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domingo, 3 de maio de 2026

ANADIA REJEITA PROSPEÇÃO E EXTRAÇÃO DE INERTES

  • A Assembleia Municipal de Anadia aprovou, por unanimidade uma moção de rejeição ao pedido da empresa Simões Sá Pereira, S.A. para a prospeção e extração de inertes na zona de “Barro do Moleiro”, nas freguesias de Avelãs de Cima, Moita e a União de Freguesias de Arcos e Mogofores. Fonte.
  • A polícia financeira italiana (Guardia di Finanza) está a investigar sete filiais italianas de um grupo alemão de energias renováveis, cujo nome não foi revelado, por um montante total de 93 milhões de euros em alegadas fraudes e evasão fiscal. As empresas transferiram as suas sedes sociais para o Trentino apenas no papel, a fim de beneficiarem de um imposto regional sobre as atividades económicas mais baixo, enquanto as suas operações reais e o seu pessoal permaneceram nas Marcas e na Sicília. Isto terá permitido evitar o pagamento de mais de 2 milhões de euros em impostos regionais. Terão, alegadamente, utilizado taxas de juro inflacionadas nos empréstimos intragrupo para transferir quase 3 milhões de euros de lucros para uma jurisdição com tributação mais baixa, violando as regras de preços de transferência. Fonte.

BICO CALADO

  • "O senhor Döpfner é o CEO do grupo de imprensa com mais audiência em toda a União Europeia e um dos cinco homens mais poderosos da Comunicação Social na Europa e na Alemanha (Telegraph, Politico, Bild, Welt etc., etc., etc.), está nos conselhos de administração de grandes empresas como a Warner, Netflix, Insider etc., manda na televisão Welt (da qual me demiti, enquanto correspondente, por causa do branqueamento que faz dos crimes de guerra e do genocídio na Palestina). Agora, este senhor foi muito claro: ou os jornalistas em todas as empresas do grupo (televisões, portais, jornais e dezenas de revistas em 40 países) alinham com a política do governo israelita e apoiam Israel ou o CEO convida-os a demitirem-se. Fico à espera que o sr. Döpfner me agradeça por ter tomado a iniciativa de bater com a porta um ano e meio antes desta ameaça nada subtil (a carta aberta de demissão com o título "O jornalismo não pode ser cúmplice de genocídio" para a Welt e enviada jornalistas de outros jornais alemães - alguns deles colegas que conheço pessoalmente - não foi publicada em lado algum, vá se lá saber porquê)." Miguel Szymanski, Os jornalistas ou alinham ou vão para a rua.
  • Os EUA caem para a pior classificação de sempre no Índice de Liberdade de Imprensa, enquanto Trump «joga achas para a fogueira». O desprezo manifesto da administração Trump pela liberdade de imprensa levou os EUA à sua pior classificação de sempre no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa da organização «Repórteres Sem Fronteiras» (RSF), que classifica os países com base em vários indicadores, incluindo proteções legais para jornalistas, segurança dos repórteres e hostilidade política geral em relação à imprensa. Os EUA ficaram em 64.º lugar entre 180 países na última versão do índice, descendo sete posições em relação ao ano passado. Fonte.
  • PSD decide repetir eleições na concelhia de Espinho que deram vitória a candidato afastado por Luís Montenegro. Fonte.
  • Freira católica brutalmente atacada por colono Israelita em Jerusalém. Video.
  • O filho de dois proeminentes diplomatas noruegueses que estão a ser investigados devido à sua relação com Jeffrey Epstein suicidou-se, segundo o Times of London. Edward Juul Rød-Larsen, de 25 anos, foi encontrado morto em Oslo três dias depois de as polícias francesa e norueguesa terem aberto uma investigação conjunta sobre os seus pais, Mona Juul e Terje Rød-Larsen. Os dois diplomatas desempenharam um papel decisivo na mediação dos acordos de Oslo de 1993 entre Israel e a OLP. Enfrentam agora acusações de corrupção, depois de se ter revelado que Epstein os tinha ajudado a comprar um apartamento de luxo e deixado 5 milhões de dólares a cada um dos seus dois filhos no seu testamento. O seu filho, Edward, era frequentemente mencionado nas reportagens da imprensa norueguesa, que muitas vezes referiam que os pais o levavam à ilha privada de Epstein nas Caraíbas quando ele ainda era criança. Fonte.
  • O líder do Reform UK, Nigel Farage, afirmou que «o X está a tornar-se um lugar muito desagradável e muito perigoso», apesar de os seus deputados terem auferido mais de 55 000 libras através da plataforma desde as eleições gerais de julho de 2024. O próprio Farage ganhou mais de 22 700 libras através da plataforma — propriedade do empresário tecnológico de extrema-direita Elon Musk — desde que se tornou deputado por Clacton. Fonte.

sábado, 2 de maio de 2026

TUVALU E IRLANDA ACOLHEM A SEGUNDA CONFERÊNCIA SOBRE A TRANSIÇÃO PARA LONGE DOS COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS EM 2027

  • Cerca de 55 países reuniram-se na Colômbia na semana passada, num esforço para estabelecer uma cooperação internacional com vista à eliminação gradual dos combustíveis fósseis e à contenção da crise climática. Cerca de 18 países, todos do Sul Global, já participam na Iniciativa do Tratado sobre Combustíveis Fósseis. Tuvalu e a Irlanda irão coorganizar a segunda conferência no próximo ano. Fonte.
  • 42 pessoas morrem em confrontos por causa da água no Chade. Fonte.

BICO CALADO

  • “(…) quantos de nós, 140 anos depois do massacre de Chicago, temem perder o direito a um horário de trabalho regulado? Quantos trabalham oito horas por dia? Quantos têm oito horas de descanso? Quantos têm oito horas de vida própria? E quantos esperam para protestar contra o pacote laboral deste Governo? Mais 140 anos?” Pedro Tadeu, O que é o 1.º de Maio?DN 1mai2026.
  • Uma fuga de gravações sugere que Trump e Netanyahu planeiam construir uma nova base militar e prestar apoio jurídico a empresas de IA nas Honduras, através do ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, recentemente libertado. Áudios semelhantes, que fazem parte de uma fuga de informação para o Hondurasgate e o Canal Red, parecem revelar planos para uma campanha mediática contra os governos mexicano e colombiano.
  • Criador do "Football Leaks" Rui Pinto absolvido. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

ÁGUA, ENERGIA E GEOPOLÍTICA: AS AMBIÇÕES SIONISTAS ISRAELITAS E A HIDROPOLÍTICA DO SUL DO LÍBANO
Dr Marwa Osman, UK Column. Trad. O’Lima.


Os rios do Líbano são mais do que veias de vida; estão no cerne de uma luta de longa data moldada por ambições externas. Do Litani ao Wazzani, os esforços da entidade israelita para dominar os recursos hídricos regionais revelam uma realidade mais profunda: o controlo sobre a água do sul do Líbano tem sido perseguido como uma questão de poder, e não de necessidade.

A água há muito que molda a política do Médio Oriente, mas no Líbano está a tornar-se algo mais: uma linha de falha de poder, pressão e interesse externo persistente. No sul do país, onde rios como o Litani, o Hasbani e o Wazzani atravessam terras férteis e fronteiras disputadas, a água doce não é apenas um recurso; é um ativo estratégico cada vez mais enredado em rivalidades regionais.

Durante décadas, os esforços de Israel para garantir o domínio da água estenderam-se para além das suas fronteiras, cruzando-se repetidamente com os sistemas hídricos mais vitais do Líbano. Desde tentativas de chegar ao Litani até tensões sobre o caudal do Wazzani, estas medidas refletem mais do que uma necessidade de curto prazo; apontam para uma estratégia mais profunda e de longa data, enraizada no controlo do mapa hidrológico da região.

Este artigo explora como a relativa abundância de água do Líbano o colocou no centro de uma luta silenciosa, mas consequente, onde a geografia, a política e a segurança dos recursos convergem, e onde os rios se tornaram instrumentos de influência tanto quanto fontes de vida.

