento de versões perenes de cereais anuais comuns, como o trigo, o sorgo e o arroz, mas o trabalho avança lentamente. Além disso, a adoção generalizada por parte dos agricultores constitui um desafio, uma vez que as culturas perenes não têm um rendimento tão elevado, a colheita pode ser difícil e o mercado ainda está em desenvolvimento. «Kernza» é uma das várias culturas perenes em desenvolvimento no Land Institute, em Salina, no Kansas. Fonte.
  • Várias estações de dessalinização ao longo da costa de Israel foram encerradas ou estão a funcionar com capacidade reduzida devido a uma turbidez invulgarmente elevada da água do mar, associada à proliferação de algas microscópicas. Fonte.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

PLANO DE RECUPERAÇÃO DA NATUREZA: MAIS DE METADE DOS PAÍSES DA UE NÃO CUMPRE PRAZO

[Arterra/Universal Images Group via Getty Images]
  • Mais de metade dos países da UE não cumpriu o para a apresentação dos seus planos nacionais de restauração da natureza, um requisito fundamental previsto na Lei da UE sobre a Restauração da Natureza. A Lei da Restauração da Natureza só foi aprovada após um intenso conflito político, marcado por uma forte oposição por parte dos lóbis do setor agrícola, resistência por parte de vários governos, e um debate altamente polarizado no Parlamento Europeu. O incumprimento do prazo compromete essa legitimidade e dá munições aos opositores para argumentarem que a lei é irrealista ou excessivamente onerosa. Fonte.
  • Numa aparente violação da sua própria política, o banco holandês ING ajudou empresas do setor dos combustíveis fósseis a angariar mais de 900 milhões de dólares à Vår Energi, à Aker BP e à NEO Energy, empresas de petróleo e gás que ainda estão a perfurar ou pretendem desenvolver novos campos petrolíferos no Mar do Norte.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

RAGUSA: RESÍDUOS PLÁSTICOS SOB AS DUNAS DE MACCONI

  • Em agosto de 2020, uma inspeção realizada pela Unidade Ambiental Marítima da Guarda Costeira — ordenada pelo então ministro do Ambiente, Sérgio Costa — revelou enormes quantidades de resíduos plásticos enterrados sob as dunas costeiras, em alguns locais a uma profundidade de até cinco metros. A maior parte dos resíduos provinha da agricultura em estufas, mas também incluía eletrodomésticos, postes de cimento e peças de barcos em fibra de vidro. Em janeiro de 2022, a Guarda Costeira apreendeu cerca de 62 000 m² de litoral ao longo de sete quilómetros de costa. O Ministério Público de Ragusa abriu um inquérito sobre a catástrofe ambiental, despejo ilegal de resíduos e ocupação ilegal de terrenos marítimos públicos, mas não garantiu a limpeza. Nos anos seguintes, registaram-se poucos progressos, tendo-se sabido posteriormente que os planos de limpeza não tinham avançado devido à falta de financiamento. Recentemente, soube-se que foi adjudicado um contrato de limpeza manual para cerca de um quilómetro de praia na zona de Macconi, com a duração de 38 dias úteis e um custo de 25 000 €. No entanto, esta medida aborda apenas os resíduos à superfície e abrange apenas uma fração do litoral afetado. Os resíduos enterrados ao longo de todo o troço permanecem intocados. Fonte.
  • A Roménia é líder na UE na combinação de energia solar e baterias. Fonte.
  • A COP17 da Convenção da ONU de Combate à Desertificação (UNCCD) terminou na 6ª feira (28/8) em Ulaanbaatar (Mongólia) sem resolver o principal item de sua agenda: a criação de um regime internacional para gestão das secas. Por conta de fortes divergências entre os países, a questão foi adiada para a COP18, que acontece em 2028, no Egito. Fonte.
  • Um juiz federal do Oregon confirmou a lei estadual de reciclagem do tipo «quem polui paga», rejeitando uma contestação judicial apresentada pela Associação Nacional de Grossistas e Distribuidores, alegando que a lei sobrecarrega injustamente o comércio interestadual e delega ilegalmente poderes governamentais a um grupo industrial privado (Circular Action Alliance). O juiz indeferiu a contestação argumentando que a lei trata os produtores do estado e de fora do estado de forma igualitária, pelo que não viola a Cláusula do Comércio, e que o grupo privado desempenha apenas um papel consultivo. A lei do Oregon entrou em vigor em janeiro de 2022 , exigindo que os produtores adiram a uma organização de responsabilidade do produtor e paguem taxas para cobrir os custos de reciclagem e eliminação dos seus produtos. Fonte.
  • Os defensores da agricultura sustentável alertam que as bactérias da salmonela encontradas nas aves de capoeira estão a aumentar as estirpes mais suscetíveis de causar doença, hospitalização e morte, e que essas bactérias estão também a tornar-se cada vez mais resistentes aos antibióticos. O relatório da Farm Forward surge um ano depois de o Departamento de Agricultura dos EUA ter eliminado uma regulamentação que visava impedir que aves de capoeira contaminadas com salmonela chegassem às prateleiras dos supermercados e envenenassem as pessoas. Fonte.

domingo, 30 de agosto de 2026

UCRÂNIA: MISCANTHUS GIGANTE PODE CAPTURAR METAIS PESADOS?

Tatyana Stefanovska no campo de miscanthus gigante em Vorzel. © Pia de Gouvello / Reporterre
  • A 45 km de Kiev, os investigadores estão a testar a capacidade do miscanthus gigante para regenerar solos degradados e poluídos pela guerra. Esta planta poderá sequestrar carbono e capturar metais pesados, um grande desafio para o celeiro da Europa. Fonte.
  • O enorme surto de ciclospora nos EUA em 2026, que provocou diarreia explosiva, milhares de casos e até mesmo mortes, é o resultado direto de três crises interligadas: os cortes orçamentais da administração Trump, o domínio corporativo do setor agrícola e as alterações climáticas. Entre maio e agosto de 2026, foram confirmados mais de 10 000 casos e 517 hospitalizações em 47 estados, tendo só o Michigan registado mais de 12 000 casos e as primeiras mortes. O parasita está associado a produtos hortícolas contaminados, nomeadamente alface iceberg ralada da Taylor Farms de México. A administração reduziu drasticamente o financiamento e o pessoal destinados a programas essenciais de segurança alimentar. A consolidação empresarial do sistema alimentar, com a Taylor Farms a controlar 40% das «saladas de valor acrescentado» dos EUA permitiu que um único caso de contaminação causasse doenças a pessoas em todo o país. Verões mais quentes e mais longos proporcionam um período mais alargado para o parasita se desenvolver. Fonte.
  • Em Cumbria, o direito dos rios a não receberem produtos químicos eternos e radiação é ignorado pela máfia nuclear — em nome da segurança nacional. Fonte.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

