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terça-feira, 21 de abril de 2026

PRÉMIOS GOLDMAN 2026

  • Vencedores do Prémio Ambiental Goldman de 2026: Sarah Finch e o Weald Action Group lideraram uma campanha contra a exploração petrolífera no sudeste de Inglaterra durante mais de uma década, perseverando ao longo de cinco anos de disputas judiciais cada vez mais acirradas contra um projeto de exploração petrolífera em Surrey, até que a coligação conseguiu uma decisão do Supremo Tribunal, em junho de 2024, que finalmente obrigou ao seu encerramento; Em nome de 15 nações tribais, Yup’ik Alannah Acaq Hurley liderou uma campanha que impediu a concretização do megaprojeto da mina de cobre e ouro Pebble, na região da Baía de Bristol, no Alasca; A ativista Borim Kim e a sua organização, Youth 4 Climate Action, venceram o primeiro processo judicial sobre o clima liderado por jovens na Ásia. Em agosto de 2024, o Tribunal Constitucional da Coreia do Sul considerou que a política climática do governo violava os direitos constitucionais das gerações futuras, determinando a criação de metas de redução de emissões juridicamente vinculativas para o período de 2031 a 2049, a fim de cumprir o compromisso do país de atingir emissões líquidas nulas até 2050; Yuvelis Morales Blanco ajudou a mobilizar a sua comunidade em Puerto Wilches contra dois importantes projetos de perfuração, impedindo com sucesso a introdução da fraturação hidráulica comercial na Colômbia. Em 2022, a maior empresa petrolífera do país, a Ecopetrol, suspendeu os seus contratos relativos ao projeto-piloto de fraturação hidráulica; Theonila Roka Matbob liderou uma campanha bem-sucedida que levou a Rio Tinto, a segunda maior empresa mineira do mundo, a assinar, em novembro de 2024, um memorando de entendimento histórico para fazer face à devastação ambiental e social causada pela sua mina de Panguna, há muito inativa; Depois de redescobrir o morcego-de-cauda-curta-e-orelhas-redondas, uma espécie em perigo de extinção, na Nigéria, Iroro Tanshi identificou os incêndios florestais provocados pelo homem como a principal ameaça à espécie e lançou uma campanha bem-sucedida para proteger o seu refúgio, o Santuário de Vida Selvagem da Montanha Afi. Entre o início de 2022 e maio de 2025, ela e as brigadas de incêndio da sua comunidade impediram a ocorrência de incêndios florestais graves dentro e nos arredores do santuário, patrulhando milhares de quintas e respondendo eficazmente a mais de 70 focos de incêndio, salvaguardando as comunidades, as florestas e o frágil habitat do morcego.
  • Grupos ambientalistas entraram com uma ação judicial contra a administração Trump devido à aprovação do novo e gigantesco projeto de perfuração petrolífera em águas ultraprofundas da BP no Golfo do México, 16 anos depois do dia em que o desastre da Deepwater Horizonda mesma empresa, causou o pior derrame de petróleo da história dos EUA. Fonte.
  • As grandes petrolíferas investem milhares de milhões em locais de perfuração remotos para escapar à agitação no Irão. A Exxon apresentou um plano para investir até 24 mil milhões de dólares nos campos petrolíferos em águas profundas da Nigéria, enquanto a Chevron expandiu a sua presença na Venezuela. A BP adquiriu participações em blocos petrolíferos ao largo da costa da Namíbia e a TotalEnergies assinou um acordo de exploração com a Turquia. Fonte.
  • O que a OCDE ainda não conseguiu dizer sobre os incêndios em Portugal. O relatório final chega quase ao ponto. Depois pára, e deixa de fora o eucalipto, a celulose e a monocultura que fabricou a paisagem que arde. Ricardo Meireles.

