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domingo, 15 de fevereiro de 2026

NÓTULA

Isaac Soyer

Pela primeira vez e a nível interno a Câmara abre concurso para o preenchimento de quatro vagas de serventes, pelo prazo de seis meses. Transparência de processos em que os cidadãos têm igualdade de oportunidades, que aqui registamos com agrado.

Ainda está presente nos nossos leitores o escândalo do concurso da piscina e de outros casos de contratos a prazo sucessivos para «fazer tempo» e ganhar raiz...
Factos que o inquérito do Ministério da Administração Interna comprovou e condenou e que ainda poderá repetir se não forem abortados novos abusos.
Espinho Vareiro, 16 de fevereiro de 1990.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

'O DOURO NUNCA SAIU DA RÉGUA'

  • Os judeus investiriam ou comprariam os seus produtos se soubessem da história nazi da Shell? John Donovan.

BICO CALDO

  • Ministra do Trabalho já começou a cortar no apoio às vítimas da tempestade. Fonte.
Humberto Delgado, Porto 1958.
  • Humberto Delgado (HD) – 61.º aniversário do seu assassinato (13-fevereiro-1965). Carlos Esperança, Ponte Europa.
  • Agricultores e trabalhadores indianos entraram em greve em oposição a quatro novos códigos laborais, bem como aos acordos comerciais com os EUA e a UE. Os agricultores queimaram cópias simbólicas do pacto comercial Índia-EUA nos seus campos e em reuniões de protesto, alegando que o governo avançou sem os consultar nem considerar as suas necessidades. Fonte.
  • Uma cimeira sobre minerais realizada nos EUA na semana passada resultou em vários acordos com nações africanas para fornecer minerais essenciais a empresas tecnológicas americanas. No entanto, os acordos já enfrentam um desafio legal na República Democrática do Congo. Advogados e ativistas de direitos humanos em Kinshasa entraram com uma ação judicial, alegando que os acordos comprometem a soberania do país, embora detalhes específicos ainda não estejam disponíveis. Fonte.
  • Alunos e professores da Escola Domingos Capela manifestaram-se junto do edifício da Câmara Municipal de Espinho para exigir intervenção urgente naquele estabelecimento há muito necessitado de obras de manutenção e reparação. O executivo camarário respondedizendo que a responsabilidade do péssimo estado de conservação daquela escola se deve à falta de intervenção de executivos anteriores e sublinha o seu empenhamento na continuação das medidas lançadas pelo anterior executivo no sentido da resolução dos problemas. Omite-ser um pormenor interessante: o Ministério da Educação perdoou à Câmara uma dívida de 5 milhões de euros na condição da Câmara efetuar obras naquela escola e noutras de Espinho, o que nunca aconteceu, apesar dos vários pedidos da Escola nesse sentido. Valerá a pena ver a reportagem da CMTV de 6ª feira, 13 de fevereiro de 2026, entre as 10h12 e as 10h24 e do Porto Canal, ‘Ordem do Dia’, entre as 14h01 e as 14h08.
  • As falências agrícolas nos EUA aumentaram 46% em 2025. Fonte.
  • MP abre novo inquérito sobre casa de Luís Montenegro em Espinho por suspeitas de fraude fiscal. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O GOURMET DA VICHYSSOISE E O PAÍS QUE JÁ NÃO TEM PACIÊNCIA PARA SOPAS FRIAS



Há políticos que governam. Há políticos que trabalham. E depois há os que degustam. Marcelo Rebelo de Sousa pertence a esta última categoria. O gourmet da vichyssoise institucional, o homem que passou dez anos a provar a temperatura da sopa da República, soprando dramaticamente para as câmaras, comentando a textura democrática do caldo e explicando, com aquele ar de professor que já corrigiu mil testes, que talvez faltasse um pouco mais de sal narcisista.

Durante anos, foi o chef mediático de Belém. Selfies como amuse-bouche, abraços como entrada, comentários omnipresentes como prato principal. De sobremesa um afecto servido morno, sempre fotogénico, sempre pronto a ser partilhado nas redes sociais como quem publica a fotografia de uma sopa artesanal com hashtag # Instituições.

E no entanto, eis que chegamos ao fim do serviço e o crítico gastronómico chamado “opinião pública” decidiu deixar a crítica no Tripadvisor democrático e a popularidade caiu para níveis que já não lembram estrela Michelin, mas antes cantina de repartição pública às quatro da tarde. As sondagens do segundo mandato mostraram uma descida clara, avaliações negativas a crescer, a aura consensual a evaporar como vapor na panela esquecida no fogão. O chef continuava a explicar a receita, mas o público já tinha perdido o apetite.

