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sábado, 22 de agosto de 2026

EUA: PROBLEMA COM ATERROS SANITÁRIOS

Foto: Katie Rodriguez
  • Os EUA têm um problema com os aterros sanitários. Os aterros sanitários em todo o país estão a verter lixiviados tóxicos para os cursos de água e, quando os proprietários entram em falência ou desaparecem, são os vizinhos e os contribuintes que ficam a arcar com os custos. Fonte.
  • Derrames de petróleo no Irão: a guerra está a deixar marcas ambientais que os cessar-fogos não conseguem sanar. Nima Shokri, The Conversation.

BICO CALADO

  • Um relatório da Amnistia Internacional descreve como o governo argentino de Javier Milei criou um vasto estado de vigilância baseado em inteligência artificial, uma autêntica infraestrutura tecno-autoritária de controlo social. Fonte.
  • Como os EUA e Israel colocaram no poder na Colômbia um cidadão norte-americano ligado a cartéis de droga. O ex-presidente da Colômbia, Gustavo Petro, acusou os EUA e Israel de interferirem nas eleições para colocar no poder o líder de extrema-direita Abelardo de la Espriella, um cidadão norte-americano pró-Trump e aliado de traficantes de droga. Ben Norton, Substack.

LEITURAS MARGINAIS

UMA NAÇÃO DE PIRATAS
Major-General Carlos Branco, Jornal Económico.


As parcerias com o Reino Unido requerem cautela e atenção de quem as celebra. Londres nunca abdica de correr no seu próprio carril independente dos objetivos comuns celebrados.

Refiro-me à Inglaterra ou se quisermos à Grã-Bretanha. O tema dava para uma tese de doutoramento. Recuando no tempo, convém lembrar como durante os séculos XVI e XVII, a monarquia inglesa abraçou a pirataria como um instrumento de política externa e como no século XVIII a descartou quando já não lhe era conveniente, como a considerou fora da lei e passou a perseguir os piratas. Este princípio da conveniência com pouco apego a princípios éticos tem vindo a nortear a política externa inglesa desde então.

Os oligarcas russos conhecem esta realidade em primeira mão. Inicialmente foram recebidos de braços abertos. A City funcionou durante muitos anos como a lavandaria industrial do seu dinheiro. Era a participação nos fundos de investimentos, nas cadeias de hotéis, nos iates e nos clubes de futebol, mas quando isso se tornou inconveniente não tiveram qualquer pejo em os esfaquear pelas costas e congelar os seus bens e o seu dinheiro. Está bem presente o que aconteceu a Roman Abramovich e com o dinheiro da venda do Chelsea.

É assim que a Grã-Bretanha se tem comportado, e se continua a comportar, não se inibindo de se autoproclamar um baluarte dos valores liberais, que se desvanecem de imediato quando cheira a poder e dinheiro. Não se estranha, por isso, que Londres tenha estendido a carpete vermelha a ditadores e oligarcas. Recorde-se a proteção de Tony Blair ao general Augusto Pinochet, cujo regime foi responsável por milhares de mortes e desaparecidos, numa deslocação a um hospital londrino para tratamento. A recusa do Governo britânico cumprir o mandado de captura internacional contra Pinochet, emitido pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, foi sustentada pela decisão da Câmara dos Lordes (à época o supremo tribunal) que entendeu que o princípio da imunidade de um ex-chefe de estado prevalecia sobre as normas de direito internacional relativas ao crime de tortura. Pinochet regressou ao acolhedor regaço de Santiago do Chile, em 2000, onde morreu pacificamente com uma provecta idade. Como prova da sua mentalidade pirata, o Governo inglês recusou-se a cumprir as normas do direito internacional, apesar de hipocritamente ter assinado em 1998 o Estatuto de Roma (que cria o Tribunal Penal Internacional) e o ter ratificado em 2001.

Embora este texto não adiante nada que não se saiba e não seja público, convém relembrar alguns acontecimentos procurando contrariar o revisionismo histórico em curso, ciente de que será sempre exíguo o que se escrever sobre a matéria.

