Recortes de notícias ambientais e outras que tais, com alguma crítica e reflexão. Sem publicidade e sem patrocínios públicos ou privados. Desde janeiro de 2004.
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Interdita nos últimos dias devido ao mau tempo e ao risco de inundações, a Rua da Praia, na freguesia de Paramos, junto ao Regimento de Engenharia, vai reabrir à circulação automóvel, a partir da tarde de sexta-feira, 6 de fevereiro, tal como na zona junto à capela de São João. Fonte. Precisamente num dia em que a Proteção Civil alerta repetidamente para o agravamento das condições meteorológicas provocadas pela chegada da tempestade Marta e para a tomada de providências adequadas a situações de perigo iminentes.
A área a nascente da Escola Secundária Dr. Manuel Gomes de Almeida, em Espinho, sofre inundações sistemáticas sempre que ocorrem chuvas, situação vivida novamente nesta sexta-feira, 6 de fevereiro, como documenta a fotografia acima. Este problema, que se arrasta há mais de três décadas, para além dos evidentes riscos e incómodos que representa, tem um impacto direto no trânsito local. Nas horas de ponta de entrada e saída dos alunos, as ruas 30, 33 e 35 ficam completamente paralisadas, gerando engarrafamentos ruidosos. Esta situação causa não apenas arrelias, mas também graves transtornos para os utentes das vias e moradores da zona, comprometendo a sua mobilidade e qualidade de vida. Para quando uma intervenção definitiva das entidades responsáveis para resolver esta situação crónica?
As fortes chuvas registadas nos últimos dias provocaram um novo colapso de uma estrutura de rejeitados mineiros nas Minas da Panasqueira, em São Jorge da Beira, no concelho da Covilhã, com o arrastamento de grandes volumes de resíduos para a ribeira de Cebola, afluente do rio Zêzere. A Empresa Portuguesa das Águas Livres recolheu amostras de água em vários pontos da região para avaliar eventuais impactos na qualidade da água destinada ao consumo humano, incluindo na albufeira de Castelo de Bode, principal origem de água para a Área Metropolitana de Lisboa. Este é o terceiro colapso conhecido desta infraestrutura de rejeitados nas últimas décadas. As Minas da Panasqueira são exploradas pela Beralt Tin and Wolfram Portugal, subsidiária da mineira canadiana Almonty Industries. A exploração gerou ao longo de mais de um século enormes volumes de resíduos mineiros, muitos deles ricos em sulfuretos e suscetíveis à drenagem ácida. Alguns depósitos, como os do Cabeço do Pião, encontram-se em contacto direto ou muito próximo do rio Zêzere. Vários estudos científicos têm identificado níveis elevados de arsénio e outros metais pesados nos solos, sedimentos e cursos de água associados aos rejeitados da Panasqueira, apontando para riscos ambientais persistentes e potenciais impactos na saúde humana. Apesar desse conhecimento, não foram implementadas soluções estruturais de remediação nem programas de reaproveitamento dos rejeitados, que continuam a conter quantidades relevantes de volfrâmio e outros materiais críticos, acusa a MiningWatch Portugal. Paralelamente, têm sido denunciadas descargas recorrentes de águas residuais não tratadas ou insuficientemente tratadas para a ribeira do Bodelhão durante os meses de maior precipitação. Observadores ambientais consideram que a repetição de acidentes e incumprimentos revela uma tolerância prolongada por parte das autoridades responsáveis pela fiscalização ambiental. O colapso mais recente afetou diretamente tolivais e vinhas adjacentes. Os proprietários exigem agora o apuramento de responsabilidades e compensações pelos prejuízos sofridos. Os materiais libertados são potencialmente ácidos e podem conter concentrações elevadas de arsénio e outros elementos perigosos, levantando preocupações quanto à contaminação dos solos e à perda de produtividade a médio e longo prazo. Fonte.
Foto: Unidos Em Defesa de Covas do Barroso
A Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso e a ClientEarth intentaram uma ação contra a Comissão Europeia, no Tribunal de Justiça da União Europeia, por atribuir o estatuto de “projeto estratégico” à mina do Barroso. As organizações defendem que a Comissão Europeia “ignorou lacunas evidentes na avaliação dos impactos ambientais, incluindo os impactos sobre espécies protegidas e a segurança da infraestrutura prevista para o armazenamento de rejeitados (…) Classificar um projeto como ‘estratégico’ e de interesse público, enquanto se fecha os olhos a riscos bem documentados para a água, os ecossistemas, a saúde humana e os meios de subsistência locais, é simplesmente inaceitável. A transição energética tem de assentar no direito, na ciência e na justiça – não em atalhos políticos que transformam regiões rurais em zonas de sacrifício”. Em junho de 2025, a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, a MiningWatch Portugal e a ClientEarth apresentaram uma queixa contra a Comissão Europeia, para que reconsiderasse a classificação “projeto estratégico”, desta mina de lítio situada em Covas do Barro, concelho de Boticas, tendo em conta o Regulamento das Matérias-Primas Críticas. Em novembro, a Comissão Europeia recusou-se, alegando que o seu papel é apenas “identificar erros manifestos nas candidaturas de projetos” e que só recusaria o estatuto “se fosse manifestamente claro que o projeto não seria implementado de forma sustentável”. A mina de lítio a céu aberto obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada em 2023 e a Savannah prevê iniciar a produção de lítio em 2027, no concelho de Boticas, no distrito de Vila Real. Fonte.
Várias minas numa importante jazida de coltan no leste do Congo desabaram devido a deslizamentos causados por fortes chuvas. O coltan contém tântalo, um componente essencial de telemóveis e computadores portáteis. Pelo menos 300 pessoas morreram no desastre, e muitas ainda estão soterradas. Fonte.
