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terça-feira, 22 de setembro de 2026

REFLEXÃO

BP TENTA TRUQUES PARA IMPOR CENTRAL FOTOVOLTAICA EM CASTELO BRANCO

Fonte: Lightsource bp
  1. A consulta pública da mega-central Sophia teve 12 693 participações com apenas 123 favoráveis ao projecto. O parecer negativo fundamenta-se na fraca compatibilidade do projeto com os princípios da sustentabilidade ambiental, do ordenamento do território e da justiça territorial, bem como uma desproporção entre os benefícios energéticos expectáveis e a magnitude, extensão e dos impactes cumulativos identificados.
  2. A apropriação abusiva do nome da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen denota uma chocante falta de respeito. Trata-se de uma técnica antiga, que consiste em vestir um empreendimento económico com a roupagem afetiva de um imaginário coletivo para que a simpatia dedicada ao símbolo se transfira, por contiguidade, ao projeto.
  3. A presença do apresentador Jorge Gabriel para as sessões de apresentação do projeto desloca o foco das sessões – de cariz supostamente técnico e científico – para o espetáculo televisivo de entretenimento apelando ao afeto e à emoção, inibindo a razão e o pensamento crítico.
  4. Em relação à Luz Partilhada (LP) a Quercus considera que se trata de um novo negócio disfarçado de compensação às populações, o que pode criar condições para instalar novas centrais que escapam à Avaliação de Impacto Ambiental. Se não, vejamos: operacionalizada pela Enermatch e financiada pela LBP, esta iniciativa promete energia elétrica a baixo custo que virá de uma Comunidade de Energia Renovável (CER). Esta terá por base novas centrais a instalar em Idanha-a-Nova, Penamacor e Fundão, com dimensão e localização ainda desconhecidas. A Enermatch não tem projetos de CER em Portugal , onde opera desde Junho de 2026 na área do desenvolvimento de software. Mas, mesmo sem experiência registada nesta área, vai assumir a função de Entidade Gestora do Autoconsumo Coletivo (EGAC). Ora esta entidade é o coração da CER, assumindo a responsabilidade jurídica, operacional e financeira em nome dos consumidores que agrega. Estes irão celebrar um contrato, com duração desconhecida, com a Enermatch mas mantendo o contrato com o comercializador anterior (p. ex. EDP, Endesa, etc). Ou seja, passarão a ter dois contratos de energia elétrica a troco de uma poupança mensal insignificante e com a probabilidade de um acréscimo de custo. Esta reformulação, ao contrário do que a LBP afirma e é público, não surgiu de um “processo de escuta ativa realizado no território, que envolveu cidadãos, autarquias, associações, entidades públicas e outros interlocutores locais” e merece novamente 12.570 NÃOS.
  5. O projeto reformulado será apreciado em nova consulta pública e durante apenas 10 dias. 

Para uma ideia sumária do que é a BP, veja este video: BP, um legado de ganância, escândalos, desastres ambientais e lavagem verde.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

REFLEXÃO

QUANDO AS EMPRESAS DO SETOR DO PLÁSTICO ELABORAM OS PLANOS DE AULA

A indústria do plástico está a oferecer às escolas programas curriculares que apresentam os plásticos como seguros, recicláveis e uma fonte de bons empregos. Os críticos afirmam que se trata de propaganda.

Joseph Winters, Grist. Rev. O’Lima.

Nic Antaya / The Washington Post via Getty Images

Este outono, 54 milhões de alunos do ensino básico e secundário regressam às salas de aula para mais um ano de aulas nas disciplinas tradicionais: matemática, inglês, história e biologia. Mas há outra disciplina que tem vindo a infiltrar-se nos programas escolares: os plásticos.

Um novo relatório da organização sem fins lucrativos Plastic Pollution Coalition documenta as várias formas como a indústria do plástico tem vindo a introduzir a sua agenda nas salas de aula norte-americanas — incluindo, através de planos de aula e fichas de trabalho, experiências científicas práticas e um programa chamado «PlastiVan», que viaja de cidade em cidade a ensinar os alunos sobre «a contribuição dos plásticos para a vida moderna».

De acordo com o relatório, os interesses da indústria disponibilizam estes recursos aos professores gratuitamente ou a preços reduzidos. Os materiais tendem a destacar a necessidade dos plásticos, ao mesmo tempo que minimizam os seus efeitos negativos significativos para a saúde humana e para o ambiente.

«Quando essa informação é transmitida às crianças, obscurece os verdadeiros impactos da poluição por plástico», afirmou Madison Dennis, gestora sénior de políticas e defesa da Plastic Pollution Coalition e uma das principais autoras do relatório. Além de prejudicar a vida marinha, os plásticos podem expor as pessoas a substâncias químicas perigosas, obstruir as redes de pluviais e contribuir para inundações, bem como libertar gases com efeito de estufa que aquecem o planeta. A organização de Dennis apela à adoção de políticas escolares mais rigorosas contra a utilização de materiais didáticos patrocinados pela indústria.

O relatório apresenta quatro estudos de caso sobre a «propaganda» da indústria do plástico dirigida a crianças em idade escolar. Um deles envolve a Sociedade de Engenheiros de Plásticos (SPE). Os planos de aula da SPE incluem atividades como uma «caça ao tesouro do plástico», que visa que os alunos «compreendam que os plásticos estão em todo o lado e a sua importância para a sociedade e para a sua vida pessoal». Um vídeo intitulado «A tua garrafa significa empregos» explica como a reciclagem de plásticos contribui para o emprego local.

Outro estudo de caso destaca a Associação Americana de Professores de Química, uma iniciativa da Dow Chemical Company. Um dos planos de aula da associação ensina alunos do ensino básico e secundário a comparar a resistência de vários tipos de sacos de plástico que podem ser encontrados numa mercearia. Após uma breve experiência, a aula convida-os a «fingir que são funcionários da Dow Chemical Company» e que estão a conceber um saco de plástico para um cliente.

Eve Vitale, diretora executiva da Fundação SPE, numa sala de aula da Escola Secundária Warren Mott, no Michigan, em 2024. O programa PlastiVan da SPE percorre escolas por todo o país para ensinar às crianças a ciência por trás dos plásticos e despertar o interesse numa futura carreira neste setor. Nic Antaya / The Washington Post via Getty Images

Embora muitos desses materiais afirmem apoiar os objetivos de aprendizagem das disciplinas STEM, fazem-no ao mesmo tempo que promovem argumentos habituais da indústria, enfatizando a acessibilidade e a segurança dos plásticos. Alguns reconhecem a poluição por plásticos como um problema grave, mas atribuem a culpa a comportamentos irresponsáveis dos consumidores e, em vez de recomendarem que se produza menos plástico, propõem o aumento da reciclagem como a principal forma de o resolver.

Na realidade, apenas 9% de todos os plásticos são reciclados a nível mundial, e os cientistas têm alertado repetidamente que a reciclagem não conseguirá acompanhar o crescimento previsto na produção de plástico. Reportagens de investigação revelaram que os grupos da indústria sabiam disto há décadas, mas promoveram a reciclagem na mesma, a fim de acalmar a crescente preocupação com a poluição por plástico.

Wendy Johnson, especialista em ensino de ciências do Centro Nacional para o Ensino das Ciências, afirmou que os planos de aula e as fichas de trabalho da indústria não refletem uma boa pedagogia. Os materiais que afirmam estar alinhados com os padrões estaduais de STEM não especificam quais os padrões que apoiam, nem de que forma estão alinhados. Os planos de aula instruem os alunos a ler as notas dos professores ou enumeram termos de vocabulário específicos da indústria, como «moldagem por sopro com estiramento» ou «termoendurecimento».

«Ao utilizar todos estes termos técnicos, está-se a induzir as pessoas a pensar… que estão a fazer ciência», disse Johnson à Grist. O que os materiais realmente ensinam, afirmou ela, são «perspetivas ideológicas sobre a economia», como a conveniência de bens de consumo baratos.

«A ideia não é ensinar», acrescentou Johnson, mas sim introduzir os argumentos da indústria nas salas de aula. O relatório documenta como a propaganda da indústria do plástico tem vindo a infiltrar-se nas escolas, pelo menos desde a década de 2000. Entre 2009 e 2011, por exemplo, uma associação do setor dos plásticos exerceu pressão sobre o Departamento de Educação da Califórnia para que fosse adicionada uma secção sobre «As vantagens dos sacos de compras» aos manuais escolares do ensino secundário do estado. A iniciativa PlastiVan está em curso desde 2011, e a SPE afirma que já chegou a mais de 132 000 alunos no total.

