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sexta-feira, 22 de maio de 2026

ASSEMBLEIA MUNICIPAL


Vogais, precisam-se 

Primeiro foi o atraso de mais de uma hora. E o pontapé de saída foram as substituições em cadeia. Graziela Pires (PSD), Secretária da mesa, fazia-se substituir por Manuel Ramos. Manuel Osório substituía Camarinha Lopes, que pedira para ser substituído por António Gonçalves, também substituído. António Camilo (PS) substituía José Mota, Flávio Bastos substituía Nuno Barbosa e José Avelino substituía Luís Peralta. E Albertina Sousa via-se pela primeira vez catapultada para a bancada socialista mercê dos pedidos de substituição de António Lacerda, Carlos Couceiro, Jorge Iglésias e Manuel Rocha. Caso para perguntar: como se pode aguentar um campeonato com tantos leseonados? 
Depois, pela mão do CDS veio um voto de saudação pelo Dia Internacional da Mulher (8 Março), logo aprovado por unanimidade. Não sem que Saudade Manso Preto (CDU) retribuísse o humor de Correia de Araújo: não apresentara nenhuma saudação porque depositara esperança na mudança de atitude para com a Mulher por parte de um Partido como o CDS. 

O Não-feriado Cavacal 

Duas moções (PS e CDU) manifestando profundo desacordo pela tentativa do Governo de eliminar o feriado de 3ª feira de Carnaval foram em seguida aprovadas por maioria, com o PSD a abster-se após pedido de interrupção dos trabalhos por pouco mais de dois minutos. Ferreira de Campos qui-los «curtos». É que tem havido os longos e os de Camilo
Autocrática, arbitrária, injusta, desajustada, desadequada, arrogante e intolerante foram os epítetos utilizados para caracterizar tão peregrina decisão governamental. 

Jorge Alves, o crítico 

Espaço depois para o regimental relatório do Presidente Vitó sobre o estado do Concelho. 
Jorge Alves (PSD), de indicador direito insistentemente acusador, foi vedeta nas críticas ao Executivo e à sua Presidência. Tudo por causa da ineficaz actuação da Câmara no planeamento urbanístico e rodoviário de Anta A continuarem os atropelos e as demoras, Anta reserver-se-á o direito de reagir na devida altura, ameaçou Jorge Alves. É que as eleições autárquicas estão à porta... 

Dívida à EDP 

A peça publicada pelo « EV», no próprio dia da reunião da AM, sobre a dívida de 7.5 milhões à EDP provocou um pedido de esclarecimento, que Valdemar Ribeiro satisfez, aliás corroborando pormenorizadamente a nossa notícia. 
Para este Vereador socialdemocrata, a responsabilidade foi da Assembleia que, entre 1980 e 1985, se recusou sistematicamente a actualizar os preços de energia eléctrica. 
Na presidência da AD (1980- 82), os Serviços Municipalizados compravam a electricidade a 3$01 (1981) e a 4$27 (1982) e vendiam-na a 2$19. Na presidência do PS (1983-85), os Serviços compravam-na, respectivamente a 5$84, 7$60 e 8$94 e vendiam-na a 2$62, 5$33 e 6$09. «Quando o PSD tomou conta da Câmara em 1986, a dívida já era de 958.225 contos», disse Valdemar Ribeiro. «E em 6 de Agosto de 1986 a Câmara negociou um acordo com a EDP para o congelamento da dívida, mas dois dias depois um representante da empresa comunicou à Câmara que os seus superiores não reconheciam o acordo», continuou aquele Vereador. 
Em 1989, a dívida da Câmara à EDP rondava os 3.826 mil contos, mas «nessa altura do campeonato estávamos muito bem colocados» (sic), acrescentou Valdemar Ribeiro. É que Valongo devia 6 milhões de contos, a Maia 7 milhões, Gaia 8.5 milhões, Gondomar 14, e o Porto 57.506 milhões.
Valdemar Ribeiro esclareceu ainda que a Câmara tem pago tudo à EDP, sendo os juros acumulados responsáveis pela actual dívida. Manifestou também a esperança de ver o assunto resolvido politicamente, à semelhança do Porto, que já resolveu a sua dívida. 
Tudo isto não congelou porém o humor de Jorge Carvalho. É que o Vogal da CDU, não com preendia como mesmo com a má gestão da AD os preços da electricidade eram baixos e a Câmara nunca tivera de contrair empréstimos. Agora, com as boas gestões do PSD, os preços eram altos e a Câmara contraía empréstimos de 480 (1992) e de 340 mil contos (1993). 