A importância hidropolítica dos recursos hídricos libaneses

O Líbano ocupa uma posição singularmente sensível no panorama hidropolítico do Médio Oriente. Ao contrário de muitos dos seus vizinhos regionais, que sofrem de escassez aguda de água, o Líbano possui recursos de água doce comparativamente abundantes. Esta relativa abundância, no entanto, não é apenas uma bênção natural; é também um risco geopolítico. Numa região onde a água é cada vez mais objeto de disputas de segurança, os rios e aquíferos do Líbano tornaram-se parte integrante de dinâmicas de poder regionais mais amplas, particularmente no que diz respeito às preocupações de longa data de Israel em relação à água.

O sistema hidrológico do Líbano é definido por uma combinação de recursos hídricos superficiais e subterrâneos. O país possui aproximadamente 17 rios perenes, além de inúmeros riachos sazonais e importantes aquíferos subterrâneos. Entre estes, o rio Litani destaca-se como o curso de água interno mais significativo, estendendo-se por aproximadamente 170 quilómetros totalmente dentro do território libanês. A sua bacia sustenta uma extensa atividade agrícola no Vale da Bekaa e no sul do Líbano, contribuindo simultaneamente para a produção hidroelétrica através de instalações como a Barragem de Qaraoun. Esta localização interna torna o Litani particularmente valioso, uma vez que é um dos poucos rios importantes da região que não é partilhado através de fronteiras internacionais.

No entanto, a importância hidrológica do Líbano vai além do rio Litani. O sul do Líbano abriga os rios Hasbani e Wazzani, ambos fazendo parte da bacia superior do rio Jordão. Ao contrário do Litani, estes rios são de natureza transfronteiriça, ligando hidrologicamente o Líbano à Síria, à Jordânia e à Palestina ocupada. Esta interligação aumenta a sua importância estratégica, uma vez que qualquer alteração no seu caudal tem implicações para o equilíbrio hídrico regional mais alargado. Os sistemas hídricos transfronteiriços no Médio Oriente são frequentemente palco de relações de poder assimétricas, onde os intervenientes a montante e a jusante competem não só pelos recursos, mas também pela influência política.

O rio Wazzani, um curso de água modesto mas estrategicamente significativo no sul do Líbano, atravessa o distrito de Marjayoun, na província de Nabatieh, uma área onde a geografia e a geopolítica se cruzam com uma intensidade invulgar. Apesar da sua dimensão relativamente pequena, o rio deve a sua importância considerável à sua nascente, a Fonte Wazzani, que constitui a única contribuição perene e estável para o rio Hasbani. Em termos hidrológicos, esta nascente é responsável por aproximadamente um quinto do caudal total do Hasbani, tornando-a um elemento vital na Bacia do Rio Jordão em geral.

O rio Hasbani em Wazzani, no sul do Líbano. Foto: Andrew Parsons

O que distingue o rio Wazzani não é apenas a sua contribuição hidrológica, mas também a sua localização geopolítica. Ao longo de um trecho de cerca de quatro quilómetros, o rio delimita uma sensível zona fronteiriça entre o território libanês e os Montes Golã sírios, ocupados pelos sionistas israelitas, particularmente em torno da aldeia de Ghajar. Esta dupla função, tanto como fonte vital de água como marcador de fronteira de facto, coloca o rio no centro das tensões regionais, onde questões de soberania, alocação de recursos e segurança convergem devido às constantes agressões sionistas contra o Líbano.

Entretanto, o rio Hasbani tem origem nas encostas noroeste do Jabal al-Sheikh, descendo pelo sul do Líbano como um dos principais recursos que alimentam a bacia superior do rio Jordão. Correndo por aproximadamente 24 a 40 quilómetros dentro do território libanês, representa um curso de água transfronteiriço crítico cuja importância se estende muito além da sua modesta dimensão geográfica. Do ponto de vista hidrológico, o Hasbani integra as contribuições de várias nascentes, com destaque para a Wazzani, formando um caudal constante que desempenha um papel vital na sustentabilidade dos sistemas a jusante. A sua localização na intersecção das redes hidrológicas libanesa, síria e palestiniana situa-o firmemente numa das bacias hidrográficas politicamente mais sensíveis do Médio Oriente.

Recursos hídricos superficiais partilhados do Líbano. Imagem: Fanack Water

Este posicionamento estratégico tornou o rio Hasbani um ponto focal recorrente de tensão geopolítica, particularmente no que diz respeito à distribuição e ao controlo da água. Os conflitos em torno dos seus afluentes, especialmente a nascente do Wazzani, intensificaram-se no início dos anos 2000, na sequência de múltiplas agressões sionistas, quando os esforços libaneses para utilizar essas águas suscitaram fortes objeções por parte de Israel e uma postura militar em relação aos direitos de captação. No entanto, para além da sua dimensão política, o rio reveste-se também de importância ecológica.

A relativa abundância de água no Líbano deve também ser entendida em contraste com o défice estrutural de água da entidade israelita. Historicamente, a entidade israelita alega ter enfrentado desafios significativos na garantia de recursos de água doce suficientes para satisfazer as necessidades domésticas, agrícolas e industriais. Embora os avanços na dessalinização e na reciclagem de águas residuais tenham mitigado algumas dessas pressões, as fontes naturais de água doce continuam a ser uma componente crítica da sua estratégia de segurança hídrica a longo prazo. Este desequilíbrio estrutural ajuda a explicar a ganância persistente que, de outra forma, pode ser explicada pelo Israel sionista como um «interesse estratégico» nos recursos hídricos vizinhos, incluindo os do Líbano.

De uma perspetiva hidropolítica, a água no Líbano não é apenas um recurso; é um ativo estratégico integrado nos cálculos de segurança regional. O conceito de «hidropolítica» refere-se às formas como os recursos hídricos influenciam as relações de poder, a dinâmica dos conflitos e a cooperação entre Estados. No caso libanês, a hidropolítica é moldada por fatores tanto internos como externos. Internamente, questões como deficiências de infraestruturas, má gestão e variabilidade sazonal afetam a utilização eficiente dos recursos hídricos. Externamente, as pressões geopolíticas, particularmente a agressão constante por parte de Israel, introduzem uma camada adicional de complexidade.

Uma das características marcantes do perfil hídrico do Líbano é o paradoxo da abundância e da ineficiência. Apesar dos níveis relativamente elevados de precipitação em comparação com as médias regionais, o Líbano enfrenta desafios na gestão da água, incluindo fugas, poluição e capacidade de armazenamento inadequada. De acordo com o Ministério da Energia e da Água, uma parte significativa da água do Líbano é perdida devido a infraestruturas obsoletas e investimento insuficiente. Esta ineficiência tem implicações geopolíticas importantes, uma vez que alimenta narrativas que retratam o Líbano como incapaz de gerir eficazmente os seus próprios recursos; narrativas que, por vezes, têm sido utilizadas para justificar interesses ou intervenções externas.

Ao mesmo tempo, a distribuição geográfica dos recursos hídricos no Líbano complica ainda mais o panorama. As regiões do sul, que são as mais ricas em águas superficiais, são também as mais expostas a tensões geopolíticas devido à sua proximidade com a entidade israelita. Rios como o Wazzani e o Hasbani não são apenas hidrologicamente significativos, mas também estrategicamente vulneráveis, devido à sua localização ao longo de fronteiras disputadas ou sensíveis. As fronteiras tornam-nos vulneráveis à pressão política e militar, especialmente durante períodos de guerras sionistas constantes no sul do Líbano.

As alterações climáticas introduzem mais uma dimensão no panorama hidropolítico do Líbano. A alteração dos padrões de precipitação, o aumento das temperaturas e o prolongamento dos períodos de seca ameaçam agravar as vulnerabilidades existentes. Estudos sugerem que a variabilidade climática poderá reduzir a disponibilidade de água na região em margens significativas nas próximas décadas, intensificando assim a competição pelos recursos existentes. Num cenário deste tipo, é provável que o valor estratégico de rios como o Litani e o Wazzani aumente, integrando-os ainda mais na dinâmica dos conflitos regionais.

