Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

Mostrar mensagens com a etiqueta reciclagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta reciclagem. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de outubro de 2026

REFLEXÃO

NOVA IORQUE ESTÁ A FICAR SEM ESPAÇO PARA O LIXO
Lauren Dalban, ICN. Rev. O’Lima.

Seneca Meadows, na região de Finger Lakes, em Nova Iorque, é o maior aterro sanitário do estado. Crédito: Cortesia de Mark Pitifer

A cidade de Nova Iorque está a ficar sem locais para depositar o seu lixo. Na última versão preliminar do plano de gestão de resíduos sólidos da cidade — elaborado uma vez por década —, o departamento de saneamento alerta que os aterros que recebem grande parte do lixo da cidade estão a encher-se rapidamente. Mais de dois terços dos resíduos municipais da cidade são transportados para aterros a centenas de milhas de distância. No entanto, de acordo com as licenças atuais, prevê-se que o estado esgote a capacidade de aterro para esse lixo dentro de 16 a 25 anos.

À medida que as comunidades do norte do estado se opõem à criação de novos aterros e à expansão dos já existentes, a cidade poderá ter de enviar o seu lixo para locais mais distantes. Embora os esforços para desviar mais resíduos dos aterros tenham registado progressos, os especialistas afirmam que a cidade continua fortemente dependente dos aterros e da incineração de resíduos.

Quando os aterros sanitários se expandem, geram mais metano, um gás com efeito de estufa 86 vezes mais potente do que o dióxido de carbono a curto prazo. O aterro de Seneca Meadows é a maior fonte individual de emissões de metano no estado de Nova Iorque.

Outra preocupação ambiental é o lixiviado, uma mistura de água da chuva e toxinas provenientes dos resíduos do aterro. Embora deva ser bombeado para fora e tratado, alguns aterros mais antigos sofrem fugas para o solo subjacente e, eventualmente, para as águas subterrâneas, espalhando toxinas para os cursos de água locais.

Os aterros sanitários também emitem pequenas quantidades de sulfureto de hidrogénio e amoníaco, gases que podem causar odores desagradáveis e efeitos imediatos na saúde, tais como tosse e irritação ocular.

«Quem é que quer que o aterro sanitário perto de si se expanda?», perguntou Craig Benson, um engenheiro ambiental que passou grande parte da sua carreira a estudar aterros sanitários. «Mas toda a gente quer que o seu lixo seja levado embora.»

«Ninguém quer que cresça»

O maior aterro sanitário do estado, o Seneca Meadows, na região de Finger Lakes, solicitou uma licença para se expandir, mas as comunidades vizinhas opuseram-se à proposta. Trata-se da maior fonte isolada de emissões de metano no estado de Nova Iorque. (...)

O lixo da cidade de Nova Iorque representou cerca de 20 por cento dos resíduos transportados por camião para o aterro sanitário em 2024. Só o Queens enviou 221 000 toneladas de resíduos sólidos para lá.


Num projeto de declaração de impacto ambiental de 2024, a operadora do aterro, a Seneca Meadows Inc., afirmou que três condados da cidade de Nova Iorque enviam uma «quantidade significativa» dos seus resíduos para o aterro. A maior parte do lixo enviado para o aterro a partir da cidade de Nova Iorque nos últimos anos, segundo um porta-voz do Departamento de Saneamento da cidade de Nova Iorque, era «quase certamente de origem comercial», o que significa que provinha de empresas como restaurantes e supermercados. Os resíduos comerciais são geridos por empresas privadas, e não pelo departamento de saneamento da cidade.

O porta-voz do departamento de saneamento da cidade garante que o seu departamento não envia material diretamente para a Seneca Meadows, pelo menos desde 2018. No entanto, refere que alguns resíduos residenciais podem acabar por lá através de subcontratados da cidade.

No projeto de declaração de impacto ambiental, a Seneca Meadows Inc. referiu que a expansão permitiria ao aterro «continuar a fornecer a capacidade de eliminação» necessária não só na região de Finger Lakes, mas também em comunidades por todo o estado de Nova Iorque.

A cidade de Seneca, onde se situa o aterro sanitário da Seneca Meadows, aprovou uma lei em 2016 que exigia o encerramento do aterro quando a sua licença expirasse em 2025. Depois de a Seneca Meadows Inc. ter interposto uma ação judicial para contestar a lei, o Tribunal de Recurso do Estado de Nova Iorque acabou por declará-la inválida. Desde então, a empresa apresentou um pedido para expandir o aterro.

Enquanto o Departamento de Conservação Ambiental do estado analisa o pedido, o aterro pode continuar a funcionar — desde que não exceda a sua capacidade atual.

No final de 2024, o aterro tinha apenas oito meses de capacidade autorizada restantes, de acordo com o relatório mais recente apresentado às entidades reguladoras estaduais.

Mas essa estimativa não é definitiva. Benson, professor emérito da Universidade de Wisconsin, em Madison, e reitor emérito da Faculdade de Engenharia da Universidade da Virgínia, afirmou que os operadores de aterros sanitários podem, muitas vezes, aumentar a capacidade autorizada de um local através de uma maior compactação dos resíduos à medida que estes se decompõem. A vida útil restante de um aterro sanitário pode variar consoante a forma como é gerido e a quantidade de resíduos que recebe num determinado ano.

Documentos que a Seneca Meadows Inc. apresentou às entidades reguladoras estatais revelam que a empresa pretende aumentar a altura do aterro em cerca de 70 pés, elevando-a para mais de 840 pés — quase tão alto quanto o Rockefeller Center, em Nova Iorque. A expansão prolongaria a vida útil do aterro em 15 anos, segundo as estimativas da empresa.

«É uma ideia horrível», afirmou Yvonne Taylor, vice-presidente da Seneca Lake Guardian, uma organização ambiental sem fins lucrativos que se opõe à expansão do aterro. «Ninguém quer que ele cresça, exceto as pessoas que trabalham no aterro.»

Embora os registos da EPA indiquem que o aterro emite benzeno, um conhecido agente cancerígeno, uma investigação realizada em junho, promovida pela Seneca Lake Guardian, não encontrou uma ligação direta entre o aterro e as taxas elevadas de cancro.

A organização intentou uma ação judicial contra o aterro em 2024 para impedir a sua expansão, alegando que os maus cheiros que este emite constituem um incómodo e violam os direitos dos residentes locais de respirar ar puro, tal como previsto na Emenda Verde do estado. Um juiz indeferiu partes das queixas de ambas as partes e suspendeu o processo enquanto a Seneca Lake Guardian e a Seneca Meadows Inc., a empresa responsável pelo aterro, recorrem da decisão. (…)

Benson consdiera que a oposição local o principal obstáculo à construção ou expansão de aterros sanitários. A expansão é muitas vezes a melhor opção, especialmente se a empresa gestora tiver um historial sem problemas, sublinha.

O Aterro Sanitário do Condado de Ontário, que em 2019 recebeu 144 000 toneladas de resíduos sólidos urbanos provenientes de Queens, recebeu apenas 2 100 toneladas de entulho de construção da cidade em 2024, de acordo com relatórios apresentados ao Departamento de Conservação Ambiental do estado.

Em 2024, a Câmara Municipal votou a favor do encerramento do aterro sanitário quando a sua licença expirar em 2028. Uma análise encomendada pelos líderes do condado concluiu que o encerramento obrigaria a região a enviar os seus resíduos para outros aterros, aumentando os custos devido ao transporte de longo curso.

O potencial encerramento de Seneca Meadows poderá constituir um problema significativo não só para o estado, mas para toda a região.

«Se esta capacidade for perdida em Seneca Meadows, estas toneladas serão desviadas para os aterros e instalações [de valorização energética de resíduos] restantes, o que poderá provocar uma redução drástica da capacidade de eliminação disponível na região», concluiu a análise encomendada pelo Condado de Ontário.

O encerramento de aterros tem implicações significativas em todo o Nordeste, onde a capacidade dos aterros já é limitada. Metade dos resíduos geridos pelo departamento de saneamento da cidade de Nova Iorque acaba em aterros na Virgínia e na Carolina do Sul.

«Temos assistido a um aumento drástico do transporte ferroviário de resíduos para fora do Nordeste, em parte devido à limitação do espaço disponível», afirmou Bryan Staley, presidente da Environmental Research & Education Foundation, que tem vindo a investigar aterros em todo o país.


