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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

FRANÇA: ABANDONADA A PISTA DE ESQUI ARTIFICIAL DE ARTOUSTE

© Thibaut Durand / Hans Lucas / Hans Lucas via AFP
  • A estação de Artouste, nos Pirenéus, desistiu da sua pista de esqui artificial. Os políticos ecologistas criticaram este projeto que visava manter o esqui a todo o custo, apesar da escassez de neve. Fonte.
  • À medida que as catástrofes climáticas fazem subir o preço dos seguros residenciais, três estados dos EUA (California, New York e Hawaii) ponderam dar poderes aos seus procuradores estaduais para processarem os principais poluidores pelo seu papel no aumento desses custos. Fonte.

REFLEXÃO

KRISTIN: A CULPA É DO VENTO?
Jonas van Vossole, O Maio.



(…) A culpa não é do vento.

Os chamados “desastres naturais” nunca são apenas naturais. Aliás, a própria “Natureza” moderna, entendida como algo separado do “homem” ou da “civilização”, é uma invenção histórica do capitalismo. Essa separação serve um propósito muito concreto: designar como externo aquilo que estaria fora do controlo e da responsabilidade humana e, ao mesmo tempo, legitimar o seu tratamento como recurso gratuito, passível de colonização e exploração em nome do lucro. Esta imagem falsa — que apresenta a crise como algo inevitável ou exterior — limita a nossa capacidade de ação e naturaliza a inação perante catástrofes que se apresentam como fatalidades.

É por isso fundamental perceber que os desastres chamados “naturais” são sempre, acima de tudo, desastres sociais e políticos. Isso torna-se evidente tanto nas suas consequências como nas suas causas. Eventos catastróficos deste tipo afetam as populações de forma profundamente desigual: penalizam sobretudo quem vive em territórios mais expostos, com infraestruturas precárias, serviços públicos fragilizados e menor capacidade de resposta. Um episódio climático extremo não tem o mesmo impacto sobre quem vive em habitações sólidas e seguras e sobre trabalhadores empurrados para habitações pré-fabricadas, ou obrigados a deslocar-se e a trabalhar durante a noite em condições meteorológicas adversas.

Mas também as próprias causas destes desastres estão longe de ser neutras. As alterações climáticas, amplamente documentadas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), tornam estes fenómenos cada vez mais frequentes e intensos, refletindo interesses económicos e políticos que colocam o lucro acima da vida. Não se trata de acaso, mas de um modelo económico predatório assente na extração contínua de recursos, na expansão da petroquímica, da agroindústria intensiva e dos transportes fósseis. A isto soma-se a urbanização desordenada, a desflorestação e o abandono do território. A responsabilidade recai sobre um sistema capitalista que coloca o lucro acima da vida — e sobre os decisores políticos que, durante décadas, governaram em função desses interesses.

A fragilidade ficou particularmente clara no setor energético. A destruição da rede elétrica evidenciou a ausência de uma política séria de investimento no reforço, fiscalização e adaptação das infraestruturas às novas condições climáticas. Em vez disso, empresas como a EDP e a REN priorizam a distribuição de dividendos aos acionistas — entre eles a China Three Gorges, a State Grid of China e grandes fundos financeiros internacionais. Coloca-se aqui uma questão simples: quando a população não paga a fatura da eletricidade, o fornecimento é cortado de imediato. Mas quando a empresa falha durante dias, deixando milhares sem luz e sem respostas, onde está a responsabilidade? A segurança das populações, a soberania energética e a resiliência das infraestruturas não podem ser sacrificadas em nome da maximização do lucro. Foi isto que nos trouxeram as privatizações: responder aos acionistas em vez de responder às necessidades coletivas.

O mesmo se aplica às comunicações, que colapsaram quase por completo. A fragmentação entre operadoras, a falta de redundância e a ausência de coordenação pública revelam um setor privado incapaz de garantir um serviço essencial em momentos críticos. (…)

A culpa não é do vento.
É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

BICO CALADO

Foto: Michelle Viljoen

Francesca Albanese: «Como não é possível reformá-la, a ONU está a tornar-se cada vez mais irrelevante, e isso é perigoso». Francesca Albanese publica «Quando o mundo dorme», um ensaio em que percorre a história da Palestina através do direito internacional e da sua experiência pessoal, desde que viveu em Jerusalém até ao seu atual trabalho contra o genocídio de Gaza como relatora especial da ONU. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

OS PATOS BRAVOS NUNCA MORRERAM
Jorge Rocha, Ventos Semeados.


Estamos num país onde os patos bravos dos anos sessenta não desapareceram. Continuam por cá, prosperando, embolsando todos os subsídios disponíveis, construindo tão barato quanto possível, vendendo tão caro quanto o mercado aguenta, empregando um exército de emigrantes por salários miseráveis associados a nenhuns direitos. Mudaram de geração, talvez de fato, certamente de retórica — mas a lógica é exatamente a mesma: lucro máximo, investimento mínimo, o resto que se lixe.

