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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

SANTARÉM E BAIXO ALENTEJO: GRAVE CONTAMINAÇÃO DA ÁGUA DOCE

  • Contaminação por sal da água doce do Baixo Alentejo e Santarém é grave, alerta estudo europeuO Baixo Alentejo e o distrito de Santarém concentram os casos mais graves de salinização dos rios em Portugal, segundo o primeiro mapa europeu dedicado a este fenómeno, publicado na prestigiada revista Nature Communications.
  • Dois mega centros de dados em Abrantes poderão ultrapassar em quase 30 vezes o consumo energético anual do concelho. Promovido pelo grupo Hyperion, este mega data center ocupará cerca de 151.000 m² de área de implantação e 287.000 m² de área de construção, junto à rotunda de Alvega, e uma ligação elétrica anunciada de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego. O empreendimento foi classificado como Projeto de Interesse Nacional, um estatuto que permite acelerar prazos processuais. Trata-se de um empreendimento excessivo para o território que pretende ocupar, com potenciais impactes ambientais, hídricos e territoriais. Esta preocupação ganha ainda mais relevância à luz do diagnóstico mais recente da própria APA sobre o estado da Bacia Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste para o 4.º ciclo (2028-2033), onde se revela um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo. É precisamente neste contexto de recursos hídricos já sob pressão, que se pretende instalar mais uma infraestrutura industrial de consumo intensivo de água. Por isso, a Quercus exige a realização de um Estudo de Impacte Ambiental como condição prévia para um eventual licenciamento. Fonte.
As «quintas» de dados NÃO estão «na nuvem». Estão a ocupar terrenos valiosos. Os dados, o mundo digital, a IA estão a consumir energia e água em excesso. A Inteligência Artificial precisa de ENERGIA ILIMITADA.
  • O aumento do consumo de eletricidade por parte dos insaciáveis centros de dados da Irlanda levou o governo a tomar uma medida que há décadas era impensável: reacender o debate sobre a energia nuclear. Fonte.
  • A Rússia constrói 15 pequenos reatores nucleares marítimos com uma capacidade de 175 MWt para quebra-gelos. Fonte.
  • Colapso de glaciar pode ter causado inundações que mataram centenas no Nepal. Fonte.
  • Diante do avanço do bolsonarismo, Lula abraça destruidores da Amazônia em busca da reeleição. Alianças do PT no Norte incluem uma intervenção em Rondônia, que sacrifica a candidatura da ativista Neidinha Suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental. Rafael Moro Martins, Sumaúma.

REFLEXÃO

UMA TEMPESTADE REVELA COMO O MERCADO ENERGÉTICO DO TEXAS É MANIPULADO PARA GERAR LUCRO
Robin Berghaus, PHW. Rev. O’Lima.

Foto: ERCOT

O Texas opera a sua própria rede elétrica, gerida pelo Conselho de Fiabilidade Elétrica do Texas (ERCOT). Por estar em grande parte isolado da rede nacional, o ERCOT evita a supervisão federal. O estado gere um mercado «exclusivamente de energia», o que significa que os produtores de energia só são pagos pela eletricidade que efetivamente produzem, ao contrário de outros estados que pagam às empresas para se manterem em estado de prontidão. Este sistema foi concebido para recompensar a escassez, e não a fiabilidade, o que pode conduzir a lucros mais elevados quando a oferta é baixa e a procura é elevada.

Durante a tempestade de inverno Uri, em fevereiro de 2021, o frio extremo congelou as infraestruturas nas centrais elétricas e nas cabeças de poço de gás natural. Com o corte no abastecimento de combustível, muitos geradores não conseguiram produzir eletricidade, o que obrigou a ERCOT a impor cortes de energia em todo o estado. Milhões de texanos ficaram sem eletricidade durante dias e centenas de pessoas morreram.

Enquanto os texanos sofriam, os fornecedores de gás natural viram a tempestade como uma oportunidade de negócio. Algumas empresas aumentaram o custo do gás natural em mais de 700%. Uma empresa de serviços públicos, a CPS Energy, teve de pagar cerca de 850 milhões de dólares por gás durante uma única semana — aproximadamente o que gasta em combustível num ano inteiro. Quando a CPS Energy tentou negociar uma tarifa mais baixa, foi-lhe basicamente dito «azar».

Aconteceu algo semelhante ao escândalo da Enron, em que os operadores criaram uma falsa escassez de energia para aumentar os lucros. O mesmo padrão foi observado durante a tempestade Uri: quedas suspeitas no abastecimento de gás e o encerramento das reservas antes da tempestade. Por exemplo, a Energy Transfer cancelou contratos com centrais elétricas de Houston que tinham garantido uma tarifa de 2,50 dólares por unidade de gás, invocando uma cláusula de «força maior». No mesmo dia, venderam gás a outra cooperativa por 950 dólares por unidade — quase 400 vezes a tarifa original.

