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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

INGLATERRA: DESCARTE ILEGAL DE LIXO BATE RECORDE

  • Os casos de descarte ilegal de lixo em Inglaterra atingiram o nível mais alto desde o início dos registos atuais, com a maioria das infrações continuando a envolver resíduos domésticos. Em 2024-25, apesar de se ter registado um aumento de 9% de situações ilegais em relação ao ano anterior, o número de multas judiciais diminuiu, com apenas 0,2% dos incidentes a resultar em qualquer ação judicial. Fonte.
  • Durante a campanha para o Senado, o republicano de Montana e ex-membro da Navy SEAL Tim Sheehy criticou a «porcaria da energia verde subsidiada», apesar de já ter instalado sistemas solares e de armazenamento de baterias no telhado da sua casa em Bozeman. Fonte.
  • Cinco grandes empresas petrolíferas obtiveram lucros de quase 467 mil milhões de dólares desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em grande parte devido ao aumento dos preços do petróleo e do gás durante a crise energética global. Este aumento nos lucros ocorreu enquanto muitas famílias na Europa enfrentavam contas de energia elevadas. Fonte.

BICO CALADO

Paul Starosta/Getty Images
  • Donald Trump recebeu uma ovação de pé dos legisladores republicanos e funcionários do governo quando se gabou durante o seu discurso sobre o estado da União de ter retirado a assistência nutricional de milhões de pessoas, o que ele eufemisticamente caracterizou como tirar as pessoas do programa de vale-refeição. «Num ano, tiramos 2,4 milhões de americanos — um recorde — do programa de vale-refeição», disse Trump durante o seu discurso de quase duas horas. Fonte.
  • Ex-advogado do ICE afirma que a agência está a ensinar os recrutas a violar a Constituição. «Nunca na minha carreira recebi uma ordem tão flagrantemente ilegal», afirmou Ryan Schwank, que denunciou no mês passado um memorando secreto do ICE instruindo os agentes a entrar em casas sem mandados judiciais. Fonte.
  • A conta oficial da CIA no X publicou uma mensagem em persa apelando aos iranianos para contactarem a agência de forma segura usando ferramentas como Tor e VPNs, dizendo que poderia «ouvir a sua voz». A divulgação reflete os esforços de longa data dos EUA para apoiar ativos de inteligência dentro do Irão, já que o líder supremo aiatolá Ali Khamenei acusou repetidamente os EUA e Israel de alimentar a agitação no início deste ano. Fonte.
  • Defesa civil ou guerra militar. Mário Tomé, Jornal Maio.
  • A IA não está a substituir-te. Está a reescrever as regras sob as quais trabalhas. Enrique Dans, Medium.
  • Na terça-feira à noite, colonos israelitas incendiaram casas e veículos palestinianos na aldeia de Susya, a sul de Hebron, na Cisjordânia ocupada, numa onda contínua de ataques durante o Ramadão. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

CHEGA E O SEU FINANCIAMENTO
A ubiquidade de um texto sem autoria confirmada


Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa Venturiana do "povo contra as elites".

André Ventura discursa contra o "sistema de interesses instalados" num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete "limpar Portugal" da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

É teatro. Obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente anti-sistema. É preciso uma suspensão de descrença digna de ópera Wagneriana.

Mas talvez o mais fascinante não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exactamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extractos bancários e cruzar transferências.

A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022.

Manuel Carlos de Melo Champalimaud, maior accionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti-elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação "Torre de Controlo" sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que fácilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa de golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exactamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte.

Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

Porque aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre "povo", "nação", "soberania".

É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

Leiamos, então. Directamente do programa do Chega, página 45: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte". Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

Página 49, sobre saúde especificamente: "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente".

Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não reformá-lo. Não melhorá-lo. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem azar. Exactamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer pela primeira vez em décadas entre países desenvolvidos. Exactamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exactamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema actual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

Há um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Óptimo para quem pode comprar os activos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

E para o "povo" que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exactamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, "esquerdalha". Mas soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o "subsidiodependente") enquanto se rouba o que resta da sua protecção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para cima.

E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, performar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extractos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

E há tanto por que estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exactamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já tem demasiado de ambos.

E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro combinado com ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito para uma agenda que nunca ganharia eleições se fosse apresentada honestamente.

Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa "vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos", seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exactamente isso — desde que embrulhe em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extractos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. "Esquece-se" de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos. E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. O SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de protecção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

Mas provavelmente não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não pára. Nunca pára. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

É quase poético. Se não fosse trágico.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ILUMINAÇÃO PÚBLICA VERMELHA REDUZ EFEITOS DA POLUIÇÃO LUMINOSA

A luz vermelha avisa os transeuntes que esta é uma área natural especial que o município deseja proteger e preservar. 
(Foto: AFRY| Rune Brandt Hermannsson)
  • Cidades europeias estão a instalar iluminação pública vermelha, um programa para reduzir os efeitos da poluição luminosa, particularmente sobre os animais noturnos. Fonte.
  • Mansões de luxo ilegais substituem florestas tropicais neste parque nacional da UNESCO. Fonte.
  • Os distritos dos EUA localizados mais próximos de centrais nucleares em funcionamento apresentam taxas de mortalidade por cancro mais elevadas do que as localizados mais longe, conclui um novo estudo liderado pela Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard.

