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sábado, 7 de março de 2026

ESPINHO: APROVADO O PLANO DE GESTÃO DA ZEC DA BARRINHA DE ESMORIZ


Está aprovado e publicado em Diário da República o plano de gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) da Barrinha de Esmoriz, numa abordagem integrada que dê resposta às exigências ecológicas específicas da ZEC, procedendo à identificação dos tipos de habitat naturais e seminaturais e das espécies da flora e fauna selvagens com presença significativa na sua área e que justificaram o seu reconhecimento como Sítio de Importância Comunitária (SIC) pela Comissão Europeia. São adotadas medidas e ações de conservação complementares, designadamente medidas de gestão ativa e de suporte, conforme o disposto no artigo 12.º do Decreto-Lei n.º 45/2026, de 16 de fevereiro

O plano está bem pensado e, se concretizado, trará significativas melhorias para este ecossistema. 
Espera-se que não fique encalhado em papeis, gabinetes, paragonas mediáticas e fotografias de ocasião e salte para o terreno e mostre resultados palpáveis.

BICO CALADO

  • Nos tempos das Cruzadas, os ativistas recebiam as bênçãos da Igreja para matar. Também agora, a corte de Trump faz o mesmo. Querem mandar-nos para a Idade Média.
  • Órgão regulador exige investigação sobre uso de informação privilegiada após apostas «altamente suspeitas» sobre guerra no Irão. «Várias apostas muito substanciais foram feitas nos momentos finais antes do ataque de 28 de fevereiro», disse um representante da Public Citizen. Fonte.
  • Aviões militares de reabastecimento levantaram voo dos Açores com o ataque já em curso. Governo tinha garantido que nenhum avião participou no ataque. Bloco diz que Rangel já não tem condições para ser ministro. Fonte.
  • “A autorização dada pelo Governo português - a que nada o obrigava - para utilização da base das Lajes, nos Açores, nas operações do ataque conjugado dos EUA e de Israel ao Irão não confirma somente a atitude de subserviência primária de Lisboa face a Washington (que diferença face à dignidade do "não" de Madrid!...), mas também uma manifesta cumplicidade com a violação da Carta das Nações Unidas, quanto à proibição do uso da força nas relações internacionais (art. 2º, nºs 3 e 4), a qual vincula Portugal não somente no plano externo, como membro da ONU, mas também no plano interno, por força do art. 8º, nº 2, da CRP. De resto, a ilegalidade internacional da cedência apenas sublinha a indignidade do servilismo. Sustento há muito que, sem prejuízo da competência exclusiva e da liberdade de decisão do Governo na condução da política nacional, incluindo a política externa, existe, porém, um dever de consulta ao PR no caso da política externa (e também no caso da política de defesa), derivado do estatuto do chefe do Estado como representante externo da República. Dada a gravidade deste caso, penso que a AR e o País têm direito a saber de Belém duas coisas: (i) se o Governo cumpriu essa específica obrigação de consulta prévia; (ii) qual foi a posição tomada pelo PR. Há casos em que não pode haver nenhum direito de reserva política.” Vital Moreira, Causa nossa.
  • “Há aqui uma coisa que eu oiço e não estou a gostar (…) umas empresas agrícolas têm mais risco [e] o que a banca está a fazer, ainda que tenha uma garantia de 80% do Orçamento do Estado, está a emprestar primeiro a quem tem menos risco”. José Manuel Fernandes, Ministro da Agricultura. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

ENTRE VEGETARIANOS E CANIBAIS
Viriato Soromenho-Marques.


“O Presidente do governo espanhol tem estado debaixo de “fogo amigo” pela sua dupla tomada de posição. Primeiro: condenação da guerra ilegal dos EUA e Israel contra o Irão, iniciada com a particular vilania, confessada sem pudor por Trump, de usar negociações como uma cilada para encontrar o melhor momento para assassinar o líder do regime e o maior número possível de seus colaboradores. Segundo: Recusa de Madrid em autorizar o uso das bases espanholas para o transporte de material norte-americano para o teatro da guerra.

