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quinta-feira, 26 de março de 2026

CASTRO VERDE: MINISTÉRIO PÚBLICO BLOQUEIA CENTRAL SOLAR

  • Ação em tribunal contra Governo e autarquia suspende obras do maior projeto fotovoltaico para autoconsumo em Portugal, junto à mina de Neves-Corvo. Em causa está uma central fotovoltaica de 49 megawatts, promovida pela Somincor em parceria com a EDP e a Greenvolt, que estava já em fase de execução e mobilizava mais de uma centena de trabalhadores. O MP sustenta que o projeto não cumpre o Plano Diretor Municipal, argumento que está a ser contestado pela autarquia, que já avançou com a preparação da defesa. Fonte.
  • Foi criada a Zona Livre Tecnológica de Energias Renováveis de Abrantes. A ZLT de Abrantes será um espaço de investigação, desenvolvimento e experimentação em ambiente real de tecnologias ligadas à produção, armazenamento e autoconsumo de energia a partir de fontes renováveis. O projeto insere-se no contexto da transição energética e da descarbonização associada ao antigo complexo termoelétrico do Pego. Fonte.
  • Uma nova tecnologia capaz de detetar afluências indevidas na rede de saneamento de forma totalmente digital está a ser desenvolvida pela Águas e Energia do Porto. A solução recorre a uma sonda equipada com inteligência artificial e impulsos elétricos de baixa voltagem, permitindo identificar falhas estruturais com elevada precisão. Ao contrário dos métodos tradicionais, esta tecnologia consegue detetar microfissuras invisíveis a olho nu. O funcionamento baseia-se na dissipação de corrente elétrica: à medida que a sonda percorre a tubagem submersa, a corrente apenas se dispersa quando encontra falhas no material isolante dos coletores. Esses pontos são captados por sensores à superfície, permitindo localizar anomalias com uma margem de erro de cerca de um centímetro. Durante os testes, realizados em aproximadamente três quilómetros de rede, foram identificadas mais de mil anomalias, entre pequenas fissuras e ruturas graves. Estas falhas são responsáveis por uma afluência indevida estimada em cerca de 80 litros por segundo, contribuindo para a sobrecarga dos sistemas de tratamento de águas residuais. O tratamento de dados é feito em em tempo real, sendo a informação recolhida no terreno enviada para uma base de dados nos EUA, onde algoritmos de inteligência artificial convertem automaticamente as variações elétricas em caudais mensuráveis. Fonte.
  • A ETAR de Frielas, em Loures, vai ter uma Estação de Hidrólise Térmica. Esta tecnologia vai otimizar o tratamento de lamas. O processo permitirá não só reduzir drasticamente o volume de resíduos destinados a aterro, mas também produzir lamas microbiologicamente estabilizadas, prontas para utilização direta na agricultura. Além disso, com a recuperação do biogás gerado durante a digestão anaeróbia das lamas, a ETAR poderá maximizar a sua autossuficiência, reduzindo a pegada carbónica e os custos operacionais. Fonte.

BICO CALADO

Número de estrangeiros que adquiriram nacionalidade portuguesa em 2023.
  • A Comissão de Segurança Nacional do parlamento israelita aprovou um projeto de lei que prevê a legalização da pena de morte para palestinianos condenados por participarem em operações que resultem na morte de israelitas. Fonte.
  • O autor do projeto de lei que altera as regras de fiscalização ambiental do IBAMA, o deputado federal Lúcio Mosquini, teve como seu maior doador individual de campanha, em 2022, um empresário e fazendeiro que foi multado pelo órgão por infração ambiental. Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou a urgência do PL, que permite sua análise diretamente no plenário, sem passar por comissões temáticas. Fonte.
  • Partindo de um único caso trágico, o Expresso constrói uma narrativa de risco sistémico sobre partos domiciliários sem apresentar o essencial: números, universo e comparação. A análise dos dados mostra o contrário — mesmo aplicando a taxa nacional de mortalidade neonatal, os casos descritos enquadram-se no expectável. Sem contexto, o jornalismo não informa: induz medo. Fonte.
  • Os contribuintes já pagaram quase 1,5 milhões de euros no aluguer de touros para largadas e corridas. Os municípios que mais gastam na contratação de animais são Vila Franca de Xira e a Moita, com despesas de 650 mil e 400 mil euros, respectivamente. Mas as autarquias também organizam e promovem touradas. No total, desde 2009, os custos para o erário público com corridas e largadas supera os 2,3 milhões de euros. Fonte.