As consequências das tempestades dos dias mais recentes vieram demonstrar essa situação no seu esplendor. As linhas elétricas e as das comunicações móveis continuam a passar por via aérea em vez de enterrada — porque enterrar custa mais, demora mais, exige mais planeamento. Os materiais de construção revelam-se frágeis para ventos mais fortes — porque materiais resistentes custam mais, reduzem a margem de lucro, complicam a execução rápida. A urbanização em leitos de cheia com impermeabilização dos solos a montante resulta em situações como as de Gaia ou de Alcácer do Sal — porque construir onde não se deve é mais barato do que respeitar condicionantes ambientais, e impermeabilizar é mais rápido do que preservar capacidade de absorção natural.

Não é incompetência. É escolha. Uma escolha deliberada, sistemática, protegida por décadas de cumplicidade entre quem constrói e quem licencia, entre quem lucra e quem fiscaliza, entre quem faz obra e quem distribui dinheiro público.

Quando as linhas elétricas caem à primeira rajada de vento forte, não é falha técnica — é consequência direta de décadas de opção por soluções baratas em vez de soluções adequadas. Quando as casas ficam sem telhado, não é porque o vento foi excecionalmente forte — é porque os materiais e as técnicas de construção foram excecionalmente medíocres. Quando bairros inteiros ficam inundados, não é porque choveu muito — é porque se construiu onde não se devia e se impermeabilizou o que deveria ter ficado permeável.

E depois vêm as declarações de solidariedade, as promessas de reconstrução, os apoios de emergência. Tudo pago com dinheiro público, naturalmente. Reconstruir o que foi mal construído à primeira, reparar o que nunca deveria ter sido danificado se tivesse sido bem feito, compensar as vítimas de decisões que enriqueceram outros.

É o ciclo perfeito: os patos bravos constroem barato, vendem caro, embolsam os lucros. Quando a construção falha — e falha sempre, mais cedo ou mais tarde — é o Estado que paga a reconstrução. E quem reconstrói? Os mesmos. Com os mesmos métodos. Para os mesmos resultados. Até à próxima tempestade.

Precisávamos de quem pensasse o futuro numa lógica preventiva, mesmo investindo mais do que a cultura dos tais patos bravos pressupõe. Precisávamos de linhas enterradas que não caem com o vento. De materiais de construção que resistem a tempestades previsíveis. De planeamento urbano que respeita leitos de cheia e capacidade de absorção dos solos. De fiscalização que fiscaliza a sério, de licenciamento que condiciona a sério, de penalizações que doem a sério quando se constrói mal.

Mas quem tem o poder e distribui o dinheiro público enjeita o provérbio popular sobre sair caro o que parece ser barato. Porque para eles não sai caro — sai barato e rende muito. E quando finalmente se prova caro, quem paga não são eles. São os que ficam sem luz, sem comunicações, sem casa, sem segurança.

Os patos bravos dos anos sessenta ficaram ricos construindo mal e rápido. Os patos bravos de hoje continuam a ficar ricos exatamente da mesma maneira. A única diferença é que agora têm acesso a fundos europeus, a programas de desenvolvimento regional, a incentivos à construção. Mais dinheiro público para embolsar. Mais oportunidades para construir barato e vender caro. Mais lucros privados extraídos de investimento público.

E quando a tempestade vem — e a tempestade vem sempre — somos nós que pagamos. Duas vezes: primeiro quando financiamos a construção barata através de subsídios e fundos públicos, depois quando financiamos a reparação dos estragos que essa construção barata inevitavelmente provoca.

Os patos bravos nunca morreram. Apenas evoluíram. E enquanto continuarem a ter quem lhes distribui dinheiro público sem exigir qualidade, quem lhes licencia obras sem fiscalizar execução, quem lhes permite construir em leitos de cheia e impermeabilizar à vontade, continuarão a prosperar.

E nós continuaremos a pagar. A conta da ganância alheia. Como sempre.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

OVAR: MAR APROXIMA-SE DO ATERRO SANITÁRIO DE MACEDA

Foto: Henrique Araújo (30jan2026)
  • A forte ondulação marítima dos últimos dias “engoliu” a praia de Maceda e reduziu em dezenas de metros o parque de estacionamento da Praia de Maceda. Perto há um aterro sanitário que, não estando a ser monitorizada e perante a falta de dados e de transparência sobre o seu estado, é um fator agravante do risco. Refira-se que a ERSUC assumiu a responsabilidade de monitorizar o aterro durante 20 anos mas nunca divulgou qualquer relatório. Fonte.
  • O Congresso dos EUA votou a favor de um corte de US$ 125 milhões destinados à substituição de tubulações de água potável com chumbo tóxico, que representam uma ameaça especial para as crianças. A medida afetará sobretudo o Michigan, Illinois, Texas, Nova Iorque e outros estados com os níveis mais altos de tubulações com chumbo. Fonte.