As consequências foram inevitáveis: os legisladores aprovaram um resgate financeiro de 6,5 mil milhões de dólares para ajudar as empresas de energia em dificuldades a saldar as suas enormes dívidas, mas o custo foi repercutido nos consumidores do Texas através de contas de eletricidade mais elevadas que se prolongarão por décadas. Além disso, a Comissão de Serviços Públicos aumentou o limite máximo do preço grossista da eletricidade para 9 000 dólares por megawatt-hora — cerca de 400 vezes a média do ano anterior, de 22 dólares — numa tentativa falhada de incentivar uma maior produção de energia.

Embora o limite máximo do preço da eletricidade tenha sido ajustado para 5000 dólares, a Comissão Ferroviária nunca impôs um limite aos preços do gás natural durante uma situação de emergência, deixando uma grande lacuna para futura especulação.

BICO CALADO

Foto: Khames Alrefi – Anadolu Agency
  • A fome em Gaza, um ano depois: será que o mundo aprendeu alguma coisa? Mfetouri, MEM.
  • Um tribunal israelita absolveu um colono que tinha sido filmado a agredir uma freira francesa em Jerusalém, após ter aceitado um relatório médico que indicava que se encontrava num estado psicótico na altura do incidente e que não era criminalmente responsável pelos seus atos. Fonte.
  • Desde Taylor Swift e Kim Kardashian até Jennifer Aniston e Lionel Messi, celebridades de todo o mundo estão a contratar equipas de guarda-costas israelitas compostas por ex-agentes do Shin Bet, do Mossad e das forças especiais israelitas. Fonte.
  • A privatização silenciosa da Segurança Social começa pelo discurso do medo. Ana Mendes Godinho.
  • André Ventura disse ontem que “quase de certeza foi fogo posto” na sede do Chega em Évora. Hoje deu-se o 3º incêndio no mesmo edifício. Fonte.
  • Uma coligação bipartidária dos EUA, composta por 51 procuradores-gerais estaduais e territoriais, anunciou uma proposta de acordo com a Meta, segundo a qual a gigante tecnológica pagará até 17,1 mil milhões de dólares em multas e implementará mudanças radicais nas suas políticas, a fim de resolver as alegações de que as suas plataformas de redes sociais foram concebidas para criar dependência nas crianças. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

DISCERNIMENTO MENTAL


A minha passagem pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, como cadete do Curso de Oficiais Milicianos, não foi brilhante. Longe disso. Terminei o dito curso, em Fevereiro ou Março de 1953, em oitavo lugar…a contar do fim, num total de cento e vinte cadetes. Tive por comandante um coronel, que ficou célebre por ter silenciado, pelas armas, cerca de um milhar de trabalhadores das roças da então nossa ilha de São Tomé, de que era governador. Como consequência deste massacre, que a censura do Estado Novo procurou ocultar, os mais altos responsáveis militares transferiram-no para Vendas Novas como comandante da dita Escola Prática de Artilharia.

Concluída a fase de cadete, situação em que, por natureza, não me empenhei o suficiente, fui colocado em Évora, como aspirante miliciano, no Regimento de Artilharia 3. Corria tudo normalmente e sem sobressaltos, até ao dia em que o primeiro-sargento Araújo me chamou de parte e me conduziu a uma sala no 1.º andar, onde se situavam as dependências do comando, vazias de gente àquela hora do fim da tarde.

O primeiro Araújo era casado com uma modista que aprendera, com a minha mãe, a arte da costura. E a minha mãe fora madrinha desse casamento. Com uma vintena de anos a mais do que eu, este sargento e amigo tratava-me por tu, enquanto eu, como mandava a boa educação, lhe dava senhoria. No quartel, na presença de terceiros, ele tratava-me por “meu aspirante” e eu a ele, como era regra, por “nosso primeiro”.

Chegados a uma sala que ele abriu com chave, retirou, de dentro de uma gaveta, uma pasta e, depois de me pedir absoluto segredo, deu-me a ler um documento chegado de Vendas Novas, timbrado de confidencial, a vermelho, ao alto, do lado direito, no qual se fazia o meu registo biográfico. O texto, pouco ou nada abonatório das minhas capacidades, falava do meu pouco aprumo militar e terminava dizendo (sic):

“…não lhe devendo nunca, ser confiadas missões que exijam discernimento mental.”

- Agora não me lixes. - Disse este meu amigo, ao guardar o papel na pasta de onde o tinha tirado.

- Ninguém pode saber que te mostrei isto. Fazes de conta que não sabes de nada. É como se não existisse. – Concluiu, encaminhando-me para a saída.

De facto, eu tinha notado algo de estranho da parte do comandante do regimento, quando, no dia da minha chegada, fui ao seu gabinete apresentar-me. Aí, o coronel falou comigo, demoradamente, num estilo que mais parecia um exame oral. Eu estranhei, mas não suspeitei que este cabo-de-guerra estava a procurar avaliar o meu cociente intelectual. Não sei que conclusão tirou desta tentativa de aferição das minhas capacidades. Só sei que, na distribuição de serviço que a todos obrigava, para além da instrução aos recrutas, me coube a regular inspecção das limpezas, nas cavalariças, nas cozinhas, nas latrinas, na parada. Tudo o que exigisse cuidados de asseio e higiene tinha de ser vistoriado e essa era, com efeito, uma missão que não exigia grande discernimento mental. A coadjuvar-me nesta incumbência tinha um segundo-sargento, particularmente eficaz e exigente, a quem alguns faxinas chamavam o “cheira-merda”, e que, antes de mim, vasculhava e farejava tudo o que era sítio e buraco. Assim, quando chegava a minha hora de inspecionar, estava tudo impecável.

