Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ESMORIZ: CENTENAS DE PEIXES APARECEM NO AREAL APÓS ABERTURA DA BARRINHA

  • Centenas de pequenos peixes apareceram no areal da Praia de Esmoriz, junto à Barrinha, depois da abertura da ligação da lagoa ao mar. Os peixes serão exemplares de perca-sol, uma espécie exótica invasora associada a massas de água doce e de corrente reduzida. Além dos peixes, quem percorreu a praia encontrou também numerosos exemplares de lesmas-do-mar, conhecidas localmente como “vinagreiras”, igualmente espalhados pela areia. Fonte.
  • Um trabalhador de 55 anos morreu na sequência de um acidente de trabalho na CS Wind, empresa instalada na Gafanha da Nazaré, Aveiro, dedicada à produção de torres eólicas e estruturas metálicas. O trabalhador foi prensado por uma chapa de aço utilizada no fabrico de componentes eólicos, entrando em paragem cardiorrespiratória. As equipas de socorro tentaram reanimá‑lo, mas o óbito foi declarado no local. Fonte.

REINO UNIDO: REFINARIA DE STANLOW ACUSADA DE DERRAMES SUCESSIVOS

  • Uma das maiores refinarias de petróleo do Reino Unido causou derrames poluentes nos rios locais e no estuário do Mersey em dezenas de ocasiões em 2023 e 2024. A EET Fuels, anteriormente conhecida como Essar, que gere a refinaria de Stanlow, declarou-se culpada este ano de 12 acusações de violação da legislação ambiental entre 2018 e 2020. No entanto, documentos obtidos por jornalistas de investigação da SourceMaterial descrevem outras infrações cometidas pela refinaria em Ellesmere Port, Cheshire, com derrames regulares de produtos químicos tóxicos e petróleo nos cursos de água e até mesmo nas águas subterrâneas. Fonte.
  • Com uma campanha baseada no enfraquecimento da fiscalização e da proteção da floresta, o senador Flávio Bolsonaro (PL) dominou a votação do 1º turno das eleições presidenciais no último domingo (4/10) nos municípios que mais desmataram na Amazônia Legal na última década. Um levantamento da Sumaúma mostra que Flávio foi o mais votado em oito dos dez municípios com os maiores índices de desmatamento da região desde 2016. Em alguns locais, ele recebeu mais de 80% dos votos.

REFLEXÃO

O MINISTÉRIO DO AMBIENTE NÃO EXISTE
Paulo Constantino, Movimento Pelo Tejo.


Há uma pergunta que ninguém faz em voz alta: quem defende o rio? Não o rio como recurso, não como reservatório de energia, nem como fonte de água para o regadio intensivo, nem como linha de fronteira entre dois países que negoceiam mínimos em salas fechadas, mas o rio como ecossistema, como habitat, como Vida. A resposta oficial seria o Ministério do Ambiente e Energia, mas é precisamente aí que reside a contradição que o rio Tejo carrega atualmente nas suas margens: o ministério que devia defender o rio é o mesmo que tutela a produção hidroelétrica que o impede de fluir e que supervisiona a estratégia hídrica que distribui a água do rio pela agricultura intensiva antes de a oferecer ao ecossistema. Isto tem um nome, chama-se conflito de interesses estrutural, e não é uma acusação, é uma descrição.

O Ministério que não é do Ambiente

Em Portugal, o Ministério do Ambiente e Energia tem, materialmente, um centro de gravidade deslocado para longe do ambiente: a energia é o eixo dominante das suas medidas — eletrificação, reforço de redes, armazenamento, segurança de abastecimento —, a água constitui o segundo eixo, com forte ligação a objetivos de segurança hídrica e de suporte ao regadio, e a conservação ecológica, a biodiversidade fluvial, o bom estado ecológico das massas de água exigido pela lei europeia surgem na linguagem oficial, mas raramente com instrumentos concretos de implementação: estão na retórica, não estão no orçamento.


O resultado é previsível, tendo aliás sido previsto pela própria Comissão Europeia que, em maio de 2026, admitiu por escrito que a não definição de caudais ecológicos «conduz previsivelmente ao incumprimento do Bom Potencial Ecológico» — previsivelmente, a palavra está escrita numa carta oficial, a Comissão sabe, o ministério sabe, e o incumprimento continua, porque o que isto significa em termos concretos é que a Iberdrola decide quando a água do Tejo flui e que o preço da energia no mercado ibérico é o que dita, na prática, o regime hidrológico do maior rio da Península Ibérica.

Os Números que o Rio Regista

Não é uma teoria, são dados registados pela Agência Portuguesa do Ambiente na albufeira do Fratel, o primeiro ponto de monitorização em território português a jusante da barragem de Cedillo: no ano hidrológico de 2025/2026, registaram-se cinco dias de caudal zero proveniente de Espanha, catorze dias com caudal médio diário abaixo de um hectómetro cúbico — o mínimo diário acordado na revisão de 2024 da Convenção de Albufeira — e um caudal máximo de 4.863 metros cúbicos por segundo, o mais elevado de toda a série histórica. Num único ano hidrológico: caudal zero e caudal máximo histórico, o que não é uma anomalia climática, mas o retrato fiel da gestão.

As consequências humanas deste padrão têm rosto: em maio de 2022, uma jovem de 16 anos desapareceu no rio Tejo em Abrantes depois da subida repentina do nível das águas enquanto se banhava, e em junho de 2026, um homem de 38 anos teve de ser resgatado pelos Bombeiros de Abrantes depois de adormecer num banco de areia no meio do rio com o caudal baixo e acordar rodeado de água, sem forma de regressar a terra. A ocorrência foi descrita como evidenciando os perigos dos caudais variáveis, acrescentando-se que, na zona de Abrantes, o nível da água pode sofrer alterações significativas em curtos períodos devido às descargas efetuadas pelas barragens a montante — e esta é precisamente a descrição de um fenómeno ao qual a ciência e o direito europeu deram nome e solução há vinte e seis anos.

