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sábado, 29 de agosto de 2026

ESPINHO: PRAIAS CONTAMINADAS INTERDITAS


Todas as praias de Espinho foram interditas devido a contaminação microbiológica, diz o JN de sexta-feira, 28 de agosto. Isto é o resultado das fortes chuvadas que caíram em Espinho na segunda-feira e na 4ª feira de manhã, tendo as águas junto da foz da ribeira do Mocho e zonas adjacentes registado alteração notória da sua cor. Outro factor a considerar será a abertura do dique fusível da barrinha de Esmoriz.

Esta manhã, a bandeira vermelha hasteada na Praia da Baía não impediu surfistas de frequentar as águas ditas contaminadas. Estariam a prestar provas para concorrer a vagas da Polícia Marítima?

OVAR: RIO CÁSTER COM ÁGUA ESCURA E MANCHAS DE ESPUMA

  • A água do rio Cáster apresentava-se muito turva e com manchas de espuma à superfície em consequência de mais uma descarga poluente. Algumas dessas massas espumosas acumulam-se junto à vegetação das margens formando camadas de sobrenadante com aspecto oleoso. Este tipo de descargas de poluentes para o rio continuam a ocorrer com alguma frequência, degradando o ecossistema e comprometendo a qualidade da água, tornando a incompatível com a vida, pelo que a associação ‘Os Amigos do Cáster’ pede investigação urgente para detetar a origem das descargas. Para além da denúncia àquela força de segurança, os Amigos do Cáster apelaram à Câmara Municipal para que se empenhe na identificação da fonte daquelas descargas poluentes, e na permanente articulação com a GNR no sentido do apuramento e atribuição de responsabilidades. Fonte.
  • O Governo aprovou o denominado “Mapa Verde” das energias renováveis depois de dois organismos públicos terem chumbado formalmente a proposta e de outros terem assinalado desconformidades legais, falhas cartográficas e riscos para a água, as florestas, os solos e o património. Foram anunciadas mais de 800 zonas, mas continua por divulgar a cartografia final e por explicar como foram ultrapassadas as objecções técnicas. P1.
  • Duas mulheres fizeram circular uma petição pedindo à sua cidade que deixasse os eleitores decidir sobre um centro de dados. Agora, a cidade está a processá-las por causa disso. O litígio centra-se num projeto de centro de dados promovido pela DAMAC Digital, com sede no Dubai, previsto para um armazém no Logistics Park Kansas City, nos arredores de Edgerton, no condado de Johnson. Kim Twente e Carrie Schmidt, juntamente com outros membros da comunidade, reuniram assinaturas suficientes para incluir uma votação sobre o centro de dados no boletim de voto de novembro, invocando preocupações com o ruído, a qualidade do ar e o impacto ambiental que estas instalações podem ter nas comunidades vizinhas. A cidade afirma na sua ação judicial que proibir centros de dados por serem considerados um «incómodo» não é legal e está agora a processar ambas as mulheres, juntamente com a organização sem fins lucrativos fundada por Twente, a Public Trust Collective. Fonte.

REFLEXÃO

DEIXEI DE COMPRAR PURA E SIMPLESMENTE
Pedro Filipe.



Por cada garrafa ou lata, tiram-te 10 cêntimos do bolso.
Faz as contas comigo:

Num simples pack de seis águas, pagas mais 60 cêntimos à cabeça.
Levas dois packs? São mais 1,20 € que ficam retidos.
Dinheiro teu.
Dizem que é pela ecologia, mas a verdade é que acabaste de ser recrutado como operário não pago das grandes superfícies.
Primeiro, vão entulhar-te a casa.
Estás proibido de esmagar as garrafas.
Vais ter sacos enormes a ocupar a cozinha, porque a máquina “inteligente” recusa plástico comprimido.
Depois, vais carregar lixo e perder tempo em filas humilhantes, só para mendigar o dinheiro que já era teu.
E o golpe de mestre?
O reembolso vem num pedaço de papel.
Tiram-te dinheiro vivo da carteira e devolvem-te um talão que te obriga a gastar o dinheiro na loja deles.
O teu dinheiro deixou de ser livre.
Agora é um vale de consumo refém do supermercado.
Milhões de euros em depósitos nunca vão ser devolvidos.
Entre talões perdidos e pessoas que desistem das filas, o sistema lucra com o teu cansaço.
Isto não é salvar o planeta.
É usar o teu esforço, o teu espaço e o teu dinheiro para financiar a logística dos outros.
Vais mesmo aceitar trabalhar de graça?