A revisão histórica passa pela família real quando mudou de nome para esquecer a sua origem germânica. Antes de Windsor, a casa real britânica chamava-se Saxe-Coburg e Gotha, mas em 1917, durante a I Grande Guerra, devido ao forte sentimento antigermânico existente no Reino Unido, o rei Jorge V achou por bem metamorfosear as suas origens e passar a chamar-se Windsor.

Segundo o historiador Stuart Laycock, os britânicos invadiram ou participaram em conflitos em 171 países, dos 193 que integram atualmente a ONU, tendo tido uma presença militar em cerca de 90% deles. Numa estimativa conservadora, o número de mortes causadas pelo império britânico nestas guerras ao longo dos séculos rondarão os 100 milhões. Não admira que os britânicos sejam responsáveis por grande parte da conflitualidade e dos problemas que presentemente defrontamos.

Basta lembrar-nos das quezílias entre a Índia e o Paquistão, o Afeganistão, o Médio Oriente, Chipre. Foi este o legado que nos deixaram cabendo às gerações atuais resolvê-los. Os britânicos conseguiram um feito de longe superior ao milagre das rosas da Rainha Santa Isabel, quando prometeram um território que não lhes pertencia a três compradores distintos: aos árabes para os ajudarem na luta contra o Império otomano, aos franceses com o tratado Sykes-Picot e aos judeus através da declaração Balfour, sendo assim os grandes responsáveis por décadas de morte e sofrimento. No novelo das confusões podíamos acrescentar o Afeganistão e a Nigéria, entre muitos outros casos.

A Grã-Bretanha é igualmente responsável pelo processo da partição da Índia em dois países, uma das maiores tragédias humanitárias do século XX, marcada por violência comunal em massa, deslocamento forçado e sofrimento extremo. Causou cerca de 1 milhão de mortos, 12 a 20 milhões de deslocados e cerca de 75 mil mulheres estupradas, sequestradas ou forçadas a casamentos/conversões. Para não falar da repressão sangrenta do movimento anticolonial pacífico liderado por Mahatma Ghandi. A Grã-Bretanha não pode alijar responsabilidades por estes acontecimentos.

Nos dias que correm sente-se a nostalgia britânica do Império onde o sol não se punha. O Brexit foi uma tentativa fracassada de fazer voltar o tempo para trás e matar esperanças vãs. O sempre excelso e honesto ex-primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que o colonialismo em África nunca devia ter acabado e desvalorizou o papel da Grã-Bretanha na escravatura. Para satisfazer esse sonho das glórias passadas, Johnson veio falar de uma “Global Britain” como a opção estratégica nacional a adotar no pós-Brexit, alimentando um sonho irrealizável. Talvez efeito de alucinações, o documento que dava voz a essa ambição identificava a clara intenção de alargar a influência britânica à região do Indo-Pacífico, mesmo quando o fundo dos cofres já estava à vista e a enorme dificuldade em operar a sua frota de guerra era por demais evidente. Ben Barry dá no seu livro The Rise and Fall of the British Army, 1975-2025, uma explicação sobre o estado atual das forças armadas britânicas, expondo o irrealismo de tais propostas.

Manobrando cinicamente pela porta do cavalo, minando a sua «special relationship» com os EUA, e reconhecendo implicitamente a farsa da «Global Britain», Londres escreveu o guião que o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, Governador do Banco de Inglaterra de 2013 a 2020, leu no Fórum Económico Mundial, em Davos (2026), em que alertava para a necessidade de as médias potências se unirem e trabalharem em conjunto — formando coligações ou uma espécie de “aliança das médias potências” — para se protegerem e terem voz num mundo marcado pela rivalidade entre grandes potências e pelo fim da ordem internacional baseada em regras. Washington não dorme, está ciente de quem foram os autores da ideia.