BICO CALADO

  • “Em março de 2019, antes da fundação do Chega, o ‘número dois’ de Ventura por Lisboa nas legislativas de 2022 e presidente da comissão de éticado partido. Foi alvo de uma ação judicial em Santarém por parte da ex-mulher. Em causa, o incumprimento das responsabilidades parentais relativas ao filho menor, com necessidades especiais. Fontes judiciais e familiares próximas da queixosa, enfermeira, alegavam que o antigo sócio de empresas tecnológicas e da sociedade agrícola Villabosque fez depender da conquista de um cargo político remunerado o pagamento integral da pensão de alimentos. Enquanto isso, tentou reduzi-la de 425 euros para 50 euros mensais. Em novembro de 2020, Rui Paulo Sousa, que já falhara pagamentos e despesas médicas, descreveu ao tribunal a sua alegada - e precária - situação laboral: falou dos prejuízos na Villabosque, disse viver em casa da mulher e depender dela para o pagamento de despesas pessoais. Garantiu ainda que não recebia ordenado no Chega: «O partido paga despesas de deslocação no âmbito das campanhas eleitorais e relativas à comitiva do presidente, da qual tenho feito parte.» No final de 2020, Rui Paulo Sousa reforçou, perante o tribunal, as suas expectativas em relação ao partido: «a longo prazo» contava conquistar um cargo político e, aí sim, obteria alguma remuneração. Porém, para que tal se concretizasse, teria de vencer as eleições autárquicas em 2021. Candidato à Câmara de Castelo Branco, o dirigente não foi sequer eleito vereador. Sem vencimento e, a dada altura, apenas a receber o subsídio de desemprego de pouco mais de 765 euros, o agora deputado propusera-se recorrer à conta bancária conjunta com o filho, para onde ele e a sua família transferem dinheiro, para o pagamento da pensão de alimentos. No final de 2020, o saldo da mesma era superior a 18 mil euros. A ex-mulher contestou: tal significaria pagar a pensão com o dinheiro do próprio filho. Vai daí, transferiu o dinheiro para outra conta em nome da criança, movimentada a crédito, como ‘forma de salvaguardar o património do menor’ e precaver-se. Acusou ainda o ex-marido de enganar o tribunal sobre a sua real situação financeira. Segundo ela, Rui Paulo Sousa vendera a quota numa empresa informática por 200 mil euros e recebera subsídios públicos superiores a 300 mil euros em nome da Villabosque, de que era sócio-gerente. O diferendo solucionou-se no final de 2022. O deputado já tinha o tal cargo político remunerado que almejava. Exercido em exclusividade, garantia mais de 4000 euros mensais ilíquidos. Apresentou-se em tribunal e aceitou devolver, com juros, o dinheiro retirado da conta do filho.” Miguel Carvalho, Por dentro do Chega – Penduin/Objectiva 2025 – pp 594-59
 
  • Investigação secreta revela que uma instituição de caridade promovia como «fantásticos» os colonatos ilegais e alegava poder beneficiar de subsídios fiscais do Reino Unido. Fonte.
  • Um soldado israelita filmou-se a destruir uma estátua de Jesus Cristo numa aldeia no sul do Líbano, num incidente que suscitou uma condenação generalizada e que foi posteriormente reconhecido pelo exército israelita. Na sequência do incidente, o exército afirmou estar a «conduzir uma investigação», mas não forneceu detalhes claros sobre as circunstâncias nem indicou quaisquer medidas concretas para a responsabilização dos envolvidos. Fonte.
  • Documentos orçamentais revelam que o Departamento de Segurança Interna está a desenvolver óculos inteligentes especializados que permitirão aos agentes federais nas ruas americanas identificar automaticamente «estrangeiros em situação irregular» à distância. Estes novos «ICE Glasses», baseados em modelos já existentes que permitem a gravação de vídeo e a exibição de dados no campo de visão, serão capazes de aceder a vastos bancos de dados biométricos federais — desde o reconhecimento facial até ao modo de andar — para identificar pessoas em tempo real. Fonte.
  • O líder do Reform UK, Nigel Farage, é o deputado mais bem pago do Parlamento. Em menos de dois anos como deputado por Clacton, Farage acumulou 2 milhões de libras em rendimentos pessoais e presentes, para além do seu salário parlamentar anual de 94 000 libras. Fonte.
  • Massacre de Lisboa de 1506. Carlos Esperança, Ponte Europa.

sábado, 18 de abril de 2026

COIMBRA: ALTERAR O PDM PARA CONSTRUIR MAIS 30% EM ZONAS RIBEIRINHAS?