Pedro Sánchez resiste sozinho na União Europeia. Já tinha ficado isolado, em 25 de junho de 2025, quando a NATO decidiu aprovar a absurda proposta do presidente norte-americano de aumentar o orçamento militar de cada Estado-membro para 5% do PIB. No rebanho manso dos líderes dos 32 países da Aliança Atlântico, só Sánchez ergueu a voz para afirmar que esse esforço belicista iria causar danos irreparáveis nos investimentos públicos na saúde, educação e apoio social de todos os países que o aplicassem, prejudicando a qualidade de vida dos cidadãos. Será muito difícil que seja apenas Sánchez a pensar aquilo que é óbvio, mas a verdade é que foi ele o único que teve a coragem de dizer o que pensa sem temer represálias de Trump. Essa coragem revelou, claramente, a profunda cobardia em que assenta a obediência do “Ocidente alargado” por tudo o que Washington diga, faça, ou obrigue os “aliados” a dizer e a fazer.

Os fundamentos da posição de Sánchez, contra o apoio ao ataque ilegal de Washington e Telavive a Teerão, são explicitados pelo próprio da seguinte forma: “Não à violação do direito internacional. Não a aceitar que o mundo só pode resolver os seus problemas através de conflitos e bombas. E, finalmente, não a repetir os erros do passado. A posição do governo de Espanha é esta: Não à guerra”. Perante isso, numa reunião com o Chanceler alemão F. Merz, dia 3 de março na Casa Branca, Trump insultou Sánchez e ameaçou cortar relações comerciais com Espanha. Merz, talvez o vassalo mais obediente de Trump, deu razão ao magnata-presidente na crítica a Sánchez, e reiterou a concordância alemã com a operação militar de mudança de regime em Teerão, afirmando que “O Irão não deve ser protegido pela lei internacional”.

Em Portugal, Durão Barroso, entrevistado pela RTP, com um sorriso trocista de quem se sente herdeiro de Metternich ou de Kissinger, acusava Sánchez de ter cometido um “erro grave”, ofendendo o macho dominante do Ocidente. Com a sua experiência de ter hospedado nas Lajes, em vésperas de guerra, os chefes de governo que em março de 2003 iniciariam a destruição do Iraque, sob o pretexto de mentiras tão grosseiras como as usadas hoje por Trump para destruir o Irão, Durão Barroso sentenciou: “A Europa não pode ser o único vegetariano num mundo de carnívoros”. Quando os europeus começarem a pagar o imenso preço económico da guerra de Trump e Netanyahu, talvez uma dieta de batata e couves seja a única alternativa para muita gente.

Na verdade, o que está em causa é algo de bem mais terrível. O início desta guerra, mostrou para todos os líderes políticos do mundo, que a palavra dos EUA não vale nada. O Presidente da paz, que combatia o intervencionismo de Biden e aspirava ao Nobel, enganou os eleitores do seu país e o mundo inteiro. Em especial, Xi e Putin nunca mais darão crédito a quem mata os chefes de Estado dos países com quem está em negociações de paz. Se não formos capazes, como afirma Sánchez, de recusar o caminho da violência, assumindo a via da diplomacia e do respeito pelos outros, indivíduos ou Estados (como exige a Carta das Nações Unidas), acabaremos por mergulhar numa guerra generalizada, culminando na destruição da civilização humana sob o impacto das 12 000 armas nucleares à espera de entrar na história.

Os infelizes que sobreviverem entre os escombros da última das guerras, vegetarão num inferno, sem destino nem salvação. A escolha dos sobreviventes não será entre serem vegetarianos ou carnívoros, mas entre morrerem à míngua ou cederem ao horror do canibalismo… O Ocidente transformou-se num vácuo moral e num deserto de inteligência. Este Portugal de Montenegro e Rangel (herdeiros de Costa), limita-se a colocar um tapete vermelho a todos os caprichos de Washington. Fomos um império. Hoje somos uma estação de combustível no meio do Atlântico. Uma colónia periférica de um Ocidente que promete terminar num crepúsculo explosivo. Sánchez é o único líder que tem a coluna direita, com pés assentes no realismo da prudência, sem abdicar de princípios universais, onde todos se possam acolher. Infelizmente, nesta Europa, que perdeu o rumo e a alma, Sánchez parece ser a exceção que confirma a regra.

