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segunda-feira, 25 de maio de 2026

NORUEGA: COMO SE EXPORTA A CADEIA DE ABASTECIMENTO MAIS POLUÍDA

Foto de Katja Ano no Unsplash

A Noruega apresenta-se como líder ambiental, com fiordes imaculados e salmão de viveiro «sustentável», mas os verdadeiros custos ecológicos e sociais da indústria são exportados — especialmente para a África Ocidental —, enquanto os danos ambientais no próprio país são minimizados ou ocultados.

A indústria de criação de salmão da Noruega é gigantesca — 1,25 milhões de toneladas exportadas em 2024. Mas as imagens idílicas dos fiordes escondem vários problemas: os surtos de piolhos do mar, intensificados pelo aquecimento das águas, afetam tanto o salmão de criação como o selvagem; cerca de 57,8 milhões de salmões de viveiro morreram em 2020; os tratamentos químicos e térmicos prejudicam os ecossistemas e o bem-estar dos peixes; centenas de milhares de salmões de viveiro escapam anualmente, causando poluição genética nas populações selvagens; o excesso de ração e resíduos acumula-se sob as gaiolas, alterando os ecossistemas bentónicos; o cobre das redes antivegetativas aumenta a toxicidade; a aplicação dos regulamentos é fraca e depende fortemente da autoavaliação da indústria.

Dados: Instituto para os Oceanos e a Pesca da UBC, 2025, e Conselho Norueguês dos Produtos do Mar, 2024. Fluxo de farinha de peixe e óleo de peixe das fábricas costeiras da África Ocidental para as jaulas de salmão norueguesas, e de filetes de salmão de viveiro para os mercados europeus. Ilustração do autor utilizando Python.

O salmão norueguês «limpo» depende de uma cadeia de abastecimento suja e extrativista no estrangeiro, especialmente na Mauritânia e no Senegal. Tudo porque o salmão de viveiro não produz ómega-3 e tem tem de ser obtido do óleo de peixe, que provém da Sardinella, da Anchoveta e da Menhaden, peixes essenciais na alimentação da África Ocidental. O seu desvio contribui para a insegurança alimentar, a desnutrição infantil e a perda de meios de subsistência nas comunidades costeiras. O ómega-3 comercializado nas embalagens do salmão norueguês é, literalmente, ómega-3 retirado dos pratos da África Ocidental. Fonte.

REFLEXÃO

BARRAGENS NÃO RESOLVEM DESERTIFICAÇÃO; RESOLVEM ESTATÍSTICA


A desertificação é hoje apresentada como uma consequência inevitável das alterações climáticas. Um fenómeno quase abstracto, explicado em gráficos e mapas de risco, que parece acontecer apesar das decisões humanas e não por causa delas. No terreno, porém, a leitura é outra. O que se observa, de forma consistente, é um processo acelerado por escolhas técnicas erradas, repetidas durante décadas, muitas vezes com boa intenção e maus resultados.

Entre essas escolhas, a aposta recorrente em grandes barragens ocupa um lugar central. São obras visíveis, quantificáveis, politicamente defensáveis. Aumentam a capacidade instalada de armazenamento de água, geram indicadores claros e permitem comunicar acção. O problema é que resolvem estatística, não resolvem paisagem.

A desertificação começa no solo. Começa quando o solo perde estrutura, quando a matéria orgânica desaparece, quando a vida biológica entra em colapso e a capacidade de infiltração é reduzida a quase nada. Um solo compactado transforma cada episódio de chuva num evento de escoamento superficial. A água não entra; foge. Arrasta partículas finas, nutrientes e o pouco capital ecológico que resta.

Quando isto acontece de forma generalizada numa bacia hidrográfica, o efeito é conhecido. Picos de cheia mais rápidos e violentos, seguidos de longos períodos sem água disponível na paisagem. O paradoxo instala-se: mais chuva anual, menos água útil. É aqui que entra a barragem como resposta padrão. Capta-se a água a jusante, armazena-se num grande volume, regula-se o caudal. O indicador melhora. O processo ecológico mantém-se degradado.

Barragens não actuam sobre o território a montante. Não reconstroem solos, não aumentam infiltração, não restauram ciclos biológicos. Pelo contrário, tendem a cristalizar o problema, ao legitimar a continuação de práticas que degradam a paisagem. Se a água «já está assegurada» mais abaixo, a montante pode continuar compactada, exposta e simplificada.

Este modelo ignora uma evidência básica: a água só é recurso quando está no lugar certo, à velocidade certa e no tempo certo. Um reservatório cheio não significa uma paisagem funcional. Significa apenas que a água foi deslocada para um ponto específico, muitas vezes longe dos locais onde deveria infiltrar, alimentar aquíferos e sustentar sistemas vivos.

O planeamento regenerativo propõe uma lógica inversa. Em vez de concentrar, distribuir. Em
vez de acelerar, abrandar. Em vez de tratar a água como um volume, tratá-la como um fluxo
integrado na paisagem. Retenção distribuída, infiltração lenta e contínua, gestão do relevo, do
solo e da vegetação como um sistema único.

Isto não é teoria. É prática aplicada em contextos semiáridos em todo o mundo, incluindo no sul da Península Ibérica. Pequenas intervenções bem posicionadas; valas de infiltração, linhas de nível funcionais, recuperação de linhas de água degradadas, aumento de cobertura vegetal permanente; produzem efeitos cumulativos significativos. Reduzem picos de cheia, aumentam a recarga dos aquíferos, estabilizam microclimas e devolvem produtividade à terra.

O ponto crítico é a escala de decisão. Estas soluções não cabem bem em modelos centralizados nem em calendários políticos curtos. Exigem leitura fina do território, planeamento informado e acompanhamento técnico continuado. Exigem aceitar que a solução não é uma obra isolada, mas um processo distribuído no espaço e no tempo.