  • A Câmara Municipal de Coimbra quer aprovar uma proposta de suspensão parcial do PDM por dois anos, para responder à transformação estrutural que a cidade enfrenta, com a chegada de grandes investimentos na mobilidade, e à pressão crescente sobre o mercado da habitação. A proposta foi debatida numa sessão pública organizada pela autarquia. Fonte.
  • O governo abandona a Reserva Natural das Berlengas, acusa o Sindicato Independente dos Trabalhadores da Floresta, Ambiente e Proteção Civil (SinFAP). Os Vigilantes da Natureza não dispõem de condições mínimas para garantir a proteção eficaz desta área classificada, património natural de importância nacional e internacional. A habitação de serviço existente na ilha não reúne condições de habitabilidade dignas, comprometendo a permanência dos profissionais no território. Paralelamente, os meios operacionais essenciais encontram-se inoperacionais ou inexistentes. Fonte.
  • A GNR identificou dois homens, na Murtosa, por alegada descarga ilegal de resíduos, incluindo componentes eletrónicos, plásticos, fragmentos de placas de circuito eletrónico e vidro triturado. Fonte.
Ribeira de Silvalde, Espinho. Foto: Zé Quinta, 4mai2019
  • Consulta pública até 18 de maio: PRO~RIOS 2030 - Restauro Ecológico de Rios e RibeirasO restauro ecológico dos rios tem por objetivo recuperar a funcionalidade natural dos sistemas fluviais, travar a perda de habitats e espécies, reduzir a vulnerabilidade a cheias e secas, reforçar a adaptação climática e valorizar os territórios, contribuindo para uma gestão dos recursos hídricos mais resiliente, eficiente e inteligente, alinhada com os compromissos nacionais e europeus. Foi desenvolvido um dashboard PRO~RIOS, enquanto instrumento de monitorização e disseminação de conhecimento, disponível em https://proriosgeo.apambiente.pt .

GIGANTES TECNOLÓGICAS VEDAM ACESSO PÚBLICO A DADOS AMBIENTAIS SOBRE CENTROS DE DADOS

  • As gigantes tecnológicas Microsoft, Amazon, Google, Meta exerceram pressão com sucesso para que fosse introduzida uma cláusula de confidencialidade na legislação da UE, impedindo o acesso do público a dados ambientais essenciais relativos a centros de dados específicos. Especialistas jurídicos alertaram que a cláusula viola a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e a Convenção de Aarhus (um tratado internacional sobre o acesso à informação ambiental), considerando tratar-se de uma violação excecional e flagrante dos princípios de transparência. Apenas os dados gerais, a nível nacional, são públicos. As comunidades afetadas, os académicos e os jornalistas não têm acesso ao impacto preciso de cada instalação. Atualmente, apenas 36 % dos centros de dados elegíveis apresentaram relatórios, e apenas 80 % desses dados são considerados precisos. A UE vai triplicar a capacidade dos centros de dados com um investimento de 176 mil milhões de euros ao longo de cinco anos, o que suscita preocupações quanto ao consumo de energia, ao consumo de água, à poluição e aos impactos nas comunidades. Fonte.
  • A Petrobras realizou a sua Assembleia Geral Ordinária. Enquanto acionistas aprovavam a distribuição de R$ 41,23 biliões em dividendos e elegiam membros do conselho de administração, organizações da sociedade civil protestaram em frente ao prédio onde se realizava a reunião, no Centro do Rio de Janeiro, exigindo uma transição energética justa, Justiça Climática e o fim da exploração de petróleo na Amazônia. Os manifestantes lembraram o do vazamento de fluido ocorrido na perfuração do poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas, em janeiro. E também destacaram que, enquanto a Petrobras lucra muito com combustíveis fósseis – a empresa teve lucro líquido de mais de R$ 110 bilhões em 2025 -, a sociedade fica com o prejuízo, sofrendo os efeitos de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e intensos devido às mudanças do clima, causadas principalmente pela queima de petróleo, gás e carvão. Fonte.