BICO CALADO


Diogo Pacheco de Amorim, figura grada do Chega, tem pergaminhos familiares interessantes. Por exemplo, em 1942, a sua avó, Blandina Pacheco de Amorim, enviou uma carta a Salazar a solicitar
um emprego para o seu filho mais velho, Diogo Manuel, pai do nosso Pacheco. Fonte: David Baptista Farto.

LEITURAS MARGINAIS

EPSTEIN E O FINANCIAMENTO SILENCIOSO DA OCUPAÇÃO
Ismail Salahuddin, MEM. Trad. O’Lima.

O procurador federal do Distrito Sul de Nova Iorque, Geoffrey Berman, anuncia acusações contra Jeffery Epstein 
em 8 de julho de 2019, em Nova Iorque. [Stephanie Keith/Getty Images]

Há crimes que chocam por serem brutais e há crimes que perduram por serem respeitáveis, bem documentados, dedutíveis nos impostos e protegidos pelo silêncio. A história que emerge dos registos financeiros de Epstein pertence firmemente à segunda categoria, não por ser menos violenta, mas porque mostra como a violência moderna sobrevive através de instituições que parecem legais, éticas e até benevolentes.

Jeffrey Epstein é geralmente lembrado como um símbolo de abuso sexual, corrupção da elite e falha judicial, mas essa memória, embora necessária, também é incompleta. Epstein não era apenas um criminoso a operar fora do sistema; era um homem totalmente integrado nele, movimentando dinheiro através de instituições de caridade, doando para universidades e fundações, participando em reuniões de elite e participando no mesmo ecossistema financeiro e moral que sustenta o poder global. É aqui, e não apenas nos seus crimes privados, que os arquivos de Epstein se tornam politicamente inquietantes.

Entre os registos financeiros associados a Epstein encontram-se doações documentadas à «Friends of the Israel Defence Forces» (Amigos das Forças de Defesa de Israel), uma instituição de caridade sediada nos EUA que angaria fundos para as forças armadas israelitas, e a instituições ligadas ao Fundo Nacional Judaico, uma organização historicamente central na construção de colonatos, aquisição de terras e expropriação permanente dos palestinianos. Estas não são alegações tiradas de polémicas ou especulações, mas entradas registadas em documentos financeiros formais, do tipo que geralmente funcionam como prova de legitimidade, e não como evidência de cumplicidade. É aqui que os documentos deixam de ser evidências e passam a ser uma acusação.

O mais perturbador nos arquivos de Epstein não é que um homem poderoso tenha financiado a violência, mas que o tenha feito abertamente, legalmente e sem consequências, porque é assim que as atrocidades modernas sobrevivem. Nem sempre estão escondidas; são processadas, doadas e normalizadas por instituições que falam a linguagem da caridade enquanto produzem a realidade da expropriação. Epstein não precisava acreditar no sionismo para financiar a sua máquina, assim como o sistema não precisava de se importar com os seus crimes para aceitar o seu dinheiro, e nessa troca reside o verdadeiro escândalo da nossa era: um mundo onde o abuso da elite é condenado em palavras, mas recompensado na estrutura, e onde o sofrimento palestiniano não é negado, apenas adiado indefinidamente por trás de procedimentos, desculpas e burocracia.

Isto é importante porque o poder militar israelita e a expansão dos colonatos não existem isoladamente e não são sustentados apenas pelo nacionalismo, mas por dinheiro transnacional, doadores de elite e redes de caridade que transformam a ocupação numa causa respeitável, protegendo-a do escrutínio moral, enquanto as suas consequências são vividas diariamente pelos palestinianos que perdem terras, casas e futuro sem nunca aparecerem nos relatórios dos doadores ou nos discursos de angariação de fundos.

O historiador Ilan Pappé demonstrou que a expropriação dos palestinianos não foi um acidente de guerra, mas um projeto planeado e contínuo, administrado por instituições que fizeram com que a limpeza étnica parecesse burocrática, necessária e normal. O que os arquivos de Epstein revelam é como esse projeto se estende muito para além do próprio Estado israelita, contando com a riqueza privada que circula livremente através das fronteiras, isolada da responsabilização e protegida pela lealdade política.

Thomas Suarez, ao escrever sobre a infraestrutura colonial sionista, demonstra como organizações como o Fundo Nacional Judaico nunca foram órgãos ambientais ou culturais neutros, mas mecanismos legais e financeiros concebidos para garantir terras permanentemente para um grupo, excluindo outro. Quando figuras como Epstein fazem doações a essas instituições, a questão não é a crença pessoal, mas a participação estrutural, o reforço silencioso de um sistema que converte a desigualdade em permanência.