A desertificação não se combate com infraestruturas desconectadas do território. Combate-se com planeamento territorial integrado. Com decisões que partem do solo e não do betão. Com investimento em conhecimento local, em cartografia funcional, em leitura hidrológica real e não apenas em médias estatísticas.

Isto não significa que todas as barragens sejam inúteis ou que não tenham lugar em determinados contextos. Significa que, quando são tratadas como solução principal para um problema sistémico, falham. Falham porque não actuam sobre a causa. Apenas mitigam, temporariamente, alguns sintomas.

Enquanto continuarmos a medir sucesso pela quantidade de água armazenada e não pela água efectivamente infiltrada e utilizada pela paisagem, continuaremos a confundir gestão com controlo. E controlo, em sistemas vivos, é quase sempre uma ilusão de curto prazo.

Se queremos enfrentar a desertificação de forma séria, temos de mudar a pergunta de base. Não é «onde armazenar mais água?», mas «como manter a água no território, viva e funcional, durante mais tempo?». A resposta a essa pergunta raramente cabe numa barragem.

Cabe num mapa bem lido, num solo bem tratado e numa paisagem planeada como um sistema.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos a construir grandes obras para resolver pequenos gráficos. E a paisagem, essa, continuará a secar.

BICO CALADO

  • Uma investigação da Al-Jazeera publicada a 23 de maio revelou que produtos de uso militar provenientes de pelo menos 51 países e territórios autónomos continuaram a entrar em Israel, mesmo depois de o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) ter proferido uma decisão provisória sobre o genocídio dos palestinianos em Gaza. Fonte.
  • Unidades militares e de inteligência ucranianas estão a operar secretamente no Mali em nome da França, em coordenação tanto com rebeldes da etnia tuaregue como com forças ligadas à Al-Qaeda, determinadas a derrubar o governo revolucionário do país. Além disso, Kiev está empenhada em expandir e intensificar ainda mais as suas operações em África, bem como em desestabilizar os países vizinhos. A militância ucraniana, há muito encorajada pela CIA e pelo MI6, tornou-se agora, de forma decisiva, uma ameaça internacional. Fonte.
  • “O nome dela é Maria do Rosário Palma Ramalho. O cargo não é apenas Ministra do Trabalho. É, com uma ironia que roça o SADISMO, Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Mas solidariedade com QUEM? Vamos aos FACTOS, porque a realidade não precisa de adjetivos para ser escandalosa. Segundo a declaração entregue no Tribunal Constitucional, a mulher que decide o valor do teu salário e as horas do teu descanso acumula um PATRIMÓNIO superior a 5,3 milhões de euros. Leste bem. Cinco. Vírgula. Três. MILHÕES. Ela não é apenas uma académica. Ela é a ELITE FINANCEIRA personificada. A teia familiar explica a quem ela deve lealdade. O seu marido é António Ramalho. Soa-te familiar? É o EX-CEO do Novo Banco, o homem que geriu a instituição enquanto nós, contribuintes, injetávamos lá milhares de MILHÕES. Onde está o marido dela agora? É o chairman da Lusoponte. Percebem o ciclo? O marido gere as pontes onde tu PAGAS portagem para ir trabalhar. A mulher gere as leis que permitem que tu sejas EXPLORADO quando chegas ao trabalho. O dinheiro sai do teu bolso e do teu tempo. Fica tudo em CASA DELES. Não pensem que o CONTROLO se fica pelos bancos e pelas portagens, pois a TEIA fecha-se sobre si mesma. Enquanto a mãe dita as regras de como o teu trabalho deve ser flexível, a FILHA, Inês Palma Ramalho, senta-se na cúpula do PSD como vice-presidente do partido que sustenta o governo, selando o Dinheiro, o Governo e o Partido numa SANTÍSSIMA TRINDADE do poder. Com um ECOSSISTEMA natural feito de administrações bancárias e partidárias, como pode alguém que acumula mais de 5 milhões de euros legislar sobre o salário mínimo? Passou a vida inteira nos corredores seletos e asséticos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e em presidências de associações de elite, trancada numa TORRE DE MARFIM a escrever os manuais que ensinam como a lei pode SERVIR o patrão.” Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O TRIBUNAL DE CONTAS FOI CLARO: O GOVERNO QUER CRIAR VAZIOS PARA A CORRUPÇÃO


O governo de Luís Montenegro está a executar, neste momento, um plano orquestrado para destruir a fiscalização independente sobre o dinheiro público em Portugal.
A prova está numa proposta de lei (n.º 72/XVII/1.ª) que o próprio Tribunal de Contas (TdC) já classificou como criadora de “zonas sem escrutínio” e de “mais espaço para a corrupção”. Em paralelo, o mesmo poder político promove como “moralizador” do Estado um gestor que construiu a sua carreira no Goldman Sachs, no Lehman Brothers, no centro do colapso do BES/Novo Banco e como consultor de regimes autocráticos no Golfo Pérsico.

Isto não é coincidência.
É uma operação de tomada de controlo das empresas públicas com uma cortina de fumo técnica. E os contribuintes vão pagar a factura.

O TRIBUNAL DE CONTAS FOI CLARO: O GOVERNO QUER CRIAR VAZIOS PARA A CORRUPÇÃO

No dia 15 de Maio de 2026, o Tribunal de Contas, liderado por Filipa Urbano Calvão, entregou na Assembleia da República um parecer contundente. As conclusões são devastadoras e o governo não as pode negar porque estão escritas a preto e branco.

Citação exata do ECO: “O Tribunal de Contas emitiu um parecer contundente sobre a Proposta de Lei n.º 72/XVII/1.ª, que visa alterar as suas competências e o seu modelo orgânico. No documento enviado à Assembleia da República, a instituição liderada por Filipa Urbano Calvão alerta para o surgimento de zonas sem escrutínio na gestão de dinheiros públicos, o que poderá comprometer a transparência e a legalidade na utilização dos impostos dos contribuintes.”

