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sexta-feira, 3 de julho de 2026

AÇORES: NUNO MELO DESACREDITA TESE DE DOUTORAMENTO APROVADA COM DISTINÇÃO E LOUVOR


Nuno Melo (CDS) desacredita tese de doutoramento aprovada na Universidade de Coimbra com distinção e louvor, patrocinada pelo governo regional dos açores (PSD-CDS). Mais: o novo doutor é filho de um conhecido militante do CDS na ilha Terceira. E Artur Lima, Vice-Presidente do CDS-PP, é Vice-Presidente do XIV Governo Regional dos Açores. Pior: Nuno Melo tem o desplante, a arrogância, de dizer que só se baseia em estudos de entidades certificadas. A Universidade de Coimbra, o Governo Regional dos Açores, o INETI (NLETI), não são entidades certificadas? Este parvo (do latim parvus, que significa pequeno, de pouca importância, sem valor, pouco inteligente) merece despedimento com justa causa. Rua, já!

No Expresso da ManhãPaulo Baldaia conversa com Vítor Matos, o jornalista que tem estado a escrever sobre esta matéria no Expresso. Há terrenos contaminados na ilha Terceira, junto à base das Lages, e isso mesmo é reconhecido pelos próprios norte-americanos. Não é nada de muito surpreendente e acontece junto a bases militares nos Estados Unidos e noutros países onde a América está ou esteve presente.

Toda esta situação é, do ponto de vista institucional, científico e político, profundamente reprovável.
Primeiro, um ministro da Nação não tem legitimidade para desacreditar o mérito científico de uma tese aprovada com distinção e louvor por uma universidade. Demonstra soberba intelectual, equiparando o seu achismo político ao conhecimento validado pelo método científico. Isto é um ataque direto à autonomia e à credibilidade do ensino superior.
Segundo, sendo ele do mesmo partido do membro do governo regional que patrocinou a investigação, a atitude revela uma contradição gritante: ou o ministro está a desautorizar publicamente o seu próprio colega de partido e a estrutura regional que governa, revelando uma profunda falta de coesão e verticalidade partidária, ou, o que é muito pior, está a fazer uma leitura tacanha e egoísta da política, na qual a defesa do interesse regional (mesmo que do seu partido) é sacrificada em prol da narrativa nacional do ministério. Em ambos os casos, demonstra que o partido não fala a uma só voz e que a lealdade à verdade científica é menor do que a disputa interna de poder ou de narrativa mediática.
Terceiro, a investigação foi patrocinada por um governo regional — ou seja, com fundos públicos. Ao desacreditá-la, o ministro está, indiretamente, a classificar esse investimento público como um desperdício ou um erro. Isto é um desrespeito pelos contribuintes daquela região e uma bofetada na autonomia financeira e administrativa dos Açores.
Quarto, ao desvalorizar uma tese com selo de qualidade universitário, Nuno Melo envia uma mensagem perigosa à sociedade: a de que a ciência só é válida se servir a agenda política de Lisboa e que o mérito académico pode ser anulado por um despacho ministerial. Isto é um retrocesso civilizacional e um incentivo à mediocridade, pois desincentiva os investigadores a procurar a distinção se esta puder ser politicamente "cancelada" depois.
Neste episódio deplorável, Nuno Melo revela falta de verticalidade, de bom senso e de decoro. Um verdadeiro estadista, mesmo que discorde das conclusões de um estudo, valoriza o esforço da investigação e, se necessário, encomenda outro estudo com metodologia diferente para contrapor — nunca desacredita ad hominem o trabalho alheio. Nesta situação, Nuno Melo não só prejudica a imagem do próprio partido (ao expor as suas divisões), como fere a honra da universidade e desrespeita a inteligência dos cidadãos, que percebem que o ataque não é à tese, mas à origem política ou às conclusões inconvenientes que ela possa ter.

Para aceder a todo este ‘filme’ da contaminação dos solos e das águas junto à Base das Lages, na Ilha Terceira, consulte-se o Ambiente Ondas3.



ESPINHO: ANTA QUER REVER O PROJETO DA ALTA VELOCIDADE


A Junta de Freguesia de Anta defende a revisão do projeto da Linha Ferroviária de Alta Velocidade entre Campanhã e Oiã nas zonas em que considera existirem impactos mais gravosos para o território, a população e o ambiente.