A Malásia anunciou uma proibição imediata e total da importação de resíduos eletrónicos. O governo afirma que o país não será um «depósito de lixo» para os resíduos do mundo. A proibição surge no momento em que as autoridades ampliam uma investigação de corrupção relacionada a gestão de resíduos eletrónicos. Em 2025, o governo informou ter apreendido mais de 70 contentores de resíduos eletrónicos perigosos, principalmente provenientes dos EUA, num porto da Ilha de Batam. No mês passado, quatro desses contentores — contendo computadores usados, discos rígidos, dispositivos de áudio e vídeo, modems, placas de alimentação e placas de circuito impresso — foram devolvidos aos EUA. Fonte.
As cheias representam uma alegoria trágica da inconsistência temporal das escolhas políticas e da atenção mediática dos tempos que vivemos. Ameaçados por uma crise climática que os melhores modelos de simulação dão como cientificamente provada, continuamos a agir a ter um espaço mediático povoado por um presente pequenino, mesquinho e sufocante, onde quem ousa falar de futuro, medidas estruturantes ou planeamento é brindado com graciosos adjetivos como catastrofista, romântico ou radical. Os jovens que fazem ações para exigir ação imediata dos governos nestas matérias - ocupando faculdades ou interrompendo estradas - são tratados como terroristas, que “deviam era estar a trabalhar”.
Sesimbra
As alterações climáticas são apenas preocupação e abertura de Telejornal quando a casa arde ou a água entra pela porta. O Estado é sempre fonte de ineficiência e captura de impostos até que é chamado para acudir à incerteza fundamental de um clima com consequência sociais e económicas cada vez mais brutais. Uma miopia coletiva onde o condenado só consegue perceber o cadafalso quando o chão lhe foge debaixo dos pés e, pelo caminho, insulta os que o previnem para mudar de rumo. Entre o tanto que avançámos coletivamente enquanto comunidade de conhecimento - capazes que somos hoje de modelar com precisão a evolução um fenómeno tão complexo como o clima - e o quanto permanecemos de incapazes de o aceitar enquanto comunidade cívica e política decorre o intervalo onde repousa o nosso falhanço coletivo. Triunfo de capitalismo de viés abissal para o lucro presente e capaz de acionar os mecanismos mediáticos e institucionais para que a democracia não use o conhecimento científico para ameaçar os seus interesses.
Permitam-me que use o meu muito estimado burgo - Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira - como alegoria simples do que acabo de escrever.
Há mais de uma década, nas vésperas de proceder à renovação das frentes ribeirinhas do concelho, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira promoveu alterações no Plano Diretor Municipal (PDM) que permitiram a urbanização de uma grande área antes não urbanizável por se considerara leito de cheio (e onde há escassas décadas existiam salinas).
Quando as forças políticas à esquerda disseram que rever o PDM para ali se poder construir uma mega urbanização da Teixeira Duarte era uma afronta, foram acusadas de serem avessas ao progresso e contra a iniciativa privada.
Defenderam essas forças políticas (CDU e BE) que construir 700 fogos em solos antes assinalados como leito de cheia era um crime ambiental, que ignorava tudo o que se sabia sobre as previsíveis alterações futuras dos níveis das águas. Para já não falar de outras dimensões: um acréscimo de densidade populacional numa localidade com mais habitantes por metro quadrado do que Singapura -sem infraestruturas para a comportar - e que se destinava a criar uma oferta habitacional que não corresponderia à procura das classes trabalhadoras. Serviria - como está a servir - para alimentar uma oferta para procuras externas e para quem faz da habitação um ativo financeiro mais do que uma casa para viver.
Por trágica ironia, ainda o primeiro prédio do grande complexo não está totalmente construído e já há barreiras de cimento colocadas nas suas portas de entrada para que água não o inunde (ver imagem inicial deste artigo).
Entretanto, o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira e os seus vereadores brincam aos bons alunos. Muito solenes e preocupados.
O problema é que para lá das preocupações de ocasião há as medidas estruturais que fazem a diferença. Contudo, essas foram há muito tempo, quando tudo isto se discutiu. Infelizmente, essas não causam envolvimento das populações nem preocupação do poder político, o qual, conhecedor dessa apatia, sabe que tem caminho livre para fazer da melhoria do espaço público um veículo de valorização de ativos imobiliários - como se tratou do caso com a requalificação das frente ribeirinhas.
“Querem um sítio aprazível para correr e passear à beira rio?” Pois bem, mas não sem que isso venha promover o interesse de uma das maiores construtoras portuguesas que, a par da Mota-Engil, tem um vasto legado de ingerência no poder político e de ação de portas giratórias entre os seus quadros de topo e os dirigentes dos partidos do centro.
É por isso que o ultra-centrismo do PS - política de direita polvilhada com caridade social e discurso dos afetos, que até rende a alguns dos seus intérpretes a eleição para personalidade do ano em jornais regionais - não me merece respeito.
Não são fascistas, mas são também eles que lhe franqueiam as portas com a sua traição reiterada de classe. Uns por interesses pessoais, outros por convicção, outros por total falta de noção.
Aqui continuaremos a dizer que as alterações climáticas são uma urgência. Enquanto os outros -os pragmáticos, os bons, os razoáveis, os moderados - serão heróis, de capa de proteção civil ao vento.
A maioria do povo só tem o que merece. Aos outros, resta-lhes o parco contentamento de submergirem de olhos abertos.