Citação exata do Observador: “Tribunal de Contas: proposta de lei do governo cria zonas de vazio que geram mais espaço para a corrupção.”

Citação exata do DN: “Tribunal de Contas acusa governo de querer deixar sem controlo oito mil milhões em contratos públicos.”

O que é que está em causa? O governo quer acabar gradualmente com o visto prévio do TdC – o mecanismo que hoje trava contratos ilegais antes de serem assinados.

A despesa controlada anualmente vai cair de 13 mil milhões de euros para menos de 5 mil milhões. Um corte de 60%. Isto significa que oito mil milhões de euros em contratos públicos vão passar a ser assinados sem qualquer travão preventivo.

O governo quer também excluir todo o sector empresarial do Estado da jurisdição plena do Tribunal de Contas. Empresas como a TAP, Efacec, CP, NAV, ANA – Aeroportos e a Caixa Geral de Depósitos vão ficar entregues a uma fiscalização interna – ou seja, feita pelos próprios órgãos que o governo controla.

Como alertou o TdC, as ilegalidades só serão detectadas “quando o dinheiro já foi gasto”.

Mas a norma mais nojenta desta proposta é aquela que o Tribunal de Contas classifica como “inédita no direito sancionatório público”: um decisor público pode escapar a qualquer responsabilidade se alegar que seguiu um parecer de um advogado… que ele próprio contratou.

É a institucionalização da impunidade. É o governo a dizer aos seus gestores: “Podem fazer o que quiserem, arranjem um advogado amigo e está tudo justificado.”

ENQUANTO DESMANTELA A FISCALIZAÇÃO, O GOVERNO USA UM HOMEM DO GOLDMAN SACHS E DO LEHMAN BROTHERS PARA DAR UM SELO DE “BOA GOVERNANÇA”

A jogada de manipulação mediática é perfeita. Ao mesmo tempo que o governo tira o Tribunal de Contas do terreno, o Instituto Português de Corporate Governance (IPCG) – liderado por João Moreira Rato – apresenta 23 recomendações para “moralizar” a gestão pública. E a imprensa aplaude, sem perguntar quem é este senhor.

Pois bem: João Moreira Rato trabalhou no Goldman Sachs – o banco que manipulou mercados, ajudou a Grécia a esconder a sua dívida e colocou os seus homens em governos um pouco por todo o mundo. Trabalhou no Lehman Brothers – o banco que faliu em 2008 devido a fraudes contabilísticas monumentais, arrastando a economia mundial para a maior crise desde 1929. Este é o currículo do homem que vem a Portugal dar lições de transparência.

Foi nomeado pelo governo de Pedro Passos Coelho para liderar o IGCP (gestão da dívida pública) durante a Troika. Em Julho de 2014, no auge do escândalo do BES, foi colocado como Administrador Financeiro (CFO) do BES – numa nomeação concertada entre o governo e o Banco de Portugal. Um mês depois, com o banco em colapso, transitou diretamente para o Novo Banco. Esteve no centro do maior rombo financeiro da história democrática portuguesa – um rombo que os contribuintes pagaram com milhares de milhões de euros. E depois foi administrador não-executivo da Caixa Geral de Depósitos, o maior banco público, onde o Estado é o único accionista.

E não pára por aqui. João Moreira Rato foi consultor dos governos do Kuwait e de Abu Dhabi – regimes autocráticos, paraísos fiscais agressivos, fundos soberanos opacos. Transferiu o conhecimento que adquiriu no Goldman Sachs e no Lehman Brothers para estruturas que operam à sombra da democracia. E é membro do conselho de curadores da Plataforma de Crescimento Sustentável, o think tank do antigo ministro do PSD Jorge Moreira da Silva.

Portanto, o governo de Montenegro escolhe como arauto da “boa governação” um homem que mamou no Goldman Sachs e no Lehman Brothers, nadou no esgoto do BES, aconselhou ditadores do petróleo e sentou-se na CGD. E nós é que havemos de acreditar que este senhor quer acabar com o clientelismo? É um insulto à inteligência dos portugueses.

O PARADOXO DA RAPOSA NO GALINHEIRO – E A CULPA DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

As mesmas pessoas que agora aplaudem as 23 medidas do IPCG são as que se recusam a ligar os pontos. O Goldman Sachs assessorou o governo português na privatização da TAP (depois anulada) e na reestruturação da dívida da CGD. O Lehman Brothers pode ter falido, mas o seu espírito – assunção de riscos criminosos sem consequências – continua vivo em bancos de investimento que rodam os seus quadros pelos cargos públicos. E João Moreira Rato é o produto perfeito deste sistema.

Ora o provérbio é velho: não se pede ao lobo para tomar conta do rebanho. E aqui temos um governo que, por um lado, desata as amarras do Tribunal de Contas e, por outro, exibe um gestor do Goldman Sachs e do Lehman Brothers como modelo de virtude.

É daqui que eles querem que os portugueses não olhem.

É UMA TOMADA DE ASSALTO ÀS EMPRESAS PÚBLICAS – E OS CONTRIBUINTES VÃO PAGAR

Não há teoria da conspiração.

(...)

Luís Montenegro e o seu governo estão a desmantelar deliberadamente a fiscalização independente sobre as empresas públicas para poderem nomear gestores sem escrutínio, assinar contratos de oito mil milhões de euros sem controlo prévio e garantir que, se algo correr mal, um parecer de um advogado comprado serve como salvo-conduto para a impunidade.