Anta é uma das freguesias mais penalizadas pelo traçado, num território que já foi marcado, nas últimas décadas, pelo seccionamento provocado pelas autoestradas A29 e A41. A Junta alerta para a perda de espaços florestais, áreas ecológicas e recursos hídricos, bem como para impactos na paisagem, na mobilidade local e na qualidade de vida da população. Uma das principais preocupações diz respeito à ponte prevista sobre a Ribeira de Silvalde, com cerca de 614 metros. A Junta entende que a estrutura não apresenta preocupação suficiente de integração paisagística ou valorização arquitetónica, podendo agravar a fragmentação de um território já atravessado por grandes infraestruturas. O lugar de Esmojães é apontado como uma das zonas mais sensíveis, pelo risco de ficar cercado por vias rodoviárias e ferroviárias. A Junta de Anta reclama o reforço das medidas de compensação, defendendo a criação de corredores verdes, a rearborização das áreas afetadas e a proteção efetiva da Ribeira de Silvalde, da Ribeira da Gaiteira* e dos recursos hídricos existentes. Entre as preocupações está também a salvaguarda da Fonte do Pereirocuja água continua a ser procurada regularmente pela população. A autarquia defende ainda que o projeto deve garantir a proteção das redes de abastecimento de água, drenagem e saneamento, bem como a monitorização da estabilidade da ponte da Rua da Aldeia Nova sobre a Ribeira da Gaiteira. MV 1jul2026.

* Em 2023, os vizinhos alertavam para visíveis desgastes nos seus pilares.

FRANÇA: EPSON JULGADA POR OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

  • A fabricante de impressoras Epson vai ser julgada por crime de obsolescência programada e enfrenta uma multa de 300 000 euros. A associação HOP denuncia um desperdício «desolador». Fonte.
  • Uma expedição recolheu amostras em torno dos barris que continham resíduos radioativos imersos no Oceano Atlântico até 1990. Chegou agora o momento de proceder à análise para compreender os efeitos desta prática nos fundos marinhos. Fonte.
  • Cinco projetos de energia solar na Tunísia foram adjudicados a multinacionais, em benefício exclusivo do capital estrangeiro. Estamos perante a prossecução de políticas neocoloniais sob o pretexto da «transição verde». Fonte.
  • Nos primeiros seis meses de 2026, jornais britânicos como o The Sun, Daily Telegraph e The Times já publicaram 63 editoriais defendendo mais perfuração de petróleo e gás no Mar do Norte. Isto contradiz um facto: a extração no Mar do Norte já vinha em declínio há décadas, e a viabilidade/impacto de aumentar perfurações teria pouca influência sobre contas de energia no curto prazo e apenas efeito limitado na segurança energética, dada a forma como os combustíveis são comprados/vendidos a preços internacionais e a dependência do Reino Unido de gás e importações. Fonte.