A obtenção de licenças para um novo aterro pode demorar entre cinco e dez anos, afirmou Benson, pelo que a expansão de um aterro já existente pode parecer uma alternativa atraente para as empresas privadas — embora isso também possa demorar anos devido às regulamentações estatais.

Staley afirmou que isto levou à «regionalização» da gestão de resíduos. Os resíduos não são eliminados localmente num «depósito de lixo» próximo, mas sim num aterro de grandes dimensões que recebe lixo de toda a região.

«É muito difícil obter licenças para o que chamamos de instalação greenfield — em que se vai para um terreno novo e se desenvolve um novo aterro», afirmou Benson. «É simplesmente difícil porque, honestamente, ninguém quer um novo aterro perto de onde vive.»

Vincent Gragnani, porta-voz do Departamento de Saneamento da cidade de Nova Iorque, afirmou que, embora a cidade envie resíduos para aterros no norte do estado e noutros locais em todo o estado, essas instalações tratam de uma «parte relativamente pequena» dos resíduos que a cidade gere.

«À medida que a capacidade continua a diminuir na região, é provável que venhamos a exportar lixo para locais mais distantes», escreveu Gragnani. (...)

O problema do lixo

O problema crescente do lixo na cidade de Nova Iorque também tem consequências para os seus residentes. Os camiões a gasóleo que transportam o lixo das instalações de transferência de resíduos — onde o lixo local é separado — para os aterros expõem os residentes a partículas finas, o que pode contribuir para a asma infantil, o cancro e doenças cardiovasculares e respiratórias.

Outra preocupação ambiental é o lixiviado, uma mistura de água da chuva e toxinas provenientes do lixo dos aterros. Embora deva ser bombeado para fora e tratado, alguns aterros mais antigos apresentam fugas para o solo subjacente e, eventualmente, para as águas subterrâneas, espalhando toxinas para os cursos de água locais.

Estas preocupações levaram os legisladores e as autoridades municipais a promover políticas destinadas a reduzir a quantidade de lixo que chega aos aterros.

O estudo mais recente sobre a caracterização dos resíduos da cidade revelou que 73% dos resíduos da cidade poderiam ser desviados dos aterros sanitários através da reciclagem ou da compostagem. No entanto, no ano fiscal de 2023, apenas cerca de 20 por cento dos resíduos da cidade foram desviados. Os nova-iorquinos deitaram fora dois terços dos materiais de plástico, metal e vidro que poderiam ter sido reciclados.

Grupos ambientalistas têm apoiado legislação para resolver o problema. No ano passado, um projeto de lei destinado a reduzir as embalagens de plástico esteve prestes a ser aprovado pela Assembleia Legislativa estadual, apesar da forte oposição por parte de grupos industriais. Esse projeto teria reduzido as embalagens não recicláveis no estado em 30% ao longo dos próximos 12 anos e obrigado os produtores de embalagens a contribuir financeiramente para os custos de reciclagem e eliminação de resíduos.

Sacos de reciclagem e de lixo estão alinhados junto ao passeio em Brooklyn, na cidade de Nova Iorque. 
Crédito: Lauren Dalban/Inside Climate News

No início de 2026, o presidente da câmara Zohran Mamdani relançou o programa obrigatório de compostagem da cidade — o mais recente capítulo na abordagem intermitente de Nova Iorque em relação à compostagem. Gragnani, porta-voz da cidade, afirmou que o departamento de saneamento tem registado um «aumento constante da participação» no programa.

Cerca de um terço dos resíduos da cidade é compostável. O programa poderá reduzir significativamente a quantidade de resíduos enviados para aterros, ao desviar os restos alimentares, afirmou Ana Baptista, professora associada de justiça ambiental e climática na Parsons School of Design da The New School.

Políticas como estas podem beneficiar as comunidades de justiça ambiental localizadas perto de infraestruturas de resíduos, incluindo aterros. Para os residentes que vivem perto de Seneca Meadows, as mudanças na forma como os nova-iorquinos eliminam os seus resíduos não podem chegar depressa o suficiente.

«Não queremos que esses resíduos se tornem mais um fardo para outra comunidade», afirmou Taylor. «Podemos mudar o rumo deste navio...»

domingo, 11 de outubro de 2026

REFLEXÃO

PORQUE É QUE NÃO CONSEGUIMOS REDUZIR AS EMBALAGENS? A RESPOSTA ESTÁ NOS LÓBIS
Rozenn Le Saint, Reporterre. Rev. O’Lima.

Cartune: Rozenn Le Saint

Pequeno-almoço perto da Assembleia, almoço no Senado, cocktail em Roland-Garros… Os empresários do setor das embalagens investem recursos para se aproximarem dos deputados e senadores, nomeadamente aqueles com uma vocação ecológica, e assim melhorar a sua imagem.

Sob os rebites dourados da Maison de la Chimie, nos bairros elegantes de Paris, a nata dos intervenientes do setor das embalagens reuniu-se na manhã de 8 de julho para um café acompanhado de docinhos. O local é estratégico, vizinho da Assembleia Nacional, idealmente situado para sussurrar ao ouvido dos deputados. O objetivo? Orientar as opiniões de mais de 200 decisores reunidos na Conferência Nacional sobre Resíduos Domésticos, incluindo representantes locais…

À primeira vista, o organizador do evento não suscita suspeitas: a Aromates. Trata-se de uma empresa de consultoria especializada. Um estratagema clássico dos lobistas consiste em contratar intermediários, mais discretos, para se encarregarem de alargar, em seu lugar, as suas esferas de influência.


Veolia, Suez e Paprec por trás dos bastidores


Uma visita ao site dedicado a esta conferência e à sua secção «com o apoio de» revela os logótipos da Veolia, da Suez e também da Paprec… Por trás deste evento estão os gigantes que fazem dos resíduos o seu negócio.

Jacques Marceau, diretor da Aromates, recusou os pedidos de entrevista da Reporterre, mas «não vejam nisso qualquer evasão», escreveu ele posteriormente, depois de ter tomado conhecimento das nossas perguntas. Reconhece, por e-mail, que a organização de um encontro deste tipo custa cerca de 74 000 euros, metade financiada por fundos públicos e a outra… pelos gigantes da indústria da gestão de resíduos.

As empresas parceiras gastaram, assim, cerca de 37 000 euros numa única manhã de «debates», precedida de um «pequeno-almoço de networking»: uma rede que vale ouro. A Aromates invoca o «segredo comercial» para não revelar os detalhes por empresa.

Um exemplo entre tantos outros de recurso a um terceiro cujo montante não foi contabilizado pela Zero Waste France no seu relatório sobre «O lobbying sem complexos dos industriais da embalagem». Esta estratégia explica, em parte, que a ONG qualifique de «mínimos estruturais» os 2,5 milhões de euros de orçamento dedicados pelo lóbi das embalagens em 2025, de acordo com os seus cálculos inéditos. Na realidade, esse valor será ainda muito mais elevado.


«Os parlamentares servem de garantia»


Com o objetivo de tornar a sua imagem mais ecológica, o setor das embalagens não hesita em recorrer a políticos que ninguém suspeitaria que fossem seus porta-vozes. Jacques Fernique, na altura senador ecologista do Baixo Reno, que perdeu o seu lugar a 27 de setembro, tinha aceitado presidir, a título gratuito, à edição de 2026 desta conferência, a pedido da agência de relações públicas Aromates.

No entanto, em 2025, o parlamentar apresentou uma alteração para aumentar a taxa sobre o plástico, que acabou por ser abandonada. «Os organizadores têm todo o interesse em recorrer a parlamentares que se pronunciem a favor da defesa do ambiente. Desta forma, servem-lhes de garantia. Isto prova que o lóbi das embalagens influencia muitos decisores. Isso confere-lhe ainda mais peso», analisa Marine Bonavita, responsável pela defesa de causas da Zero Waste France.

A Aromates recusa-se a responder à nossa pergunta, considerada «pouco cortês para com os deputados em questão». Na opinião do antigo deputado ecologista, «não se trata propriamente de uma iniciativa de lobistas». «Os industriais estão presentes», admite Jacques Fernique, «mas não tive a sensação de ter sido usado, porque zelei por que as questões fundamentais fossem abordadas. Como o princípio do poluidor-pagador, para que as autarquias locais não sejam as vítimas da situação.»

A economia da gestão de resíduos assenta, de facto, nelas. O que torna os representantes eleitos no terreno particularmente sensíveis ao tema… E, por extensão, os senadores, que são escolhidos pelos grandes eleitores locais. Aliás, Jacques Fernique tem de interromper a nossa entrevista, pois tem precisamente um encontro com um deles, em plena campanha eleitoral.