E para dar uma aparência de “modernização”, usam um homem que fez fortuna e carreira nos bancos que destruíram a economia ocidental e no maior escândalo financeiro português.

domingo, 24 de maio de 2026

BRASIL: A DESASTROSA PRIVATIZAÇÃO DA SABESP

Peter Dazeley/Getty Images
  • A privatização da Sabesp tornou a empresa uma máquina atamente lucrativa, contudo mortal, priorizando o lucro dos acionistas em detrimento da qualidade, segurança e direitos humanos à água e saneamento. Enquanto os lucros mais do que duplicaram, as despesas com pessoal caíram 13,5%, foram despedidos 47% dos funcionários e as remunerações dos diretores subiram 626%. Como resultado, registou-se enorme queda de qualidade – frequentes falhas de água, aumento de 70% no número de reclamações e 70% de queixas não atendidas. Pior: houve acidentes graves: rompimento de esgoto na Marginal Tietê (cratera aberta por um ano), morte de idosa em Mauá, colapso de reservatório em Mairiporã (uma morte), explosão de tubulação de gás no Jaguaré (duas mortes e 10 moradias destruídas). Fonte.
  • As autoridades do distrito de Orange, na Califórnia, ordenaram a evacuação de 40 000 pessoas devido a receios de uma fuga química que ameaçava derramar-se ou explodir. O problema surgiu numa instalação da GKN Aerospace, na cidade de Garden Grove, onde um tanque de armazenamento com metacrilato de metilo começou a libertar gases e ameaçava romper-se. O produto químico, que é altamente inflamável, é utilizado na fabricação de resinas e plásticos. Fonte.


REFLEXÃO

SDR PORTUGAL, CONSUMIR MAIS EM NOME DA ECONOMIA CIRCULAR


A SDR Portugal, uma associação sem fins lucrativos, é apresentada como uma das grandes conquistas da nova economia circular. Uma solução moderna, sustentável e inevitável para aumentar as taxas de reciclagem e aproximar Portugal dos objectivos ambientais europeus. A narrativa pública é simples, eficaz e cuidadosamente construída: devolver embalagens para salvar o planeta.
Consumir continua perfeitamente aceitável. Desde que a culpa venha com código de barras e seja colocada na máquina correcta.

O presidente da SDR Portugal é Leonardo Bandeira de Melo Mathias, antigo Secretário de Estado Adjunto e da Economia no governo de Pedro Passos Coelho. Um dos vice-presidentes é António Augusto dos Santos Casanova Pinto, vice-presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal Marcas e administrador executivo do grupo.

Segundo o Relatório e Contas de 2024 da própria SDR, os órgãos sociais não são remunerados. No entanto, os gastos com remunerações em 2024 ascenderam a €136.333,25 antes de impostos (Seg. Social + IRS). O número de pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2024 era de apenas 3, sendo referido no relatório que existia um Director-Geral contratado desde Junho de 2022 e que apenas em Dezembro de 2024 foram contratados um Director de Operações e um Director de Tecnologias de Informação.
Ou seja, durante praticamente todo o exercício de 2024, o grosso dos encargos salariais esteve concentrado numa única pessoa e com um valor (€9.738 líquidos /mês) bastante interessante para uma estrutura ainda em fase inicial de operação. Afinal, até a reciclagem moderna exige a sua pequena aristocracia técnica.

O próprio Relatório e Contas revela ainda outro detalhe particularmente curioso: existe um conjunto de grandes empresas que realizaram empréstimos à SDR, os quais, segundo o Relatório de Gestão, serão pagos “quando a associação tiver meios financeiros para o fazer”.
Traduzindo do dialecto institucional para português corrente: o dinheiro há-de voltar. Ou seja, não se trata propriamente de capital a fundo perdido nem de um gesto puramente filantrópico. Trata-se de dinheiro que deverá regressar futuramente a quem o colocou no sistema.

Entre os credores encontram-se:
Auchan Retail Portugal, S.A.: €247.000
ITMP Alimentar, S.A.: €247.000
Super Bock Bebidas, S.A.: €247.000
Pingo Doce - Distribuição Alimentar, S.A.: €247.000
Lidl & Companhia: €247.000
Modelo Continente Hipermercados, S.A.: €247.000
Sumol Compal Marcas, S.A.: €247.000
Coca-Cola Europacific Partners Unipessoal, Lda: €247.000
SCC - Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, S.A.: €247.000
Unilever Fima, Lda: €247.000
Total: €2.470.000

A pergunta verdadeiramente interessante não é se o sistema é ecológico. É perceber como, quando e através de que mecanismos financeiros estes valores serão recuperados. Porque num sistema financiado por depósitos, taxas, fluxos operacionais e receitas futuras associadas à reciclagem, alguém acabará inevitavelmente por pagar a factura final da virtude ambiental.
No entanto, quando se observa o modelo para além da superfície publicitária e das campanhas institucionais, percebe-se que talvez estejamos perante algo bastante mais complexo do que uma simples iniciativa ecológica.

O que está a ser criado não é apenas um sistema de reciclagem. É uma infraestrutura económica, logística e tecnológica de enorme dimensão, construída em torno da circulação permanente de embalagens, depósitos, dados e contratos.
A lógica do mecanismo parece inocente. O consumidor compra uma bebida, paga um valor adicional associado à embalagem e recupera esse montante caso a devolva num ponto autorizado. À primeira vista, trata-se apenas de um incentivo comportamental. Uma pequena penalização temporária destinada a ensinar adultos a colocar recipientes vazios no sítio correcto. Mas é precisamente aqui que o modelo se torna interessante. O sistema não vive apenas da reciclagem.Vive sobretudo da arquitectura financeira criada à volta da reciclagem.

Cada embalagem deixa de ser apenas um recipiente descartável e transforma-se numa unidade económica rastreável:
- alguém paga
- alguém recolhe
- alguém valida
- alguém transporta
- alguém processa
- alguém monitoriza
- alguém factura

A garrafa já não termina no lixo. Passa a circular dentro de uma cadeia económica cuidadosamente organizada, onde praticamente cada etapa gera actividade financeira.

O primeiro aspecto raramente explicado de forma transparente é a importância dos depósitos não reclamados. Nem todas as pessoas irão devolver embalagens. Nem todas terão tempo. Nem todas terão máquinas próximas. Nem todas guardarão garrafas em casa. Nem todas considerarão justificável deslocar-se por alguns cêntimos. Nem todas transformarão a cozinha numa extensão informal do centro de triagem nacional.