Ao discursar perante a Comissão Bancária do Senado na quinta-feira, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou explicitamente que os EUA causaram deliberadamente uma crise financeira no Irão com o objetivo de fomentar a agitação civil no país. Questionado pela senadora Katie Britt sobre o que mais poderiam os EUA fazer para pressionar o aiatolá e o Irão, Bessent explicou que o Departamento do Tesouro implementou uma «estratégia» destinada a minar a moeda iraniana, o que levou ao colapso da economia e desencadeou os violentos protestos que vimos em todo o país. «Uma coisa que poderíamos fazer no Tesouro, e que fizemos, foi criar uma escassez de dólares no país», disse Bessent. «Num discurso no Clube Económico em março, descrevi a estratégia. Ela teve um desfecho rápido e, diria eu, grandioso em dezembro, quando um dos maiores bancos do Irão faliu. Houve uma corrida aos bancos, o banco central teve de imprimir dinheiro, a moeda iraniana entrou em queda livre, a inflação explodiu e, por isso, vimos o povo iraniano nas ruas.» Esta não é a primeira vez que Bessent admite estas coisas. Falando no Fórum Económico Mundial em Davos no mês passado, o secretário do Tesouro afirmou: «O presidente Trump ordenou ao Tesouro e à nossa divisão OFAC, Escritório de Controlo de Ativos Estrangeiros, que exercessem pressão máxima sobre o Irão. E funcionou, porque em dezembro a economia deles entrou em colapso. Vimos um grande banco ir à falência; o banco central começou a imprimir dinheiro. Há escassez de dólares. Eles não conseguem importar, e é por isso que o povo foi para as ruas. Portanto, trata-se de uma estratégia económica, sem tiros disparados, e as coisas estão a evoluir de forma muito positiva aqui.» Caitlin Johnstone, Os EUA continuam a admitir abertamente que causaram deliberadamente os protestos no Irão – Substack.
Um jato particular do magnata imobiliário da Flórida Gil Dezer, parceiro de negócios de longa data de Donald Trump, doador da sua campanha eleitoral e membro da filial de Miami da Friends of the Israel Defense Forces, foi usado pela ICE para deportar palestinianos de um aeroporto próximo de um centro de detenção no Arizona para Tel Aviv. Fonte.
Num país com um terço do território submerso, população desalojada, cortes de energia e comunicações, e com o agravamento da depressão Marta, um grupo distinto — que afirma defender a caldeirada de peixe, a arte xávega e as tradições — elege em Espinho o novo presidente da sua confraria.
SOS Racismo denuncia novo caso de violência policial no aeroporto de Lisboa. Jovem são-tomense de 23 anos teve de ser assistido na urgência do Hospital de São José, de onde foi retirado pelos agentes sem fazer um exame requerido pelos médicos. SOS exige abertura de inquérito e preservação dos registos de videovigilância. Fonte.
Há um sentimento crescente — e não apenas entre aqueles de nós que trabalham no mundo digital — de que muitas coisas que costumavam funcionar bem já não funcionam mais. Não porque a tecnologia se tornou mais difícil, nem por falta de capacidades técnicas, mas porque alguém, em algum grupo de desenvolvimento, decidiu que era mais lucrativo que os serviços e produtos funcionassem pior em vez de melhor.
É deliberado, calculado e mensurável: menos controlo para o utilizador, mais atrito, mais anúncios, mais camadas de assinatura, mais «surpresas» na forma de funcionalidades que desaparecem, ficam mais caras ou são cobradas separadamente. Há um efeito cumulativo nesse processo: a confiança está a ser destruída como um ativo económico, e isso tem consequências para as pessoas, as empresas e a concorrência.
Funciona assim: quando um produto digital atinge uma massa crítica, o incentivo deixa de ser «fazer melhor» e passa a ser «sacar mais». Num mercado em que mudar de fornecedor está longe de ser fácil, esse fornecedor pode impor pequenos cortes sem pagar um preço imediato. O truque está na dosagem: um pouco mais de publicidade aqui, um aumento de preço ali, uma funcionalidade que antes era padrão agora torna-se premium ou uma interface que o obriga a aceitar o que não lhe convém. Cada mudança, separadamente, parece tolerável. Em conjunto, é uma estratégia que Cory Doctorow apelidou magistralmente de «enshittification».
Vemos isso em dispositivos e serviços que já normalizámos como parte da casa. Plataformas de TV conectadas testam anúncios cada vez mais intrusivos, a ponto de experimentar formatos que interrompem o acesso ou assumem o controle do ecrã principal. A empresa está a medir qual a percentagem de nós que protesta, qual a percentagem que aguenta e qual a percentagem que, no final, compra a «solução» (pagando para ver menos anúncios, por exemplo, ou mudando de dispositivos dentro do mesmo ecossistema). É uma economia de laboratório aplicada a milhões de pessoas.
Também vemos isso em produtos «sérios», do tipo que sustentam empresas inteiras. A conversão forçada de licenças em assinaturas, o pacote obrigatório de funcionalidades que não precisa ou o aumento radical nos preços com o álibi de «mais valor» podem aumentar as receitas no curto prazo, mas deixam um rasto: CEOs e gestores de compras que começam a tratar os seus fornecedores como potenciais adversários, não como parceiros. E quando essa relação é quebrada, acelera-se um processo que as empresas de tecnologia tendem a subestimar: o desejo de fugir, de diversificar, de procurar alternativas, mesmo que elas sejam imperfeitas. A desconfiança, uma vez instalada, não é negociável: é contagiosa.
Outra variante, talvez a mais corrosiva, é o agravamento por redesenho: «atualizações» que chegam como uma promessa de modernidade e acabam por eliminar funções básicas, acessibilidade ou comportamentos que o utilizador tinha interiorizado. Não se trata de um erro técnico, mas sim de uma decisão do produto: reduzir, simplificar para a empresa, reordenar para monetizar, pressionar o cliente ao limite. O caso típico é o de alguém que descobre que o dispositivo que comprou continua o mesmo, mas a experiência piorou porque o software, que antes respeitava uma lógica, agora responde a outra: o crescimento.