SUÍÇA QUER FLORESTAS MAIS RESISTENTES AOS INCÊNDIOS

Covão da Ametade
  • Para tornar as florestas mais resistentes aos incêndios, a Suíça está a testar uma abordagem que se baseia na gestão tradicional da terra. Isto implica uma mudança deliberada, afastando-se da silvicultura moderna e uniforme, no sentido de criar paisagens mais diversificadas e abertas, muito semelhantes às que são geridas através de práticas agrícolas tradicionais. O cerne do novo método reside na fragmentação da cobertura florestal contínua, para impedir que os incêndios se propaguem facilmente. Fonte.
  • Calor extremo na Flórida: aumenta o risco de intoxicação por pesticidas para os trabalhadores agrícolas. Novas evidências científicas alertaram para uma dupla ameaça nos campos do sul dos EUA, onde milhares de trabalhadores agrícolas enfrentam uma combinação que pode agravar os danos imediatos e as sequelas a longo prazo. Fonte.
  • Os bastidores do acordo secreto para um centro de dados de 10 mil milhões de dólares na zona rural da Carolina do Norte. Os residentes afirmam que foram excluídos do processo de tomada de decisões relativo a um projeto que inclui centenas de geradores a gasóleo poluentes. Fonte.

BICO CALADO

  • “(…) Tornar praias privadas, transformar bairros em zonas de luxo e escolas e hospitais públicos em guetos não é só o produto da especulação e da austeridade avara no investimento do Estado. É mesmo um projeto político. É garantir um sistema de castas, que concentra o poder e a riqueza num punhado pequeno de gente, ao mesmo tempo que produz hordas de espoliados, prontos a ser explorados ou dizimados sem culpa, de acordo com as necessidades do mercado. Porque tudo é mercadoria. O trabalho não é um ofício e uma arte, mas uma troca precária. A saúde e a educação não são direitos, são privilégios que se pagam. A própria inteligência pode ser alugada. Sim, alugada, porque a propriedade passou a ser temporária, feita de licenças renováveis. (...)” Margarida Davim, Visão 21ago2026.
  • Estes ‘jornalistas’ sabem o que andam a fazer?
  • Um alto dirigente da OpenAI, Dean Ball (diretor de perspetivas estratégicas e antigo colaborador da Casa Branca durante a administração Trump), provocou uma onda de críticas ao classificar a Segurança Social como «uma espécie de fraude contabilística» que deve ser desmantelada. Os críticos reagiram rapidamente. Uns assinalaram a contradição entre as promessas da indústria da IA de um rendimento básico universal e de uma abundância sem precedentes, e o apelo de Ball para eliminar um modesto subsídio de 2 000 dólares por mês destinado aos idosos. Outros salientaram que Ball ignorou o papel dos cortes fiscais republicanos a favor dos mais ricos no aumento da dívida pública. Outros ainda descreveram os comentários como «funcionalmente insanos» e desligados da realidade, questionando por que razão foi permitido que os executivos das grandes empresas tecnológicas, que pretendem destruir o programa de segurança social mais popular do país, acumulassem tanto poder. Entretanto, analistas de sondagens e comentadores destacaram que a Segurança Social goza de um vasto apoio bipartidário, tornando os ataques contra ela politicamente desastrosos. Fonte.
  • As exportações de armas israelitas per capita em 2025 foram cerca de seis vezes superiores às dos EUA e 19 vezes superiores às da Rússia. O mais recente estudo da autora palestiniana-americana Susan Abulhawa revelou que Israel exportou armas a um ritmo equivalente a cerca de 263 dólares por cidadão em 2025, em comparação com 41 dólares por pessoa nos EUA e 14 dólares na Rússia.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

FRANÇA: INVASÃO DE MEDUSAS ENCERRA CENTRAL NUCLEAR

  • A central francesa de Gravelines, da EDF, situada perto de Dunquerque, foi obrigada a encerrar na segunda-feira para evitar uma catástrofe, depois de ter sido invadida por milhões de medusas ( Asian Moon Jellyfish) A invasão de medusas ocorre exatamente um ano depois de outro enxame destas criaturas ter levado à paralisação da central nuclear francesa durante dois dias. Fonte.
  • A Alemanha enfrenta calor recorde, secas, incêndios e milhares de mortes relacionadas com as altas temperaturas, mas a ação climática perdeu força. Movimentos como Last Generation praticamente cessaram os protestos, e o Fridays for Future luta para mobilizar pessoas. Apesar dos impactos graves — rios quase secos, perdas agrícolas e riscos para idosos — o governo é criticado por respostas tímidas e medidas apenas paliativas. Fonte.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

ECLIPSES HÁ MUITOS!


Os pastorinhos prontos para ver o eclipse e lançar a sua linha de óculos Fátima Vision.

  • Três burros pastam nas ecostas da aldeia do Amieiro, em Anadia. A sua função é comer toda a vegetação espontânea que cresce perto das habitações, reduzindo o perigo de incêndios florestais. As vantagens dos burros são evidentes: conseguem atuar em encostas íngremes onde tratores não chegam, Cada animal come o equivalente a dez ovelhas, mantendo os terrenos limpos de forma contínua, exercem menos pressão sobre o sol o, limitando a erosão e favorecendo a infiltração da água e fertilizam naturalmente os terrenos. Fonte.
  • Grandes quantidades de sargaço estão a acumular‑se nas praias do Caribe mexicano, especialmente em Playa del Carmen, transformando a água turquesa num mar castanho, com cheiro intenso a ovos podres devido à decomposição. Este fenómeno está a afastar turistas e a causar perdas significativas na restauração e hotelaria. A Marinha mexicana mobilizou 27 navios especializados, barreiras, veículos anfíbios e equipas de limpeza para recolher o sargaço no mar antes de chegar à costa. Apesar disso, a quantidade continua a aumentar: já foram recolhidas mais de 96 mil toneladas em 2026, ultrapassando o total de 2025. Os cientistas apontam várias causas possíveis: aquecimento dos oceanos, excesso de nutrientes e alterações nas correntes marítimas. Fonte.