Os dados históricos confirmam que este não é um problema novo nem episódico: desde 1998 registaram-se 650 dias com caudal abaixo de um hectómetro cúbico e 59 dias de caudal zero, numa média de 24 dias por ano em que o rio internacional simplesmente não flui, sendo que no ano hidrológico de 2025/2026, que acabou de terminar, se observa um agravamento da tendência com os dias de caudal zero e os dias abaixo do mínimo a triplicarem face ao ano anterior, respetivamente, +150% e +180%, o que demonstra que a revisão de 2024 da Convenção de Albufeira, que introduziu um caudal mínimo diário, chegou tarde e já não chega.

A Convenção que Chegou Tarde e Já Não Chega

A Convenção de Albufeira foi assinada em 1998, dois anos antes da Diretiva-Quadro da Água, e os caudais mínimos que estabeleceu foram fixados com critérios político-administrativos e não científicos — representam o resultado de uma negociação diplomática entre dois Estados que queriam minimizar as obrigações mútuas e não responder às necessidades do ecossistema —, pelo que, vinte e oito anos depois ainda está em vigor o regime transitório que deveria ter durado apenas até à implementação de caudais ecológicos. A revisão de 2024 introduziu um caudal mínimo diário — um passo que à época afirmámos que não resolvia o problema da variabilidade de caudais ao longo do dia —, sendo que esse mínimo não foi cumprido catorze vezes em menos de doze meses, mantendo-se a estrutura profunda do problema: a Convenção permite que 63% do caudal anual seja descarregado com total liberdade temporal, o que significa que a barragem pode cumprir a letra do acordo e ao mesmo tempo gerir essa água exclusivamente em função do preço da energia.

A incoerência científica está documentada e é grave: no Plano Hidrológico de Espanha de 2022/2027, os «caudais ecológicos» definidos para Cedillo são uma réplica exata dos caudais mínimos da Convenção de Albufeira de 1998 — fixados por critérios políticos, sem qualquer aplicação dos procedimentos científicos exigidos pelo Documento de Orientação n.º 37 da Comissão Europeia, que estabelece oito passos obrigatórios para a definição do Bom Potencial Ecológico em massas de água fortemente modificadas. A Comissão não verificou esta incongruência ao apreciar a denúncia, mas o proTEJO documentou-a e, ainda assim, a Comissão encerrou a denúncia, num padrão que se repete com uma regularidade que tem tanto de burocrático como de revelador.

A Estratégia «Água que Une» e a Água que Divide

Ao mesmo tempo que o rio Tejo regista dias de caudal zero e o ecossistema se degrada, o Governo português apresenta a estratégia «Água que Une» como resposta à crise hídrica — novas barragens, novos transvases ou interligações entre bacias, reforço da disponibilidade hídrica —, mas a pergunta que esta estratégia não responde é: disponibilidade para quê? A análise dos documentos técnicos é clara: para usos consumptivos e reforço do regadio. A barragem do Alvito e o projeto de açude no rio Tejo em Constância/Praia do Ribatejo propostos pelo Governo — cerca de dois mil milhões de euros — e os novos açudes de Abrantes a Lisboa pretendidos pelo “Projeto Tejo” — cinco mil milhões de euros — representam enormes verbas a serem pagas pelos contribuintes que vão ser desperdiçadas em obras para regularizar com água portuguesa os caudais que chegam de Espanha de forma irregular, isto é, milhares de milhões para compensar o que a implementação de caudais ecológicos em Cedillo resolveria sem custo adicional.

A lógica é perversa: em vez de implementar caudais ecológicos numa barragem já existente — medida tecnicamente viável, juridicamente obrigatória e sem significativo custo público adicional —, propõe-se gastar milhares de milhões em obras que servem a agricultura intensiva e aprofundam a fragmentação do rio que se diz querer proteger.

Quem beneficia com isto não é o rio Tejo, não são as populações ribeirinhas que perderam a lampreia e os festivais gastronómicos, não são os agricultores de Abrantes e Constância que continuam dependentes dos humores da Iberdrola, mas os grandes utilizadores agrícolas da Lezíria e do Oeste e as concessionárias hidroelétricas que continuam a gerir a água como mercadoria, ou seja, os beneficiários de curto prazo, porque no longo prazo ninguém vai ganhar com isto, pelo que a estratégia «Água que Une» é, na sua estrutura, a continuação do mesmo modelo que produziu os 59 dias de caudal zero, apenas com mais betão e mais gastos públicos.

O Conflito que Não Se Nomeia

Há uma palavra que raramente aparece no debate público sobre o rio Tejo — conflito de interesses —, não como acusação de corrupção nem como julgamento de intenções, mas como descrição rigorosa de uma arquitetura institucional: o mesmo ministério que tutela o ambiente tutela a energia, e a produção hidroelétrica paga impostos, contribui para as metas europeias de energias renováveis e tem lobbies com acesso direto ao poder, enquanto os caudais ecológicos reduzem a flexibilidade operacional das barragens e diminuem a produção nos picos de preço, pelo que, quando as duas lógicas se confrontam no mesmo despacho ministerial, o resultado tem sido sistemático e documentado ao longo de vinte e oito anos: ganha a energia.

«A classificação global mais robusta é a de uma tutela predominantemente orientada para energia e gestão da água, com incidência agrícola indireta, mas relevante, e com uma componente ambiental que tende a ser funcionalizada por objetivos de transição, segurança de recursos e infraestrutura.»

Esta descrição da tutela do ambiente, com uma frieza que a comunicação política nunca ousaria fazer, expressa de forma elegante que o ambiente existe para justificar outras prioridades, não como fim em si mesmo.