Neste contexto, os recursos hídricos do Líbano não podem ser entendidos isoladamente das dinâmicas regionais mais amplas. Fazem parte de um sistema complexo onde a geografia, a política e a segurança se cruzam. O rio Litani, embora o seu curso seja inteiramente libanês, há muito que é visto como um potencial trunfo no pensamento estratégico da entidade sionista israelita. Entretanto, rios transfronteiriços como o Wazzani estão diretamente implicados em disputas em curso sobre os recursos hídricos partilhados.

Em última análise, a importância hidropolítica da água libanesa reside não só na sua quantidade, mas também na sua posição num ambiente regional contestado. A água, neste sentido, funciona tanto como um recurso como uma alavanca de poder. Para o Líbano, esta dupla natureza representa um desafio profundo: como gerir e proteger os seus recursos hídricos de forma a garantir o desenvolvimento nacional, ao mesmo tempo que se lida com as pressões de um contexto regional altamente securitizado, no meio de constantes agressões por parte da entidade israelita.

Fundamentos históricos e ideológicos das ambições hídricas da entidade israelita

A questão da água está profundamente enraizada nos fundamentos ideológicos e estratégicos do projeto sionista desde as suas primeiras formulações. Longe de ser uma preocupação secundária ou técnica, o acesso aos recursos de água doce foi concebido como um pré-requisito para a viabilidade do Estado, a sustentabilidade económica e a expansão demográfica. Neste contexto, os recursos hídricos do sul do Líbano, nomeadamente o rio Litani, não eram considerados periféricos, mas sim parte integrante do planeamento estratégico a longo prazo.

O discurso sionista inicial revela uma clara consciência das limitações hidrológicas do território da Palestina ocupada. A Palestina histórica, particularmente as suas regiões sul e central, sofre de uma distribuição desigual da precipitação e de fontes de água perenes limitadas. Esta realidade moldou as aspirações territoriais iniciais. Os líderes sionistas têm sublinhado consistentemente a necessidade de garantir um abastecimento de água fiável, defendendo frequentemente fronteiras que se estendessem para além de considerações puramente demográficas ou históricas, de modo a incluir recursos naturais críticos, como se isso fosse algo normal ou mesmo legal que os Estados costumam fazer.

Um dos exemplos mais antigos e mais frequentemente citados é a correspondência de Chaim Weizmann com autoridades britânicas durante o período que antecedeu a criação da entidade israelita. Weizmann defendia explicitamente a inclusão do rio Litani dentro das fronteiras do proposto «Estado judeu» em terras palestinianas roubadas, destacando a sua importância para a irrigação e a produção de energia. Embora estas exigências não tenham sido atendidas nos acordos oficiais de partilha, elas ilustram, no entanto, a centralidade dos recursos hídricos libaneses no pensamento estratégico colonial inicial.

O rio Litani, em particular, ocupava um lugar de destaque nessas visões iniciais. Ao contrário de outros rios da região, o Litani corre inteiramente dentro do território libanês antes de desaguar no mar Mediterrâneo. Isto torna-o tanto um recurso soberano único para o Líbano como, de uma perspetiva externa, uma fonte potencialmente «inexplorada» de água doce. O Litani tem sido há muito considerado pelos estrategas da entidade israelita como uma extensão natural da bacia do rio Jordão, apesar da ausência de qualquer ligação hidrológica direta.

Mapa do rio Litani no Líbano. Adaptado de um gráfico de 2025 da Agência Anadolu

A transição da aspiração ideológica para o planeamento estratégico tornou-se mais acentuada durante as décadas de 1940 e 1950. Durante este período, foram desenvolvidos vários estudos técnicos e propostas para explorar a possibilidade de desviar as águas do rio Litani para sul, em direção à bacia do rio Jordão. Estas propostas não eram meramente teóricas; baseavam-se em avaliações de engenharia detalhadas que procuravam avaliar a viabilidade de projetos de transferência de água em grande escala. Tais propostas refletiam um padrão mais amplo em que a infraestrutura hídrica era utilizada como ferramenta de construção do Estado e consolidação territorial.

Após a criação da entidade israelita em 1948 em terras palestinianas roubadas, a água rapidamente emergiu como um eixo central de tensão regional. As décadas de 1950 e 1960 testemunharam uma série de disputas sobre a utilização do sistema do rio Jordão, culminando nas chamadas «guerras da água» de meados da década de 1960. Embora estes conflitos envolvessem principalmente a Síria e a Jordânia, o Líbano estava indiretamente implicado através do seu controlo do rio Hasbani, um dos principais afluentes do Jordão.

O facto de o Líbano não se ter envolvido diretamente nesses confrontos não diminuiu a importância estratégica dos seus recursos hídricos. Pelo contrário, o rio Hasbani e, por extensão, o rio Wazzani, tornaram-se cada vez mais importantes enquanto componentes de um sistema hidrológico mais vasto. Os esforços das entidades israelitas para assegurar o controlo sobre a bacia do rio Jordão chamaram inevitavelmente a atenção para as fontes a montante, incluindo as localizadas em território libanês. Os sistemas hídricos transfronteiriços criam frequentemente condições em que os Estados a montante são arrastados para conflitos iniciados a jusante.

A guerra de 1967 marcou um ponto de viragem no equilíbrio hídrico regional. Com a ocupação dos Montes Golã sírias pela entidade israelita, esta ganhou controlo sobre fontes de água adicionais que alimentam o rio Jordão, reforçando assim a sua posição hidrológica. No entanto, esta expansão não eliminou as preocupações com a escassez de água. Em vez disso, reforçou a perceção de que a segurança a longo prazo exigia um abastecimento de água diversificado e controlável. Esta foi uma perceção que continuou a moldar o pensamento estratégico hostil em relação aos países vizinhos, incluindo o Líbano.

A invasão do Líbano em 1982 deve também ser entendida, em parte, neste contexto mais amplo. Embora os objetivos declarados da invasão fossem principalmente de natureza securitária, alguns analistas apontaram a extensão geográfica das operações militares da entidade israelita, em particular a sua invasão em direção ao rio Litani, como indicativa de considerações estratégicas subjacentes relacionadas com a água. Embora seja redutor atribuir a invasão exclusivamente a motivos hidrológicos, é igualmente insuficiente ignorar o papel que a água pode ter desempenhado no cálculo estratégico mais amplo.

Para além das estratégias militares e territoriais, a ganância hídrica da entidade israelita também tem sido articulada através de quadros discursivos e jurídicos. Um tema recorrente é a representação dos recursos hídricos libaneses como subutilizados ou geridos de forma ineficiente. Esta narrativa tem uma dupla função: destaca a percebida necessidade de água da ocupação israelita, ao mesmo tempo que questiona a legitimidade do controlo exclusivo do Líbano sobre certos recursos. Tais narrativas fazem frequentemente parte da «hidro-hegemonia», em que os atores dominantes procuram moldar não só a distribuição dos recursos, mas também o discurso que os rodeia em Estados soberanos como o Líbano.

É importante notar, no entanto, que a política hídrica da entidade israelita tem vindo a evoluir. Os avanços na tecnologia de dessalinização, especialmente desde o início dos anos 2000, reduziram significativamente a dependência das fontes naturais de água doce. No entanto, esta mudança tecnológica não eliminou a importância estratégica dos recursos hídricos naturais. Em vez disso, alterou a natureza do discurso, passando de uma questão de necessidade para uma de otimização e influência regional para os líderes da ocupação.

Neste contexto em evolução, os recursos hídricos libaneses continuam a ocupar uma posição complexa. Por um lado, são menos essenciais para a sobrevivência imediata da entidade israelita do que talvez tenham sido nas décadas anteriores. Por outro lado, continuam a ser estrategicamente relevantes num quadro mais alargado de projeção de poder regional e segurança dos recursos. A persistência do interesse em rios como o Litani e o Wazzani sugere que a água, mesmo numa era de soluções tecnológicas, mantém a sua importância geopolítica.