BICO CALADO

Cartune: Carlos Latuff
  • Israel financiou um falso centro de estudos norte-americano e uma rede de sites aparentemente independentes, concebidos para manipular sistemas de inteligência artificial e introduzir narrativas pró-Israel nas respostas dos chatbots. A operação faz parte de uma multimilionária campanha israelita destinada a manipular o ambiente informativo online, numa altura em que o Estado ocupante se debate para reverter um colapso sem precedentes no apoio internacional, na sequência do genocídio em Gaza e da expansão das guerras regionais. As revelações surgem poucos dias depois de uma figura de destaque no setor da comunicação israelita ter admitido abertamente ter inventado informações falsas no âmbito da guerra de propaganda de Israel. Eli Hazan, um responsável de longa data pela comunicação do Likud e antigo porta-voz do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, declarou: «A verdade já não importa. Os factos já não importam.» Fonte.
  • Um antigo conselheiro eleitoral das Honduras publicou gravações que provam que as eleições de 2025 no seu país foram viciadas. Os EUA ajudaram a colocar no poder o político de extrema-direita Nasry «Tito» Asfura, que está intimamente ligado ao tráfico de droga. Trump interferiu pessoalmente nas eleições de Honduras e perdoou e libertou da prisão o antigo ditador do país, apoiado pelos EUA, Juan Orlando Hernández (JOH), que estava preso por tráfico de toneladas de cocaína e metralhadoras. JOH pertence ao mesmo Partido Nacional de direita de Asfura. Os seus comparsas do cartel de droga estão agora, mais uma vez, a governar Honduras, com o total apoio de Washington. A fraude nas Honduras foi supervisionada por um especialista argentino de extrema-direita, apoiado pelos EUA, em interferência eleitoral, Fernando Cerimedo, que foi recentemente detido na Bolívia por contratar assassinos para tentar assassinar a sua ex-namorada grávida (embora tenham falhado). Este aliado próximo dos EUA também está a ser investigado por tráfico de droga. Ben Norton.
  • Os patrões de meios de comunicação extremistas e bilionários querem roubar a vossa Segurança Social para não terem de pagar impostos ligeiramente mais elevados. Que fique claro: cortar os benefícios da Segurança Social e do Medicare para reduzir o défice não é uma posição moderada. É uma posição que ataca centenas de milhões de trabalhadores comuns para evitar tributar os ricos ou reduzir o desperdício no nosso sistema de saúde. Dean Baker, Common Dreams.
  • ‘Boys’ e ‘girls’ assaltam máquina do Estado: 37 adjuntos dos Governos Montenegro passaram para cargos públicos de liderança. P1.
  • A Entidade Reguladora para a Comunicação Social continua a desfraldar uma bandeira de obscurantismo e de clara hostilidade aos jornalistas. Na resposta à intimação apresentada pelo PÁGINA UM no Tribunal Administrativo de Lisboa, a ERC sustentou que a qualidade de jornalista e a produção de notícias de interesse público não bastam para consultar actas onde constam decisões sobre remunerações, benefícios e outras regalias dos seus dirigentes e trabalhadores. O regulador constitucionalmente criado para assegurar a liberdade de imprensa e o acesso às fontes prefere, assim, discutir a legitimidade de quem pergunta em vez de mostrar aquilo que faz com dinheiro público. P1.
  • Em 2021, a Polícia Municipal de Lisboa dizia demorar, no máximo, um dia a inspeccionar uma obra denunciada; em 2024, admitia já uma espera de 18 dias. P1.

LEITURAS MARGINAIS

OS GLACIARES JÁ NÃO DERRETEM — ELES DESPRENDEM-SE
E o Nepal acabou de descobrir (mais uma vez) a que ritmo
Ricky Lanusse, Medium. Rev. O’Lima.


A câmara de vigilância no posto fronteiriço de Rasuwagadhi capta tudoAs pessoas caminham entre autocarros estacionados, com bagagem e passaportes — a cena habitual de uma fronteira terrestre —, quando, de repente, todos começam a correr na mesma direção. Atrás delas surge uma parede castanha com vários andares de altura, avançando à velocidade de uma autoestrada e devorando tudo o que encontra pelo caminho. Arrasta a fila de autocarros e camiões e empurra-os para o lado como se fossem brinquedos. Em seguida, a câmara mostra os escombros e, depois, nada.

A quarenta milhas a sul, em Catmandu, os indicadores saltaram. O Serviço Geológico dos EUA registou um sismo de magnitude 4,4 perto da fronteira na quarta-feira de manhã. Horas mais tarde, retirou o registo do sismo. O sinal sísmico, segundo o organismo, provinha de gelo glaciar e rocha que se soltaram e desceram pelo vale, tendo sido reclassificado, após revisão, como um evento de magnitude 5,2. «Não se tinha verificado qualquer sismo», corrigiram. Algo mais impactante aconteceu.

A cerca de 5 200 metros de altitude, numa crista dos Himalaias, a parte inferior de um glaciar partiu-se e caiu 1 200 metros — uma placa de gelo mais larga do que cinco campos de futebol colocados lado a lado —, arrastando rochas à medida que caía e pulverizando-se na água com a força da própria queda.

O que saiu da base daquela queda desabou no rio Lhendeatravessou a fronteira e transformou uma manhã normal num desastre. Até ao momento, estão confirmadas pelo menos 273 mortes e mais de 1 300 desaparecidos, muitos dos quais caminhantes e peregrinos de todo o mundo a caminho do Monte Kailash, com corpos recuperados centenas de quilómetros a jusante e um lago de represamento ainda perigosamente cheio no Tibete, enquanto escrevo isto. Numa cama de hospital abaixo do nível da inundação, um sobrevivente de 68 anos chamado Keshav Prasad Baral contou aos jornalistas que, quando a água invadiu a sua casa, tentou agarrar a mão da sua esposa… mas não conseguiu. Horas mais tarde, um helicóptero evacuou-o. A sua esposa continua soterrada sob a lama.

Há anos que escrevo sobre a lentidão com que os glaciares mudam, os seus efeitos cumulativos na subida do nível do mar, gráficos que avançam lentamente em direção a 2100. O que aconteceu aqui segue um ritmo diferente: a montanha, basicamente, desabou de uma só vez. E esse contraste (a matemática climática em câmara lenta versus um desastre em tempo real) é toda a história.

Uma reação em cadeia cumulativa

A princípio, todos recorreram à explicação que o Nepal conhece tão bem: um terramoto. As autoridades apontaram para um terramoto ocorrido minutos antes da inundação, e essa reação instintiva fazia sentido: o solo tinha tremido, os instrumentos indicavam isso e, neste país, a expressão «a terra está a tremer» carrega um terror específico e bem merecido.

Um trabalhador que foi arrastado pela corrente e salvo pelos ramos de uma mangueira disse que a sensação foi «como um terramoto». O seu corpo interpretou o sinal da mesma forma que os sismógrafos. Mas ambos estavam errados na mesma direção reveladora. Nada no subsolo se tinha movido primeiro. O que os sensores detetaram foi a própria montanha a desligar-se e a descer rugindo pelo vale, anunciando-se em instrumentos concebidos para captar outra coisa.

Então, as pessoas começaram a verificar os registos vindos de cima.

As imagens de satélite não revelaram a existência de nenhum lago de grande dimensão a montante do percurso da inundação, pelo que não se tratou de um lago glaciar cuja «barragem» se rompeu repentinamente (o desastre que este mesmo vale sofreu ainda em agosto passado). Os dados meteorológicos não indicaram chuvas torrenciais na semana anterior, pelo que também não se tratou de uma chuva torrencial. E, uma vez descartadas essas hipóteses, resta a explicação mais simples e mais improvável: foi a própria geleira que se desprendeu. O gelo e as rochas que caíram chocaram contra o rio Lhende com força suficiente para represar o rio por um breve período e, quando a barragem formada pelos seus próprios detritos cedeu, toda a água acumulada jorrou de uma só vez.