O Que Podia Ser Diferente

Há uma opção que não figura na agenda, não porque seja tecnicamente impossível, mas porque contraria simultaneamente os interesses da Iberdrola e os interesses do regadio intensivo: implementar caudais ecológicos na barragem de Cedillo. Não é uma proposta nova, visto que integra a Diretiva-Quadro da Água desde o ano 2000, a Convenção de Albufeira desde 1998 no regime transitório que nunca acabou e os Planos de Gestão da Região Hidrográfica do Tejo como objetivo formalmente assumido e sistematicamente adiado, sendo tecnicamente viável, os próprios planos confirmam que não existe inviabilidade técnica nem impacto socioeconómico negativo identificado, e não exigindo fundos públicos, mas apenas vontade política e a disposição de contrariar quem da ausência de caudais ecológicos retira lucro.

A implementação de caudais ecológicos evitaria milhares de milhões de euros em obras, evitaria os 650 dias de caudal insuficiente, evitaria o desaparecimento da lampreia e o cancelamento dos festivais de peixe do rio em Mação e Vila Nova da Barquinha, evitaria os blooms de cianobactérias que fecham praias fluviais e produzem toxinas prejudiciais à saúde pública e evitaria resgates de bombeiros em bancos de areia subitamente inundados pois a opção existe, a solução é conhecida e a lei europeia exige-a há vinte e seis anos, pelo que o facto de não ter sido implementada não é uma falha de conhecimento técnico, mas uma escolha política.

Uma Última Pergunta

Vinte e oito anos de Convenção de Albufeira e vinte e seis anos de Diretiva-Quadro da Água, dois ciclos completos de planos de gestão de bacia, trinta e uma organizações portuguesas e espanholas a assinar uma denúncia formal à Comissão Europeia, duzentas e cinquenta e sete notícias na comunicação social ibérica, uma resposta da Comissão que admite o problema e recusa atuar, e ainda assim: cinco dias de caudal zero em dozes meses, um máximo histórico de 4.863 metros cúbicos por segundo e um homem resgatado de um banco de areia no rio Tejo em junho de 2026 — quando as variáveis são estas e os resultados se repetem, há uma pergunta que não pode continuar sem resposta.

Quem defende o rio? Enquanto o Ministério do Ambiente continuar a ser, materialmente, o Ministério da Energia e da Agricultura, a resposta é a mesma de há vinte e oito anos: somos nós — as organizações, os cidadãos, as populações ribeirinhas, os pescadores sem lampreia, os agricultores dependentes da boa vontade da Iberdrola —, nós que temos a lei do nosso lado e estamos dispostos a usá-la até ao Tribunal de Justiça da União Europeia.

LEITURAS MARGINAIS

SERÁ QUE GEORGE ORWELL TINHA RAZÃO AO AFIRMAR QUE MUITAS CRÍTICAS LITERÁRIAS SÃO «DISPARATES REPUGNANTES»?
Janice Harayda, Medium. Rev. O’Lima.
Há noventa anos, George Orwell argumentou que as «tonterias repugnantes» escritas pelos críticos literários estavam a prejudicar os romances. Não se referia ao sexo, à violência ou às palavras obscenas presentes nas obras. Nem estava a reagir às críticas aos seus romances ainda por escrever, 1984 e Animal Farm. Orwell criticava as tolices hiperbólicas publicadas nos respeitáveis jornais da sua época. Na sua opinião, os elogios exagerados dos «críticos medíocres» estavam a desencorajar os leitores de levarem os romances a sério. Mas ele atribuía o problema menos a esses críticos demasiado generosos do que a uma economia cultural que os obrigava a exagerar os seus elogios para cumprir as suas obrigações profissionais e conseguir o trabalho de que precisavam para sobreviver financeiramente.

Os comentários de Orwell surgiram no seu ensaio de 1936, «Em Defesa do Romance», que antecedeu por uma década o seu mais conhecido «Política e a Língua Inglesa». E muitas das suas críticas continuam a ser válidas hoje em dia, numa altura em que os algoritmos e as plataformas online determinam grande parte da cobertura mediática dedicada aos livros. Hoje em dia, o entusiasmo pode provir de influenciadores, clubes de leitura de celebridades e de um número cada vez maior de prémios literários com as suas listas de pré-selecionados e finalistas — bem como de quaisquer meios de comunicação tradicionais que ainda publiquem críticas —, mas os seus malefícios permanecem.

Tomemos como exemplo a «treta» que Orwell acabara de ver no Sunday Times de Londres e citava no seu ensaio: «Se conseguires ler este livro e não gritar de alegria, a tua alma está morta.» Acrescentava que «algo semelhante está agora a ser escrito sobre praticamente todos os romances publicados.»

O romance está a «ser gritado até desaparecer»

No meio de uma torrente de exagero, o romance está a «ser gritado até desaparecer», afirmou Orwell. Se levássemos isso a sério, a nossa vida tornar-se-ia «uma longa luta para acompanhar o ritmo». Os romances lançavam-se sobre nós, «cada um deles uma obra-prima inesquecível, cuja perda colocaria a nossa alma em perigo». Isso transformava a procura por um bom romance num campo minado: «Deve ser tão difícil escolher um livro na biblioteca, e deves sentir-te tão culpado quando não consegues gritar de alegria.»

Isso também podia levar os leitores a projetar a sua aversão ao alarido publicitário nos próprios romances: «Quando todos os romances te são impostos como palavras de génio, é bastante natural presumir que todos eles são porcaria.»

No entanto, talvez o maior problema com esses elogios exagerados tenha sido o facto de terem levado os críticos a ajustar as suas escalas de avaliação e a baixar os seus padrões. Milhares de romances são publicados todos os anos. A maioria é medíocre ou pior, e alguns não merecem uma crítica, ou pelo menos o tempo que um crítico consciencioso demoraria a escrevê-la.