quarta-feira, 25 de março de 2026

CENTRAIS DE BIOMASSA APOIADAS PARA MELHOR COMBATER FOGOS RURAIS

  • O Ministério do Ambiente e Energia reformulou o regime de cálculo da remuneração das centrais de biomassa, passando a atribuir maior peso ao contributo de cada unidade na gestão integrada de fogos rurais. A alteração procura reforçar o papel destas centrais na prevenção de incêndios e na gestão florestal. Com a nova portaria, a remuneração das centrais passa também a estar indexada à área ardida na respetiva região de influência, num período de referência até três anos. Fonte.
  • A Quercus alerta para risco de contaminação do Rio Zêzere com resíduos tóxicos da extração mineira e pede mais fiscalização à qualidade da água, especialmente depois do colapso da barragem de lamas das Minas da Panasqueira de que resultou o arrastamento de uma considerável quantidade de resíduos inertes tóxicos para os cursos de água próximos, nomeadamente a ribeira de Cebola, um afluente do rio Zêzere. Em causa estão metais pesados altamente tóxicos como o chumbo e o arsénio, decorrentes da atividade mineira, e que só por si são motivo mais do que suficiente para a existência de fiscalização mais meticulosa. Este episódio motivou, aliás, a suspensão da captação de água num ponto de abastecimento local e impulsionou a necessidade de análises para controlo da qualidade da água por parte da Câmara Municipal da Covilhã. Fonte.
  • O projeto mineiro de volfrâmio "San Juan" em A Gudiña, na província galega de Ourense, situa-se a menos de dois quilómetros do concelho português de Vinhais e do Parque Natural de Montesinho. Apesar desta proximidade, o projeto avança “sem que estejam cumpridas as obrigações internacionais de consulta e avaliação transfronteiriça que vinculam o Estado português”, refere do deputado do Bloco de Esquerda Fabian Figueiredo. Fonte.

EUA: CENTRAL EÓLICA DESCARTADA A FAVOR DE PROJETOS DE GÁS E PETRÓLEO

Turbinas eólicas no parque eólico de Altamont Pass, em 13 de janeiro de 2026, em Livermore, Califórnia. 
(Foto de Justin Sullivan/Getty Images)
  • A francesa TotalEnergies concordou em renunciar aos seus projetos em águas federais ao largo das costas de Nova Iorque e da Carolina do Norte e, em vez disso, investirá o dinheiro recebido da administração Trump em projetos de petróleo e gás nos EUA, «incluindo uma instalação no Texas que exportaria gás natural liquefeito para os mercados globais». «Isto não passa de um suborno financiado pelos contribuintes para acabar com a energia limpa produzida internamente e entregar o dinheiro diretamente aos executivos do setor do petróleo e do gás», escreveu a organização de defesa do clima Evergreen Action nas redes sociais. «Trump está, mais uma vez, a obrigar os americanos a pagar mais pela energia para que os seus grandes doadores do setor petrolífero possam arrecadar ainda mais lucros.» Melanie D’Arrigo, diretora executiva da Campaign for New York Health, expressou um sentimento semelhante. «Mil milhões de dólares dos nossos impostos para acabar com um programa de energia limpa que cria empregos, apenas para que os grandes doadores do setor petrolífero de Trump possam obter mais lucros», escreveu D’Arrigo. «A presidência mais corrupta de sempre — e nem sequer há comparação.» Fonte.
  • A Califórnia processa Trump para manter fechado o oleoduto na costa de Santa Bárbara. Fonte.
  • Foi instaurada uma ação judicial contra a Fraport Brasil — a subsidiária brasileira da Fraport AG, proprietária do Aeroporto de Frankfurt, na Alemanha — na sequência de acusações de destruição ambiental. O vereador de Fortaleza, Gabriel Biologia, interpôs uma ação coletiva contra a empresa, juntamente com outras entidades públicas reguladoras, solicitando uma indemnização de 100 milhões de reais brasileiros (cerca de 16,5 milhões de euros). A ação alega «irregularidades e ilegalidades» relacionadas com a desflorestação de uma área de terreno localizada nas proximidades do Aeroporto Internacional de Fortaleza, no Brasil, que está a ser desbastada para a construção de um armazém logístico. O Aeroporto Internacional de Fortaleza é uma subsidiária da Fraport AG. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Rory Merry/Zuma Press Wire/Shutterstock
  • O Departamento de Investigação Criminal de Braga da Polícia Judiciária deteve no sábado em flagrante delito um homem de 27 anos suspeito da prática dos crimes de pornografia de menores, abuso sexual de crianças, agravado, e ainda de devassa da vida privada, sendo vítimas a sua filha e também a sua companheira. Ivo Faria foi cabeça de lista do Chega nas últimas eleições autárquicas à União de Freguesias de Antime e Silvares S. Clemente, em Fafe. Fonte.
  • “O Público (que boicota há dez anos tudo o que publico e ignora o meu trabalho mesmo quando é distinguido internacionalmente) e o Expresso (do qual ainda sou formalmente colaborador sem lhes propor nada há quinze anos) têm em comum direcções editoriais cuja principal qualidade é antecipar os desejos das respectivas administrações e accionistas. A liberdade editorial dos jornalistas de redacção só existe quando não colide com as agendas dos accionistas (ou dos bancos por trás destes). Se há pessoas que os accionistas do Público têm numa lista negra (lista essa que não precisa de existência material/formal porque qualquer director sabe cumprir os exercícios de autocensura) são as que lutam por leis do trabalho que respeitem os direitos e a dignidade dos trabalhadores.“ Miguel Szymanski, em comentário a texto de Raquel Varela.
  • O Departamento de Estado dos EUA, sob a presidência de Donald Trump, foi acusado de roubar mais de mil milhões de dólares a imigrantes e patrocinadores, no que os especialistas apelidam de «a maior fraude da história do sistema de imigração dos EUA». Um relatório publicado pelo Instituto Cato, redigido pelo diretor de estudos de imigração David J. Bier, revelou que o Departamento de Estado e o Departamento de Segurança Interna estavam a receber milhões de pedidos de imigrantes a quem Trump tornou inelegíveis para obter estatuto legal e a embolsar as taxas sem nunca processar os pedidos. «O governo dos EUA arrecadou mais de mil milhões de dólares em taxas de imigração e depois recusou-se a processar os pedidos», afirmou Austin Kocher, investigador do Immigration Lab e professor na Newhouse e na Universidade de Syracuse, numa publicação nas redes sociais em que analisava o relatório. «Sem recusas. Sem reembolsos. Apenas silêncio.» Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O CONFINAMENTO ENERGÉTICO JÁ COMEÇOU
Martina H, Medium. Trad. O’Lima.