E é precisamente aí que surge uma das peças mais relevantes do sistema. Os depósitos pagos e nunca recuperados permanecem dentro do circuito financeiro da estrutura. Ou seja, uma parte significativa da sustentabilidade económica do modelo assenta não apenas na reciclagem, mas também na inevitável imperfeição humana.

E aqui vale a pena pegar nas próprias palavras do presidente da SDR Portugal: “Só para lhe dar um enquadramento, são consumidas em Portugal 2,1 mil milhões de garrafas de plástico (PET) até três litros. E as latas de aço e de alumínio, portanto, são 2,1 mil milhões de unidades por ano. Agora imagine…”

Sim, vamos então imaginar.
Com optimismo ambiental, admitamos que 70% das embalagens são devolvidas. Isso significa que 30% ficam fora do circuito de retorno.
2,1 mil milhões × 30% = 630 milhões de embalagens não devolvidas.
Multiplicando por um depósito de 10 cêntimos:
630 milhões × €0,10 = €63 milhões.
Ou seja, mesmo num cenário bastante optimista, estariam potencialmente 63 milhões de euros anuais a permanecer dentro do sistema apenas através de depósitos não reclamados.

Agora abandonemos por momentos o optimismo institucional e ambiental. Se a taxa de retorno fosse de 50%, então metade das embalagens não regressaria:
2,1 mil milhões × 50% = 1.050 milhões de embalagens.
Multiplicando novamente pelos 10 cêntimos:
1.050 milhões × €0,10 = €105 milhões.
Cento e cinco milhões de euros.

Naturalmente, estes valores não representam lucro directo líquido nem podem ser analisados isoladamente dos custos operacionais do sistema. Mas ajudam a perceber a dimensão financeira potencial criada por um mecanismo que depende precisamente de uma percentagem significativa de embalagens nunca ser devolvida.

Há aqui uma ironia difícil de ignorar. O sistema apresenta-se como solução para mudar comportamentos, mas beneficia financeiramente do facto de esses comportamentos nunca mudarem completamente. Se os consumidores devolvessem rigorosamente todas as embalagens, uma das maiores almofadas financeiras do mecanismo desapareceria. Isso obrigaria inevitavelmente a:
- aumentar taxas
- reforçar contribuições da indústria
- procurar mais financiamento público
- ou criar novas formas de receita

Por outras palavras, o sucesso ambiental absoluto poderia transformar-se num problema económico bastante menos sustentável do que os folhetos institucionais sugerem. Naturalmente, esta parte raramente aparece nos vídeos promocionais acompanhados por folhas verdes ao vento, crianças sorridentes e música suficientemente inspiradora para absolver moralmente uma garrafa de plástico. Mas os depósitos não reclamados são apenas uma componente do ecossistema.

Outra dimensão do modelo surge quando se observa a infraestrutura criada à sua volta.
Para operacionalizar a devolução de milhões de embalagens, torna-se necessário construir uma rede nacional composta por:
- máquinas automáticas de recolha
- software de reconhecimento e validação
- sistemas antifraude
- logística reversa
- transporte especializado
- centros de triagem
- compactação industrial
- plataformas digitais
- manutenção técnica
- monitorização estatística
- auditorias
- certificações ambientais
- contratos operacionais

Ou seja, cria-se um novo sector económico completo em torno de algo que, até aqui, cabia essencialmente num ecoponto. E como acontece frequentemente na economia contemporânea, o discurso público concentra-se na moralidade ambiental, enquanto os fluxos financeiros reais se distribuem silenciosamente pelos bastidores tecnológicos e logísticos.
Porque alguém fabrica as máquinas. Alguém fornece o software. Alguém gere os dados. Alguém assegura manutenção. Alguém opera a logística. Alguém ganha contratos. Alguém presta consultoria. Alguém vende a solução para o problema que o próprio sistema ajudou a transformar numa nova necessidade estrutural. O operador central pode apresentar-se como entidade sem fins lucrativos, o que é tecnicamente verdadeiro. Mas isso pouco diz sobre o volume de actividade económica gerada à volta da estrutura.
Aliás, um dos traços mais sofisticados dos modelos contemporâneos é precisamente este: o núcleo institucional mantém uma aparência neutra e moralmente virtuosa, enquanto a rentabilidade se espalha discretamente pelas camadas periféricas do sistema.

Existe ainda uma dimensão menos visível, mas potencialmente mais valiosa a longo prazo: os dados.
Cada devolução gera informação. Cada máquina recolhe padrões de utilização. Cada localização produz métricas comportamentais. Cada embalagem contribui para mapear hábitos de consumo. Num contexto onde indicadores ambientais, métricas ESG* e monitorização de comportamento possuem valor económico crescente, o controlo de uma infraestrutura nacional deste tipo representa muito mais do que reciclagem. Representa capacidade de observação, recolha, análise e venda de dados. (*Indicadores quantitativos e qualitativos que medem o desempenho de uma empresa nas áreas Ambiental, Social e de Gestão)

Quem gere um sistema desta escala passa a ter acesso a:
- padrões de consumo
- volumes regionais
- sazonalidade de vendas
- participação dos consumidores
- fluxos logísticos
-métricas ambientais
- indicadores de conformidade regulatória
O lixo deixa de ser apenas lixo.Torna-se informação.

Outro aspecto particularmente curioso é a transferência parcial de trabalho da indústria para o cidadão. Antes, o consumidor colocava a embalagem no ecoponto e encerrava aí a sua participação. Agora, espera-se que:
- guarde embalagens em casa sem as danificar
- organize resíduos
- transporte recipientes
- procure máquinas disponíveis
- aguarde validação
- execute parte da logística operacional

Tudo isto naturalmente apresentado como exercício de cidadania ambiental. Na prática, parte do trabalho anteriormente absorvido pelo sistema tradicional de resíduos é silenciosamente transferido para o próprio consumidor, que continua simultaneamente a financiar o processo através dos depósitos pagos.