O que liga os crimes sexuais de Epstein e as suas doações políticas não é a ideologia, mas o direito, a crença de que certos corpos existem para serem usados, geridos ou descartados, para prazer, lucro ou estratégia geopolítica; e que as consequências são para os impotentes, nunca para aqueles que financiam instituições, fazem parte de conselhos de administração ou desfrutam da proximidade com secretas, governos e universidades de elite.

Essa defesa é reforçada pelos governos ocidentais, que continuam a falar a linguagem da legalidade e da autodefesa, ao mesmo tempo que possibilitam materialmente as condições que tornam essa violência permanente.

Os defensores liberais irão contestar este ponto, e dirão que doações privadas não são o mesmo que política estatal, que doações de caridade não equivalem a endosso de todas as ações militares, e que ligar os crimes de Epstein às suas doações políticas corre o risco de ser um exagero moral. Essa objeção não compreende como o poder realmente funciona. A violência colonial nunca dependeu apenas da intenção pessoal, mas sim do apoio contínuo, da indiferença e da negação plausível. Nenhum doador precisa aprovar cada bomba para que o bombardeamento seja possível, assim como nenhum acionista precisa endossar cada morte para lucrar com um sistema construído sobre o dano. Quando o dinheiro flui consistentemente para instituições cujos objetivos e efeitos são bem conhecidos, a neutralidade torna-se uma ficção reconfortante, em vez de uma posição moral. Como Pappé nos lembra, a história não julga os sistemas pelo que os seus apoiantes afirmam que eles significavam, mas pelo que o seu apoio tornou inevitável.

Os governos ocidentais continuam a insistir que Israel tem o direito de se defender, mas o que continua a não ser dito é como essa defesa é subsidiada por riqueza privada que circula por canais isentos de impostos, protegida por alianças diplomáticas e isolada do escrutínio público, enquanto os palestinianos sofrem os resultados não como debates políticos abstratos, mas como postos de controlo, deslocalizações, bombardeamentos e a lenta erosão da própria vida.

O perigo de nos concentrarmos apenas na depravação pessoal de Epstein permite que o sistema à sua volta permaneça intacto, como se os seus crimes fossem uma aberração e não um sintoma. É precisamente assim que a violência da elite se reproduz, isolando indivíduos enquanto preserva estruturas, condenando os abusos enquanto continua a recompensar as condições que tornam os abusos possíveis e lucrativos.

Hoje, Gaza expõe essa contradição com brutal clareza, não só pela escala da destruição, mas também pela calma linguagem administrativa usada para a justificar, financiar e gerir as suas consequências. Quando os registos financeiros revelam doadores a apoiar instituições militares e colonizadoras, ao mesmo tempo que o direito internacional é suspenso e a linguagem humanitária esvaziada de força, a alegação de acidente torna-se impossível de sustentar.

A questão, então, não é se Epstein apoiava instituições israelitas, mas por que razão esse apoio é tratado como normal, incontroverso e até admirável nos círculos da elite, enquanto a resistência palestiniana é criminalizada, o luto palestiniano é questionado e a existência palestiniana é enquadrada como um problema demográfico ou de segurança, em vez de um problema humano.

O que os arquivos de Epstein acabam por revelar não é uma conspiração oculta, mas uma ordem de poder familiar e coerente. Um mundo capaz de financiar a ocupação através da caridade, branquear a violência através de instituições e proteger os abusadores através de procedimentos encontrará sempre formas de descrever a destruição como legal, a exploração como casual e a vida palestiniana como dispensável.

Isso não é hipocrisia, é intencionalidade. O mesmo sistema que permitiu a Epstein abusar impunemente também permite que uma ocupação perdure com legitimidade, porque ambos são sustentados por dinheiro, linguagem burocrática e o acordo tácito de que certos danos não exigem responsabilização. A Palestina continua não sendo a exceção à ordem global, mas a sua expressão mais honesta, prova não de um sistema que falhou, mas de um que está a funcionar exatamente como pretendido.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