A Plastic Pollution Coalition sugere que o problema é particularmente grave nas escolas situadas perto de instalações petroquímicas. No Condado de Beaver, na Pensilvânia, por exemplo, a Shell opera um complexo de produção de plásticos e investiu milhões de dólares no desenvolvimento de programas curriculares relacionados com os plásticos e de programas de reciclagem, tanto para alunos do ensino básico como para estudantes de faculdades. Também doou centenas de mochilas cheias de material escolar e ofereceu a uma escola um campo de basquetebol — aparentemente em troca da integração da reciclagem de plásticos no currículo.

A Shell não respondeu ao pedido de comentário da Grist. O mesmo aconteceu com a SPE, a Associação Americana de Professores de Química, e com o distrito escolar do Condado de Beaver.

O relatório sugere a existência de um problema mais vasto no ensino das disciplinas STEM nas escolas públicas dos EUA. Os professores carecem frequentemente do tempo e dos recursos financeiros necessários para conceber os seus próprios programas curriculares ou para adquirir materiais e planos de aula de alta qualidade, indispensáveis para as experiências laboratoriais em sala de aula ou para projetos científicos. Quando grupos de interesses se apresentam a oferecer apoio — quer se trate da indústria do tabaco, da indústria da comida de plástico, da indústria dos pesticidas ou da indústria dos combustíveis fósseis —, pode ser difícil recusar.

«Como professora, estou sempre à procura de materiais gratuitos», afirmou Suzie Hicks, uma educadora ambiental do ensino básico (do jardim de infância ao 8.º ano) na Califórnia, que prestou consultoria no relatório da Plastic Pollution Coalition. Hicks referiu que a sua formação e experiência permitem-lhe avaliar com facilidade se os materiais contêm «greenwashing» — mas provavelmente não é esse o caso da maioria dos professores.

Dennis recomendou que os agrupamentos escolares adotassem políticas que proibissem materiais educativos patrocinados pelas indústrias química, dos combustíveis fósseis e do plástico. Ela também sublinhou a necessidade de um melhor financiamento escolar de forma mais geral, para que os professores e os municípios não fiquem tão desesperados por materiais didáticos prontos a usar.

Uma forma de alcançar este objetivo seria eliminar os benefícios fiscais concedidos às instalações de processamento petroquímico e de produção de plásticos, que privam as comunidades de recursos financeiros tão necessários.

Katie Allen, diretora executiva da Algalita, uma organização ambiental sem fins lucrativos sediada na Califórnia que desenvolve materiais educativos sobre a poluição por plástico, contestou a ideia de que as escolas devam proibir todo o conteúdo patrocinado pela indústria.

«Quando se começa a proibir uma coisa, onde é que isso acaba? O que eu quero é dar aos educadores o benefício da dúvida e permitir que tomem as suas próprias decisões», disse. Defendeu que se deve confiar nos professores para contextualizarem adequadamente os materiais da indústria — e que estes poderiam até utilizá-los para ensinar competências de pensamento crítico.

Dito isto, há muitos materiais educativos sobre plásticos desenvolvidos por fontes não ligadas à indústria. A Algalita, por exemplo, disponibiliza planos de aula gratuitos sobre temas como as ilhas de lixo plástico nos oceanos e a biomagnificação — o fenómeno em que os plásticos se acumulam no interior dos animais marinhos à medida que se sobe na cadeia alimentar. A The Story of Stuff, outra organização sem fins lucrativos, oferece um currículo mais abrangente para o ensino secundário, centrado nos custos e nas consequências da produção de bens de consumo — incluindo os fabricados a partir de plásticos.

Esses materiais didáticos continuam a provir de organizações com uma agenda própria. No entanto, Hicks argumentou que são mais fiáveis, uma vez que as organizações sem fins lucrativos normalmente não estão a tentar vender nada.

Outra opção é os professores simplesmente conceberem os seus próprios programas curriculares. Foi isso que Jacqueline Omania, uma professora do ensino básico recentemente aposentada em Berkeley, na Califórnia, fez em 2015. Transformou a sua sala de aula num laboratório «zero resíduos» e, todos os anos, durante 11 anos, Omania e os seus alunos desenvolveram um conjunto de acordos de «zero resíduos» para a sala de aula, comprometendo-se a minimizar o uso de plástico — por exemplo, trocando os tubos de cola individuais por um recipiente comum de cola —, ao mesmo tempo que defendiam mudanças mais sistémicas, como a campanha a favor de uma política que obrigasse os restaurantes de Berkeley a deixar de distribuir talheres de plástico descartáveis.

«Há muitos desafios no mundo, mas o plástico é algo tangível», afirmou Omania. «Está mesmo ali à frente deles, e conseguem ver a diferença que estão efetivamente a fazer através das suas ações.»

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

REFLEXÃO

O VOLTA NÃO É CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA. É TRABALHO NÃO REMUNERADO DISFARÇADO DE VIRTUDE CÍVICA


Vendem-no como progresso, como sustentabilidade, como o velho chavão do "todos temos de fazer a nossa parte". Na prática, o esquema é simples: delegaram ao cidadão a recolha e a pré-triagem de resíduos — o trabalho que antes estava exclusivamente alocado a pessoas empregadas — a custo zero, e convenceram-no de que está a receber uma recompensa por isso.

Sejamos frontais sobre o que está em jogo: garrafas de plástico e latas são os resíduos mais valiosos de toda a cadeia de reciclagem. Em vez de a indústria aperfeiçoar a sua própria logística de recolha, transferiu a primeira linha desse trabalho para ti. É o cidadão quem agora armazena as garrafas em casa, as transporta, e opera a máquina de triagem — para entregar à indústria matéria-prima separada e pronta a facturar. Tudo isto para reaver dez cêntimos que já eram seus desde o início.

Porque é isso que ninguém diz em voz alta: não é uma recompensa, é uma caução adiantada. O consumidor paga primeiro, empresta esse dinheiro ao sistema sem juros, e depois tem de trabalhar — fazer fila, deslocar-se, operar a máquina — para reaver aquilo que já lhe pertencia. E quem não tem tempo para essa fila, quem não tem uma máquina Volta perto de casa, ou não tem mobilidade para lá chegar, simplesmente perde esse dinheiro. Não é uma opção neutra: é uma penalização financeira silenciosa para quem já tem menos tempo e menos meios.

E há ainda um sintoma mais revelador deste esquema: a febre que ele gerou. Já se vêem pessoas a vasculhar caixotes de lixo à procura de garrafas, convencidas de que encontraram uma fonte de rendimento. É a prova mais clara de que o sistema foi vendido com sucesso — não como um dever cívico discreto, mas como uma oportunidade de negócio ao alcance de qualquer um. Só que fazer as contas a sério mostra o óbvio: recolher garrafas do lixo, a dez cêntimos cada, para "ganhar dinheiro", é o tipo de matemática que só faz sentido a quem não parou para calcular quanto vale, de facto, o seu tempo. Não é empreendedorismo. É a prova de como uma ideia bem embrulhada em linguagem verde consegue fazer parecer lucrativo aquilo que, isolado do discurso, seria reconhecido de imediato como trabalho precário e mal pago.

Enquanto isto, o custo de vida não pára de subir. A água sobe de preço, os produtos sobem de preço, de forma consistente — e ninguém pára para perguntar: se o processo se tornou assim tão eficiente e circular, porque é que essa poupança nunca chega ao bolso de quem faz o trabalho manual? A resposta é simples e desconfortável: isto nunca foi sobre o ambiente. Foi sobre cortar custos operacionais e apresentar esse corte como participação cívica.

O mecanismo segue a mesma cartilha dos caixas automáticos de supermercado: transfere-se a função para o cliente sob o pretexto da "modernidade" e protege-se a margem de lucro sem qualquer desconto real para quem consome. Antigamente havia gente empregada a tratar plástico. Esse trabalho não desapareceu mas agora também é teu.

O sistema apropria-se do vocabulário verde — economia circular, pegada ecológica, responsabilidade — para erguer um biombo ético inatacável, onde ninguém se atreve a questionar o que está por trás da cortina. E por trás dela, o saldo é claro: mais tarefas não pagas exigidas ao cidadão comum, penalização para quem não tem tempo, um exército de pessoas a vasculhar lixo por cêntimos e sabe-se lá o que acontecerá mais lá à frente.

Não é altruísmo. É greenwashing para totós.

sábado, 29 de agosto de 2026

REFLEXÃO

DEIXEI DE COMPRAR PURA E SIMPLESMENTE
Pedro Filipe.