Esta realidade significa que «aplicar um padrão decente à maioria dos romances é como pesar uma pulga numa balança de mola destinada a elefantes», afirmou Orwell. A crítica Ruth Frankin resumiu a forma como ele via tudo isto numa entrevista à revista Prospect: «A sua opinião é que, uma vez que todos os romances publicados num determinado momento são basicamente pulgas, os críticos são obrigados a recalibrar os seus termómetros para avaliar a diferença entre uma pulga e outra, fazendo distinções que não são realmente importantes. Entretanto, quando surge um romance verdadeiramente grandioso, este faz rebentar o termómetro que estamos a usar para medir as pulgas.»

Uma «corrida para o teto retórico» com adjetivos

Tudo isto resulta no que Orwell denomina «a escada sem degraus dos adjetivos», ou «uma corrida até ao teto retórico, na qual até o romance mais medíocre é “comovente uma obra-prima”».

Se duvidar que ele tivesse razão, considere o seguinte. Apenas nas últimas semanas, o New York Times Book Review classificou três romances como «obras-primas».

O alarido começou a 28 de agosto, quando elogiou Hometown, de Shaun Tan, como «uma obra-prima formal». Dois dias depois, afirmou que The Disappearers, de Marlon James, não era apenas «uma obra-prima», mas «o romance da década e, provavelmente, do século até agora». Menos de três semanas depois, tinha outra «obra-prima» para apresentar: a «obra-prima irregular» de China Miéville, The Rouse.

The Disappearers pode muito bem ser a «obra-prima» da década, mas como é possível confiar nesse elogio quando o Times atribuiu essa palavra a tantos livros durante esse período? Ela foi atribuída não só a romances de estrelas das cinco grandes editoras, mas também a um romance autoeditado sobre «o romance terno e sem grandes apostas entre uma costureira de colchas bissexual e um ourives transgénero».

É verdade que o Times não descreve nenhuma das suas mais recentes «obras-primas» como «comoventes». Mas afirma que The Disappearers «se instala nas entranhas e começa a torcê-las» e «cravou facas profundamente» no coração do seu crítico. Será isso assim tão diferente de «comovente»?

A crítica do Times a The Rouse foi, à sua maneira, ainda mais hiperbólica. Afirmou que o romance tem passagens que parecem «sem paralelo na literatura e que, de alguma forma, contornam o cérebro e abalam diretamente o sistema nervoso». Como é que um romance pode ser «sem paralelo» na literatura, que tem centenas de anos? E por que razão será bom «contornar o cérebro»? Os romances não deveriam envolver a mente? Uma passagem de The Rouse levou o crítico a afirmar que mal conseguia pensar em «retratos mais indeléveis de uma mãe e um filho na literatura». Será que Hamlet e Gertrude não contaram? Ou será que o crítico simplesmente não os conhecia?

Os romances mereciam melhor do que aquilo que os críticos lhes estavam a dar, argumentava Orwell. Na sua época, os críticos elogiavam excessivamente os livros, em parte porque as editoras puxavam os cordelinhos e retiravam a publicidade se ficassem insatisfeitas. Ninguém precisava de ser tão grosseiro ao ponto de pressionar diretamente os críticos para que fizessem críticas favoráveis — os críticos sabiam o que se esperava deles.

Nos EUA, as críticas literárias de alta qualidade desapareceram em grande parte dos jornais e revistas. Mas por que razão os elogios continuam a ser tão exagerados nas que ainda restam e nos meios de comunicação digitais que as substituíram? Por que razão continuamos a assistir a essa corrida ao exagero de adjetivos e afirmações rebuscadas sobre os livros?

Em «Em Defesa do Romance», Orwell mostrava-se pessimista — com razão, como se veio a verificar — quanto à possibilidade de este quadro sombrio poder mudar e de as críticas poderem começar a servir melhor os romances e os seus leitores. «Atualmente, se se interessa por romances e, mais ainda, se os escreve, as perspetivas são extremamente deprimentes», escreveu ele. Mas «deprimentes» é diferente de «sem esperança». E a leitura do seu ensaio poderá motivar os críticos, pelo menos, a fazer a sua parte para limitar a torrente de elogios exagerados.


terça-feira, 6 de outubro de 2026

VENDA DA REFINARIA DE SINES

  • “A fusão entre a Galp e as espanholas Moeve está a ser financiada pelo fundo de capital de risco norte-americano Carlyle Group, conhecido pelas suas atividades de «aquisição total» relacionadas com ativos estratégicos; especialmente aqueles de natureza belicosa. O Enclave Industrial de Sines corre o risco de se tornar uma «ciber-pólis» detida por poderosos investidores estrangeiros que terão pouca consideração pelas regulamentações da UE e pelas diretivas fiscais. Além disso, tem sido prestada pouca atenção à medida em que Portugal já apoiou a transição da refinaria da produção de petróleo para a de biocombustíveis e hidrogénio verde. A empresa japonesa Mitsui investiu 400 milhões de euros num projeto relacionado, mas não é claro se este foi incluído na transação da Galp ou se a unidade irá operar de forma independente. Pedro Farto, The Portugal News.
  • "No final, saberemos quanto custa e como se paga". Pinto Luz sobre o novo aeroporto de Lisboa. Fonte.
  • O custo de pagar aos parques eólicos britânicos para desligarem disparou para mais de 1,5 mil milhões de libras até agora este ano. Em dias ventosos, as turbinas podem produzir mais energia do que a rede local consegue suportar – pelo que os operadores são pagos para as desligar. Fonte.