Em última análise, os fundamentos históricos e ideológicos das ambições sionistas israelitas em matéria de água revelam um padrão de continuidade, e não de ruptura. Desde o pensamento sionista inicial até à política contemporânea, a água tem-se mantido como um elemento central no planeamento estratégico da ocupação. Os recursos libaneses, em virtude da sua localização e abundância, têm sido consistentemente enquadrados neste contexto, nem sempre como alvos imediatos, mas como ativos potenciais no âmbito de uma visão de longo prazo do controlo hidrológico regional.

Os rios Litani e Wazzani no contexto do conflito e do controlo

Os rios Litani e Wazzani representam dois dos pontos de contacto mais críticos entre a soberania libanesa e os interesses estratégicos da entidade israelita. Embora ambos os rios difiram nas suas características hidrológicas e no seu estatuto jurídico, convergem num aspeto essencial: cada um deles situou-se, em momentos diferentes, no centro do conflito pelo controlo da água no Levante. A análise destes rios como estudos de caso permite uma compreensão mais fundamentada de como as ambições hidropolíticas abstratas se traduzem em tensões concretas, políticas e, ocasionalmente, confrontos.

O rio Litani ocupa uma posição única nesta equação. Sendo o rio mais longo inteiramente dentro do Líbano, constitui um exemplo raro de um recurso hídrico totalmente soberano numa região de resto dominada por sistemas transfronteiriços. Esta soberania, no entanto, não o isentou do interesse externo. Pelo contrário, a sua dimensão, caudal e localização geográfica tornaram-no um ponto de referência recorrente no discurso colonial estratégico da entidade israelita. Ao contrário do Hasbani ou do Wazzani, que estão diretamente ligados à bacia do rio Jordão, o Litani desagua de forma independente no Mediterrâneo. No entanto, os responsáveis pelo planeamento da entidade israelita têm-no historicamente considerado como uma fonte suplementar potencial que poderia ser redirecionada para sul através de projetos de engenharia.

A importância económica e para o desenvolvimento do rio Litani para o Líbano não pode ser subestimada. Este rio constitui a principal fonte de irrigação do Vale da Bekaa, frequentemente descrito como o coração agrícola do país, e sustenta a produção hidroelétrica através da Barragem de Qaraoun e das infraestruturas associadas. Qualquer ameaça à integridade ou ao controlo deste rio estende-se, portanto, para além da competição pelos recursos, atingindo a esfera da segurança económica e da estabilidade nacional do Líbano.

Apesar do seu curso interno, o Litani tem aparecido repetidamente no âmbito geográfico das operações militares da entidade israelita. Durante a Operação Litani de 1978 e, mais tarde, na invasão de 1982, as forças de ocupação israelitas avançaram até às margens do rio e, em alguns casos, para além delas. Embora estas operações fossem oficialmente enquadradas em termos de preocupações de segurança, as suas fronteiras geográficas suscitaram dúvidas entre os analistas quanto ao facto de o controlo, ou pelo menos a vigilância, do rio fazer parte de um cálculo estratégico mais amplo. A própria denominação da operação de 1978 sublinha o peso simbólico e estratégico atribuído ao rio pela ocupação.

Em contrapartida, o rio Wazzani representa um local de contestação mais direto e imediato devido ao seu estatuto de afluente do rio Hasbani, que, por sua vez, desagua no sistema do rio Jordão. Esta ligação hidrológica coloca o Wazzani diretamente num quadro transfronteiriço regido, pelo menos em princípio, pelo direito internacional da água. No entanto, na prática, a assimetria de poder entre o Líbano e o Israel sionista tem moldado a forma como estes princípios são interpretados e aplicados.

As tensões em torno do Wazzani atingiram o auge em 2002, quando o Líbano iniciou um projeto para bombear água do rio para abastecer aldeias vizinhas no sul. Do ponto de vista jurídico, o projeto era de escala modesta e enquadrava-se perfeitamente nos direitos do Líbano ao abrigo do princípio da utilização equitativa e razoável. No entanto, o Israel sionista respondeu com veementes objeções acompanhadas de ameaças militares e pressão diplomática, argumentando, de acordo com a retórica habitual, que mesmo uma utilização limitada por parte do Líbano poderia afetar a sua segurança hídrica.

Este episódio ilustra uma dinâmica mais ampla, na qual os conflitos hídricos não se resumem apenas a questões de quantidade, mas também de controlo e de precedentes. Ao contestar até mesmo projetos libaneses de pequena escala, a entidade israelita sinalizou efetivamente a sua relutância em aceitar quaisquer alterações ao status quo que pudessem enfraquecer a sua posição na bacia do rio Jordão. Tal comportamento é característico de sistemas hidro-hegemónicos, nos quais os atores dominantes procuram manter o controlo não só sobre os recursos, mas também sobre as regras que regem a sua utilização.

Para além do confronto, a gestão dos rios Wazzani e Hasbani também tem sido moldada por um clima de dissuasão. A abordagem do Líbano a estes recursos tem sido frequentemente cautelosa, refletindo uma consciência do potencial de escalada. Esta cautela, embora compreensível, teve a consequência indesejada de limitar a capacidade do país de utilizar plenamente os seus próprios recursos hídricos. Neste sentido, o controlo é exercido não só através da presença física ou da argumentação jurídica, mas também através da definição dos riscos e restrições percebidos.

O contraste entre o Litani e o Wazzani destaca, assim, duas modalidades diferentes de conflito hídrico. O Litani representa um caso de interesse estratégico latente; um recurso interno que não é diretamente disputado no dia-a-dia, mas que permanece integrado no pensamento estratégico de longo prazo da ocupação. O Wazzani, em contrapartida, exemplifica uma disputa ativa, em que mesmo uma utilização limitada se torna um fator desencadeador de agressão diplomática e militar por parte do Israel sionista contra o Líbano.

É também importante considerar o papel das infraestruturas na definição destas dinâmicas. O controlo da água não se resume apenas ao acesso às fontes, mas também à capacidade de armazenar, transportar e distribuir água. No Líbano, as limitações das infraestruturas, que vão desde condutas envelhecidas até à capacidade de armazenamento insuficiente, têm restringido a utilização eficaz de rios como o Litani. Estas limitações, por sua vez, desencadearam narrativas externas sobre a ineficiência da ocupação, ao mesmo tempo que reduziram a influência estratégica do Líbano.

As considerações ambientais complicam ainda mais o panorama. Tanto o rio Litani como o rio Wazzani enfrentam desafios relacionados com a poluição, a sobre-exploração e a variabilidade climática. No caso do Litani, os efluentes industriais e o escoamento agrícola degradaram significativamente a qualidade da água em certos troços. Estas questões não só prejudicam a utilização doméstica, como também se cruzam com as dinâmicas geopolíticas, ao afetarem a forma como o recurso é percebido e valorizado.

Em última análise, os rios Litani e Wazzani ilustram como os recursos hídricos podem tornar-se pontos focais de uma ganância sionista mais ampla, designada por «lutas geopolíticas». Não são meramente entidades físicas, mas locais onde a soberania, o desenvolvimento da segurança e o poder se cruzam. Compreender o seu papel no contexto da entidade libanesa-israelita requer ir além das análises técnicas para considerar as dimensões políticas e estratégicas que moldam a forma como a água é disputada, controlada e conceptualizada.

Dimensões jurídicas, geopolíticas e futuras do conflito pela água

O conflito em torno dos recursos hídricos libaneses não pode ser plenamente compreendido sem o situar nos quadros mais amplos do direito internacional, da geopolítica regional e das futuras tendências ambientais e estratégicas. Outros trabalhos meus demonstraram a continuidade histórica e as manifestações práticas da ambição expansionista de Israel nas águas libanesas. Este artigo, no entanto, procurou avaliar a legitimidade destas dinâmicas, as suas implicações geopolíticas e as trajetórias que poderão seguir nas próximas décadas.