Entretanto, os grandes produtores de embalagens conseguem algo ainda mais relevante: legitimidade. As empresas responsáveis pela colocação de milhões de embalagens descartáveis no mercado passam a operar dentro de uma arquitectura verde certificada, compatível com exigências regulatórias europeias e extremamente útil para relatórios ESG, reputação corporativa e marketing institucional.

A questão deixa então de ser: “como reduzir embalagens descartáveis?” E passa subtilmente a ser:“como integrar embalagens descartáveis num circuito economicamente rentável e ambientalmente legitimado?”
É uma diferença conceptual importante.
O sistema não elimina o consumo massivo de recipientes descartáveis. Pelo contrário: reorganiza-o, profissionaliza-o e transforma-o numa cadeia económica ainda mais sofisticada.
No fundo, o que está a emergir não é apenas um mecanismo de reciclagem. É a monetização integral da embalagem desde o momento da compra até ao momento da devolução.

A embalagem gera receita quando é vendida. Gera receita quando circula. Gera receita quando não é devolvida.Gera receita quando é devolvida. Gera receita quando é processada. Gera receita enquanto dado estatístico. E gera legitimidade política e ambiental durante todo o percurso.

Nada disto significa que reciclar seja inútil ou que a reutilização de materiais não tenha benefícios reais. O problema não está na reciclagem. Está na forma quase religiosa como certos modelos económicos são apresentados como altruísmo ambiental puro, quando na realidade envolvem estruturas financeiras altamente sofisticadas e interesses económicos evidentes.

Porque quando uma solução ecológica cria uma indústria multimilionária sustentada por depósitos, contratos, dados, logística, tecnologia e falhas previsíveis do comportamento humano, talvez seja legítimo perguntar se o principal objectivo é proteger o ambiente… ou descobrir como transformar até o lixo numa fonte permanente de rentabilidade.

E nesse aspecto, convenhamos, o modelo é brilhante.

NB - perspetivas complementares sobre este tema:


BICO CALADO

Foto: Wang Dongming/China News Service/Getty Images
  • “(...) Agora atentem nesta forma de resolver a crise da habitação, num país onde 75% dos trabalhadores recebem menos de 1000 euros por mês. Primeiro: introduzir o conceito de "renda moderada" até 2300 euros. Segundo: dar borlas fiscais a quem queira alugar a sua casa por um valor moderado. Terceiro: Dar borlas fiscais aos construtores sem exigir que essa borla apareça no preço final da venda. Quarto: Não tributar os lucros da especulação imobiliária se forem usados para comprar mais casas que, por sua vez, serão colocadas no mercado das "rendas moderadas". Quinto: fechar o circulo dando borlas fiscais a fundos imobiliários que invistam, lá está, em habitações para rendas moderadas. Em resumo, o governo não só garante que a especulação não termina como premeia quem a produz. (…)” Tiago Franco, A arte de prolongar uma crise.
  • O Governo quer que pareceres de advogados possam ilibar os políticos e gestores públicos de penalizações por despesas ilícitas. A medida consta da Proposta de Lei para a revisão - em baixa - dos poderes do Tribunal de Contas, já submetida ao Parlamento. FonteEsta vigarice é decalcada dos EUA. Paul Krugman conta como é. Tradução aqui.
  • A armadilha nada inocente da “Educação Financeira”, Rafael Guerra de Oliveira – Outras Palavras.

LEITURAS MARGINAIS

ISRAEL E A VIOLÊNCIA


Se não fosse a exibição gratuita e ofensiva do vídeo pelo ministro de Israel, Itamar Ben-Gvircom prisioneiros de joelhos, agrilhoados e agredidos, o governo português fingiria que nada tinha sabido.

Se fossem apenas dezenas de milhares de mortos, estropiados e famélicos de Gaza que Israel massacra, homens, mulheres e crianças, e expulsa do território, o ministro Paulo Rangel limitar-se-ia a dizer, como o fez o anterior PR, que foram eles que começaram. A referência ao covarde e cruel massacre do Hamas servirá de desculpa perpétua.

Se Israel se limitasse à limpeza étnica dos territórios que julga seus, por direito divino, o Governo português, que desistiu de ter política externa própria, limitar-se-ia a dizer que está sempre ao lado das democracias contra as ditaduras.

Mas desta vez foram dois médicos, portugueses e caucasianos, os cidadãos de coragem. Sabem que também se salvam vidas não deixando cair no olvido o drama dos palestinos e que é preciso arriscar para manter presente na opinião pública o drama do povo que se extingue à fome, ao frio e com doenças epidémicas, expulso de onde nasceu e onde dificilmente voltará.

E não tinham o rótulo de políticos, como sucedeu no ataque a uma deputada do BE, que teve igual coragem e determinação, Mariana Mortágua! Desta vez a coragem não foi objeto de chacota e as redes sociais não se transformaram em sarjetas do ódio a bolçar impropérios.

O destrambelhamento do ministro fascista e a exibição gratuita da humilhação grotesca aos prisioneiros seviciados levaram o PM a condenar o ato e o ministro Paulo Rangel a pedir explicações, o mínimo para salvarem a face depois de numerosas manifestações de subserviência a Israel e aos EUA de Trump.

Gonçalo Reis e Beatriz Bartilotti, os médicos cuja coragem contribuiu para reavivar na opinião pública o drama palestino, honraram a profissão e o nosso país.

Desta vez, por mais que se cubram de opróbrio na defesa de Israel as avençadas, Helena Ferro Gouveio e Helena Matos, Israel não fica impune na opinião pública.