Os meses foram passando, o comandante, terminado o seu tempo, deu lugar a outro vindo de fora e a minha debilidade mental acabou esquecida.

Este juízo a meu respeito não o interpreto como menoridade intelectual dos militares que, em Vendas Novas, me avaliaram. Reflecte, sim, a minha não integração no seu mundo. Um mundo fardado, com botas esmeradamente engraxadas, amarelos brilhantes de solarine, continências aprumadas e sonoras batidas de tacão, um mundo que, manifestamente, não era o meu e com o qual só fiz as pazes por gratidão e respeito pelos capitães de Abril.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

RIBEIRA DO MOCHO: IMPACTOS DA CHUVA NA ORLA COSTEIRA ENVOLVENTE – QUE SE PASSA?


Segunda-feira, 24 agosto: fortes chuvadas aumentam o caudal da ribeira e forçam a abertura da sua foz, dias antes obstruída e formando uma pequena lagoa.

Quarta-feira, 26 de agosto: manhã de bátegas fortes e trovoada. Cor da água do mar alterada na foz e zona envolvente da ribeira. Terá havido descarga de efluentes a montante?

Terão os peritos na matéria e as autoridades locais e/ou regionais disponibilidade, meios e competência para investigarem e informarem os munícipes?

SUÍÇA QUER FLORESTAS MAIS RESISTENTES AOS INCÊNDIOS

Covão da Ametade
  • Para tornar as florestas mais resistentes aos incêndios, a Suíça está a testar uma abordagem que se baseia na gestão tradicional da terra. Isto implica uma mudança deliberada, afastando-se da silvicultura moderna e uniforme, no sentido de criar paisagens mais diversificadas e abertas, muito semelhantes às que são geridas através de práticas agrícolas tradicionais. O cerne do novo método reside na fragmentação da cobertura florestal contínua, para impedir que os incêndios se propaguem facilmente. Fonte.
  • Calor extremo na Flórida: aumenta o risco de intoxicação por pesticidas para os trabalhadores agrícolas. Novas evidências científicas alertaram para uma dupla ameaça nos campos do sul dos EUA, onde milhares de trabalhadores agrícolas enfrentam uma combinação que pode agravar os danos imediatos e as sequelas a longo prazo. Fonte.
  • Os bastidores do acordo secreto para um centro de dados de 10 mil milhões de dólares na zona rural da Carolina do Norte. Os residentes afirmam que foram excluídos do processo de tomada de decisões relativo a um projeto que inclui centenas de geradores a gasóleo poluentes. Fonte.

REFLEXÃO

DONA DA MAIOR CENTRAL SOLAR EM PORTUGAL ENTROU EM INSOLVÊNCIA. 
O QUE VAI ACONTECER À SOLARA4?


Há empresas que entram em dificuldades porque lhes falta matéria-prima, outras porque perdem clientes e outras ainda porque os custos disparam. A Welink conseguiu uma variante mais sofisticada: entrou em apuros porque a electricidade que produz passou a valer pouco no mercado grossista, embora o consumidor português continue a pagar pela electricidade um preço suficientemente elevado para não suspeitar que, algures entre a central e a factura, ela chegou a ser quase oferecida. É uma das pequenas maravilhas do mercado eléctrico: o produtor lamenta que a energia esteja barata, o consumidor lamenta que esteja cara e, entre ambos, o sistema consegue preservar a infelicidade geral com uma eficiência que a produção de electricidade raramente alcança.

A história começa em Alcoutim, onde a Solara4 entrou em funcionamento em 2021 com cerca de 221 MW de potência e mais de 650 mil painéis solares. A central foi apresentada como um exemplo particularmente feliz da maturidade das renováveis porque tinha sido construída sem subsídios públicos à produção. A própria Welink continuou a destacar essa característica durante anos e ainda em 2025 recordava que o projecto demonstrava a viabilidade da produção solar industrial em grande escala sem apoio governamental. Era uma história excelente: o investimento era privado, o mercado remunerava-o, o sol fazia a sua parte gratuitamente e o Estado podia finalmente afastar-se sem que ninguém desse pela falta dele.

Cinco anos depois, a Welink Energy Portugal 2 (UK) Limited, sociedade que controla a central, entrou em administração judicial no Reino Unido. A explicação não passa por uma inesperada escassez de sol no Algarve, mas por uma combinação bastante mais terrena de produção abaixo do previsto, problemas técnicos, avarias, incêndios e preços grossistas inferiores aos que sustentavam as contas do projecto. A expansão da energia solar na Península Ibérica contribuiu para empurrar os preços para valores muito baixos em determinadas horas, chegando por vezes a zero ou mesmo a território negativo, fenómeno que tem uma curiosa particularidade: é apresentado como uma vitória para o sistema eléctrico até ao momento em que quem produz a electricidade começa a perder dinheiro com ela.