ESPINHO: RUA REABERTA À CIRCULAÇÃO AUTOMÓVEL

Foto: Defesa de Espinho
  • Interdita nos últimos dias devido ao mau tempo e ao risco de inundações, a Rua da Praia, na freguesia de Paramos, junto ao Regimento de Engenharia, vai reabrir à circulação automóvel, a partir da tarde de sexta-feira, 6 de fevereiro, tal como na zona junto à capela de São João. FontePrecisamente num dia em que a Proteção Civil alerta repetidamente para o agravamento das condições meteorológicas provocadas pela chegada da tempestade Marta e para a tomada de providências adequadas a situações de perigo iminentes.
  • A área a nascente da Escola Secundária Dr. Manuel Gomes de Almeida, em Espinho, sofre inundações sistemáticas sempre que ocorrem chuvas, situação vivida novamente nesta sexta-feira, 6 de fevereiro, como documenta a fotografia acima. Este problema, que se arrasta há mais de três décadas, para além dos evidentes riscos e incómodos que representa, tem um impacto direto no trânsito local. Nas horas de ponta de entrada e saída dos alunos, as ruas 30, 33 e 35 ficam completamente paralisadas, gerando engarrafamentos ruidosos. Esta situação causa não apenas arrelias, mas também graves transtornos para os utentes das vias e moradores da zona, comprometendo a sua mobilidade e qualidade de vida. Para quando uma intervenção definitiva das entidades responsáveis para resolver esta situação crónica?
  • As fortes chuvas registadas nos últimos dias provocaram um novo colapso de uma estrutura de rejeitados mineiros nas Minas da Panasqueira, em São Jorge da Beira, no concelho da Covilhã, com o arrastamento de grandes volumes de resíduos para a ribeira de Cebola, afluente do rio Zêzere. A Empresa Portuguesa das Águas Livres recolheu amostras de água em vários pontos da região para avaliar eventuais impactos na qualidade da água destinada ao consumo humano, incluindo na albufeira de Castelo de Bode, principal origem de água para a Área Metropolitana de Lisboa. Este é o terceiro colapso conhecido desta infraestrutura de rejeitados nas últimas décadas. As Minas da Panasqueira são exploradas pela Beralt Tin and Wolfram Portugal, subsidiária da mineira canadiana Almonty Industries. A exploração gerou ao longo de mais de um século enormes volumes de resíduos mineiros, muitos deles ricos em sulfuretos e suscetíveis à drenagem ácida. Alguns depósitos, como os do Cabeço do Pião, encontram-se em contacto direto ou muito próximo do rio Zêzere. Vários estudos científicos têm identificado níveis elevados de arsénio e outros metais pesados nos solos, sedimentos e cursos de água associados aos rejeitados da Panasqueira, apontando para riscos ambientais persistentes e potenciais impactos na saúde humana. Apesar desse conhecimento, não foram implementadas soluções estruturais de remediação nem programas de reaproveitamento dos rejeitados, que continuam a conter quantidades relevantes de volfrâmio e outros materiais críticos, acusa a MiningWatch Portugal. Paralelamente, têm sido denunciadas descargas recorrentes de águas residuais não tratadas ou insuficientemente tratadas para a ribeira do Bodelhão durante os meses de maior precipitação. Observadores ambientais consideram que a repetição de acidentes e incumprimentos revela uma tolerância prolongada por parte das autoridades responsáveis pela fiscalização ambiental. O colapso mais recente afetou diretamente tolivais e vinhas adjacentes. Os proprietários exigem agora o apuramento de responsabilidades e compensações pelos prejuízos sofridos. Os materiais libertados são potencialmente ácidos e podem conter concentrações elevadas de arsénio e outros elementos perigosos, levantando preocupações quanto à contaminação dos solos e à perda de produtividade a médio e longo prazo. Fonte.
Foto: Unidos Em Defesa de Covas do Barroso
  • A Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso e a ClientEarth intentaram uma ação contra a Comissão Europeia, no Tribunal de Justiça da União Europeia, por atribuir o estatuto de “projeto estratégico” à mina do Barroso. As organizações defendem que a Comissão Europeia “ignorou lacunas evidentes na avaliação dos impactos ambientais, incluindo os impactos sobre espécies protegidas e a segurança da infraestrutura prevista para o armazenamento de rejeitados (…) Classificar um projeto como ‘estratégico’ e de interesse público, enquanto se fecha os olhos a riscos bem documentados para a água, os ecossistemas, a saúde humana e os meios de subsistência locais, é simplesmente inaceitável. A transição energética tem de assentar no direito, na ciência e na justiça – não em atalhos políticos que transformam regiões rurais em zonas de sacrifício”. Em junho de 2025, a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, a MiningWatch Portugal e a ClientEarth apresentaram uma queixa contra a Comissão Europeia, para que reconsiderasse a classificação “projeto estratégico”, desta mina de lítio situada em Covas do Barro, concelho de Boticas, tendo em conta o Regulamento das Matérias-Primas Críticas. Em novembro, a Comissão Europeia recusou-se, alegando que o seu papel é apenas “identificar erros manifestos nas candidaturas de projetos” e que só recusaria o estatuto “se fosse manifestamente claro que o projeto não seria implementado de forma sustentável”. A mina de lítio a céu aberto obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada em 2023 e a Savannah prevê iniciar a produção de lítio em 2027, no concelho de Boticas, no distrito de Vila Real. Fonte.
  • Várias minas numa importante jazida de coltan no leste do Congo desabaram devido a deslizamentos causados por fortes chuvas. O coltan contém tântalo, um componente essencial de telemóveis e computadores portáteis. Pelo menos 300 pessoas morreram no desastre, e muitas ainda estão soterradas. Fonte.
  • A Malásia anunciou uma proibição imediata e total da importação de resíduos eletrónicos. O governo afirma que o país não será um «depósito de lixo» para os resíduos do mundo. A proibição surge no momento em que as autoridades ampliam uma investigação de corrupção relacionada a gestão de resíduos eletrónicos. Em 2025, o governo informou ter apreendido mais de 70 contentores de resíduos eletrónicos perigosos, principalmente provenientes dos EUA, num porto da Ilha de Batam. No mês passado, quatro desses contentores — contendo computadores usados, discos rígidos, dispositivos de áudio e vídeo, modems, placas de alimentação e placas de circuito impresso — foram devolvidos aos EUA. Fonte.