sábado, 8 de agosto de 2026

ITÁLIA: PLATAFORMA COM 121 SENSORES MONITORIZA ESTUFAS AGRIVOLTAICAS

  • Uma equipa de investigação italiana desenvolveu um sistema de monitorização para estufas agrivoltaicas que integra 121 sensores distribuídos por três subsistemas principais: monitorização do desempenho do sistema fotovoltaico, monitorização do microclima da estufa e dos parâmetros ambientais, e gestão automatizada da irrigação: (1) Monitorização do desempenho fotovoltaico – Mede a irradiância, a temperatura dos módulos, a iluminância, a temperatura do ar, a humidade e os níveis de CO₂ para avaliar tanto a produção de energia como o impacto do sistema nas condições de cultivo. Utiliza também sensores de luz para inclinar automaticamente os módulos fotovoltaicos com seguimento solar para uma posição quase vertical quando os níveis de luz descem abaixo de um limiar definido. (2) Deteção do microclima e do ambiente – Utiliza nós de sensores distribuídos a várias alturas no interior e acima da estufa, além de uma estação meteorológica externa, para monitorizar a temperatura, a humidade, o CO₂, a radiação fotossinteticamente ativa, a iluminância e a irradiância. (3) Gestão automatizada da irrigação – Monitoriza a humidade e a temperatura do solo, o caudal de água e a pressão, e regula automaticamente a irrigação em cada setor da estufa utilizando um algoritmo de humidade do solo de limiar duplo O sistema foi testado num ambiente operacional real, numa estufa agrivoltaica piloto em Pontinia, no centro de Itália, no âmbito do projeto REGACE, financiado pela UE. Fonte.
  • A habitação social de Le Corbusier era para ser um sonho. Num verão de calor extremo, é um pesadelo. Anna Richards, The Guardian.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

REINO UNIDO: GOVERNOS ESCONDERAM E DESTRUÍRAM DADOS MÉDICOS DE MILITARES E CIVIS QUE PARTICIPARAM EM TESTES COM ARMAS NUCLEARES

  • O Ministério da Defesa do Reino Unido admitiu finalmente ter levado a cabo um extenso programa de experiências de radiação em seres humanos com militares que participaram em testes com armas nucleares. Esta admissão surge na sequência de uma investigação de dois anos, que confirmou que, durante mais de uma década, ministros e responsáveis negaram falsamente que tivessem sido recolhidos dados médicos destes militares e civis. As principais conclusões da investigação incluem um arquivo secreto com 50 000 ficheiros não analisados, incluindo registos de veteranos de testes nucleares, mais de 5 000 veteranos que participaram em testes nucleares foram deliberadamente excluídos de estudos de saúde realizados pelo governo. Aos veteranos que se candidataram a uma pensão de guerra foram-lhes retirados permanentemente os registos médicos, e milhares de registos foram ilegalmente destruídos, alguns ainda em 2025. O governo perdeu ou destruiu os resultados destas experiências, deixando os veteranos sem respostas após 70 anos. O novo primeiro-ministro, Andy Burnham, já iniciou os trabalhos relativos a reparações e indemnizações. Além disso, a Polícia de Thames Valley está a analisar alegações criminais, incluindo perjúrio e abuso de poder. Veteranos e políticos condenaram o encobrimento e as mentiras que se prolongaram por décadas. Fonte.
  • A Radiation Free Lakeland enviou uma carta à Cumbria Wildlife Trust instando a instituição a alertar os pais sobre os riscos que as crianças correm ao passar horas a erguer castelos de areia no SeaFest de St Bees, este sábado. As praias da região oeste de Cumbria, em particular St Bees, estão contaminadas com milhões de partículas radioativas provenientes das descargas históricas de Sellafield. Estas partículas podem ser inaladas ou ingeridas, especialmente por crianças que colocam areia na boca. Fonte.
  • O presidente Donald Trump procura obter a aprovação do Congresso para um acordo de energia nuclear com a Arábia Saudita que não inclui salvaguardas destinadas a impedir o desenvolvimento de uma bomba atómica. Fonte.
  • A escassez de alimentos poderá afetar os supermercados se não chover nos próximos 10 dias nas zonas secas, afirmam os agricultores ingleses. Fonte.

REFLEXÃO



LEI DA UE SOBRE DESFLORESTAÇÃO PUNE AGRICULTORES QUE NÃO CORTAM ÁRVORES
Niladri Giri, Medium. Rev. O’Lima.


Se observarmos uma imagem de satélite das colinas acima de Koraput, nos Ghats Orientais de Odisha, na Índia, veremos uma extensão verde que parece intocada. A floresta estende-se de cume a cume, sem fileiras, clareiras ou limites visíveis que uma máquina pudesse detetar. Para os sistemas que a Europa utiliza para monitorizar as suas importações de café, esta cena parece inofensiva — uma floresta ininterrupta, exatamente o que a lei pretende proteger.

Mas o satélite não capta algo importante. Na verdade, está a observar milhares de quintas.

À sombra daquela floresta, durante a terceira semana de novembro, Mangi Jani colheu bagas de café e colocou-as num cesto de bambu. As suas plantas de café crescem sob carvalhos prateados e jacas, numa encosta que a sua família cultiva há duas gerações. Não há vedação. Se lhe perguntasse, ela diria que o limite da sua terra é simplesmente onde o bambu começa.

A regulamentação da União Europeia relativa à desflorestação, conhecida como EUDR, estipula que cada quilo de café que entre na Europa deve ser rastreado até uma parcela específica de terreno, como prova de que não foram abatidas árvores nessa área após dezembro de 2020. A regulamentação baseia-se em dados de geolocalização e verificações por satélite. Foi criada para identificar explorações agrícolas resultantes do abate de florestas.

No entanto, não tem em conta as explorações agrícolas em que a floresta ainda se mantém de pé.

O terreno que não existe


Trabalho nestes distritos como técnico agrícola. Percorri as encostas das quintas da Mangi e, sinceramente, não saberia dizer onde termina a sua parcela e onde começa a do vizinho. Ela também não saberia, pelo menos não através de coordenadas. No entanto, esse conhecimento é real. Todas as famílias daqui sabem que as árvores lhes pertencem. Mas esse conhecimento está guardado na memória e nos registos das comunidades, não num mapa digital que um responsável pela conformidade em Hamburgo possa consultar facilmente.