Um medidor de nível no rio Trishuli indicou que o rio subiu nove metros em meia hora — o equivalente a um edifício de três andares de água acumulou-se no tempo que demora a almoçar. Este mesmo afluente já transbordou duas vezes em catorze meses, por duas razões totalmente diferentes.

Mas já vimos este mesmo filme antes, fotograma a fotograma.

Em fevereiro de 2021, em Chamoli, nos Himalaias indianos, 27 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo glaciar desprendem-se da face norte — um volume equivalente a mais de dez mil piscinas olímpicas — e transformaram-se num fluxo de detritos que destruiu duas centrais hidroelétricas e matou mais de 200 pessoas.

Quando os investigadores reconstruíram o que aconteceu, descobriram uma reação em cadeia bastante simples por trás do aquecimento global, que enfraquece estas montanhas de formas cumulativas:
  • À medida que os glaciares encolhem, deixam de «sustentar» a rocha à sua volta.
  • A água do degelo infiltra-se nas fendas e desestabiliza ainda mais o terreno.
  • E o solo que costumava permanecer congelado (o cimento da natureza) começa a descongelar, pelo que os blocos de rocha que estavam presos no lugar podem mover-se repentinamente.
É como se um congelador estivesse a avariar-se. Tudo começa a amolecer e o bloco sólido de gelo que ocupava metade do seu espaço durante anos pode, de repente, soltar-se.

O exemplo mais gritante da mesma história

A maioria de nós foi ensinada a preocupar-se com os glaciares de uma forma lenta e distante. O gelo derrete um pouco a cada ano, a linha no gráfico continua a subir lentamente em direção a 2100 e os danos manifestam-se como alguns milímetros a mais no nível do mar, algures onde nunca iremos ver. É o tipo de problema que se pode arquivar na cabeça, como a documentação da reforma. O Himalaia acabou de publicar o outro cenário, aquele em que a mesma dívida é cobrada em quarenta segundos, numa explosão brutal.

Ambas as versões estão a acontecer ao mesmo tempo e ambas estão a acelerar. Desde 2000, os glaciares mundiais perderam cerca de 5% do seu gelo. No Hindu Kush-Himalaia, a taxa de perda duplicou. Só o Nepal perdeu quase um quarto da sua área glaciar em cerca de quarenta anos, e mais de 160 pequenos glaciares desapareceram completamente. E com um aquecimento de 1,5 °C — valor em que nos encontramos atualmente e que tende a aumentar —, metade dos glaciares do mundo já está condenada a desaparecer. Essa é a versão «fundo de pensões» da crise, e já por si só é terrível.

Mas o recuo não é um encolhimento ordenado. Quando os glaciares recuam, deixam uma confusão para trásPara começar, toda essa água de degelo tem de ir para algum lado. Existem atualmente mais de 110 000 lagos de água de degelo nas cadeias montanhosas, que estão a crescer rapidamente, aumentando a sua área em cerca de 20 % a cada década. Mais de 10 milhões de pessoas vivem a jusante de locais onde um desses lagos poderá rebentar.

E não se trata apenas da água. Quando o gelo recua, deixa de funcionar como uma estrutura de suporte que mantinha as rochas íngremes no lugar. Assim, as montanhas situadas acima de estradas, barragens e aldeias começam a tornar-se mais instáveis, porque toda essa infraestrutura foi construída para a «antiga» montanha, mais fria.

É possível ver o ritmo a que isto acontece no vídeo com os momentos mais marcantes:
  • Marmolada (Itália), 2022: num dia quente, um bloco de gelo de grandes dimensões desprendeu-se do glaciar mais alta das Dolomitas e matou onze caminhantes, um acontecimento que os investigadores associam agora diretamente ao aquecimento global.
  • Blatten (Suíça), 2025: um glaciar suíço cede e soterra a maior parte de uma aldeia que existia há séculos.
  • Tracy Arm (Alasca), dez semanas após Blatten: uma parede de fiorde no Alasca, escavada por um glaciar marítimo que tinha recuado por baixo dela, lança 64 milhões de metros cúbicos de rocha para a água — o equivalente a vinte e quatro Grandes Pirâmides num único movimento —, e a onda que sobe pela falésia oposta atinge os 481 metros, mais alta do que o Empire State Building. A queda faz os sismómetros registarem uma magnitude de 5,4. Não causa vítimas mortais, porque o navio de cruzeiro com 150 passageiros que visitava aquele fiorde encontrava-se precisamente à saída da foz naquele momento. Durante 67 anos, a onda recorde deste tipo, na Baía de Lituya, teve como gatilho um terramoto ao longo de uma falha sísmica. A nova segunda classificada precisou de um glaciar que já lá não existia.
  • No mesmo vale, no Nepal, em 2025: um lago no Tibete transborda e destrói a ponte fronteiriça.
E agora o Lhende, em 2026, o mais mortífero de todos, em que o gelo não precisou de nenhum lago nem de nenhuma tempestade, apenas da gravidade e de uma semana quente que derreteu a neve do glaciar dias antes de esta ceder.

Os registos locais tornam a tendência evidente. Este recanto dos Himalaias registou agora uma inundação causada pelo transbordamento de um lago em 2025, uma avalanche de gelo e rocha em 2024 e as avalanches catastróficas que se abateram sobre Langtang durante o terramoto de 2015, cada uma por um mecanismo diferente, mas todas resultantes da mesma dinâmica de aquecimento. Em Sikkim, em 2023, a ruptura de um único lago destruiu uma barragem hidroelétrica de mil milhões de dólares construída diretamente no caminho de escoamento.

Portanto, sim, os glaciares continuam a encolher ao longo dos anos, mas, por vezes, o «preço» é pago de uma só vez, devorando um vale em poucos minutos.

Alterações na massa dos glaciares regionais e a sua evolução temporal entre 2000 e 2019.