«Uma lógica de remuneração por tonelada recolhida»


«Os representantes locais são os decisores públicos no terreno: o diálogo contínuo permite partilhar conhecimentos técnicos e operacionais úteis para a tomada de decisões públicas, sem se substituir ao seu papel», reconhece a Veolia. «Quanto mais se polui e quanto mais fábricas de reciclagem existem, melhor é para a Veolia, a Suez ou a Paprec, que têm fortes interesses financeiros em incentivar os representantes locais a implantá-las nos seus territórios», explica Marine Bonavita, da Zero Waste France.

A Paprec não respondeu às perguntas da Reporterre. O grupo Suez, por seu lado, assegura, em sua defesa, que está a desenvolver «novos modelos contratuais que visam passar de uma lógica de remuneração por tonelada recolhida para uma remuneração baseada em objetivos de redução dos volumes de resíduos domésticos residuais». E «a Veolia não considera, de forma alguma, o aumento dos volumes de resíduos como um objetivo ou uma situação desejável», escreve o seu serviço de imprensa.

«As intervenções centraram-se muito na valorização energética, em vez da redução na origem da produção de resíduos», descreve, no entanto, Stéphane Delautrette, deputado socialista da Haute-Vienne, que tinha aceitado presidir à edição de 2025 da Conferência Nacional sobre Resíduos Domésticos… embora tenha acabado por se arrepender.

«Não saí de lá a pensar que tinha sido a conferência do século. Não me tinha informado bem, não repeti a experiência este ano, tive a sensação de estar a servir de testa de ferro», recorda o deputado.


Almoço no Senado


Outro grupo de pressão é a Maison des eaux minérales naturelles, o sindicato profissional dos produtores de água engarrafada que representa marcas como a Evian e a Volvic. E também se dá a conhecer sempre que pode junto de parlamentares sensíveis à causa ecológica. Trata-se de um interveniente-chave, pois o objetivo da Lei Anti-Desperdício para uma Economia Circular, aprovada em 2020, é reduzir para metade, até 2030, o número de garrafas de plástico. No entanto, «estas terão aumentado 4 % entre 2021 e 2022», sublinha o relatório da Zero Waste France.

A 25 de setembro de 2025, na sua página do LinkedIn, o sindicato das águas minerais gabou-se de um «almoço de trabalho» que teve lugar no Senado dois dias antes, com foto à prova, com um lustre dourado no teto e garrafas de água de vidro para a ocasião, sobre uma toalha branca de uma grande mesa. A publicação exibe os nomes dos nove senadores presentes.

Almoço entre senadores e membros da Associação das Águas Minerais Naturais, a 25 de setembro de 2025. Captura de ecrã/Linkedin

Entre eles, Hervé Gillé, deputado socialista da Gironda, que defende sempre que pode «a redução da poluição na origem das garrafas de plástico que poluem os oceanos», como ele próprio nos diz. «Pelo menos são lobistas transparentes. Faz parte das interações habituais; não vejo qualquer problema em almoçar com eles, desde que seja claro, e ainda por cima no âmbito de uma reunião coletiva», justifica o deputado.

«Este tipo de almoço para prolongar as discussões é frequente», sublinha também Antoinette Guhl, senadora ecologista de Paris, relatora da missão de informação sobre o escândalo das águas engarrafadas contaminadas, que também esteve presente nesse dia.

O senador do Gard, Laurent Burgoa (Les Républicains), foi quem abriu de par em par as portas do Palácio do Luxemburgo e do elegante restaurante do Senado ao lóbi. Foi ele o impulsionador desta refeição, uma fórmula escolhida «para promover a convívio e a fluidez das nossas conversas», refere ele num e-mail.

Num segundo momento, o seu colaborador especifica que «para evitar qualquer mal-entendido e para que não haja qualquer ambiguidade do ponto de vista deontológico, o senhor senador esclarece que cada senador pagará pessoalmente o seu almoço». Momentos de convívio que aproximam: Laurent Burgoa é o autor de, pelo menos, oito alterações a favor do setor das embalagens ao longo do último ano.

Não respondeu às nossas perguntas, tal como a Maison des eaux minérales naturelles, que se limita a recordar que está «empenhada há mais de trinta anos na redução do consumo de plástico, graças à melhoria da circularidade das embalagens que utiliza». Insistindo na reciclagem, sempre e de novo.


Cocktail em Roland-Garros, um dos principais locais da «elegância dos eventos»


A 27 de agosto, no âmbito dos encontros do Movimento das Empresas de França (Medef), o sindicato dos produtores de plástico Polyvia aproveitou este grande encontro de empresários para organizar a sua mesa redonda, precisamente sobre o tema da reciclagem. A mesa redonda decorreu no auditório do prestigiado estádio Roland-Garros, um dos locais mais emblemáticos da «elegância dos eventos», tal como descrito no seu site.

A Polyvia tem capacidade para fazer as coisas em grande, com um orçamento de lóbi de 545 000 euros para 2025. Anne-Cécile Violland, deputada da Alta Saboia (Horizons e Independentes) e co-relatora de uma missão de informação sobre as organizações ambientais, foi convidada a intervir no palco.

«Não participei no cocktail, apenas na mesa redonda, que alimentou as nossas reflexões. A Polyvia faz um bom trabalho; o seu livro branco sobre o plástico, que foi apresentado nessa ocasião, é interessante e algumas das suas recomendações estão próximas das que iremos formular», afirma a relatora.

Outra perspetiva vem do deputado de Essonne, Bérenger Cernon, que acompanha estas questões em nome do partido «La France insoumise». «Como sempre, trata-se da clássica chantagem com o emprego, exercida sobre os eleitos para fazer valer os argumentos dos industriais, insinuando de forma simplista que reduzir os resíduos equivale a eliminar os postos de trabalho daqueles que se ocupam deles», comenta o deputado. Ele limitou-se, por curiosidade, a folhear o livro branco, sem olhar para o campo de ténis.


Por que razão os eleitos locais não têm interesse em reduzir os resíduos?


O lóbi do setor das embalagens esforça-se por esconder o problema da produção massiva de lixo por trás de uma solução falsamente mágica para continuar a produzir cada vez mais embalagens descartáveis: a reciclagem. No entanto, a maior parte do plástico não pode ter uma segunda vida: apenas pouco mais de um quarto das embalagens feitas deste material é reciclado em França.

Sandrine Le Feur, deputada do partido «Juntos pela República» (EPR), preside à Comissão do Desenvolvimento Sustentável e do Ordenamento do Território da Assembleia Nacional. Ela afirma que «os representantes locais acreditaram na mensagem que se impôs e, por isso, investiram maciçamente em fábricas de reciclagem de resíduos. Por isso, agora, têm interesse em que estas fiquem cheias, e não em que haja menos embalagens. O sistema está mal concebido». Nesta espiral, os eleitos locais e os seus interlocutores no Parlamento não teriam interesse em lutar contra o excesso de embalagens.

Aliás, Jean-François Husson, senador do partido Les Républicains, apresentou uma alteração contra o imposto sobre o plástico em 2025. «Leva anos a amortizar as instalações de tratamento de resíduos; por isso, se alterarmos as regras a meio do caminho e houver menos volume de resíduos, isso cria um problema», admite quem também foi vice-presidente da Grande Nancy, responsável pela gestão dos resíduos entre 2001 e 2014.

sábado, 10 de outubro de 2026

REFLEXÃO

COMO É QUE O LÓBI DO PLÁSTICO IMPÕE AS REGRAS NO PARLAMENTO
Rozenn Le Saint, Reporterre. Rev. O’Lima.

© Juan Mendez / Reporterre

As empresas investiram 2,5 milhões de euros para incentivar as autoridades públicas a abandonar medidas destinadas a reduzir a poluição, nomeadamente a causada pelo plástico, de acordo com um relatório inédito da Zero Waste France. O Reporterre teve acesso antecipado ao relatório e investigou os bastidores deste lóbi no Parlamento.

Sabíamos que o lóbi das embalagens era poderoso, mas não até este ponto. Gastou 2,5 milhões de euros em 2025 para combater a regulamentação francesa que visa acabar com o uso de produtos descartáveis.

Embora a lei «Antidesperdício para uma economia circular» (Agec) previsse uma redução de 20 % nas embalagens de plástico de uso único entre 2021 e 2025, a sua colocação no mercado tende a aumentar.