A maior parte do café de Koraput é cultivado assim, por pequenos agricultores que trabalham sob a copa da floresta, utilizando um sistema tão antigo que a FAO designou a região como Património Agrícola de Importância Global. Este reconhecimento destaca exatamente o que os satélites observam de cima: uma agricultura que mantém a floresta intacta.

O EUDR interpreta a mesma imagem de forma diferente. Se houver árvores sobre um terreno agrícola declarado, isso levanta questões. O uso do solo não é claro. O risco permanece por resolver. Isto significa mais burocracia antes de a remessa poder avançar.

Cerca de sessenta por cento do café mundial provém de pequenos agricultores como ela. A maioria trabalha em menos de um hectare e muitos não dispõem de registos digitais. A regulamentação foi concebida para a grande indústria, mas acaba por afetar as famílias individuais.

O preço da prova

Quanto custa realmente demonstrar que uma encosta está isenta de irregularidades?

Não há uma resposta clara. Alguns representantes do setor afirmam que os custos de conformidade do café variam entre dez e cinquenta cêntimos de euro por quilo de café verde, dependendo da origem e do nível de rastreabilidade já existente. Quando Bruxelas simplificou as regras em dezembro passado, alguns analistas afirmaram que o custo poderia ser muito mais baixo — apenas alguns cêntimos por quilo para cadeias de abastecimento já bem organizadas. A verdade é que ninguém sabe ao certo quanto custa provar a conformidade, tal como ninguém mapeou as terras de Mangi.

Mas todos concordam quanto a quem paga. O exportador assume os custos do mapeamento, da verificação e da burocracia e, em seguida, tenta recuperar esses custos da única forma possível — reduzindo o preço pago no ponto de recolha. A cooperativa estatal de Koraput comprou café (cereja seca) nesta época a ₹150 por quilo. Um comerciante com quem falei em Visakhapatnam estava a pagar ₹115. Não insisti mais com ele sobre os números.

O que Bruxelas decidiu, e para quem


Em dezembro, a UE alterou as leis. As grandes empresas têm agora até ao final de 2026 para se adequarem, enquanto as pequenas têm até meados de 2027. Aos pequenos produtores primários foi concedido um processo mais simples: bastam-lhes apresentar uma declaração única e, em alguns casos, podem utilizar códigos postais em vez de coordenadas exatas.

Mas, se olharmos com atenção, surge um padrão. As alterações beneficiam sobretudo os operadores, ou seja, as empresas que colocam os produtos no mercado da UE. Por exemplo, um agricultor da Baviera que vende madeira é um operador, mas a Mangi não o é. Os feijões dela chegam à Europa através de agentes, moinhos e exportadores, e é o exportador que apresenta a declaração. O exportador continua a ter de recolher dados detalhados junto da fonte. Esta responsabilidade acaba por recair sobre a pessoa com menos poder para recusar e com menor capacidade para lidar com a carga adicional.

Não estou a dizer que o objetivo da lei esteja errado. As florestas estão a ser abatidas para dar lugar a terras agrícolas em toda a região tropical, e isso é um problema real. Mas a maior parte desse abate ocorre em grandes plantações com fileiras bem alinhadas e encostas descobertas, que os satélites conseguem detetar facilmente. A lei consegue detetar essas explorações agrícolas, mas tem dificuldade em identificar a dela.

Esta desigualdade tem um impacto real. O sistema concebido para detetar a destruição não consegue reconhecer uma boa gestão da terra. Mas pode impor um custo, e esse custo é suportado por quem está na base da pirâmide social.


A Floresta que Nunca Esteve em Risco

Noutra versão desta história, Mangi seria o exemplo perfeito do que a regulamentação pretende alcançar. O seu café mostra verdadeiramente o que significa «sem desflorestação». É cultivado precisamente no local que a Europa pretende proteger, por pessoas que cuidavam dele muito antes de Bruxelas se envolver. Se o sistema funcionasse como deveria, os seus grãos passariam rapidamente pelo processo e o seu rosto estaria na embalagem.

Mas agora, os compradores que costumavam enviar café de Koraput para a Europa estão a planear vender mais no mercado local. O café continua a sair das colinas, mas não vai tão longe e é vendido por menos dinheiro.

No mês passado, voltei a visitar a encosta dela. As jacas estavam cheias e as cafeeiras davam frutos à sombra. A copa das árvores acima parecia exatamente como sempre foi durante os meus anos de trabalho. Algures lá em cima, um satélite passou e captou a sua imagem habitual: floresta. Não viu as quintas. Não havia nada a relatar.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

REFLEXÃO

ISRAEL LANÇA BOMBAS DE FÓSFORO CONTRA POPULAÇÃO LIBANESA


Israel lançou bombas de fósforo branco contra a população libanesa. O fósforo provém da fábrica de glifosato da Bayer em Soda Springs, nos EUA

O Ministério da Agricultura do Líbano encontrou amostras de solo que contêm níveis de glifosato que excedem os «níveis normais em cerca de 20 a 30 vezes».

A utilização de herbicidas cancerígenos como armas militares amplia uma doutrina tática já testada pelo exército israelita na Faixa de Gaza em 2014, violando uma promessa anterior de eliminar gradualmente a substância das áreas povoadas.

Embora, em abril, a direção da Bayer tenha negado o fornecimento direto de glifosato ao exército israelita ou norte-americano, não negou a entrega das matérias-primas com as quais se fabrica o fósforo branco.

A Amnistia Internacional afirma que a utilização de fósforo branco em Gaza teve início a 7 de outubro de 2023, quando Israel desencadeou a guerra contra os palestinianos na Faixa de Gaza.

A Human Rights Watch verificou a utilização desta munição em, pelo menos, 17 municípios libaneses desde outubro de 2023, enquanto investigadores independentes documentaram mais de 200 utilizações que resultaram em 600 incêndios.

No sul do Líbano, residentes e profissionais de saúde relataram que nove civis sofreram lesões respiratórias causadas por fumo «semelhante ao do alho» em outubro de 2023.

Em abril, foram formalmente apresentadas acusações contra as forças armadas israelitas, com relatos de 25 000 milhões de dólares em danos, incluindo a destruição de milhares de hectares de floresta e uma contaminação extrema do solo que «remodelou a paisagem física e ecológica» do sul do Líbano (*).