E isto não é apenas uma crise longínqua. Consigo, literalmente, ver uma versão disso da minha janela na Patagónia. A montanha que se ergue acima do meu vale, nos Andes, chama-se Tronador, «o Trovão», nome que lhe foi dado há séculos devido ao som que os seus glaciares suspensos emitem quando pedaços se soltam e caem com estrondo pela encosta rochosa abaixo. Esse nome costumava ser apenas uma descrição pitoresca. Agora parece um aviso: sete dos seus glaciares estão em recuo, numa região onde nove em cada dez glaciares estão a encolher, a perder gelo a um ritmo tão rápido como em qualquer outro lugar da Terra.

O Himalaia é apenas o exemplo mais evidente da mesma história.

O lago suspenso do Monte Tronador, que sofreu uma inundação provocada por um colapso glaciar em 2009

O Cisne Negro Sobre as Montanhas

Planeia comigo a caminhada da tua vida.

Talvez Langtang, ou o circuito do Kailash, aquele para o qual os peregrinos faziam fila. Vê como te saís bem perante o risco. Verificas o calendário da monção e reservas o período seco. Verificas o historial sísmico e tomas nota do terramoto de 2015. Contratas o seguro com a cláusula do helicóptero, levas os medicamentos para a altitude, registas-te na tua embaixada, descarregas os mapas offline, tiras uma fotografia do teu passaporte. Cada perigo que consigas imaginar tem uma caixa, e assinalas todas elas, porque és uma pessoa cuidadosa e esta é a grande aventura.

Mas agora, há uma questão para a qual não há caixa: será que o glaciar suspenso a quatro quilómetros verticais acima do trilho ainda será um glaciar na quarta-feira em que passares por baixo dele?

Não há nenhuma aplicação para isso, nenhuma previsão, nenhuma percentagem, nenhum prémio. A monção tem uma época, os terramotos têm códigos de construção, a altitude tem um medicamento, e uma montanha que desaba não tem nada, porque todos os sistemas que criámos para avaliar o risco — desde tabelas de seguros a licenças de caminhadas, passando pela localização de centrais hidroelétricas — partem do princípio de que as montanhas se comportam estatisticamente como se comportaram no século passado e na semana passada. As pessoas em Rasuwagadhi provavelmente verificaram tudo o que era possível verificar. O que os matou não constava em nenhum formulário.

É isso que é um cisne negro: não um acontecimento inimaginável, mas sim um acontecimento sem preço. E este tem vindo a rondar há anos, em Chamoli, na Marmolada, sobre Blatten, sendo fotografado de cada vez e arquivado de cada vez como um acidente excêntrico, enquanto o congelador que sustenta o telhado do mundo continua a perder potência.

Os glaciares já não derretem. Esse é o verbo antigo, do relógio antigo.

Agora, eles soltam-se.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

SANTARÉM E BAIXO ALENTEJO: GRAVE CONTAMINAÇÃO DA ÁGUA DOCE

  • Contaminação por sal da água doce do Baixo Alentejo e Santarém é grave, alerta estudo europeuO Baixo Alentejo e o distrito de Santarém concentram os casos mais graves de salinização dos rios em Portugal, segundo o primeiro mapa europeu dedicado a este fenómeno, publicado na prestigiada revista Nature Communications.
  • Dois mega centros de dados em Abrantes poderão ultrapassar em quase 30 vezes o consumo energético anual do concelho. Promovido pelo grupo Hyperion, este mega data center ocupará cerca de 151.000 m² de área de implantação e 287.000 m² de área de construção, junto à rotunda de Alvega, e uma ligação elétrica anunciada de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego. O empreendimento foi classificado como Projeto de Interesse Nacional, um estatuto que permite acelerar prazos processuais. Trata-se de um empreendimento excessivo para o território que pretende ocupar, com potenciais impactes ambientais, hídricos e territoriais. Esta preocupação ganha ainda mais relevância à luz do diagnóstico mais recente da própria APA sobre o estado da Bacia Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste para o 4.º ciclo (2028-2033), onde se revela um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo. É precisamente neste contexto de recursos hídricos já sob pressão, que se pretende instalar mais uma infraestrutura industrial de consumo intensivo de água. Por isso, a Quercus exige a realização de um Estudo de Impacte Ambiental como condição prévia para um eventual licenciamento. Fonte.
As «quintas» de dados NÃO estão «na nuvem». Estão a ocupar terrenos valiosos. Os dados, o mundo digital, a IA estão a consumir energia e água em excesso. A Inteligência Artificial precisa de ENERGIA ILIMITADA.
  • O aumento do consumo de eletricidade por parte dos insaciáveis centros de dados da Irlanda levou o governo a tomar uma medida que há décadas era impensável: reacender o debate sobre a energia nuclear. Fonte.
  • A Rússia constrói 15 pequenos reatores nucleares marítimos com uma capacidade de 175 MWt para quebra-gelos. Fonte.
  • Colapso de glaciar pode ter causado inundações que mataram centenas no Nepal. Fonte.
  • Diante do avanço do bolsonarismo, Lula abraça destruidores da Amazônia em busca da reeleição. Alianças do PT no Norte incluem uma intervenção em Rondônia, que sacrifica a candidatura da ativista Neidinha Suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental. Rafael Moro Martins, Sumaúma.

REFLEXÃO

UMA TEMPESTADE REVELA COMO O MERCADO ENERGÉTICO DO TEXAS É MANIPULADO PARA GERAR LUCRO
Robin Berghaus, PHW. Rev. O’Lima.

Foto: ERCOT

O Texas opera a sua própria rede elétrica, gerida pelo Conselho de Fiabilidade Elétrica do Texas (ERCOT). Por estar em grande parte isolado da rede nacional, o ERCOT evita a supervisão federal. O estado gere um mercado «exclusivamente de energia», o que significa que os produtores de energia só são pagos pela eletricidade que efetivamente produzem, ao contrário de outros estados que pagam às empresas para se manterem em estado de prontidão. Este sistema foi concebido para recompensar a escassez, e não a fiabilidade, o que pode conduzir a lucros mais elevados quando a oferta é baixa e a procura é elevada.

Durante a tempestade de inverno Uri, em fevereiro de 2021, o frio extremo congelou as infraestruturas nas centrais elétricas e nas cabeças de poço de gás natural. Com o corte no abastecimento de combustível, muitos geradores não conseguiram produzir eletricidade, o que obrigou a ERCOT a impor cortes de energia em todo o estado. Milhões de texanos ficaram sem eletricidade durante dias e centenas de pessoas morreram.