Pena alta 

200 mil contos é a indemnização exigida pelos proprietários do Palacete da Pena ao Ministério da Educação para obras de recuperação do imóvel, revelou Valdemar Ribeiro. 
Aos 100 mil contos propostos pelo Ministério, os proprietários tinham exigído contrapartidas: a desafectação do quarteirão (há anos afectado para ensino) e trocas de propriedades com a Câmara. 
Por estas e por outras é que, depois dos árabes, os chineses já chegaram ao Alentejo... 
Os esforçados trabalhos da Assembleia continuam 2ª feira, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.
Octávio Lima
Espinho Vareiro, 3 de maio de 1993







AÇORES: PRESIDENTE DO GOVERNO REGIONAL DISTINGUIDO COM ÓSCAR DO OCEANO

  • O Presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, foi distinguido com o prémio internacional “Peter Benchley Ocean Awards”, na categoria “Excellence in National Leadership”, uma das mais prestigiadas distinções mundiais na área da conservação dos oceanos. A cerimónia de entrega dos prémios decorreu no Monterey Bay Aquarium, na Califórnia. Criados por Wendy Benchley e David Helvarg, os “Peter Benchley Ocean Awards” são considerados os “Óscares do Oceano”, distinguindo, todos os anos, personalidades e instituições que contribuem de forma exemplar para a proteção e recuperação do meio marinho. Fonte.
  • O Movimento Gaia Verde manifesta a sua preocupação com a realização do Festival Internacional de Forró no Parque de São Paio, junto à Reserva Natural Local do Estuário do Douro, nos dias 29 e 30 de maio entre as 13h e as 00h. Esta localização é desaconselhável para eventos desta dimensão, no qual são esperadas mais de 10.000 pessoas, devido à pressão sobre habitats, fauna e tranquilidade do espaço. A proximidade à reserva levanta riscos relacionados com ruído, afluência de público, produção de resíduos e iluminação dos espetáculos, todos fatores de enorme perturbação da avifauna. Recorde-se que este mesmo local já foi no passado objeto de uma luta intensa do movimento ambientalista de Gaia, contra a instalação do Festival Marés Vivas, precisamente devido aos impactos negativos que um evento de grande dimensão poderia causar num espaço de reconhecido valor natural.
  • Consulta públitraca até 3 de julho: O projeto de Quadruplicação do Troço Castanheira do Ribatejo – Azambuja, na Linha do Norte, entre o pk 34+100 e o pk 47+000, tem uma extensão de cerca de 12,9 km e encontra-se em fase de Projeto de Execução. Fonte.

QUÉNIA: JOVENS TRANSFORMAM RESÍDUOS AGRÍCOLAS NUM FILTRO DE ESCAPE PARA VEÍCULOS

  • A Earth Foundation, com sede na Suíça, atribui o Prémio Earth a jovens entre os 13 e os 19 anos que trabalham em soluções para os desafios ambientais. «O problema da poluição atmosférica era muito pessoal para nós, e foi por isso que começámos a pensar em encontrar uma solução», disse Fredrick Njoroge Kariuki, um dos membros da equipa vencedora da região de África. O sistema de filtragem de gases de escape HewaSafi utiliza filtros feitos de materiais de origem local, como cascas de coco, espigas de milho, malha de aço, cobre e materiais reciclados de baterias usadas. Fonte.
  • Quase uma década depois de a Escócia ter criado a Área Marinha Protegida de South Arran e proibido a pesca de arrasto pelo fundo em grande parte da mesma, a vida no fundo do mar tem prosperado, segundo um novo estudo.
  • Em março de 2026, as energias renováveis ultrapassaram oficialmenteleg o gás natural, tornando-se a maior fonte de produção de eletricidade na rede elétrica dos EUA pela primeira vez na história. Fonte.
  • Um parque solar no Minnesota plantou flores por baixo dos seus painéis, e em pouco tempo começaram a aparecer borboletas-monarca e dezenas de novas espécies de plantas. Fonte.
  • A Ensco foi multada em 287 000 libras depois de um trabalhador offshore ter caído e morrido através de um buraco numa plataforma no Mar do Norte. Fonte.
  • Os pescadores da República Democrática do Congo recorrem à pesca de arrasto de resíduos plásticos. Fonte.