Por cada garrafa ou lata, tiram-te 10 cêntimos do bolso.
Faz as contas comigo:

Num simples pack de seis águas, pagas mais 60 cêntimos à cabeça.
Levas dois packs? São mais 1,20 € que ficam retidos.
Dinheiro teu.
Dizem que é pela ecologia, mas a verdade é que acabaste de ser recrutado como operário não pago das grandes superfícies.
Primeiro, vão entulhar-te a casa.
Estás proibido de esmagar as garrafas.
Vais ter sacos enormes a ocupar a cozinha, porque a máquina “inteligente” recusa plástico comprimido.
Depois, vais carregar lixo e perder tempo em filas humilhantes, só para mendigar o dinheiro que já era teu.
E o golpe de mestre?
O reembolso vem num pedaço de papel.
Tiram-te dinheiro vivo da carteira e devolvem-te um talão que te obriga a gastar o dinheiro na loja deles.
O teu dinheiro deixou de ser livre.
Agora é um vale de consumo refém do supermercado.
Milhões de euros em depósitos nunca vão ser devolvidos.
Entre talões perdidos e pessoas que desistem das filas, o sistema lucra com o teu cansaço.
Isto não é salvar o planeta.
É usar o teu esforço, o teu espaço e o teu dinheiro para financiar a logística dos outros.
Vais mesmo aceitar trabalhar de graça?


sábado, 25 de julho de 2026

REFLEXÃO

A FRAUDE DO GÁS NATURAL «LIMPO».
COMO AS GRANDES EMPRESAS DO PETRÓLEO E DO GÁS CRIARAM O MITO DE QUE O GÁS NATURAL É UMA SOLUÇÃO PARA O CLIMA.
Rebecca John, Rebecca Leber, Davis Allen – Center for Climate Integrity. Rev. O’Lima.


A indústria do gás sabia já em 1907 que o gás natural era uma fonte de problemas respiratórios quando queimado em espaços fechados e, na década de 1950, sabia que o gás causava problemas no ar exterior. A partir da década de 1960, a indústria do petróleo e do gás tomou conhecimento de outra ameaça — estudos científicos emergentes revelaram que o gás natural era um contribuinte potencialmente significativo para o metano na atmosfera. À medida que as empresas e os seus representantes acompanhavam de perto os desenvolvimentos científicos sobre o metano, o nome químico do gás natural, também descobriram que se tratava de um potente gás com efeito de estufa e prejudicial para o clima.

A indústria do gás ignorou estes avisos. Sabendo que a expansão do gás natural criaria poluição atmosférica e aumentaria os níveis atmosféricos tanto de metano como de dióxido de carbono, trabalhou para minimizar estas preocupações, posicionar o gás como a alternativa limpa e amiga do clima ao carvão e concretizar uma ambição que transformaria o gás natural de um combustível marginal numa força motriz do setor energético.

As empresas de gás conceberam a primeira campanha estratégica na década de 1970 para promover o gás natural como um combustível limpo, patrocinando e promovendo as suas próprias investigações e programas publicitários que sustentassem essa afirmação através da American Gas Association (AGA) e das suas empresas de relações públicas e publicidade. Com o passar do tempo, a campanha ganhou em ambição e alcance. Os principais produtores de petróleo e gás uniram forças com a AGA, tornando-se membros da sua principal organização de investigação e financiando novos esforços para posicionar o gás natural como uma solução tanto de energia limpa como climática.

No final da década de 1980, a indústria do gás e as principais empresas petrolíferas começaram a promover o gás como um «combustível de transição» — um combustível de combustão limpa para a transição para um futuro de energias renováveis. Na realidade, planearam um futuro a longo prazo para o gás natural, ao mesmo tempo que minavam as energias renováveis, obstruindo o destino para o qual a «ponte» do gás era suposto conduzir. Ao longo dos 20 anos seguintes, a

indústria consolidou efetivamente o mito do combustível de transição ao cooptar a ciência e a supervisão originalmente destinadas a manter as emissões de carbono e metano sob controlo.

Trabalhando em conjunto numa coligação em expansão que incluía as grandes petrolíferas e, por fim, vários importantes grupos ambientalistas, a indústria conseguiu atenuar as preocupações relativas ao metano, recorrendo a estratégias elaboradas pelas mesmas empresas que, durante décadas, minaram o consenso científico sobre os malefícios do tabaco. A AGA e os grupos aliados contestaram agressivamente os dados científicos relativos ao metano através de estudos financiados pela indústria e da criação do Gas Research Institute, cujo nome soa a objetividade.

Mas a sua abordagem foi multidimensional. Enquanto criava confusão em torno do problema do metano da indústria, a indústria do gás teve o cuidado de não negar abertamente a questão das alterações climáticas, concentrando, em vez disso, a atenção no dióxido de carbono. Acompanhou isto com a promoção incansável do conceito de que o gás é limpo — certamente mais limpo do que o carvão ou o petróleo — e posicionou o gás como um combustível de transição e uma solução climática. Nesse processo, a indústria do gás consolidou parcerias com a EPA com o objetivo explícito de afastar regulamentações em favor de uma gestão voluntária das emissões, ao mesmo tempo que recrutava organizações ambientais que conferissem legitimidade aos seus argumentos.

A estratégia foi um sucesso estrondoso. Fundamental para esse sucesso foi um estudo conjunto realizado em 1996 pela indústria e pela EPA sobre as emissões de metano do sistema de gás natural. Documentos recentemente divulgados revelam que a EPA dispensou a sua revisão técnica do estudo, que, segundo o gestor do projeto, a agência não possuía «os conhecimentos especializados» para realizar, cedendo, na prática, o controlo da análise à indústria do petróleo e do gás. O estudo publicado baseou-se numa avaliação altamente seletiva das emissões de metano, e concluiu que as emissões eram tão baixas que as preocupações relativas à contribuição do gás natural para as alterações climáticas eram injustificadas. A indústria do gás sabia que o estudo não representava a totalidade das emissões de metano provenientes do sistema de gás natural, mas utilizou-o para neutralizar as preocupações do público relativamente ao metano, consolidar a reputação do gás como um «combustível de transição» amigo do clima e abrir caminho para a expansão maciça da indústria na década de 2000.

Esta imagem do gás como uma fonte de energia limpa é uma fraude que vem sendo construída há pelo menos 50 anos. É fácil encontrá-la nas comunicações do setor ao longo das últimas cinco décadas, incluindo a publicidade dirigida aos consumidores e o lóbi político. A fraude do gás natural «limpo» tem sido essencial para o sucesso da indústria no mercado, e a ideia de que o gás é amigo do clima tem estado no cerne da rápida expansão das infraestruturas de gás nas últimas duas décadas, incluindo a explosão da fraturação hidráulica, a construção de gasodutos interestaduais e terminais de exportação de gás, e a absurda classificação do gás como energia renovável em vários estados, condenando os EUA a décadas de utilização adicional de combustíveis fósseis e de emissões prejudiciais ao clima.

Grande parte desta investigação centra-se em acontecimentos históricos, em que as emissões de metano surgiram como uma ameaça clara, e no legado do sucesso da indústria. Este relatório baseia-se em documentos recentemente descobertos, pedidos de acesso a registos públicos, comunicações internas da indústria, relatórios confidenciais, artigos científicos e entrevistas com cientistas climáticos, consultores da indústria e representantes de grupos ambientalistas. Embora inúmeros relatórios e investigações tenham demonstrado a forma como a indústria do petróleo e do gás respondeu ao problema do carbono com atrasos e negação, este é o primeiro a traçar a história da resposta da indústria do gás ao seu problema do metano e a situá-la no contexto de décadas de engano.