Enquanto os texanos sofriam, os fornecedores de gás natural viram a tempestade como uma oportunidade de negócio. Algumas empresas aumentaram o custo do gás natural em mais de 700%. Uma empresa de serviços públicos, a CPS Energy, teve de pagar cerca de 850 milhões de dólares por gás durante uma única semana — aproximadamente o que gasta em combustível num ano inteiro. Quando a CPS Energy tentou negociar uma tarifa mais baixa, foi-lhe basicamente dito «azar».

Aconteceu algo semelhante ao escândalo da Enron, em que os operadores criaram uma falsa escassez de energia para aumentar os lucros. O mesmo padrão foi observado durante a tempestade Uri: quedas suspeitas no abastecimento de gás e o encerramento das reservas antes da tempestade. Por exemplo, a Energy Transfer cancelou contratos com centrais elétricas de Houston que tinham garantido uma tarifa de 2,50 dólares por unidade de gás, invocando uma cláusula de «força maior». No mesmo dia, venderam gás a outra cooperativa por 950 dólares por unidade — quase 400 vezes a tarifa original.

As consequências foram inevitáveis: os legisladores aprovaram um resgate financeiro de 6,5 mil milhões de dólares para ajudar as empresas de energia em dificuldades a saldar as suas enormes dívidas, mas o custo foi repercutido nos consumidores do Texas através de contas de eletricidade mais elevadas que se prolongarão por décadas. Além disso, a Comissão de Serviços Públicos aumentou o limite máximo do preço grossista da eletricidade para 9 000 dólares por megawatt-hora — cerca de 400 vezes a média do ano anterior, de 22 dólares — numa tentativa falhada de incentivar uma maior produção de energia.

Embora o limite máximo do preço da eletricidade tenha sido ajustado para 5000 dólares, a Comissão Ferroviária nunca impôs um limite aos preços do gás natural durante uma situação de emergência, deixando uma grande lacuna para futura especulação.

BICO CALADO

Foto: Khames Alrefi – Anadolu Agency
  • A fome em Gaza, um ano depois: será que o mundo aprendeu alguma coisa? Mfetouri, MEM.
  • Um tribunal israelita absolveu um colono que tinha sido filmado a agredir uma freira francesa em Jerusalém, após ter aceitado um relatório médico que indicava que se encontrava num estado psicótico na altura do incidente e que não era criminalmente responsável pelos seus atos. Fonte.
  • Desde Taylor Swift e Kim Kardashian até Jennifer Aniston e Lionel Messi, celebridades de todo o mundo estão a contratar equipas de guarda-costas israelitas compostas por ex-agentes do Shin Bet, do Mossad e das forças especiais israelitas. Fonte.
  • A privatização silenciosa da Segurança Social começa pelo discurso do medo. Ana Mendes Godinho.
  • André Ventura disse ontem que “quase de certeza foi fogo posto” na sede do Chega em Évora. Hoje deu-se o 3º incêndio no mesmo edifício. Fonte.
  • Uma coligação bipartidária dos EUA, composta por 51 procuradores-gerais estaduais e territoriais, anunciou uma proposta de acordo com a Meta, segundo a qual a gigante tecnológica pagará até 17,1 mil milhões de dólares em multas e implementará mudanças radicais nas suas políticas, a fim de resolver as alegações de que as suas plataformas de redes sociais foram concebidas para criar dependência nas crianças. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

DISCERNIMENTO MENTAL


A minha passagem pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, como cadete do Curso de Oficiais Milicianos, não foi brilhante. Longe disso. Terminei o dito curso, em Fevereiro ou Março de 1953, em oitavo lugar…a contar do fim, num total de cento e vinte cadetes. Tive por comandante um coronel, que ficou célebre por ter silenciado, pelas armas, cerca de um milhar de trabalhadores das roças da então nossa ilha de São Tomé, de que era governador. Como consequência deste massacre, que a censura do Estado Novo procurou ocultar, os mais altos responsáveis militares transferiram-no para Vendas Novas como comandante da dita Escola Prática de Artilharia.

Concluída a fase de cadete, situação em que, por natureza, não me empenhei o suficiente, fui colocado em Évora, como aspirante miliciano, no Regimento de Artilharia 3. Corria tudo normalmente e sem sobressaltos, até ao dia em que o primeiro-sargento Araújo me chamou de parte e me conduziu a uma sala no 1.º andar, onde se situavam as dependências do comando, vazias de gente àquela hora do fim da tarde.

O primeiro Araújo era casado com uma modista que aprendera, com a minha mãe, a arte da costura. E a minha mãe fora madrinha desse casamento. Com uma vintena de anos a mais do que eu, este sargento e amigo tratava-me por tu, enquanto eu, como mandava a boa educação, lhe dava senhoria. No quartel, na presença de terceiros, ele tratava-me por “meu aspirante” e eu a ele, como era regra, por “nosso primeiro”.

Chegados a uma sala que ele abriu com chave, retirou, de dentro de uma gaveta, uma pasta e, depois de me pedir absoluto segredo, deu-me a ler um documento chegado de Vendas Novas, timbrado de confidencial, a vermelho, ao alto, do lado direito, no qual se fazia o meu registo biográfico. O texto, pouco ou nada abonatório das minhas capacidades, falava do meu pouco aprumo militar e terminava dizendo (sic):

“…não lhe devendo nunca, ser confiadas missões que exijam discernimento mental.”

- Agora não me lixes. - Disse este meu amigo, ao guardar o papel na pasta de onde o tinha tirado.

- Ninguém pode saber que te mostrei isto. Fazes de conta que não sabes de nada. É como se não existisse. – Concluiu, encaminhando-me para a saída.