O consumidor, entretanto, não foi incomodado por essa abundância de electricidade quase gratuita. A descida no mercado grossista não se transporta mecanicamente para a factura, onde continuam a viver redes, tarifas, impostos, contratos, margens e todas as restantes parcelas que fazem com que uma mercadoria possa valer zero durante algumas horas num mercado e continuar a custar dinheiro sério a quem acende o forno. Conseguimos, portanto, chegar a uma situação económica de rara elegância: a electricidade é simultaneamente demasiado barata para quem a vende e suficientemente cara para quem a compra. Não é fácil desagradar a duas pontas da mesma transacção, mas também não foi para coisas fáceis que se inventaram mercados energéticos europeus.

No caso da Solara4, a dificuldade não ficou pelo preço. Os bancos Investec e Kommunalkredit terão cerca de 64 milhões de euros por recuperar, enquanto a China Triumph International Engineering Company, pertencente ao grupo estatal chinês CNBM e responsável pela construção da central, reclama aproximadamente 143 milhões num processo de arbitragem. Pelo meio houve incêndios, equipamentos avariados e períodos de indisponibilidade, tendo cerca de 10% da central estado fora de serviço em Maio, incluindo áreas afectadas por vegetação seca por limpar. Uma instalação de centenas de milhões de euros, financiada por bancos internacionais, construída por um gigante industrial chinês e equipada com tecnologia capaz de converter radiação solar em electricidade acabou por descobrir que há problemas que não exigem inteligência artificial, semicondutores ou engenharia avançada. Às vezes basta mato.

A gestão da central foi entretanto retirada à Welink Investments e entregue à Exus, que, juntamente com a Enertis, deverá agora avaliar quanto é necessário investir para melhorar o desempenho do activo. Ao mesmo tempo, admite-se uma eventual venda. O próprio director da Welink para a Península Ibérica reconheceu que uma central exclusivamente solar já não seria, nas actuais condições, economicamente sustentável por si só, o que é uma conclusão particularmente interessante quando aplicada a uma central que foi apresentada durante anos como demonstração precisamente da sustentabilidade económica de uma grande instalação solar sem apoio público.

A solução passa agora por transformar Alcoutim numa instalação híbrida, acrescentando mais produção solar, energia eólica e armazenamento. E é neste ponto que a história deixa de ser apenas mais uma insolvência empresarial e começa a adquirir algum interesse filosófico, porque o projecto que ajudou a demonstrar que as grandes centrais solares já não precisavam de subsídios descobriu entretanto que precisava de baterias, e as baterias descobriram que precisavam de 16.445.234,15 euros de financiamento público.

O beneficiário chama-se Solara4 Phase4, S.A., tem sede em Alcoutim e obteve através do PRR apoio para um “Sistema de Armazenamento em Baterias na Central Fotovoltaica de Alcoutim com potência nominal 100MW”. Foram-lhe atribuídos cerca de 16,45 milhões de euros, dos quais 3,78 milhões já tinham sido pagos, correspondendo a aproximadamente 23% do montante aprovado. Não estamos sequer perante uma verba lateral de algumas centenas de milhares de euros encontrada num programa obscuro: a Solara4 Phase4 recebeu o maior apoio individual atribuído naquele concurso do Fundo Ambiental para armazenamento de energia.

Convém distinguir as sociedades, não porque a distinção torne a história menos interessante, mas porque permite contá-la sem oferecer uma escapatória factual a quem prefira discutir o detalhe em vez do essencial. A Solara4 Phase4 não é juridicamente a mesma empresa britânica que entrou em administração judicial e os 16,45 milhões são fundos públicos europeus do PRR, geridos através das estruturas portuguesas, não uma transferência directa do Orçamento do Estado. Mas também não estamos perante duas empresas que, por uma dessas coincidências que animam a vida empresarial, resolveram chamar-se Solara4, instalar-se em Alcoutim e trabalhar na mesma central sem terem nada uma com a outra. A própria Welink apresenta a bateria de 100 MW como parte da expansão do projecto Solara4. A diferença societária existe. A separação económica é que exige mais imaginação.

E é aqui que a história se torna particularmente reveladora. Durante anos, a ausência de subsídios foi utilizada como prova de que o investimento privado e o mercado já conseguiam sustentar grandes projectos solares sem recorrer ao contribuinte. Não era uma nota técnica escondida numa apresentação para investidores; fazia parte da narrativa pública do projecto. A Solara4 mostrava que as renováveis tinham chegado à idade adulta e deixado para trás a fase desagradável em que precisavam de tarifas garantidas, apoios e dinheiro público. Depois a produção solar aumentou, os preços grossistas caíram, a central produziu abaixo do esperado e aquilo que era economicamente sustentável deixou de o ser nos mesmos termos. A resposta passou por adicionar armazenamento e adaptar o projecto, operação para a qual surgiu, providencialmente, financiamento público.