sábado, 18 de julho de 2026

BIODIVERSIDADE: PROMESSAS VAGAS DE EMPRESAS SÃO GERALMENTE ENGANADORAS

  • Apenas 13% dos compromissos em matéria de biodiversidade assumidos por 180 grandes empresas «chave» são suficientemente detalhados para permitir uma verdadeira prestação de contas, de acordo com um estudo da Universidade de Oxford e do Stockholm Resilience Centre publicado na revista One Earth. Embora 79% destas empresas influentes tenham assumido algum tipo de compromisso em matéria de biodiversidade, a maioria das promessas é demasiado vaga, carece de metas mensuráveis ou baseia-se em evidências seletivas ou enganosas. Isto torna impossível avaliar se as empresas estão efetivamente a reduzir o seu impacto nos ecossistemas. Fonte.
  • A crescente tendência de pavimentar os jardins da frente para criar entradas de garagem está a contribuir para o aumento das temperaturas noturnas nas zonas urbanas. Superfícies duras e impermeáveis, como o asfalto e o betão, absorvem uma grande quantidade de radiação solar durante o dia (até 95 %) e libertam lentamente esse calor armazenado durante a noite, tornando as zonas urbanas significativamente mais quentes. Isto contribui para o efeito de ilha de calor urbana, levando a noites desconfortavelmente quentes que podem dificultar o sono. A solução será substituir as entradas de garagem pavimentadas por espaços verdes, como relva. O benefício é ainda maior quando se plantam árvores, o que pode duplicar o efeito de arrefecimento. Fonte.
  • A Southern Water foi multada em mais de 7 milhões de libras por ter despejado águas residuais ilegalmente ao largo da costa de Kent entre 2019 e 2021. Fonte.
  • Índia põe em funcionamento o primeiro comboio a hidrogénio. O comboio é composto por duas carruagens motoras a hidrogénio e oito carruagens rebocadas, com uma capacidade total para cerca de 2 600 passageiros. Cada carruagem motora alberga células de combustível, baterias de fosfato de ferro e lítio e cilindros de armazenamento de hidrogénio que funcionam em conjunto para fornecer potência de tração, garantindo simultaneamente um funcionamento fiável em condições operacionais variáveis. Cada vagão motor fornece 1,2 MW de potência de tração, proporcionando, em conjunto, uma potência combinada de 2,4 MW, suficiente para impulsionar todo o comboio a velocidades até 110 km/h. Fonte.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

GREENWASHING QB

Ambiente Ondas3 / IA

Ainda não sabe o que é greenwasking, lavagem verde? Veja mais este exemplo, divulgado por um meio que se presta a isso: “A Altri integra pela segunda vez consecutiva o ranking das empresas mais sustentáveis do mundo em 2026, ocupando o 495º lugar”. 
E quem avaliou? A mui insuspeita revista norte-americana Time, que, para tal, terá analisado exaustivamente o volume de negócios, capitalização bolsista e a notoriedade pública das 5.000 maiores e mais influentes empresas em todo o mundo. 
Andem-me a caçar!

quarta-feira, 24 de junho de 2026

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DA TEORIA PARA A PRÁTICA

  • A educação ambiental em Portugal deve deixar de se focar apenas na sensibilização teórica para preparar os cidadãos para a ação concreta face às alterações climáticas, defende a rede portuguesa de embaixadores do Pacto Climático Europeu para a revisão da Estratégia Nacional de Educação Ambiental (ENEA 2030). Para tal, sugere-se (1) a formação de “Clima Clubes" nas escolas, plataformas de aprendizagem interdisciplinar para explorar soluções ambientais, projetos de ciência cidadã e desenvolver competências práticas; (2) a introdução de uma uma unidade curricular de "Sustentabilidade Aplicada" em todos os cursos das universidades e politécnicos; (3) Formação contínua em sustentabilidade, integrada nas ofertas formativas das empresas e da Administração Pública, ao longo da vida profissional. Os especialistas defendem ainda uma abordagem multidisciplinar, envolvendo áreas como História, Filosofia, Ciências e Artes. O objetivo é capacitar os cidadãos para responder a fenómenos como secas, incêndios e ondas de calor, combatendo a "ecoansiedade" ao transformar a preocupação em capacidade de intervenção. Fonte.
  • A Praia do Furadouro ficou em segundo lugar no concurso “Praias Memoráveis”, promovido pela ABAAE – Associação Bandeira Azul de Ambiente e Educação, em parceria com a BW. Entre as 192 praias concorrentes, o Furadouro reuniu a preferência dos banhistas, refletindo o lugar especial que ocupa na memória e nas vivências de gerações de ovarenses e visitantes. Fonte. Passámos por lá no domingo à tarde. Por duas vezes tive de tapar os ouvidos com rolhões tal era o volume e intensidade da ‘música’ debitada por dois recintos, um deles defendido por meia dúzia de gorilas vestidos de preto e ar feroz. O passadiço salvou a situação. Notícias destas, muito provavelmente patrocinadas com generosidade, servem para promover um sítio, tudo temperado com enorme greenwashing.
  • Consulta pública até 3 de agosto: O Projeto do Parque Eólico do Paiva e linhas elétricas associadas tem como objetivo a produção de eletricidade a partir de fonte renovável, contribuindo para o reforço da capacidade nacional de geração elétrica com origem não fóssil. O Projeto do Parque Eólico do Paiva prevê a instalação de 45 aerogeradores, distribuídos por três núcleos, bem como de quatro linhas de média tensão, a 30 kV. Enquadra-se nas Regiões Centro e Norte, e abrange os distritos de Viseu e da Guarda, integrando-se nos concelhos de Viseu, Vila Nova de Paiva, Sátão, Sernancelhe e Aguiar da Beira.
  • Como se impede a pesca ilegal com redes de arrasto no Camboja. Fonte.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

‘VOLTA’ CADA VEZ MAIS CONTESTADA


Dois meses após a entrada em funcionamento do sistema de depósito e reembolso “Volta”, multiplicam-se as reclamações de consumidores que dizem estar insatisfeitos com o modelo implementado. As principais críticas centram-se na forma como o reembolso é efetuado. Muitos utilizadores consideram injusto que os vales emitidos pelas máquinas só possam ser utilizados no mesmo supermercado onde as embalagens foram entregues, impedindo a sua utilização noutras superfícies aderentes. Outro dos problemas mais apontados prende-se com o funcionamento das máquinas de recolha. Várias queixas relatam situações em que garrafas e latas com o símbolo “Volta”, código de barras legível e em perfeitas condições são sucessivamente rejeitadas pelos equipamentos, obrigando os consumidores a perder tempo sem conseguirem recuperar o depósito pago. Para além disso, os reembolsos processam-se com enormes atrasos. Fonte.

Mais perspetivas poderão ser acedidas através dos links seguintes disponibilizados pelo blogue Ambiente Ondas3 entre 11 de abril e 29 de maio de 2026:


segunda-feira, 15 de junho de 2026

REFLEXÃO

3 COISAS QUE PODEM ESTRAGAR A TUA FESTA PARA VER O MUNDIAL
Emily Atkin, Substack. Rev. O’Lima.


O Mundial de Futebol deste ano tem algo que nenhum outro Mundial teve antes: intervalos publicitários. Isto significa que cada jogo conta agora com duas oportunidades de cerca de três minutos para arruinar completamente o ambiente festivo, falando de assuntos que ninguém quer ouvir, mas que provavelmente deveria. (...)

Em dezembro, a FIFA anunciou que o Mundial deste ano incluiria pausas de hidratação de três minutos para os jogadores a meio de cada parte de todos os jogos, e que as emissoras teriam permissão (mas não a obrigação) de exibir intervalos publicitários durante esse período.

Essas pausas obrigatórias para hidratação, segundo a FIFA, devem-se às condições de calor e humidade cada vez mais intensas, que colocam em risco a segurança dos jogadores. Este aumento geral do calor extremo é causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis e pela desflorestação, como explicou o New York Times na sexta-feira. (...)

A FIFA apresentou estas pausas para hidratação como uma tentativa de garantir a segurança dos jogadores. Outros têm uma interpretação compreensivelmente mais cínica: que a FIFA está a usar o bem-estar dos jogadores como desculpa para ganhar dinheiro. Afinal, as pausas são obrigatórias independentemente das condições meteorológicas. Mesmo que esteja fresco e a chover, os anúncios continuariam a ser exibidos.

«Isto é, na prática, um paralelo com o greenwashing, em que se recorre às alterações climáticas e à pretensa preocupação com os jogadores para distorcer as Regras do Jogo e inserir anúncios publicitários», escreveu na sexta-feira o utilizador do Reddit Hot-Job-6281.

(...)

Uma análise do New Weather Institute revelou que o Mundial de 2026 está «a caminho de se tornar o Mundial “mais poluente” de sempre», com as emissões totais a atingirem quase o dobro da média histórica. Previram, de forma conservadora, que o Mundial emitiria cerca de 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono, o que equivale aproximadamente a 21 centrais elétricas a gás a funcionar durante um ano; 1,9 milhões de carros a circular durante um ano; ou 9 mil milhões de libras de carvão queimado.