De facto, eu tinha notado algo de estranho da parte do comandante do regimento, quando, no dia da minha chegada, fui ao seu gabinete apresentar-me. Aí, o coronel falou comigo, demoradamente, num estilo que mais parecia um exame oral. Eu estranhei, mas não suspeitei que este cabo-de-guerra estava a procurar avaliar o meu cociente intelectual. Não sei que conclusão tirou desta tentativa de aferição das minhas capacidades. Só sei que, na distribuição de serviço que a todos obrigava, para além da instrução aos recrutas, me coube a regular inspecção das limpezas, nas cavalariças, nas cozinhas, nas latrinas, na parada. Tudo o que exigisse cuidados de asseio e higiene tinha de ser vistoriado e essa era, com efeito, uma missão que não exigia grande discernimento mental. A coadjuvar-me nesta incumbência tinha um segundo-sargento, particularmente eficaz e exigente, a quem alguns faxinas chamavam o “cheira-merda”, e que, antes de mim, vasculhava e farejava tudo o que era sítio e buraco. Assim, quando chegava a minha hora de inspecionar, estava tudo impecável.

Os meses foram passando, o comandante, terminado o seu tempo, deu lugar a outro vindo de fora e a minha debilidade mental acabou esquecida.

Este juízo a meu respeito não o interpreto como menoridade intelectual dos militares que, em Vendas Novas, me avaliaram. Reflecte, sim, a minha não integração no seu mundo. Um mundo fardado, com botas esmeradamente engraxadas, amarelos brilhantes de solarine, continências aprumadas e sonoras batidas de tacão, um mundo que, manifestamente, não era o meu e com o qual só fiz as pazes por gratidão e respeito pelos capitães de Abril.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

RIBEIRA DO MOCHO: IMPACTOS DA CHUVA NA ORLA COSTEIRA ENVOLVENTE – QUE SE PASSA?


Segunda-feira, 24 agosto: fortes chuvadas aumentam o caudal da ribeira e forçam a abertura da sua foz, dias antes obstruída e formando uma pequena lagoa.

Quarta-feira, 26 de agosto: manhã de bátegas fortes e trovoada. Cor da água do mar alterada na foz e zona envolvente da ribeira. Terá havido descarga de efluentes a montante?

Terão os peritos na matéria e as autoridades locais e/ou regionais disponibilidade, meios e competência para investigarem e informarem os munícipes?

SUÍÇA QUER FLORESTAS MAIS RESISTENTES AOS INCÊNDIOS

Covão da Ametade
  • Para tornar as florestas mais resistentes aos incêndios, a Suíça está a testar uma abordagem que se baseia na gestão tradicional da terra. Isto implica uma mudança deliberada, afastando-se da silvicultura moderna e uniforme, no sentido de criar paisagens mais diversificadas e abertas, muito semelhantes às que são geridas através de práticas agrícolas tradicionais. O cerne do novo método reside na fragmentação da cobertura florestal contínua, para impedir que os incêndios se propaguem facilmente. Fonte.
  • Calor extremo na Flórida: aumenta o risco de intoxicação por pesticidas para os trabalhadores agrícolas. Novas evidências científicas alertaram para uma dupla ameaça nos campos do sul dos EUA, onde milhares de trabalhadores agrícolas enfrentam uma combinação que pode agravar os danos imediatos e as sequelas a longo prazo. Fonte.
  • Os bastidores do acordo secreto para um centro de dados de 10 mil milhões de dólares na zona rural da Carolina do Norte. Os residentes afirmam que foram excluídos do processo de tomada de decisões relativo a um projeto que inclui centenas de geradores a gasóleo poluentes. Fonte.

REFLEXÃO

DONA DA MAIOR CENTRAL SOLAR EM PORTUGAL ENTROU EM INSOLVÊNCIA. 
O QUE VAI ACONTECER À SOLARA4?


Há empresas que entram em dificuldades porque lhes falta matéria-prima, outras porque perdem clientes e outras ainda porque os custos disparam. A Welink conseguiu uma variante mais sofisticada: entrou em apuros porque a electricidade que produz passou a valer pouco no mercado grossista, embora o consumidor português continue a pagar pela electricidade um preço suficientemente elevado para não suspeitar que, algures entre a central e a factura, ela chegou a ser quase oferecida. É uma das pequenas maravilhas do mercado eléctrico: o produtor lamenta que a energia esteja barata, o consumidor lamenta que esteja cara e, entre ambos, o sistema consegue preservar a infelicidade geral com uma eficiência que a produção de electricidade raramente alcança.

A história começa em Alcoutim, onde a Solara4 entrou em funcionamento em 2021 com cerca de 221 MW de potência e mais de 650 mil painéis solares. A central foi apresentada como um exemplo particularmente feliz da maturidade das renováveis porque tinha sido construída sem subsídios públicos à produção. A própria Welink continuou a destacar essa característica durante anos e ainda em 2025 recordava que o projecto demonstrava a viabilidade da produção solar industrial em grande escala sem apoio governamental. Era uma história excelente: o investimento era privado, o mercado remunerava-o, o sol fazia a sua parte gratuitamente e o Estado podia finalmente afastar-se sem que ninguém desse pela falta dele.

Cinco anos depois, a Welink Energy Portugal 2 (UK) Limited, sociedade que controla a central, entrou em administração judicial no Reino Unido. A explicação não passa por uma inesperada escassez de sol no Algarve, mas por uma combinação bastante mais terrena de produção abaixo do previsto, problemas técnicos, avarias, incêndios e preços grossistas inferiores aos que sustentavam as contas do projecto. A expansão da energia solar na Península Ibérica contribuiu para empurrar os preços para valores muito baixos em determinadas horas, chegando por vezes a zero ou mesmo a território negativo, fenómeno que tem uma curiosa particularidade: é apresentado como uma vitória para o sistema eléctrico até ao momento em que quem produz a electricidade começa a perder dinheiro com ela.

O consumidor, entretanto, não foi incomodado por essa abundância de electricidade quase gratuita. A descida no mercado grossista não se transporta mecanicamente para a factura, onde continuam a viver redes, tarifas, impostos, contratos, margens e todas as restantes parcelas que fazem com que uma mercadoria possa valer zero durante algumas horas num mercado e continuar a custar dinheiro sério a quem acende o forno. Conseguimos, portanto, chegar a uma situação económica de rara elegância: a electricidade é simultaneamente demasiado barata para quem a vende e suficientemente cara para quem a compra. Não é fácil desagradar a duas pontas da mesma transacção, mas também não foi para coisas fáceis que se inventaram mercados energéticos europeus.