Incêndio no depósito de petróleo de Shahran, em Teerão, no contexto dos ataques dos EUA e de Israel ao Irão, 
deixando inúmeros camiões-cisterna e veículos na zona inutilizáveis. Foto: Anadolu/Getty Images/The Guardian

A expectativa inicial, nos primeiros dias após o encerramento do Estreito de Ormuz, era de que a perturbação durasse uma semana, talvez duas. Os mercados ficariam mais tensos, os preços disparariam, os diplomatas encontrariam uma saída e o sistema energético global retomaria o seu funcionamento normal e poluente.

Essa expectativa ruiu agora, e a rapidez com que isso aconteceu apenas revela algo que deveria ser óbvio, mas em que, até esta guerra, mal pensávamos: subestimámos gravemente o quanto a vida moderna depende do sistema energético alimentado por combustíveis fósseis que construímos.

A maior refinaria de GNL do mundo, no Catar, sofreu danos devido a um ataque com drones há mais de duas semanas. O ministro da Energia do Catar, Saad al-Kaabi, afirmou posteriormente que o regresso à produção total levaria «semanas ou meses». Isso foi antes de Israel bombardear o campo de gás de South Pars, que o Irão partilha com o Catar, e de Trump negar que os EUA tivessem conhecimento do plano (fontes israelitas afirmam que os EUA ajudaram a coordenar o ataque). Antes de o Irão retaliar atacando instalações energéticas na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, no Kuwait e no Bahrein. Antes de a Qatar Energy alertar que os danos nas suas instalações de Ras Laffan, a fábrica que normalmente fornece um quinto do gás natural liquefeito do mundo, poderiam demorar de três a cinco anos a reparar totalmente, e que poderia ter de se eximir das obrigações contratuais de longo prazo para com a Itália, a Bélgica, a Coreia do Sul e a China. Antes de o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, ter alertado publicamente que o Irão não demonstraria «qualquer contenção» se as suas infraestruturas fossem novamente alvo de ataques.

Depois, o Irão atacou a refinaria de petróleo de Haifa, a maior de Israel, e reduziu-a a cinzas. O país que iniciou esta guerra está agora a alimentar a sua máquina de guerra com combustível emprestado, a esgotar reservas de que não esperava precisar, descobrindo que a infraestrutura do poder militar e a infraestrutura energética são, no fim de contas, a mesma infraestrutura. A máquina que lança os ataques depende das mesmas cadeias de abastecimento que está a destruir.