REFLEXÃO

VOLTA – RECICLAGEM OU NEGÓCIO DISFARÇADO?


Sobre este tema, convirá (reler) estes artigos:

BICO CALADO

  • "Ver a Selecção no Mundial? Epá… sinceramente? Cada vez me custa mais entrar nessa histeria colectiva. Estamos a falar de um grupo de multimilionários completamente desligados da realidade de quem vive neste país. Malta que ganha numa semana aquilo que a maior parte das pessoas não ganha numa vida inteira. E depois querem vender-nos aquela conversa de ‘orgulho nacional’, como se um golo resolvesse o facto de haver gente a trabalhar 40 horas por semana e mesmo assim não consegue pagar renda, luz e comida ao mesmo tempo. (...) Há ainda outra coisa que ninguém gosta de dizer em voz alta: a Selecção parece cada vez mais um catálogo de activos do Jorge Mendes. Aquilo já não é só futebol. É uma montra do dito empresário. São jogadores valorizados, transferências inflacionadas e muito marketing disfarçado de patriotismo. O adepto acha que está a defender a bandeira, mas muitas vezes está só a ajudar os milionários a ficarem ainda mais milionários. O futebol tornou-se uma anestesia social perfeita. Enquanto o povo anda entretido com penalties, golos e debates de café, o nosso governo vai destruindo direitos, privatizando tudo, esmagando salários e transformando Portugal num país onde trabalhar já não chega para viver com dignidade. E o mais triste é ver pessoas revoltadas a culparem precisamente quem ainda tenta defender os serviços públicos, os trabalhadores e os apoios sociais. Por causa da ignorância, da iliteracia política e da avalanche de desinformação, acabam a votar em partidos que estão literalmente contra os interesses delas. (...) E depois tens o Ronaldo, que supostamente devia ser um símbolo nacional. Um homem com influência planetária. E o que é que ele faz? Anda a normalizar figuras perigosas e autoritárias como o Donald Trump, um lunático egocêntrico que representa tudo o que há de mais tóxico na política moderna. Quando alguém daquela dimensão escolhe bajular esse tipo de poder, está a escolher o lado errado da história. (...)" Pedro Lima
  • “Como prova da degenerescência das espécies, Nuno Melo é hoje o líder e Paulo Núncio, pegador de bezerrinhos, o ideólogo. Para evitar as gafes, para não tartamudear no nome de organizações a que Portugal pertence, Melo nomeou porta-voz do clube o piedoso João de Almeida. Faltou lá a D. Cristas que, em ano de seca, pediu aos portugueses para rezarem a pedir chuva, talvez porque esse ano continuou seco. Com a Pátria indiferente, o repetente presidente do CDS, empolgado, disse que «a marca do CDS está na Defesa Nacional e na revolução que estamos a fazer» [sic], a sonhar com a fábrica de drones com que invadirá Olivença, drones autografados por ele próprio, Nuno Melo, com a bandeira das 7 quinas.” Carlos Esperança, XXXII CONGRESSO DO CDS-PP.
  • Na segunda-feira, realizou-se em Itália uma greve geral a nível nacional em protesto contra as políticas de rearmamento e em solidariedade com os palestinianos em Gaza. Fonte.
  • Enviar mensagens, vídeos e piadas sem graça, em vez de conversarmos uns com os outros, interagindo pessoalmente. A par desta propaganda de lavagem cerebral, fomos levados a acreditar que o teletrabalho está repleto de vantagens. É uma mentira descarada. Esses benefícios do «trabalho a partir de casa» visam separar-nos uns dos outros para que a interação física seja evitada, tornando-nos mais manipuláveis, controláveis e dispensáveis, passíveis de ser substituídos por robôs e, eventualmente, pela Inteligência Artificial. Michel Chossudovsky, Substack.
  • O presidente croata, Zoran Milanović, recusa-se a aprovar a nomeação de um novo embaixador israelita na Croácia. Fonte.
  • Catherine Martina Ann Connolly (nascida a 12 de julho de 1957) é uma política irlandesa que ocupa o cargo de presidente da Irlanda desde 11 de novembro de 2025. Anteriormente, classificou Israel como um Estado terrorista. Fonte.