REFLEXÃO

AS CHEIAS COMO ALEGORIA TRÁGICA DOS NOSSOS TEMPOS
Diogo Martins, Substack.


As cheias representam uma alegoria trágica da inconsistência temporal das escolhas políticas e da atenção mediática dos tempos que vivemos. Ameaçados por uma crise climática que os melhores modelos de simulação dão como cientificamente provada, continuamos a agir a ter um espaço mediático povoado por um presente pequenino, mesquinho e sufocante, onde quem ousa falar de futuro, medidas estruturantes ou planeamento é brindado com graciosos adjetivos como catastrofista, romântico ou radical. Os jovens que fazem ações para exigir ação imediata dos governos nestas matérias - ocupando faculdades ou interrompendo estradas - são tratados como terroristas, que “deviam era estar a trabalhar”.

Sesimbra

As alterações climáticas são apenas preocupação e abertura de Telejornal quando a casa arde ou a água entra pela porta. O Estado é sempre fonte de ineficiência e captura de impostos até que é chamado para acudir à incerteza fundamental de um clima com consequência sociais e económicas cada vez mais brutais. Uma miopia coletiva onde o condenado só consegue perceber o cadafalso quando o chão lhe foge debaixo dos pés e, pelo caminho, insulta os que o previnem para mudar de rumo. Entre o tanto que avançámos coletivamente enquanto comunidade de conhecimento - capazes que somos hoje de modelar com precisão a evolução um fenómeno tão complexo como o clima - e o quanto permanecemos de incapazes de o aceitar enquanto comunidade cívica e política decorre o intervalo onde repousa o nosso falhanço coletivo. Triunfo de capitalismo de viés abissal para o lucro presente e capaz de acionar os mecanismos mediáticos e institucionais para que a democracia não use o conhecimento científico para ameaçar os seus interesses.

Permitam-me que use o meu muito estimado burgo - Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira - como alegoria simples do que acabo de escrever.

Há mais de uma década, nas vésperas de proceder à renovação das frentes ribeirinhas do concelho, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira promoveu alterações no Plano Diretor Municipal (PDM) que permitiram a urbanização de uma grande área antes não urbanizável por se considerara leito de cheio (e onde há escassas décadas existiam salinas).

Quando as forças políticas à esquerda disseram que rever o PDM para ali se poder construir uma mega urbanização da Teixeira Duarte era uma afronta, foram acusadas de serem avessas ao progresso e contra a iniciativa privada.

Defenderam essas forças políticas (CDU e BE) que construir 700 fogos em solos antes assinalados como leito de cheia era um crime ambiental, que ignorava tudo o que se sabia sobre as previsíveis alterações futuras dos níveis das águas. Para já não falar de outras dimensões: um acréscimo de densidade populacional numa localidade com mais habitantes por metro quadrado do que Singapura -sem infraestruturas para a comportar - e que se destinava a criar uma oferta habitacional que não corresponderia à procura das classes trabalhadoras. Serviria - como está a servir - para alimentar uma oferta para procuras externas e para quem faz da habitação um ativo financeiro mais do que uma casa para viver.

Por trágica ironia, ainda o primeiro prédio do grande complexo não está totalmente construído e já há barreiras de cimento colocadas nas suas portas de entrada para que água não o inunde (ver imagem inicial deste artigo).

Entretanto, o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira e os seus vereadores brincam aos bons alunos. Muito solenes e preocupados.

O problema é que para lá das preocupações de ocasião há as medidas estruturais que fazem a diferença. Contudo, essas foram há muito tempo, quando tudo isto se discutiu. Infelizmente, essas não causam envolvimento das populações nem preocupação do poder político, o qual, conhecedor dessa apatia, sabe que tem caminho livre para fazer da melhoria do espaço público um veículo de valorização de ativos imobiliários - como se tratou do caso com a requalificação das frente ribeirinhas.

“Querem um sítio aprazível para correr e passear à beira rio?” Pois bem, mas não sem que isso venha promover o interesse de uma das maiores construtoras portuguesas que, a par da Mota-Engil, tem um vasto legado de ingerência no poder político e de ação de portas giratórias entre os seus quadros de topo e os dirigentes dos partidos do centro.

É por isso que o ultra-centrismo do PS - política de direita polvilhada com caridade social e discurso dos afetos, que até rende a alguns dos seus intérpretes a eleição para personalidade do ano em jornais regionais - não me merece respeito.