No caso da Solara4, a dificuldade não ficou pelo preço. Os bancos Investec e Kommunalkredit terão cerca de 64 milhões de euros por recuperar, enquanto a China Triumph International Engineering Company, pertencente ao grupo estatal chinês CNBM e responsável pela construção da central, reclama aproximadamente 143 milhões num processo de arbitragem. Pelo meio houve incêndios, equipamentos avariados e períodos de indisponibilidade, tendo cerca de 10% da central estado fora de serviço em Maio, incluindo áreas afectadas por vegetação seca por limpar. Uma instalação de centenas de milhões de euros, financiada por bancos internacionais, construída por um gigante industrial chinês e equipada com tecnologia capaz de converter radiação solar em electricidade acabou por descobrir que há problemas que não exigem inteligência artificial, semicondutores ou engenharia avançada. Às vezes basta mato.

A gestão da central foi entretanto retirada à Welink Investments e entregue à Exus, que, juntamente com a Enertis, deverá agora avaliar quanto é necessário investir para melhorar o desempenho do activo. Ao mesmo tempo, admite-se uma eventual venda. O próprio director da Welink para a Península Ibérica reconheceu que uma central exclusivamente solar já não seria, nas actuais condições, economicamente sustentável por si só, o que é uma conclusão particularmente interessante quando aplicada a uma central que foi apresentada durante anos como demonstração precisamente da sustentabilidade económica de uma grande instalação solar sem apoio público.

A solução passa agora por transformar Alcoutim numa instalação híbrida, acrescentando mais produção solar, energia eólica e armazenamento. E é neste ponto que a história deixa de ser apenas mais uma insolvência empresarial e começa a adquirir algum interesse filosófico, porque o projecto que ajudou a demonstrar que as grandes centrais solares já não precisavam de subsídios descobriu entretanto que precisava de baterias, e as baterias descobriram que precisavam de 16.445.234,15 euros de financiamento público.

O beneficiário chama-se Solara4 Phase4, S.A., tem sede em Alcoutim e obteve através do PRR apoio para um “Sistema de Armazenamento em Baterias na Central Fotovoltaica de Alcoutim com potência nominal 100MW”. Foram-lhe atribuídos cerca de 16,45 milhões de euros, dos quais 3,78 milhões já tinham sido pagos, correspondendo a aproximadamente 23% do montante aprovado. Não estamos sequer perante uma verba lateral de algumas centenas de milhares de euros encontrada num programa obscuro: a Solara4 Phase4 recebeu o maior apoio individual atribuído naquele concurso do Fundo Ambiental para armazenamento de energia.

Convém distinguir as sociedades, não porque a distinção torne a história menos interessante, mas porque permite contá-la sem oferecer uma escapatória factual a quem prefira discutir o detalhe em vez do essencial. A Solara4 Phase4 não é juridicamente a mesma empresa britânica que entrou em administração judicial e os 16,45 milhões são fundos públicos europeus do PRR, geridos através das estruturas portuguesas, não uma transferência directa do Orçamento do Estado. Mas também não estamos perante duas empresas que, por uma dessas coincidências que animam a vida empresarial, resolveram chamar-se Solara4, instalar-se em Alcoutim e trabalhar na mesma central sem terem nada uma com a outra. A própria Welink apresenta a bateria de 100 MW como parte da expansão do projecto Solara4. A diferença societária existe. A separação económica é que exige mais imaginação.

E é aqui que a história se torna particularmente reveladora. Durante anos, a ausência de subsídios foi utilizada como prova de que o investimento privado e o mercado já conseguiam sustentar grandes projectos solares sem recorrer ao contribuinte. Não era uma nota técnica escondida numa apresentação para investidores; fazia parte da narrativa pública do projecto. A Solara4 mostrava que as renováveis tinham chegado à idade adulta e deixado para trás a fase desagradável em que precisavam de tarifas garantidas, apoios e dinheiro público. Depois a produção solar aumentou, os preços grossistas caíram, a central produziu abaixo do esperado e aquilo que era economicamente sustentável deixou de o ser nos mesmos termos. A resposta passou por adicionar armazenamento e adaptar o projecto, operação para a qual surgiu, providencialmente, financiamento público.

Não há necessidade de imaginar qualquer ilegalidade. O programa de apoio ao armazenamento existe, a empresa candidatou-se e recebeu o financiamento que lhe foi aprovado. O problema não é criminal, é muito mais banal e, por isso, bastante mais interessante: quando o projecto funcionava sem apoio público, esse facto servia para demonstrar a superioridade e autonomia do mercado; quando as condições de mercado deixaram de assegurar a rentabilidade desejada, o dinheiro público regressou, desta vez não sob o nome pouco elegante de subsídio, mas vestido de armazenamento, flexibilidade de rede, transição energética e resiliência. As palavras melhoraram consideravelmente. O dinheiro continua a ter de sair de algum lado.

Há ainda uma ironia adicional. Um dos problemas da Solara4 resulta precisamente do sucesso da energia solar. Quanto mais capacidade fotovoltaica entra no sistema, maior é a produção nas mesmas horas e mais pressão existe sobre os preços grossistas, chegando ao ponto em que algumas centrais começam a destruir a rentabilidade umas das outras. Durante anos, o aumento da produção renovável foi apresentado como sinal de sucesso do mercado e da política energética. Quando esse sucesso começa a reduzir as receitas dos produtores, transforma-se subitamente num problema que exige armazenamento subsidiado. O mercado produziu o excesso, o excesso reduziu o preço e o financiamento público ajuda agora a pagar a tecnologia necessária para devolver valor económico à energia cujo preço o próprio mercado fez cair.

A situação torna-se ainda mais curiosa porque nada disto significa que a afirmação original fosse falsa. A central de 2021 foi efectivamente construída sem subsídio à produção. O problema está em continuar a apresentar essa condição como prova suficiente da viabilidade estrutural do modelo quando, poucos anos depois, a sociedade que controla o activo está em insolvência, os bancos têm cerca de 64 milhões de euros por recuperar, o empreiteiro estatal chinês reclama 143 milhões, a gestão teve de ser entregue a terceiros, a venda está em cima da mesa e uma sociedade ligada à expansão do projecto recebeu autorização para beneficiar de mais de 16 milhões de euros de financiamento público.