BICO CALADO


Ann Telnaes
  • “Num acto de extorsão por parte dos EUA, foi assinado no ano passado um acordo humilhante para a União Europeia que entra em vigor esta semana. A senhora Ursula von der Leyen viajou no verão passado até à Escócia, ao encontro do prepotente Trump de férias num dos seus campos de golf, para colocar o desacreditado nome de presidente da Comissão Europeia no documento. Para entrarem nos EUA, os produtos da UE passaram a ter uma taxa de 15% (em média três vezes mais do que antes), no sentido inverso, a taxa dos produtos dos EUA que entram na UE foi reduzida a Zero. (…) E o que faz António Costa? Congratula-se, chama-lhe um "Grande Dia". E acrescenta: "Hoje é um bom exemplo de como, através de acordos comerciais, conseguimos garantir uma relação comercial justa e previsível com os nossos parceiros, nomeadamente com os Estados Unidos". Costa pode falar mal inglês e miseravelmente francês, mas já é fluente em novilíngua, esse idioma de controlo político que distorce a realidade e foi inventado por Orwell para descrever uma distopia.” Miguel Szymanski, Costa chama "Grande dia" a humilhação da UE.
  • A Comissão Europeia recusa-se a divulgar 17 relatórios secretos sobre infraestruturas financiadas pela UE em Gaza, que poderiam revelar mais provas da destruição, por parte de Israel, de projetos civis apoiados pela Europa e aumentar a pressão sobre Bruxelas para que analise se a sua parceria contínua com Israel viola as obrigações em matéria de direitos humanos que sustentam as relações entre a UE e Israel. A recusa ocorreu no mesmo dia em que um inquérito da ONU concluiu que Israel continua a cometer genocídio em Gaza, atacando deliberadamente crianças palestinianas, o que levanta questões sobre se a UE estará a ocultar provas que poderiam reforçar os apelos para suspender ou rever os seus acordos com Israel. De acordo com o jornalista do EUobserver Nikolaj Nielsen, a recusa foi assinada a 23 de junho por Michael Karnitschnig, chefe interino do departamento da Comissão responsável pelo Médio Oriente. Fonte.
  • A Holanda é o principal destino do investimento israelita no estrangeiro. Será que isso se deve ao facto de o sistema holandês permitir que as empresas evitem o pagamento de impostos quando investem noutros países através da Holanda, recorrendo frequentemente a empresas de fachada? Fonte.
  • Israel cede por um dólar aos EUA terreno confiscado aos palestinianos para embaixada em Jerusalém. Fonte.
  • A carreira política de Nigel Farage está em crise depois de ter sido apanhado a mentir sobre um donativo de 5 milhões de libras proveniente de um bilionário tailandês do setor das criptomoedas. O seu chocante desrespeito pelas regras, as suas mentiras incessantes e a sua falta de resistência transformaram um escândalo numa tempestade mediática que não dá sinais de abrandar. Fonte.

Gosto muito deste título: ‘Lisboa, capital mundial do azeite’.
  • A transferência da Refinaria de Sines para a IndustrialCo — uma nova sociedade controlada maioritariamente pela espanhola Moeve, na qual a Galp deterá apenas cerca de 20% — está a ser alvo de fortes críticas por parte da Comissão Central de Trabalhadores (CCT) da petrolífera portuguesa. Em comunicado divulgado esta quarta-feira, a CCT acusou o negócio de colocar em risco a soberania energética nacional e a continuidade da infraestrutura Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O TRATAMENTO DADO À SELEÇÃO IRANIANA NO MUNDIAL REVELOU OS DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS DO OCIDENTE E DA FIFA
Fatima Bhutto, Substack. Rev, O’Lima.


Quando a seleção iraniana de futebol partiu de Los Angeles após o seu segundo jogo no Mundial de 2026, deixou para trás um bilhete escrito à mão no vestiário, agradecendo à cidade pela «sua hospitalidade».

A cortesia iraniana é famosa, mas «hospitalidade» não é a palavra que me vem à cabeça quando penso na forma como a seleção nacional iraniana tem sido tratada pela FIFA e pelos Estados Unidos, um dos países anfitriões do Mundial de 2026. Não só o presidente Donald Trump não deu as boas-vindas à equipa em marçoafirmando que não considerava «apropriada» a participação da equipa no torneio, invocando possíveis perigos para as suas «vidas e segurança», como o seu governo recusou o maior número possível de vistos, exigiu que a equipa deixasse os EUA imediatamente após cada jogo e obrigou-a a estabelecer a sua base do outro lado da fronteira, no México, permitindo inicialmente a entrada nos grandes Estados Unidos apenas nas 24 horas que antecediam um jogo. Quando o hino nacional iraniano foi tocado, como é habitual, antes dos seus dois jogos no Estádio de Los Angeles, parte da multidão vaiou.

Em todas as conferências de imprensa, jornalistas que passaram a carreira a fazer perguntas fáceis aos desportistas fizeram questão de interrogar o capitão iraniano Mehdi Taremi da forma mais irritante possível, perguntando-lhe, após o empate 1-1 da equipa contra o Egito, se apoiava as pessoas LGBT.