terça-feira, 19 de maio de 2026

RTP, LINHA DA FRENTE – BRAÇO DE FERRO

Espinho, Silvalde. Foto: Regimento de Engenharia Nº 3, 17 dezembro 2025.

A RTP, no seu programa Linha da Frente, exibiu a 14 de maio de 2026 um documentário intitulado Braço de Ferro.
Nele se exibem, sem dó nem piedade, os impactos da subida do nível do mar, da erosão que assola muitas zonas costeiras do país e as consequências para os espertos que insistem em promover a construção em cima de dunas e arribas. A reportagem aponta Esposende, Ofir, Faro, Quarteira, Fonte da Telha, Figueira da Foz, Torres Vedras, São Martinho do Porto, Mira, Furadouro e Carvoeiro como exemplos flagrantes de onde a teimosia, a irresponsabilidade e o mau ordenamento do território têm gerado situações de enorme gravidade."

Este programa veio lançar um enorme balde de água fria sobre a ideia da Iniciativa Liberal de Espinho de requalificar a rua 2 / passeio marítimo. Apresentada na Assembleia Municipal, a proposta foi aprovada por escassa maioria, apesar de várias intervenções terem alertado para as poderosas condicionantes impostas pelo constante avanço do mar e pelos frequentes galgamentos registados ao longo de toda a orla costeira espinhense. Ufano, o promotor da proposta publicou numa rede social um cartaz de estilo imobiliáriocelebrando a aprovação da proposta com uma linguagem gráfica que sugeria estar garantida a execução da ideia.

Parodiando esta peregrina ideia, gerou-se um soneto humorístico intitulado ‘Ao comendador da gentrificação


AÇORES: CONTAMINAÇÃO DE TANQUE DE COMBUSTÍVEL SUSPENDE ABASTECIMENTO DE AVIÕES CIVIS


A contaminação de um tanque de combustível na base das Lajes, nos Açores, está a suspender o abastecimento de aviões civis. FonteFantástico, nada a ver com o combustível para os aviões de guerra do vizinho. Uma distração para desviar as atenções sobre a polémica utilização da base das Lajes por parte de aviões de apoio à guerra no Irão. Entretanto, as memórias por vezes são inconvenientes: “Açores: Reportagem do Expresso sobre a contaminação dos solos na Terceira pela atividade da Base das Lajes galardoada com Prémio Gazeta de Imprensa 2018”.



REVELADOS NOVOS PLANOS DE GEOENGENHARIA SOLAR

  • A Stardust Solutions revelou o seu plano, até agora mantido em segredo, para arrefecer a Terra através da geoengenharia solar. A startup israelo-americana angariou 75 milhões de dólares junto de investidores que apostam que o agravamento do aquecimento global levará os governos a financiar a sua tecnologia. A estratégia será pulverizar milhões de toneladas de minúsculas partículas de sílica amorfa patenteadas (com 0,5 micrómetros de tamanho, 125 vezes mais pequenas do que um grão de areia) na estratosfera, a cerca de 18 km acima do solo, para bloquear a luz solar. A empresa publicou seis artigos académicos (ainda não revistos por pares) e está a solicitar patentes. Afirma que as partículas são «biologicamente seguras» e concebidas para se reintegrarem nos ciclos naturais. Porém, esta tecnologia não aborda a causa principal (a queima de combustíveis fósseis), o que significa que o mundo ficaria «viciado» nesa tecnologia. Além disso, uma entidade com fins lucrativos não pode autogerir uma tecnologia de tal importância global, apelando a uma governação da investigação independente e coordenada, exigindo, por isso, o apoio ou a aceitação de grandes potências, como os EUA e a China, para ter sucesso. Refira-se que o governo dos EUA tem demonstrado mais interesse em proibir a ciência climática do que em regulamentar as tecnologias emergentes, deixando um vazio para os atores privados. Fonte.