The Guardian

O conflito passou do bloqueio dos fluxos comerciais para a destruição das infraestruturas que tornam possíveis esses fluxos. Não se trata do mesmo tipo de problema. Uma rota marítima bloqueada reabre quando a situação política muda. Um campo de gás danificado não volta a funcionar porque alguém assina um cessar-fogo. Compressores, gasodutos, instalações de liquefação, plataformas offshore: não se trata de válvulas que se voltam a abrir. São sistemas industriais que levam anos a construir, exigem equipamento e engenheiros especializados para reparar, e avariam em prazos que nada têm a ver com calendários diplomáticos.

Os horizontes de perturbação têm vindo a transformar-se de dias em semanas, de semanas em meses e de meses em anos. O mundo precisa de se preparar para um choque energético prolongado, e precisa de começar agora.

E depois há os danos que nenhum calendário diplomático jamais reparará. Porque se a primeira vítima da guerra é a verdade, o ambiente vem logo a seguir.

Há duas semanas, caiu chuva negra sobre Teerão. Uma lama tóxica composta por fuligem, fumo, partículas de petróleo e compostos de enxofre, resultado direto dos ataques a instalações de armazenamento de petróleo, cobriu uma cidade de dez milhões de habitantes. Os residentes descreveram o ar como «apocalíptico», reportando ardor nos olhos e na garganta e dificuldade em respirar — a sensação de um céu transformado num verdadeiro inferno. Os compostos libertados acarretam riscos elevados de cancro, danos cardiovasculares e doenças respiratórias a longo prazo. Se esses poluentes atingirem as fontes de água já escassas, a vida aquática e os abastecimentos de água potável serão os próximos afetados. A região encontra-se num limiar ecológico, com instalações de petróleo e gás mal protegidas a rodear o Golfo, ao alcance dos mísseis de todos.

Os primeiros doze meses da invasão da Ucrânia pela Rússia resultaram na emissão de 120 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera, o que corresponde a cerca de um oitavo das emissões anuais da aviação mundial. A guerra no Golfo está a acrescentar a sua própria carga massiva a uma atmosfera que já se aquece a um ritmo acelerado. Cada ataque a um depósito de petróleo, cada plataforma em chamas, cada rutura de oleoduto é um evento de carbono desproporcional que não aparece na contabilidade oficial de emissões de nenhum país, porque as guerras estão isentas dos quadros concebidos para medir os danos que a civilização está a infligir a si própria.

O que estamos a assistir agora são os ataques de maior visibilidade e maior impacto contra vidas inocentes, sistemas energéticos essenciais e o ambiente, que, em conjunto, irão resultar num legado tóxico e de luto que irá assolar toda a região e o mundo (mas especialmente o Irão) nas próximas décadas.

Os choques energéticos não terminam com um cessar-fogo. Quando se começa a incendiar as refinarias, está-se a reescrever o clima, os padrões de saúde e o futuro.

Lições e medidas de conveniência

O exemplo mais recente de um choque energético prolongado é o da Europa, após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. A resposta teve quatro componentes: substituir, reabastecer, proteger e limitar. Cada um deles funcionou, no sentido estrito, para evitar um colapso imediato. Cada um também produziu consequências que os arquitetos da política preferiram não divulgar.

Substituir o gás russo significou vasculhar o mundo em busca de fontes alternativas, principalmente GNL americano transportado através do Atlântico. Funcionou. Mas a corrida entre os países por um conjunto global finito de oferta fez subir os preços em todo o lado. Os países mais pobres, incapazes de competir com os preços que os compradores europeus estavam dispostos a pagar, foram totalmente excluídos do mercado. O Bangladesh sofreu cortes de energia. O Sri Lanka entrou em crise económica. Os cereais da Ucrânia que deveriam ter ido para a Somália foram, em vez disso, para a Alemanha, tudo porque a Alemanha podia pagar mais.

A reposição de reservas implicou o armazenamento dos depósitos de gás europeus durante o verão, ao abrigo de mandatos governamentais que obrigavam as empresas de serviços públicos a cumprir as metas até ao outono, a qualquer custo. O sinal que chegou aos operadores foi simples: digam o vosso preço — e os preços subiram em conformidade.

Proteger os consumidores significava subsídios numa escala que os governos europeus não tinham utilizado fora de tempos de guerra. A Comissão Europeia estima que o total de subsídios à energia em toda a UE saltou de 213 mil milhões de euros em 2021 para 397 mil milhões de euros em 2022, e mal diminuiu em 2023. Os subsídios mantiveram as famílias aquecidas e politicamente estáveis. Também mantiveram o consumo mais elevado do que teria sido de outra forma, o que manteve os preços grossistas elevados por mais tempo.