«Respeitamos todas as pessoas LGBT», respondeu Taremiantes de perguntar se o jornalista tinha alguma pergunta sobre o próprio jogo de futebol que tinha sido disputado. Só podemos supor que Kylian Mbappé, o capitão francês, tenha sido questionado sobre a estagnação da economia francesa provocada por Emmanuel Macron, que o capitão austríaco tenha sido questionado sobre o fascínio do seu país por políticos de extrema-direita e que o capitão da seleção argentina tenha sido obrigado a responder sobre o motivo pelo qual Javier Milei é tão excêntrico. Mas isso não aconteceu.

Será que perguntaram ao capitão dos EUA sobre o financiamento do seu país ao genocídio de Israel em Gaza, ou sobre o bombardeamento de uma escola de raparigas que matou pelo menos 100 crianças em Minab no primeiro dia da guerra de Trump contra o Irão? Não? Que surpresa.

Tenho idade suficiente para me lembrar de quando as celebridades americanas e os comentadores britânicos fizeram um alarido por o Qatar ser anfitrião do Mundial.

Taremi fala sobre o golo anulado no final do jogo e sobre a invencibilidade na Copa do Mundo. Youtube (9’)

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O PARADOXO ESTÉTICO DA CENOURA

  • “Num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade, desperdício alimentar, cadeias curtas, remuneração justa ao produtor e soberania alimentar, continuamos presos a uma lógica absurda: a estética tornou-se critério económico da agricultura. E, demasiadas vezes, manda mais do que o sabor, a origem, a frescura, o valor nutritivo ou o modo como aquele alimento foi produzido.” António Martins Bonito, O Império da Cenoura Perfeita – Vida Rural.
  • Os dois reatores nucleares de Beznau, na Suíça, arrefecidos com água do rio Aare, foram desligados da rede devido ao sobreaquecimento da água. Fonte.
  • Condado com 37 centros de dados pede às escolas que «poupem eletricidade». O Condado de Henrico é um importante centro de centros de dados na Virgínia. As autoridades locais afirmaram que prevêem um aumento de 25% nos custos de eletricidade no próximo ano e aconselharam os trabalhadores a fechar as persianas e a desligar os computadores para compensar esse aumento. Fonte.

BICO CALADO

  • Os EUA são o principal destino mundial para a lavagem de dinheiro sujo através do setor imobiliário, revelou a mais recente atualização do Índice de Sigilo Financeiro. As leis de transparência fracas ou inexistentes valeram aos EUA a pior pontuação possível no indicador de propriedade imobiliária do Índice, com o Canadá e o México, também anfitriões do Mundial, logo atrás, em segundo e quinto lugar, respetivamente, no ranking dos destinos imobiliários para dinheiro sujo. Fonte.
  • A «Polícia Antiterrorista» do Reino Unido deteve advogado norte-americano e ativista dos direitos humanos por críticas a Israel. Dan Kovalik foi detido para interrogatório no Aeroporto Internacional John Lennon, em Liverpool, Inglaterra, por mais de duas horas. Fonte.
  • “As celebrações dos 50 anos da Autonomia continuam transformadas numa espécie de peditório anual da Liga Contra o Cancro, com políticos de todos os quadrantes a agitarem, com uma mão, a bandeira das conquistas autonómicas e, com a outra, a estenderem-na para que alguém nos pague as contas.” Pedro Arruda.
  • “A denúncia é a atitude de quem não luta, não se reúne, face a face, não vai ao plenário, não debate frontalmente, mas faz queixinhas. E o destino da queixinha? A União Europeia foi cuidadosa na diretiva: o destino é decidido pelo chefe ou o diretor ou a comissão “independente” por ele nomeada. E aí dá para tudo. Se gosta de beltrano, que é um corrupto, a queixinha serve para o corrupto ser mais fiel ao chefe e até ajudar o diretor a ser corrupto também. Se o chefe não gosta de sicrano, que fez uma denúncia de assédio moral, sicrano nunca mais passa no SIADAP, sistema de penalização e medo, autodesignado de “avaliação” na função pública. Perdão, função do Estado, que de público, já sabemos, só temos a vergonha da ausência de serviços e a condenação de impostos asfixiantes.” Raquel Varela, O delator e o chefe Maio.
  • O ataque à Escola Pública em 3 atos. Jorge Humberto Nogueira, Esquerda.