REFLEXÃO

POR QUE CADA VEZ MAIS PAÍSES ESTÃO A RECORRER À SEMEADURA DE NUVENS
Sam Meredith, CNBC. Trad. O’Lima.

Nanomaterial experimental é lançado para o Centro Nacional de Meteorologia e Sismologia durante um voo de demonstração de semeadura de nuvens em Al Ain, Emirados Árabes Unidos, em 3 de março de 2022. À medida que as alterações climáticas tornam a região mais quente e seca, os Emirados Árabes Unidos lideram os esforços para extrair mais chuva das nuvens, e outros países correm para acompanhar. 
(Bryan Denton/The New York Times/The Denver Post)

Em todo o mundo há cada vez mais países a recorrer a uma técnica de modificação climática com décadas de existência, como parte de um esforço para controlar quando e onde chove.

Juntamente com os EUA e a China, que possuem o maior programa de modificação climática do mundo, França, Rússia, Índia e Arábia Saudita constam de uma lista crescente de países que experimentaram a semeadura de nuvens.

Para muitos, a adoção de operações de produção de chuva decorre da necessidade de aumentar o abastecimento de água, à medida que a procura global continua a aumentar em meio à crise climática.

Outros têm procurado usar a semeadura de nuvens para dispersar o nevoeiro nos aeroportos, combater a poluição do ar, reduzir os danos causados pelo granizo ou mesmo manipular o clima para grandes eventos, como os Jogos Olímpicos de Verão de 2008 em Pequim.

A semeadura de nuvens visa melhorar a capacidade de uma nuvem de produzir chuva ou neve através da introdução de pequenas partículas, geralmente iodeto de prata. O processo é limitado tanto em área como em duração e, ao longo do tempo, estima-se que aumente a precipitação local em 5% a 15%.

No entanto, o conceito não é isento de controvérsia. Desde que começou a ser praticada na década de 1940, as experiências de semeadura de nuvens têm suscitado preocupações quanto aos potenciais riscos ambientais e ecológicos e alimentado tensões de segurança regional, com países a acusarem-se mutuamente de roubar chuva.

Augustus Doricko, CEO da Rainmaker, uma empresa de semeadura de nuvens sediada na Califórnia, afirmou que há duas dinâmicas em jogo que parecem estar a reacender o interesse das pessoas nesta tecnologia, tanto nos EUA como em todo o mundo.
«Uma delas é realmente apenas uma circunstância: muitos desses países e regiões estão a sofrer com uma maior volatilidade nos padrões climáticos e de precipitação e no seu abastecimento de água, o que os está a levar, por necessidade, a serem mais criativos do que eram no passado», disse Doricko à CNBC por telefone.

«A segunda razão, e acho que esta é a verdadeira razão pela qual a Rainmaker foi criada, é porque nos últimos anos houve alguns avanços fundamentais na forma de fazer medições e atribuir os efeitos da semeadura de nuvens.»

Apesar de um legado de 80 anos, Doricko disse que o interesse na semeadura de nuvens «realmente diminuiu» nas décadas de 1970 e 1980, porque era difícil medir com precisão a quantidade de precipitação derivada das aplicações de semeadura de nuvens.

Avanços tecnológicos recentes permitem agora verificar o sucesso dessas implantações em tempo real, disse Doricko.

A empresa, que afirma ter a intenção de deter a aridificação do oeste americano, cresceu rapidamente nos últimos meses, passando de apenas 19 funcionários no início de 2025 para 120 atualmente, uma tendência que parece reforçar o crescente interesse pela semeadura de nuvens.

No entanto, apesar do nome, Doricko disse que os projetos de semeadura de nuvens da empresa são projetados principalmente para fazer nevar.

“Acabei por dar um nome errado à empresa, e ‘Snowmaker’ provavelmente teria sido mais adequado. Não soa tão bem para o que vale a pena”, disse Doricko. E acrescentou: “Acho que o mais importante para a Rainmaker nesta altura é apenas apresentar evidências inequívocas da neve artificial — e fazê-lo com tanta frequência que seja inegável que se trata de uma tecnologia viável e escalável.”

Outras empresas de semeadura de nuvens sediadas nos EUA incluem a Weather Modification Inc. em Dakota do Norte e a North American Weather Consultants em Utah, embora alguns estados americanos, como Flórida e Tennessee, tenham proibido atividades de modificação climática.

«Uma fonte de água viável»

De acordo com Frank McDonough, investigador científico do Instituto de Investigação do Deserto, com sede em Nevada, há duas razões principais pelas quais cada vez mais países estão a adotar operações de semeadura de nuvens.

Em primeiro lugar, os esforços de investigação científica e validação que têm sido realizados em projetos de semeadura de nuvens em todo o mundo nas últimas décadas “forneceram dados e análises de custo-benefício suficientes para que as partes interessadas utilizem esta ferramenta com confiança”, disse McDonough. «O outro conceito que explica por que mais países podem estar a adotar tecnologias de semeadura de nuvens é que atualmente essa é uma das únicas opções para melhorar os recursos hídricos localizados cada vez mais escassos ou ajudar a mitigar a poluição atmosférica regional, utilizando os sistemas atmosféricos naturais da Terra como uma fonte viável de água», acrescentou.

 
A maioria das outras tecnologias depende de recursos hídricos que são retirados diretamente da superfície ou das águas subterrâneas de uma bacia hidrográfica, disse McDonough, citando como exemplo as estações de esqui que utilizam água armazenada para operar os seus equipamentos de produção de neve artificial no inverno.

«A semeadura de nuvens pode realmente adicionar novos recursos hídricos ao sistema. Ter recursos extras para colocar no 'banco da bacia hidrográfica' para as necessidades de produção de neve do ano seguinte é a razão pela qual as partes interessadas continuam a financiar esses projetos», acrescentou.

Em termos de apoio estatal, a China teria apoiado o seu programa de modificação climática com US$ 2 biliões entre 2014 e 2021, enquanto a Arábia Saudita gastou US$ 256 milhões em 2022 para apoiar o primeiro ano do seu programa regional de semeadura de nuvens.

Resultados contraditórios

Autoridades no Irão teriam pulverizado nuvens com produtos químicos sobre a bacia do lago Urmia no final de 2025, procurando aumentar as chuvas para combater a pior seca do país em décadas.

No entanto, esses projetos nem sempre são bem-sucedidos. Em conjunto com o governo de Deli, uma equipa do Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) de Kanpur relatou recentemente resultados contraditórios após um teste de semeadura de nuvens para combater a poluição do ar na capital da Índia.

O IIT afirmou que a sua tentativa «não foi totalmente bem-sucedida» devido à falta de humidade no ar, acrescentando que houve uma redução mensurável das partículas em suspensão após a experiência.

Pessoas observam um avião durante uma operação de semeadura de nuvens na base aérea de Adi Soemarmo, em Boyolali, 
Java Central, Indonésia, em 24 de fevereiro de 2023. Agência de Notícias Xinhua| Getty Images

Diana Francis, diretora do laboratório de Ciências Ambientais e Geofísicas da Universidade Khalifa, em Abu Dhabi, disse que a semeadura de nuvens pode «aumentar modestamente» a precipitação nas condições certas. «Mas é gradual, não transformadora, e funciona melhor como parte de uma estratégia mais ampla de qualidade da água e do ar», acrescentou.

As operações de semeadura de nuvens podem custar normalmente entre US$ 1 e US$ 10 por hectare-metro de água adicional, disse Francis, observando que, embora isso continue sendo altamente variável, acaba sendo muito mais barato do que a dessalinização.

Há também outras ressalvas importantes a serem consideradas, como uma forte dependência da microfísica das nuvens (já que a semeadura de nuvens só funciona em nuvens existentes), problemas com atribuição e potenciais questões geopolíticas e legais relacionadas aos impactos a favor do vento, disse Francis.

As operações de semeadura de nuvens podem custar normalmente entre US$ 1 e US$ 10 por hectare-metro de água adicional, disse Francis, observando que, embora isso continue sendo altamente variável, acaba sendo muito mais barato do que a dessalinização.

Há também outras ressalvas importantes a serem consideradas, como a forte dependência da microfísica das nuvens (já que a semeadura de nuvens só funciona em nuvens existentes), problemas com atribuição e potenciais questões geopolíticas e legais relacionadas aos impactos a favor do vento, disse Francis.

Estudos mostraram que não houve impacto significativo na saúde humana ou no meio ambiente em projetos anteriores de semeadura de nuvens com iodeto de prata, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial, embora sejam necessárias mais investigações para avaliar os efeitos a favor do vento.

A agência meteorológica da ONU também reconheceu que os desafios significativos na aceitação pública, social e local das operações de indução de chuva continuam amplamente evidentes.