Isto deve-se principalmente ao facto de a FIFA ter optado por não ter um, mas sim três países anfitriões: os EUA, o Canadá e o México, e um total de 16 locais de jogo. Além disso, o torneio adicionou mais 16 equipas. Tudo isto significa muitas viagens aéreas. Os cientistas estimam que as emissões das viagens aéreas para o Mundial rondem os 7 milhões de toneladas de CO2 equivalente, com previsões no pior dos casos a atingirem os 13,7 milhões de toneladas.

Por que é que isto importa? Para começar, a FIFA está a fazer isto enquanto apregoa publicamente o seu compromisso com a sustentabilidade, incluindo o objetivo de atingir emissões líquidas nulas até 2040. Como escreveu Jules Boykoff no Guardian, «permitir passivamente que a FIFA destrua deliberadamente o ambiente é sucumbir ao greenwashing: a prática hipócrita de fazer grandes promessas ecológicas, mas não as concretizar com medidas de sustentabilidade significativas».

O maior problema não são apenas as emissões de um único torneio. É o facto de a FIFA estar a optar por um modelo de emissões cada vez maiores para o futuro do desporto, que já sofre com um mundo mais quente. (...)

A Aramco, a empresa estatal saudita de petróleo e gás, é a maior poluidora corporativa do mundo, estimando-se que seja responsável por mais de 4% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa desde 1965.

É também um dos principais patrocinadores do Mundial de 2026 e tem um acordo de parceria global de quatro anos com a FIFA, «o que significa que o logótipo da gigante dos combustíveis fósseis provavelmente estará visível no campo, online e na televisão durante o Mundial deste ano e o Mundial Feminino de 2027», noticiou o L.A. Times.

A FIFA defendeu a parceria, afirmando que as receitas da Aramco (cerca de 400 milhões de dólares!) estão a ser reinvestidas no futebol. Mas a FIFA não mencionou o que está a dar à Aramco em troca: licença social — ou seja, a permissão do público para manter os negócios como de costume. Ao apoiar o desporto mais amado do mundo, a Aramco está a tentar comprar o amor dos seus milhões de fãs, mesmo que o seu negócio principal contribua para tornar o desporto muito mais perigoso. Esta prática é chamada de «sportswashing».

Isto pode irritar os teus amigos o suficiente para que queiram fazer algo a respeito. E se o fizerem, pode encaminhá-los para a ação. A 21 de junho, o Sierra Club está a organizar ações de «Protesto contra o Sportswashing dos Combustíveis Fósseis» em vários estádios por todo os EUA, apelando à FIFA e a outras equipas para que abandonem os patrocínios de combustíveis fósseis. As ações vão decorrer em Los Angeles, Miami, Nova Jérsia, Toronto, Seattle, Portland, Sacramento e Cleveland. Pode encontrar mais informações aqui:







sábado, 6 de junho de 2026

REFLEXÃO

O WWF SURGIU DO RACISMO, DO COLONIALISMO E DO CAPITALISMO
Emmanuel Clévenot, Reporterre. Revisão: O’Lima.


O WWF, cuja presidente foi forçada a demitir-se devido à sua participação numa marcha antirracista, tem fundamentos colonialistas que continuam atuais, recorda o historiador Guillaume Blanc. Ligações com multinacionais, «colonialismo verde»... «É impossível para o WWF envolver-se na luta antirracista.»
Um bater de porta com graves repercussões. A 28 de maio, encurralada inicialmente pelo seu conselho de administração, Alexandra Palt anunciou a demissão da presidência do WWF França, o Fundo Mundial para a Natureza. O motivo? A sua participação, a 4 de abril em Saint-Denis, numa manifestação antirracista. Uma luta que a organização do pequeno panda se recusa a assumir.
Guillaume Blanc, historiador francês e professor no Instituto de Estudos Políticos de Bordéus, analisa esta sequência inesperada. Autor da banda desenhada ‘Les Sacrifiés du paradis’ (ed. Delcourt, março de 2026), investiga há dez anos as políticas levadas a cabo em África por diversas organizações internacionais, entre as quais a WWF. Uma instituição «nascida do racismo, do colonialismo e do capitalismo», defende ele nesta entrevista.

Reporterre — A demissão de Alexandra Palt é surpreendente?

Guillaume Blanc — Surpreendeu-me bastante porque Alexandra Palt, recordemos, vem da L’Oréal. Ela esteve na direção deste gigante dos produtos cosméticos. Por outras palavras, ela é uma figura típica do ambientalismo dominante. Aquele das grandes instituições que trabalham de mãos dadas com as empresas multinacionais em vez de as combater. Um ambientalismo em que aqueles que destroem são também aqueles que protegem. Por isso, sim, fiquei surpreendido ao ouvir esta dirigente demitir-se em nome de valores humanistas.
No dia seguinte à sua participação neste comício contra o racismo em Saint-Denis, Alexandra Palt recebeu um e-mail assinado, entre outros, pela navegadora Isabelle Autissier, presidente de honra da WWF França: «A nossa organização luta, desde a sua criação, para que não haja dúvidas quanto ao seu apolitismo», escreviam os autores, precisando que o objeto social da organização «não inclui a luta contra o racismo». O que lhe inspira esta oposição entre «apolitismo» e «antirracismo»?
Para mim, é pura e simples hipocrisia. O que realmente incomoda a WWF, mesmo que não seja dito explicitamente, são os valores políticos defendidos por La France insoumise (LFI) e, mais precisamente neste caso, os do deputado Bally Bagayoko, por iniciativa do encontro antirracista. O WWF nasceu do capitalismo e do racismo. Os seus representantes não vão, portanto, combater nem o capitalismo nem o racismo.
Por que digo «nascido do capitalismo»? Vejamos quem foram os presidentes da WWF International. De 1976 a 1981, foi John H. Loudon, antigo diretor-geral da petrolífera Shell. De 2002 a 2009, Emeka Anyaoku, um diplomata nigeriano que trabalhou durante décadas na Commonwealth britânica, nomeadamente no setor petrolífero. E de 2022 a 2023, Edward Neville Isdell, ex-CEO da Coca-Cola. Aliás, ele tinha começado a sua carreira a dirigir a filial sul-africana da multinacional… Isto, em plena era do apartheid, nos anos 70.
Então, como é que o WWF pode afirmar ser apolítico? Pelo contrário, tudo isto é extremamente político. São capitalistas. Colaboram com a Coca-Cola, a Shell, mas também com a Ikea ou a Monsanto. Portanto, fazem política. O que realmente os incomoda são os valores da LFI, mais orientados para a luta anticapitalista.

Por que razão diz que o WWF também «nasceu do racismo»?

Desde os anos 2000 até aos dias de hoje, o WWF tem financiado guardas florestais no Nepal, no Congo, na Índia e também no Gabão. Esses guardas florestais expulsam dos parques nacionais africanos e asiáticos as populações que lá vivem. Espancam pessoas e, por vezes, matam-nas. Tudo isto está documentado.
Em 2019, uma investigação do BuzzFeed revelou abusos cometidos contra populações indígenas por forças paramilitares financiadas pelo WWF no Nepal. Documentos internos demonstravam que a ONG estava a par da situação há anos. O mesmo aconteceu num parque nacional da República Democrática do Congo, onde violações coletivas e atos de tortura perpetrados por guardas florestais apoiados pelo WWF foram ocultados por esta organização.
Três anos antes, a Survival International, uma ONG que luta pela sobrevivência dos povos indígenas, já tinha apresentado uma queixa junto da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico] relativamente a atos de violência cometidos nos Camarões, no âmbito de atividades apoiadas pela WWF. Porquê a OCDE? Porque, tendo o WWF um orçamento superior a 350 milhões de euros, é considerado uma empresa transnacional que pode ser julgada pelo tribunal desta organização.
Não houve seguimento a esta queixa e o WWF também não investigou estes abusos. Limitou-se a dizer que não podia deixar de lamentar que alguns parceiros se tivessem dedicado à criminalização de camponeses, espancamentos, violações, etc., precisando que isso não era da sua responsabilidade. Trata-se de uma cegueira por conveniência, ou melhor, de hipocrisia. E a reação de Isabelle Autissier ilustra isso na perfeição. Sinceramente, pergunto-me se ela tem conhecimento de tais abusos ou se opta por fechar os olhos.

Em 2024, no seu livro «La Nature des hommes» (ed. La Découverte), descreveu como os colonos europeus criaram os primeiros parques naturais de África, já no final do século XIX. De que forma esta história se relaciona hoje com o que se passa na WWF?