BICO CALADO

O xeque Mansour liderou a transação de aquisição do City pelos Emirados Árabes Unidos há quase 20 anos. 
Imagem: Martin Rickett/PA Images/picture alliance
  • Desde que foi adquirido pelos Emirados Árabes Unidos em 2008, o Manchester City tornou-se um dos clubes de futebol mais bem-sucedidos do mundo. Uma série de graves acusações financeiras ameaça comprometer esse sucesso e provocar o caos na Premier League. Uma comissão independente concluiu que o City tinha elaborado «contratos fictícios», além de «recorrer a acordos fictícios para inflar artificialmente as receitas do clube e reduzir os seus custos». Estes contratos, patrocínios duvidosos e uma série de outros métodos foram, de acordo com o relatório da comissão, utilizados para inflar as receitas do clube num montante de cerca de 900 milhões de libras (1,05 mil milhões de euros) durante o período compreendido entre as épocas de 2009-10 e 2017-18. Fonte.
  • ERC descobriu um maná no ‘caso das gémeas’: com segunda coima, encaixe já vai nos 57.000 euros. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

QUANDO O DONO DO JOGO COMPRA O ESTÁDIO: A LIBERDADE DE IMPRENSA EM PORTUGAL ESTÁ À VENDA?


Enquadramento e Cenário:

Em dezembro de 2023, a Cofina Media — dona de títulos como CMTV, Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios e Sábado — foi vendida por cerca de 70 milhões de euros a um consórcio liderado por antigos quadros da empresa e... Cristiano Ronaldo. CR7 detém 30% da holding Expressão Livre (agora Medialivre), sendo o acionista individual com maior participação.

A questão que se coloca é simples: quem controla um império mediático pode continuar a ser escrutinado por ele?

O cenário atual sugere que não. Vários sinais têm sido apontados como evidência de que a liberdade editorial do grupo está comprometida:

1. O "abrandamento" das críticas — Durante anos, a CMTV foi um dos órgãos que mais criticava Cristiano Ronaldo e a sua família. Após a aquisição, analistas e antigos colaboradores notaram um "súbito abrandamento das perseguições a ele". O apresentador Flávio Furtado comentou publicamente que, antes da compra, Ronaldo e a família eram "muito arrasados" na CMTV.

2. Demissões e despedimentos — Em abril de 2025, a Medialivre anunciou um despedimento coletivo de 10 fotojornalistas, afetando meios como o Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios e Sábado. O Sindicato dos Jornalistas classificou a decisão como "inqualificável", especialmente por ter sido comunicada na véspera do Dia do Trabalhador, e questionou como um grupo com resultados positivos podia despedir. Fontes ligadas ao meio jornalístico referem ainda o afastamento de comentadores que criticaram Ronaldo, como Otávio Lopes.

3. Declarações reveladoras — Em visita às instalações da Medialivre, em março de 2025, Cristiano Ronaldo declarou: "Espero que nesta casa a crítica seja quase nula". A frase, que pode ser lida como uma piada, ganha outro peso quando o autor é o maior acionista individual do grupo.

4. O silêncio ensurdecedor — O comentador Luís Vilar, da CNN Portugal, afirmou recentemente que Ronaldo tem "os seus próprios pivôs de comunicação dentro do seu canal", sugerindo que a linha editorial da Medialivre está alinhada com os interesses do acionista.

O contexto português:

Portugal tem hoje três grandes grupos privados de media: Medialivre (de Ronaldo), Media Capital (TVI/CNN) e Impresa (SIC/Expresso). A concentração da propriedade mediática nas mãos de grandes empresários — e agora de uma superestrela do futebol — levanta questões sérias sobre pluralismo, independência editorial e o direito à informação.

A pergunta que fica:

Se um jornalista da CMTV ou do Correio da Manhã quiser investigar ou criticar Cristiano Ronaldo, fá-lo-á com a mesma liberdade com que criticava antes? E se o fizer, sobreviverá na empresa?

O dinheiro não compra apenas ações. Compra silêncios.

sábado, 3 de outubro de 2026

VOLTA OBRIGADO A APRESENTAR SOLUÇÕES PARA PROBLEMAS NA LIMPEZA URBANA

  • O Governo exigiu ao Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), conhecido como Volta, a apresentação de um plano de ação para responder aos problemas de limpeza urbana associados ao funcionamento do sistema. A proposta terá de ser entregue até 16 de outubro, depois de vários municípios terem manifestado preocupação com os efeitos da recolha de embalagens de bebidas nas ruas e nos equipamentos de deposição de resíduos. O plano solicitado pelo Governo deverá identificar medidas que possam avançar já, mas também apresentar uma estratégia para o curto, médio e longo prazo. Entre as exigências colocadas à SDR Portugal está a realização de um levantamento de boas práticas utilizadas noutros países europeus. Entre as medidas que terão de ser avaliadas encontram-se o reforço ou adaptação da rede de pontos de recolha, soluções especificamente concebidas para o espaço público, alterações operacionais e campanhas de sensibilização dirigidas aos consumidores. Na carta enviada à SDR Portugal, a ministra recorda ainda que a legislação e a licença atribuída à entidade gestora estabelecem deveres de cooperação entre a SDR Portugal, os municípios e as entidades responsáveis pela gestão dos sistemas de resíduos urbanos. O enquadramento existente prevê também responsabilidades de financiamento por parte da SDR Portugal relativamente aos custos de limpeza urbana associados às embalagens abrangidas pelo Sistema de Depósito e Reembolso. Segundo o Ministério do Ambiente e Energia, esses encargos incluem operações de manutenção e recolha de papeleiras, varredura, limpeza de praias, transporte e tratamento dos resíduos, nos termos previstos na legislação. Fonte.
  • Portugal soma 102 processos de infração perante Bruxelas: mais de um terço é em ambiente, energia e clima. Quercus.

REFLEXÃO

COMO O SISTEMA VOLTA TROCOU A CIDADANIA AMBIENTAL POR UM NEGÓCIO DE INTERESSES PRIVADOS


Portugal atravessa um momento paradoxal na sua política de resíduos. Por um lado, pressionado pelas ambiciosas metas comunitárias, no âmbito da Diretiva (UE) 2019/904, o país vê-se obrigado a acelerar a transição para uma economia circular. Por outro, a resposta encontrada pelo poder político revela uma rendição preocupante: em vez de aprofundar a literacia ambiental e reforçar os sistemas públicos de recolha seletiva, optou-se por um mecanismo de depósito e reembolso que apela ao mais primitivo dos instintos humanos, a ilusão do ganho monetário imediato. O sistema “Volta”, sob a gestão da entidade privada SDR Portugal, é a materialização dessa escolha.