Não são fascistas, mas são também eles que lhe franqueiam as portas com a sua traição reiterada de classe. Uns por interesses pessoais, outros por convicção, outros por total falta de noção.

Aqui continuaremos a dizer que as alterações climáticas são uma urgência. Enquanto os outros -os pragmáticos, os bons, os razoáveis, os moderados - serão heróis, de capa de proteção civil ao vento.

A maioria do povo só tem o que merece. Aos outros, resta-lhes o parco contentamento de submergirem de olhos abertos.

BICO CALADO

Andy Dean Photography/Shutterstock
  • Ao discursar perante a Comissão Bancária do Senado na quinta-feira, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou explicitamente que os EUA causaram deliberadamente uma crise financeira no Irão com o objetivo de fomentar a agitação civil no país. Questionado pela senadora Katie Britt sobre o que mais poderiam os EUA fazer para pressionar o aiatolá e o Irão, Bessent explicou que o Departamento do Tesouro implementou uma «estratégia» destinada a minar a moeda iraniana, o que levou ao colapso da economia e desencadeou os violentos protestos que vimos em todo o país. «Uma coisa que poderíamos fazer no Tesouro, e que fizemos, foi criar uma escassez de dólares no país», disse Bessent. «Num discurso no Clube Económico em março, descrevi a estratégia. Ela teve um desfecho rápido e, diria eu, grandioso em dezembro, quando um dos maiores bancos do Irão faliu. Houve uma corrida aos bancos, o banco central teve de imprimir dinheiro, a moeda iraniana entrou em queda livre, a inflação explodiu e, por isso, vimos o povo iraniano nas ruas.» Esta não é a primeira vez que Bessent admite estas coisas. Falando no Fórum Económico Mundial em Davos no mês passado, o secretário do Tesouro afirmou: «O presidente Trump ordenou ao Tesouro e à nossa divisão OFAC, Escritório de Controlo de Ativos Estrangeiros, que exercessem pressão máxima sobre o Irão. E funcionou, porque em dezembro a economia deles entrou em colapso. Vimos um grande banco ir à falência; o banco central começou a imprimir dinheiro. Há escassez de dólares. Eles não conseguem importar, e é por isso que o povo foi para as ruas. Portanto, trata-se de uma estratégia económica, sem tiros disparados, e as coisas estão a evoluir de forma muito positiva aqui.» Caitlin Johnstone, Os EUA continuam a admitir abertamente que causaram deliberadamente os protestos no IrãoSubstack.
  • Um jato particular do magnata imobiliário da Flórida Gil Dezer, parceiro de negócios de longa data de Donald Trump, doador da sua campanha eleitoral e membro da filial de Miami da Friends of the Israel Defense Forces, foi usado pela ICE para deportar palestinianos de um aeroporto próximo de um centro de detenção no Arizona para Tel Aviv. Fonte.
  • Num país com um terço do território submerso, população desalojada, cortes de energia e comunicações, e com o agravamento da depressão Marta, um grupo distinto — que afirma defender a caldeirada de peixe, a arte xávega e as tradições — elege em Espinho o novo presidente da sua confraria.
  • SOS Racismo denuncia novo caso de violência policial no aeroporto de Lisboa. Jovem são-tomense de 23 anos teve de ser assistido na urgência do Hospital de São José, de onde foi retirado pelos agentes sem fazer um exame requerido pelos médicos. SOS exige abertura de inquérito e preservação dos registos de videovigilância. Fonte.


LEITURAS MARGINAIS

COMO PIORAR OS PRODUTOS SE TORNOU UMA ESTRATÉGIA DE NEGÓCIOS
Enrique Dans, Medium. Trad. O’Lima.


Há um sentimento crescente — e não apenas entre aqueles de nós que trabalham no mundo digital — de que muitas coisas que costumavam funcionar bem já não funcionam mais. Não porque a tecnologia se tornou mais difícil, nem por falta de capacidades técnicas, mas porque alguém, em algum grupo de desenvolvimento, decidiu que era mais lucrativo que os serviços e produtos funcionassem pior em vez de melhor.

É deliberado, calculado e mensurável: menos controlo para o utilizador, mais atrito, mais anúncios, mais camadas de assinatura, mais «surpresas» na forma de funcionalidades que desaparecem, ficam mais caras ou são cobradas separadamente. Há um efeito cumulativo nesse processo: a confiança está a ser destruída como um ativo económico, e isso tem consequências para as pessoas, as empresas e a concorrência.

Funciona assim: quando um produto digital atinge uma massa crítica, o incentivo deixa de ser «fazer melhor» e passa a ser «sacar mais». Num mercado em que mudar de fornecedor está longe de ser fácil, esse fornecedor pode impor pequenos cortes sem pagar um preço imediato. O truque está na dosagem: um pouco mais de publicidade aqui, um aumento de preço ali, uma funcionalidade que antes era padrão agora torna-se premium ou uma interface que o obriga a aceitar o que não lhe convém. Cada mudança, separadamente, parece tolerável. Em conjunto, é uma estratégia que Cory Doctorow apelidou magistralmente de «enshittification».