E lá foi o rei Carlos III a Washington, em 2026, tentar salvar o que ainda resta da «relação especial» entre os EUA e o Reino Unido, procurando evitar a repetição de humilhações semelhantes à sofrida na crise do Suez (1956), quando o presidente Eisenhower mandou as forças britânicas, francesas e israelitas calar as armas e retirarem-se do Egito. Mais recentemente, na sequência do Global Britain, quando Londres anunciou o desejo de manter dois vasos de guerra permanentemente no Indo-Pacífico, o Pentágono educadamente “desencorajou” a proatividade britânica dizendo a Londres que era um aliado mais útil se dedicasse a sua atenção à Europa.

A narrativa política e a hipocrisia confundem-se permanentemente na política externa britânica. Como afirmou o antigo presidente do Conselho de segurança da ONU Kishore Mahbubani “quando a China estava fraca e indefesa, o Ocidente [a Grã-Bretanha] forneceu ópio à China, quando a China está forte e bem-sucedida, o Ocidente [a Grã-Bretanha] exporta a sua democracia.” Quando os britânicos falam em direitos humanos, talvez irlandeses e indianos, entre muitos outros povos, tenham alguma palavra a dizer sobre o sofrimento e as humilhações que os britânicos lhes causaram. Os povos autóctones da Austrália têm bem presente o que foi o respeito pelos seus direitos quando começaram a chegar ao território os galeões de sua Majestade carregados com a fina flor da escória prisional britânica, que para aliviar o seu sistema prisional os despachou para o degredo no Novo Mundo.

E voltando ao insuspeito Huntington, o “Ocidente ganhou o mundo não pela superioridade das suas ideias, ou valores ou religião… mas pela sua superioridade na aplicação da violência organizada. Os ocidentais esquecem frequentemente esse facto; mas os não ocidentais nunca esquecerão”. Isso aplica-se à peugada deixada pelos britânicos no mundo.

Na sequência do que disse Kishore, são muitos os povos que não esquecem. As populações autóctones daquilo que é hoje a Austrália e os EUA têm presente as “vicissitudes” a que foram sujeitas. Falamos da limpeza étnica feita de uma forma sistemática.

Os chineses serão o povo com maiores razões de queixa das humilhações a que foram sujeitos pelos britânicos. Dificilmente esquecerão os acontecimentos do século XIX quando lhes foi imposta pelos britânicos a obrigatoriedade de lhes comprar ópio para colmatar o desequilíbrio das trocas comerciais. Talvez motivados por um imenso espírito civilizacional, acrescentaram uma nova dimensão à pirataria: o tráfico e a venda de droga.

Quem visita o Palácio de Verão em Pequim vê à entrada dos diferentes pavilhões uma placa que lembra ter sido aquele local totalmente destruído pelas forças franco-britânicas em dezembro de 1860, não sem antes o terem saqueado e incendiado. Os artefactos do Palácio de Verão (Yuanmingyuan) resultantes do furto foram dispersos por várias coleções públicas e privadas inglesas, em vários museus, pertencendo alguns deles à Coleção Real. É mesmo difícil esquecer.

O “cosmopolitismo” britânico está patente nos muitos bens culturais que adornam as coleções dos seus museus, não por doação, mas pelo saque ilegal dos países “visitados” em África, Ásia, América Latina e até mesmo na Europa rivalizando nesta matéria com os franceses. Esses objetos são património cultural e histórico não da Grã-Bretanha, mas dos Estados a que foram “subtraídos”. O British Museum (Londres) concentra grande parte desse espólio, tendo no Louvre um grande rival. Aí encontra-se a maior coleção individual de “Bronze do Benin” (Nigéria), com mais de 900 objetos. Alberga ainda a Estupa de Amaravati da Índia; esculturas do Partenon (também conhecidas como Mármores de Elgin ou Parthenon Marbles); a Pedra de Roseta do Egipto; estátuas da Ilha de Páscoa. E tantos outros dispersos por outros museus. O Diamante Koh-i-Noor encontra-se na Torre de Londres exposto na Jewel House, juntamente com as outras Joias da Coroa Britânica.

Mas o dilacerante amor britânico pela cultura dos outros povos é rapidamente posto de lado quando o vil metal entra em jogo. Quando acordos para a devolução dos objetos são alcançados, não lhes subjaz um motivo humanitário, têm como pano de fundo razões políticas e económicas. Em 2024, uma escultura de bronze do século XVI de Tirumangai Alvar foi devolvida à Índia porque Londres queria concluir um acordo de livre comércio com Nova Deli.