  • A ArcelorMittal Exploitation Minière Canada foi multada em 100 milhões de dólares por violar a Lei das Pescas através da deposição ilegal de substâncias nocivas. Fonte.
  • Obras na Barragem do Pisão novamente suspensas por decisão judicial. Fonte.
  • Relatórios apontam impactos estruturais graves de centrais solares na Beira Baixa. Fonte.

BICO CALADO


Rainer Hachfeld, CagleCartoons.com.

A pena de morte quase duplicou nos EUA, enquanto o número global atinge o nível mais elevado dos últimos 44 anos. «Este aumento alarmante no recurso à pena de morte deve-se a um pequeno grupo isolado de estados dispostos a levar a cabo execuções a qualquer custo, apesar da tendência global contínua para a abolição», afirmou a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

UM PARADIGMA FASCISTA
Cory Doctorow, Medium. Trad. O’Lima.


(…)

Fascistas como Farage e Trump são, na sua essência, antidemocráticos. O seu argumento é que o povo é incapaz de se autodeterminar (como afirma Peter Thiel, «a democracia é incompatível com a liberdade»). Querem que pensemos que todos os nossos vizinhos são irracionais e tolos, e que nós também somos irracionais e tolos, e que a nossa segurança e prosperidade só podem ser salvaguardadas se procurarmos aquelas poucas pessoas que nasceram para governar e as libertarmos das mesquinhas formalidades e regulamentos que a democracia e o Estado de direito exigem.

Por outras palavras, o paradigma da democracia é que todos nós somos capazes tanto de uma autogovernança sensata como de uma má governança auto-racionalizada, e que cada um de nós tem uma perspetiva útil para contribuir. O paradigma fascista é que não se pode confiar em nós para nos governarmos a nós próprios, e que apenas as pessoas que nasceram com «bom sangue» são capazes de dirigir as nossas vidas.

Esta é a teoria subjacente ao «realismo racial» e à «diversidade humana», bem como a todos os outros nomes educados que o fascista moderno utiliza para ocultar o facto de que está a ressuscitar a eugenia. Explica o pânico em torno da DEI, um pânico motivado pela crença de que pessoas «inferiores» estão a ser elevadas a cargos de poder e autoridade que são geneticamente incapazes de desempenhar.

É por isso que, sempre que ocorre um desastre, os fascistas exigem saber o género, a raça e a orientação sexual do piloto, do capitão do navio ou do responsável oficial. Se a pessoa que fez o navio de carga colidir com a ponte tiver pele morena, podemos acrescentar mais uma linha ao registo de custos associados ao projeto condenado ao fracasso de colocar pessoas que nasceram para serem mandadas no lugar do chefe (claro que, se o piloto acabar por ser um homem branco, isso não prova nada, exceto que, por vezes, os erros acontecem).

O ressurgimento do fascismo neste século tem sido assustadoramente eficaz e, por vezes, pode parecer imparável. O trabalho de Meadows sobre o pensamento sistémico fornece uma explicação para essa eficácia — e sugere uma teoria da mudança para enviar o fascismo de volta para o cemitério da história. Os fascistas introduziram alterações em aspetos como leis e ciclos de retroalimentação, regras e distribuição de poder, mas tudo isto decorre de uma alteração mais profunda do sistema, ao nível do paradigma.

O que sugere que a verdadeira luta que temos é sobre esse paradigma: temos de convencer os nossos vizinhos de que são suficientemente inteligentes para se governarem a si próprios, tal como nós e todos os outros. Temos de os convencer de que mesmo a pessoa mais inteligente e sábia (incluindo-nos a nós, incluindo-os a eles) é capaz de cometer loucuras e precisa de ter controlos sobre a sua (nossa) autoridade.