A imposição de um limite máximo aos preços nas bolsas de gás deveria ter contido os danos. Mas um limite fixado abaixo dos preços do mercado global significou simplesmente que os escassos fluxos de GNL foram para outro lado, para compradores dispostos a pagar o preço de mercado. O limite acabou por se tornar flexível, o que é outra forma de dizer que não era realmente um limite.

A medida que nunca foi seriamente experimentada foi a redução da procura. E agora está a chegar de qualquer forma, por uma porta diferente, com um nome diferente, mas com as mesmas instruções associadas.

Após a maior libertação de reservas petrolíferas governamentais da sua história, com o objetivo de ajudar a atenuar o choque dos preços do petróleo, a AIE apresentou 10 medidas para proteger contra choques petrolíferos, reduzindo a procura e ajudando as famílias e as empresas a prepararem-se para uma prolongada crise nos mercados energéticos. Estas medidas incluíram: trabalhar a partir de casa sempre que possível, reduzir a velocidade nas autoestradas, restringir o acesso de automóveis nas grandes cidades através da rotação das matrículas, limitar as viagens aéreas, incentivar os transportes públicos e substituir as matérias-primas industriais.

O Japão já está a racionar combustível. A Coreia do Sul está a racionar combustível. O Bangladesh, as Filipinas e o Sri Lanka estão a racionar combustível. A Austrália já começou a registar casos de roubo de combustível dos automóveis.

Ouvimos isso em 2020. Na altura, chamaram-lhe uma medida de saúde. Agora, chamam-lhe uma medida energética. A formulação é idêntica. O mecanismo é idêntico.

O conceito da pegada de carbono individual foi popularizado por uma campanha publicitária da BP no início dos anos 2000. A lógica era elegante na altura e está a ser reciclada, mais uma vez, em nome das grandes petrolíferas: estamos a passar por um período difícil, mas acabaremos por recuperar. Por isso, aguenta-te: nunca te deixaremos sozinho — é demasiado lucrativo para nós. Se a crise é causada pelas tuas escolhas, a solução são as tuas escolhas, e a questão estrutural de quem construiu o sistema que produziu essas escolhas desaparece de vista.

Claro, todos nós, enquanto indivíduos, devemos dar o nosso melhor para viver de forma mais ecológica, consumir de forma consciente e saber quando é que basta. Mas as instalações de Ras Laffan não foram danificadas porque te esqueceste de desligar o aquecimento. O Estreito de Ormuz não fechou porque conduzias depressa na autoestrada. É este sistema predatório, aquele que nos transformou a todos em escravos dos combustíveis fósseis, o mesmo sistema que agora te pede para resolver o problema conduzindo menos, voando menos e trabalhando a partir de casa.

A infraestrutura que arde em todo o Golfo Pérsico foi construída por governos e empresas ao longo de setenta anos, organizada em torno de um recurso que sabiam que iria produzir exatamente este tipo de crise, mantida com força militar e décadas de desorientação deliberada do público. E a resposta, quando a crise chega na data prevista, é uma lista de dez coisas que tu pessoalmente deves fazer de forma diferente.

Não foi por opção que te tornaste dependente dos combustíveis fósseis, tal como optas por uma assinatura. Essa dependência estava incorporada na infraestrutura da vida em que nasceste, antes mesmo de teres qualquer opinião sobre o assunto, por parte de interesses que, nas décadas seguintes, se empenharam em garantir que as alternativas continuassem a ser caras, marginais e politicamente inconvenientes.

No entanto, neste momento, até mesmo os negacionistas das alterações climáticas mais ferrenhos e defensores dos combustíveis fósseis percebem que este choque energético que se aproxima para todos nós não teria acontecido nesta escala se a transição para as energias renováveis fosse uma realidade e não apenas um acréscimo a um sistema de extração e consumo sem fim.

O que está a acontecer é o seguinte: o petróleo caminha para os 150 dólares por barril e possivelmente mais. As companhias aéreas já estão a cortar rotas. A United Airlines reduziu 5% da sua capacidade esta semana, e o seu CEO está a apontar para um preço do petróleo de 175 dólares até ao final de 2027. Os custos de transporte rodoviário estão a aumentar, o que significa que todos os produtos em todas as lojas ficam mais caros antes de chegarem às prateleiras. O transporte de fertilizantes pelo Estreito de Ormuz parou há semanas, o que significa que a colheita plantada nesta primavera será menor do que deveria ser, o que significa que os preços dos alimentos subirão durante o outono e no próximo ano. A gasolina já está a preços que estão a mudar comportamentos, mesmo em países conservadores.