A partir de 1897, foram criadas as primeiras reservas de caça em África. O que é importante saber é que os colonos europeus, ao chegarem a este continente, deixaram para trás uma Europa radicalmente transformada pela urbanização e pela industrialização. Uma Europa que tinha perdido a sua natureza. No entanto, eles acabaram por se convencer de que iriam reencontrar essa natureza perdida em África. O problema é que o capitalismo colonial também destrói a natureza. No final do século XIX e início do século XX, os caçadores europeus abatiam cerca de 65 000 elefantes por ano. Entre 1850 e 1920, destruíram nada menos que 94 milhões de hectares de floresta. O tráfico de marfim servia para fabricar bolas de bilhar e teclas de piano. Em suma, a grande fauna entrava em colapso e os colonos eram incapazes de aceitar que as destruições a que assistiam eram da sua responsabilidade.
Então, o que fazem eles? Culpam as populações africanas e criam essas reservas de caça. O objetivo é simples: apropriar-se do direito de caçar, em detrimento dos povos que vivem aqui há milénios. Um pouco mais tarde, esses mesmos colonos conservacionistas vão ser apelidados de uma forma engraçada: os açougueiros arrependidos. Porquê? Porque já nem sequer há animais suficientes para caçar… por isso, vão lutar para converter essas reservas em parques nacionais dedicados à contemplação da natureza. E é aí que as expulsões se multiplicam, para criar uma África natural, virgem e selvagem.

Mas o WWF ainda não existia nessa altura.

Não. Quando a colonização chegou ao fim nas décadas de 1950 e 1960, deu-se início a este projeto global que consistia em prosseguir a desumanização de África através dos parques nacionais. É a isso que chamei de «colonialismo verde». Entre 1 e 14 milhões de agricultores e pastores foram assim expulsos dos 350 parques nacionais africanos no século XX. Milhares de camponeses foram criminalizados, multados por cultivarem as suas terras e condenados a penas de prisão por caçarem animais de grande porte. Nessa altura, duas instituições estavam no comando: a UNESCO e a IUCN. Em 1961, em plena época das declarações de independência dos países africanos colonizados, elas criaram uma espécie de banco: o WWF. Com que objetivo? Enviar especialistas «para ajudar a África a ajudar-se a si própria». Cito-vos aqui um documento de arquivo. Esses especialistas não são mais do que colonos reconvertidos em especialistas internacionais.

Será que o WWF rompeu definitivamente com os seus fundamentos colonialistas?

Não. Este estranho binómio entre predação e proteção, nascido dos colonos no final do século XIX e sobre o qual o WWF se construiu, continua atual 120 anos depois. Poderíamos contentar-nos em pensar que as parcerias entre o WWF e multinacionais como a Shell, a Ikea ou a Coca-Cola se enquadram no greenwashing. Na realidade, é mais complexo do que isso. Tomemos um exemplo: na Etiópia, a empresa encarregada de liderar, em 2016, a expulsão das populações do Parque Nacional de Simien chama-se Intersocial Consulting. Ora, essa mesma empresa trabalha para grupos mineiros e petrolíferos, como a Rio Tinto, a TotalEnergies e a ExxonMobil, para planear os seus projetos de «desenvolvimento sustentável». Por outras palavras, este sistema de preservação anda de mãos dadas com a exploração predatória. A TotalEnergies pode continuar a explorar e a destruir os ecossistemas africanos porque financia a proteção dos parques. A Coca-Cola pode continuar a poluir, uma vez que, paralelamente, ajuda a WWF a recolher as garrafas que poluem os oceanos. Tudo isto anda de mãos dadas. Este ecologismo, supostamente apolítico, tem como objetivo perpetuar a exploração do ambiente. E é a posição da WWF optar por trabalhar com multinacionais destrutivas em vez de as combater.

Será que este discurso, que visa não integrar a luta contra o racismo nas causas defendidas pela WWF, serve para facilitar a prossecução das suas atividades em África?

Na verdade, é impossível para o WWF envolver-se na luta antirracista. Seria, e peso as minhas palavras ao dizer isto, como se o Rassemblement National fizesse da luta antirracista o seu lema. É claro que os doadores do WWF não são racistas, nostálgicos da colonização. Por outro lado, o próprio WWF nasceu do racismo, do colonialismo e do capitalismo. O próprio sistema de criação de reservas naturais nos países africanos e asiáticos baseia-se na ideia de que os africanos e os asiáticos seriam incapazes de proteger a sua natureza. É uma ideia colonial. Portanto, se amanhã o WWF começar a lutar contra o racismo, terá de lutar contra si próprio.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

REFLEXÃO

A TRETA DO VOLTA
RiseUP Portugal.


O novo sistema de depósito de embalagens em Portugal, através do Programa Volta, está a gerar revolta por uma razão muito simples: transfere a responsabilidade ambiental e o custo financeiro diretamente para o bolso do cidadão.

A partir de agora, pagamos mais 10 cêntimos por cada garrafa de plástico ou lata, valor que só recuperamos se guardarmos a embalagem intacta e a devolvermos numa máquina.

Mas importa olhar para quem está no topo da cadeia de produção. Estamos a falar de colossos mundiais como a Nestlé, a Coca-Cola, a PepsiCo e a Danone. Só para dar uma ideia do volume financeiro envolvido, estas empresas registam lucros líquidos anuais absolutamente extraordinários à escala global. A Nestlé lidera o setor alimentar com lucros anuais na ordem dos 10,9 mil milhões de dólares. A Coca-Cola (Responsável por 11% de toda a poluição plástica mundial), e a PepsiCo dominam o mercado de bebidas acumulando, respetivamente, cerca de 10,6 mil milhões e 8,2 mil milhões de dólares de lucro líquido anual. A Danone fecha este grupo no topo dos laticínios e nutrição com lucros a rondar os 2 mil milhões de dólares por ano.

Diante destes números recorde, a pergunta impõe-se: por que razão se castiga o consumidor com uma espécie de taxa verde disfarçada em vez de se obrigar estas multinacionais a alterarem a sua forma de produção na origem?

Todos nós consumimos cerveja ou água em garrafas de vidro reutilizáveis no circuito de cafés e restaurantes. Esse vidro é recolhido, lavado, esterilizado e volta a entrar no mercado dezenas de vezes sem necessidade de ser destruído. É um sistema que funciona há décadas.

A reciclagem mecânica do plástico gasta quantidades brutais de energia e água, além de continuar a alimentar o ciclo de fabrico de novos polímeros. A verdadeira ecologia faz-se pela redução e pela reutilização, não pela criação de barreiras financeiras a quem compra.

NB - perspetivas complementares sobre este tema:

quinta-feira, 28 de maio de 2026

DINAMARCA PINTA ESTRADA DE VERMELHO PARA FACILITAR CIRCULAÇÃO DE MORCEGOS

  • A Dinamarca está a desligar a luz branca dos seus candeeiros de rua e a pintar uma estrada de vermelho para resolver uma crise noturna que quase ninguém repara: a luz urbana estava a bloquear o caminho dos morcegos. Fonte.
  • “Grande parte da vida moderna está concebida de forma a que nunca se veja diretamente o custo ambiental do que consumimos. Os alimentos surgem embalados e prontos a consumir. Recebemos eletricidade através das paredes. O lixo desaparece do passeio. As compras online transformam a produção e o transporte globais num único clique. Às vezes pergunto-me como seria diferente a forma como as pessoas pensariam sobre o consumo se a extração, a poluição, os resíduos e a destruição de habitats associados à conveniência do dia a dia fossem fisicamente visíveis para nós em tempo real. Não estou a tentar ser pessimista. Apenas sinto que a desconexão ambiental pode ser uma das maiores barreiras a uma mudança significativa.” Anónimo.
  • A InnoEnergy, uma das principais entidades europeias de investimento em tecnologias limpas, afirma que as empresas do seu portefólio poderão evitar 2,3 gigatoneladas de CO2 equivalente atá 2030, o que seria o mesmo que retirar 534 milhões de veículos de combustão interna da estrada durante um ano. Uma investigação independente revela, no entanto, que essas estimativas aceites pela EU vêm das próprias empresas beneficiárias, sem utilizarem uma metodologia uniforme e que, na sua grande maioria se recusam divulgar os seus números individualmente. Fonte.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

REFLEXÃO

LIPOR E BP PORTUGAL INAUGURAM ESCOLA DA NATUREZA PARA PROMOVER A BIODIVERSIDADE


Localizada nas margens do rio Tinto, a iniciativa nasce numa área anteriormente utilizada como aterro, agora recuperada e devolvida à comunidade como espaço de aprendizagem, regeneração e contacto direto com a natureza.