Temos de atacar de frente a teoria do «executivo unitário» e todas as outras ideologias autocráticas. Temos de insistir que estas não são apenas inconstitucionais, mas que são ideologicamente catastróficas. «Não aos reis», porque mesmo um rei bondoso não é infalível, e isso significa que a omnipotência é sempre autodestrutiva a longo prazo.

O renascimento fascista tem sido assustadoramente eficaz e resiliente — e o pensamento sistémico oferece uma explicação tanto para essa eficácia como para essa resiliência.

domingo, 17 de maio de 2026

EUA: ELEFANTES ESMAGAM CAÇADOR MILIONÁRIO

  • Caçador de animais de grande porte e milionário norte-americano morre após ser esmagado por manada de elefantes. Era um colecionador de troféus. Fonte.
  • Um transbordamento do sistema de esgotos mistos lançou mais de 10 milhões de galões de esgoto não tratado no porto de Boston, depois que fortes chuvas sobrecarregaram partes da antiquada rede de esgotos de Massachusetts. De acordo com a Autoridade de Recursos Hídricos de Massachusetts, a descarga ocorreu pelo emissário da Baía de North Dorchester, responsável pelo tratamento conjunto de águas pluviais e residuais. Quando as tempestades são severas, esses sistemas podem transbordar e liberar os efluentes diretamente nos corpos d'água. As autoridades emitiram alertas de saúde pública, orientando os moradores a evitar nadar nas praias e zonas costeiras afetadas por pelo menos 48 horas, devido aos altos níveis de bactérias. Grupos ambientalistas destacaram que as chuvas cada vez mais intensas estão tornando esses transbordamentos mais frequentes, reforçando a urgência de melhorias na infraestrutura. Fonte.
  • Um centro de dados consumiu 30 milhões de galões de água sem que ninguém se apercebesse, até até que os residentes se queixaram da baixa pressão da água. Os residentes de Fayetteville, na Geórgia, notaram uma baixa pressão da água no ano passado. A empresa de serviços públicos descobriu duas ligações de água não registadas num dos maiores complexos de centros de dados do país. Fonte.
  • O que Hanói aprendeu ao eliminar os gradeamentos dos seus parques e abrir as portas a todos. Fonte.
  • Uma empresa mineira do Dakota do Sul cancelou um projeto de perfuração nas Black Hills, na sequência da oposição manifestada por tribos indígenas americanas e grupos locais. Fonte.

REFLEXÃO

QUANTO VALE UM MORCEGO?
Dale Manning, Anya Nakhmurina e Eli Fenichel, The Conversation. Trad. O’Lima.

Foto: Liz Hamrick/TVA

A maioria dos americanos tende a pensar nos morcegos apenas por volta do Halloween, mas a economia dos EUA beneficia destes mamíferos voadores peludos todos os dias.

Os morcegos polinizam as plantas, incluindo muitas culturas alimentares importantes, quando se detêm nas flores para beber néctar. O seu guano é extraído das cavernas para servir de fertilizante. E comem muitos insetos – tanto os que incomodam as pessoas (como os mosquitos) como outros que destroem as culturas das quais os humanos dependem para se alimentar.

Infelizmente, as populações de morcegos estão a diminuir rapidamente na América do Norte. Um dos principais fatores é uma doença fúngica conhecida como síndrome do nariz branco, que se espalhou entre os morcegos por todos os Estados Unidos. Quando uma população de morcegos entra em colapso, há menos morcegos por perto para comer os insetos incómodos. Todos esses insetos adicionais podem causar danos graves.

Assim, quando os morcegos desaparecem, as explorações agrícolas tornam-se menos produtivas, e isso tem implicações amplas para a economia agrícola, a saúde humana, os governos rurais e até mesmo os mercados financeiros.

Os morcegos adoram comer os insetos que incomodam as pessoas

Primeiro, pense na quantidade de insetos que os morcegos comem. Uma fêmea reprodutora do morcego-castanho-grande pode comer o equivalente ao seu peso corporal em insetos todas as noites no verão, precisamente quando os agricultores estão a cultivar alimentos.

