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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

REFLEXÃO

QUANDO AS EMPRESAS DO SETOR DO PLÁSTICO ELABORAM OS PLANOS DE AULA

A indústria do plástico está a oferecer às escolas programas curriculares que apresentam os plásticos como seguros, recicláveis e uma fonte de bons empregos. Os críticos afirmam que se trata de propaganda.

Joseph Winters, Grist. Rev. O’Lima.

Nic Antaya / The Washington Post via Getty Images

Este outono, 54 milhões de alunos do ensino básico e secundário regressam às salas de aula para mais um ano de aulas nas disciplinas tradicionais: matemática, inglês, história e biologia. Mas há outra disciplina que tem vindo a infiltrar-se nos programas escolares: os plásticos.

Um novo relatório da organização sem fins lucrativos Plastic Pollution Coalition documenta as várias formas como a indústria do plástico tem vindo a introduzir a sua agenda nas salas de aula norte-americanas — incluindo, através de planos de aula e fichas de trabalho, experiências científicas práticas e um programa chamado «PlastiVan», que viaja de cidade em cidade a ensinar os alunos sobre «a contribuição dos plásticos para a vida moderna».

De acordo com o relatório, os interesses da indústria disponibilizam estes recursos aos professores gratuitamente ou a preços reduzidos. Os materiais tendem a destacar a necessidade dos plásticos, ao mesmo tempo que minimizam os seus efeitos negativos significativos para a saúde humana e para o ambiente.

«Quando essa informação é transmitida às crianças, obscurece os verdadeiros impactos da poluição por plástico», afirmou Madison Dennis, gestora sénior de políticas e defesa da Plastic Pollution Coalition e uma das principais autoras do relatório. Além de prejudicar a vida marinha, os plásticos podem expor as pessoas a substâncias químicas perigosas, obstruir as redes de pluviais e contribuir para inundações, bem como libertar gases com efeito de estufa que aquecem o planeta. A organização de Dennis apela à adoção de políticas escolares mais rigorosas contra a utilização de materiais didáticos patrocinados pela indústria.

O relatório apresenta quatro estudos de caso sobre a «propaganda» da indústria do plástico dirigida a crianças em idade escolar. Um deles envolve a Sociedade de Engenheiros de Plásticos (SPE). Os planos de aula da SPE incluem atividades como uma «caça ao tesouro do plástico», que visa que os alunos «compreendam que os plásticos estão em todo o lado e a sua importância para a sociedade e para a sua vida pessoal». Um vídeo intitulado «A tua garrafa significa empregos» explica como a reciclagem de plásticos contribui para o emprego local.

Outro estudo de caso destaca a Associação Americana de Professores de Química, uma iniciativa da Dow Chemical Company. Um dos planos de aula da associação ensina alunos do ensino básico e secundário a comparar a resistência de vários tipos de sacos de plástico que podem ser encontrados numa mercearia. Após uma breve experiência, a aula convida-os a «fingir que são funcionários da Dow Chemical Company» e que estão a conceber um saco de plástico para um cliente.

Eve Vitale, diretora executiva da Fundação SPE, numa sala de aula da Escola Secundária Warren Mott, no Michigan, em 2024. O programa PlastiVan da SPE percorre escolas por todo o país para ensinar às crianças a ciência por trás dos plásticos e despertar o interesse numa futura carreira neste setor. Nic Antaya / The Washington Post via Getty Images

Embora muitos desses materiais afirmem apoiar os objetivos de aprendizagem das disciplinas STEM, fazem-no ao mesmo tempo que promovem argumentos habituais da indústria, enfatizando a acessibilidade e a segurança dos plásticos. Alguns reconhecem a poluição por plásticos como um problema grave, mas atribuem a culpa a comportamentos irresponsáveis dos consumidores e, em vez de recomendarem que se produza menos plástico, propõem o aumento da reciclagem como a principal forma de o resolver.

Na realidade, apenas 9% de todos os plásticos são reciclados a nível mundial, e os cientistas têm alertado repetidamente que a reciclagem não conseguirá acompanhar o crescimento previsto na produção de plástico. Reportagens de investigação revelaram que os grupos da indústria sabiam disto há décadas, mas promoveram a reciclagem na mesma, a fim de acalmar a crescente preocupação com a poluição por plástico.

Wendy Johnson, especialista em ensino de ciências do Centro Nacional para o Ensino das Ciências, afirmou que os planos de aula e as fichas de trabalho da indústria não refletem uma boa pedagogia. Os materiais que afirmam estar alinhados com os padrões estaduais de STEM não especificam quais os padrões que apoiam, nem de que forma estão alinhados. Os planos de aula instruem os alunos a ler as notas dos professores ou enumeram termos de vocabulário específicos da indústria, como «moldagem por sopro com estiramento» ou «termoendurecimento».

«Ao utilizar todos estes termos técnicos, está-se a induzir as pessoas a pensar… que estão a fazer ciência», disse Johnson à Grist. O que os materiais realmente ensinam, afirmou ela, são «perspetivas ideológicas sobre a economia», como a conveniência de bens de consumo baratos.