Não há necessidade de imaginar qualquer ilegalidade. O programa de apoio ao armazenamento existe, a empresa candidatou-se e recebeu o financiamento que lhe foi aprovado. O problema não é criminal, é muito mais banal e, por isso, bastante mais interessante: quando o projecto funcionava sem apoio público, esse facto servia para demonstrar a superioridade e autonomia do mercado; quando as condições de mercado deixaram de assegurar a rentabilidade desejada, o dinheiro público regressou, desta vez não sob o nome pouco elegante de subsídio, mas vestido de armazenamento, flexibilidade de rede, transição energética e resiliência. As palavras melhoraram consideravelmente. O dinheiro continua a ter de sair de algum lado.

Há ainda uma ironia adicional. Um dos problemas da Solara4 resulta precisamente do sucesso da energia solar. Quanto mais capacidade fotovoltaica entra no sistema, maior é a produção nas mesmas horas e mais pressão existe sobre os preços grossistas, chegando ao ponto em que algumas centrais começam a destruir a rentabilidade umas das outras. Durante anos, o aumento da produção renovável foi apresentado como sinal de sucesso do mercado e da política energética. Quando esse sucesso começa a reduzir as receitas dos produtores, transforma-se subitamente num problema que exige armazenamento subsidiado. O mercado produziu o excesso, o excesso reduziu o preço e o financiamento público ajuda agora a pagar a tecnologia necessária para devolver valor económico à energia cujo preço o próprio mercado fez cair.

A situação torna-se ainda mais curiosa porque nada disto significa que a afirmação original fosse falsa. A central de 2021 foi efectivamente construída sem subsídio à produção. O problema está em continuar a apresentar essa condição como prova suficiente da viabilidade estrutural do modelo quando, poucos anos depois, a sociedade que controla o activo está em insolvência, os bancos têm cerca de 64 milhões de euros por recuperar, o empreiteiro estatal chinês reclama 143 milhões, a gestão teve de ser entregue a terceiros, a venda está em cima da mesa e uma sociedade ligada à expansão do projecto recebeu autorização para beneficiar de mais de 16 milhões de euros de financiamento público.

Talvez seja esta a contribuição mais interessante da Solara4 para o debate económico. Durante décadas discutiu-se se determinados sectores deviam ser públicos ou privados, se o Estado devia intervir ou afastar-se e se o mercado conseguia resolver sozinho os problemas de investimento e eficiência. A prática moderna conseguiu ultrapassar essa discussão com uma solução bastante mais confortável: quando o investimento corre bem, serve de demonstração de que o sector privado não precisa do Estado; quando corre mal, torna-se estratégico demais para prescindir dele.

O contribuinte europeu não fica com a central, não participa nos lucros que ela eventualmente volte a gerar e não entra para o conselho de administração. Fica apenas com uma parte da conta das baterias, o que talvez seja a forma contemporânea mais aperfeiçoada de parceria público-privada: o privado conserva a propriedade e o público participa na necessidade.

A Solara4 começou, portanto, como uma demonstração de que o mercado já conseguia fazer energia solar sem subsídios e chegou a 2026 com a sociedade proprietária em insolvência e uma expansão apoiada por 16,45 milhões de euros de dinheiro público. Não prova que a energia solar não funciona, nem que o investimento privado seja inútil. Prova apenas uma coisa bastante mais antiga e menos tecnológica: há uma extraordinária quantidade de empresas que conseguem viver sem o Estado até ao exacto momento em que precisam dele.

O sol, esse, continua gratuito. Foi a única parte do projecto que ainda não apresentou a factura.

BICO CALADO

  • “(…) Tornar praias privadas, transformar bairros em zonas de luxo e escolas e hospitais públicos em guetos não é só o produto da especulação e da austeridade avara no investimento do Estado. É mesmo um projeto político. É garantir um sistema de castas, que concentra o poder e a riqueza num punhado pequeno de gente, ao mesmo tempo que produz hordas de espoliados, prontos a ser explorados ou dizimados sem culpa, de acordo com as necessidades do mercado. Porque tudo é mercadoria. O trabalho não é um ofício e uma arte, mas uma troca precária. A saúde e a educação não são direitos, são privilégios que se pagam. A própria inteligência pode ser alugada. Sim, alugada, porque a propriedade passou a ser temporária, feita de licenças renováveis. (...)” Margarida Davim, Visão 21ago2026.
  • Estes ‘jornalistas’ sabem o que andam a fazer?
  • Um alto dirigente da OpenAI, Dean Ball (diretor de perspetivas estratégicas e antigo colaborador da Casa Branca durante a administração Trump), provocou uma onda de críticas ao classificar a Segurança Social como «uma espécie de fraude contabilística» que deve ser desmantelada. Os críticos reagiram rapidamente. Uns assinalaram a contradição entre as promessas da indústria da IA de um rendimento básico universal e de uma abundância sem precedentes, e o apelo de Ball para eliminar um modesto subsídio de 2 000 dólares por mês destinado aos idosos. Outros salientaram que Ball ignorou o papel dos cortes fiscais republicanos a favor dos mais ricos no aumento da dívida pública. Outros ainda descreveram os comentários como «funcionalmente insanos» e desligados da realidade, questionando por que razão foi permitido que os executivos das grandes empresas tecnológicas, que pretendem destruir o programa de segurança social mais popular do país, acumulassem tanto poder. Entretanto, analistas de sondagens e comentadores destacaram que a Segurança Social goza de um vasto apoio bipartidário, tornando os ataques contra ela politicamente desastrosos. Fonte.
  • As exportações de armas israelitas per capita em 2025 foram cerca de seis vezes superiores às dos EUA e 19 vezes superiores às da Rússia. O mais recente estudo da autora palestiniana-americana Susan Abulhawa revelou que Israel exportou armas a um ritmo equivalente a cerca de 263 dólares por cidadão em 2025, em comparação com 41 dólares por pessoa nos EUA e 14 dólares na Rússia.