Recordemos aquele momento sublime em que, qual sommelier da execução orçamental, decidiu repreender publicamente Ana Abrunhosa, então Ministra da Coesão Territorial, com a delicadeza de quem prova um creme e anuncia em voz alta: “Se isto não estiver à altura, não lhe perdoo”. A frase ecoou com aquele tempero clássico de vaidade televisiva. Não bastava alertar, era preciso fazê-lo em direto, com pose, colher na mão e sobrancelha arqueada. Um toque de pimenta mediática para reforçar o sabor da autoridade.

Ora o destino tem sentido de humor. Anos depois, quem termina o mandato com o travo amargo não é a ministra, agora autarca, mas o próprio chef presidencial. A dona da cozinha municipal revelou-se sólida, pragmática, menos interessada em filtros e mais em obra concreta. Já o gourmet de Belém ficou preso à mise-en-scène.

Entretanto, o país ofereceu-nos outro momento de alta cozinha política durante as cheias do Mondego. O rio subia, a autarca evacuava populações, a lama avançava como molho demasiado espesso. E no meio do cenário quase bíblico, o Primeiro-ministro resolveu brindar a nação com uma intervenção que parecia saída de um turista americano do Alabama, deixando no ar a sensação de que a geografia nacional é uma disciplina opcional para governantes. Foi como assistir a um cozinheiro confundir coentros com hortelã em plena final de concurso televisivo. Tecnicamente um pequeno detalhe, simbolicamente devastador. É que o Mondego é um rio nacional e discutir o seu caudal com os espanhóis é o mesmo que consultar os australianos sobre a seca na planície alentejana.

O problema não é apenas o erro, é o padrão. Um governo que, por vezes, se apresenta como elenco de gala num espetáculo de variedades, muita luz, muito discurso, pouca substância. Portugal, república com quase nove séculos, merece mais do que um casting permanente para espetáculos de revista institucionais.

Com ministras desaparecidas em combate, ministros a fazerem filminhos da sua vaidade e um Primeiro-ministro rusticamente ignorante e pomposamente aldrabão.

E assim chegamos ao fim do banquete. Marcelo sai de cena não como estadista trágico nem como herói épico, mas como aquele gourmet que passou demasiado tempo a falar da sopa e pouco a perceber que a clientela estava cansada de explicações sobre a consistência. O afeto em doses industriais perdeu eficácia. As selfies à beira-mar deixaram de comover. O país, saturado de comentário permanente, começou a desejar silêncio produtivo.

É curioso que a vichyssoise se serve fria. Talvez tenha sido esse o equívoco central, presidir a um país em ebulição com receitas concebidas para serem degustadas a temperatura controlada, em ambiente de salão, longe da turbulência real das cozinhas onde se queima, se corta e se improvisa para alimentar gente concreta.

No fim, não há aplauso de pé. Há um suspiro coletivo, como quem empurra o prato para o lado e pede a conta. A República não precisa de críticos gastronómicos em horário nobre. Precisa de cozinheiros discretos que saibam que o essencial não é explicar a sopa, é garantir que ela alimenta.

E quando o gourmet sai pela porta dos fundos, não é vaiado nem ovacionado. É simplesmente esquecido na lista de sugestões para o dia seguinte. Porque o país, ao contrário da vichyssoise, não pode ser servido frio durante uma década inteira.

A autarca, essa, segue firme e altaneira na sua função.