sexta-feira, 6 de março de 2026

ESPINHO: JUNTA DE ANTA DENUNCIA DESPEJO ILEGAL DE RESÍDUOS

  • A Junta de Freguesia de Anta apela a toda a população que contribua para mantermos a nossa terra limpa. A situação registada na Travessa do Gavião representa uma grande falta de civismo, que não pode passar impune, uma vez que prejudica as condições de salubridade de todos os moradores nas imediações e, inclusive, trouxe problemas de escoamento de águas pluviais do lugar. Deixamos o apelo para que caso apanhem os prevaricadores em flagrante, recolham a matrícula e nos façam chegar através da ferramenta de Reporte de Ocorrências no website da Junta.
  • Há um grave problema de saneamento num arruamento entre a Rua 62 e a Rua Nova da Praia. Os esgotos entopem com frequência, as tampas de saneamento cedem e fezes, pensos higiénicos e toalhetes espalham-se pela ruela, sendo o cheiro nauseabundo. As inúmeras reclamações feitas junto da Câmara Muncipal e as visitas feitas ao local por técnicos da autarquia e ex presidentes como Pinto Moreira (PSD) e Miguel Reis (PS) não espoletaram qualquer solução. Fonte.

URSULA VON DER LEYEN INDIFERENTE A VÍTIMAS DOS PFAS

  • Ursula von der Leyen recusa-se pela terceira vez, e desde 2023, a reunir com comunidades afetadas por PFAS. Apesar disso, os ativistas fizeram ouvir as suas vozes numa manifestação em frente à Comissão Europeia, sublinhando que “enquanto as portas da Comissão permanecem fechadas para os cidadãos que exigem ações ousadas contra a poluição para proteger a saúde pública e o meio ambiente, elas permanecem escancara das para a indústria química ”. Fonte.
  • O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas iniciou a instalação de um povoamento de pinheiro-bravo numa área de oito hectares do Perímetro Florestal das Dunas de Cantanhede, no âmbito de um protocolo com a Comissão de Compartes dos Baldios da Freguesia da Tocha, o Centro Pinus e o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária. O objetivo passa por obter plantas de enxertos (porta-enxertos) para um futuro pomar clonal destinado à produção de resina, e posterior disponibilização de sementes melhoradas para ações de arborização e rearborização do pinheiro-bravo em Portugal continental, no âmbito do programa de melhoramento genético do pinheiro-bravo. Fonte.
  • Trabalhando em campos tóxicos. A Califórnia não está conseguindo proteger a saúde e a segurança de milhares de crianças trabalhadoras. Fonte.
  • A agência reguladora de medicamentos veterinários da Austrália suspendeu o uso de florfenicol em salmão na Tasmânia devido ao "risco inaceitável" que o antibiótico representa para outras espécies. A Fundação Bob Brown afirmou que a decisão da Autoridade Australiana de Pesticidas e Medicamentos Veterinários foi uma "acusação contundente contra as empresas de piscicultura industrial e seu completo desrespeito pelo meio ambiente marinho". Fonte.
  • Nível do mar muito mais alto do que o previsto na maioria das avaliações de riscos costeiros. Fonte.