LEITURAS MARGINAIS

LISBOA E JERUSALÉM (semelhanças inesperadas)
Carlos Narciso, Duas Linhas.

(…) Não é necessário estabelecer uma equivalência moral ou histórica entre a conquista de Lisboa no século XII e o que hoje acontece em Jerusalém. São épocas diferentes, sociedades diferentes, mundos políticos diferentes. Mas há qualquer coisa que atravessa os séculos. O vencedor não se limita a conquistar o território. Quer também conquistar os seus símbolos. A vitória militar parece incompleta enquanto o deus do vencido continuar a ter uma casa de oração no lugar onde agora manda o vencedor.

Uma mesquita transforma-se em catedral. Um templo deve desaparecer para que outro possa ser reconstruído. O espaço que durante séculos foi sagrado para uns passa a ser reclamado como sagrado exclusivamente por outros.

Gostamos de pensar que evoluímos. E, naturalmente, evoluímos. Sabemos hoje coisas que os nossos antepassados não poderiam sequer imaginar. Fotografamos galáxias distantes, manipulamos genes, enviamos máquinas para outros planetas, construímos sistemas capazes de processar quantidades absurdas de informação e comunicamos instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo. Mas o progresso técnico não produziu progresso moral.

Podemos usar um telemóvel de última geração e continuar a acreditar que Deus entregou uma determinada parcela do planeta exclusivamente à nossa tribo. Podemos viajar de avião, recorrer à inteligência artificial, fazer uma operação ao coração e continuar a pensar exactamente como pensavam os homens que, há muitos séculos, destruíam os símbolos religiosos dos vencidos para afirmar a superioridade da sua própria fé.

A humanidade pode aperfeiçoar a máquina sem aperfeiçoar o homem que carrega no botão. Continuamos a matar, expulsar e destruir em nome de “certezas” que têm milhares de anos. Em Jerusalém, essa realidade está diante dos nossos olhos. Partilhada nas redes sociais, discutida por políticos e protegida por soldados.

A distância entre a espada de um cruzado que entrou em Lisboa em 1147 e o smartphone de um jovem sionista que defende hoje a destruição de Al-Aqsa parece enorme. Talvez não seja assim tão grande.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

DESLARRRGUEM A ARRÁBIDA: SÁBADO, 29 AGOSTO - 19H

  • A luta contra a privatização das praias continua. O movimento Deslarrrguem a Arrábida continua a convocar ações de protesto para que o tema não caia no esquecimento. A ação convocada pelo movimento está marcada o próximo sábado, dia 29 de agosto, às 19h, na Praça do Bocage, em Setúbal. É uma concentração que terá um elemento de flashmob. Por isso, o movimento está a apelar a que toda a gente traga toalhas de praia como sinal de protesto pelo que nos querem tirar.
  • A Quercus considera que a renovação da licença ambiental das Minas da Panasqueira não deve avançar enquanto não forem esclarecidas as dúvidas existentes sobre os riscos e os passivos ambientais associados à exploração mineira. Segundo o relatório técnico do MiningWatch Portugal, há lacunas relacionadas com a estabilidade geotécnica e sísmica das barragens de rejeitados, a capacidade da Estação de Tratamento de Águas Mineiras para responder a períodos de elevada pluviosidade e a inexistência de estudos atualizados sobre possíveis cenários de rotura. O documento aponta ainda para a ausência de um inventário completo dos passivos ambientais históricos ainda presentes na exploração. A Quercus destaca também o deslizamento ocorrido a 29 de janeiro na Ribeira de Cebola, que arrastou resíduos inertes tóxicos, incluindo metais pesados como chumbo e arsénio, levando à suspensão preventiva de uma captação de água local. Seis meses depois do incidente, a captação continua suspensa, sem que tenham sido divulgados os resultados da monitorização ou os critérios para uma eventual reativação. Outro dos principais alertas da Quercus está relacionado com a qualidade da água e os potenciais impactos nas populações a jusante. A associação lembra que a Ribeira do Bodelhão integra o mesmo curso de água que alimenta a albufeira de Castelo de Bode, uma das principais origens da água captada e tratada pela EPAL para consumo humano em Lisboa e em cerca de 20 municípios da Área Metropolitana e do Oeste.
  • O rio Cáster transformado num “esgoto a céu aberto”. Fonte.