Entretanto, outros textos legislativos que teriam ajudado a reduzir o nosso consumo de plástico, como o imposto sobre o plástico, foram rejeitados em 2025. Por trás deste retrocesso ambiental está o peso do lóbi dos intervenientes do setor das embalagens, medido e documentado pela primeira vez graças aos dados do registo de representantes de interesses da Alta Autoridade para a Transparência na Vida Pública (HATVP), analisados pela Zero Waste France.

Entre eles encontram-se marcas que privilegiam o plástico nas suas embalagens, como a L’Oréal, mas sobretudo produtores de plástico, representados pela Plastalliance, Polyvia ou Elipso; por fim, os gigantes da reciclagem, como a Paprec, a Suez ou a Veolia.

A L’Oréal contra o imposto sobre o plástico

Na linha da frente, marcas muito conhecidas, que não estão dispostas a abandonar este material leve, prático, barato e que constitui um suporte de marketing ideal, como a L’Oréal, mobilizaram toda a sua força de impacto. O chefe da família Bettencourt Meyers e do grupo Nestlé tem trabalhado nos bastidores para que os interesses privados prevaleçam.

«Limitar o impacto financeiro de um novo imposto sobre o plástico para as empresas» — está escrito preto no branco como uma ação de influência exercida pela L’Oréal junto dos decisores públicos em 2025 e declarada no registo da HATVP.

Para se justificar, o líder do setor dos cosméticos garante à Reporterre que apoia «uma aplicação justa do princípio do poluidor-pagador e, nesse sentido, contribui para a Responsabilidade Alargada do Produtor (RAP) das embalagens domésticas. «Opusemo-nos à introdução de um novo imposto sobre o plástico que se sobreporia a este mecanismo». O imposto acabou por ser abandonado, marcando uma primeira vitória do lóbi do plástico em 2025. E não voltou a aparecer no projeto de lei das finanças para 2027.

As informações falsas do lóbi do plástico

Como é que o lóbi do plástico consegue atingir os seus objetivos? Em primeiro lugar, consegue minimizar o perigo que este material derivado do petróleo representa para o planeta através das federações que representam os seus produtores: a Plastalliance, a Polyvia e a Elipso.

Embora sejam desconhecidas do grande público, estão muito familiarizadas com os meandros do Parlamento. Trata-se do lóbi das embalagens mais ativo: estas três organizações multiplicaram as declarações de ações de influência junto da HATVP para preservar o direito dos seus membros a poluir.

Posteriormente, encontram apoiantes no Parlamento para sustentar as suas afirmações, como Vincent Louault, senador do partido Horizons por Indre-et-Loire. «A França não contribui para que os oceanos estejam imundos. Aquela história do canudo no nariz das tartarugas não cola. Perguntem à IA [inteligência artificial], ela dir-vos-á que a Europa é o continente que menos polui», diz o senador, porta-voz habitual da indústria do plástico.

A Zero Waste France lembra, no entanto, que o país produz o dobro do lixo em relação à média mundial. A organização denuncia também o «colonialismo dos resíduos», referindo que as nações ricas geram muito mais lixo e que, em 2021, a França exportou 800 000 toneladas de plástico.

No que diz respeito aos riscos para a saúde, «quando nos dizem que temos plástico nos testículos e no cérebro, isso são notícias falsas», afirma Vincent Louault, agricultor de profissão que se destacou pela luta pelo regresso dos pesticidas neonicotinóides. No entanto, os estudos existem.

Perante a câmara do programa «Complément d’enquête», ele próprio admitiu ter utilizado informações falsas para defender o acetamipride. E é também o conselheiro para a agricultura escolhido por Édouard Philippe (Horizons) para as eleições presidenciais de 2027, segundo a revista Contexte.

De qualquer forma, «os microplásticos estão presentes em todos os órgãos humanos», segundo um relatório do Gabinete Parlamentar de Avaliação das Escolhas Científicas e Tecnológicas, que se mostra preocupado com «correlações inquietantes entre a presença de plásticos e a alteração de certos órgãos, ou mesmo o aparecimento de patologias».

Para a direita, o plástico é fantástico

Apesar de tudo, em 2026, o slogan «O plástico é fantástico» continua atual para a Plastalliance: a federação da indústria do plástico escolheu-o para desejar um feliz ano novo em janeiro na rede social LinkedIn.

Questionado pela Reporterre, Joseph Tayefeh, secretário-geral da Plastalliance, congratula-se com as perspetivas de aumento da produção de plástico, apesar de esta ser criticada pelas ONG.

Os seus argumentos estão em forte sintonia com os que o senador de direita Vincent Louault repete constantemente. Joseph Tayefeh apela à sensibilidade das pessoas ao insistir nos «riscos de perda de postos de trabalho se os industriais franceses forem sujeitos a mais regras», sublinha o lobista. «Não sou apaixonado pelo plástico, mas luto contra tudo o que prejudica os interesses da indústria francesa», afirma Vincent Louault.

O presidente da Plastalliance admite «dialogar essencialmente com parlamentares centristas, de direita e de extrema-direita, os partidos que mais se interessam pelas questões industriais». «Os deputados de direita são os autores da imensa maioria das alterações a favor das embalagens», afirma, aliás, Marine Bonavita, responsável pela defesa de causas da Zero Waste France.

O slogan «O plástico é fantástico» foi escolhido pela Plastalliance para desejar um feliz ano novo de 2026 no LinkedIn. 
Captura de ecrã/LinkedIn

O segundo grupo de pressão do setor da transformação de plásticos, a Elipso, também agradece a Vincent Louault no LinkedIn, bem como a outra parlamentar, Manon Bouquin, que na altura era deputada e se tornou senadora a 27 de setembro, representando o Rassemblement National.

E isto, pela «sua presença e pelas suas intervenções sem rodeios» por ocasião da convenção anual da Elipso 2026. Ela não respondeu ao Reporterre, tal como a Elipso, nem o deputado da direita republicana Laurent Wauquiez, que lutou contra o imposto sobre o plástico.

Alterações elaboradas em conjunto com o lóbi do plástico

Quanto à Polyvia, o principal sindicato profissional da indústria francesa de transformação de plásticos, a Zero Waste France não conseguiu incluir no seu cálculo o orçamento que esta organização destinou em 2025 ao lóbi. E por uma boa razão: esse valor não consta do registo da HATVP. A Polyvia invoca um «problema técnico» e confessa um montante significativo, de 545 000 euros… Que se soma ainda à quantia revelada pela ONG.

Xavier Chastel, diretor-geral da Polyvia, defende-se, numa primeira fase, de que o seu grupo de empresas seja um grupo de pressão. No entanto, já tinha sido alvo de críticas por ter conduzido uma campanha publicitária controversa a favor do plástico.

E a Polyvia não hesita em contactar diretamente os legisladores, como aconteceu a 16 de outubro de 2025: num e-mail a que a Reporterre teve acesso, a federação «pede aos parlamentares que suprimam» a taxa sobre o plástico, pura e simplesmente.

Confrontado com o facto consumado, o empresário admite «estar em contacto com o gabinete do ministro da Ecologia e com os deputados», embora se defenda de «apresentar alterações». No seu e-mail, a Polyvia argumenta, no entanto, o seguinte: «A taxa prevista corre o risco de prejudicar significativamente a competitividade dos materiais plásticos, sem, por isso, melhorar o desempenho em termos de materiais e de reciclagem das embalagens».

O senador Vincent Louault ouviu bem o argumento, tendo retomado a argumentação da Polyvia numa das suas alterações. «Trabalho com as federações de profissionais, nomeadamente as do setor do plástico, que me transmitem alertas», admite o parlamentar. «Quando me parecem justificados, volto a contactá-las e redigimos em conjunto as alterações.»

«A indústria diz para si mesma: “Ótimo, conquistámos mais um para a nossa causa”»

Neste caso, apresentou 14 alterações em comissão e 10 em sessão plenária ao projeto de lei relativo a diversas disposições de adaptação ao direito da União Europeia, o segundo texto recente fundamental na batalha das embalagens. Deverá voltar a ser debatido no Parlamento em breve.

E numa publicação no LinkedIn, a Plastalliance não esconde que houve uma verdadeira co-elaboração da lei, ao dar conta de um encontro com Vincent Louault acompanhado da hashtag #ddadue. «Sou um dos únicos deputados a interessar-me pela indústria do plástico, por isso, inevitavelmente, a indústria pensa: “Ótimo, temos mais um do nosso lado”», comenta o legislador.