BICO CALADO

  • “Não há muito a dizer sobre a desfaçatez de um político videirinho que enjeitou cedo a honra, desde roubar mobília da Faculdade de Direito para a sede do MRPP, que Arnaldo Matos o obrigou a devolver, até se deslocar a Londres para verificar que Sadam Hussein tinha armas de destruição maciça. A mentira não o incomodou. Podia pensar-se que a vergonha e o remorso de ter sido cúmplice de Bush na invasão do Iraque o levasse agora a ser discreto em relação à reincidência dos EUA em crime igual, com as mesmas mentiras. Viveu sem dignidade e morrerá sem sentir a falta. Bastou a náusea de ouvi-lo, ver o seu orgulho por Portugal ser arrastado para a guerra de agressão ao Irão, por «Portugal, ao contrário de Espanha, ser um país confiável» e a dizer que a posição de Espanha foi “um erro grave” que afastou Madrid de Washington e irritou o mundo árabe. Tem saudade de Aznar. É difícil conter o asco que desperta um político tão pusilânime e subserviente. Para Durão Barroso é irrelevante que a Base das Lajes seja um ponto de passagem para prisioneiros a caminho da Prisão de Guantánamo ou para bombas destinadas à invasão de um qualquer país. Vive bem com os crimes e o sofrimento alheio. Durão Barroso disse de Pedro Sánchez o mesmo que Trump. Nem o facto de a UE o ter apoiado, através do Presidente do Conselho Europeu e da presidente da Comissão, o coibiu de ser insolente para o governante do país vizinho e insistir na defesa da prática de um crime igual àquele em que participou. Condenou-o, aliás, pela defesa da paz e do direito internacional A dignidade e coragem de Pedro Sánchez a defender o direito internacional e a enfrentar Trump contrastam com a falta de coluna vertebral. Carlos Esperança, RTP – A entrevista a Durão Barroso.
Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama, Biden, Trump
  • Durão Barroso - ex-presidente da Comissão Europeia - veio criticar Pedro Sánchez por este ter ousado apontar o dedo aos EUA. Porque será? Miguel Szymanski, entre os 17 e 21; 25 e 29 minutos.
  • Aprender a pescar com web. Francisco Silva, O Maio.
  • Enquanto bombardeia o Irão, Trump envia tropas americanas para a guerra terrestre contra as drogas no Equador. Pela mesma razão que ele está no Irão e na Venezuela: petróleo 'garantido' pela força, vendido como uma luta contra uma 'ditadura' e/ou 'drogas'. Fonte.
  • Graças à guerra de Trump contra o Irão, gigantes do GNL dos EUA podem ter lucros extraordinários de US$ 20 biliões por mês. Fonte.
  • “A TAP posicionou, ontem, um A330 em Atenas, para trazer a rapaziada que está a fugir das bombas para casa. Alguém sabe se a Ryanair, Wizzair ou Easyjet estavam disponíveis? Os mercados não cobriram este slot? Parece que estava livre. Gostava de saber, entre a malta que vai entrar naquele A330, quantos é que "gritam" nas redes que a TAP devia ser vendida.” Tiago Franco, TAP Air Portugal, A VERDADEIRA BANDEIRA.
  • O Conselho de Paz orwelliano de Trump é composto exclusivamente por violadores dos direitos humanos. Nick Turse, The Intercept.

quinta-feira, 5 de março de 2026

TURBULÊNCIA NO MERCADO MUNDIAL DE ENERGIA FORÇARÁ FIM DA GUERRA CONTRA O IRÃO?

  • Ambrose Evans-Pritchard, editor de economia mundial do Daily Telegraph, argumenta que a turbulência no mercado global de energia poderá forçar Trump a terminar a sua guerra no Irão dentro de poucos dias: «Para os 80% da população global que vive em países que dependem das importações de petróleo e gás, esta guerra é um lembrete incontestável de como é uma loucura depender de uma fonte de energia cara e tecnologicamente obsoleta proveniente da região menos estável do mundo. A China irá acelerar a sua aposta nas energias renováveis e nucleares e na eletrificação total dos transportes terrestres. O mesmo acontecerá com grande parte da Ásia. O mesmo acontecerá com a maior parte da Europa, uma vez que não deseja depender do GNL de Trump por mais tempo do que o necessário.» Ele conclui: «A maior vítima de todas será a indústria global do petróleo e do gás.»
  • Grupos conservacionistas estão a processar o Departamento do Interior por aprovar um plano de expansão da enorme mina subterrânea Bull Mountain, em Montana. Alega-se que o plano para a expansão da mina de carvão avançou sem ter havido uma avaliação ambiental preliminar ou levar em conta a oposição pública. A área à volta da mina também é considerada sagrada por várias tribos indígenas, incluindo as tribos Crow e Blackfeet. Fonte.
  • A fábrica de vidro Owens Illinois que produz milhões de garrafas para casas de champanhe em Reims, lança quantidades fenomenais de poluentes na atmosfera. Entre eles está o arsénico, um elemento químico cancerígeno. A população é mantida na ignorância. Fonte.
  • O Senegal está a utilizar autocarros elétricos para reduzir o tráfego pela metade e criar centenas de novos empregos. Fonte.
Foto: Naldo Matos.
  • Baleia com 15 metros dá à costa em Cortegaça. Fonte.