Uma reportagem publicada a 6 de junho pelo New York Times forneceu uma extensa documentação visual do exército israelita, que lançou repetidamente fósforo branco sobre áreas povoadas do Líbano.

Imagens verificadas mostraram vestígios de fumo e explosões no ar em áreas povoadas como Tiro, Nabatieh, Qlayaa, Khiam e Yohmor durante o mês de maio deste ano.

A investigação identificou projéteis de artilharia M825A1 fabricados nos EUA, que libertam 116 cunhas de feltro em chamas capazes de provocar incêndios num raio de 250 metros, embora sejam frequentemente transportadas pelo vento para distâncias ainda maiores.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

BOMBARRAL: FUGA DE GASES TÓXICOS EVACUA ARMAZÉM DE PRODUTOS AGRÍCOLAS

  • Uma avaria no doseador que mistura hipoclorito de sódio com ácido sulfúrico, numa ação de desinfeção durante a pesagem de produtos, terá estado na origem da libertação de gases tóxicos num armazém da empresa hortofrutícola O Melro, em Sanguinhal, Bombarral. A fuga provocou a evacuação de centena e meia de pessoas do interior de um armazém, tendo 12 funcionárias sido conduzidas ao hospital. Recorde-se que, em maio de 2019, na mesma empresa, 14 trabalhadores sofreram uma intoxicação devido a um incidente durante a realização de obras na cobertura do armazém. O corte de materiais no telhado provocou a libertação de produtos e fumos tóxicos para o interior das instalações, tendo os funcionários afetados necessitado de assistência médica urgente. Fonte.
  • A Estação de Água para Reutilização de Vilamoura, capacitada para a rega de jardins, campos de golfe e agricultura, e preparada para abastecimento ao consumo humano, foi inaugurada pela ministra do Ambiente. Fonte.
  • Consulta pública até 5 de agosto: Consulta Pública AAPICO Águeda S.A. (Fundição de metais ferrosos) Fonte.
  • O Ministro Federal da Segurança Alimentar Nacional e da Investigação do Paquistão, Rana Tanveer Hussain, visitou Portugal para reforçar a cooperação bilateral no setor agrícola, com especial destaque para a indústria da azeitona. O ministro incentivou ativamente os investidores e as empresas portuguesas a explorarem joint ventures e parcerias público-privadas no setor da azeitona do Paquistão. Hussain referiu que já foram plantadas mais de sete milhões de oliveiras numa área superior a 55 000 acres no Paquistão. Para atrair parceiros portugueses, destacou incentivos aliciantes, incluindo a propriedade estrangeira a 100%, arrendamentos de terrenos a longo prazo e a importação isenta de direitos aduaneiros de maquinaria agrícola. Fonte.
  • Comissão Europeia abre processo contra Portugal por falhas no controlo das pescas. Portugal deveria ter implementado, até dezembro de 2013, um sistema de cruzamento automático, análise e verificação dos dados da atividade pesqueira, incluindo uma base de dados eletrónica destinada a validar essa informação. Para o executivo comunitário, estas falhas prolongadas prejudicam a eficácia da fiscalização e podem comprometer a igualdade de condições entre operadores do setor pesqueiro nos diferentes Estados-membros. Fonte.
  • 10 de julho de 1985: os serviços secretos franceses fizeram explodir o navio Rainbow Warrior, em Aotearoa/Nova Zelândia, matando Fernando Pereira, um fotógrafo. O navio dirigia-se para protestar contra os ensaios nucleares franceses.

BICO CALADO

Foto: Narendra Shrestha/EPA
  • O grupo bracarense DST, através da sua marca especializada em construção industrializada Zethaus, vai construir um empreendimento de 339 unidades turísticas em Vila Nova de Santo André, no concelho alentejano de Santiago do Cacém. O projeto conta com um investimento de 52 milhões de euros financiado pelo grupo chinês CALB, o qual já tem planeada a instalação de uma fábrica de baterias em Sines ae com quem a DST firmou um acordo de reciclagem de baterias no início de 2025. Fonte.
  • Uma agência criativa de 14 pessoas com ligações ao PSD gere o motor informático das escolas. As falhas nos exames abriram a caixa negra de um sistema 'low cost' ainda sem explicações do Governo. Fonte.
  • A Entidade Reguladora da Saúde alertou para a falta de concorrência no setor privado e social, destacando o monopólio de um único operador no Alentejo Litoral e Baixo Alentejo. Fonte.
  • Vexames Nacionais​. Raquel Varela, Maio.
  • A plataforma cai. Os professores ficam de pé. Bruna Oliveira Lemos, Esquerda.
  • A Comissão de Regimento da Câmara dos Representantes manipula os procedimentos parlamentares para bloquear votações que restringiriam a ajuda militar dos EUA a Israel, apesar do aumento da pressão pública e política sobre esta questão. Fonte.
  • Foram incendiadas 300 barracas de um acampamento de trabalhadores migrantes em Palos de la Frontera, Huelva, durante o processo de regularização, no qual precisam de documentação que foi consumida pelo fogo. Fonte.
  • A Amnistia Internacional exigiu uma investigação por crimes de guerra sobre os ataques aéreos israelitas no sul do Líbano. Os ataques em questão ocorreram em março e causaram a morte de 24 civis, incluindo 12 crianças, em bairros das cidades de Tiro, Saida e Nabatieh. A Amnistia afirma ter reunido provas suficientes para concluir que as forças israelitas violaram o direito internacional ao não distinguirem entre alvos civis e militares durante a condução da campanha. Fonte.
  • 39.º dia de protestos em massa em Tirana, na Albânia. Milhares de pessoas exigem a demissão do primeiro-ministro Edi Rama devido à corrupção, a um Estado dominado pela máfia e à venda de terrenos, ilhas e áreas protegidas a oligarcas e bilionários, incluindo Kushner. Fonte.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

REFLEXÃO

ENQUANTO A ÍNDIA SE APRESSA A CULTIVAR MILHO PARA A PRODUÇÃO DE ETANOL, SERÁ QUE PODE APRENDER COM OS ERROS DO PASSADO?
Niladri Giri, Medium. Rev. O’Lima.

Foto de Gavin Allanwood no Unsplash

Durante o inverno de 1989, os condutores em São Paulo viram-se a esperar em longas filas para abastecer, apesar de o seu país ter prometido que o combustível estaria sempre disponível.