Um desses insetos é o besouro do pepino, que se desenvolve a partir do gorgulho do milho – um flagelo dos campos de milho dos EUA. O gorgulho do milho destrói enormes quantidades de milho no Centro-Oeste e no Sul dos EUA todos os anos, apesar de os agricultores gastarem mil milhões de dólares anualmente em pesticidas para controlar os surtos.

Morcegos-de-cauda-livre-mexicanos saem da Gruta Bracken Bat, perto de San Antonio, no Texas, para uma noite de caça aos insetos. No verão, a gruta abriga a maior colónia de morcegos do mundo. Foto: Ann Froschauer/Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA

Uma colónia de 150 morcegos-castanhos-grandes pode consumir 600 000 besouros-do-pepino num único ano. Se cada fêmea de besouro-do-pepino – assumindo que metade são fêmeas – comesse 110 larvas de gorgulho-da-raiz, uma colónia típica de morcegos-castanhos-grandes impediria a produção de 33 milhões de gorgulhos-da-raiz.

Os agricultores sofrem prejuízos económicos quando as concentrações de larvas de broca excedem cerca de 0,5 por planta de milho. As densidades de plantação típicas excedem as 30 000 plantas de milho por acre no Centro-Oeste. Por conseguinte, as larvas de broca que teriam eclodido poderiam causar danos em mais de 800 hectares de milho – se os morcegos não estivessem por perto para comer primeiro os besouros do pepino. Trata-se de uma contribuição significativa para o controlo de pragas por parte dos morcegos!

A síndrome do nariz branco

No inverno de 2006, o fungo causador da síndrome do nariz branco, o chamado Pseudogymnoascus destructans, foi detetado pela primeira vez nos EUA, perto de Albany, Nova Iorque. A partir daí, espalhou-se por todo o país, infetando 12 espécies de morcegos, três das quais estão listadas como ameaçadas de extinção ao abrigo da Lei das Espécies Ameaçadas. Um estudo de 2010 revelou que a síndrome do nariz branco tinha matado entre 30% e 99% dos morcegos nas colónias infetadas.


Em março de 2026, o fungo causador da síndrome do nariz branco já tinha sido detetado em 47 estados, chegando a atingir a Califórnia, Washington e Oregon. A síndrome do nariz branco propaga-se principalmente através do contacto entre morcegos, embora os seres humanos também contribuam para a propagação quando os espeleólogos transportam o fungo de uma caverna para outra.

Apesar dos esforços coordenados das agências estaduais e federais de vida selvagem para limitar o acesso às cavernas onde vivem os morcegos e retardar a transmissão, a síndrome do nariz branco continua a propagar-se rapidamente. Quando os morcegos são infetados, acordam mais cedo da hibernação e gastam mais energia durante o inverno. Isto esgota as suas reservas de gordura e leva-os a morrer de fome, resultando numa queda acentuada das populações.

O papel dos morcegos na produção alimentar

Após a chegada da síndrome do nariz branco a uma região, a diminuição da população de morcegos tem consequências significativas para os agricultores.

Os rendimentos diminuem à medida que as pragas consomem as culturas. Para proteger as suas culturas, os agricultores adquirem mais pesticidas químicos, pelo que as suas despesas aumentam à medida que os rendimentos diminuem. As perdas agrícolas estimadas decorrentes da síndrome do nariz branco ultrapassavam os 420 milhões de dólares por ano em 2017.

Um morcego-de-nariz-curto-pequeno (Leptonycteris curasoae) a alimentar-se de uma flor de agave no Arizona, espalhando o pólen da flor ao fazê-lo. Foto: Rolf Nussbaumer/imageBROKER

O aumento do uso de pesticidas está também associado a problemas de saúde humana que podem ser evitados se as populações de morcegos se mantiverem saudáveis.

A perda de morcegos prejudica financeiramente os governos locais

A história não se limita às explorações agrícolas. Os distritos de todos os estados dos EUA tributam os terrenos agrícolas com base no seu «valor de uso» – isto é, com base na rentabilidade desses terrenos para a agricultura. Sem populações saudáveis de morcegos, a diminuição dos lucros reduz a base tributária, deixando os governos dos condados com menos receitas.