BICO CALADO

  • Sellafield está a anunciar a contratação de mais polícias armados para «proteger» o local de resíduos nucleares com fugas contra «aqueles que nos querem fazer mal». Quem precisa de «aqueles que nos querem fazer mal» quando o Governo do Reino Unido insiste que cada vez mais resíduos nucleares, que exigem cada vez mais «proteção», devem ser produzidos e estão a despejar, a toda a hora, resíduos nucleares no nosso ar, no nosso mar, na nossa terra, nos nossos rios, no nosso próprio ADN? Marianne Birkby, Substack.
  • A Câmara Municipal de Coimbra nomeou a ex-vereadora do Chega Maria Lencastre Portugal para o cargo de gestora-executiva da empresa municipal Prodeso, que detém o Instituto Técnico Artístico e Profissional. O executivo municipal PS/Livre/PAN e Cidadãos por Coimbra, presidido por Ana Abrunhosa, justificou a nomeação por se tratar de alguém “muito alinhada” com o executivo quer “em termos políticos, quer em termos de ideais e de opções”, acrescentando que “até durante a campanha estava alinhada com a candidatura de Ana Abrunhosa”. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

ATAQUES DOS EUA NA VENEZUELA E NA GRONELÂNDIA PREPARAM O TERRENO PARA FEUDOS BILIONÁRIOS
Beth Geglia, Truthout. Trad. O’Lima.


Em 3 de janeiro de 2026, Tim Stern, um investidor alemão, dormia tranquilamente na sua residência na Venezuela quando o telefone na sua mesinha de cabeceira de repente começou a tocar sem parar. Como ele explicou a Timothy Allen, do «Free Cities Podcast», as chamadas começaram a chegar imediatamente após a notícia de que os EUA haviam bombardeado Caracas nas primeiras horas da manhã. Em poucas horas, ficou claro que o presidente venezuelano Nicolás Maduro havia sido capturado e estava a ser enviado para os EUA — uma mudança que, segundo Stern no podcast, «será o início de uma verdadeira bonança aqui na Venezuela».

Os interesses petrolíferos estiveram no centro da invasão dos EUA à Venezuela; o presidente dos EUA, Donald Trump, deixou claras as suas intenções de recuperar para as empresas americanas o petróleo venezuelano nacionalizado e supervisionar a venda do petróleo bruto venezuelano. No entanto, Stern não está envolvido na indústria petrolífera. Em vez disso, ele é o cofundador de um empreendimento residencial baseado em blockchain chamado CryptoCity, um empreendimento imobiliário de luxo com 35 hectares na Ilha Margarita, na Venezuela. Margarita, uma ilha com estatuto de porto franco e uma população de cerca de 490.000 habitantes, depende em grande parte da indústria do turismo e tem sofrido dificuldades devido à crise económica da Venezuela. No entanto, a CryptoCity é promovida junto de investidores alemães e outros investidores estrangeiros como um enclave altamente exclusivo. Ela orgulha-se de oferecer uma vida luxuosa para empresários de “alto património líquido” totalmente avaliados e selecionados por meio de um processo rigoroso. Todas as transações na zona são feitas em criptomoedas, e os residentes fazem parte de uma “bolsa de cérebros” com o objetivo de gerar empreendimentos comerciais conjuntos através de uma Organização Autónoma Descentralizada.