Em 1953, quando o primeiro-ministro Mossadehg iraniano teve a ousadia de nacionalizar a indústria petrolífera, numa operação que está devidamente documentada, o MI6 e a CIA organizaram conjuntamente um golpe de estado para derrubar um primeiro-ministro democraticamente eleito, e no seu lugar colocarem um déspota servil e vassalo, uma prática anglo-saxónica replicada ao longo da história.

A invasão do Iraque, em 2003, não difere essencialmente do que aconteceu no Irão, em 1953. É uma repetição da história. Efetuou-se uma operação de mudança de regime com base numa grotesca violação do Direito Internacional para colocar no poder dirigentes “moldáveis”. O que estava em causa não eram armas de destruição em massa, mas sim a partilha do espólio das matérias-primas.

Os dirigentes iranianos ainda se lembrarão da dívida britânica de £650 milhões ao Irão, na década de 1970, resultante de uma encomenda 1.500 carros de combate Chieftain e 250 veículos de recuperação de blindados não entregues. Com a revolução em 1979, o Reino Unido cancelou o contrato e como fez com os oligarcas russos, ficou com o dinheiro. Apesar da arbitragem internacional ter confirmado uns anos mais tarde a dívida, o Reino Unido ainda não a pagou e nunca devolveu o dinheiro.

As parcerias com o Reino Unido requerem cautela e atenção de quem as celebra. Os britânicos não são exatamente os pares mais fiáveis. Londres nunca abdica de correr no seu próprio carril independente dos objetivos comuns celebrados. Foi assim na «special relationship» que mantém com os EUA (por exemplo, no Afeganistão e agora na Ucrânia) e que manteve com a UE, quando foi Estado-membro.

O Reino Unido participou na Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) da União Europeia alinhada com os objetivos geopolíticos dos EUA, atuando como o seu «braço direito» no seio do aparelho institucional da UE para que esta não se consolidasse. Fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir que a PCSD se desenvolvesse e aprofundasse, obstruindo e minando qualquer tentativa da UE para construir uma capacidade militar autónoma e credível. Para isso muito contribui a britânica baronesa Catherine Ashton quando foi nomeada para o cargo de Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança e, por acumulação, chefe da Agência Europeia de Defesa, que de uma forma sustentada a tentou matar à nascença.

Apesar do Império Britânico já não existir, o Reino Unido ainda possui 14 territórios ultramarinos por todo o mundo. Estes territórios estão sob soberania britânica, mas não fazem parte do Reino Unido, e cada um tem o seu próprio governo, sendo o Reino Unido responsável pela sua defesa e relações externas. Falamos de Gibraltar, das Ilhas Malvinas, Ilhas Caimão e o Território Antártico Britânico, garantindo-lhe uma presença em locais geoestrategicamente relevantes. A ocupação de Chipre e o legado colonial não foi abandonado. Ao que se pode juntar as ilhas Chago e Madagáscar.

Uma rápida incursão no tema não podia deixar de referir o comportamento do Reino Unido (e da França) nos tempos que antecederam a II Guerra Mundial e que levaram ao sacrifício da Checoslováquia, em 1938, e oferta formal de uma «cooperação» abrangente com a Alemanha nazi. Os Dirksen Papers trazem à luz do dia as conversações de Londres com Berlim, através de canais secretos, sobre o alcance dessa tentada parceria, a qual incluía um realinhamento das «esferas de interesse das Grandes Potências», abrindo a porta a uma maior expansão territorial nazi.

Portugal

O relacionamento da Grã-Bretanha com Portugal não foi diferente daquele que teve com outros países, apesar da tão propalada mais antiga aliança do mundo. Salvaguardando as escassas exceções, é notória a sobranceria com que as elites britânicas olham para Portugal e para os portugueses. O “Ultimato inglês” de 1890 constituiu o maior vexame imposto pela Grã-Bretanha a Portugal. Exigia que Portugal retirasse as suas forças militares dos territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, aquilo que ficou para a história como o “mapa cor-de-rosa”, sob a ameaça do corte de relações e do uso da força militar caso Portugal não recuasse de imediato, uma forma pouco amistosa de tratar um aliado, quando existe um conflito de interesses.