E até o PM e o MNE foram obrigados a manifestar um módico de decência enquanto na Base das Lajes continua a cumplicidade deste governo nos crimes dos EUA, na senda da passagem de presos e voos da CIA especialmente entre 2002 e 2006, na transferência para a prisão de Guantánamo.

Esses crimes começaram quando era PM Durão Barroso, o Presidente não executivo do Banco Goldman Sachs International. Os crimes compensam.

Se Montenegro tivesse a coluna vertebral de Pedro Sanchéz!

sábado, 23 de maio de 2026

ANTÁRTIDA: GLACIAR RECUA 24 KMS EM APENAS 15 MESES

  • O glaciar Hektoria, na Antártida, ruiu a uma velocidade impressionante, recuando 24 km em apenas 15 meses e estabelecendo um recorde moderno de perda de gelo terrestre. Os cientistas afirmam que o aquecimento global e a instabilidade provocada pelo oceano transformaram o glaciar, que parecia estável, numa estrutura em rápido desmoronamento praticamente da noite para o dia. Fonte.
  • Em 2025, foi removido um número recorde de barragens e outras barreiras fluviais em toda a Europa, com o objetivo de restaurar ecossistemas e ajudar a vida selvagem a prosperar. Foram desmanteladas 602 barreiras (barragens, açudes, bueiros, eclusas), um aumento de 11 % em relação ao ano anterior e um aumento de seis vezes desde 2020. Isto reconectou 3.730 km de rios, contribuindo para o objetivo da UE de restaurar 25.000 km até 2030. A Suécia, a Finlândia e a Espanha lideraram o processo, respetivamente com 173, 143 e 109 casos. Fonte.

BICO CALADO

  • Centenas de groenlandeses manifestaram-se em frente ao novo consulado dos EUA em Nuuk, numa altura em que o enviado do presidente Donald Trump deu a entender que continua a pretender controlar o território dinamarquês autónomo que se estende entre os oceanos Ártico e Atlântico. Vários políticos groenlandeses recusaram igualmente os convites para assistir à inauguração do consulado. Fonte.
Cavaco, a múmia...
  • "Vá lá, jornalistas, perguntem à ministra --> Quem redigiu a proposta de alteração ao Código do Trabalho? Já sabemos que não foram os serviços do Estado, mas foi a ministra? Quando? --> Foi um escritóro de advogados? --> Se sim, qual? --> Quem pagou a factura? --> Se foi o Estado, houve concurso público? Porquê esse escritório? ---> Se não foi o Estado? Quem pagou? Como se deixou que um privado tenha pago a factura? Foi à borla? Não fica o Governoi capturado por quem pagou ou que lhe deu este presente?" João Ramos de Almeida.
  • Um plano conjunto entre a polícia boliviana e forças militares dos EUA para capturar o ex-presidente Evo Morales e, segundo relatos, massacrar moradores que resistissem. Comunidades indígenas rurais cercaram a residência de Morales para protegê-lo. Trabalhadores ocuparam e bloquearam o aeroporto de Chimoré (próximo à casa dele) para impedir pousos de aeronaves americanas. Há mais de duas semanas, 22 bloqueios de estradas por grupos camponeses paralisam partes da Bolívia, exigindo a renúncia do presidente centrista Rodrigo Paz (pró-EUA e Israel). Em 18 de maio, mais de 10 mil apoiadores de Morales chegaram a La Paz após seis dias de caminhada. Houve confrontos com a polícia, dinamites e 90 prisões. Evo Morales (presidente de 2006 a 2019) reduziu pobreza e desigualdade, mas foi alvo de um golpe em 2019 após vitória eleitoral contestada pela OEA (financiada pelos EUA). A militar Jeanine Áñez assumiu, com reconhecimento imediato de Trump. O principal interesse dos EUA na Bolívia é o lítio (70% das reservas mundiais). Antes do golpe de 2019, Morales fechou um contrato de US$ 2,3 bilhões com a China, rejeitando exigências de empresas americanas e canadenses. Fonte.
  • No contexto da escalada da agressão dos EUA contra Cuba, através de uma campanha de pressão máxima e da ameaça de intervenção militar, o governo dos EUA tem vindo a financiar secretamente uma vasta rede de meios de comunicação cubanos, que se dizem independentes, numa tentativa de promover uma mudança de regime contra o governo socialista independente. Estes media apresentam-se como jornalismo de investigação imparcial, mas estão a ser discretamente financiados por Washington através da [agora reestruturada] USAID, da Fundação Nacional para a Democracia e da Fundação Open Society, com o objetivo de semear o descontentamento na nação caribenha, preparando-a para uma invasão potencialmente «iminente» por parte da administração Trump. Fonte.
  • "O infeliz Paulo Rangel, que se toma pelo chefe de uma coisa inexistente, que é a nossa política externa, assim duas vezes humilhado publicamente, quis vir esclarecer, com toda a “clareza”, a declaração “não literal” de Rubio. Uma coisa, diz ele, foi a utilização das Lajes antes da ofensiva contra o Irão, outra coisa foi depois disso. Mas, tanto quanto se percebeu, antes não perguntámos para que queriam utilizar a base e autorizámos e depois de sabermos continuámos a autorizar. Literalmente. E até se dá este facto irónico: enquanto as Lajes albergam 15 gigantescos ­aviões KC-30, que abastecem em voo os aviões que vão atacar o Irão, as mesmas Lajes ficaram dias sem jet fuel para os voos comerciais com a ilha.” Miguel Sousa Tavares.

LEITURAS MARGINAIS

A PILHAGEM DA AMÉRICA
Paul Krugman, Substack. Trad. O’Lima.


A administração Trump está a criar um fundo secreto de 1,776 mil milhões de dólares — 1776, perceberam? — para indemnizar as vítimas de «guerra jurídica e instrumentalização». Só para que fique claro: se és contribuinte nos EUA, esta medida significa que quase 1,8 mil milhões de dólares do teu dinheiro serão distribuídos a quem quer que um painel nomeado por Donald Trump decida recompensar. É provável que os beneficiários incluam os insurrectos de 6 de janeiro, bem como Trump, a sua família e os seus aliados.