Beijinhos e até à próxima…

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A BARRAGEM DE GIRABOLHOS NÃO SERÁ RELEVANTE PARA CONTROLO DE CHEIAS

  • O hidrobiólogo Adriano Bordalo de Sá, investigador da Universidade do Porto que é defensor da construção da barragem de Girabolhos, desmente a ligação entre essa estrutura e o controlo de cheias, explicando que “essa barragem não fica sequer perto do Baixo Mondego”. “Para este controlo das cheias [a barragem] não é propriamente relevante. Ela está muito longe desta zona que é sistematicamente afetada por problemas estruturais do planeamento feito no passado”, disse o hidrobiólogo. “Não terá a influência que alguns políticos, porque foram informados incorretamente, pensam que poderá ter”. A barragem de Girabolhos não avançou por vontade da Endesa. A sua concessão não incluía a gestão de cheias, como a previsão do aproveitamento de Girabolhos não prevê também. Para a gestão de cheias, importa mais o projeto hidroagrícola do Baixo Mondego, que enfrenta falhas estruturais associadas aos principais problemas de gestão de água do Mondego. A conclusão da obra hidroagrícola do Baixo Mondego, que poderia prevenir as cheias, foi mesmo levada a votação na Assembleia da República no Orçamento do Estado para 2025, tendo sido chumbada com os votos contra do PSD, CDS e IL, e com as abstenções do Partido Socialista e do Chega. Fonte.
  • Estes títulos.....
  • Enfermeiro que foi adjunto da ministra da Cultura nomeado coordenador da Estrutura de Missão de energias renovávei, sem experiência profissional nem habilitações académicas. Fonte. Comentário de oxisdaquestao: “Tudo o que precise de tratamento fica melhor nas mãos e mezinhas de um enfermeiro. Já vinha de fazer curativos e dar injeções na cultura e por isso era adjunto da ministra; agora salta para as renováveis onde os sinapismos e mézinhas são bem necessários para que o vento não amorteça, o sol não se encubra e os dividendos dos accionistas não se constipem. É o que aponta o QI do indicado e de quem o indicou.”

INGLATERRA: RELATÓRIO SOBRE RISCO DE INCÊNDIO EM MEGA LIXEIRA OCULTADO DO PÚBLICO

Até ao momento, quatro pessoas foram detidas no âmbito da investigação em curso sobre o despejo de resíduos em Kidlington.
  • Ativistas e moradores que vivem perto dos maiores aterros ilegais da Inglaterra querem saber por que os riscos de incêndio num dos aterros levaram à sua limpeza, a um custo de milhões de libras, enquanto outros permanecem intocados. Por isso, pedem a divulgação da avaliação de risco de incêndio que levou a Agência Ambiental a decidir limpar o local de Kidlington, em Oxfordshire, numa medida «excecional» que custou mais de 9 milhões de libras. Mas o Serviço de Bombeiros e Resgate de Oxfordshire recusou um pedido de Liberdade de Informação da BBC para publicá-la, alegando que isso poderia colocar a segurança pública em risco. No mês passado, uma investigação da BBC revelou que havia mais de 500 lixeiras ilegais em toda a Inglaterra, incluindo pelo menos 11 dos chamados «super locais» com capacidade superior a 20 000 toneladas. Fonte.
  • Donald Trump autoproclamou-se «Campeão do Carvão». Agora pode exibir um troféu em forma de mineiro com a inscrição «Undisputed Champion of Beautiful Clean Coal» («Campeão indiscutível do carvão limpo e bonito», (sic!) entregue por Jim Grech, CEO da Peabody Energy (a maior empresa produtora de carvão do mundo). A cerimónia foi transmitida ao vivo, estando ele rodeado de mineiros em uniforme e capacetes de proteção, trazidos para a ocasião da assinatura de duas leis que fazem os EUAdar mais passos atrás no âmbito das políticas de proteção ambiental e de combate à crise climática. Fonte.

REFLEXÃO

AS TEMPESTADES E ALGUMAS PERGUNTAS INCÓMODAS
Adriano Zilhão, O Maio.
Imagens da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3.

Eiras, Coimbra. Foto: PAULO NOVAIS/LUSA

Além do ímpeto solidário de acudir às populações que mais sofreram, as violentas tempestades que assolaram o país suscitam muita reflexão, muitos porquês.

Porque foram as populações forçadas a abandonar quase todo o país e a concentrar-se numas poucas zonas urbanas no litoral?

Porque se faz, nestas zonas, a construção cada vez mais longe dos centros (mesmo quando há espaço nestes), com materiais inadequados para as condições climáticas e para o conforto dos habitantes, sem planeamento urbano, transportes acessíveis, equipamentos adequados de saúde e ensino, zonas verdes e espaços seguros para crianças?

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?

Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?

Imagem: Pedro Medina

Os economistas costumam usar uma palavra muito “técnica”, novilinguística, para se referirem a estas consequências nefastas do desenvolvimento capitalista: externalidades.

O princípio básico da “economia de mercado” capitalista é simples: todas as relações económicas e sociais ocorrem em mercados. Nada do que se produz se faz para satisfazer as necessidades do produtor ou da comunidade a que pertence. Tudo se produz a pensar em encontrar compradores num mercado, próximo ou longínquo, onde se possa vender o produto com lucro.

Tanto a produção de bens e serviços como o seu consumo pelos indivíduos e famílias não têm, portanto, nada que ver com as deliberações de cada comunidade sobre o que se há-de produzir, como, quando, para quê e para quem.