Há, no entanto, quem em Portugal olhe ingenuamente para a Grã-Bretanha como o salvador do país em momentos críticos da sua história. É verdade que nos ajudaram quando lhes era conveniente, nunca de uma forma altruísta, funcionando Portugal como um proxy nas querelas que mantinha com os seus oponentes. O território português não passava uma peça no tabuleiro de xadrez das grandes potências da época e da Grã-Bretanha, em particular.

As humilhações foram demasiado frequentes para quem se arroga de aliado histórico. Aquando da fuga da corte, do Governo português e de toda a elite portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1807, os britânicos escoltaram os navios portugueses, mas em troca de privilégios comerciais e de um estatuto de preferência no Brasil, materializado mais tarde nos Tratados de 1810 (de Aliança e Amizade, e de Comércio e Navegação), assinados no Rio de Janeiro, que deram amplas vantagens comerciais aos ingleses na colónia. Consumou-se assim a progressiva subserviência dos interesses portugueses aos dos britânicos (tinham representação judicial própria, de que já gozavam em Portugal, os litígios que envolvessem súbditos britânicos só podiam ser julgados por juízes britânicos, as tarifas alfandegárias pagas pelos comerciantes ingleses eram inferiores às dos brasileiros, etc.). As humilhações não se limitaram a este período histórico, como é sabido.

A geografia determina que Portugal mantenha sempre uma relação privilegiada com a potência marítima. Isso foi válido no passado e continua a ser válido no presente. Compreendiam-se algumas “cedências” nos tempos em que a Grã-Bretanha tinha esse estatuto, que já não tem e não voltará a ter. Hoje, os EUA são a potência marítima. Por isso, não se entende a contínua bajulação nacional, que os ingleses regurgitam, e a subserviência a quem nos tramou sempre que lhe era conveniente.

Talvez a anglofilia acéfala tenha atingido o seu o zénite, em 2023. Não se entendem as razões profundas que levaram o então presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa a deslocar-se a Londres em junho de 2023, para comemorar os 650 anos da Aliança Luso-Britânica e condecorar o monarca britânico com o Grande Colar da Ordem da Torre e Espada. Não havia necessidade de tremenda adulação a quem, ainda por cima, se encontra em profunda decadência e a caminho da quase irrelevância estratégica.

Fica muito por dizer, mas o que foi dito parece mais do que suficiente para mostrar que quem teve os comportamentos apontados, quem apoia sem pudor as ações genocidas de Telavive, devia ter alguma contenção antes de dar lições morais sobre direitos humanos e terrorismo aos outros. Não será por acaso que a expressão “pérfida Albion”, da autoria do Marquês de Ximenes, passados dois séculos continua atual. Haja vergonha, decência e brio.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

VILA REAL: DESCARGA ANORMAL DE ESGOTOS PODERÁ TER CAUSADO MORTE DE PEIXES NO RIO CORGO

  • Uma descarga anormal de águas residuais no rio Corgo, em Vila Real, pode ter sido a causa da morte de peixes e do odor anómalo. A APA adianta ainda que os indícios recolhidos até ao momento sugerem que esta descarga foi pontual e terá tido lugar entre os dias 15 e 16 de agosto, período em que se registaram episódios de trovoada acompanhados de precipitação na região. Fonte.
  • O gelo marinho tem vindo a desaparecer da Gronelândia Oriental, permitindo que baleias gigantes aproveitem a situação e se desloquem para áreas anteriormente inacessíveis. Esta é a conclusão de um estudo que se prolongou por décadas e que registou — e filmou — centenas das maiores baleias do mundo, incluindo baleias-jubarte, baleias-minke e baleias-de-barbatana, a alimentarem-se em mares sem gelo ao longo da costa durante o verão. Historicamente, nenhum destes mamíferos marinhos era encontrado nesta região, uma vez que o gelo os impedia de aceder às águas costeiras. Agora, à medida que as alterações climáticas aquecem o mar e derretem esse gelo, eles adaptaram-se. Fonte.
  • Tribunal bloqueia estrada que atravessa o Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Izembek. Fonte.