A semelhança com a COVID não é fortuita. Em ambos os casos, uma falha sistémica — uma na infraestrutura de saúde pública e outra na infraestrutura energética — foi reformulada como um problema comportamental que exigia o cumprimento individual. Em ambos os casos, as pessoas que criaram as condições que tornaram a crise possível mantiveram o seu poder, os seus lucros e a sua capacidade de definir os termos da resposta. Em ambos os casos, a retórica do sacrifício coletivo foi utilizada para proteger arranjos que servem uma minoria concentrada à custa de todos os outros.

Como chegámos aqui

O interesse intenso e contínuo do Ocidente pelo Médio Oriente não é um capricho político aleatório. Neste momento, todos sabemos o que se esconde debaixo do solo. No entanto, tudo começou em 1953, quando o governo de Winston Churchill persuadiu a CIA a lançar um golpe de Estado contra o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh, que pretendia nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company, para que os recursos não fossem roubados por um país estrangeiro imperialista. O golpe acabou por ser bem-sucedido e, em 1954, a Anglo-Iranian Oil Company passou a chamar-se British Petroleum, hoje BP, e é uma das empresas mais poluentes do planeta.

Os EUA e a Grã-Bretanha ajudaram a derrubar o governo eleito do Irão para proteger os interesses petrolíferos. Isso abriu as portas a décadas de ditadura sob o xá, o que acabou por desencadear a revolução de 1979. Os aiatolás tomaram então o controlo dessa revolução, e o Irão tem vivido com as consequências desde então. Por isso, o conflito atual não é uma erupção aleatória. Tem origem naquela decisão anterior de esmagar uma democracia porque esta tentava controlar os seus próprios recursos.

É isto que fica por detrás quando as pessoas falam de «capitalismo de mercado livre». O sistema que controla a energia mundial não é «livre» em nenhum sentido comum. Funciona à base de apropriação de recursos, recorrendo à força e ao poder oculto para punir os países que resistem, canalizando dinheiro de locais mais pobres para centros financeiros ricos e transferindo os custos reais para o público, o ambiente e as pessoas que dele dependem.

Terra, água, petróleo: em muitos casos, são simplesmente confiscados. Os recursos públicos são entregues a monopolistas privados. Os poderosos são resgatados quando falham. Ao resto da população, diz-se que o mercado se pronunciou.

O poder militar existe, em grande parte, para manter este sistema a funcionar. E não se trata apenas de armas: lobistas, meios de comunicação favoráveis e algoritmos das redes sociais que recompensam a indignação e a divisão desempenham a mesma função. Ajudam a manter no poder os líderes mais favoráveis ao petróleo e fazem com que as pessoas que pressionam pela mudança pareçam ingénuas, impopulares ou «demasiado caras».

Durante o pior da Covid, as sondagens mostraram consistentemente que a maioria das pessoas queria que a mudança se mantivesse: um mundo que colocasse a saúde, a qualidade de vida e a proteção ambiental à frente do crescimento económico incessante. Em vez disso, os governos gastaram milhares de milhões a tentar que tudo voltasse ao «normal», incluindo os setores que já estavam mal.

Preparem-se para o choque

O custo adicional de um único pico no preço dos combustíveis fósseis, da magnitude do registado em 2022, equivale ao custo total de alcançar o zero líquido até 2050. O choque do Irão custará mais do que 2022. Em troca de um pico no preço do petróleo, não recebes nada além de danos e uma conta para pagar. Em troca da transição, recebes um sistema energético sem o Estreito de Ormuz, sem campos de gás que um drone possa desativar por cinco anos, sem cartéis que possam triplicar a tua conta de aquecimento numa terça-feira porque começou uma guerra num lugar que nem consegues localizar no mapa.

O Irão tem capacidade para atacar a instalação nuclear de Israel em Dimona. O dia em que isso acontecer é o dia em que esta crise sai da categoria de catástrofe recuperável e entra na categoria de rutura permanente. Uma guerra convencional sobre infraestruturas tem um prazo de reconstrução. Um conflito nuclear tem um antes e um depois, e nenhum governo atualmente envolvido nesta guerra explicou publicamente qual é o seu plano para o momento em que essas duas categorias se fundirem.