BICO CALADO

  • “Vem falar com os autarcas ou com a imprensa? O senhor chega a Coimbra… há um dever institucional, tem de falar com os autarcas. Se vem fazer uma conferência de imprensa, nós [autarcas] vamos embora”. Ana Abrunhosa, presidente da Câmara de Coimbra para José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura e do Mar. Fonte.
                                                                                Vilnius, 11 de janeiro de 1991. | Foto: Paulius Lileikis

«Aceito solenemente a responsabilidade por usarmos técnicas de luta não violenta numa situação em que pessoas poderiam morrer.» Audrius Butkevicius, ex-ministro da Defesa da Lituânia, admitindo à jornalista Galina Sapozhnikova ter sido um dos principais líderes da batalha de Vilnius contra Moscovo, em janeiro 11-13 de 1991 - três dias que culminaram num tiroteio em massa contra manifestantes na Torre de TV de Vilnius, com 14 mortos e mais de 140 feridos. As forças soviéticas foram supostamente responsáveis. O derramamento de sangue provocou uma avalanche de simpatia internacional pela Lituânia, levando vários estados a reconhecerem a república como um país independente. Foi um evento crucial na dissolução da URSS. Fonte.

Inundações na área de Al-Mawasi, em Khan Younis, Gaza, em 24 de fevereiro de 2026. Foto de Abdallah F.s. Alattar/Anadolu via Getty Images.
  • Um ex-instrutor da academia da ICE na Geórgia testemunhou perante o Congresso, acusando a agência de cortar cerca de 240 horas do seu programa de formação básica — incluindo aulas sobre uso da força, segurança com armas de fogo e procedimentos de detenção. Fonte.
  • A Hungria continuou a exercer o seu veto sobre um novo pacote de sanções da União Europeia contra a Rússia e um empréstimo de 90 mil milhões de euros para a Ucrânia, como parte da sua disputa com Kiev sobre a interrupção do fornecimento de petróleo através do oleoduto Druzhba. A Eslováquia apoiou a decisão da Hungria, anunciando que se recusaria a fornecer eletricidade de emergência à Ucrânia até que o petróleo voltasse a fluir através do oleoduto. Fonte.
  • O “caso Mortágua” e o estado da Universidade e do Parlamento. Raquel Varela.

LEITURAS MARGINAIS

ESPINHO: A TEMPESTADE DE SÁBADO, 15 FEVEREIRO 1941
Defesa de Espinho, 23 de fevereiro de 1941


Aqui na Vila, o temporal desgraçado do penúltimo sábado teve, perante a população, o que
de resto devia ter acontecido em todo o País, o seu todo de inédito, de patético, de infernal, que causava arrepios e intimidava os mais fortes corações.
Em Espinho, a doida e caprichosa ventania começou a fustigar-nos cerca das 18 e 30. Parecia que levava tudo ...
Ao principio dessa noite extremamente tempestuosa, aqui à beira do nosso jornal, por exemplo, não se podia parar com a ‘chuva’, uma autêntica chuva de areia que parecia levar-nos a cara, de conjunto com a ventania avassaladora que parecia levar-nos a todos ...
O mar encapelara-se, rugia a bom rugir, como que centenares de leões que de momento tivessem surgido à beira-mar e ao sabor da duríssima invernia rugissem furiosamente em conjunto.
Assim estivemos duas, três, quatro horas seguidas debaixo desta tempestade de que não há memória, a que nunca julgavamos assistir.
Felizmente que não houve quaisquer vitimas, apenas se registando um pequeníssimo número de pessoas feridas sem gravidade, que receberam curativo na farmácia de serviço dessa noite.

Prejuízos materiais alguns se registaram, como, na Fostoreira Portuguesa, o desabamento do tecto do respectivo escritório, o desmoronamento do muro que vedava o campo do ‘Sporting’, lado da Avenida 8, bastantes globos da iluminação pública partidos e postes da rêde electrica da mesma derrubada, o que, para os Serviços Municipalizados, trouxe o prejuízo de alguns pares de contos; um enorme pedaço do telhado da igreja matriz que ‘voou’, dois moinhos de vento que se foram abaixo, o ‘esqueleto’ dos B. V. Espinhenses que deixou de o ser, arrastando na queda o motor do jardim do Teatro, a chaminé da Padaria Central destruída; no bairro da ‘Mata’ desabou um barracão onde viviam alguns pescadores, um grande número de telhados, beirais, etc., que se foram ‘à vela’, vedações de madeira e tijolo derrubadas, e ... mais nada. Graças!
Os comboios não chegavam, bastantes pessoas residentes em Espinho não apareciam, as quais surgiam, depois, a pé, umas do Porto e outras de Gala, Granja, etc.
Fomos muito poupados. Ao sabermos o que se passou noutras localidades, constatamos que aqui, isto, foi ‘mel’...
Sábado, 15. Pouco faltava para a meia-noite. A pouco e pouco chegou, ainda bem, a tão almejada bonança. Mas não faltaram sustos ... parecia ir tudo pelos ares ...

Pelo concelho

As freguesias rurais do nosso concelho, devido à arborização, foram mais atingidas, em todas elas havendo grande número de árvores, principalmente pinheiros derrubados que causaram avultados prejuizos.
A rêde da iluminação electrica também sofreu importantes avarias que atingem algumas dezenas de contos.
Dentre as freguesias, a mais castigada foi a de Paramos, onde cairam sobre o belo edificio da escola oficial alguns pinheiros que muito a danificaram.

No Aeródromo temos a registar alguns estragos causados pelo temporal. Ali, grande parte dos ‘hangars.’ foi abaixo – telhado, armações, traves, - tudo isto ‘varrido’, encontrando-se, à data da nossa visita ao Campo (5ª feira, 20), quatro avionetas cá fora, ‘ao relento’, três delas com asas partidas e o resto ... tudo como dantes, estando a proceder-se, com afã, à restauração da parte abati- da. Foi uma calamidade.
Na estrada Espinho-Pôrto, principalmente no Pinhal da Bela, pinheiros cairam sôbre a estrada, tornando o trânsito impossivel não só a quaisquer veiculos como até a peões.
Muitos automóveis tiveram de ser abandonados pelos seus proprietários, em virtude de não poderem seguir para a frente nem para trás.
Quando regressava a Espinbo no seu automovel, o conhecido capitalista, sr. António Miguel
Taveira, na altura de Gulpilhares caiu-lhe um pinheiro na frente e, momentos depois; outro sôbre a trazeira do carro, amolgando-o grandemente e apavorando o condutor e o proprietário que fugi- ram espavoridos, escapando, por pouco, de uma morte certa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PORTUGAL: ALBUFEIRAS COM NÍVEIS HISTÓRICOS DE ARMAZENAMENTO DE ÁGUA

  • Albufeiras com níveis históricos de armazenamento de água. Cerca de 95% das barragens monitorizadas apresentam disponibilidades hídricas acima de 80% do volume total. Fonte.
  • O Bloco de Esquerda lançou uma petição pública - “INDAQUA fora de Santa Maria da Feira!” -, contestando o atual modelo de gestão do abastecimento de água no concelho de Santa Maria da Feira. Tudo porque a privatização deste bem comum tem resultado em elevados custos para os munícipes, especialmente os de menores rendimentos, não havendo garantias de acesso igualitário aos serviços de água e saneamento. O BE defende a remunicipalização do serviço de abastecimento de água e saneamento, a criação de um tarifário específico para famílias numerosas, o fim das taxas de ligação e da taxa de disponibilidade, bem como a remunicipalização da recolha de resíduos. O documento propõe ainda a cobertura total da rede de abastecimento e saneamento no prazo máximo de dois anos.
  • Há falhas no Plano Nacional de Renovação de Edifícios, alerta a Zero, que metas concretas e justiça social. Fonte.

FRANÇA: REFINARIA EM ZONA INUNDÁVEL DESAFIA PARECERES DESFAVORÁVEIS

Visualização do projeto Emme em Parempuyre (Gironde), numa zona inundável 
a poucos metros das margens do rio Garonne. © JDS Architects
  • Luz verde para a refinaria classificada como Seveso numa zona inundável, apesar da consulta pública ter merecido 85% de pareceres desfavoráveis dos 2.000 recebidos. Fonte.
  • A Yorkshire Water foi multada em mais de £ 700.000 por repetidos derrames de esgoto não tratado. Fonte.
  • O Mardi Gras de New Orleans é responsável pela produção de elevado volume de resíduos que lixeiras e estão a causar impactos na saúde da cidade. Um estudo de 2013 descobriu que mais de 60% das contas de carnaval — um item comum atirado dos carros alegóricos — continham níveis perigosos de chumbo. Em 2018, descobriu-se que 46 toneladas de colares estavam a entupir infraestruturas vitais de prevenção de inundações. Agora, ONGs, autoridades municipais e cientistas avançam na adopção de estratégias de prevenção de resíduos e exploram tudo, desde colares feitos de um subproduto da produção de cana-de-açúcar até colares impressos em 3D com sementes de quiabo incorporadas. Fonte.
  • Embora a vida útil média de um sistema de águas residuais seja de 40 a 50 anos, nos EUA, muitas das estações e tubagens podem ter o dobro dessa idade ou mais. Fonte.

REFLEXÃO

COLONIALISMO CLIMÁTICO SOCIAL: O NOVO CERCO DO IMPÉRIO
Sammy Attoh, Dissident Voice. Trad. O’Lima.


Invocação

A crise climática não é uma tempestade neutra. Não é um acidente climático infeliz ou uma reviravolta trágica do destino. É o mais recente campo de batalha do império — um cerco lento e sufocante no qual o Sul Global paga pela poluição do Norte Global. A subida do nível do mar, as florestas em chamas, o colapso das colheitas e o desaparecimento de espécies não são convulsões aleatórias da natureza. São as consequências previsíveis de séculos de exploração, ganância industrial e arrogância colonial.

A atmosfera tornou-se a nova fronteira da conquista. O colonialismo climático é o cerco silencioso da nossa era — uma guerra sem declarações, uma violência sem balas, uma dominação mascarada de diplomacia.

Fundamentos históricos

A história é antiga, embora o cenário tenha mudado.

Antigamente, as potências coloniais saquearam o ouro da África, as especiarias da Ásia e a prata das Américas. Dividiram continentes, escravizaram povos e extraíram riquezas com precisão implacável. Hoje, saqueiam a atmosfera com o mesmo direito. A revolução industrial — alimentada pelo carvão, pelo petróleo e pelo trabalho escravo — enriqueceu a Europa e a América do Norte, ao mesmo tempo que lançou as bases para o colapso planetário.

As nações que construíram impérios com base na escravatura, na extração de recursos e na hierarquia racial dominam agora as negociações climáticas. Elas ditam os termos da sobrevivência, ao mesmo tempo que se recusam a assumir a responsabilidade. Antes, as instituições de Bretton Woods impunham dívidas; agora, as cimeiras climáticas impõem atrasos. A linguagem mudou, mas a lógica permanece a mesma: os poderosos decidem, os impotentes sofrem.

A retórica verde tornou-se o novo dialeto imperial — polido, diplomático e profundamente desonesto.

Incêndio contemporâneo

A crise climática é global, mas os seus encargos são violentamente desiguais. As inundações no Paquistão deslocaram milhões de pessoas, embora o país contribua com menos de 1% das emissões globais. As secas no Sahel devastam os agricultores que nunca lucraram com os combustíveis fósseis. As nações insulares do Pacífico enfrentam a subida do nível do mar que ameaça a sua própria existência, embora não tenham sido elas que provocaram o aumento das emissões.

Moçambique, as Ilhas Dominicanas, as Filipinas reconstruem-se repetidamente após tempestades intensificadas pelo aquecimento dos oceanos. Entretanto, o Norte Global continua a queimar petróleo, expandir oleodutos e subsidiar empresas de combustíveis fósseis. As promessas de «financiamento climático» permanecem por cumprir ou são reembaladas como empréstimos — aprofundando a dívida que estrangula o Sul. O Sul é instruído a adaptar-se com migalhas, enquanto o Norte se banqueteia com os lucros da destruição.

A face humana

Por trás de cada estatística há uma vida, uma família, uma nação lutando para respirar. Crianças em Bangladesh atravessam as águas da enchente que engoliram as suas escolas. Mães no Quénia veem as colheitas murcharem sob uma seca implacável. Pescadores nas Caraíbas regressam com as redes vazias enquanto os recifes de coral branqueiam e morrem. Famílias nos Andes veem os glaciares — as suas torres de água ancestrais — derreterem até se tornarem memória. Os pobres não emitem o carbono que causa a catástrofe, mas respiram as suas consequências. O colonialismo climático garante que os menos responsáveis sejam os que mais sofrem. Isto não é azar. É injustiça.

Polémica profética

O império adapta-se. As suas ferramentas evoluem, mas as suas intenções permanecem inalteradas. Os mercados de carbono mercantilizam a atmosfera, transformando o céu numa bolsa de valores. O greenwashing disfarça a destruição como sustentabilidade, permitindo que as empresas poluam enquanto se apresentam como salvadoras. A dívida climática obriga as nações a contrair empréstimos por desastres que não causaram, aprofundando a dependência. Os esquemas de geoengenharia ameaçam transformar o céu numa arma, permitindo que nações poderosas manipulem o clima sob o pretexto de «inovação». A apropriação de terras para a «energia verde» desloca comunidades indígenas, repetindo o mais antigo roteiro colonial. O ciclo repete-se com precisão assustadora: extração → poluição → catástrofe → dívida → controlo. O colonialismo climático não tem a ver com salvar o planeta. Tem a ver com preservar os privilégios do império.

Manchetes

“Os pobres respiram o fumo, os poderosos acumulam lucros”

“Marés em alta, desigualdade em alta”

“Colonialismo climático: o novo cerco do império”

Bênção final

Que a crise climática não seja considerada um destino, mas uma injustiça. Que os poluidores sejam responsabilizados e as vítimas sejam indemnizadas. Que a atmosfera seja libertada da mercantilização e a terra da extração. Que todos os seres humanos respirem ar puro, bebam água pura e comam alimentos cultivados em solo fértil. Que o mundo desperte para a verdade de que a justiça climática não é caridade — é reparação, restauração e o renascimento da dignidade global.

Que a justiça corra como as águas e que toda a terra respire novamente.