REFLEXÃO

PAINÉIS SOLARES ESTÃO A PROVOCAR CHUVAS NUM DOS LOCAIS MAIS SECOS DO PLANETA
Efosa Udinmwen, TechRadar. Trad. O’Lima.


Nos Emirados Árabes Unidos, onde a água é mais valiosa do que o petróleo, uma nova investigação sugere que os grandes parques solares podem provocar as suas próprias tempestades.

Um estudo de modelação liderado pelo cientista climático Oliver Branch, da Universidade de Hohenheim, descobriu que os painéis solares escuros absorvem mais calor do que a areia refletora do deserto circundante.

Esta diferença de temperatura gera correntes ascendentes que podem provocar chuva, fornecendo potencialmente água a dezenas de milhares de pessoas.

Os investigadores modelaram os painéis solares como superfícies quase negras que absorvem 95% da luz solar incidente.

Quando os parques solares ultrapassavam os 15 quilómetros quadrados, o aumento do calor contrastava fortemente com a areia refletora à sua volta, intensificando as correntes ascendentes que impulsionam a formação de nuvens, mas é necessária uma fonte de humidade atmosférica.

No entanto, o modelo demonstrou que os ventos húmidos de alta altitude provenientes do Golfo Pérsico seriam suficientes.

Um parque solar de 20 quilómetros quadrados aumentaria a precipitação em quase 600 000 metros cúbicos nas condições certas. Se essas tempestades ocorressem dez vezes num verão, forneceriam água suficiente para mais de 30 000 pessoas durante um ano.

«Algumas centrais solares estão a atingir a dimensão adequada neste momento… Talvez não seja ficção científica conseguirmos produzir este efeito», afirmou Branch.

Uma limitação é que os painéis solares simulados eram mais escuros do que a maioria dos fabricados atualmente, uma vez que alguns painéis solares modernos são concebidos para serem refletores, de modo a arrefecer o ambiente circundante, o que reduziria o efeito de produção de chuva.

Zhengyao Lu, cientista climático da Universidade de Lund, considerou o novo trabalho «muito estimulante», mas manifestou esta preocupação.

Branch acredita que a ideia possa ser testada no mundo real, salientando que os parques solares que estão a entrar em funcionamento na China têm dimensões quase suficientes.

Ele sugere o plantio de culturas escuras e resistentes à seca, como arbustos de jojoba, entre as linhas de painéis para potenciar o efeito.

Os Emirados Árabes Unidos financiaram a investigação de modelação de Branch, mas o país continua empenhado no seu programa de semeadura de nuvens, realizando aproximadamente 300 missões por ano.

Isto implica que as autoridades locais ainda não estão convencidas de que a precipitação induzida pela energia solar seja uma alternativa prática.

Segundo Branch e a sua equipa, este modelo poderia funcionar noutras regiões áridas, incluindo a Namíbia e a Península da Baixa Califórnia, no México.

Se futuras investigações validarem estas conclusões, o potencial de produção de chuva dos parques solares poderá proporcionar um incentivo inesperado para a expansão das energias renováveis nas regiões mais secas do mundo.

BICO CALADO

  • A TVI protege a patroa. A menina de Loures que se aguente. Jacinto Furtado.
  • Os incêndios florestais de 2025 na região de Los Angeles, que obrigaram mais de 200 000 pessoas a abandonar as suas casas, tiveram um impacto desproporcionalmente grave nas pessoas que já viviam em situação de sem-abrigo. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O QUE O SISTEMA 'VOLTA' NÃO EXPLICA SOBRE O PLÁSTICO
Ricardo Meireles, Substack.