Eis o que liga a guerra, a subida dos preços, a crise climática e a recessão democrática num único sistema, em vez de uma série de acontecimentos negativos isolados. À medida que as energias renováveis começaram a ameaçar verdadeiramente as receitas dos hidrocarbonetos, a resposta política foi imediata e coordenada: novas leis que criminalizam os protestos climáticos, defensores da terra alvejados por paramilitares no Sul Global, milhares de milhões redirecionados para infraestruturas de negação e a captura de sistemas políticos que, de outra forma, poderiam regulá-los.

A energia fóssil não alimenta apenas as economias. Alimenta os arranjos políticos que protegem a energia fóssil. O ciclo é auto-reforçante e tem vindo a apertar-se há trinta anos.

Quebrar a dependência dos combustíveis, e o ciclo quebra com ela. Sem receitas do petróleo para proteger, há menos motivos para realizar golpes, assassinatos, guerras, sequestros e manter autocratas no poder porque mantêm o abastecimento em movimento. Sem o ponto de estrangulamento, não há ponto de estrangulamento pelo qual lutar. Sem a economia de extração a exigir cobertura política, a cobertura política torna-se mais difícil de sustentar.

A transição para as energias renováveis representa uma ameaça a toda a estrutura de poder concentrado que a economia dos combustíveis fósseis construiu e mantém. É por isso que a transição tem sido adiada há cinquenta anos por aqueles que mais têm a perder com ela.

Preparem-se para o choque.

Podes fazer o que os governos pedem: conduzir menos, voar menos, baixar o termóstato. Mas fica a saber que tudo isso ajuda, mas sobretudo de forma marginal. Por isso, tem isto em mente: o choque energético, a crise política e a crise ambiental são o mesmo problema. E a verdadeira solução não passa apenas pelo sacrifício pessoal. Trata-se de um esforço de emergência para eliminar os combustíveis fósseis da vida quotidiana, de forma mais rápida e mais abrangente do que qualquer governo está atualmente a planear.

Esse é o único caminho para quebrar a oligarquia que mantém este sistema em vigor.

domingo, 22 de março de 2026

LEITURAS MARGINAIS

COMO OS EUA E ISRAEL ESTIVERAM PRESTES A INICIAR UMA GUERRA CONTRA O IRÃO HÁ 20 ANOS
Jonathan Cook, Substack. Trad. O’Lima.

Em 2008, a Pluto Press publicou o meu livro «Israel e o Choque de Civilizações: Iraque, Irão e o Plano para Remodelar o Médio Oriente». Foi uma tentativa de explicar como Israel tinha persuadido um grupo de aliados belicistas em Washington – conhecidos como neoconservadores (ou neocons, para abreviar) – a trabalhar a partir do seio da administração de George W. Bush para apoiar uma ambição israelita de longa data de balcanizar o Médio Oriente: ou seja, usar a força para derrubar os regimes da região, especialmente aqueles que resistiam ao domínio militar de Israel sobre a região. Os neoconservadores começaram a sério com o Iraque em 2003 e, em seguida, planeavam avançar para o Líbano, a Síria e terminar no Irão.

Os benefícios para Israel eram múltiplos. Em primeiro lugar, o colapso dos regimes enfraqueceria as maiorias muçulmanas, permitindo a Israel manipular melhor as tensões existentes entre as comunidades sunitas e xiitas; forjar mais facilmente alianças com outras minorias, como os drusos, os cristãos e os curdos, que reforçariam a posição estratégica de Israel; e impedir qualquer ressurgimento de um nacionalismo árabe unificador que tinha sido tão evidente durante as décadas de 1950 e 1960.

Em segundo lugar, os Estados falhados, dilacerados por uma guerra civil permanente, deixariam Israel livre para dominar militarmente a região e garantir a sua aliança privilegiada com Washington.

Em terceiro lugar, na altura, Israel e os neoconservadores estavam empenhados em quebrar o controlo da Arábia Saudita sobre o cartel petrolífero da OPEP e, assim, minar a influência saudita em Washington, bem como a sua capacidade de financiar o extremismo islâmico e a resistência palestiniana. (Estas preocupações foram posteriormente ultrapassadas quando uma nova vassoura em Riade, na figura do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, abandonou a causa palestiniana e se aproximou cada vez mais de uma normalização formal com Israel ao abrigo dos Acordos de Abraão.)

Em quarto lugar, com a região em caos, Israel ficaria livre para concluir a expulsão do povo palestiniano do que restava da sua pátria.