O lóbi dos industriais da embalagem sabe unir forças para defender os seus interesses nos bastidores do Parlamento. Também não hesita em tornar a sua imagem mais ecológica, recorrendo à imagem de representantes eleitos que, idealmente, tenham uma vocação ambientalista…

sábado, 3 de outubro de 2026

VOLTA OBRIGADO A APRESENTAR SOLUÇÕES PARA PROBLEMAS NA LIMPEZA URBANA

  • O Governo exigiu ao Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), conhecido como Volta, a apresentação de um plano de ação para responder aos problemas de limpeza urbana associados ao funcionamento do sistema. A proposta terá de ser entregue até 16 de outubro, depois de vários municípios terem manifestado preocupação com os efeitos da recolha de embalagens de bebidas nas ruas e nos equipamentos de deposição de resíduos. O plano solicitado pelo Governo deverá identificar medidas que possam avançar já, mas também apresentar uma estratégia para o curto, médio e longo prazo. Entre as exigências colocadas à SDR Portugal está a realização de um levantamento de boas práticas utilizadas noutros países europeus. Entre as medidas que terão de ser avaliadas encontram-se o reforço ou adaptação da rede de pontos de recolha, soluções especificamente concebidas para o espaço público, alterações operacionais e campanhas de sensibilização dirigidas aos consumidores. Na carta enviada à SDR Portugal, a ministra recorda ainda que a legislação e a licença atribuída à entidade gestora estabelecem deveres de cooperação entre a SDR Portugal, os municípios e as entidades responsáveis pela gestão dos sistemas de resíduos urbanos. O enquadramento existente prevê também responsabilidades de financiamento por parte da SDR Portugal relativamente aos custos de limpeza urbana associados às embalagens abrangidas pelo Sistema de Depósito e Reembolso. Segundo o Ministério do Ambiente e Energia, esses encargos incluem operações de manutenção e recolha de papeleiras, varredura, limpeza de praias, transporte e tratamento dos resíduos, nos termos previstos na legislação. Fonte.
  • Portugal soma 102 processos de infração perante Bruxelas: mais de um terço é em ambiente, energia e clima. Quercus.

REFLEXÃO

COMO O SISTEMA VOLTA TROCOU A CIDADANIA AMBIENTAL POR UM NEGÓCIO DE INTERESSES PRIVADOS


Portugal atravessa um momento paradoxal na sua política de resíduos. Por um lado, pressionado pelas ambiciosas metas comunitárias, no âmbito da Diretiva (UE) 2019/904, o país vê-se obrigado a acelerar a transição para uma economia circular. Por outro, a resposta encontrada pelo poder político revela uma rendição preocupante: em vez de aprofundar a literacia ambiental e reforçar os sistemas públicos de recolha seletiva, optou-se por um mecanismo de depósito e reembolso que apela ao mais primitivo dos instintos humanos, a ilusão do ganho monetário imediato. O sistema “Volta”, sob a gestão da entidade privada SDR Portugal, é a materialização dessa escolha.

O Decreto-Lei n.º 78/2022, de 26 de setembro, criou o regime jurídico do sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas não reutilizáveis. A gestão foi concessionada a uma entidade gestora única, a SDR Portugal, uma sociedade de direito privado, sem fins lucrativos, mas composta exclusivamente pelos agentes económicos que colocam embalagens no mercado: produtores, distribuidores e retalhistas. Entre os associados fundadores encontram-se pesos-pesados como a Coca‑Cola Europacific Partners, a Unicer (Super Bock), a Sociedade Central de Cervejas, a Nestlé Waters, bem como as grandes superfícies: Jerónimo Martins (Pingo Doce), Sonae (Continente), Auchan e Lidl.

Ora, o traço definidor de qualquer sistema de responsabilidade alargada do produtor (RAP) é a separação clara entre quem financia e quem fiscaliza. No Volta, porém, os mesmos operadores que geram as embalagens são simultaneamente os donos da entidade que define as regras de operação, o valor do depósito (10 cêntimos por embalagem), a densidade da rede de recolha e a comunicação pública. Este entrelaçamento gera um conflito estrutural: os produtores têm todo o incentivo para calibrar o sistema de modo a maximizar o retorno de imagem, minimizar os custos logísticos e capturar as embalagens de maior valor material, deixando o restante fluxo de resíduos e os seus custos, para a esfera pública.

Acresce que as embalagens sujeitas a depósito são precisamente as mais valiosas no mercado de recicláveis (PET e latas de alumínio). Ao retirá-las do circuito municipal, o sistema priva os serviços públicos de uma fonte de receita crítica, ao mesmo tempo que os mesmos acionistas da SDR Portugal beneficiam do valor material recuperado e das margens geradas pelas embalagens não devolvidas (depósitos não reclamados), que permanecem na esfera privada.

Durante décadas, a política ambiental portuguesa assentou, ainda que com insuficiências, num paradigma de cidadania responsável, educar para separar, internalizar a norma social da reciclagem e criar infraestruturas de proximidade (ecopontos, recolha porta‑a‑porta). Esse caminho, lento mas estruturante, está a ser abandonado em favor de um modelo que reduz o cidadão a um agente económico que só age perante um estímulo financeiro. A psicologia ambiental designa este fenómeno de efeito de crowding out: recompensas extrínsecas (os 10 cêntimos) podem minar a motivação intrínseca para comportamentos pró‑ambientais, sobretudo quando o incentivo é percebido como controlador e de baixo valor.

A realidade diária já confirma os receios. Multiplicam‑se as imagens de pessoas a vasculhar papeleiras em busca de garrafas com o símbolo “Volta”, numa espécie de economia informal de sobrevivência que degrada o espaço público. Ecopontos amarelos aparecem tombados, abertos à força, não por um ato de vandalismo gratuito, mas para aceder apenas às embalagens com depósito. Em termos sociológicos, o sistema está a criar uma nova categoria de “catadores urbanos”, empurrados para uma atividade que o discurso oficial disfarça de “reciclagem cidadã”, mas que não passa de uma resposta a um incentivo pecuniário desenhado para servir metas estatísticas.

É precisamente este o retrato de um país que desistiu da literacia ambiental. Em vez de aprofundar o conhecimento sobre os ciclos dos materiais, as interações ecológicas e a responsabilidade intergeracional, o Estado português sinaliza que o gesto ecológico só tem valor se for monetizado. Trocámos a cidadania por dez cêntimos. E, ao fazê‑lo, deixamos aos nossos filhos um legado de degradação do espaço público e de esvaziamento do sentido coletivo da sustentabilidade.

Um dos argumentos mais frágeis dos defensores do Volta é o de que o sistema complementará os esforços existentes, sem prejudicar a recolha seletiva tradicional. A evidência científica e a experiência comparada mostram o contrário. Vários estudos sobre sistemas de depósito em países como a Alemanha ou a Croácia revelam que a introdução de um SDR provoca um efeito de desvio, os cidadãos que antes separavam todas as embalagens no contentor amarelo passam a separar apenas as que possuem depósito, depositando as restantes (embalagens de iogurte, cuvetes e garrafões de PET, plásticos mistos) no lixo indiferenciado. Este efeito de seleção adversa diminui a qualidade e a quantidade dos materiais recolhidos nos ecopontos, comprometendo as metas de reciclagem globais e aumentando os custos de triagem.

Em Portugal, onde a recolha porta‑a‑porta e os sistemas de contentorização pública ainda lutam para atingir coberturas e taxas de captura satisfatórias, o Volta ameaça canibalizar exatamente o fluxo mais nobre que lhes conferia viabilidade económica. O resultado previsível será uma deterioração dos indicadores de reciclagem dos plásticos não‑depósito, precisamente aqueles que mais necessitam de redes estruturadas de recolha. A pressão para o cumprimento das metas comunitárias de reciclagem poderá, paradoxalmente, ser comprometida por uma medida que aparenta acelerá‑la.

Um dos aspetos menos discutidos na esfera pública é a dimensão financeira da transferência de competências, ou da ausência dela. A Lei n.º 75/2013 (Regime Jurídico das Autarquias Locais) atribui aos municípios a competência para a gestão dos resíduos urbanos. Contudo, os municípios portugueses, fragmentados e de reação tardia, não se coligaram a tempo de reivindicar ou de não permitir a operação do sistema de depósito como um serviço público municipal ou intermunicipal. Essa inação permitiu que a gestão fosse capturada pelo consórcio privado, privando as autarquias de receitas anuais que, nalguns casos, ascendem a milhões de euros precisamente aquelas que financiavam a recolha e o tratamento de outros fluxos, nomeadamente os resíduos indiferenciados.