A 10 de abril de 2026, o sistema Volta entrou em funcionamento em Portugal. As máquinas azuis instalaram-se nos supermercados, há uma caução de dez cêntimos por garrafa ou lata e o Governo apresentou a iniciativa como uma reforma estrutural da política ambiental. A SDR Portugal, um consórcio que reúne os principais produtores de bebidas e retalhistas do país e gestora do sistema, resumiu a promessa numa frase que consta tanto do comunicado oficial do Governo como dos materiais de comunicação da marca: “uma garrafa pode voltar a ser uma garrafa, uma lata pode voltar a ser uma lata.”

Será verdade para os dois materiais?

O que a frase promete

A ideia central do sistema Volta assenta num princípio de economia circular: as embalagens devolvidas seguem para centros de triagem em Lisboa e no Porto, são enviadas para recicladores, e o material resultante serve para fabricar novas embalagens. A garrafa fecha o ciclo e regressa às prateleiras. O plástico PET que hoje contém água mineral será, depois de processado, o plástico PET que amanhã voltará a conter água mineral.

Este modelo existe e tem um nome técnico: reciclagem em circuito fechado. O alumínio faz isso. O plástico, na maioria dos casos, não, e a razão está na física dos dois materiais.

Três ciclos muito diferentes

Uma nota antes de avançar: a reutilização, o modelo das garrafas de vidro lavadas e reenchidas, está fora de questão para o plástico. O vidro é um material inerte e impermeável, que suporta ciclos repetidos de lavagem a alta temperatura sem absorver contaminantes nem alterar as suas propriedades. O plástico PET é poroso a nível molecular e absorve resíduos do conteúdo anterior, odores e compostos químicos que os processos de lavagem convencional não eliminam. Por isso, o próprio FAQ da Volta classifica as garrafas abrangidas pelo sistema como "embalagens de bebidas não reutilizáveis." Uma garrafa de plástico é sempre triturada. Nunca é lavada e reenchida.

Antes de avaliar a promessa, é preciso perceber que existem três processos completamente distintos a que chamamos, de forma imprecisa, “reciclagem”.

O primeiro é a reutilização, o modelo que conhecemos das garrafas de vidro com depósito. A garrafa volta ao circuito, é lavada, desinfectada e enchida de novo. É a mesma garrafa. Não há transformação do material, não há degradação. É o ciclo mais perfeito que existe, mas não é possível para o plástico.

O segundo é a reciclagem mecânica simples do PET. A garrafa é triturada em flocos, lavada, fundida e reprocessada em pellets. O problema é químico: o PET é um polímero que absorve humidade, e a cada ciclo de fusão a reacção com a água degrada as cadeias moleculares do polímero. A qualidade diminui. Com este processo, uma garrafa aguenta dois a três ciclos antes de já não ter qualidade suficiente para voltar a ser garrafa. A maioria acaba em fibra têxtil ou tapete, entre outros. É o downcycling, em português uma espécie de reciclagem descendente. O material não desaparece, mas desce progressivamente na escala de qualidade.

William McDonough e Michael Braungart, autores de Cradle to Cradle, a obra de referência da economia circular, são directos a explicar: “a maior parte da reciclagem é na verdade downcycling, porque reduz a qualidade ao longo do tempo.” A afirmação foi publicada num estudo científico da revista MDPI sobre reciclagem de PET garrafa-para-garrafa precisamente para ser posta à prova.

O terceiro processo, mais sofisticado, adiciona uma etapa chamada Solid State Polycondensation, que reconstrói as cadeias moleculares após a fusão e restaura a qualidade do material para valores próximos do PET virgem. É tecnicamente reciclagem garrafa-para-garrafa, e é o processo que permite produzir rPET (plástico PET reciclado) de grau alimentar, apto para voltar a ser embalagem de contacto com alimentos.

A SDR Portugal afirma que o material produzido pelo sistema Volta será “adequado para contacto alimentar”, o que aponta para este terceiro processo. Mas no FAQ oficial da Volta, à pergunta directa sobre o que acontece às embalagens depois de devolvidas, a resposta é: “são enviadas para recicladores para se transformarem em novos materiais.” Sem referência ao processo técnico, sem identificação dos recicladores, sem menção ao tipo de reciclagem utilizado. E mesmo que o processo mais avançado seja efectivamente utilizado, exige mistura com PET virgem e não é comparável à reciclagem contínua do alumínio ou do vidro.