E depois há os padrões obscuros, aquela disciplina já profissionalizada de projetar interfaces para que o utilizador faça o que não faria se compreendesse totalmente a decisão. Inscreva-se em dois cliques, cancele em seis ecrãs; aceite tudo com um botão enorme, rejeite com um link cinza; preços apresentados de forma a fazer com que a opção mais cara pareça «sensata». Isso não é teoria da conspiração: as evidências estão facilmente disponíveis. As empresas fazem isso porque funciona, e se funciona, é porque o custo para a reputação é menor do que deveria ser.
Mas eis a verdadeira questão: além de moral, o dano é económico. A «enshitificação», um termo cunhado por Cory Doctorow, cria o que poderíamos chamar de prémio da suspeita. Cada vez que uma empresa transforma o que era padrão num extra ou dificulta o cancelamento de um serviço, ela instila desconfiança no consumidor. Sempre que uma plataforma decide que o seu ecrã inicial é um meio de publicidade, faz com que o utilizador suspeite do próximo dispositivo que comprar. O resultado é uma sociedade cada vez mais cínica na sua relação com o mundo digital e empresas que, paradoxalmente, acabam por gastar mais em marketing, reputação e retenção artificial para compensar o que destruíram.
Isso ultrapassa o consumo doméstico. A perda de confiança muda comportamentos: cada vez mais pessoas procuram versões «lite», bloqueadores, sistemas alternativos, compras únicas em vez de assinaturas, hardware menos «inteligente» ou simplesmente desistem. Isso significa que as empresas precisam criar planos de contingência, estratégias multimarcas, um retorno às soluções de código aberto ou contratos mais rígidos. Socialmente, isso amplia a desigualdade: aqueles que têm tempo, conhecimento ou recursos estão mais protegidos; aqueles que não têm pagam mais e têm mais dificuldade em negociar. É uma forma silenciosa de desigualdade digital.
O que fazer? Não basta simplesmente dizer às pessoas para serem mais seletivas, porque, na realidade, as nossas escolhas são, de facto, limitadas por monopólios, compatibilidades, dependências e custos de saída. A alavanca mais eficaz é a legislação que permita maior portabilidade, interoperabilidade, facilidade de cancelamento, proibição efetiva de padrões obscuros e, assim, crie as condições para uma concorrência real. Se mudar de fornecedor for fácil, as empresas perceberão imediatamente o custo de oferecer um serviço de pior qualidade. Se mudar de fornecedor for difícil, isso será recompensado.
Entretanto, pondere o seguinte: quando uma empresa diz que está a mudar algo em seu detrimento para «melhorar a experiência do cliente», geralmente quer dizer «melhorar a nossa margem de lucro». E quanto mais aceitarmos serviços e produtos de qualidade inferior, mais caro será reconstruir o que está a ser perdido: a confiança, a infraestrutura invisível da economia digital.
O ambientalista Serafim Riem, considerado um veterano da luta em defesa da natureza, morreu quarta‑feira no Porto, aos 72 anos, confirmou a direcção nacional da Íris — Associação Nacional de Ambiente, da qual fazia parte. Figura marcante do movimento associativo português, foi fundador e dirigente do Grupo Ecológico Terra Viva, esteve no Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem e co-fundou as associações Quercus e FAPAS. Mais informação aquie aqui.
Alfeu Sá Marques, antigo professor da Universidade de Coimbra e ex-presidente das Águas de Coimbra, defende a barragem de Girabolhos como peça-chave para mitigar cheias. Fonte.
O presidente libanês acusou o governo israelita de cometer «um crime contra o ambiente e a saúde» por alegadamente pulverizar o herbicida glifosato em terras agrícolas no Líbano e na Síria. Fonte.
Autoridades responsáveis pela vida selvagem na Flórida eliminaram mais de 5.000 iguanas não nativas no estado, depois que hordas desses répteis terem copngelado e caído das árvores durante a onda de frio desta semana. Fonte.
Uma avaria numa válvula de hidrante de combustível conectada a um oleoduto do sistema de combustível do aeroporto internacional Hartsfield-Jackson provocou a descarga de 5 mil litros de combustível no rio Flint. Refira-se que em 2022 o aeroporto foi multado em US$ 40.000 por um derrame semelhante de combustível no ano anterior. Fonte.
Eartha Kitt confronta Johnson num almoço na Casa Branca em 18 de janeiro de 1968.
Duas semanas depois, Johnson anunciou que não concorreria à reeleição devido à impopularidade da Guerra do Vietnã. [Fonte: reddit.com ]
Lyndon B. Johnson usou a CIA para perseguir a cantora Eartha Kitt depois de ela criticar a guerra do Vietname. Fonte.
Documentos obtidos pelo The Grayzoneatravés de pedidos de liberdade de informação fornece uma visão sem precedentes sobre o pouco conhecido conselho de censura militar e de inteligência da Grã-Bretanha. O conteúdo revela como o secreto Comitê Consultivo de Defesa e Segurança dos Media censura a produção dos jornalistas britânicos, ao mesmo tempo que classifica os media independentes como «extremistas» por publicar matérias «embaraçosas». O órgão impõe o que é conhecido como D-Notices, ordens de silêncio que suprimem sistematicamente as informações disponíveis ao público. Os documentos também mostram as intenções do Comitê de estender o sistema D-Notice às redes sociais, declarando o seu desejo de se envolver com os “gigantes da tecnologia” com o objetivo de suprimir a divulgação de denúncias em plataformas como Meta e Twitter/X.
Ricardo Araújo Pereira arrasa o mentiroso mor de Portugal. Video clip.
Colonos israelitas ilegais realizaram ataques coordenados em várias áreas da Cisjordânia ocupada, arrancando centenas de oliveiras, agredindo civis e pastores palestinianos e invadindo aldeias sob a proteção do exército israelita. Fonte.