Segundo António Silva Tiago, presidente da LIPOR, o projeto reflete a ambição da entidade de ir além da transformação de resíduos em recursos. “Mais do que transformar resíduos em recursos, é cuidarmos da vida que renasce”, afirma o responsável, sublinhando a integração da biodiversidade na estratégia da LIPOR, através do conceito “Lado B — o lado da Biodiversidade”.
Para Silvia Barata, presidente da bp Portugal, a dimensão de recuperação ambiental e o impacto positivo do projeto justificaram o apoio da empresa. A responsável destaca que a iniciativa está alinhada com as metas de sustentabilidade da bp Portugal, nomeadamente no que diz respeito à colaboração com outras entidades para apoiar a restauração da biodiversidade.

A Escola da Natureza foi concebida como um espaço de sensibilização ambiental e aprendizagem experiencial, destinado a visitantes de todas as idades. O projeto incluiu a renaturalização e recuperação de uma área florestal com recurso a soluções de base natural, bem como a criação de um trilho off-road e sensorial, postos de observação da biodiversidade e abrigos para a fauna.
Mais do que um espaço físico, a Escola da Natureza pretende proporcionar uma experiência imersiva e pedagógica, aproximando a comunidade dos ecossistemas naturais. Através de atividades interativas, o projeto procura estimular comportamentos responsáveis, reforçar a consciência ambiental e promover uma relação mais sustentável com a biodiversidade. Fonte.

A BP é uma empresa historicamente associada a atividades de alto impacto ambiental (exploração e comercialização de combustíveis fósseis), setor responsável por uma parcela significativa das emissões de gases com efeito de estufa.
Projetos como escolas da natureza, plantio de árvores ou ações de educação ambiental podem servir para desviar a atenção das atividades principais poluentes da empresa, sem mudanças estruturais no seu modelo de negócio.
Quando uma empresa poluidora apoia pequenos projetos ambientais locais, há o risco de estes serem usados mais para melhorar a sua imagem pública — uma "operação de charme" — do que para compensar os danos reais causados.


Estamos, pois, conversados.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

NORUEGA: COMO SE EXPORTA A CADEIA DE ABASTECIMENTO MAIS POLUÍDA

Foto de Katja Ano no Unsplash

A Noruega apresenta-se como líder ambiental, com fiordes imaculados e salmão de viveiro «sustentável», mas os verdadeiros custos ecológicos e sociais da indústria são exportados — especialmente para a África Ocidental —, enquanto os danos ambientais no próprio país são minimizados ou ocultados.

A indústria de criação de salmão da Noruega é gigantesca — 1,25 milhões de toneladas exportadas em 2024. Mas as imagens idílicas dos fiordes escondem vários problemas: os surtos de piolhos do mar, intensificados pelo aquecimento das águas, afetam tanto o salmão de criação como o selvagem; cerca de 57,8 milhões de salmões de viveiro morreram em 2020; os tratamentos químicos e térmicos prejudicam os ecossistemas e o bem-estar dos peixes; centenas de milhares de salmões de viveiro escapam anualmente, causando poluição genética nas populações selvagens; o excesso de ração e resíduos acumula-se sob as gaiolas, alterando os ecossistemas bentónicos; o cobre das redes antivegetativas aumenta a toxicidade; a aplicação dos regulamentos é fraca e depende fortemente da autoavaliação da indústria.

Dados: Instituto para os Oceanos e a Pesca da UBC, 2025, e Conselho Norueguês dos Produtos do Mar, 2024. Fluxo de farinha de peixe e óleo de peixe das fábricas costeiras da África Ocidental para as jaulas de salmão norueguesas, e de filetes de salmão de viveiro para os mercados europeus. Ilustração do autor utilizando Python.

O salmão norueguês «limpo» depende de uma cadeia de abastecimento suja e extrativista no estrangeiro, especialmente na Mauritânia e no Senegal. Tudo porque o salmão de viveiro não produz ómega-3 e tem tem de ser obtido do óleo de peixe, que provém da Sardinella, da Anchoveta e da Menhaden, peixes essenciais na alimentação da África Ocidental. O seu desvio contribui para a insegurança alimentar, a desnutrição infantil e a perda de meios de subsistência nas comunidades costeiras. O ómega-3 comercializado nas embalagens do salmão norueguês é, literalmente, ómega-3 retirado dos pratos da África Ocidental. Fonte.

domingo, 24 de maio de 2026

REFLEXÃO

SDR PORTUGAL, CONSUMIR MAIS EM NOME DA ECONOMIA CIRCULAR


A SDR Portugal, uma associação sem fins lucrativos, é apresentada como uma das grandes conquistas da nova economia circular. Uma solução moderna, sustentável e inevitável para aumentar as taxas de reciclagem e aproximar Portugal dos objectivos ambientais europeus. A narrativa pública é simples, eficaz e cuidadosamente construída: devolver embalagens para salvar o planeta.
Consumir continua perfeitamente aceitável. Desde que a culpa venha com código de barras e seja colocada na máquina correcta.

O presidente da SDR Portugal é Leonardo Bandeira de Melo Mathias, antigo Secretário de Estado Adjunto e da Economia no governo de Pedro Passos Coelho. Um dos vice-presidentes é António Augusto dos Santos Casanova Pinto, vice-presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal Marcas e administrador executivo do grupo.

Segundo o Relatório e Contas de 2024 da própria SDR, os órgãos sociais não são remunerados. No entanto, os gastos com remunerações em 2024 ascenderam a €136.333,25 antes de impostos (Seg. Social + IRS). O número de pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2024 era de apenas 3, sendo referido no relatório que existia um Director-Geral contratado desde Junho de 2022 e que apenas em Dezembro de 2024 foram contratados um Director de Operações e um Director de Tecnologias de Informação.
Ou seja, durante praticamente todo o exercício de 2024, o grosso dos encargos salariais esteve concentrado numa única pessoa e com um valor (€9.738 líquidos /mês) bastante interessante para uma estrutura ainda em fase inicial de operação. Afinal, até a reciclagem moderna exige a sua pequena aristocracia técnica.

O próprio Relatório e Contas revela ainda outro detalhe particularmente curioso: existe um conjunto de grandes empresas que realizaram empréstimos à SDR, os quais, segundo o Relatório de Gestão, serão pagos “quando a associação tiver meios financeiros para o fazer”.
Traduzindo do dialecto institucional para português corrente: o dinheiro há-de voltar. Ou seja, não se trata propriamente de capital a fundo perdido nem de um gesto puramente filantrópico. Trata-se de dinheiro que deverá regressar futuramente a quem o colocou no sistema.

Entre os credores encontram-se:
Auchan Retail Portugal, S.A.: €247.000
ITMP Alimentar, S.A.: €247.000
Super Bock Bebidas, S.A.: €247.000
Pingo Doce - Distribuição Alimentar, S.A.: €247.000
Lidl & Companhia: €247.000
Modelo Continente Hipermercados, S.A.: €247.000
Sumol Compal Marcas, S.A.: €247.000
Coca-Cola Europacific Partners Unipessoal, Lda: €247.000
SCC - Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, S.A.: €247.000
Unilever Fima, Lda: €247.000
Total: €2.470.000

A pergunta verdadeiramente interessante não é se o sistema é ecológico. É perceber como, quando e através de que mecanismos financeiros estes valores serão recuperados. Porque num sistema financiado por depósitos, taxas, fluxos operacionais e receitas futuras associadas à reciclagem, alguém acabará inevitavelmente por pagar a factura final da virtude ambiental.
No entanto, quando se observa o modelo para além da superfície publicitária e das campanhas institucionais, percebe-se que talvez estejamos perante algo bastante mais complexo do que uma simples iniciativa ecológica.

O que está a ser criado não é apenas um sistema de reciclagem. É uma infraestrutura económica, logística e tecnológica de enorme dimensão, construída em torno da circulação permanente de embalagens, depósitos, dados e contratos.
A lógica do mecanismo parece inocente. O consumidor compra uma bebida, paga um valor adicional associado à embalagem e recupera esse montante caso a devolva num ponto autorizado. À primeira vista, trata-se apenas de um incentivo comportamental. Uma pequena penalização temporária destinada a ensinar adultos a colocar recipientes vazios no sítio correcto. Mas é precisamente aqui que o modelo se torna interessante. O sistema não vive apenas da reciclagem.Vive sobretudo da arquitectura financeira criada à volta da reciclagem.