BRUXELAS REJEITA DEBATER MECANISMOS PARA TRIBUTAR LUCROS DAS PETROLÍFERAS

  • Breuxelas rejeitou o pedido de 6 países da União Europeia, - Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Polónia e Áustria -, para a UE debater em setembro um mecanismo para tributar os lucros extraordinários das empresas petrolíferas resultantes do bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão. Fonte.
  • Na Nova Zelândia, um novo projeto de lei impede que as empresas sejam processadas pelos danos climáticos causados pelas suas emissões, uma vez que o governo defende que as medidas climáticas devem ser tratadas a nível nacional e não nos tribunais. Fonte.

BICO CALADO

Cartune: Tjeerd Royaards
  • “(…) Porque acham que o Chega ganhou em Albufeira, logo em Albufeira? Onde domina um turismo trambiqueiro, muito álcool, drogas, prostituição, chico espertos a gamar turistas, discotecas com seguranças privadas, violência, estilo milícias, vencedores imobiliários, cabeleireiros e gestores de resorts? Tudo alimentado por trabalhadores do Bangladesh e da Índia que não podem votar, que nos servem sem nos olhar nos olhos, com medo, escravos, criminalizados por este Governo, que assim garantem que ali em Albufeira esta “economia” funciona – eles carregam as garrafas de rum e vodka, limpam a merda dos WCs, conduzem os consumidores de prostituição ao hotel, cozinham ovos líquidos com tomate a boiar em feijão, servem e morrem de medo de ser expulsos deste paraíso, enquanto os jornalistas, sem se organizarem como classe e por isso a chicote de editores cuidam, penteiam e afagam Ventura e Montenegro, escolhendo sempre para a capa as melhores fotos, sorridentes, de ambos. Um país a saque, sim.” Raquel Varela.
  • Os EUA estão a interferir nas eleições presidenciais brasileiras, pressionando o eleitorado brasileiro a votar no candidato de direita Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente desacreditado Jair Bolsonaro. Se isso não funcionar e o presidente Lula da Silva garantir um quarto mandato, já estão a ser lançadas as bases para uma potencial intervenção militar. Desde sanções e guerra económica até à orientação de influenciadores e jornalistas sobre a melhor forma de atacar o governo de esquerda, a administração Trump está a fazer tudo o que pode para derrubar Lula. Alan Macleod, MPN.
  • Em arquivos franceses desclassificados, foi encontrada uma carta da OAS (Organização do Exército Secreto), datada de 1961, na qual se ameaçava de morte o Secretário-Geral da ONU, Dag Hammarskjöld, seis semanas antes de este ter morrido num «acidente» de avião no norte da Rodésia, a atual Zâmbia. O diplomata sueco morreu a 18 de setembro de 1961, juntamente com outras quinze pessoas, num DC-6 que o levava para Ndola, na Rodésia do Norte, com o objetivo de pôr fim aos combates na província separatista de Katanga, no Congo, onde lutavam muitos mercenários franceses. A OAS era um grupo terrorista que defendia o colonialismo francês na Argélia. Foi fundada em Madrid, em fevereiro de 1961, e, a partir dessa data, os atentados multiplicaram-se na Argélia e em França. Entre 1961 e 1962, a OAS assassinou cerca de 2 000 pessoas, na sua maioria civis, em atentados na França e na Argélia, tendo mesmo tentado assassinar De Gaulle em duas ocasiões. Após desaparecer, regressou a Madrid, onde, a pedido dos governos, cometeu alguns dos atentados da transição política. Fonte.
Foto: 
Moiz Salhi – Anadolu Agency/MEM
  • Agir com firmeza contra os papagaios é uma das mais recentes supostas preocupações de segurança de Israel. «A minha diretiva às forças de defesa e às Forças de Defesa de Israel é fazer tudo o que for necessário contra esta arma letal — atacar o papagaio, atacar quem o opera, atacar o local de onde foi lançado, fazer tudo para proteger os nossos cidadãos nas comunidades fronteiriças de Gaza e em qualquer outro lugar», afirmou o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. O ministro da Defesa, Israel Katz, reiterou a declaração de Netanyahu, afirmando que instruiu as forças armadas «a agir de imediato e com firmeza» contra quaisquer lançamentos a partir de Gaza, que, segundo ele, constituem «um ato de guerra em todos os aspetos». Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

AS UCRANETES EMOCIONAM-ME
RiseUp Portugal/A estátua de sal


Chamemos-lhes, por comodidade, «ucranetes»: aquela curiosa espécie de adepto incondicional da Ucrânia e de Zelensky para quem qualquer crítica a Kiev é automaticamente uma defesa da Rússia, qualquer pergunta sobre corrupção é propaganda de Putin e qualquer tentativa de discutir factos exige primeiro uma declaração pública de fidelidade à causa. Antes de mencionar um caso de corrupção em Kiev convém esclarecer que Putin é mau, que a invasão é condenável e, se houver tempo, dizer qualquer coisa sobre a Crimeia. Só depois desta pequena cerimónia de purificação se pode, talvez, perguntar onde foi parar o dinheiro. E mesmo assim há riscos.