Não se tratava de gasolina, mas sim de álcool. No final da década de 1980, mais de quatro milhões de automóveis no Brasil funcionavam a etanol puro, cerca de um terço de todos os veículos do país. Durante quinze anos, o Brasil tinha reestruturado a sua agricultura para apoiar esta transição. O programa Proálcool, lançado em 1975 após a primeira crise do petróleo, superou as expectativas. Em 1986, 92 por cento dos carros novos vendidos funcionavam exclusivamente a etanol. Os produtores de cana-de-açúcar tinham encontrado o cliente ideal: aquele que precisava sempre de mais.

Mas depois as coisas mudaram. O preço do petróleo bruto caiu de uma média de 78 dólares por barril em 1981 para menos de 27 dólares em 1986, tornando a gasolina novamente barata. Ao mesmo tempo, os preços globais do açúcar subiram, pelo que as fábricas começaram a destinar mais cana à produção de açúcar em vez de combustível. Entre 1989 e 1990, os postos de abastecimento ficaram sem combustível. Milhares de carros faziam fila nas estações de serviço ou ficavam parados nas garagens, construídos para um combustível que já não estava disponível. As vendas de carros a etanol caíram drasticamente e muitos brasileiros sentiram que todo o esforço tinha sido em vão.

Há um pormenor dessa história que me chama a atenção. O produtor de cana fez tudo como deve ser. Cultivou o que o seu país precisava. A sua colheita não era o problema. A verdadeira questão residia numa série de decisões tomadas longe dali — em locais como uma bolsa de açúcar em Londres, uma reunião da OPEP ou um ministério das finanças a ajustar subsídios. O risco desceu pela cadeia e acabou por recair sobre a pessoa que menos sabia e tinha menos opções.

Há doze anos que trabalho como técnico agrícola nos distritos de Odisha, no leste da Índia. Na maioria dos dias, ajudo os agricultores a lidar com os riscos que enfrentam — chuvas tardias, pragas precoces ou a queda dos preços de mercado durante a colheita. Recentemente, porém, tenho vindo a refletir sobre um risco que não conseguimos ver a partir do terreno, à medida que a Índia repete a experiência do Brasil, mas a um ritmo muito mais acelerado.

O Segundo Acto Americano

Antes da vez da Índia, a história repetiu-se mais uma vez, desta vez no Iowa.

Os Estados Unidos criaram a sua Norma de Combustíveis Renováveis em 2005 e alargaram-na em 2007, exigindo que as companhias petrolíferas misturassem milhares de milhões de galões de biocombustível na gasolina. A região do milho reagiu da mesma forma que os agricultores de todo o mundo reagem perante um comprador garantido. Nos últimos anos, mais de 40 por cento da colheita de milho americana foi destinada à produção de etanol. Reflitamos sobre essa percentagem por um momento. Quase metade do milho cultivado pelo maior produtor mundial de milho é utilizado em motores, e apenas uma pequena parte do que resta é cultivada para ser realmente consumida pelas pessoas.

Havia muito dinheiro em jogo. Um estudo amplamente citado revelou que, entre 2006 e 2014, os preços do milho foram cerca de 30 por cento mais altos do que teriam sido sem a obrigatoriedade. Os rendimentos agrícolas aumentaram. O valor dos terrenos em todo o Midwest subiu na mesma proporção. O mesmo aconteceu com algo mais difícil de perceber num balanço financeiro: a dependência. Os sistemas de combustível e os motores americanos não conseguem absorver confortavelmente muito mais do que 10% de etanol, um limite máximo a que a indústria chama «a barreira da mistura», e a produção de etanol tem estado encostada a essa barreira há mais de uma década. De poucos em poucos anos, Washington renegocia a obrigatoriedade e, de poucos em poucos anos, a economia de distritos rurais inteiros fica com a respiração suspensa. Se o consumo de gasolina nos EUA diminuir — o que acabará por acontecer com os veículos elétricos —, mesmo uma obrigatoriedade inalterada empurrará o etanol para além desse limite máximo dispendioso. O maior cliente do agricultor do Iowa é, no fim de contas, um parágrafo de regulamentação federal. Ele aprendeu a ler documentos normativos da mesma forma que o seu avô lia as nuvens. Os produtores brasileiros ficaram à mercê de um preço. Os americanos estão vinculados a uma política. Duas das maiores nações agrícolas do mundo chegaram à mesma conclusão: o combustível é um cliente diferente de tudo o que um agricultor já conheceu.

Terceiro Ato: Em avanço rápido

Em 2018, a Índia estabeleceu a meta de misturar 20 por cento de etanol na gasolina até 2030. O país atingiu esta meta em dezembro de 2025, cinco anos antes do previsto. Desde abril, todos os postos de abastecimento na Índia vendem E20. O milho desempenhou um papel fundamental para que isto fosse possível. No ano de abastecimento de 2024–25, o milho ultrapassou a cana-de-açúcar como principal fonte de etanol da Índia, fornecendo quase metade do abastecimento nacional a um preço fixado pelo governo de ₹71,86 por litro.

O Brasil precisou de quinze anos para reorientar as suas explorações agrícolas para a produção de combustíveis. Os EUA demoraram cerca de dez anos. A Índia fez essa transição em sete. Eu próprio testemunhei uma pequena parte desta mudança. Na zona de cultivo de milho de Nabarangpur, que faz fronteira com o meu distrito, um agricultor de Umerkote mostrou-me o campo onde costumava cultivar arroz até 2023. O agente da refinaria ofereceu-lhe 3200 rúpias por quintal, contou-me ele, em comparação com o preço local de 2600 rúpias. O acordo prometia recolha garantida, pagamento no prazo de 5 dias e ausência de regateio com os comerciantes. Ele aceitou. Quando lhe perguntei o que a refinaria fazia com o seu milho, ele respondeu-me que ia «para a empresa». Não sabia qual era a empresa nem o que faziam com ele. Não insisti. Foi uma resposta honesta. Em todos os anos em que vendeu cereais, nunca precisou de saber o que lhes acontecia após a venda. O que lhes acontecia depois.

Mas eis a que ele está agora ligado, quer alguém lho tenha explicado ou não. O preço do seu milho depende das compras das refinarias. As compras das refinarias dependem da obrigatoriedade de mistura. A economia dessa obrigatoriedade depende da procura de gasolina. E a procura de gasolina depende dos preços do petróleo bruto, da adoção de veículos elétricos e do número de trabalhadores de escritório em Bengaluru que optam por apanhar o metro. Um homem que nunca viu uma refinaria de petróleo encontra-se agora a jusante do petróleo bruto Brent e a montante do depósito de combustível de uma scooter.