Ao nível do direito internacional, a gestão dos recursos hídricos transfronteiriços é orientada principalmente por um conjunto de princípios amplamente reconhecidos, nomeadamente os codificados na Convenção das Nações Unidas de 1997 sobre o Direito dos Usos Não Navegáveis dos Cursos de Água Internacionais. Entre estes, os princípios da «utilização equitativa e razoável» e a obrigação de evitar «danos significativos» são centrais. Em teoria, estes princípios proporcionam um quadro equilibrado através do qual os Estados ribeirinhos podem partilhar os recursos hídricos, respeitando simultaneamente os direitos de soberania uns dos outros.

No contexto libanês, estas normas jurídicas são particularmente relevantes para rios como o Hasbani e o Wazzani, que fazem parte da bacia hidrográfica do rio Jordão. De um ponto de vista estritamente jurídico, o Líbano tem o direito de utilizar estas águas de forma equitativa e sustentável. A escala modesta dos projetos libaneses de captação de água, como a estação de bombagem de Wazzani de 2002, enquadra-se perfeitamente nestes parâmetros. No entanto, a aplicação do direito internacional na prática é frequentemente moldada menos pela clareza jurídica do que pelas realidades políticas e estratégicas impostas por um ocupante ativo que tenta constantemente invadir o território.

Esta discrepância destaca uma limitação fundamental do direito internacional da água: a sua dependência do cumprimento por parte dos Estados e a ausência de mecanismos de aplicação fortes. Em contextos assimétricos, em que um Estado possui um poder militar, económico ou diplomático significativamente superior, os princípios jurídicos podem ser interpretados de forma seletiva ou efetivamente ignorados. Nesses contextos, os conflitos hídricos são frequentemente regidos pela «hidro-hegemonia», em que os atores dominantes moldam tanto as regras como a sua implementação.

Neste contexto, as práticas da entidade israelita, que constituem regularmente atos ilegais de agressão contra os recursos hídricos regionais, são apresentadas de forma ilícita pela ocupação como refletindo uma combinação de argumentação jurídica e influência estratégica. Ao invocar preocupações com a segurança hídrica ou o impacto a jusante, o Israel sionista tem conseguido contestar as iniciativas libanesas, mesmo quando estas são juridicamente justificadas. Esta dinâmica sublinha o desequilíbrio na forma como tais preocupações são articuladas e aplicadas.

Para além da dimensão jurídica, o significado geopolítico da água no contexto da entidade libanesa-israelita está profundamente interligado com dinâmicas regionais mais amplas. Os recursos hídricos funcionam não só como ativos económicos, mas também como instrumentos de influência política. O controlo sobre a água pode reforçar a capacidade de um Estado para influenciar atores vizinhos, moldar trajetórias de desenvolvimento e reforçar a profundidade estratégica.

Para a entidade israelita, a água está há muito integrada na «doutrina de segurança nacional», não apenas como um recurso a proteger, mas como um fator a gerir ativamente, mesmo através da ocupação direta, no contexto regional. Esta perspetiva ajuda a explicar o contínuo interesse hostil pelos recursos hídricos libaneses, mesmo numa era em que os avanços tecnológicos, particularmente a dessalinização, reduziram significativamente as pressões imediatas de escassez para a ocupação. Nesse sentido, a água continua a ser uma variável estratégica, ligada a considerações mais amplas de estabilidade, fronteiras e influência regional.

Para o Líbano, o desafio geopolítico é mais complexo. Por um lado, o país possui recursos hídricos valiosos que poderiam apoiar o desenvolvimento económico, particularmente na agricultura e na energia. Por outro lado, a sua capacidade de explorar plenamente estes recursos é limitada por fatores tanto internos como externos. Internamente, questões como a governação, as deficiências de infraestruturas e a degradação ambiental limitam a utilização eficaz. Externamente, a proximidade destes recursos a uma fronteira altamente vigiada e controlada por uma entidade colonial introduz riscos que moldam as decisões políticas.

Olhando para o futuro, o desenrolar do conflito hídrico neste contexto será provavelmente influenciado por várias tendências inter-relacionadas. Em primeiro lugar, prevê-se que as alterações climáticas tenham um impacto profundo na disponibilidade de água em todo o Médio Oriente. Estima-se que o aumento das temperaturas, a alteração dos padrões de precipitação e o aumento da frequência das secas reduzam os recursos hídricos renováveis em muitas partes da região. No Líbano, isto poderá traduzir-se numa maior variabilidade sazonal e numa redução dos caudais dos rios, particularmente durante os períodos de seca.

É provável que tais mudanças intensifiquem a competição pelos recursos existentes, tanto dentro dos Estados como entre eles. Em sistemas transfronteiriços como a Bacia do Rio Jordão, mesmo pequenas reduções no caudal podem ter consequências políticas desproporcionadas. Como resultado, rios como o Wazzani podem tornar-se pontos de discórdia ainda mais sensíveis, onde questões técnicas de distribuição de água se cruzam com tensões políticas mais amplas, como temos vindo a acompanhar desde a agressão contínua do Israel sionista contra o Líbano, tanto na guerra de 2024 como na atual guerra de 2026.

Em segundo lugar, os avanços tecnológicos continuarão a remodelar o panorama estratégico. O percurso da entidade israelita na dessalinização e na reciclagem da água já alterou a equação tradicional da escassez. No entanto, estas tecnologias não estão isentas de limitações. São energeticamente intensivas, dispendiosas e dependentes de infraestruturas estáveis. Além disso, não substituem totalmente o valor estratégico dos recursos de água doce naturais, particularmente para a agricultura, o que aumenta a possibilidade de tentativas constantes por parte dos sionistas de saquear ilegalmente os recursos de água doce libaneses.

Para o Líbano, as soluções tecnológicas também poderiam desempenhar um papel na mitigação dos desafios internos. Os investimentos no armazenamento de água, na rede de distribuição e nas instalações de tratamento poderiam melhorar significativamente a eficiência e reduzir as perdas. Tais melhorias não só reforçariam a segurança hídrica interna, como também fortaleceriam a posição do Líbano em quaisquer futuras negociações sobre recursos partilhados.

Em terceiro lugar, os quadros jurídicos e institucionais que regem os recursos hídricos podem evoluir. Embora o direito internacional preveja atualmente um conjunto de princípios gerais, há um reconhecimento crescente da necessidade de acordos mais específicos e exequíveis nas bacias transfronteiriças. Na ausência de acordos formais entre as entidades libanesa e israelita, devido ao contexto político mais alargado resultante das repetidas agressões da entidade israelita ao Líbano, tais desenvolvimentos continuam a ser improváveis a curto prazo.

Finalmente, o papel dos atores não estatais e as considerações de segurança mais amplas não podem ser ignorados. Em regiões altamente disputadas, as próprias infraestruturas hídricas podem tornar-se um alvo ou um instrumento no âmbito da dinâmica do conflito. Proteger essas infraestruturas torna-se, portanto, parte de uma estratégia mais ampla de soberania nacional que, no caso do Líbano, só pode ser assegurada através de esforços conjuntos entre as autoridades e as forças de resistência.

Em conclusão, o conflito em torno dos recursos hídricos libaneses reflete uma interação complexa entre o direito, a geopolítica e as alterações ambientais. Embora os princípios jurídicos forneçam um quadro normativo, a sua aplicação é moldada pelas dinâmicas de poder e pelos interesses estratégicos. Os rios Litani e Wazzani, tal como analisados ao longo deste artigo, personificam estas tensões, servindo simultaneamente como fontes de vida, instrumentos de influência e potenciais gatilhos de conflito.

Para o Líbano, o caminho a seguir reside numa combinação de reformas internas e consciência estratégica. O reforço da governação da água, o investimento em infraestruturas e o envolvimento com os quadros jurídicos internacionais podem aumentar a resiliência. Ao mesmo tempo, reconhecer as dimensões geopolíticas da água é essencial para navegar numa região onde os recursos raramente são neutros e onde até um rio pode tornar-se um ponto focal do conflito.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

‘PTRR PERPETUA VELHAS VISÕES PARA NOVOS PROBLEMAS’


O PTRR continua a apostar no betão, na desregulação e em algumas soluções ultrapassadas face à crise climática, diz a Zero.