Contamos a nós mesmos mentiras reconfortantes sobre o poder. Imaginamos que aqueles que ascendem ao comando de impérios, nações e vastas fortunas o fazem por mérito, por visão, por alguma aptidão darwiniana que o resto de nós não possui. Dizemos a nós mesmos que os sistemas que governam as nossas vidas — capitalismo, monarquia, colonialismo, igreja — são imperfeitos, mas melhoráveis, falhos, mas não podres na raiz.
Estamos errados. O nosso mundo é governado por uma cabala de pedófilos.
Isto não é hipérbole. Não se trata da teoria da conspiração Pizzagate ou QAnon. É a conclusão óbvia de décadas de escândalos expostos, redes expostas, encobrimentos expostos — expostos e depois ignorados, expostos e depois enterrados, expostos e depois esquecidos, enquanto os predadores permanecem no poder. A Igreja Católica. Os internatos britânicos. A ilha de Epstein. As plantações coloniais. Sempre o mesmo padrão: acesso a crianças, imunidade às consequências e um sistema que fecha fileiras. O sistema não falha na filtragem dos pedófilos. Seleciona-os. Foi sempre assim.
O modelo exposto
Consideremos o culto. Cada geração produz cultos, e cada geração expressa choque quando as revelações inevitáveis emergem. Rajneesh. NXIVM. Os Filhos de Deus. Jim Jones. O padrão nunca varia: autoridade carismática, totalitarismo ideológico, exploração sexual sistemática dos seguidores — particularmente menores de idade. Chamamos aberrações a isso. Dizemos a nós mesmos que as instituições tradicionais são diferentes. Elas não são diferentes. São simplesmente maiores.
A Igreja Católica pagou milhares de milhões em acordos a sobreviventes de abuso em todo o mundo. A escala desafia a compreensão: milhares de padres, dezenas (senão centenas) de milhares de vítimas, um aparato burocrático dedicado não à justiça, mas ao encobrimento. Só o relatório do grande júri da Pensilvânia documentou mais de 300 padres predadores e mais de 1000 crianças vítimas num único estado americano. Isto não foi uma aberração. Foi uma política — a sobrevivência institucional colocada acima dos corpos das crianças.
O Império Britânico administrava internatos destinados a «civilizar» crianças indígenas no Canadá, na Austrália e em outros lugares. Sepulturas sem identificação pontilham agora os terrenos dessas instituições. Os sobreviventes descrevem abusos físicos e sexuais sistemáticos. A Comissão Canadiana da Verdade e Reconciliação chamou isso de genocídio cultural. Mas era também outra coisa: uma vasta máquina que dava aos predadores acesso ilimitado a crianças privadas de família, comunidade e proteção.
Internatos: fábricas de abuso infantil onde colonizadores europeus violavam crianças indígenas com impunidade.
O colonialismo em si era uma carta branca para pedófilos. A escravidão significava posse de corpos — todos os corpos, incluindo os das crianças. A servidão doméstica colocava menores em lares onde não tinham recursos. As «mulheres de conforto» do imperialismo japonês. As noivas infantis de todos os exércitos conquistadores. Discutimos esses horrores na linguagem higienizada da injustiça histórica, mas a verdade é visceral e específica: homens poderosos violando crianças porque podiam. E isso continua ininterruptamente até hoje.
A realeza, a elite, os intocáveis
A Casa de Windsor chegou a um acordo extrajudicial com Virginia Giuffre, uma sobrevivente que alegou ter sido traficada para o príncipe Andrew quando era adolescente. O valor do acordo terá sido de doze milhões de libras. Sem admissão de culpa. Sem processo criminal. Para o palácio, o assunto está encerrado.
Mas é claro que Andrew não é um caso único. As monarquias funcionaram sempre assim. O «direito do senhor» pode ser um mito histórico, mas a realidade a que se referia não era: aqueles com poder absoluto serviram-se sempre dos corpos dos seus súbditos. As amantes reais das cortes europeias eram frequentemente pré-adolescentes. As crianças escravizadas nas casas aristocráticas não tinham qualquer personalidade jurídica.
Imaginamos que isto é história. Imaginamos que a modernidade reformou estas estruturas. Imaginamos mal.
Jeffrey Epstein e a máquina da impunidade
Jeffrey Epstein não agia sozinho. Ele geria uma rede — uma operação de aquisição e chantagem que servia os poderosos. A sua lista de clientes incluía financeiros, políticos, académicos e membros da realeza. A sua primeira prisão, na Flórida, resultou num acordo judicial tão brando que o promotor que o negociou acabou por integrar o Gabinete dos Estados Unidos. Epstein morreu sob custódia federal em circunstâncias que desafiam a credibilidade. As câmaras não funcionaram. Os guardas dormiam. O réu mais famoso da América, de alguma forma, enforcou-se sem ser observado.
Os arquivos divulgados nos últimos anos contêm declarações juramentadas que deveriam ter destruído carreiras políticas. Numa dessas declarações, uma testemunha usando o pseudónimo «Tiffany Doe» testemunhou sob pena de perjúrio que testemunhou pessoalmente o abuso de menores nas mãos de Epstein e Donald Trump durante o seu emprego de 1990 a 2000 — imagine a quantidade de horrores que aconteceram apenas nesses dez anos. Ela descreveu uma queixosa — uma criança — a ser ameaçada por Trump, que lhe disse que ela «desapareceria como a menina de 12 anos» se alguma vez falasse. Ela descreveu ameaças contra a sua própria vida por ter decidido falar.
Alto. Uma declaração juramentada. Sob pena de perjúrio. Descrevendo o homem que se tornaria presidente dos EUA a ameaçar uma criança de morte.
O processo foi retirado. A queixosa alegou receios pela sua segurança. Não houve julgamento. Os media seguiram em frente.