Talvez seja esta a contribuição mais interessante da Solara4 para o debate económico. Durante décadas discutiu-se se determinados sectores deviam ser públicos ou privados, se o Estado devia intervir ou afastar-se e se o mercado conseguia resolver sozinho os problemas de investimento e eficiência. A prática moderna conseguiu ultrapassar essa discussão com uma solução bastante mais confortável: quando o investimento corre bem, serve de demonstração de que o sector privado não precisa do Estado; quando corre mal, torna-se estratégico demais para prescindir dele.

O contribuinte europeu não fica com a central, não participa nos lucros que ela eventualmente volte a gerar e não entra para o conselho de administração. Fica apenas com uma parte da conta das baterias, o que talvez seja a forma contemporânea mais aperfeiçoada de parceria público-privada: o privado conserva a propriedade e o público participa na necessidade.

A Solara4 começou, portanto, como uma demonstração de que o mercado já conseguia fazer energia solar sem subsídios e chegou a 2026 com a sociedade proprietária em insolvência e uma expansão apoiada por 16,45 milhões de euros de dinheiro público. Não prova que a energia solar não funciona, nem que o investimento privado seja inútil. Prova apenas uma coisa bastante mais antiga e menos tecnológica: há uma extraordinária quantidade de empresas que conseguem viver sem o Estado até ao exacto momento em que precisam dele.

O sol, esse, continua gratuito. Foi a única parte do projecto que ainda não apresentou a factura.

BICO CALADO

  • “(…) Tornar praias privadas, transformar bairros em zonas de luxo e escolas e hospitais públicos em guetos não é só o produto da especulação e da austeridade avara no investimento do Estado. É mesmo um projeto político. É garantir um sistema de castas, que concentra o poder e a riqueza num punhado pequeno de gente, ao mesmo tempo que produz hordas de espoliados, prontos a ser explorados ou dizimados sem culpa, de acordo com as necessidades do mercado. Porque tudo é mercadoria. O trabalho não é um ofício e uma arte, mas uma troca precária. A saúde e a educação não são direitos, são privilégios que se pagam. A própria inteligência pode ser alugada. Sim, alugada, porque a propriedade passou a ser temporária, feita de licenças renováveis. (...)” Margarida Davim, Visão 21ago2026.
  • Estes ‘jornalistas’ sabem o que andam a fazer?
  • Um alto dirigente da OpenAI, Dean Ball (diretor de perspetivas estratégicas e antigo colaborador da Casa Branca durante a administração Trump), provocou uma onda de críticas ao classificar a Segurança Social como «uma espécie de fraude contabilística» que deve ser desmantelada. Os críticos reagiram rapidamente. Uns assinalaram a contradição entre as promessas da indústria da IA de um rendimento básico universal e de uma abundância sem precedentes, e o apelo de Ball para eliminar um modesto subsídio de 2 000 dólares por mês destinado aos idosos. Outros salientaram que Ball ignorou o papel dos cortes fiscais republicanos a favor dos mais ricos no aumento da dívida pública. Outros ainda descreveram os comentários como «funcionalmente insanos» e desligados da realidade, questionando por que razão foi permitido que os executivos das grandes empresas tecnológicas, que pretendem destruir o programa de segurança social mais popular do país, acumulassem tanto poder. Entretanto, analistas de sondagens e comentadores destacaram que a Segurança Social goza de um vasto apoio bipartidário, tornando os ataques contra ela politicamente desastrosos. Fonte.
  • As exportações de armas israelitas per capita em 2025 foram cerca de seis vezes superiores às dos EUA e 19 vezes superiores às da Rússia. O mais recente estudo da autora palestiniana-americana Susan Abulhawa revelou que Israel exportou armas a um ritmo equivalente a cerca de 263 dólares por cidadão em 2025, em comparação com 41 dólares por pessoa nos EUA e 14 dólares na Rússia.

LEITURAS MARGINAIS

LISBOA E JERUSALÉM (semelhanças inesperadas)
Carlos Narciso, Duas Linhas.

(…) Não é necessário estabelecer uma equivalência moral ou histórica entre a conquista de Lisboa no século XII e o que hoje acontece em Jerusalém. São épocas diferentes, sociedades diferentes, mundos políticos diferentes. Mas há qualquer coisa que atravessa os séculos. O vencedor não se limita a conquistar o território. Quer também conquistar os seus símbolos. A vitória militar parece incompleta enquanto o deus do vencido continuar a ter uma casa de oração no lugar onde agora manda o vencedor.

Uma mesquita transforma-se em catedral. Um templo deve desaparecer para que outro possa ser reconstruído. O espaço que durante séculos foi sagrado para uns passa a ser reclamado como sagrado exclusivamente por outros.

Gostamos de pensar que evoluímos. E, naturalmente, evoluímos. Sabemos hoje coisas que os nossos antepassados não poderiam sequer imaginar. Fotografamos galáxias distantes, manipulamos genes, enviamos máquinas para outros planetas, construímos sistemas capazes de processar quantidades absurdas de informação e comunicamos instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo. Mas o progresso técnico não produziu progresso moral.

Podemos usar um telemóvel de última geração e continuar a acreditar que Deus entregou uma determinada parcela do planeta exclusivamente à nossa tribo. Podemos viajar de avião, recorrer à inteligência artificial, fazer uma operação ao coração e continuar a pensar exactamente como pensavam os homens que, há muitos séculos, destruíam os símbolos religiosos dos vencidos para afirmar a superioridade da sua própria fé.

A humanidade pode aperfeiçoar a máquina sem aperfeiçoar o homem que carrega no botão. Continuamos a matar, expulsar e destruir em nome de “certezas” que têm milhares de anos. Em Jerusalém, essa realidade está diante dos nossos olhos. Partilhada nas redes sociais, discutida por políticos e protegida por soldados.

A distância entre a espada de um cruzado que entrou em Lisboa em 1147 e o smartphone de um jovem sionista que defende hoje a destruição de Al-Aqsa parece enorme. Talvez não seja assim tão grande.