A insistência na estratégia “Água que Une”, focada em novas barragens e transvases, é um erro histórico. É inaceitável que se canalizem 740 milhões de euros de recursos públicos para a construção de novas barragens e que o Governo continue a ignorar o restauro ecológico da paisagem e a necessidade de termos áreas urbanas resilientes a fenómenos climáticos extremos, como inundações e cheias, mantendo uma clara preferência por investir em coletores e betão que voltará a falhar no próximo evento extremo e continuará a incentivar o aumento do uso da água em zonas de escassez.

A ‘simplificação’ cega do regime de edificação (RJUE) poderá permitir novas construções em zonas de risco.

O setor dos resíduos surge referenciado apenas num contexto de aumento da sua resiliência e não de investimento estratégico, com investimentos focados na melhoria da infraestrutura existente e capacidade de resposta em caso de emergência. Perante o crónico subfinanciamento do setor, altamente necessitado de investimentos em novas infraestruturas para promover uma economia circular, representa uma oportunidade perdida. Resta ainda saber se os 360 milhões previstos no PTRR irão competir pelas mesmas fontes, já escassas, mas críticas para a implementação do Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU 2030).

O PTRR fala em digitalização e sensores, mas falha ao não estabelecer metas vinculativas de redução de perdas de água. Monitorizar apenas o desperdício não é resiliência, e não substitui políticas. São necessárias metas vinculativas de redução de perdas e mecanismos de regulação da procura.

A criação do portal de dados climáticos é positiva, mas o plano peca por não garantir uma avaliação independente e sistemática do impacto climático das políticas públicas.

Embora mencione soluções baseadas na natureza, o grosso do financiamento continua alocado a infraestruturas de drenagem profunda, em vez de promover a desimpermeabilização e a infiltração local.


REINO UNIDO: FOSSEIS LIDERAM FINANCIAMENTO DO PARTIDO REFORM

Foto: BBC
  • O partido Reform recebeu 24 milhões de libras de interesses ligados aos combustíveis fósseis. O partido anticlimático de Nigel Farage obteve dois terços das suas receitas de investidores do setor petrolífero. Fonte.
  • Sete bancos — Natixis, BNP Paribas, Crédit Agricole CIB, Citigroup, Intesa Sanpaolo, JPMorgan e Mediobanca — financiaram graves violações dos direitos humanos, bem como danos climáticos e ambientais, através de um empréstimo «verde» no valor de 1,25 mil milhões de dólares destinado à fábrica de aço e gás da Ternium no México. Fonte.

REFLEXÃO

SOBREIRO: COMO EXTINGUIR UMA ESPÉCIE, PROIBINDO O SEU CORTE
Ricardo Meireles, Substack.

 Sobreiro com cortiça antiga, fenda viva e marca de fogo. Uma árvore feita para resistir e permanecer. Trás-os-Montes. Foto: Ricardo Meireles

Há uns dias um vizinho parou o carro ao passar por mim na estrada e avisou-me, com a melhor das intenções, que tinha sobreiros a nascer junto ao muro. O conselho foi directo: arrancar enquanto era cedo, antes de ficarem mapeados. Antes de se tornarem um problema.

Fiquei com aquele conselho a trabalhar dentro de mim durante dias. Um país que ensina os seus proprietários a temer o crescimento de uma árvore está a proteger qualquer coisa, mas talvez não seja a árvore.

A lei de 2001 não proíbe em absoluto o corte ou arranque de sobreiros e azinheiras. Exige autorização. Na prática quotidiana, a diferença é pequena: o que o proprietário ouve é que um sobreiro mapeado complica tudo o que vier depois. A resposta racional, à escala do indivíduo, é o arranque preventivo, feito cedo, feito em silêncio, feito no estado em que ninguém repara. Protege-se assim a árvore adulta visível e elimina-se a regeneração invisível, que é a fase mais barata e mais decisiva de qualquer floresta.

O próprio preâmbulo da lei admite uma coisa que raramente entra na conversa pública: o montado é paisagem de origem antrópica e só se mantém enquanto as actividades económicas que o sustentam continuarem activas. O próprio legislador sabe que é um sistema agro-silvo-pastoril gerido à mão, todos os dias, há séculos. A lei, contudo, trata o sobreiro como peça de museu, e o efeito é o oposto do declarado: o medo de cada rebento que é calcado, arrancado, mal germina.

A questão maior, porém, está por baixo desta. E é aqui que mexe numa das vacas mais sagradas da identidade económica portuguesa.

Portugal produz cerca de metade da cortiça mundial a partir de aproximadamente 8% do seu território continental. O sobreiro ocupa cerca de 720 mil hectares, perto de um quarto da floresta nacional. O sobreiro é, até hoje, a única espécie cuja casca regenera depois de ser retirada do tronco, o que faz dele a única fonte comercial de cortiça no mundo. Esta singularidade ecológica transformou-se em singularidade económica, e a singularidade económica transformou-se em orgulho nacional. Somos os maiores. Repete-se isto como prova de competência.

Recentemente, a cortiça portuguesa voltou ao espaço. Foi notícia em todo o lado. Um compósito desenvolvido a partir da casca dos nossos sobreiros, baptizado P50, integrou o sistema de proteção térmica da cápsula Orion na missão Artemis II da NASA, depois de já ter servido na Artemis I. Funcionou como escudo: aguentou fluxos térmicos de dezenas de megawatts por metro quadrado durante o lançamento e a reentrada, e protegeu os astronautas que orbitaram a Lua. A imprensa celebrou. Estávamos a contribuir, a partir do nosso pedaço de terra, para uma nova ida ao espaço de uma potência alheia. É um orgulho conhecido: o orgulho do fornecedor de matéria-prima de luxo, vaidoso por servir um projecto que não decide nem partilha. E é este tipo de orgulho que imuniza o sector contra qualquer pergunta incómoda.

A pergunta que poucos formulam é se faz sentido manter um quarto da floresta de um país pequeno fixado num único degrau de um processo ecológico muito mais longo, em nome dessa posição no mercado mundial.


Deserto verde de sobreiros. Solo pelado, espécie única, sucessão travada. Uma plantação que a lei protege como se fosse floresta. 
© Ricardo Meireles, 2006.

O sobreiro é uma espécie de ciclo secular e estrato emergente, própria dos consórcios secundários tardios e de transição. Prepara o solo, fixa carbono, dá sombra, retém humidade. Cria as condições para que se sucedam sistemas mais complexos, no caminho para o estádio de abundância, onde o ser humano poderia viver com muito mais resiliência do que vive hoje.

O montado, esse, é uma fotografia parada a meio da escadaria. Existe porque é limpo, gerido, podado, descortiçado, pastoreado. Este não é o destino do sobreiro mas sim um arranjo humano que congela o sistema num ponto que dá rendimento previsível. Eternizar esse arranjo é escolher a renda certa e adiar indefinidamente a abundância que viria depois se o sistema não fosse travado.

Há ainda um mantra que a indústria comunica com particular cuidado. Diz-se que o descortiçamento beneficia a árvore. O que as fontes técnicas descrevem é outra coisa: em cada extracção, o felogénio é destruído, e a árvore regenera-o. A operação faz-se durante o período mais stressante do ano para o sobreiro, expõe células vivas que perdem água, e nos anos seguintes a árvore fica mais vulnerável a pragas e a incêndios. Em anos de seca severa, a extracção deve ser adiada precisamente para evitar danos. Quando é mal executada, deixa feridas que dificultam a regeneração e podem levar à morte prematura da árvore. Estamos perante um processo de stress real, suportável dentro de certos limites, e a afirmação de que "faz bem" à árvore pertence ao registo do marketing, não ao da ecologia verificável. Pode não a matar. Daí a beneficiá-la vai uma distância que ninguém demonstrou.