Imagine ter doze anos. Uma criança que brinca nos parques. Agora imagine um homem poderoso — um homem cujo rosto está em toda parte, cujo nome adorna edifícios — dizendo que poderia mandar matar a sua família. Imagine a impotência. Imagine carregar isso durante décadas enquanto o mundo faz desse homem o seu líder. Isto não é teoria da conspiração. É um testemunho sob juramento que os nossos sistemas decidiram não levar adiante.
Os arquivos mais recentes de Epstein revelam uma depravação que até mesmo os filmes de terror de Hollywood evitam. Rituais de sacrifício infantil. Abortos forçados. O consumo de carne humana de vítimas assassinadas. Donald Trump teria penetrado os órgãos genitais de crianças de doze anos para testar como eram «apertados», enquanto amigos bilionários riam ao fundo. A conspiração de pedófilos poderosos quase leva alguém a tornar-se religioso — parece que estamos a enfrentar a batalha milenar profetizada entre o bem e o mal. Entre nós e uma horda demoníaca disfarçada de «mundo livre». O maior truque que o diabo já fez foi convencer o mundo de que ele não existia.
Os Países Baixos e todos os outros lugares
Cada nação tem a sua versão. Nos Países Baixos, Joris Demmink, um ex-alto funcionário do Ministério da Justiça, enfrentou anos de acusações relacionadas com abuso sexual infantil. Apresentaram-se testemunhas. As investigações fracassaram. Os processos judiciais fracassaram. O primeiro-ministro defendeu-o publicamente. O caso, oficialmente, está encerrado.
Demmink não é um caso único nos Países Baixos. Ele é o exemplo local dos Países Baixos de um fenómeno global: o predador intocável protegido pelos próprios sistemas destinados a fazer justiça.
A Bélgica teve o caso Dutroux, que expôs redes que chegavam à polícia e ao governo. A Grã-Bretanha teve Jimmy Savile, que abusou de quase mil crianças durante décadas enquanto a BBC fazia vista grossa — ah, e surpresa, surpresa, a rainha Elizabeth gostava muito dele. Portugal teve a Casa Pia. Os padrões repetem-se infinitamente.
Alguns de vocês devem lembrar-se da modelo infantil Gabriela Rico Jiménez gritando que tinha testemunhado elites «a comer seres humanos». Em 2009, a jovem modelo de Chihuahua participou numa festa de alto nível em Monterrey — supostamente ligada à agência Elite Model. Não era uma festa qualquer; dizia-se que nela estavam presentes empresários poderosos, políticos e figuras do crime organizado.
O que ela viu lá destruiu-a. Jiménez foi encontrada fora de um hotel em estado de histeria, gritando sobre canibalismo e citando nomes de pessoas poderosas. Ela foi rapidamente levada pelas autoridades. O seu caso continua sem solução. Continua desaparecida — silenciada ou destruída pelo que testemunhou.
As alegações sobre elites canibais que violavam crianças podem ter parecido loucura na época. Mas, na era pós-Epstein, muitos de nós percebemos que a descartámos com demasiada facilidade.
A lógica exposta
Recentemente, alguém resumiu isso de forma simples: “O imperialismo é a lógica do pedófilo”. A afirmação é chocante. E é para ser assim. Somos treinados para discutir o imperialismo em grandes abstrações — geopolítica, economia, ascensão e queda de civilizações. Mas, se retirarmos a linguagem académica, o que resta é isto: o imperialismo é o projeto de tirar o que se quer daqueles que não podem impedir. É a lógica da predação, em grande escala. E a predação definitiva — a expressão final do poder absoluto sobre a impotência absoluta — é a violação de uma criança.
Na verdade, o imperialismo — despojado da sua grandeza histórica — é simplesmente a fome pelo poder de violar crianças com impunidade.
Isto não é uma metáfora. É um mecanismo. O poder centralizado e sem prestação de contas atrai aqueles que desejam explorar sem consequências. Ele eleva-os porque as características que permitem a exploração — crueldade, manipulação, ausência de empatia — são precisamente as características que facilitam a ascensão em hierarquias construídas sobre a dominação. Mais uma vez, o sistema não apenas falha em filtrar os predadores, ele seleciona-os.
O pedófilo busca acesso e impunidade. O império, a igreja e o capital fornecem ambos. O proprietário da plantação tinha acesso a crianças escravizadas e total impunidade. O padre tinha acesso a meninos do coro e à proteção do Vaticano. O bilionário tem ilhas particulares, jatos particulares e promotores que retornam as suas chamadas.
Por que nada muda
Uma verdade amarga circula entre aqueles que estudam esses padrões: no capitalismo, os capitalistas não são punidos. O sistema não se reformará porque está a funcionar como foi concebido. Ele concentra o poder. Ele isola esse poder da responsabilidade. Ele proporciona aos que estão no topo o que sempre buscaram: a liberdade de tomar o que querem.
Epstein não é uma aberração. Ele é um vislumbre por trás da cortina — um momento raro em que a maquinaria se tornou brevemente visível antes de a cortina fechar. A sua morte garantiu que a cortina permanecesse fechada.
Os arquivos serão divulgados, analisados, discutidos. Artigos de opinião serão escritos. E nada acontecerá aos homens poderosos cujos nomes aparecem nesses arquivos. Nada acontece.
O que seria necessário para mudar isso?
Para acabar com isso, seria necessário desmantelar as próprias estruturas que permitem que isso aconteça. Não uma reforma. Não comissões de supervisão. Não forças-tarefa. Desmantelamento.
Seria necessário acabar com a concentração de riqueza que coloca os indivíduos fora do alcance da lei. Seria necessário destruir as instituições que priorizam a sua própria sobrevivência em detrimento das crianças. Seria necessário um mundo em que ninguém — nem presidente, nem príncipe, nem papa — fosse intocável.
Seria necessário pararmos de contar mentiras reconfortantes a nós mesmos.