A CryptoCity é um exemplo de como a política externa de Trump está a beneficiar uma cidade privada alimentada por capital de risco e o movimento «estado em rede». O projeto é apresentado na página da Free Cities Foundation, uma importante promotora de cidades privadas liderada pelo economista alemão Titus Gebel, que também defendeu o projeto emblemático do movimento cripto-libertário, uma jurisdição autónoma nas Honduras chamada Próspera ZEDE (Zona de Desenvolvimento Económico e Emprego). De acordo com Stern, os imóveis em Margarita foram vendidos tão rapidamente após o ataque dos EUA em 3 de janeiro que a sua empresa ficou sem apartamentos para vender. Os valores dos imóveis dispararam, não havia mais imóveis por US$ 20.000 a US$ 30.000 e a CryptoCity recebeu um influxo de investidores interessados em visitar a ilha, afirmou ele.

Embora os libertários há muito fantasiem com enclaves soberanos de «mercado livre», ganhou novo impulso após a crise económica de 2008 um movimento em prol das chamadas cidades privadas, construídas em jurisdições especiais altamente autónomas. O cofundador da Palantir, Peter Thiel, é um dos mais proeminentes apoiantes do movimento. O bilionário apoiou primeiro o Seasteading Institute — uma organização que promove a colonização dos oceanos — e depois a empresa de capital de risco Pronomos Capital, uma das primeiras investidoras na Próspera. Em 2022, o investidor em criptomoedas Balaji Srinivasan levou o movimento tecnológico-futurista e ávido por terras para um novo nível, cunhando a ideia do «estado em rede». Um estado em rede é uma comunidade online que reúne capital, forma uma «nação» blockchain e, em seguida, faz crowdsourcing de terras e explora isenções legais para construir territórios paranacionais.

Bases militares podem abrir portas para a soberania privada

No final do recente Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, a retórica de Trump sobre a Gronelândia deu uma guinada brusca, amenizando as preocupações sobre um potencial conflito militar ou tarifas esmagadoras contra os países europeus. Trump afirma agora ter chegado a um acordo com a NATO sobre a Gronelândia e o Ártico, que, segundo consta, incluiria territórios soberanos para bases militares dos EUA, semelhante ao acordo que os EUA mantêm em Guantánamo, Cuba.

Embora os detalhes oficiais não tenham sido divulgados e um conflito maior pareça ter sido evitado, pequenas concessões territoriais na Gronelândia ainda estão alinhadas com os interesses dos aliados oligarcas tecnológicos de Trump e representam uma séria ameaça para a ilha. Isso porque mesmo pequenos pedaços de território dos EUA poderiam abrir caminho para os interesses dos capitalistas de risco no desenvolvimento de jurisdições privadas sob a rubrica de «estado em rede».

No início do segundo mandato de Trump, um projeto estatal em ascensão chamado Praxis — na verdade, um autoproclamado «império em rede» — apoiou entusiasticamente a determinação de Trump em anexar a Gronelândia da Dinamarca, estabelecendo planos para a tornar o primeiro local físico da sua nação digital. Uma semana após a eleição de Trump, o cofundador da Praxis, Dryden Brown, anunciou que tinha visitado a Gronelândia «para tentar comprá-la». Enquanto isso, o apoio de Trump às “Cidades Livres” dentro dos EUA (mais tarde chamadas de “Zonas de Aceleração”), um desdobramento das Zonas de Desenvolvimento Económico e Emprego (ZEDEs) nas Honduras, como Próspera, passou de uma promessa de campanha para uma política oficial. A Praxis — também apoiada por um grupo de mega investidores em tecnologia e criptomoedas, incluindo Pronomos, Balaji Srinivasan, Patri Friedman do Seasteading Institute, o cofundador da Palantir Joe Lonsdale, a empresa de trading Alameda Research de Sam Bankman-Fried e a Apollo Ventures (a empresa de capital de risco de Sam Altman da OpenAI) — divulgou uma publicação X da Casa Branca em 5 de novembro de 2025, que mostrava o presidente Trump dentro de um padrão semelhante à bandeira praxiana, acrescentando uma nota: «Praxianos no controle». A imagem deixa pouca margem para dúvidas sobre a aliança de Trump com a nação da rede de direita.