Poucas coisas me chocam hoje em dia, mas este desdobramento — em que um Departamento de Justiça que trabalha para Trump está a pagar uma quantia avultada para “resolver” um processo movido pelo próprio Trump — é um novo ponto baixo em termos de auto-negociação, revelando ainda mais o total desprezo de Trump pelo povo americano.

A corrupção em grande escala por parte de Trump e dos seus lacaios não é novidade. Mas a descarada audácia deste último episódio de pilhagem eleva a situação a um novo patamar. Até agora, assistimos a uma combinação de capitalismo de compadrio e abuso de informação privilegiada. Os plutocratas e as empresas têm enriquecido Trump através de canais secretos, especialmente criptomoedas, a troco de contratos governamentais e favores políticos, enquanto o próprio Trump e pessoas próximas dele têm feito apostas de mercado extremamente lucrativas graças ao conhecimento antecipado das políticas governamentais.

Mas agora Trump eliminou os intermediários, dizendo aos seus funcionários para pagarem dinheiro diretamente a ele ou a qualquer outra pessoa de sua preferência.

É verdade que já sabíamos que Trump era o presidente mais corrupto da história dos EUA. Mas agora Trump é o líder mais explicitamente corrupto do mundo atual. Afinal, Vladimir Putin roubou milhares de milhões, mas nunca de forma tão descarada. Até os ditadores do Terceiro Mundo tentam normalmente disfarçar a sua corrupção.

Não digam que este fundo secreto financiado pelos contribuintes não terá consequências políticas.

Pelo contrário, as análises de sondagens e de grupos focais que vi indicam que os eleitores estão muito indignados com a corrupção. O roubo de dinheiro dos contribuintes por parte de Trump, enquanto as pessoas estão a perder a cobertura de saúde e a ajuda alimentar e a sofrer com o aumento dos preços induzido por Trump, é munição perfeita para os democratas nas próximas eleições.

Por isso, devemos perguntar-nos por que razão os trumpistas abandonaram toda a contenção. Houve muitos políticos corruptos na história dos EUA – embora fossem insignificantes em comparação com Trump. No entanto, pelo menos tentavam esconder a sua corrupção, ou pelo menos mantê-la discreta e negável, a fim de evitar uma reação negativa dos eleitores.

Eu diria que a natureza descarada da nova pilhagem é um indicador do rumo que a América sob o trumpismo irá tomar nos próximos meses e anos.

É verdade que Trump tem uma base que o apoiará aconteça o que acontecer, acreditando, em muitos casos, literalmente que ele foi escolhido por Deus. Isto estabelece um limite mínimo para este apoio. Mas as suas recentes sondagens desastrosas, como escreve Nate Cohn no Times, sugerem que esse limite mínimo pode ser mais baixo do que muitos pensavam.

Já sabemos que Trump e os seus aliados não têm qualquer intenção de enfrentar eleições livres e justas. Com a ajuda incondicional do Supremo Tribunal de Roberts, já manipularam as eleições intercalares através da redistribuição dos círculos eleitorais. Os lacaios de Trump estão a tentar ativamente reduzir a afluência às urnas dos eleitores de tendência democrata, exigindo aos estados o direito de contestar os seus cadernos eleitorais. E seria ingénuo pensar que a redistribuição dos distritos eleitorais será o fim dos esforços do MAGA para minar a democracia.

Ainda assim, Trump está ciente de que, mesmo com a manipulação eleitoral republicana, novembro pode trazer uma onda azul suficientemente grande para entregar aos democratas a Câmara dos Representantes e, muito possivelmente, o Senado. G. Elliott Morris estima que os democratas precisarão de uma vantagem de 4 pontos no voto popular para ganhar a Câmara, mas a última sondagem do Times dá-lhes uma vantagem de 11 pontos. Por que razão, então, não está ele a tentar ser pelo menos um pouco discreto na sua corrupção?

Uma resposta é que, mesmo que o movimento MAGA sofra uma derrota esmagadora em novembro, os democratas não podem contar com uma onda eleitoral em todos os ciclos, e o panorama está agora fortemente desfavorável para eles. Como escreve Morris: “Embora a situação para os democratas não seja necessariamente grave para 2026, a situação para a democracia em 2028 e nos anos seguintes é, sem dúvida, grave.”

Assim, pode-se considerar o fundo secreto de 1,8 mil milhões de dólares como uma promessa ao mundo MAGA de que haverá uma recompensa se eles permanecerem ao seu lado durante os próximos dois anos e meio.

Para além disso, estamos, na verdade, a assistir ao que acontece quando a corrupção e a criminalidade de um regime quase autoritário ultrapassam o ponto de não retorno.

Nesta altura, Trump e os seus lacaios do MAGA já roubaram tanto, cometeram tantos crimes — não apenas roubo, mas levar os Estados Unidos à guerra ilegalmente, abusar de detidos do ICE e muito mais — que, se e quando perderem o poder, muitos deles enfrentarão, na melhor das hipóteses, a ruína pessoal e, na pior, anos de prisão. Isto aconteceria mesmo que parassem de cometer mais crimes.

Portanto, não há qualquer incentivo para que ponham fim à sua criminalidade, nem para que cessem as tentativas de subornar outros para que os sigam. Ou conseguem destruir a América tal como a conhecemos, ou não. E até que isso se resolva, mais vale envolverem-se em ainda mais corrupção e atos criminosos.

Pensem nisto desta forma: a gravidade do que os trumpistas já fizeram criou uma espécie de buraco negro no centro da vida política americana — e os trumpistas já cruzaram o horizonte de eventos, a fronteira para além da qual não há fuga. Por isso, farão coisas cada vez mais terríveis, porque já não têm mais nada a perder.