O Decreto-Lei n.º 78/2022, de 26 de setembro, criou o regime jurídico do sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas não reutilizáveis. A gestão foi concessionada a uma entidade gestora única, a SDR Portugal, uma sociedade de direito privado, sem fins lucrativos, mas composta exclusivamente pelos agentes económicos que colocam embalagens no mercado: produtores, distribuidores e retalhistas. Entre os associados fundadores encontram-se pesos-pesados como a Coca‑Cola Europacific Partners, a Unicer (Super Bock), a Sociedade Central de Cervejas, a Nestlé Waters, bem como as grandes superfícies: Jerónimo Martins (Pingo Doce), Sonae (Continente), Auchan e Lidl.

Ora, o traço definidor de qualquer sistema de responsabilidade alargada do produtor (RAP) é a separação clara entre quem financia e quem fiscaliza. No Volta, porém, os mesmos operadores que geram as embalagens são simultaneamente os donos da entidade que define as regras de operação, o valor do depósito (10 cêntimos por embalagem), a densidade da rede de recolha e a comunicação pública. Este entrelaçamento gera um conflito estrutural: os produtores têm todo o incentivo para calibrar o sistema de modo a maximizar o retorno de imagem, minimizar os custos logísticos e capturar as embalagens de maior valor material, deixando o restante fluxo de resíduos e os seus custos, para a esfera pública.

Acresce que as embalagens sujeitas a depósito são precisamente as mais valiosas no mercado de recicláveis (PET e latas de alumínio). Ao retirá-las do circuito municipal, o sistema priva os serviços públicos de uma fonte de receita crítica, ao mesmo tempo que os mesmos acionistas da SDR Portugal beneficiam do valor material recuperado e das margens geradas pelas embalagens não devolvidas (depósitos não reclamados), que permanecem na esfera privada.

Durante décadas, a política ambiental portuguesa assentou, ainda que com insuficiências, num paradigma de cidadania responsável, educar para separar, internalizar a norma social da reciclagem e criar infraestruturas de proximidade (ecopontos, recolha porta‑a‑porta). Esse caminho, lento mas estruturante, está a ser abandonado em favor de um modelo que reduz o cidadão a um agente económico que só age perante um estímulo financeiro. A psicologia ambiental designa este fenómeno de efeito de crowding out: recompensas extrínsecas (os 10 cêntimos) podem minar a motivação intrínseca para comportamentos pró‑ambientais, sobretudo quando o incentivo é percebido como controlador e de baixo valor.

A realidade diária já confirma os receios. Multiplicam‑se as imagens de pessoas a vasculhar papeleiras em busca de garrafas com o símbolo “Volta”, numa espécie de economia informal de sobrevivência que degrada o espaço público. Ecopontos amarelos aparecem tombados, abertos à força, não por um ato de vandalismo gratuito, mas para aceder apenas às embalagens com depósito. Em termos sociológicos, o sistema está a criar uma nova categoria de “catadores urbanos”, empurrados para uma atividade que o discurso oficial disfarça de “reciclagem cidadã”, mas que não passa de uma resposta a um incentivo pecuniário desenhado para servir metas estatísticas.

É precisamente este o retrato de um país que desistiu da literacia ambiental. Em vez de aprofundar o conhecimento sobre os ciclos dos materiais, as interações ecológicas e a responsabilidade intergeracional, o Estado português sinaliza que o gesto ecológico só tem valor se for monetizado. Trocámos a cidadania por dez cêntimos. E, ao fazê‑lo, deixamos aos nossos filhos um legado de degradação do espaço público e de esvaziamento do sentido coletivo da sustentabilidade.

Um dos argumentos mais frágeis dos defensores do Volta é o de que o sistema complementará os esforços existentes, sem prejudicar a recolha seletiva tradicional. A evidência científica e a experiência comparada mostram o contrário. Vários estudos sobre sistemas de depósito em países como a Alemanha ou a Croácia revelam que a introdução de um SDR provoca um efeito de desvio, os cidadãos que antes separavam todas as embalagens no contentor amarelo passam a separar apenas as que possuem depósito, depositando as restantes (embalagens de iogurte, cuvetes e garrafões de PET, plásticos mistos) no lixo indiferenciado. Este efeito de seleção adversa diminui a qualidade e a quantidade dos materiais recolhidos nos ecopontos, comprometendo as metas de reciclagem globais e aumentando os custos de triagem.

Em Portugal, onde a recolha porta‑a‑porta e os sistemas de contentorização pública ainda lutam para atingir coberturas e taxas de captura satisfatórias, o Volta ameaça canibalizar exatamente o fluxo mais nobre que lhes conferia viabilidade económica. O resultado previsível será uma deterioração dos indicadores de reciclagem dos plásticos não‑depósito, precisamente aqueles que mais necessitam de redes estruturadas de recolha. A pressão para o cumprimento das metas comunitárias de reciclagem poderá, paradoxalmente, ser comprometida por uma medida que aparenta acelerá‑la.

Um dos aspetos menos discutidos na esfera pública é a dimensão financeira da transferência de competências, ou da ausência dela. A Lei n.º 75/2013 (Regime Jurídico das Autarquias Locais) atribui aos municípios a competência para a gestão dos resíduos urbanos. Contudo, os municípios portugueses, fragmentados e de reação tardia, não se coligaram a tempo de reivindicar ou de não permitir a operação do sistema de depósito como um serviço público municipal ou intermunicipal. Essa inação permitiu que a gestão fosse capturada pelo consórcio privado, privando as autarquias de receitas anuais que, nalguns casos, ascendem a milhões de euros precisamente aquelas que financiavam a recolha e o tratamento de outros fluxos, nomeadamente os resíduos indiferenciados.