«A ideia não é ensinar», acrescentou Johnson, mas sim introduzir os argumentos da indústria nas salas de aula. O relatório documenta como a propaganda da indústria do plástico tem vindo a infiltrar-se nas escolas, pelo menos desde a década de 2000. Entre 2009 e 2011, por exemplo, uma associação do setor dos plásticos exerceu pressão sobre o Departamento de Educação da Califórnia para que fosse adicionada uma secção sobre «As vantagens dos sacos de compras» aos manuais escolares do ensino secundário do estado. A iniciativa PlastiVan está em curso desde 2011, e a SPE afirma que já chegou a mais de 132 000 alunos no total.

A Plastic Pollution Coalition sugere que o problema é particularmente grave nas escolas situadas perto de instalações petroquímicas. No Condado de Beaver, na Pensilvânia, por exemplo, a Shell opera um complexo de produção de plásticos e investiu milhões de dólares no desenvolvimento de programas curriculares relacionados com os plásticos e de programas de reciclagem, tanto para alunos do ensino básico como para estudantes de faculdades. Também doou centenas de mochilas cheias de material escolar e ofereceu a uma escola um campo de basquetebol — aparentemente em troca da integração da reciclagem de plásticos no currículo.

A Shell não respondeu ao pedido de comentário da Grist. O mesmo aconteceu com a SPE, a Associação Americana de Professores de Química, e com o distrito escolar do Condado de Beaver.

O relatório sugere a existência de um problema mais vasto no ensino das disciplinas STEM nas escolas públicas dos EUA. Os professores carecem frequentemente do tempo e dos recursos financeiros necessários para conceber os seus próprios programas curriculares ou para adquirir materiais e planos de aula de alta qualidade, indispensáveis para as experiências laboratoriais em sala de aula ou para projetos científicos. Quando grupos de interesses se apresentam a oferecer apoio — quer se trate da indústria do tabaco, da indústria da comida de plástico, da indústria dos pesticidas ou da indústria dos combustíveis fósseis —, pode ser difícil recusar.

«Como professora, estou sempre à procura de materiais gratuitos», afirmou Suzie Hicks, uma educadora ambiental do ensino básico (do jardim de infância ao 8.º ano) na Califórnia, que prestou consultoria no relatório da Plastic Pollution Coalition. Hicks referiu que a sua formação e experiência permitem-lhe avaliar com facilidade se os materiais contêm «greenwashing» — mas provavelmente não é esse o caso da maioria dos professores.

Dennis recomendou que os agrupamentos escolares adotassem políticas que proibissem materiais educativos patrocinados pelas indústrias química, dos combustíveis fósseis e do plástico. Ela também sublinhou a necessidade de um melhor financiamento escolar de forma mais geral, para que os professores e os municípios não fiquem tão desesperados por materiais didáticos prontos a usar.

Uma forma de alcançar este objetivo seria eliminar os benefícios fiscais concedidos às instalações de processamento petroquímico e de produção de plásticos, que privam as comunidades de recursos financeiros tão necessários.

Katie Allen, diretora executiva da Algalita, uma organização ambiental sem fins lucrativos sediada na Califórnia que desenvolve materiais educativos sobre a poluição por plástico, contestou a ideia de que as escolas devam proibir todo o conteúdo patrocinado pela indústria.

«Quando se começa a proibir uma coisa, onde é que isso acaba? O que eu quero é dar aos educadores o benefício da dúvida e permitir que tomem as suas próprias decisões», disse. Defendeu que se deve confiar nos professores para contextualizarem adequadamente os materiais da indústria — e que estes poderiam até utilizá-los para ensinar competências de pensamento crítico.

Dito isto, há muitos materiais educativos sobre plásticos desenvolvidos por fontes não ligadas à indústria. A Algalita, por exemplo, disponibiliza planos de aula gratuitos sobre temas como as ilhas de lixo plástico nos oceanos e a biomagnificação — o fenómeno em que os plásticos se acumulam no interior dos animais marinhos à medida que se sobe na cadeia alimentar. A The Story of Stuff, outra organização sem fins lucrativos, oferece um currículo mais abrangente para o ensino secundário, centrado nos custos e nas consequências da produção de bens de consumo — incluindo os fabricados a partir de plásticos.

Esses materiais didáticos continuam a provir de organizações com uma agenda própria. No entanto, Hicks argumentou que são mais fiáveis, uma vez que as organizações sem fins lucrativos normalmente não estão a tentar vender nada.

Outra opção é os professores simplesmente conceberem os seus próprios programas curriculares. Foi isso que Jacqueline Omania, uma professora do ensino básico recentemente aposentada em Berkeley, na Califórnia, fez em 2015. Transformou a sua sala de aula num laboratório «zero resíduos» e, todos os anos, durante 11 anos, Omania e os seus alunos desenvolveram um conjunto de acordos de «zero resíduos» para a sala de aula, comprometendo-se a minimizar o uso de plástico — por exemplo, trocando os tubos de cola individuais por um recipiente comum de cola —, ao mesmo tempo que defendiam mudanças mais sistémicas, como a campanha a favor de uma política que obrigasse os restaurantes de Berkeley a deixar de distribuir talheres de plástico descartáveis.

«Há muitos desafios no mundo, mas o plástico é algo tangível», afirmou Omania. «Está mesmo ali à frente deles, e conseguem ver a diferença que estão efetivamente a fazer através das suas ações.»

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