Durante milhares de anos, os agricultores venderam as suas colheitas a pessoas que as consumiam. Quem consome é o cliente mais fiável da história. As populações crescem lentamente e, mesmo durante as secas, todos continuam a precisar de comida. Os condutores são um tipo de cliente muito diferente. Mudam de combustível, compram veículos novos e mudam-se para novas cidades. A sua procura muda com a tecnologia e os acontecimentos mundiais — duas coisas que nunca vi abordadas em nenhum guia agrícola que tenha levado a uma aldeia.

Que lições foram aprendidas?

Permitam-me ser cauteloso nesta questão, porque esta é a parte que acaba por ser reduzida a slogans. Não estou a argumentar que a mistura de etanol seja uma má política. A Índia importa a maior parte do seu petróleo bruto, e a questão da segurança energética é real. O dinheiro que chega aos agricultores também é real. Vi, de perto, o que um comprador garantido significa para uma família que passou gerações a negociar em posição de fraqueza à porta do mercado. O agricultor de que falo fez uma escolha racional. O negócio que tinha diante de si era demasiado bom para recusar.

Foto de Roger Starnes Sr. no Unsplash

A questão que os dois primeiros atos levantam é mais específica e mais complexa. O que acontece quando a procura de gasolina estabiliza? Não se trata de «se», mas de «quando». Os próprios decisores políticos da Índia estão a promover a mobilidade elétrica com a mesma convicção que demonstraram em relação ao etanol, e ambas as apostas não podem dar frutos na totalidade. Quer a transição ocorra daqui a cinco ou quinze anos, uma reserva de gasolina cada vez mais reduzida terá, um dia, de satisfazer uma percentagem fixa de mistura. A conta recai sobre a refinaria, e a conta da refinaria recai sobre um campo de milho.

O Brasil acabou por encontrar uma solução. Os carros flex-fuel, que surgiram quase três décadas após o início do Proálcool, permitem que os motores funcionem a gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois, proporcionando aos produtores de cana um mercado que pode ceder sem se partir. O que levanta uma questão que ainda não vi ser colocada na celebração atual: qual é a opção flexível para o produtor indiano, em vez de para o motor indiano? A resposta honesta hoje é que não existe nenhuma, a não ser regressar ao mercado de onde acabou de sair.

Mais um pormenor que não consigo deixar de referir. Em 2024, mesmo com as suas refinarias a comprar milho para combustível, a Índia tornou-se um importador líquido de milho, adquirindo cereais no estrangeiro para substituir os que queimava no próprio país. O avicultor e a fábrica de etanol viram-se a disputar a mesma espiga, e um navio compensou a diferença.

Algures naquele cinturão do milho, um agricultor que conheço está a decidir quanto plantar na próxima época. O agente apresentou-lhe o preço, e o preço parece bom. Parecia bom em São Paulo, em 1985, e em Des Moines, em 2010. Ninguém se sentou à frente desses agricultores para lhes explicar quem era realmente o seu cliente.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

BICO CALADO


Ann Telnaes
  • “Num acto de extorsão por parte dos EUA, foi assinado no ano passado um acordo humilhante para a União Europeia que entra em vigor esta semana. A senhora Ursula von der Leyen viajou no verão passado até à Escócia, ao encontro do prepotente Trump de férias num dos seus campos de golf, para colocar o desacreditado nome de presidente da Comissão Europeia no documento. Para entrarem nos EUA, os produtos da UE passaram a ter uma taxa de 15% (em média três vezes mais do que antes), no sentido inverso, a taxa dos produtos dos EUA que entram na UE foi reduzida a Zero. (…) E o que faz António Costa? Congratula-se, chama-lhe um "Grande Dia". E acrescenta: "Hoje é um bom exemplo de como, através de acordos comerciais, conseguimos garantir uma relação comercial justa e previsível com os nossos parceiros, nomeadamente com os Estados Unidos". Costa pode falar mal inglês e miseravelmente francês, mas já é fluente em novilíngua, esse idioma de controlo político que distorce a realidade e foi inventado por Orwell para descrever uma distopia.” Miguel Szymanski, Costa chama "Grande dia" a humilhação da UE.
  • A Comissão Europeia recusa-se a divulgar 17 relatórios secretos sobre infraestruturas financiadas pela UE em Gaza, que poderiam revelar mais provas da destruição, por parte de Israel, de projetos civis apoiados pela Europa e aumentar a pressão sobre Bruxelas para que analise se a sua parceria contínua com Israel viola as obrigações em matéria de direitos humanos que sustentam as relações entre a UE e Israel. A recusa ocorreu no mesmo dia em que um inquérito da ONU concluiu que Israel continua a cometer genocídio em Gaza, atacando deliberadamente crianças palestinianas, o que levanta questões sobre se a UE estará a ocultar provas que poderiam reforçar os apelos para suspender ou rever os seus acordos com Israel. De acordo com o jornalista do EUobserver Nikolaj Nielsen, a recusa foi assinada a 23 de junho por Michael Karnitschnig, chefe interino do departamento da Comissão responsável pelo Médio Oriente. Fonte.
  • A Holanda é o principal destino do investimento israelita no estrangeiro. Será que isso se deve ao facto de o sistema holandês permitir que as empresas evitem o pagamento de impostos quando investem noutros países através da Holanda, recorrendo frequentemente a empresas de fachada? Fonte.
  • Israel cede por um dólar aos EUA terreno confiscado aos palestinianos para embaixada em Jerusalém. Fonte.
  • A carreira política de Nigel Farage está em crise depois de ter sido apanhado a mentir sobre um donativo de 5 milhões de libras proveniente de um bilionário tailandês do setor das criptomoedas. O seu chocante desrespeito pelas regras, as suas mentiras incessantes e a sua falta de resistência transformaram um escândalo numa tempestade mediática que não dá sinais de abrandar. Fonte.