A verdade incómoda é que os custos de recolha e tratamento dos resíduos urbanos não diminuirão com o Volta. As câmaras continuarão a suportar a recolha indiferenciada, as suas rotas, a sua triagem e embaçamento e o combate ao littering, agravado pelo comportamento oportunista que o sistema incentiva. Já as receitas da venda de materiais recicláveis sofrerão um colapso no segmento das embalagens de bebidas. O diferencial será pago por cada munícipe, via tarifas de resíduos, num fenómeno que os economistas ambientais descrevem como socialização de custos e privatização de benefícios.

Em suma, na minha modesta visão o sistema Volta não é um instrumento neutro de política ambiental, é uma escolha de sociedade. Ao colocar o depósito reembolsável nas mãos de um consórcio dominado pelos embaladores e pela grande distribuição, o Estado português transferiu um bem público, “a gestão de um fluxo estratégico de resíduos”, para entidades que não têm qualquer mandato democrático, mas que controlam a narrativa da “economia circular” enquanto expandem a sua influência. Ao reduzir o gesto ecológico a uma transação monetária de dez cêntimos, renunciou‑se ao projeto de formar cidadãos ambientalmente literatos, capazes de agir por dever e consciência, e não apenas por conveniência.

Sociologicamente, o que está em curso é uma regressão normativa, um recuo da interiorização de valores ambientais coletivos para um estado de heteronomia, em que o comportamento correto só ocorre perante um estímulo externo. O país que se orgulhava de ter transformado a reciclagem num hábito quotidiano arrisca‑se agora a ver as suas aldeias, vilas e cidades pontuadas por ecopontos vandalizados e por uma nova legião de “catadores” que, longe de qualquer preocupação ambiental, respondem apenas à lei do ganho imediato.

As metas europeias serão provavelmente atingidas no papel, contabilizando as toneladas que passam pelas máquinas de devolução instaladas nos hipermercados. Mas a pergunta que ninguém ousa fazer é: “a que custo social, territorial e moral?”

Quando a pressão dos grandes grupos embaladores se sobrepõe à pedagogia pública, quando o apelo ao instinto substitui a educação, e quando os municípios são remetidos ao papel de meros pagadores de um sistema que não controlam, o resultado não é um país mais sustentável. É um país que escolheu, deliberadamente, desistir de si mesmo.

BICO CALADO

  • “Enquanto a economia europeia se militariza para travar a desindustrialização e a onda de falências, enquanto os grandes fundos, bancos e petrolíferas se enchem de dinheiro fácil e fazem lucros recorde, o povo, em hipnose, é atraído para os jogos, para a especulação, para a 'roda da sorte', numa promessa de riqueza que não é mais do que uma desesperada tentativa de fuga à pobreza. São a miséria e o vazio mascarados de 'capitalismo para todos' ou de deusa Fortuna com uma cornucópia colorida e digital.” Miguel Szymanski.
  • Eis porque sabemos agora que a história da Flydubai deve ser falsa. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

RIDÍCULAS FALSAS BANDEIRAS
Craig Murray, Substack. Rev. O’Lima


É perfeitamente possível que os homens fossem, de facto, ladrões de combustível, limitando-se a roubar combustível de quintas. Parecem ter estado equipados para o roubo de combustível e tudo o que transportavam era gasolina. Vale a pena referir, numa nota de rodapé, que existe um historial muito concreto de militares norte-americanos — e também britânicos — a vender combustível militar proveniente de bases. O gasóleo vermelho roubado, destinado ao HMS Bulwark, abasteceu as atrações de feiras por toda a Inglaterra, o que acho maravilhoso. Mas se os «Cinco de Fairford» eram ladrões de combustível, é mais provável que as quintas fossem o alvo.

Devemos fazer aqui uma pausa para reconhecer que a USAF Fairford é erroneamente designada como RAF Fairford, o que constitui, por si só, uma mentira de propaganda, tal como «RAF Lakenheath» ou «RAF Mildenhall». O Reino Unido está repleto de bases militares norte-americanas, nas quais se aplica a legislação dos EUA. (A minha certidão de nascimento indica a profissão do meu pai como «funcionário da Força Aérea dos EUA». Na altura, ele trabalhava em Mildenhall).

É um exemplo clássico de propaganda estatal o facto de a gasolina descoberta nas carrinhas de Fairford ter sido descrita pela polícia antiterrorista como um potencial acelerador para uma bomba.

A gasolina serve para isso. No entanto, tem também utilizações bastante mais óbvias. A mesma técnica foi utilizada no auge da propaganda da Guerra contra o Terror, no caso do «Grande Complot de Bombas da Páscoa», que nunca existiu. A polícia detinha e prendia muitos jovens muçulmanos em toda a região de Manchester, o que foi notícia de primeira página. Todos foram posteriormente libertados sem acusação.

Mas, na altura da detenção, a polícia anunciou que tinha encontrado um ingrediente potencialmente utilizável na fabricação de bombas numa cozinha. Ora bem, e encontraram mesmo. Era um saco de açúcar. O açúcar é, de facto, um ingrediente potencial para a fabricação de bombas. No entanto, a maioria de nós tem um pacote na cozinha. Pelo menos a polícia não demorou dez dias a encontrar o pacote de açúcar na cozinha, ao contrário do que aconteceu quando revistaram o apartamento de Charlie Rowley à procura de um frasco de novichok e demoraram dez dias a «encontrar» um frasco de perfume que estava em cima da bancada da cozinha.

No caso de Fairford, ponderando tudo, penso que é um pouco mais provável que se trate de uma operação de bandeira falsa que correu mal do que de meros ladrões de combustível. Sabemos que os homens não tinham bombas nem armas, o que torna bastante difícil para o governo sustentar a narrativa terrorista. Mas se fossem bodes expiatórios envolvidos numa operação de bandeira falsa, já haveria na base muitos objetos explosivos que poderiam ter sido utilizados para criar o «incidente terrorista» à sua volta.