A verdade incómoda é que os custos de recolha e tratamento dos resíduos urbanos não diminuirão com o Volta. As câmaras continuarão a suportar a recolha indiferenciada, as suas rotas, a sua triagem e embaçamento e o combate ao littering, agravado pelo comportamento oportunista que o sistema incentiva. Já as receitas da venda de materiais recicláveis sofrerão um colapso no segmento das embalagens de bebidas. O diferencial será pago por cada munícipe, via tarifas de resíduos, num fenómeno que os economistas ambientais descrevem como socialização de custos e privatização de benefícios.

Em suma, na minha modesta visão o sistema Volta não é um instrumento neutro de política ambiental, é uma escolha de sociedade. Ao colocar o depósito reembolsável nas mãos de um consórcio dominado pelos embaladores e pela grande distribuição, o Estado português transferiu um bem público, “a gestão de um fluxo estratégico de resíduos”, para entidades que não têm qualquer mandato democrático, mas que controlam a narrativa da “economia circular” enquanto expandem a sua influência. Ao reduzir o gesto ecológico a uma transação monetária de dez cêntimos, renunciou‑se ao projeto de formar cidadãos ambientalmente literatos, capazes de agir por dever e consciência, e não apenas por conveniência.

Sociologicamente, o que está em curso é uma regressão normativa, um recuo da interiorização de valores ambientais coletivos para um estado de heteronomia, em que o comportamento correto só ocorre perante um estímulo externo. O país que se orgulhava de ter transformado a reciclagem num hábito quotidiano arrisca‑se agora a ver as suas aldeias, vilas e cidades pontuadas por ecopontos vandalizados e por uma nova legião de “catadores” que, longe de qualquer preocupação ambiental, respondem apenas à lei do ganho imediato.

As metas europeias serão provavelmente atingidas no papel, contabilizando as toneladas que passam pelas máquinas de devolução instaladas nos hipermercados. Mas a pergunta que ninguém ousa fazer é: “a que custo social, territorial e moral?”

Quando a pressão dos grandes grupos embaladores se sobrepõe à pedagogia pública, quando o apelo ao instinto substitui a educação, e quando os municípios são remetidos ao papel de meros pagadores de um sistema que não controlam, o resultado não é um país mais sustentável. É um país que escolheu, deliberadamente, desistir de si mesmo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

REFLEXÃO

GAIA CONTESTA SISTEMA VOLTA E RECLAMA MUDANÇAS NA GESTÃO DOS RESÍDUOS


Câmara Municipal defende o fim do sistema de depósito e reembolso de embalagens e pede uma revisão da taxa associada à gestão dos resíduos.

A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia quer alterações na atual política de gestão de resíduos e reclama o fim do sistema Volta, que permite aos consumidores recuperar o depósito pago pela devolução de embalagens de bebidas.

Luís Filipe Menezes considera que o modelo adotado para incentivar a devolução de embalagens está a criar problemas no espaço público. Pretende-se agora que esta matéria seja reavaliada, defendendo-se uma solução que tenha em conta os custos municipais e os efeitos na higiene e limpeza dos espaços públicos. A autarquia de Gaia defende, por isso, uma alteração do modelo e também uma revisão da taxa aplicada aos resíduos, colocando em causa a forma como os municípios suportam os encargos associados à gestão e recolha.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

AVEIRO: BUGAS GRÁTIS NA PRIMEIRA HORA DE UTILIZAÇÃO

  • As Bicicletas de Utilização Gratuita de Aveiro (BUGA) passam a ter a primeira hora de utilização gratuita, mantendo-se a cobrança a partir da segunda hora, de acordo com o tarifário atualmente em vigor. Fonte.
  • “As pessoas remexem no lixo porque 10 cêntimos fazem diferença. E se 10 cêntimos fazem diferença, talvez o problema não esteja no contentor. Nem na garrafa. Nem sequer no Volta. Está num sistema económico e social onde há pessoas para quem aquilo que nós deitamos fora se transformou numa fonte de rendimento. A própria ministra reconhece, aliás, que estamos a falar de pobreza e de pessoas sem-abrigo que procuram nas garrafas “alguma forma de ter algum rendimento. (…) O Volta não criou a pobreza. Limitou-se a pôr-lhe um preço por garrafa.” Sérgio Alves.
  • Uma diretiva europeia que entrou em vigor a 27 de setembro proíbe inúmeras alegações que se enquadram no «greenwashing». A nova diretiva proíbe uma série de slogans e práticas frequentemente utilizados pelas empresas para se apresentarem como «ecológicas». Estes passarão a estar sujeitos a sanções por práticas comerciais enganosas. Em particular, já não será possível que um produto se apresente como «neutro em carbono». Doravante, essa alegação será proibida sempre que se baseie num mecanismo de compensação de emissões de carbono. Na prática, este mecanismo, de eficácia duvidosa, era sistematicamente invocado para sustentar essa suposta «neutralidade». Para além das alegações enganosas, deverá também haver uma revisão em profundidade no que diz respeito aos selos. Apenas os selos públicos (Bio, selo ecológico europeu, etc.) e os selos privados sujeitos a controlo por uma entidade certificadora independente (ou seja, os mais fiáveis) continuam a ser autorizados. Fonte.
  • Bristol é a primeira cidade britânica a proibir, nos seus suportes publicitários municipais, a publicidade ao pronto a vestir, aos SUV, aos voos, aos cruzeiros e às empresas ligadas aos combustíveis fósseis. Apesar de uma perda de receitas estimada em 80 000 libras por ano, a autarquia apresenta esta medida como uma forma de limitar a promoção de produtos com elevadas emissões e de incentivar modos de consumo com menor pegada de carbono. Fonte.
  • Em Aix-en-Provence, a autarquia está a reduzir ou a adaptar a iluminação noturna na zona da Torse e do Arco, para preservar os percursos da fauna, nomeadamente dos morcegos. Estão a ser testadas medidas como o desligar das luzes, a utilização de detetores de movimento, a redução da intensidade e a utilização de luz mais quente, embora o acompanhamento científico ainda seja demasiado recente para se poderem tirar conclusões definitivas. Fonte.
  • Barcelona investe 150 milhões de euros para transformar uma parte do seu litoral numa infraestrutura resiliente, recuando os enrocamentos e algumas obras de ordenamento, de modo a alargar as praias e a absorver melhor as tempestades e a subida do nível do mar. O projeto, que deverá criar 22 hectares de espaços públicos adaptados às ondas de calor e restaurar habitats marinhos, é finalista do Prémio Earthshot 2026. Fonte.
  • O Senado italiano aprovou uma lei que abre caminho para o regresso à energia nuclear, quase quatro décadas depois de o desastre de Chernobyl ter levado o país a abandonar a energia atómica. Fonte.
  • Na Coreia do Sul, a reciclagem de resíduos alimentares passou de 2,6 % em 1996 para cerca de 97 % em 2023, graças à separação seletiva obrigatória, à proibição do seu envio para aterros e aos contentores conectados. Nova Iorque inspira-se agora neste modelo, com a separação obrigatória dos resíduos orgânicos e mais de 400 pontos de compostagem, mas continua a enfrentar dificuldades em termos de participação. Fonte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SINES: ALGA INVASORA PREJUDICA PESCA MAS HÁ POTENCIAL INDUSTRIAL