Gosto muito deste título: ‘Lisboa, capital mundial do azeite’.
  • A transferência da Refinaria de Sines para a IndustrialCo — uma nova sociedade controlada maioritariamente pela espanhola Moeve, na qual a Galp deterá apenas cerca de 20% — está a ser alvo de fortes críticas por parte da Comissão Central de Trabalhadores (CCT) da petrolífera portuguesa. Em comunicado divulgado esta quarta-feira, a CCT acusou o negócio de colocar em risco a soberania energética nacional e a continuidade da infraestrutura Fonte.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O PARADOXO ESTÉTICO DA CENOURA

  • “Num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade, desperdício alimentar, cadeias curtas, remuneração justa ao produtor e soberania alimentar, continuamos presos a uma lógica absurda: a estética tornou-se critério económico da agricultura. E, demasiadas vezes, manda mais do que o sabor, a origem, a frescura, o valor nutritivo ou o modo como aquele alimento foi produzido.” António Martins Bonito, O Império da Cenoura Perfeita – Vida Rural.
  • Os dois reatores nucleares de Beznau, na Suíça, arrefecidos com água do rio Aare, foram desligados da rede devido ao sobreaquecimento da água. Fonte.
  • Condado com 37 centros de dados pede às escolas que «poupem eletricidade». O Condado de Henrico é um importante centro de centros de dados na Virgínia. As autoridades locais afirmaram que prevêem um aumento de 25% nos custos de eletricidade no próximo ano e aconselharam os trabalhadores a fechar as persianas e a desligar os computadores para compensar esse aumento. Fonte.

sábado, 20 de junho de 2026

OEIRAS: PRAIA DE SANTO AMARO INTERDITA A BANHOS

  • A praia de Santo Amaro de Oeiras foi hoje temporariamente interditada, na sequência de um episódio de poluição na ribeira da Laje, provocado por uma rotura numa conduta da Tratolixo, informou a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Fonte.
  • Quercus pede chumbo a projeto de agricultura intensiva em Alcácer do Sal, que vai esgotar aquífero já em risco.
  • 8,5 toneladas de redes de pesca recolhidas em portos do Algarve. Fonte.
  • A Câmara de Vila Nova de Cerveira vai avançar com um projeto de 25.700 euros, cofinanciado por fundos europeus, para combater os impactos da espécie invasora Egeria densa no rio Minho. Fonte.
  • A chinesa Chint Solar entrouem força no Alentejo (São Gião, Tapada Grande e Monte Santos) com mais de 2,1 milhões de painéis solares. Fonte.
  • A Administração Trump vai pagar 765 milhões de dólares para rescindir mais quatro contratos de arrendamento de parques eólicos offshore. Fonte.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

AÇORES: PRAIA DOS MOSTEIROS INTERDITA A BANHOS

  • Na sequência das análises à qualidade da água, a Praia dos Mosteiros encontra-se interdita a banhos até à obtenção de resultados satisfatórios nas próximas análises, estando prevista nova recolha de amostras para o dia 18 de junho. A Junta de Freguesia lamenta profundamente esta situação e a falta de civismo que continua a comprometer a qualidade ambiental da nossa freguesia. Importa referir que, segundo a informação recolhida pela Junta de Freguesia, a água proveniente do Túnel das Sete Cidades apresenta-se limpa, verificando-se a contaminação ao longo do percurso até à Praia dos Mosteiros, situação que já foi reportada às entidades competentes. Fonte.
  • A lixeira ilegal torna-se «símbolo da divisão entre o norte e o sul» no centro das eleições intercalares de Makerfield. A falta de limpeza do local, em estado de decomposição e infestado de ratos, é uma questão fundamental para a população local, que avalia as promessas dos políticos. Fonte.
  • Em Mayotte, os agricultores mobilizam-se contra um projeto de um novo aeroporto que poderá ocupar até 400 hectares de terras férteis e reduzir em 5 a 10 % a produção alimentar da ilha, temendo que isso represente uma ameaça à soberania alimentar e aos seus meios de subsistência. Fonte.

terça-feira, 26 de maio de 2026

BRAGANÇA: MINA TRAVADA JUNTO À FRONTEIRA

  • A Junta de Castela e Leão decidiu não atribuir a licença ambiental ao projeto mineiro, designado Valtreixal, situado em Calabor a cerca de cinco quilómetros do Parque Natural de Montesinho. Rui Loureiro, membro do Movimento Uivo, explica que “pela sua dimensão e caraterísticas, este projeto teria um impacto significativo na qualidade de vida da população raiana, na economia local e no Parque Natural de Montesinho. Esta mina estava projetada em área da Reserva da Biosfera Transfronteiriça Meseta Ibérica e da Rede Natura 2000, classificações reconhecidas a nível mundial pelo excecional valor do seu património natural. A execução do projeto colidiria com a preservação deste património classificado, com os interesses e direitos da população e com os interesses ambientais, sociais e económicos não só da região, mas também de todo o nosso país, uma vez que a mina previa a utilização de toneladas de dinamite, a construção de uma linha de alta tensão de 10 quilómetros e de uma fábrica de tratamento de minério, a passagem diária de dezenas de veículos pesados, o armazenamento e aterragem de resíduos perigosos e a criação de uma escombreira de grande dimensão. Estas ações teriam impactes transfronteiriços na paisagem, na biodiversidade, na qualidade do ar e da água, destruindo a flora e habitat de animais selvagens tais como veados, águias e raposas, alguns classificados como ameaçados ou em risco de extinção, como o lobo ibérico, a águia-real e a cegonha preta. Fonte.
  • Soutos do Zoio, em Bragança, enfrentam pior cenário desde o aparecimento da praga da vespa da galha do castanheiro. Fonte.
  • Apoiantes do Climaximo atiraram tinta vermelha à fachada da Thales, numa ação de protesto contra a crescente militarização da sociedade, e como alerta da urgência de parar o imperialismo fóssil. A Thales é a 4ª maior empresa de armamento, tecnologia e segurança da Europa, produzindo mísseis, carros de combate, drones e outros equipamentos e tecnologias usadas para vigilância e aniquilação de alvos. Tem sido um alvo regular de protestos internacionais, pela sua parceria com a empresa israelita Elbit Systems, uma das principais produtoras de armas usadas no genocício em Gaza. Fonte.
  • Referindo-se a uma taxa de cancro 25% superior na sua comunidade em comparação com o resto de Alberta, o chefe Billy-Joe Tuccaro, da Primeira Nação Mikisew Cree, está a processar os governos provincial e federal, alegando que décadas de desenvolvimento industrial e a incapacidade de gerir os impactos cumulativos na saúde violaram os direitos da Nação decorrentes do Tratado 8. Fonte.