Como o meu livro documenta, a invasão do Iraque em 2003 foi um desastre absoluto; o Hezbollah infligiu uma derrota humilhante a Israel quando este tentou invadir o sul do Líbano em 2006; em consequência, a expansão da guerra para a Síria teve de ser abandonada, para evidente desagrado dos neoconservadores da administração Bush; e o objetivo final de destruir o Irão teve de ser suspenso.

Dezoito anos é muito tempo em geopolítica. Mas publico abaixo um extenso excerto do segundo capítulo do meu livro, «A Longa Campanha Contra o Irão», porque oferece um registo detalhado de como Israel e os seus aliados neoconservadores na administração Bush apresentaram os mesmos argumentos para atacar o Irão que apresentam agora – e estiveram muito perto de conseguir o que queriam. Eles viam uma guerra contra o Irão como a segunda fase do ataque de 2003 ao Iraque. Acreditavam que os dois vinham como um pacote. Atacar apenas um iria fortalecer o outro. O que foi exatamente o que aconteceu depois de Israel e os neoconservadores terem orquestrado o colapso do regime no Iraque, mas não terem conseguido avançar para o Irão.

Vinte anos depois, a maior parte da cobertura da atual guerra entre os EUA e Israel contra o Irão tende a partir de dois pressupostos errados. Em primeiro lugar, que o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu foi o principal impulsionador, do lado de Israel, dos planos para atacar o Irão. Na verdade, como este capítulo e o anterior sobre o Iraque demonstram, a ideia era amplamente partilhada nos círculos militares e políticos de Israel. E, em segundo lugar, que Donald Trump foi o primeiro presidente dos EUA suficientemente tolo para cair na armadilha montada por Israel – ou, pelo menos, pelos doadores pró-Israel de Trump. Embora haja alguma verdade nisto, é também demasiado simplista. Todas as provas sugerem que a ideia de atacar o Irão – vendida como «remodelar o Médio Oriente» – ganhou terreno na imaginação dos políticos e responsáveis norte-americanos, incluindo no Pentágono, há mais de duas décadas.

O ex-comandante da NATO, o general Wesley Clark, confirmou-nos isso mesmo, quando relatou em 2007 que, durante uma visita ao Pentágono, lhe tinham falado de um plano, logo após os ataques de 11 de setembro às Torres Gémeas em Nova Iorque em 2001, para que as forças armadas dos EUA «derrubassem sete países em cinco anos, começando pelo Iraque e passando pela Síria, Líbano, Somália, Sudão e terminando no Irão».

Visto desta perspetiva, parece que os EUA e Israel têm vindo a traçar conjuntamente este rumo desde então. Após a primeira tentativa falhada, durante a administração de Bush, repensaram a sua estratégia e aguardaram até considerarem que todas as peças estavam no lugar. Um genocídio em Gaza deixou o Hamas encurralado no enclave. O Hezbollah foi amplamente derrotado e subjugado no Líbano. E o Estado sírio foi esvaziado, com a queda do regime de Bashar Assad em 2024, após anos de intrigas implacáveis – grande parte delas no âmbito da Operação Timber Sycamore – por parte dos EUA, de Israel e da Grã-Bretanha. O novo presidente sírio e antigo líder da Al-Qaeda, Ahmed al-Sharaa, que luta para manter o país unido à medida que surgem queixas sectárias e que, privado de qualquer coisa que se assemelhe a um exército nacional após repetidos ataques israelitas, é agora efetivamente um cliente dos EUA.

Numa declaração profética do início de 2005, o vice-presidente de Bush, Dick Cheney, afirmou: «Tendo em conta que o Irão tem uma política declarada cujo objetivo é a destruição de Israel, os israelitas poderão muito bem decidir agir primeiro e deixar que o resto do mundo se preocupe em resolver a confusão diplomática que se seguirá.»

É evidente que a «confusão» se estende agora muito para além dos problemas diplomáticos. (...)

BICO CALADO

Foto: Joe Giddens/PA
  • “(…) A qualidade profissional não interessa, se és comunista, estás tramado. Como André Ventura explicou, Chega e PSD voltaram ao rescaldo do Verão Quente e abriram a época de caça ao comuna - o que incluirá, como ele disse, a “limpeza” de socialistas e bloquistas.” Pedro Tadeu, UEC! UEC! Abriu a caça ao comuna?DN 20mar2026.
  • Jared Kushner, genro do presidente dos EUA Donald Trump, estará alegadamente a tentar convencer governos do Médio Oriente a investir milhares de milhões na sua empresa de capital de risco, ao mesmo tempo que desempenha as funções de «enviado especial para a paz» — um cargo que parece ter utilizado para ajdar a convencer Trump a declarar guerra ao Irão. Fonte.