REFLEXÃO

A PRAIA, ESSE CONCEITO LINDO DE “LIBERDADE”


A praia, esse conceito lindo de “liberdade”: liberdade para não conseguir esticar uma perna sem invadir o território sagrado de outro banhista. Toalha com toalha, corpo com corpo, um Tetris humano onde até respirar já parece uma atividade de terapia em grupo.

O mar está ali, algures, entre um guarda-sol, três colchões insufláveis e a esperança de ainda haver espaço para molhar os pés.

Privacidade? Claro que existe. É só fechar os olhos e fingir que a pessoa a 14 centímetros não está a comer uma sandes de ovo com atum.

E no fim, o que conta realmente e depois de 4 horas de trânsito para regressar a casa: “Que dia maravilhoso de praia!”

BICO CALADO

  • “O Governo decide antecipadamente que pretende desenvolver capitalização e regimes complementares; escolhe para coordenar o trabalho alguém [Jorge Bravo] com actividade junto de seguradoras e gestoras de fundos de pensões e com mais de uma década participação neste mesmo debate; acrescenta uma antiga deputada liberal [Carla Castro] oriunda do sector segurador, compõe quase todo o resto com gente da sua própria esfera institucional e não reserva qualquer representação permanente a trabalhadores ou pensionistas. Meses depois, recebe um estudo onde a capitalização e os mecanismos complementares aparecem amplamente desenvolvidos.” RiseUp Portugal.
  • Um grupo de trabalho da Segurança Social ao serviço da banca e dos patrões? Adriano Campos.
  • “Mais uma vez, o desporto internacional confronta-nos com a velha questão dos "dois pesos, duas medidas". Aconteceu recentemente em Roland Garros, com Mirra Andreeva, e voltou a acontecer agora nos Campeonatos da Europa de Ginástica. As atletas russas venceram coletivamente a competição, com uma vantagem de quase quatro pontos sobre a Itália. Foram as melhores, receberam as medalhas - mas não puderam competir com a bandeira do seu país nem ouvir o respetivo hino. (…) O desporto proclama valores de universalidade, respeito, não discriminação e encontro entre os povos. Contudo, assistimos cada vez mais à transformação das competições internacionais num prolongamento dos conflitos geopolíticos. O que era um espaço de superação humana converteu-se, em muitos casos, num tribunal político improvisado, onde juízes externos aplicam sentenças seletivas consoante a conveniência do momento (…) Basta olhar para a história recente: quantas vezes se viram bandeiras de países envolvidos em guerras, invasões ou violações graves do direito internacional hasteadas sem qualquer questionamento em competições mundiais? Onde estava o rigor moral quando outras potências, com responsabilidades diretas em conflitos armados, desfilaram os seus símbolos nacionais sem qualquer constrangimento? Essa seletividade trai o próprio princípio que diz defender. (…)” Manuel Brito, DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. SEMPRE QUE A GEOPOLÍTICA SOBE AO PÓDIO.
  • Na Ucrânia, o chefe de gabinete de Zelensky e outros assessores presidenciais subtraíram 2,5 milhões de libras de fundos públicos para pagar a fiança do ministro da Energia de Zelensky, que aguarda julgamento por corrupção. Fonte.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ESPINHO: FOZ ESTAGNADA É PERIGO PARA A SAÚDE PÚBLICA