À medida que a perspetiva de uma aquisição total da Gronelândia pelos EUA se tornou cada vez mais remota, a ideia de uma «Cidade da Liberdade» com sede na Gronelândia pareceu ter desaparecido de cena — mas não desapareceu totalmente. Um acordo ampliado entre os EUA e a Dinamarca sobre bases militares ainda poderia criar oportunidades, dependendo de como os seus termos forem estruturados. Essa possibilidade é reforçada pelo foco da Praxis em defesa militar e exploração espacial e a sua afinidade com o projeto de cidades adjacentes a instalações militares.

Em junho de 2025, a Praxis propôs o Atlas, uma «cidade espacial com foco na defesa em 3.850 acres na Base da Força Espacial de Vandenberg», na Califórnia, demonstrando a sua vontade de fundir o desenvolvimento militar com os planos do estado em rede. A Praxis propõe lançar Atlas inicialmente como uma cidade industrial à beira-mar para atrair talentos técnicos de elite. A sua proximidade com os recursos do Departamento de Defesa e as instalações da Força Espacial na base permitiria “ciclos rápidos de teste e implantação” para a inovação em tecnologia de defesa impulsionada por IA. Calculando atrair 50.000 residentes e gerar US$ 35 bilhões em receita, a Praxis promove Atlas como uma forma de “defender o Ocidente na Terra e além”.

Perigo de expansão

Nas Honduras, pequenas extensões de terra foram usadas por investidores privados da cidade como ponto de apoio para reivindicar soberania e resistir à supervisão do governo. A legislação que apoiava as ZEDEs foi concebida para que esses pequenos pontos de apoio crescessem ao longo do tempo. A lei das ZEDEs nas Honduras, aprovada em 2013, revogada em 2022 e finalmente considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal das Honduras em 2024, continha alguns artigos fundamentais que garantiam que os territórios privados seriam difíceis de conter. Por exemplo, a lei designava áreas costeiras inteiras com baixa densidade populacional como sujeitas ao regime especial das ZEDEs sem plebiscito ou aprovação do Congresso, ao mesmo tempo que permitia que novos territórios fossem facilmente incorporados na jurisdição especial se vendidos ou incorporados voluntariamente por um proprietário privado. A ZEDE Próspera, localizada na ilha hondurenha de Roatán, estabeleceu um precedente para isso quando comprou o Porto de Satuye, um território não contíguo no continente hondurenho, e o colocou sob a jurisdição do governo Próspera. A Próspera continuou a operar como um território autónomo e a angariar investimentos mesmo depois da decisão do Supremo Tribunal ter retirado a estrutura da ZEDE da Constituição hondurenha.

A Praxis é um participante particularmente radical no movimento do estado em rede. O chauvinismo ocidental mistura-se com fantasias de colonização de Marte e alusões à ideologia da supremacia branca no discurso online da Praxis. Uma publicação da Praxis X, por exemplo, invoca a necessidade imperativa de salvar o «cadáver de Albion» — um termo que se refere a uma nação insular independente fictícia no mundo dos jogos, mas que também é usado por alguns grupos etnonacionalistas e neonazis para se referir a uma Grã-Bretanha mítica, pré-moderna e «pura». Os comentadores responderam à publicação com «HAIL Praxis». Em 6 de fevereiro de 2025, a Praxis impulsionou uma publicação no X intitulada «Make Rhodesia Great Again» (Tornar a Rodésia Grande Novamente), apresentando uma série de videoclipes de violência colonial, e acrescentou «Praxianos, vocês estão prontos para a ação?» A Rodésia, um antigo estado colonial no atual Zimbábue, conhecido pelo seu domínio sistemático da maioria negra, é um símbolo amplamente reconhecido do nacionalismo branco. A Praxis emprega outros conceitos culturais pré-fascistas que foram posteriormente adotados pelos fascistas europeus e pelo Partido Nazi, como o da “cidade eterna” e o “espírito faustiano”.

No todo, o desrespeito aberto de Trump pela soberania de outras nações faz mais do que perturbar as normas diplomáticas; abre caminho para projetos privados de cidades e redes estatais que revivem lógicas coloniais de longa data. Se o caso das Honduras servir de exemplo, os detalhes legais de um acordo entre os EUA e a Dinamarca serão fundamentais para determinar a extensão dos danos causados à ilha da Gronelândia e à autodeterminação do seu povo.