O que diz quem conhece o setor

Fonte ligada à industria do plástico granulado em Portugal, consultada para este artigo, confirma à Estação Agroflorestal que existe no país capacidade instalada para fazer reciclagem mecânica de PET com grau alimentar. O modelo é garrafa-para-garrafa: a embalagem entra, é triturada, lavada, descontaminada e sai como granulado rPET apto para voltar a ser embalagem de contacto alimentar. A mesma fonte refere que este material vale no mercado o dobro do rPET comum, o que torna este processo o mais interessante economicamente para os operadores.

A promessa da Volta é, portanto, tecnicamente possível, pelo menos nos primeiros ciclos. A cada vez que o plástico é fundido e reprocessado, as cadeias moleculares encurtam e o material perde qualidade. Ao fim de poucos ciclos, o PET já não reúne as propriedades necessárias para voltar a ser garrafa e segue para aplicações de menor valor: fibra têxtil, tapete, enchimento, ou incorporação em alcatrão para pavimento de estradas, onde o PET reciclado é usado como substituto parcial do betume.

A literatura científica documenta que estes pavimentos libertam microplásticos por desgaste mecânico, que as águas pluviais arrastam para os sistemas de drenagem, depois para os rios e finalmente para os oceanos, onde contaminam as cadeias alimentares e os ecossistemas. O plástico não desaparece. Muda de forma até deixar de ser visível.

Para a lata de alumínio, a promessa da Volta é legítima. O alumínio é um metal, e os metais têm uma propriedade que os plásticos não têm: a sua estrutura atómica permite que sejam fundidos e reformados repetidamente sem alteração das suas propriedades fundamentais. Não há degradação química. Não há downcycling. Uma lata pode efectivamente tornar-se outra lata, que pode tornar-se outra lata ainda, indefinidamente.

Uma frase, dois materiais, duas realidades

A SDR Portugal e o Governo português repetem, em comunicados e apresentações públicas, que o sistema Volta permite que uma garrafa volte a ser uma garrafa e uma lata volte a ser uma lata. A frase trata dois materiais como equivalentes. Não são.

Para o alumínio, a frase descreve um processo que existe e funciona. Para o plástico PET, descreve uma aspiração que depende de tecnologia específica que o sistema Volta não confirma utilizar, e que mesmo no melhor cenário não é infinita depende sempre de uma parte de matéria-prima virgem.

Uma nota sobre o modelo económico do sistema: Segundo a mesma fonte consultada, o rPET de grau alimentar vale no mercado o dobro do rPET comum. É plausível que a valorização deste material seja uma das alavancas que torna financeiramente sustentável pagar dez cêntimos por cada garrafa devolvida. Não há documentos públicos da SDR que confirmem este mecanismo, mas a lógica económica parece apontar nesse sentido.

O sistema Volta pode aumentar significativamente a recolha de embalagens de plástico, o que já seria um avanço real. Mas recolher mais plástico não é o mesmo que fechar o ciclo.

Apresentar garrafa de plástico PET e lata de alumínio como um ciclo único e simétrico, unidos na mesma frase pelo sistema Volta e pelo Governo português, ignora o que a ciência da reciclagem documenta sobre o comportamento destes dois materiais. É #AreiaParaOsOlhos.

Valerá a pena confrontar com esta perspetiva diferente.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

LOULÉ: CÂMARA DENUNCIA CRIME AMBIENTAL NA FOZ DO ALMARGEM


O presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto (PS), manifestou a sua indignação em relação àquilo que considera ser um crime ambiental em plena Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal, e anunciou que irá avançar com uma queixa contra os prevaricadores que estão a pôr em causa este ecossistema, com proteção legal desde 2024, e a sobrevivência de espécies únicas, algumas que se encontram em vias de extinção, nomeadamente algumas aves, mamíferos e anfíbios. Em causa está a abertura artificial indevida deste sistema húmido, em plena época de reprodução da maioria das espécies da fauna e flora aqui existente, com especial destaque para as aves, colocando em causa toda uma nova geração de espécies que ali se iriam reproduzir, durante a primavera, como acontece todos os anos. Fonte.