  • Uma invasão da alga Rugulopteryx okamurae está a perturbar a biodiversidade marinha e a subsistência dos pescadores na região de Sines. A comunidade científica defende que a solução passa pela valorização económica desta alga. Atualmente, já existem projetos em Portugal para aplicar estas algas no setor agrícola, sendo necessário lavá-las previamente para remover o sal e utilizá-las como fertilizante direto. Há ainda o potencial industrial da espécie para a extração de coloides, óleos e carragenas. Estas substâncias podem ser aproveitadas tanto para a produção de rações animais como para a indústria alimentar humana. Fonte.
  • A Quercus emitiu um parecer desfavorável à Unidade de Produção de Biometano de Abrigada, no concelho de Alenquer, juntando-se à contestação da autarquia e da população local. O projeto apresenta fragilidades ambientais significativas, nomeadamente ao nível dos recursos hídricos, solos, emissões, odores e impactes sobre as populações. O projeto prevê a afetação direta de uma linha de água de primeira ordem e do domínio hídrico de uma linha de água de segunda ordem, além de um consumo anual de 20.091 metros cúbicos de água da rede pública. A associação defende que o projeto seja reformulado de forma a eliminar a afetação das linhas de água e a privilegiar fontes alternativas de água não potável, como a reutilização de águas residuais tratadas. Fonte.
  • A petição pública que exige o fim do sistema Volta, de devolução de embalagens, reuniu 37 mil assinaturas. O documento aguarda discussão no parlamento. Fonte.
  • A União Europeia decidiu continuar a exportar grandes volumes de resíduos plásticos para a Turquia, apesar de a sua própria avaliação admitir problemas ambientais e regulamentares significativos na forma como estes resíduos são tratados. A Turquia é o maior importador de resíduos plásticos da UE, tendo exportado 510 000 toneladas em 2025 — mais de um terço de todas as exportações de resíduos plásticos da UE. Apenas cerca de 10% destes resíduos são realmente reciclados na Turquia, acabando a maior parte em aterros sanitários, mal gerida ou a verter para o ambiente. Fonte.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

RAGUSA: RESÍDUOS PLÁSTICOS SOB AS DUNAS DE MACCONI

  • Em agosto de 2020, uma inspeção realizada pela Unidade Ambiental Marítima da Guarda Costeira — ordenada pelo então ministro do Ambiente, Sérgio Costa — revelou enormes quantidades de resíduos plásticos enterrados sob as dunas costeiras, em alguns locais a uma profundidade de até cinco metros. A maior parte dos resíduos provinha da agricultura em estufas, mas também incluía eletrodomésticos, postes de cimento e peças de barcos em fibra de vidro. Em janeiro de 2022, a Guarda Costeira apreendeu cerca de 62 000 m² de litoral ao longo de sete quilómetros de costa. O Ministério Público de Ragusa abriu um inquérito sobre a catástrofe ambiental, despejo ilegal de resíduos e ocupação ilegal de terrenos marítimos públicos, mas não garantiu a limpeza. Nos anos seguintes, registaram-se poucos progressos, tendo-se sabido posteriormente que os planos de limpeza não tinham avançado devido à falta de financiamento. Recentemente, soube-se que foi adjudicado um contrato de limpeza manual para cerca de um quilómetro de praia na zona de Macconi, com a duração de 38 dias úteis e um custo de 25 000 €. No entanto, esta medida aborda apenas os resíduos à superfície e abrange apenas uma fração do litoral afetado. Os resíduos enterrados ao longo de todo o troço permanecem intocados. Fonte.
  • A Roménia é líder na UE na combinação de energia solar e baterias. Fonte.
  • A COP17 da Convenção da ONU de Combate à Desertificação (UNCCD) terminou na 6ª feira (28/8) em Ulaanbaatar (Mongólia) sem resolver o principal item de sua agenda: a criação de um regime internacional para gestão das secas. Por conta de fortes divergências entre os países, a questão foi adiada para a COP18, que acontece em 2028, no Egito. Fonte.
  • Um juiz federal do Oregon confirmou a lei estadual de reciclagem do tipo «quem polui paga», rejeitando uma contestação judicial apresentada pela Associação Nacional de Grossistas e Distribuidores, alegando que a lei sobrecarrega injustamente o comércio interestadual e delega ilegalmente poderes governamentais a um grupo industrial privado (Circular Action Alliance). O juiz indeferiu a contestação argumentando que a lei trata os produtores do estado e de fora do estado de forma igualitária, pelo que não viola a Cláusula do Comércio, e que o grupo privado desempenha apenas um papel consultivo. A lei do Oregon entrou em vigor em janeiro de 2022 , exigindo que os produtores adiram a uma organização de responsabilidade do produtor e paguem taxas para cobrir os custos de reciclagem e eliminação dos seus produtos. Fonte.
  • Os defensores da agricultura sustentável alertam que as bactérias da salmonela encontradas nas aves de capoeira estão a aumentar as estirpes mais suscetíveis de causar doença, hospitalização e morte, e que essas bactérias estão também a tornar-se cada vez mais resistentes aos antibióticos. O relatório da Farm Forward surge um ano depois de o Departamento de Agricultura dos EUA ter eliminado uma regulamentação que visava impedir que aves de capoeira contaminadas com salmonela chegassem às prateleiras dos supermercados e envenenassem as pessoas. Fonte.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

REFLEXÃO

O VOLTA NÃO É CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA. É TRABALHO NÃO REMUNERADO DISFARÇADO DE VIRTUDE CÍVICA


Vendem-no como progresso, como sustentabilidade, como o velho chavão do "todos temos de fazer a nossa parte". Na prática, o esquema é simples: delegaram ao cidadão a recolha e a pré-triagem de resíduos — o trabalho que antes estava exclusivamente alocado a pessoas empregadas — a custo zero, e convenceram-no de que está a receber uma recompensa por isso.

Sejamos frontais sobre o que está em jogo: garrafas de plástico e latas são os resíduos mais valiosos de toda a cadeia de reciclagem. Em vez de a indústria aperfeiçoar a sua própria logística de recolha, transferiu a primeira linha desse trabalho para ti. É o cidadão quem agora armazena as garrafas em casa, as transporta, e opera a máquina de triagem — para entregar à indústria matéria-prima separada e pronta a facturar. Tudo isto para reaver dez cêntimos que já eram seus desde o início.

Porque é isso que ninguém diz em voz alta: não é uma recompensa, é uma caução adiantada. O consumidor paga primeiro, empresta esse dinheiro ao sistema sem juros, e depois tem de trabalhar — fazer fila, deslocar-se, operar a máquina — para reaver aquilo que já lhe pertencia. E quem não tem tempo para essa fila, quem não tem uma máquina Volta perto de casa, ou não tem mobilidade para lá chegar, simplesmente perde esse dinheiro. Não é uma opção neutra: é uma penalização financeira silenciosa para quem já tem menos tempo e menos meios.

E há ainda um sintoma mais revelador deste esquema: a febre que ele gerou. Já se vêem pessoas a vasculhar caixotes de lixo à procura de garrafas, convencidas de que encontraram uma fonte de rendimento. É a prova mais clara de que o sistema foi vendido com sucesso — não como um dever cívico discreto, mas como uma oportunidade de negócio ao alcance de qualquer um. Só que fazer as contas a sério mostra o óbvio: recolher garrafas do lixo, a dez cêntimos cada, para "ganhar dinheiro", é o tipo de matemática que só faz sentido a quem não parou para calcular quanto vale, de facto, o seu tempo. Não é empreendedorismo. É a prova de como uma ideia bem embrulhada em linguagem verde consegue fazer parecer lucrativo aquilo que, isolado do discurso, seria reconhecido de imediato como trabalho precário e mal pago.

Enquanto isto, o custo de vida não pára de subir. A água sobe de preço, os produtos sobem de preço, de forma consistente — e ninguém pára para perguntar: se o processo se tornou assim tão eficiente e circular, porque é que essa poupança nunca chega ao bolso de quem faz o trabalho manual? A resposta é simples e desconfortável: isto nunca foi sobre o ambiente. Foi sobre cortar custos operacionais e apresentar esse corte como participação cívica.

O mecanismo segue a mesma cartilha dos caixas automáticos de supermercado: transfere-se a função para o cliente sob o pretexto da "modernidade" e protege-se a margem de lucro sem qualquer desconto real para quem consome. Antigamente havia gente empregada a tratar plástico. Esse trabalho não desapareceu mas agora também é teu.

O sistema apropria-se do vocabulário verde — economia circular, pegada ecológica, responsabilidade — para erguer um biombo ético inatacável, onde ninguém se atreve a questionar o que está por trás da cortina. E por trás dela, o saldo é claro: mais tarefas não pagas exigidas ao cidadão comum, penalização para quem não tem tempo, um exército de pessoas a vasculhar lixo por cêntimos e sabe-se lá o que acontecerá mais lá à frente.

Não é altruísmo. É greenwashing para totós.

sábado, 29 de agosto de 2026

REFLEXÃO

DEIXEI DE COMPRAR PURA E SIMPLESMENTE
Pedro Filipe.