REFLEXÃO

A ONDA DE CALOR VAI DESENCADEAR MEDIDAS CONCRETAS OU VAI APENAS AGRAVAR AS GUERRAS CULTURAIS?
Christina Macpherson, Nuclear-news. Rev. O’Lima.


As condições meteorológicas extremas da semana passada deveriam impulsionar a resposta política ao aquecimento global. Mas o triste paradoxo é que isso poderá reforçar o apoio a partidos céticos em relação às alterações climáticas

Seria compreensível pensar que a onda de calor da semana passada na Europa seria um momento mobilizador para a ação face à crise climática. A certa altura, mais de 150 milhões de europeus sofreram com temperaturas superiores a 35 °C (95 °F) – com várias partes do continente a registarem valores acima dos 40 °C. Nunca se registou uma onda de calor desta magnitude tão cedo no ano.

Quando os cientistas concluírem os seus cálculos, o número de mortos provavelmente ascenderá a milhares. Espanha, um dos poucos países que produz estatísticas em tempo real sobre mortes em excesso relacionadas com o calor, registou mais de 100 por dia desde quarta-feira. As autoridades francesas afirmaram que foram registadas pelo menos mais 1 000 mortes entre 24 e 27 de junho, um número que provavelmente irá aumentar. Entre elas contam-se quatro crianças pequenas que morreram em incidentes relacionados com o calor. Um menino de três anos, num subúrbio de Paris, foi encontrado morto na semana passada depois de ter entrado num carro e ficado preso lá dentro.

Há uma inevitabilidade desoladora em torno destes acontecimentos: os cientistas há muito que alertam para a sua chegada. No entanto, os países não têm feito o suficiente para reduzir as emissões provenientes dos combustíveis fósseis que estão a causar estes fenómenos meteorológicos extremos — nem para se adaptarem às realidades da gestão do impacto nos seus sistemas de transportes e de saúde. (…)

Por vezes, os fenómenos meteorológicos relacionados com o clima podem ter um impacto temporário, afirma Ajit Niranjan, correspondente do The Guardian para assuntos ambientais na Europa: «Uma tendência que é possivelmente a mais contraintuitiva em relação a este tipo de momentos é que os partidos de extrema-direita que negam a ciência das alterações climáticas podem receber um certo impulso devido a fenómenos meteorológicos extremos», continua Ajit. «Eles apresentam o clima extremo como um fracasso da política governamental, argumentando que o foco nas alterações climáticas fez parte do problema inicial e que se trata, antes, de má gestão.»

Em muitos casos, como nas inundações de 2024 em Valência, em que mais de 230 pessoas perderam a vida depois de ter caído, em oito horas, o equivalente a um ano de chuva em algumas regiões do leste de Espanha, ambas as coisas são verdadeiras: o clima provocou o fenómeno meteorológico extremo, mas a má governação contribuiu para o desfecho mortal. É provável que esta dinâmica se torne cada vez mais comum à medida que os fenómenos meteorológicos extremos ganham frequência.

«É preciso abordar ambos os aspetos desta questão», afirma Ajit. «Há uma tendência estranha em que os partidos políticos negam completamente uma das causas, concentrando-se apenas no clima ou apenas na adaptação, sem terem um bom plano para a outra. Isto faz certamente parte da estratégia utilizada pelos partidos de extrema-direita para atacar a política climática.»

LEITURAS MARGINAIS

OS DEPLORÁVEIS E O ESPELHO II. O PARADOXO DO VOTO
Jorge Rocha, Ventos Semeados.


Há uma aldeia no interior de Portugal — escolha-se qualquer uma, servem quase todas — onde fecharam a escola, a extensão de saúde, a estação dos correios e o último café que ainda juntava gente ao fim da tarde.

Os jovens partiram. Ficaram os velhos e ficou o ressentimento.

Nessa aldeia, nas últimas eleições, o Chega cresceu. E a pergunta que a esquerda faz, perplexa, é o porquê? Porque votam estas pessoas em quem nunca lhes dará escola, saúde, correios nem café?

O mesmo se pergunta no cinturão industrial do norte de França, onde Le Pen colhe o voto de operários que outrora votavam comunista. Ou nas cidades pós-industriais inglesas que Farage convenceu a votar pelo Brexit contra os seus próprios empregos.

O paradoxo é internacional: os mais pobres votam em quem governa para os mais ricos. Trump corta impostos aos milionários e enche comícios de gente que mal chega ao fim do mês. Ventura defende o IRS proporcional, que beneficia quem mais ganha, e recolhe aplausos de quem menos tem.

A tentação de explicar isto por estupidez é grande e é errada. Não é estupidez. É outra coisa, mais funda e mais difícil de combater: é dignidade ferida à procura de quem a reconheça.

Quem perdeu a fábrica não ficou só sem o salário. Perdeu o lugar no mundo, a utilidade, o orgulho de quem produzia algo. Quem viu a aldeia esvaziar-se não se viu apenas sem os serviços — perdeu a sensação de pertencer a um país que se lembra de que existe. E durante décadas, quem deveria estar do seu lado andou distraído.

A esquerda, quando governou, geriu globalizações que deslocalizaram fábricas, assinou tratados que premiaram o capital móvel e abandonou o território profundo à sua sorte, ocupada com causas que, sendo justas, não chegavam à mesa onde faltava o pão.

O populismo de direita percebeu este vazio antes da esquerda. Não o preencheu com soluções — não tem nenhuma —, mas com algo que a esquerda deixou de oferecer: atenção. Ventura vai à aldeia, fala a sua língua, nomeia a sua raiva e dá-lhe um culpado com cara e nome. É mentira, mas é a de quem escuta.

Ora, quem se sente escutado perdoa muita mentira a quem lhe dá atenção.

O voto contra o próprio interesse material não é irracional, mas escolha de quem prefere quem lhe reconhece a existência a quem lhe explica o erro. Entre o doutor que tem razão e o demagogo que lhe dedica tempo, ganha quase sempre o segundo.

Resta saber com que matéria se constrói esta mentira reconfortante — e por que razão resiste mesmo quando a realidade a desmente todos os dias. É o que veremos a seguir.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

ESPANHA: BANDEIRAS PRETAS 2026

  • Após a inspeção dos mais de 8 000 quilómetros das costas espanholas, a Ecologistas en Acción apresenta o relatório «Bandeiras Negras 2026». Das 48 bandeiras negras atribuídas este ano, destacam-se: Urbanização da costa e invasão do domínio público marítimo-terrestre (8 bandeiras), despejos, deficiências nos sistemas de saneamento e graves problemas de depuração (14 bandeiras), impactos na biodiversidade (9 bandeiras), acumulação de lixo, plásticos e microplásticos na costa (2 bandeiras), obras portuárias ou de defesa costeira desnecessárias ou mal geridas (3 bandeiras), poluição química (7 bandeiras), danos ao património histórico e cultural no domínio público marítimo-terrestre (1 bandeira) e degradação ambiental resultante da turistificação e da sobrelotação (4 bandeiras). Bandeiras negras de 2026 por tipo, aqui.
  • A rápida expansão da energia solar em Espanha suscitou preocupações quanto ao excesso de capacidade, levando alguns investidores a procurar oportunidades noutros locais, nomeadamente no mercado norte-americano. Esta mudança é influenciada pela necessidade de diversificação e pelos desafios enfrentados no mercado interno. Fonte.
  • Alta velocidade Évora-Elvas pronta e parada desde janeiro. IP e IMT passam as culpas. Fonte.
  • Dois meses depois de a administração Trump ter cancelado dois grandes contratos de arrendamento para energia eólica offshore, o Departamento do Interior dos EUA anunciou um acordo com a Duke Energy. A empresa desiste do projeto de energia eólica offshore Carolina Long Bay, previsto para gerar energia para abastecer 300 mil residências e redireciona os 129 milhões para investir em centrais a gás ou tecnologias nucleares. Fonte.
  • A canadiana Reflect10 desenvolveu um projeto de módulo fotovoltaico que diz poder aumentar a produção de energia em 20 % em comparação com um módulo solar convencional. Em vez de recorrer a espelhos externos, a Reflect10 diz que o seu projeto incorpora uma geometria refletora na arquitetura do módulo, onde a luz solar é refletida várias vezes antes de ser absorvida pelas células fotovoltaicas, aumentando a captura de fotões sem alterar as próprias células. Fonte.