A questão é se temos estômago para essa verdade. Se conseguimos olhar para os impérios que herdámos, os sistemas em que participamos, os líderes que elegemos, e vê-los como realmente são: estruturas construídas por predadores, para predadores, mantidas pela nossa recusa coletiva em ver.
As crianças que foram ameaçadas, violadas e silenciadas não podiam recusar-se a ver. Elas viveram isso. Muitas ainda vivem. O mínimo que lhes devemos é a coragem de denunciar o que aconteceu. E o que continua a acontecer.
O imperialismo não é uma grande estratégia. Não é o destino da civilização. É a lógica de um pedófilo, vestida com bandeiras.
O concelho de Loulé, que detém até à data 30% das áreas protegidas locais da Rede Nacional de Áreas Protegidas, vê agora duas novas áreas protegidas de âmbito local serem reconhecidas com a publicação oficial da Reserva Natural Local da Nave do Barão e do Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro, em Diário da República. Fonte.
“D. Marcelo, presidente vitalício da Fundação Casa de Bragança, com mandato suspenso por mais 35 dias, com o país de rastos e milhares de portugueses sem telhado, água ou luz, foi a Roma ajoelhar-se e implorar bênçãos ao Papa Leão XIV. (…) foi, pela sexta vez, ao beija-mão do Pontífice. (…) O que o PR não pode fazer é lamber a mão do Papa, inclinar-se subserviente, deixar-se fotografar num ato humilhante para a República laica, que representa, e portar-se como se a CRP, que jurou, permitisse o aviltamento do seu guardião. Portugal não é protetorado do Vaticano e o PR sacristão. Ao bajular o Papa não cumpriu uma visita de Estado, levou a cabo uma promessa pia e denegriu a imagem do País. (…) O respeito que devia merecer como PR esbanjou-o em vergonhosas exibições pias, no seu incoercível proselitismo, na incapacidade de distinguir as funções de Estado das suas convicções religiosas. (…)” Carlos Esperança, Marcelo foi ontem ao Vaticano.
O Ministério Público apanhou um comprometedor “esquecimento” de Gouveia e Melo em plena audiência do julgamento em quo de 2021, cerca de quatro mil médicos não prioritários foram vacinados em hospitais militares a troco de 27 mil euros. Gouveia e Melo afirmou em tribunal que só teve conhecimento do uso dos hospitais militares após a vacinação, mas o procurador do MP mostrou e-mails que comprovam que coordenou o processo com o actual deputado do PSD, Miguel Guimarães. Fonte.
Portugal, visto de cima, é um pequeno pedaço de terra onde se torna difícil marcar distâncias. As conversas bairristas são ligeiramente irritantes e até ridículas. Mostram alguma falta de mundo, se me permitem. Tiago Franco, Lá longe, a 140 km, a profundidade da estupidez.
“Quando um exército é chamado a intervir em apoio às populações, não basta colocar fardas no terreno. É preciso comando, planeamento, meios técnicos e uma clara definição de tarefas. Sem isso, o que se obtém não é ajuda eficaz, mas desgaste inútil - físico e moral - de quem obedece ordens mal pensadas. Como ex-combatente, senti vergonha. Vergonha ao observar este espetáculo de improviso, 51 anos após o 25 de Abril e depois de quatro anos da minha vida como miliciano na guerra colonial. Não pelo esforço dos soldados - esses fizeram o que lhes mandaram - mas pelo retrato que ficou de uma instituição que deveria ser sinónimo de organização, disciplina e capacidade operacional. Um exército sem organização não é apenas ineficiente. É um exército sem razão. E quando assim é, não falha apenas a missão: falha o Estado que o comanda.” João Gomes.
As tarifas não ajudaram: 72 000 empregos na indústria transformadora — e a contagem continua — eliminados desde o Dia da Libertação de Trump. «Há muito poucos produtos no nosso portfólio que tenham beneficiado das tarifas», afirmou o CEO de uma empresa de produtos siderúrgicos sediada na Carolina do Norte. Fonte.
A oligarquia dos media digitais: quem é o dono das notícias online? Caitlin Scialla, Sheerpost.
Quando o ChatGPT surgiu, grande parte da academia reagiu não com curiosidade, mas com medo. Não medo do que a inteligência artificial poderia permitir que os alunos aprendessem, mas medo de perder o controlo sobre como o aprendizado era tradicionalmente supervisionado. Quase imediatamente, os professores declararam a IA generativa como «veneno», alertaram que ela destruiria o pensamento crítico e exigiram proibições total em todas as faculdades (…) Outros apressaram-se em reviver os exames orais e as avaliações manuscritas, como se voltar no tempo pudesse fazer o problema desaparecer. Isso nunca foi realmente sobre pedagogia. Era sobre autoridade.
A narrativa da integridade mascara um problema de controlo
A resposta tem sido tão caótica que os investigadores já documentaram a confusão resultante: políticas contraditórias, diretrizes vagas e mecanismos de aplicação que até mesmo os professores têm dificuldade em compreender (...)
As universidades falam incessantemente sobre integridade académica, enquanto admitem discretamente que não têm uma definição comum do que significa integridade num mundo aumentado pela IA. Enquanto isso, tudo o que realmente importa para a aprendizagem, desde a motivação até a autonomia, o ritmo, a capacidade de tentar ou falhar sem humilhação pública, mal entra na conversa.
Em vez de perguntar como a IA poderia melhorar a educação, as instituições têm-se obcecado em como preservar a vigilância.
As evidências apontam na direção oposta.
No entanto, as evidências apontam numa direção muito diferente. Os sistemas de tutoria inteligente já são capazes de adaptar conteúdos, gerar exercícios contextualizados e fornecer feedback imediato de maneiras que salas de aula grandes não conseguem, conforme resumido em pesquisas educacionais recentes. Essa desconexão revela algo desconfortável.