Cada embalagem deixa de ser apenas um recipiente descartável e transforma-se numa unidade económica rastreável:
- alguém paga
- alguém recolhe
- alguém valida
- alguém transporta
- alguém processa
- alguém monitoriza
- alguém factura

A garrafa já não termina no lixo. Passa a circular dentro de uma cadeia económica cuidadosamente organizada, onde praticamente cada etapa gera actividade financeira.

O primeiro aspecto raramente explicado de forma transparente é a importância dos depósitos não reclamados. Nem todas as pessoas irão devolver embalagens. Nem todas terão tempo. Nem todas terão máquinas próximas. Nem todas guardarão garrafas em casa. Nem todas considerarão justificável deslocar-se por alguns cêntimos. Nem todas transformarão a cozinha numa extensão informal do centro de triagem nacional.

E é precisamente aí que surge uma das peças mais relevantes do sistema. Os depósitos pagos e nunca recuperados permanecem dentro do circuito financeiro da estrutura. Ou seja, uma parte significativa da sustentabilidade económica do modelo assenta não apenas na reciclagem, mas também na inevitável imperfeição humana.

E aqui vale a pena pegar nas próprias palavras do presidente da SDR Portugal: “Só para lhe dar um enquadramento, são consumidas em Portugal 2,1 mil milhões de garrafas de plástico (PET) até três litros. E as latas de aço e de alumínio, portanto, são 2,1 mil milhões de unidades por ano. Agora imagine…”

Sim, vamos então imaginar.
Com optimismo ambiental, admitamos que 70% das embalagens são devolvidas. Isso significa que 30% ficam fora do circuito de retorno.
2,1 mil milhões × 30% = 630 milhões de embalagens não devolvidas.
Multiplicando por um depósito de 10 cêntimos:
630 milhões × €0,10 = €63 milhões.
Ou seja, mesmo num cenário bastante optimista, estariam potencialmente 63 milhões de euros anuais a permanecer dentro do sistema apenas através de depósitos não reclamados.

Agora abandonemos por momentos o optimismo institucional e ambiental. Se a taxa de retorno fosse de 50%, então metade das embalagens não regressaria:
2,1 mil milhões × 50% = 1.050 milhões de embalagens.
Multiplicando novamente pelos 10 cêntimos:
1.050 milhões × €0,10 = €105 milhões.
Cento e cinco milhões de euros.

Naturalmente, estes valores não representam lucro directo líquido nem podem ser analisados isoladamente dos custos operacionais do sistema. Mas ajudam a perceber a dimensão financeira potencial criada por um mecanismo que depende precisamente de uma percentagem significativa de embalagens nunca ser devolvida.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. O sistema apresenta-se como solução para mudar comportamentos, mas beneficia financeiramente do facto de esses comportamentos nunca mudarem completamente. Se os consumidores devolvessem rigorosamente todas as embalagens, uma das maiores almofadas financeiras do mecanismo desapareceria. Isso obrigaria inevitavelmente a:
- aumentar taxas
- reforçar contribuições da indústria
- procurar mais financiamento público
- ou criar novas formas de receita

Por outras palavras, o sucesso ambiental absoluto poderia transformar-se num problema económico bastante menos sustentável do que os folhetos institucionais sugerem. Naturalmente, esta parte raramente aparece nos vídeos promocionais acompanhados por folhas verdes ao vento, crianças sorridentes e música suficientemente inspiradora para absolver moralmente uma garrafa de plástico. Mas os depósitos não reclamados são apenas uma componente do ecossistema.

Outra dimensão do modelo surge quando se observa a infraestrutura criada à sua volta.
Para operacionalizar a devolução de milhões de embalagens, torna-se necessário construir uma rede nacional composta por:
- máquinas automáticas de recolha
- software de reconhecimento e validação
- sistemas antifraude
- logística reversa
- transporte especializado
- centros de triagem
- compactação industrial
- plataformas digitais
- manutenção técnica
- monitorização estatística
- auditorias
- certificações ambientais
- contratos operacionais

Ou seja, cria-se um novo sector económico completo em torno de algo que, até aqui, cabia essencialmente num ecoponto. E como acontece frequentemente na economia contemporânea, o discurso público concentra-se na moralidade ambiental, enquanto os fluxos financeiros reais se distribuem silenciosamente pelos bastidores tecnológicos e logísticos.
Porque alguém fabrica as máquinas. Alguém fornece o software. Alguém gere os dados. Alguém assegura manutenção. Alguém opera a logística. Alguém ganha contratos. Alguém presta consultoria. Alguém vende a solução para o problema que o próprio sistema ajudou a transformar numa nova necessidade estrutural. O operador central pode apresentar-se como entidade sem fins lucrativos, o que é tecnicamente verdadeiro. Mas isso pouco diz sobre o volume de actividade económica gerada à volta da estrutura.
Aliás, um dos traços mais sofisticados dos modelos contemporâneos é precisamente este: o núcleo institucional mantém uma aparência neutra e moralmente virtuosa, enquanto a rentabilidade se espalha discretamente pelas camadas periféricas do sistema.

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente mais valiosa a longo prazo: os dados.
Cada devolução gera informação. Cada máquina recolhe padrões de utilização. Cada localização produz métricas comportamentais. Cada embalagem contribui para mapear hábitos de consumo. Num contexto onde indicadores ambientais, métricas ESG* e monitorização de comportamento possuem valor económico crescente, o controlo de uma infraestrutura nacional deste tipo representa muito mais do que reciclagem. Representa capacidade de observação, recolha, análise e venda de dados. (*Indicadores quantitativos e qualitativos que medem o desempenho de uma empresa nas áreas Ambiental, Social e de Gestão)

Quem gere um sistema desta escala passa a ter acesso a:
- padrões de consumo
- volumes regionais
- sazonalidade de vendas
- participação dos consumidores
- fluxos logísticos
-métricas ambientais
- indicadores de conformidade regulatória
O lixo deixa de ser apenas lixo.Torna-se informação.

Outro aspecto particularmente curioso é a transferência parcial de trabalho da indústria para o cidadão. Antes, o consumidor colocava a embalagem no ecoponto e encerrava aí a sua participação. Agora, espera-se que:
- guarde embalagens em casa sem as danificar
- organize resíduos
- transporte recipientes
- procure máquinas disponíveis
- aguarde validação
- execute parte da logística operacional

Tudo isto naturalmente apresentado como exercício de cidadania ambiental. Na prática, parte do trabalho anteriormente absorvido pelo sistema tradicional de resíduos é silenciosamente transferido para o próprio consumidor, que continua simultaneamente a financiar o processo através dos depósitos pagos.

Entretanto, os grandes produtores de embalagens conseguem algo ainda mais relevante: legitimidade. As empresas responsáveis pela colocação de milhões de embalagens descartáveis no mercado passam a operar dentro de uma arquitectura verde certificada, compatível com exigências regulatórias europeias e extremamente útil para relatórios ESG, reputação corporativa e marketing institucional.

A questão deixa então de ser: “como reduzir embalagens descartáveis?” E passa subtilmente a ser:“como integrar embalagens descartáveis num circuito economicamente rentável e ambientalmente legitimado?”
É uma diferença conceptual importante.
O sistema não elimina o consumo massivo de recipientes descartáveis. Pelo contrário: reorganiza-o, profissionaliza-o e transforma-o numa cadeia económica ainda mais sofisticada.
No fundo, o que está a emergir não é apenas um mecanismo de reciclagem. É a monetização integral da embalagem desde o momento da compra até ao momento da devolução.

A embalagem gera receita quando é vendida. Gera receita quando circula. Gera receita quando não é devolvida.Gera receita quando é devolvida. Gera receita quando é processada. Gera receita enquanto dado estatístico. E gera legitimidade política e ambiental durante todo o percurso.

Nada disto significa que reciclar seja inútil ou que a reutilização de materiais não tenha benefícios reais. O problema não está na reciclagem. Está na forma quase religiosa como certos modelos económicos são apresentados como altruísmo ambiental puro, quando na realidade envolvem estruturas financeiras altamente sofisticadas e interesses económicos evidentes.

Porque quando uma solução ecológica cria uma indústria multimilionária sustentada por depósitos, contratos, dados, logística, tecnologia e falhas previsíveis do comportamento humano, talvez seja legítimo perguntar se o principal objectivo é proteger o ambiente… ou descobrir como transformar até o lixo numa fonte permanente de rentabilidade.

E nesse aspecto, convenhamos, o modelo é brilhante.

NB - perspetivas complementares sobre este tema: