‘Nuno Melo (CDS) desacredita tese de doutoramento aprovada na Universidade de Coimbra com distinção e louvor, patrocinada pelo governo regional dos açores (PSD-CDS). Mais: o novo doutor é filho de um conhecido militante do CDS na ilha Terceira. E Artur Lima, Vice-Presidente do CDS-PP, é Vice-Presidente do XIV Governo Regional dos Açores. Pior: Nuno Melo tem o desplante, a arrogância, de dizer que só se baseia em estudos de entidades certificadas. A Universidade de Coimbra, o Governo Regional dos Açores, o INETI (NLETI), não são entidades certificadas? Este parvo (do latim parvus, que significa pequeno, de pouca importância, sem valor, pouco inteligente) merece despedimento com justa causa. Rua, já!
No Expresso da Manhã, Paulo Baldaia conversa com Vítor Matos, o jornalista que tem estado a escrever sobre esta matéria no Expresso. Há terrenos contaminados na ilha Terceira, junto à base das Lages, e isso mesmo é reconhecido pelos próprios norte-americanos. Não é nada de muito surpreendente e acontece junto a bases militares nos Estados Unidos e noutros países onde a América está ou esteve presente.
Toda esta situação é, do ponto de vista institucional, científico e político, profundamente reprovável.
Primeiro, um ministro da Nação não tem legitimidade para desacreditar o mérito científico de uma tese aprovada com distinção e louvor por uma universidade. Demonstra soberba intelectual, equiparando o seu achismo político ao conhecimento validado pelo método científico. Isto é um ataque direto à autonomia e à credibilidade do ensino superior.
Segundo, sendo ele do mesmo partido do membro do governo regional que patrocinou a investigação, a atitude revela uma contradição gritante: ou o ministro está a desautorizar publicamente o seu próprio colega de partido e a estrutura regional que governa, revelando uma profunda falta de coesão e verticalidade partidária, ou, o que é muito pior, está a fazer uma leitura tacanha e egoísta da política, na qual a defesa do interesse regional (mesmo que do seu partido) é sacrificada em prol da narrativa nacional do ministério. Em ambos os casos, demonstra que o partido não fala a uma só voz e que a lealdade à verdade científica é menor do que a disputa interna de poder ou de narrativa mediática.
Terceiro, a investigação foi patrocinada por um governo regional — ou seja, com fundos públicos. Ao desacreditá-la, o ministro está, indiretamente, a classificar esse investimento público como um desperdício ou um erro. Isto é um desrespeito pelos contribuintes daquela região e uma bofetada na autonomia financeira e administrativa dos Açores.
Quarto, ao desvalorizar uma tese com selo de qualidade universitário, Nuno Melo envia uma mensagem perigosa à sociedade: a de que a ciência só é válida se servir a agenda política de Lisboa e que o mérito académico pode ser anulado por um despacho ministerial. Isto é um retrocesso civilizacional e um incentivo à mediocridade, pois desincentiva os investigadores a procurar a distinção se esta puder ser politicamente "cancelada" depois.
Neste episódio deplorável, Nuno Melo revela falta de verticalidade, de bom senso e de decoro. Um verdadeiro estadista, mesmo que discorde das conclusões de um estudo, valoriza o esforço da investigação e, se necessário, encomenda outro estudo com metodologia diferente para contrapor — nunca desacredita ad hominem o trabalho alheio. Nesta situação, Nuno Melo não só prejudica a imagem do próprio partido (ao expor as suas divisões), como fere a honra da universidade e desrespeita a inteligência dos cidadãos, que percebem que o ataque não é à tese, mas à origem política ou às conclusões inconvenientes que ela possa ter.
Para aceder a todo este ‘filme’ da contaminação dos solos e das águas junto à Base das Lages, na Ilha Terceira, consulte-se o Ambiente Ondas3.