Linha de produção de rolhas em corticeira de Santa Maria da Feira. © Ricardo Meireles, 2006.

Tudo isto seria um debate académico se não houvesse pessoas reais agarradas a este modelo. Mas há famílias inteiras cuja sobrevivência material depende, há gerações, da venda da sua força de trabalho ao sector corticeiro. Foram perdendo, ao longo do tempo, outras formas de autonomia económica e ficaram amarradas a um único circuito produtivo. Qualquer reflexão honesta sobre o futuro do montado tem de começar por reconhecer isto. Não se transforma um ecossistema sem transformar, ao mesmo tempo, as condições materiais de quem dele depende. Pensar o sobreiro para lá do montado obriga a pensar, em paralelo, que outras formas de vida, que outros rendimentos, que outras autonomias podem ser construídas para essas famílias.

A retracção, entretanto, já está em curso sem que tenhamos decidido nada. A área de montado tem vindo a diminuir há décadas, por seca, por doença, por substituição, por abandono. A dependência económica de um ecossistema que encolhe é, por si só, um argumento para repensar o modelo antes que seja a desgraça a fazê-lo por nós.

A saída passa por mudar o desenho do incentivo. O proprietário que hoje vê um rebento como ameaça não tem medo da árvore, tem medo do que ela representa no mapa: uma restrição futura à venda, à herança, à construção. O problema está no ordenamento do território, que usa o sobreiro como desculpa para travar decisões que deviam ser tratadas noutro plano. Separar uma coisa da outra é o primeiro passo. O segundo é tornar a regeneração natural num activo concreto para o proprietário, com apoio técnico e benefícios fiscais. O terceiro é dar previsibilidade ao licenciamento, porque o medo nasce sempre da incerteza. E há ainda uma questão de fundo: assumir publicamente que o montado é uma das formas possíveis do sobreiro, e que a floresta densa com Quercus suber e outras espécies do mesmo porte a partilhar o mesmo espaço também tem direito a existir.

Se este medo se mantiver, a lei que diz proteger o sobreiro será o mecanismo que o extingue. Não desaparecerá pela força da motosserra mas pela aniquilação silenciosa de cada rebento arrancado antes de ser “apanhado pelo satélite”. Perderemos com isso uma espécie que faz de ponte para sistemas mais complexos e mais abundantes. O Alentejo, que hoje associamos quase de forma automática à paisagem do montado aberto, poderia ser muito mais do que essa fotografia repetida. Poderia ser território vivo, estratificado, húmido, capaz de alimentar e abrigar muito para lá da cortiça. Estamos a recusar essa hipótese antes sequer de a discutir.

O meu vizinho continua a passar na estrada. Os sobreiros junto ao muro continuam lá, pequenos, ainda quase invisíveis. Decidi deixá-los crescer. Sem medo da fotossíntese. Na esperança de que Portugal não se torne num imenso Alentejo.

BICO CALADO

Foto: Ronen Tivony/NurPhoto/Shutterstock
  • Tribunal de Contas detetou que 16 câmaras municipais não cumpriram normas sobre os procedimentos e prazos de nomeação de dirigentes em regime de substituição. Espinho sob vigilância. Fonte.
  • “(…) Para um país que pauta a sua política externa pela dos EUA, nada melhor do que enviar o rei para aliviar as tensões criadas com a invasão do Irão, aventura em que o RU não se atreveu a embarcar, e pela ameaça de Trump mudar a posição em relação à soberania das Ilhas Malvinas. E para Starmer tentar melhorar a sua imagem, nada melhor do que a visita de pompa e circunstância do casal real a outro que gostaria de o ser, enquanto os súbditos de Sua Majestade esbatem o azedume ao PM. Trump fica embevecido a desfrutar a visita do rei do País cujo império se transferiu para os EUA, o rei justifica o custo da Coroa aos súbditos, e ainda levou um recado da UE a Trump para apoiar a guerra na Ucrânia. (…)” Carlos Esperança, Ponte Europa.
  • Centenas de homens imigrantes no Centro de Processamento de North Lake, uma instalação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), iniciaram uma greve de fome a 20 de abril, numa tentativa de fazer valer os seus direitos ao devido processo legal, a alimentos comestíveis e ao fim da privação de sono. No exterior da prisão, ativistas de todo o estado do Michigan reuniram-se para manifestar solidariedade para com os detidos e divulgar as reivindicações dos grevistas ao público em geral. Fonte.
  • A relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados descreveu a interceção por parte de Israel da frota Global Sumud, com destino a Gaza, como «apartheid sem fronteiras», «ALARME! Como é possível que Israel seja autorizado a atacar e apreender embarcações em águas internacionais ao largo da Grécia/Europa? Para além do que se possa pensar do apartheid israelita e dos seus líderes genocidas, isto deveria causar uma onda de choque por toda a Europa», afirmou Francesca Albanese. A marinha israelita interceptou embarcações da frota na noite de quarta-feira, enquanto estas se dirigiam para Gaza para quebrar um bloqueio de longa data sobre o enclave. O grupo afirmou que as forças israelitas cercaram o comboio em águas internacionais perto da ilha grega de Creta, bloquearam as comunicações e apreenderam 21 embarcações, acrescentando que 17 embarcações conseguiram escapar e entrar em águas gregas após o incidente. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

CALMA, OS PAINÉIS SOLARES NÃO CAUSAM CANCRO
Mark Gongloff, Bloomberg. Trad. O’Lima.

Ruído, falta de estética e resíduos tóxicos são apenas alguns dos mitos sobre a energia solar. Foto: David Paul Morris/Bloomberg

Vivemos numa época marcada tanto por milagres científicos como por superstições em relação à ciência, que parecem crescer mais ou menos em paralelo. Num ano, estamos a criar vacinas inovadoras que travam uma pandemia global e, quatro anos depois, temos surtos de sarampo porque as pessoas acreditam em disparates sobre as vacinas, divulgados pelo principal responsável pela saúde do país.

A energia solar é outro exemplo. Trata-se de uma tecnologia que, em vez de extrair combustíveis fósseis e queimá-los para libertar a energia solar acumulada há milhões de anos, consegue, milagrosamente, extrair essa energia diretamente do céu. Ao contrário desses combustíveis fósseis, é inofensiva, ilimitada e, em termos globais, não gera gases com efeito de estufa que aquecem o planeta.

A energia solar é também mais barata do que os combustíveis fósseis, o que ajuda a explicar o seu crescimento exponencial. A produção global de energia solar cresceu 636 terawatts-hora em 2025, um aumento de 30%, de acordo com a empresa de investigação Ember. Este foi o crescimento mais rápido num ano registado para qualquer fonte de energia, com exceção de uma recuperação temporária no uso do carvão após os confinamentos durante a pandemia de Covid-19. Só a energia solar nova satisfez três quartos da nova procura de energia mundial no ano passado. Ao longo da última década, a energia solar multiplicou-se por 10, aumentando 27% ao ano, em média.

A energia solar está em alta

A produção anual de energia solar aumentou 10 vezes na última década, ultrapassando a energia eólica e quase igualando a energia nuclear

No entanto, nem todos são adeptos da energia solar. Nos EUA, as instalações registaram, na verdade, uma queda de 14 % em 2025 em relação ao ano anterior, contrariando a tendência global, de acordo com a Associação das Indústrias de Energia Solar e a empresa de consultoria Wood Mackenzie.

A energia solar continuou a ser a maior fonte de energia nova nos EUA no ano passado, representando 54% de todas as novas instalações, em comparação com apenas 8% do gás natural. A energia solar e o armazenamento em baterias, em conjunto, representaram 79% das novas fontes de energia nos EUA em 2025. No entanto, o seu crescimento abrandou, principalmente devido ao ataque generalizado do governo do presidente Donald Trump à energia limpa.