Em vez disso, “investidores” que dispõem de capitais estimam quanto custarão nos mercados as fábricas que terão de construir, as máquinas e matérias-primas que terão de comprar e os salários que terão de pagar aos trabalhadores que precisarem de empregar; se virem que há ou haverá mercado lucrativo para o que se propõem produzir, avançam.

A doutrina liberal ensina que nenhum método de organização social é superior a este: a miríade de decisões independentes de investimento com fim lucrativo terá o efeito miraculoso de os recursos sociais disponíveis serem usados da maneira mais eficiente possível para a sociedade como um todo. Uma espécie de mão invisível guiaria as decisões egoístas de cada capitalista para um resultado global que, nas condições dadas, é, no fundo, “altruísta”, uma vez que socialmente melhor não será possível.

O observador céptico pode achar: “Bem, se eu fosse um desses capitalistas que quer fazer dinheiro, acharia esta teoria utilíssima — apesar de parecer um bocado estapafúrdia…” Estapafúrdia, realmente: vendo bem, o único resultado evidente de organizar assim os recursos da sociedade é que o capitalista, pelo menos o capitalista bem-sucedido, atinge o seu fim, que é multiplicar o seu capital. Quanto ao mais…

Jornal de Leiria.

Voltemos às “externalidades”.

Os produtos ou serviços em cuja produção o capitalista decidiu investir não são a única consequência do seu investimento.

Por exemplo, a exploração mineira, depois de o respectivo capitalista ter comprado ou concessionado o terreno, comprado ou alugado maquinaria e combustíveis, contratado pessoal e pagado impostos, não produz apenas matérias-primas prontas para vender a compradores industriais. Também produz uma transformação profunda do território em que se faz; pode obrigar populações a deslocarem-se; polui cursos de água e a atmosfera; causa doenças graves aos operários e aos habitantes; altera ou destrói ecossistemas.

O mesmo no caso da indústria transformadora; e da agricultura intensiva; e da exploração florestal.

Soure.

No entanto, na sua esmagadora maioria, estes “efeitos colaterais” da produção capitalista não têm preço em nenhum mercado. O capitalista não tem de pagar por eles nem de incluí-los nos seus cálculos de rentabilidade.

Os efeitos colaterais não são “privados”. São custos sociais futuros. Terão, aliás, mais tarde ou mais cedo, de ser pagos: no custo de brigadas de bombeiros, de tratamentos hospitalares, de evacuações de populações, de despoluição de territórios.

Para o capitalista investidor, porém, não são custo algum.

Melhor: o preço da eventual reparação futura desses efeitos será pago por quem sofre os danos ou pelo Estado; neste caso, com o dinheiro cobrado em impostos à população em geral. Que é usado para comprar produtos e serviços em mercados — lucrativos — de construção civil, manutenção de infra-estruturas, etc.

As catástrofes total ou parcialmente resultantes de efeitos colaterais de investimentos capitalistas geram, assim, novos mercados para os mesmos capitalistas, ou outros, poderem fazer negócios lucrativos.

Pergunta-se: mas porque não têm esses capitalistas, que investem para ganhar dinheiro e, nisso, transformam “colateralmente” a natureza e a organização social e territorial, que pagar por esses efeitos colaterais?

Há uma resposta simples, que eles próprios poderiam dar: se todos esses efeitos colaterais previsíveis fossem carregados a custo do investimento privado, nenhum investimento privado se faria, porque não seria lucrativo. Ora, os tais efeitos ocorrem; e ocorrendo, têm um custo.

Esse custo representa, consequentemente, uma gigantesca subvenção dada ao capital pelo Estado — essencialmente, aliás, pelos trabalhadores em geral, que, além de arcarem quase sempre com os efeitos directos das catástrofes na saúde, nas condições de vida e de trabalho, são quem paga os impostos de onde o Estado paga as subvenções virtuais ao capital.

Alcácer do Sal. Fotografia: Rui Minderico/Lusa

A conclusão, para quem não tenha antolhos: numa sociedade complexa, em que todo o país é afectado por tudo o que se faz social e economicamente em qualquer parte do território (o mesmo se aplica ao mundo), só é possível controlar o destino social, económico e ambiental do país e do mundo se todas as decisões importantes, nos domínios social, económico e ambiental, forem tomadas não por investidores empenhados em tirar as castanhas do lume (sem se importarem que o lume pegue fogo a tudo o resto), apoiados para o efeito na propriedade privada dos meios de produção, mas por toda a população trabalhadora, democraticamente.