BICO CALADO

Cartune: Bruce MacKinnon
  • Dez anos após o Brexit, a economia britânica sofreu uma queda de 6 a 8%, o investimento e a produtividade entraram em colapso e a instabilidade política atingiu níveis históricos. Mas, para além do desastre económico, Londres assumiu uma posição muito mais beligerante em relação à Rússia, como forma de compensação pelas suas perdas políticas e económicas — uma estratégia tácita que está a conduzir o resto da Europa para uma guerra aberta. Com os EUA e outras nações a não proporcionarem acordos comerciais adequados, Londres passou a tentar ganhar a simpatia da Europa através de uma postura belicista em relação à Ucrânia. A UE continua a ser «o prémio principal» para a Grã-Bretanha — e apoiar a guerra por procuração é o preço da readmissão no seio da Europa. Fonte.
  • A alemã Allianz e a sua filial norte-americana PIMCO acumularam, pelo menos, 2,67 mil milhões de dólares em obrigações do Estado israelita desde 2024. FontePor outro lado, o Barclays e o BNP Paribas deixaram de subscrever obrigações de Israel.
  • Por que razão o valor do Brent desce mas os preços dos combustíveis se mantêm em Portugal? Fonte.
  • Um artigo intitulado «Identidade política para além da política: a preferência por Messi ou Ronaldo em 26 países» analisa os indicadores políticos da preferência de uma pessoa por estrelas do futebol, como Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo. Os investigadores inquiriram mais de 10 000 adultos em 26 países e descobriram que as pessoas que se identificavam como mais liberais tendiam a preferir Messi, enquanto as que se consideravam mais conservadoras preferiam Ronaldo, e as pessoas que consumiam frequentemente notícias em vídeos curtos preferiam Ronaldo, enquanto o consumo de meios de comunicação tradicionaisnão foi um indicador significativo de nenhuma das preferências. Via Hanaa' Tameez, Nieman Lab.
  • O músico brasileiro Sérgio Pererê foi detido no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Viajava com a cantora Badi Assad e o violinista Kevin Callahan para Berlim a convite de um festival. Ele ficou detido para interrogatório durante 4 horas enquanto os outros músicos seguiam viagem. A sua detenção só acabou com a intervenção de uma advogada e da convocação da imprensa. Com o atraso, a mala com os instrumentos chegou fora de horas e Pererê teve de improvisar no primeiro concerto. O Bloco de Esquerda questiona o Governo de Luís Montenegro, classifica a situação como uma "retenção injustificada" e exige esclarecimentos sobre o ocorrido.

LEITURAS MARGINAIS

A TORRE DA LELLO E DA AUTARQUIA TREMEU*



Erguer uma "Cidade-Livro" no coração do Porto parecia, no papel, o pináculo do esclarecimento cultural. Sob o mote de BABELL, a Fundação Livraria Lello, de braço dado com a Câmara Municipal do Porto, propôs-se a erguer uma torre contemporânea de pensamento, unindo a urbe sob a celebração da palavra.

Mas o mito de Babel não é uma fábula sobre harmonia — é uma narrativa humana, demasiado humana, escrita por homens para dar sentido à soberba dos homens. Não há punição divina em Babel: há apenas o inevitável colapso de quem tenta centralizar o mundo em torno de si. A história, caprichosa na sua ironia, repetiu-se na Invicta com precisão cirúrgica.

O primeiro abalo na estrutura desta torre cultural deu-se na própria gramática do festival. Ao assumir o inglês como língua franca que tudo unificaria, a organização mimetizou os babilónios que recusavam a dispersão. Perante a recusa do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em vergar o seu pensamento ao Globalese comercial, o Jardim do Pensamento transformou-se num palco de incompreensão e protesto. Logo ele, o pensador que tornou a filosofia acessível às massas, acabou silenciado pela ausência de tradução.

A sua presença no Porto tornou-se o espelho da sua própria obra: a denúncia da homogeneização cultural e da pressa de uma sociedade hiperconectada que já não sabe escutar o Outro.