A IA não ameaça a essência da educação: ela ameaça a burocracia construída à sua volta. Os próprios alunos não estão a rejeitar a IA: estudos mostram consistentemente que eles veem o uso responsável da IA como uma capacidade profissional essencial e querem orientação, não punição, para usá-la bem. A desconexão é gritante: os alunos estão avançando, enquanto as instituições académicas estão-se entrincheirando.
Como é, na prática, uma abordagem «all-in»
Há mais de 35 anos que leciono na IE University, uma instituição que sempre assumiu uma postura contrária. Muito antes de a IA generativa entrar no debate público, a IE já experimentava a educação online, modelos híbridos e aprendizagem aprimorada pela tecnologia. Quando o ChatGPT chegou, a universidade não entrou em pânico. Em vez disso, publicou uma Declaração Institucional sobre Inteligência Artificial muito clara, enquadrando a IA como uma mudança tecnológica histórica, comparável ao motor a vapor ou à internet, e comprometendo-se a integrá-la de forma ética e intencional no ensino, na aprendizagem e na avaliação.
Essa posição "all-in" não tinha a ver com novidade ou branding. Baseava-se numa ideia simples: a tecnologia deve adaptar-se ao aluno, e não o contrário. A IA deve ampliar o ensino humano, não substituí-lo. Os alunos devem poder aprender ao seu próprio ritmo, receber feedback sem julgamentos constantes e experimentar sem medo. Os dados devem pertencer ao aluno, não à instituição. E os educadores devem dedicar menos tempo a fiscalizar os resultados e mais tempo a fazer o que só os humanos podem fazer: orientar, inspirar, contextualizar e exercer o julgamento. A decisão da IE de integrar as ferramentas da OpenAI em todo o seu ecossistema académico reflete essa filosofia na prática.
A uniformidade nunca foi rigor
Esta abordagem contrasta fortemente com as universidades que tratam a IA principalmente como um problema de fraude. Essas instituições defendem um modelo baseado na uniformidade, ansiedade, memorização e avaliação, em vez da compreensão. A IA expõe os limites desse modelo precisamente porque torna possível um modelo melhor: aprendizagem adaptativa e centrada no aluno em grande escala, uma ideia apoiada por décadas de investigação educacional.
Mas abraçar essa possibilidade é difícil. É preciso abandonar a ficção reconfortante de que ensinar o mesmo conteúdo a todos, ao mesmo tempo, avaliado pelos mesmos exames, é o ápice do rigor. A IA revela que esse sistema nunca teve a ver com eficiência de aprendizagem, mas sim com conveniência administrativa. Não é rigor... é rigor mortis.
As Escolas Alpha e a ilusão da disrupção
É claro que há experiências que afirmam apontar para o futuro. As Escolas Alpha, uma pequena rede de escolas privadas com foco em IA nos EUA, chamaram a atenção por reestruturar radicalmente o dia letivo em torno de tutores de IA. A proposta é atraente: os alunos concluem as disciplinas básicas em poucas horas com o apoio da IA, liberando o resto do dia para projetos, colaboração e desenvolvimento social.
Mas as Escolas Alpha também ilustram como é fácil errar na aplicação da IA na educação: o que elas implementam hoje não é um ecossistema de aprendizagem sofisticado, mas uma fina camada de conteúdo impulsionado por IA otimizado para velocidade e desempenho em testes. O modelo de IA, simplista e fraco, prioriza a aceleração em detrimento da compreensão, a eficiência em detrimento da profundidade. Os alunos podem avançar mais rapidamente através do material padronizado, mas fazem-no ao longo de percursos rígidos e predefinidos, com ciclos de feedback simplistas. O resultado parece menos uma aprendizagem aumentada e mais uma automatização disfarçada de inovação.
Quando a IA se torna um tapeterolante
Este é o principal risco enfrentado pela IA na educação: confundir personalização com otimização, autonomia com isolamento e inovação com automação. Quando a IA é tratada como um tapete rolante em vez de uma companheira, ela reproduz as mesmas falhas estruturais dos sistemas tradicionais, só que de forma mais rápida e barata.
A limitação aqui não é tecnológica: é conceitual.
A verdadeira educação impulsionada pela IA não consiste em substituir professores por chatbots ou comprimir currículos em intervalos de tempo mais curtos. Consiste em criar ambientes onde os alunos possam planear, gerir e refletir sobre processos de aprendizagem complexos; onde o esforço e a consistência se tornem visíveis; onde os erros sejam seguros; e onde o feedback seja constante, mas respeitoso. A IA deve apoiar a experimentação, não impor a conformidade.
A verdadeira ameaça não é a IA
É por isso que a reação contra a IA nas universidades é tão equivocada. Ao concentrarem-se na proibição, as instituições perdem a oportunidade de redefinir a aprendizagem em torno do crescimento humano, em vez do controlo institucional. Elas agarram-se aos exames porque são fáceis de administrar, não porque são eficazes. Temem a IA porque ela torna óbvio o que os estudantes sabem há muito tempo: que grande parte do ensino superior mede os resultados, negligenciando a compreensão.
As universidades que prosperarão não são aquelas que proíbem ferramentas ou ressuscitam rituais de avaliação do século XIX. Serão aquelas que tratam a IA como infraestrutura educacional essencial — algo a ser moldado, governado e aprimorado, não temido. Elas reconhecerão que o objetivo não é automatizar o ensino, mas reduzir a desigualdade educacional, expandir o acesso ao conhecimento e libertar tempo e atenção para os aspetos profundamente humanos da aprendizagem.
A IA não ameaça a educação: ela ameaça os sistemas que se esqueceram para quem é a educação.
Se as universidades continuarem a responder defensivamente, não será porque a IA as substituiu. Será porque, quando confrontadas com a primeira tecnologia capaz de permitir uma aprendizagem genuinamente centrada no aluno em grande escala, elas optaram por proteger os seus rituais em vez dos seus alunos.