Publica-se uma investigação sobre corrupção envolvendo ministros, antigos ministros, responsáveis do gabinete presidencial, amigos e antigos parceiros de Zelensky e aparece inevitavelmente alguém com a objecção que julga definitiva: «E na Rússia?» Sim, na Rússia também há corrupção. Bastante. Há, aliás, corrupção em muitos países. O que continua por explicar é de que maneira a corrupção russa torna irrelevante a corrupção ucraniana. Se estivermos a falar de um assalto em Lisboa, ninguém especialmente lúcido interrompe a conversa para exigir uma posição sobre os carteiristas de Barcelona. Mas a geopolítica parece conceder certas liberdades ao raciocínio que a vida comum não permite.

Mais divertido é quando aparece o comunismo. Critica-se Zelensky e alguém descobre imediatamente uma inclinação comunista no autor da crítica. É uma associação que exige uma relação muito livre com a realidade. Putin é sustentado politicamente pela Rússia Unida, um partido nacionalista, conservador, autoritário, defensor dos chamados valores tradicionais e situado à direita. O Partido Comunista da Federação Russa existe, por acaso, e é outro partido.

Mas isto já obriga a distinguir a Rússia de hoje da União Soviética, coisa que para algumas pessoas parece constituir uma exigência historiográfica excessiva. Rússia é Rússia, portanto comunismo. Putin nasceu na URSS, logo provavelmente passa as noites a estudar Marx entre um jantar com oligarcas multimilionários e um discurso sobre Deus, família, pátria e valores tradicionais.

A ignorância, apesar de tudo, não é o problema mais grave. A ignorância pode corrigir-se. O problema começa quando a ignorância ganha convicção e passa a exigir respeito. É aí que a Ucrânia se torna particularmente interessante. Se a corrupção é russa, demonstra a natureza do regime. Se é ucraniana, deve ser imediatamente acompanhada por uma explicação sobre Putin. Se aparece um homem próximo de Zelensky numa investigação, é um caso isolado. Se aparecem ministros, antigos ministros, altos responsáveis da Presidência, um antigo chefe de gabinete, amigos e um velho parceiro empresarial, continuamos perante vários casos isolados que tiveram apenas o azar de se conhecerem todos. Uma pessoa menos emocionalmente investida talvez começasse a achar curiosa a frequência das coincidências. O adepto prefere aumentar o número de coincidências.

Depois há o dinheiro. Centenas de milhares de milhões em apoio militar, financeiro e humanitário foram mobilizados para a Ucrânia e seria razoável imaginar que perguntar como esse dinheiro é fiscalizado constituísse uma preocupação banal num continente que passa metade do tempo a falar de transparência, controlo da despesa pública e responsabilidade democrática. Mas não. Perguntar pelas contas pode transformar uma pessoa, num instante, em simpatizante de Putin. E quando aparece um caso de corrupção ucraniano, a primeira preocupação das ucranetes é invariavelmente lembrar que na Rússia também há corrupção.O que seria um argumento formidável se os contribuintes europeus estivessem a financiar o Estado russo. Não estão.

E é aqui que a coisa ganha uma beleza especial. Há europeus muito mais indignados com a corrupção praticada com dinheiro que não é deles do que com a possibilidade de corrupção num Estado para o qual seguem centenas de milhares de milhões em dinheiro, armas e recursos pagos, directa ou indirectamente, pelos seus próprios impostos. Ou seja, perante dois corruptos, interessa-lhes sobretudo fiscalizar aquele a quem não deram dinheiro. É uma forma tão extraordinária de zelo pelo erário público que quase merece estudo. Se um vizinho lhes roubar a carteira, talvez chamem a polícia para investigar as contas do homem que vive três ruas abaixo. É preciso ser-se muito especial.

Chegámos assim a uma situação curiosa: as próprias autoridades ucranianas podem investigar corrupção na Ucrânia, fazer buscas, prender suspeitos e acusar altos responsáveis ucranianos, mas um português que mencione essas mesmas investigações arrisca-se a ser acusado de propaganda russa. A NABU investiga em Kiev. A imprensa internacional noticia. Alguém em Portugal reproduz a informação. E há sempre um cérebro particularmente treinado que, depois de percorrer toda esta cadeia, consegue encontrar Putin escondido na publicação portuguesa.

A Rússia pode ser autoritária, corrupta, responsável por uma invasão ilegal e governada por um homem que ninguém é obrigado a admirar. Nada disso altera uma factura falsificada, uma comissão ilegal ou um suborno cometido na Ucrânia. Uma coisa não apaga a outra. Não é uma conclusão particularmente sofisticada. Exige apenas a capacidade de conservar duas ideias na cabeça ao mesmo tempo.

Talvez seja precisamente aí que esteja o problema.

O fanático não começa por perguntar se um facto é verdadeiro. Começa por perguntar a quem esse facto aproveita. Se prejudica o adversário, é informação. Se prejudica o seu lado, é propaganda. Depois procura um russo, um comunista ou qualquer outro culpado suficientemente distante para não ter de discutir aquilo que estava diante dele.

No fundo, o fanatismo político começa exactamente onde acaba a curiosidade: quando saber se é verdade passa a ser menos importante do que saber de que lado está. E há poucas formas de ignorância mais resistentes do que aquela que se julga esclarecida.