A ironia adensa-se quando olhamos para o alinhamento dos autores do certame. Aponto alguns, o húngaro László Krasznahorkai, cujo romance Herscht 07769 traça a radiografia da decadência ocidental e da inevitabilidade de uma catástrofe que se instala quando as instituições falham; o aviso da canadiana Margaret Atwood, cujas distopias ensinam como o poder absoluto, disfarçado de missão cultural, começa sempre por purgar a dissidência e ditar quem tem direito à palavra. Os autores convidados escrevem contra a opressão e o esmagamento das minorias. Os seus nomes foram usados como tijolos para edificar uma Babel que faz precisamente aquilo que as suas obras repudiam.

Pois é sob o manto desta "missão cultural" que o grupo Lionesa (grupo com uma biografia empresarial que, ela própria, mereceria um capítulo de Atwood), proprietário da Lello, decidiu falar a língua mais clara do nosso século: a do Capital. Em fevereiro de 2025, a Lello Vitória — Livros e Turismo, Lda. adquiriu o imóvel no 19A da Travessa da Rua do Loureiro e notificou a Associação Comunidade do Bangladesh do Porto de que o seu contrato de arrendamento não seria renovado após outubro de 2025. A mesquita Hazrat Hamza, instalada naquele espaço desde 2003, recebe centenas de fiéis diariamente — e cerca de 1.500 às sextas-feiras. O objetivo declarado do grupo é transformar aquele quarteirão num "circuito criativo" higienizado e apelativo para o turismo de elite. Seria redutor, contudo, carregar toda a responsabilidade sobre a Lello. A situação foi agravada por uma sequência de decisões políticas que deixaram a comunidade sem saída. O anterior presidente da Câmara, Rui Moreira, prometera à associação a cedência do direito de superfície de um espaço alternativo na Rua da Porta do Sol — uma solução que nunca chegou a ser votada por o mandato estar a chegar ao fim e o atual presidente, Pedro Duarte, anunciou depois a intenção de colocar esses imóveis em hasta pública, declarando que "a construção de mesquitas não é prioridade". A comunidade ficou presa entre a indiferença de um executivo e a expansão imobiliária de outro.

Há aqui uma camada de ironia que transcende o óbvio. A narrativa de Babel não pertence apenas à tradição cristã ocidental que a Lello parece invocar como ornamento cultural. É uma história das três religiões abraâmicas — Judaísmo, Cristianismo e Islão partilham o mesmo Deus de Abraão, e a comunidade do Bangladesh, maioritariamente muçulmana sunita, venera essa mesma origem. O festival baptizado com o nome de uma torre que simboliza a arrogância humana expulsa, precisamente, uma comunidade que lê o mesmo texto fundador pela outra face. Babel, afinal, não foi construída por infiéis: foi construída por quem acreditava ser o único centro do mundo.

Acresce que esta comunidade do Bangladesh atravessa em Portugal uma visibilidade pública carregada de ambiguidade. Os cartazes que apareceram em Lisboa a dizer "Isto não é o Bangladesh", os debates mediáticos sobre representatividade da comunidade imigrante e a associação, por vezes apressada, entre a presença bangladeshiana e tensões urbanas, criaram um clima em que estas pessoas chegam ao espaço público já marcadas. Mas seria um erro de lógica — e de justiça — confundir o estigma construído pela opinião pública com uma razão para o silêncio à volta do seu despejo. São pessoas que vivem, trabalham e rezam no Porto há mais de duas décadas e cuja única relação com o festival BABELL é a de quem foi removido para que ele pudesse acontecer com maior conforto estético.

O escrutínio público já começou a fazer o seu trabalho. A torre da Lello e da autarquia tremeu porque esqueceu a lição fundamental que o próprio mito de Babel nos ensina — não como castigo divino, mas como consequência humana previsível: a tentativa de centralizar o poder, de homogeneizar a cultura e de passar por cima do Outro em nome de um monumento próprio atrai sempre a sua própria e justa ruína. A cultura real do Porto não se decreta por contratos de despejo. Sobrevive na tradução, na tolerância e na resistência daqueles que recusam ser apagados da fotografia da cidade.

* O título é da responsabilidade do Ambiente Ondas3.