Dois pontos-chave levam-me a pensar que se tratou de uma operação de bandeira falsa. Em primeiro lugar, a agricultora que ligou para o 999 insistiu que havia mais homens além dos cinco detidos e libertados sob fiança. Os outros teriam sido os polícias infiltrados — agentes provocadores — que teriam sido discretamente retirados do local. Isso também se coaduna com a informação divulgada de que foi um dos homens que telefonou a dar um aviso sobre o «ataque».

Parece-me que tinha sido planeada uma operação espetacular de bandeira falsa, com o envolvimento dos EUA, tal como alegado por Trump, e possivelmente com o conhecimento de Israel, tal como alegado por Netanyahu. Esta operação dos serviços de segurança foi considerada demasiado complexa para a polícia local (que poderia ser inconvenientemente honesta), que não estava a par da situação. Tudo correu muito mal para o governo quando um agricultor local atento ligou para a polícia local e quando um dos participantes também deu o alarme. Pode ter sido um dos «terroristas» recrutados que se acobardou, ou um dos agentes que entrou em pânico por ter perdido o contacto com a sua linha de comando.

Compreende-se melhor agora o recurso a bodes expiatórios recrutados para levar a cabo operações de bandeira falsa. Tenho escrito sobre este tema desde antes do complot bombista de Newburgh, que constituiu um exemplo particularmente flagrante. Nos EUA tem havido uma maior consciencialização e reação face a complots incitados por agentes provocadores do que no Reino Unido.

Para quem ainda tenha dúvidas, eis um resumo do caso de Newburgh: Em maio de 2009, o FBI deteve quatro homens de baixos rendimentos de Newburgh, Nova Iorque, e anunciou que tinha frustrado um plano para bombardear duas sinagogas no Bronx e abater aviões militares na base da Guarda Nacional Aérea de Stewart. O plano, os alvos, as bombas inertes e o míssil Stinger desativado foram todos fornecidos pelo FBI. O recrutador era Shahed Hussain, um vigarista paquistanês que se tinha tornado informador para evitar a deportação após um esquema relacionado com cartas de condução. Recebendo quase 100 000 dólares, passou mais de um ano a «pescar» numa mesquita de Newburgh, fazendo-se passar por um abastado agente do Jaish-e-Mohammed, antes de se aproximar de James Cromitie, um empilhador do Walmart e pequeno traficante de droga. Hussain ofereceu uma recompensa celestial e até 250 000 dólares. Cromitie recrutou mais três pessoas: Onta Williams, David Williams e Laguerre Payen. Hussain levou-os de carro para além da fronteira estadual para inspecionar as armas falsas, o que transformou as acusações em crimes federais e implicou uma pena mínima de 25 anos. Foram condenados em 2010. A juíza responsável pela sentença, Colleen McMahon, afirmou acreditar, sem sombra de dúvida, que não teria havido qualquer crime se o governo não o tivesse instigado, planeado e levado a cabo. Em 2023, ordenou a libertação de três deles, classificando o caso como uma conspiração orquestrada pelo FBI e referindo que o verdadeiro principal conspirador eram os EUA. Libertou Cromitie em 2024 com base nos mesmos fundamentos, descrevendo-o como um vigarista de pouca peso sem antecedentes de violência e Hussain como um vilão que o tinha atraído com promessas de recompensas tanto celestiais como terrenas.

O incêndio criminoso das ambulâncias em Golders Green foi um caso clássico deste género de operações de bandeira falsa. Quatro jovens muçulmanos foram recrutados, neste caso online e não pessoalmente, por alguém que nunca tinham visto e que era, quase de certeza, um agente da Mossad. Ofereceram-lhes dinheiro para atacarem as ambulâncias, o que eles fizeram. O ataque é então atribuído ao Irão através de uma declaração num canal do Telegram em nome de uma «organização iraniana», a Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia, que é uma invenção da Mossad. A HAYI tornou-se conhecida mundialmente através de comunicados de imprensa simultâneos, a 16 de março, emitidos por cinco órgãos do governo israelita em Israel, nos EUA e no Reino Unido e de um artigo da organização de fachada israelita «Fundação para a Defesa da Democracia». Nick Stewart, da FDD, viaja com Kushner e Witkoff como parte da equipa de negociação dos EUA para o Médio Oriente. Há inúmeras razões para duvidar da existência real da HAYI. Nenhum dos seus materiais está em farsi. Todos os seus «ataques» têm sido pequenos incêndios criminosos contra alvos insignificantes que não feriram ninguém. A gramática, a caligrafia e as imagens dos seus materiais estão todas erradas. O próprio Estado britânico desmentiu agora parte da narrativa do Mossad HAYI. A 29 de abril, quando Essa Suleiman esfaqueou três homens, toda a comunicação social omitiu a primeira vítima muçulmana e alegou que se tratava de um ataque terrorista antissemita contra os dois homens em Golders Green. O canal «iraniano» do Telegram, gerido pela Mossad e denominado «HAYI», divulgou imediatamente um comunicado reivindicando a responsabilidade pelo ataque. Mas ontem a polícia e o Ministério Público viram-se obrigados a retirar a alegação de que se tratava, de todo, de um ataque terrorista. O esfaqueamento do muçulmano é considerado tentativa de homicídio, embora continue a ser ignorado pelos media. Assim, o «HAYI» reivindicou a responsabilidade por um incidente terrorista inexistente.

Uma operação de bandeira falsa pode consistir, mas não necessariamente, no Estado a colocar uma bomba e depois a culpar outra pessoa. Pode ser mais complexo — o Estado a recrutar pessoas para colocarem bombas. Essas pessoas podem acreditar que fazem genuinamente parte de uma campanha ideológica, ou podem estar simplesmente a fazê-lo por dinheiro. (...)