BICO CALADO

  • Contradição em Espinho: Centro tecnológico de luxo vs escola degradada. Um Centro Tecnológico Especializado de Informática foi inaugurado na Escola Secundária Dr Manuel Gomes de Almeida. A cerimónia mereceu a presença do ministro da Educação (Fernando Alexandre), do presidente da Câmara (Jorge Ratola), do diretor do agrupamento ESMGA-Domingos Capela (Ilídio Sá) e de personalidades ligadas ao atual poder local. A inauguração aconteceu precisamente 10 dias depois de alunos e professores da Escola Domingos Capela se terem manifestado junto dos Paços do Concelho denunciando as más condições do edifício e exigindo medidas urgentes para a sua resolução. Resta agora saber quanto tempo levarão os responsáveis a concretizá-las.
Foto: Linda Johnson/SWNS
  • Algumas centenas de documentos maliciosos são suficientes para corromper qualquer IA. Enrique Dans, Medium.
  • «Não assinámos contrato para fabricar armas»: a preocupação dos funcionários da Renault face a um projeto de drones militares. Fonte.
  • Israel não contribuirá financeiramente para o Conselho de Paz, confirmou o ministro das Finanças e membro do gabinete de segurança Ze'ev Elkin. Elkin afirma que Israel “não tem motivos” para pagar pela reconstrução de um território que, segundo ele, foi usado para atacá-lo. Israel assinou o estatuto do Conselho na sua reunião inaugural na semana passada, mantendo influência direta sobre as decisões relativas ao futuro de Gaza. Fonte.
  • Depois dos pontos de acesso à Sport TV nos gabinetes do Governo de Luís Montenegro, agora um contrato de 11 mil euros de serviços de maquilhagem. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O TERRÍVEL CICLONE DE 1941: SALAZAR PRIMEIRO FEZ-SE DE MORTO…
Jaime Pinho, O Setubalense.

Vista parcial da Avenida Luísa Todi, em Setúbal, aquando do ciclone de 1941. Foto: Américo Ribeiro

O ciclone de 15 de fevereiro de 1941 foi o mais violento, destrutivo e mortífero que atingiu Portugal continental desde que há registos. As zonas ribeirinhas foram duplamente fustigadas: primeiro pelos ventos do furacão, depois por chuvas torrenciais, marés de tempestade, inundações. A recente série de eventos extremos de janeiro de 2026, que atingiu em cheio os distritos de Coimbra, Leiria, Castelo Branco… rivaliza com a de 1941, mas com muito menos mortes. Relativamente à velocidade dos ventos e apesar da escassez da rede de registos de há 85 anos atrás, podemos constatar que os efeitos foram muito semelhantes.

Em 1941 morreram mais de 100 pessoas, muitas foram dadas como desaparecidas, inúmeras ficaram feridas. Os impactos na economia foram tremendos e duradouros por décadas. Para as classes populares a fome severa, o desalojamento, o desemprego e a miséria que se seguiram a 1941 foram inimagináveis. A mendicidade, sobretudo das crianças, era a única hipótese de escapar à morte. Mesmo assim a polícia não lhes dá tréguas e persegue-as: nas ruas das cidades, à porta dos restaurantes.

O ciclone de 41, como ficou conhecido, levou tudo pela frente: de norte a sul há relatos de pessoas que foram arrastadas pelo vento e derrubadas, no caso de Setúbal há mesmo o registo de uma senhora projetada fatalmente contra a parede numa rua da Baixa. Em Grândola pessoas foram arrastadas dezenas de metros e só a custo conseguiam segurar-se, agarradas aos arbustos. As casas atingidas ficaram sem telhados e sem chaminés, que foram pelos ares. Em Coimbra destelharam-se bastantes edifícios, como quartéis, Hospitais da Universidade, Hospital Militar. Nos dias seguintes as fábricas e armazéns de cerâmica registavam filas de pessoas em busca de telhas, como no caso da Cerâmica Lusitana, no Arco do Cego, em Lisboa! A Pastoral Coletiva do Episcopado Português, organismo da Igreja católica, recebe pessoas que a procuram como se fossem “evadidos da morte, fugitivos, esfarrapados”. Centenas de milhares de árvores, milhares de hectares de floresta foram arrancadas pela raiz ou cortadas a meio. Estradas, linhas de comboio e rede elétrica foram bloqueadas ou destruídas pela queda de árvores e desmoronamentos.

As zonas ribeirinhas foram as que mais sofreram: afogamentos, embarcações afundadas ou destroçadas, inundações de casas. A destruição da frota pesqueira atira milhares de pescadores e operárias conserveiras para desespero e a mendicidade. Só no caso de Sesimbra, passada uma semana dos acontecimentos, contabilizavam-se 113 embarcações partidas e 196 desaparecidas. As marinhas de sal, idem: arrasadas. A inviabilização de colheitas agrícolas provocada pela invasão da água salgada, como no caso dos arrozais, iria agravar ainda mais a falta de alimentos: a fome. A destruição de olivais e sobreiros de cortiça engrossaram o desemprego. A herdade do Pinheiro, para os lados de Alcácer do Sal, virou “um mar de troncos lançados à terra”. As notícias de morte e destruição da zona da Grande Lisboa e distrito Setúbal são coincidentes: Lisboa, Alhandra, Sesimbra, Alhos Vedros, Setúbal, Alcácer do Sal terão concentrado o maior número de vítimas humanas. Mas atenção: Um mês após o ciclone de 15 de fevereiro a imprensa continuava a dar conta de corpos que continuavam a dar à costa achados por pescadores e populares: o de uma mulher da Carrasqueira que tinha vindo num pequeno bote aviar-se a Setúbal…o de um rapaz de 16 anos de nome José, que trabalhava nas marinhas de sal…