  • A ribeira do Mocho, em Espinho, chega ao verão praticamente sem caudal. A água estagna antes de alcançar o mar, criando uma pequena lagoa sem renovação. Apesar disso, há quem insista em nadar ali, atraído pela temperatura amena daquela massa de água estagnada. O problema é que essa lagoa representa um risco sério para a saúde pública. As autoridades sanitárias conhecem bem o perigo. Os autarcas, eleitos para proteger a população, têm a obrigação de o saber também. No entanto, parecem mais preocupados com aquilo que rende boas selfies. É por isso que continuam a gastar uma pipa de massa na lavragem e massagem da praia da Baía — mesmo depois de perder a Bandeira Azul devido a falhas na manutenção da rede de esgotos. Enquanto isso, a lagoa da ribeira do Mocho permanece ali, discreta mas perigosa, à espera que alguém assuma responsabilidades. Não cremos que o fecho da foz desta ribeira tenha sido provocado com o objetivo de impedir a saída e descida de águas com menor qualidade para sul, o que poderia comprometer a existência da única bandeira azul do concelho naa Praia da Seca.
  • Barcelos: Presidente, vereadores e assessores com estacionamento à borla na Câmara. Estacionamento público “vedado” à população é ocupado na totalidade por eleitos e funcionários. Fonte.

BICO CALADO

  • Falar da Palestina tem um preço. Carlos Narciso fala-nos de casos de artistas, músicos, jornalistas independentes e criadores de conteúdos ocidentais que decidiram utilizar a sua visibilidade para denunciar a política de Israel e a destruição de Gaza. Alguns sofreram consequências concretas. Outros denunciam censura ou intimidação. Quando se juntam as histórias, torna-se difícil negar que estamos diante de um padrão: Sarah FriedlandTadhg HickeyNicole JenesIyah MayJulia Mai... 
  • O Reino Unido amplia discretamente uma base secreta de espionagem perto do Irão. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

MARCELO, O DEMOCRATA TARDIO
Jorge Rocha, Ventos semeados.


Nasceu filho de um subsecretário de Salazar que se tornaria governador de Moçambique nomeado por Caetano, e recebeu o nome do próprio Marcello, padrinho de casamento dos pais e quase padrinho seu, tão íntimo que lhe emprestou até o nome — pequenas duas letras de diferença guardam a distância exata entre a devoção e a discrição.

Cresceu, por isso, menos convertido do que ajustado: a democracia chegou-lhe depois, como um fato bem cortado que se veste com naturalidade quando o anterior já não serve. Mesmo não faltando testemunhos contraditórios quanto à sua condição de fura-greves nalgumas das lutas académicas do período de estertor do regime.

O 25 de Abril encontra-o no Expresso na apressada reciclagem de quem sempre soube nadar em qualquer maré, desde que o levasse a algum lado visível.

Já catedrático, sentou-se no júri que chumbou Saldanha Sanches na agregação de 2007, um "ajuste de contas" segundo o próprio visado; Marcelo nega hoje ter votado contra, mas recusa-se, "por delicadeza", a dizer mais. É a delicadeza mais conveniente da política portuguesa, a que protege sempre quem a invoca.

Décadas antes, tinha inventado para Paulo Portas um jantar inteiro em Belém, com ementa e vichyssoise incluídas, jantar que nunca existira — episódio que Portas descobriu ao telefone, praguejando, e que ficou na história como o "facto político" por excelência: aquele que se torna verdade só por ser repetido com convicção suficiente.

Jurou não liderar o PSD "nem que Cristo descesse à Terra", em 1996, e liderou-o um mês depois; jurou deixar a política de vez ao sair de Belém, e o país aguarda, cético, para ver se desta vez o milagre falha a tempo. Entretanto, provou uma tese académica com a própria carreira: que a televisão pode levar quem quiser à Presidência, bastam selfies certas e beijos suficientes na plateia certa.

Foi com esse beneplácito televisivo que pareceu só assistir, em silêncio cúmplice, ou distração genuína, ao parágrafo que Lucília Gago diz ter escrito sozinha, mas Marcelo conheceu antes do próprio António Costa — coincidência que a história ainda não resolveu inteiramente a favor de ninguém, e que devolveu aos socialistas a oposição e ao Chega a antecâmara do poder.

Fica o saldo, esse sim indiscutível: com atos, silêncios e intrigas bem cronometradas, ajudou a dar à extrema-direita portuguesa a dimensão que hoje tem. Ele fica para a pequena História como o democrata da última hora que chegou sempre a tempo de mudar de lado, menos o de evitar as consequências.