AUSTRÁLIA: INCÊNDIO EM REFINARIA DE PETRÓLEO AMEAÇA ABASTECIMENTO

  • Um incêndio numa das duas refinarias de petróleo que ainda restam na Austrália durou 13 horas antes de ser extinto, ameaçando o abastecimento de gasolina num país que já enfrenta as consequências da guerra entre os EUA e o Irão. A causa parece ter sido uma avaria no equipamento, provavelmente uma fuga ou um mau funcionamento de uma válvula. Fonte.
  • Quando a crise é causada pela dependência do petróleo, a solução não é petróleo mais barato. As táticas utilizadas pelos manifestantes mostram que a nossa vulnerabilidade reside no próprio sistema dos combustíveis fósseis. Durante os bloqueios, os ciclistas desfrutaram das ruas vazias de Dublin e os condutores de veículos elétricos brincaram sobre quem é que agora tinha «ansiedade de autonomia» Fonte.
  • A fabricante norte-americana de biocombustíveis Diamond Green Diesel, que exporta diesel “verde” e combustível sustentável de aviação para a Europa, comprou sebo bovino de um fornecedor abastecido por um frigorífico diretamente ligado à criação clandestina de gado na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Rondônia, revela uma reportagem da Repórter Brasil.
  • Funcionário de uma fábrica de embalagem de carne é condenado a seis fins de semana de prisão por descarregar contaminantes no rio Floyd, Iowa. Fonte.
  • Quem são os grupos a favor dos PFAS que estão a pressionar para enfraquecer as leis que protegeriam a nossa saúde? Fonte.

REFLEXÃO

NAVIGATOR: QUE CONTRAORDENAÇÕES AMBIENTAIS?

Informação sobre contraordenações ambientais foi conseguida através de ataque cibernético à Navigator. Fonte.


As alegadas infrações ambientais da Navigator, revelada por meios ilegítimos, coloca um dilema: o modo como se obtém a informação não pode ser ignorado, mas também não deve desviar o foco do essencial — saber se a empresa, que se proclama transparente e ecológica, age de acordo com esse discurso. Se os dados forem verdadeiros, estamos perante um problema grave de credibilidade. Se forem falsos ou manipulados, o ataque cibernético terá servido apenas para difamar ou eventual extorsão. Importa agora que as autoridades investiguem os factos ambientais de forma legal e célere, e que a Navigator preste os esclarecimentos devidos, sem se escudar apenas na ilicitude da prova.

BICO CALADO

  • “Ontem discutia-se se um partido que viola sistematicamente os princípios fundamentais da Constituição deveria ser proibido (obviamente que sim). Hoje, discute-se o perfil do magistrado que esse partido quer indicar para o Tribunal Constitucional. Desloca-se a 'janela' pela qual vemos o mundo, a chamada moldura Overton, e o que antes era impensável, entra na agenda política. A forma mais eficaz de deslocar a 'janela', do que é aceitável estar na agenda política, é usar os jornais, as televisões e as redes sociais. É isso que um grupo de investidores, multimilionários, tem feito, em Portugal e no resto da UE. São financiadores de campanhas de direita e extrema-direita, querem os seus lucros e fortunas a pagar menos impostos e os direitos cívicos reduzidos (a começar pelos direitos laborais). E, para já, não querem que se saiba que financiam políticos corruptos e movimentos de extrema-direita.“ Miguel Szymanski.
  • O deputado Frazão, à conta de quem paga Impostos, foi passear para a Hungria à beira do Danúbio onde "largou" várias mentiras e loas sobre a Nossa Senhora de Fátima entre o apoio ao Orban e a bela jantarada.
  • Graças à guerra de Trump contra o Irão, as grandes petrolíferas estão a arrecadar 30 milhões de dólares por hora em lucros extraordinários. Fonte.
  • Numa votação histórica no Senado, mais de 75 % dos democratas votaram a favor do bloqueio da venda de armas a Israel. Fonte.