Em vão se procura nas páginas do jornal diário de Setúbal ao longo das semanas uma reação, uma palavra do governo, do seu chefe: Nada! Caladinho como um rato.

A inoperância do governo nos dias e semanas a seguir à catástrofe é total. A resposta do regime ao desastre nacional foi levada a cabo através do Sub-Secretariado de Estado da Assistência Social, recentemente surgido e com pouco ou nenhum orçamento. Aliás, a tarefa principal seria desenhar o plano para uma recolha de fundos de pessoas particulares a nível nacional. O mesmo se diga das Câmaras municipais, se tomarmos como padrão a de Setúbal. Os dramáticos acontecimentos devastaram a cidade e o concelho, com mortes, feridos, desaparecidos, atividades económicas paralisadas ou gravemente afetadas, casas sem telhados, centenas de famílias dos bairros de barracas desalojadas e perdidas pelas ruas e caminhos, sem terem onde se abrigar e aos seus ente-queridos, como aconteceu no bairro da Monarquina junto ao hospital e nos Olhos de Água na subida para o Viso. Como refere o jornal após passar pela censura prévia salazarista, no dia 3 de março de 1941: “A hora não é de ficar de braços cruzados à espera que o estado faça. Nunca é lícito pedir demasiadamente ao estado – e muito menos agora que são enormes os seus prejuízos”.

…depois mostrou a verdadeira face

As consequências da catástrofe vêm juntar-se às já difíceis condições de vida agravadas pelos efeitos da guerra mundial que começara em 1939 e que cada vez mais afetava os países parcialmente neutrais, como Portugal. Retomamos de seguida dados de um exaustivo estudo do historiador Fernando Rosas sobre estes anos.

A fome, a escassez de alimentos, o desemprego, as famílias numerosas, a vida nas barracas, os salários miseráveis sufocados pela repressão total e o poder de compra em erosão acelerada, a inexistência do estado social, conduzem a explosões e revoltas populares logo na primavera e verão de 1941: o pessoal das minas da Panasqueira, os salineiros de Alhos Vedros e Lavradio, motins camponeses pelo Minho, Beira e Douro Litoral, Trás os Montes. Em novembro de 1941, ocorre a grande greve do pessoal da indústria de lanifícios da Covilhã, imortalizada pelo escritor Ferreira de Castro, no livro “A lã e a neve”. Nesta cidade da Serra da Estrela, 14 grevistas são acusados de “crime de sublevação” por um tribunal militar (!) especial. A imprensa clandestina e as autoridades da repressão registam agitação, manifestações, protestos por todos os centros industriais do país. O governo de Salazar parece ter sido apanhado de surpresa e não estar preparado para o confronto.

Ao longo de 1942 desenvolvem-se as primeiras greves intersectoriais e regionais de camponeses no Ribatejo, zona saloia de Lisboa, Alentejo. Verificam-se grandes greves na CARRIS em Lisboa, na Companhia dos Telefones, dos estivadores, das fábricas da CUF no Barreiro, na Tabaqueira, nas oficinas do Diário de Coimbra. As cargas policiais intensificam-se, acompanhadas por uma guerra ideológica contra contestação generalizada, ainda que absolutamente proibida e perseguida pelo regime fascista. O governo lança uma campanha de propaganda contra o que chama de “manobras de agitadores profissionais a soldo de interesses inconfessáveis…”.

O outono de 1942 marca uma viragem no ambiente social do país. O governo endurece a ditadura. Há prisões de grevistas em massa, como aconteceu nas instalações da CARRIS: 1100 presos, os supostos líderes da paralisação despedidos e presos sem qualquer processo ou direito de defesa. As greves passam a ser tratadas pelo Ministério da Guerra e a regra passa a ser: fábricas em greve: todo o pessoal é evacuado e despedido. Há milhares de operários presos, despedidos, substituídos por outros. Depois vem o Verão quente de 1943, coincidente com a queda de Mussolini na Itália e a aceleração da luta antifascista. A guerra mundial acaba em 1945, com a derrota dos amigos de Salazar, particularmente Hitler.

Salazar ficará isolado na Europa, “orgulhosamente só”, ao lado do ditador de Espanha, Francisco Franco. Começa uma nova fase da ditadura, que será derrubada pela Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974.