Vemos isso em dispositivos e serviços que já normalizámos como parte da casa. Plataformas de TV conectadas testam anúncios cada vez mais intrusivos, a ponto de experimentar formatos que interrompem o acesso ou assumem o controle do ecrã principal. A empresa está a medir qual a percentagem de nós que protesta, qual a percentagem que aguenta e qual a percentagem que, no final, compra a «solução» (pagando para ver menos anúncios, por exemplo, ou mudando de dispositivos dentro do mesmo ecossistema). É uma economia de laboratório aplicada a milhões de pessoas.

Também vemos isso em produtos «sérios», do tipo que sustentam empresas inteiras. A conversão forçada de licenças em assinaturas, o pacote obrigatório de funcionalidades que não precisa ou o aumento radical nos preços com o álibi de «mais valor» podem aumentar as receitas no curto prazo, mas deixam um rasto: CEOs e gestores de compras que começam a tratar os seus fornecedores como potenciais adversários, não como parceiros. E quando essa relação é quebrada, acelera-se um processo que as empresas de tecnologia tendem a subestimar: o desejo de fugir, de diversificar, de procurar alternativas, mesmo que elas sejam imperfeitas. A desconfiança, uma vez instalada, não é negociável: é contagiosa.

Outra variante, talvez a mais corrosiva, é o agravamento por redesenho: «atualizações» que chegam como uma promessa de modernidade e acabam por eliminar funções básicas, acessibilidade ou comportamentos que o utilizador tinha interiorizado. Não se trata de um erro técnico, mas sim de uma decisão do produto: reduzir, simplificar para a empresa, reordenar para monetizar, pressionar o cliente ao limite. O caso típico é o de alguém que descobre que o dispositivo que comprou continua o mesmo, mas a experiência piorou porque o software, que antes respeitava uma lógica, agora responde a outra: o crescimento.

E depois há os padrões obscuros, aquela disciplina já profissionalizada de projetar interfaces para que o utilizador faça o que não faria se compreendesse totalmente a decisão. Inscreva-se em dois cliques, cancele em seis ecrãs; aceite tudo com um botão enorme, rejeite com um link cinza; preços apresentados de forma a fazer com que a opção mais cara pareça «sensata». Isso não é teoria da conspiração: as evidências estão facilmente disponíveis. As empresas fazem isso porque funciona, e se funciona, é porque o custo para a reputação é menor do que deveria ser.

Mas eis a verdadeira questão: além de moral, o dano é económico. A «enshitificação», um termo cunhado por Cory Doctorow, cria o que poderíamos chamar de prémio da suspeita. Cada vez que uma empresa transforma o que era padrão num extra ou dificulta o cancelamento de um serviço, ela instila desconfiança no consumidor. Sempre que uma plataforma decide que o seu ecrã inicial é um meio de publicidade, faz com que o utilizador suspeite do próximo dispositivo que comprar. O resultado é uma sociedade cada vez mais cínica na sua relação com o mundo digital e empresas que, paradoxalmente, acabam por gastar mais em marketing, reputação e retenção artificial para compensar o que destruíram.

Isso ultrapassa o consumo doméstico. A perda de confiança muda comportamentos: cada vez mais pessoas procuram versões «lite», bloqueadores, sistemas alternativos, compras únicas em vez de assinaturas, hardware menos «inteligente» ou simplesmente desistem. Isso significa que as empresas precisam criar planos de contingência, estratégias multimarcas, um retorno às soluções de código aberto ou contratos mais rígidos. Socialmente, isso amplia a desigualdade: aqueles que têm tempo, conhecimento ou recursos estão mais protegidos; aqueles que não têm pagam mais e têm mais dificuldade em negociar. É uma forma silenciosa de desigualdade digital.

O que fazer? Não basta simplesmente dizer às pessoas para serem mais seletivas, porque, na realidade, as nossas escolhas são, de facto, limitadas por monopólios, compatibilidades, dependências e custos de saída. A alavanca mais eficaz é a legislação que permita maior portabilidade, interoperabilidade, facilidade de cancelamento, proibição efetiva de padrões obscuros e, assim, crie as condições para uma concorrência real. Se mudar de fornecedor for fácil, as empresas perceberão imediatamente o custo de oferecer um serviço de pior qualidade. Se mudar de fornecedor for difícil, isso será recompensado.

Entretanto, pondere o seguinte: quando uma empresa diz que está a mudar algo em seu detrimento para «melhorar a experiência do cliente», geralmente quer dizer «melhorar a nossa margem de lucro». E quanto mais aceitarmos serviços e produtos de qualidade inferior, mais caro será reconstruir o que está a ser perdido: a confiança, a infraestrutura invisível da economia digital.