Por cada garrafa ou lata, tiram-te 10 cêntimos do bolso.
Faz as contas comigo:

Num simples pack de seis águas, pagas mais 60 cêntimos à cabeça.
Levas dois packs? São mais 1,20 € que ficam retidos.
Dinheiro teu.
Dizem que é pela ecologia, mas a verdade é que acabaste de ser recrutado como operário não pago das grandes superfícies.
Primeiro, vão entulhar-te a casa.
Estás proibido de esmagar as garrafas.
Vais ter sacos enormes a ocupar a cozinha, porque a máquina “inteligente” recusa plástico comprimido.
Depois, vais carregar lixo e perder tempo em filas humilhantes, só para mendigar o dinheiro que já era teu.
E o golpe de mestre?
O reembolso vem num pedaço de papel.
Tiram-te dinheiro vivo da carteira e devolvem-te um talão que te obriga a gastar o dinheiro na loja deles.
O teu dinheiro deixou de ser livre.
Agora é um vale de consumo refém do supermercado.
Milhões de euros em depósitos nunca vão ser devolvidos.
Entre talões perdidos e pessoas que desistem das filas, o sistema lucra com o teu cansaço.
Isto não é salvar o planeta.
É usar o teu esforço, o teu espaço e o teu dinheiro para financiar a logística dos outros.
Vais mesmo aceitar trabalhar de graça?


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

REINO UNIDO: INCÊNDIOS CAUSADOS POR BATERIAS NOS CENTROS DE RECICLAGEM CUSTAM MIL MILHÕES DE LIBRAS POR ANO

  • Estão a ocorrer mais de 10 incêndios por semana em centros de reciclagem, causados por pilhas de lítio descartadas de forma incorreta, como as encontradas nos cigarros eletrónicos. Os especialistas afirmam que o grande volume de incêndios provocados por pilhas que se verifica atualmente nas instalações de tratamento de resíduos atingiu uma situação de crise que está a colocar vidas em risco, a custar mil milhões de libras por ano e a frustrar os responsáveis pelos bombeiros. Fonte.
  • Mais de 50 preguiças morreram numa atração de vida selvagem na Flórida. A investigação descreve animais emaciados e desidratados e levanta preocupações sobre as operações do Sloth World, mas concluiu que não havia provas de negligência ou abuso de natureza criminal. Fonte.
  • Toneladas de algas tóxicas obstruem as praias das Caraíbas. Fonte.
  • A EDF comunicou 36 incidentes ocorridos nas instalações entre 1 de janeiro de 2025 e maio de 2026 à Autoridade de Regulação Nuclear na sua central nuclear de Hartlepool, Inglaterra, carvque se encontra sob uma atenção regulatória «significativamente reforçada». Fonte.
  • Roménia volta a colocar em funcionamento central a carvão, à medida que a seca no Danúbio obriga ao encerramento de centrais nucleares. Fonte.

domingo, 23 de agosto de 2026

RENOVÁVEIS ASSEGURARAM MAIS DE DOIS TERÇOS DA ELETRICIDADE EM JULHO

Açores, Geotermia
  • 70,5% da eletricidade produzida em Portugal Continental teve origem em fontes renováveis. A energia solar fotovoltaica liderou a produção de eletricidade, representando 25,8% do total do mix de geração e a hídrica ocupou a segunda posição, com 21%, seguida de perto pela energia eólica, com 17,7%. Analisando o acumulado dos primeiros sete meses do ano (janeiro a julho de 2026), a incorporação renovável na produção elétrica alcançou os 75%, atrás da Noruega (97,3%), da Dinamarca (94,3%) e da Áustria (78,9%). Nos Açores, a incorporação renovável situou-se nos 31,5% do total gerado durante o mesmo período, tendo a energia geotérmica sido responsável por 18,8% da produção, seguida pela tecnologia eólica com 7,8%. Na Madeira, a eletricidade de origem renovável representou 46,1% da geração elétrica acumulada nos primeiros seis meses do ano. As tecnologias que mais contribuíram para este valor no arquipélago foram a hídrica (19,5%) e a eólica (16,7%). Fonte.
  • Grande parte do que é rotulado como “reciclagem de painéis solares” nos EUA é, na verdade eliminação de painéis em aterros sanitários dentro dos EUA, frequentemente após processamento mínimo, transferência da produção de painéis para países com deficiente fiscalização ambiental, reciclagem de baixo valor (recuperação apenas de materiais de baixo valor) em vez da reciclagem propriamente dita e informações enganosas por parte de empresas que alegam elevadas taxas de reciclagem que não correspondem à realidade. Fonte.
  • O vice-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia recuou na intenção anunciada de vedar o jardim quase centenário, controlar as entradas e fechá-lo à noite. Derrotado pela contestação, Firmino Pereira diz agora que “foi só uma ideia pessoal”. Fonte.
  • Mais de 75 % das zonas húmidas do Reino Unido foram destruídas – a sua recuperação ajudaria a prevenir incêndios florestais. Fonte.

sábado, 1 de agosto de 2026

REFLEXÃO

PETIÇÃO PELO FIM DO SISTEMA “VOLTA” E PELA CRIAÇÃO DE UM MODELO JUSTO DE GESTÃO DE EMBALAGENS

Nós, cidadãos abaixo-assinados, vimos por este meio exigir ao Governo da República Portuguesa, à Assembleia da República e à Agência Portuguesa do Ambiente a suspensão imediata do sistema de depósito e reembolso “Volta” e a sua substituição por um modelo transparente, justo e verdadeiramente ambiental.

1. O sistema atual transfere custos das empresas para os consumidores. O sistema “Volta” foi apresentado como uma medida ambiental, mas na prática:
• Obriga o consumidor a adiantar dinheiro para financiar a logística das empresas.
• Impõe ao cidadão o trabalho de armazenar, transportar e entregar embalagens.
• Faz recair sobre o consumidor o risco de perda do depósito, mesmo quando a falha é do sistema.
Este modelo constitui uma externalização encapotada de custos, beneficiando produtores e distribuidores à custa da população.

2. A própria entidade gestora prevê que apenas 40% das embalagens serão devolvidas. A SDR Portugal, associação privada que gere o sistema, admite que só 40% das embalagens serão devolvidas. Isto significa que:
• 60% dos depósitos pagos pelos consumidores nunca serão recuperados.
• O sistema fica com milhões de euros provenientes de depósitos não reclamados.
• Quanto menos eficaz for o sistema, mais dinheiro sobra para a entidade gestora.
Este mecanismo cria um incentivo perverso e é incompatível com princípios de justiça económica e transparência.

3. O consumidor é responsabilizado por falhas que não controla. O sistema exige que as embalagens estejam:
• intactas
• com código de barras legível
• com forma reconhecível pelas máquinas
Contudo:
• As máquinas rejeitam embalagens sem explicação clara.
• Não existe um mecanismo simples e acessível de reclamação do depósito perdido.
• Não há alternativa para embalagens rejeitadas, mesmo quando o erro é do sistema.
O cidadão fica desprotegido, sem garantia de reembolso e sem via de recurso eficaz.

4. Falta de transparência sobre quem lucra com o sistema. A entidade gestora é composta por empresas privadas do setor das bebidas e do retalho, que:
• colocam as embalagens no mercado
• definem as regras do sistema
• beneficiam dos depósitos não reclamados
• reduzem custos de gestão de resíduos
• cumprem metas ambientais sem esforço real
Este modelo concentra poder e benefícios num grupo restrito de empresas, sem escrutínio público adequado.

5. O sistema não cumpre o objetivo ambiental anunciado. Um sistema ambiental deve:
• reduzir resíduos
• aumentar a reciclagem
• promover responsabilidade dos produtores
• ser acessível e justo para todos
O sistema “Volta” falha em todos estes pontos, criando barreiras, custos e injustiças que descredibilizam a política ambiental e prejudicam a confiança dos cidadãos.

Exigimos:
1. Suspensão imediata do sistema “Volta” nos moldes atuais.
2. Auditoria independente ao modelo financeiro, operacional e ambiental da SDR Portugal.
3. Criação de um sistema alternativo baseado em:• responsabilidade efetiva dos produtores
• transparência total
• proteção dos consumidores
• incentivos ambientais reais

4. Garantia de que nenhum depósito pago pelo consumidor pode ser apropriado pela entidade gestora.

5. Implementação de soluções que não penalizem economicamente os cidadãos, como:• recolha porta-a-porta
• reforço dos ecopontos inteligentes
• sistemas de responsabilidade alargada do produtor sem depósito obrigatório

Pelo fim de um sistema injusto.
Pela defesa dos consumidores.
Por uma política ambiental séria, transparente e eficaz.