Mas outro fator que prejudica a energia solar nos EUA é a crescente oposição local, motivada por receios quanto aos impactos dos parques solares na saúde humana, segundo noticiou recentemente a ProPublica. A publicação citou o condado de St. Clair, no Michigan, que no ano passado tornou mais difícil a construção de novas instalações solares em terrenos rurais, invocando preocupações com a poluição sonora, a «poluição visual» e o risco de resíduos tóxicos. Esta decisão baseou-se em memorandos do responsável pela saúde do condado, sugerindo que estas questões representavam «uma ameaça injustificada à saúde pública».

O ruído, a desarmonia paisagística e os resíduos tóxicos são apenas algumas das preocupações relacionadas com a saúde citadas nos últimos anos no Michigan, em Ohio e noutros locais para bloquear ou retardar o desenvolvimento da energia solar. Segue-se uma lista um pouco mais extensa, embora ainda parcial. Muitas destas preocupações são compreensíveis. Todas elas são facilmente refutáveis.

Mito: Os parques solares são demasiado ruidosos.
Realidade: Os parques solares produzem ruído, mas não o suficiente para causar danos físicos ou mentais às pessoas. Os inversores que convertem a eletricidade de corrente contínua em corrente alternada para a rede elétrica geram até 70 decibéis (ajustados à sensibilidade auditiva humana, ou dBA), de acordo com a empresa de energia solar comunitária do Colorado, PureSky Energy. Isso equivale aproximadamente ao ruído de um aparelho de ar condicionado de janela. Os sistemas de armazenamento em baterias e os transformadores produzem níveis de ruído semelhantes. Mas, a cerca de 30 metros de distância deste equipamento, os seus sons desaparecem no fundo. Um parque solar rural pode gerar 30 dBA, de acordo com o engenheiro de controlo de ruído Michael Bahtiarian, da empresa de consultoria Acentech. Isso equivale aproximadamente ao volume de um sussurro. Um trator, por sua vez, pode atingir 100 dBA ou mais.

Mito: Os parques solares são demasiado feios.
Realidade: A fealdade é subjetiva, mas é verdade. Não são bonitos. Podem até ser suficientemente feios para prejudicar a saúde mental das pessoas. Isto resolve-se facilmente instalando-os em locais remotos e rodeando-os de vegetação, o que também pode ajudar a dissipar quaisquer preocupações remanescentes em relação ao ruído. Um posicionamento adequado e o paisagismo também podem eliminar qualquer reflexo dos painéis que possa afetar os pilotos locais.

Mito: Os painéis solares libertam substâncias tóxicas.
Realidade: As quantidades de elementos perigosos, como o chumbo e o cádmio, nos painéis solares são mínimas e estão encapsuladas no vidro temperado dos painéis. O cádmio presente nos painéis é, normalmente, de um tipo cuja toxicidade é 1/100 da do cádmio comum, de acordo com um estudo da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia, de 2024. Os painéis são construídos para resistir ao sol, à neve, à chuva, ao granizo e a outras agressões naturais, o que significa que não se desintegram em pedaços. Além disso, não ardem facilmente e, caso ardam, os seus elementos ficam retidos no vidro fundido.

Mito: Os campos eletromagnéticos (CEM) dos parques solares causam doenças nas pessoas.
Realidade: Se ficar ao lado de um inversor, estará exposto aos mesmos CEM que um abre-latas elétrico, observa o estudo da Universidade de Columbia. Se se afastar cerca de 2,7 metros, esses CEM descem quase a zero. A exposição é muito maior quando se está perto do frigorífico ou do micro-ondas.

Mito: É muito difícil desativar e limpar os parques solares.
Realidade: Atualmente, a maioria dos painéis solares é reciclada. Além disso, os promotores são normalmente responsáveis pela limpeza dos antigos parques solares, uma obrigação frequentemente garantida por uma caução. A quantidade de resíduos de painéis solares é insignificante quando comparada, por exemplo, com os resíduos altamente tóxicos das cinzas de carvão, como observa um estudo de 2023 realizado por Heather Mirletz, investigadora do Laboratório Nacional de Energia Renovável.

A energia solar não é desperdiçada

Os resíduos dos painéis solares são, e provavelmente continuarão a ser, mínimos, especialmente quando comparados com as cinzas tóxicas do carvão, os resíduos eletrónicos e outros detritos

Na verdade, não se pode falar dos impactos da energia solar na saúde e no ambiente sem os comparar com as alternativas. As cinzas volantes resultantes da queima de carvão liberam muito mais chumbo, cádmio e outros materiais no solo, prejudicando a saúde humana e a agricultura. Os cerca de 2 milhões de poços de petróleo e gás desativados e não utilizados nos EUA bombeiam petróleo e outras toxinas para o solo e a água e emitem metano, que contribui para o aquecimento global, como observou uma investigação separada da ProPublica em 2024.

Entretanto, a queima de combustíveis fósseis está a aquecer o planeta, aumentando os riscos de secas, incêndios florestais, doenças e outros problemas que custarão milhões de vidas e biliões de dólares em perda de produtividade económica, se não mudarmos de rumo rapidamente.

O cérebro humano está programado para confiar no que lhe é familiar e desconfiar do que é novo. Isso não torna as pessoas ignorantes, mas torna-as vulneráveis ao alarmismo promovido pelos interesses dos combustíveis fósseis, que muitas vezes estão por trás da resistência aparentemente «popular» a tecnologias relativamente novas, como a energia solar e eólica. Nesses casos, uma maior familiaridade deveria suscitar admiração, e não desprezo.

ESPINHO PERDE BANDEIRAS AZUIS

Foto: Ambiente Ondas3

Em 2026, apenas a praia da Seca, a praia da rua 37 e a praia de Paramos foram galardoadas com bandeira azul. Ficam de fora a praia da Baía, a Frente Azul , no centro de Espinho, e Pau da Manobra, em Silvalde. Fonte.

Em maio de 2025, Espinho perdia bandeiras azuis na Frente Azul, Seca e Pau da Manobra.

Em julho de 2024, as praias Frente Azul e Seca foram temporariamente desaconselhadas para banhos devido à deteção de níveis elevados de coliformes fecais, nomeadamente a bactéria Escherichia coli (E.coli), na água. A contaminação foi atribuída a uma avaria numa das bombas de uma estação elevatória. Na altura, fonte digna de crédito admitia a existência de, pelo menos, 6 estações elevatórias inoperacionais há mais de 3 anos e que avarias em estações elevatórias tinham sido responsáveis pela interdição a banhos em algumas praias de Espinho. Por exemplo, a estação elevatória da rua 13, entre a Piscina Solário Atlântico e o Hotel PraiaGolfe, teria sido responsável pela descarga de esgoto bruto na Praia da Baía. Não seria por acaso que, nessa altura, os esgotos da Piscina Solário Atlântico eram regularmente aspirados por camião especial.

Foto: Ambiente Ondas3

Várias vezes, os problemas das estações elevatórias de Espinho, crónicos de há mais de 10 anos, foram levados ao conhecimento das autoridades competentes. E, como não se verificou qualquer tipo de melhoria, o assunto voltou a ser abordado na Assembleia Municipal de janeiro de 2025, tendo sido aprovada por unanimidade uma recomendação no sentido de o executivo camarário tomar as devidas medidas para que as estações elevatórias com avarias ou inoperacionais fossem reparadas urgentemente, de modo a garantir a sua operacionalidade a 100%, como aliás mandam as boas práticas de uma boa gestão municipal. Na altura, não funcionavam as seguintes estações elevatórias: Rua do Lameirão, Rua dos Moinhos e Rua Souto de Baixo, no lugar da Idanha, Freguesia de Anta; Rua do Gavião, Freguesia de Anta, Rua 13 (Entre o Hotel Praia Golfe e a Piscina Solário do Atlântico), Freguesia de Espinho, Rua 45, freguesia de Silvalde, e Rua Senhora da Guia, Freguesia de Paramos.

Convenhamos que esta situação é sintoma de um desnorte crónico de executivos camarários que têm priorizado ajustes diretos para pagamento de eventos efémeros, em desfavor do investimento na manutenção das infraestruturas e do património construído e na preservação do património natural.