Esses governos têm de responder reduzindo serviços, aumentando impostos ou aumentando o montante que pedem emprestado – muitas vezes a um custo de financiamento mais elevado. O efeito é especialmente pronunciado nos distritos rurais, onde a agricultura representa uma grande parte das receitas do imposto predial.

A nossa investigação recente revela que as autarquias rurais perderam quase 150 dólares por pessoa em receitas anuais após o aparecimento da síndrome do nariz branco. Para um município rural de dimensão média, isso representa quase 2,7 milhões de dólares em receitas perdidas por ano.

Como a perda de morcegos pode afetar os mercados de obrigações

A perda de receitas municipais deixa os investidores em obrigações municipais nervosos. Comprar um título municipal é um pouco como emprestar dinheiro ao município, e a taxa de juro é o que o município lhe paga por assumir esse risco.

Quando os morcegos desaparecem, o risco aumenta e o município tem de pagar cerca de 11,47 centésimos de ponto percentual a mais em juros. Isso pode parecer pouco, mas é 27% superior ao prémio de risco típico que os investidores já exigem dos governos municipais.

A taxa de juro mais elevada aumenta os custos de financiamento para os governos municipais. Por exemplo, os custos de financiamento de um título típico de 15 anos no valor de 1 milhão de dólares aumentariam em mais de 33 000 dólares.

Rendimentos mais elevados significam também preços mais baixos das obrigações para os investidores, incluindo os fundos de pensões. Por exemplo, a nossa investigação sugere que os investidores desvalorizariam uma obrigação de 1 milhão de dólares emitida por um município rural em quase 14 000 dólares se os morcegos desse município tivessem sido infetados pela síndrome do nariz branco.

Benefícios económicos da preservação dos morcegos

A boa notícia é que os benefícios decorrentes de populações saudáveis de morcegos criam oportunidades para gerar receitas através da conservação dos morcegos.


BICO CALADO

  • Estupefacção absoluta na redacção da RTP pelos argumentos usados pela direção de informação liderada por Vítor Gonçalves para justificar a censura a declarações de uma idosa no Mercado de Benfica, em Lisboa, transmitidas no Dia do Trabalhador numa reportagem corriqueira sobre inflação e custo de vida. Em causa estava uma peça da jornalista Soraia Ramos, transmitida no Telejornal das 20h00, cuja versão exibida apenas uma hora depois na Notícias 21 já surgia amputada da intervenção final. Fonte.
  • Há momentos em que a História parece escrita por um bêbedo com sentido de humor. A fina flor do capitalismo global, que passou décadas a explicar ao mundo a inevitabilidade moral e económica do mercado livre, apareceu agora disciplinadamente e humildemente em Pequim. Tesla e SpaceX (Elon Musk), Nvidia (Jensen Huang), Apple (Tim Cook), BlackRock (Larry Fink), Blackstone (Stephen Schwarzman), Boeing (Kelly Ortberg), Cargill (Brian Sikes), Citigroup (Jane Fraser), General Electric (Larry Culp), Goldman Sachs (David Solomon), Micron (Sanjay Mehrotra) e Qualcomm (Cristiano Amon), todos representados pelos seus respetivos sumos-sacerdotes corporativos acompanhados por Donald Trump, deslocaram-se até ao “Chairman” do Partido Comunista Chinês para implorar por negócios. Durante décadas disseram ao Ocidente que o comunismo era uma anomalia destinada a desaparecer. Hoje fazem fila à porta dele. No fim, o capitalismo não derrotou o comunismo. Foi pedir-lhe ajuda para o próximo semestre fiscal. RiseUp Portugal.
  • O governo dos EUA, através de agências como a USAID e a Fundação Nacional para a Democracia (NED), juntamente com a Fundação Open Society, está a financiar secretamente uma rede de meios de comunicação «independentes» em Cuba, no âmbito de uma iniciativa destinada a promover uma mudança de regime. Os media que se apresentam como imparciais, tais como o CubaNet, o ADN Cuba e o Diario de Cuba, receberam milhões de dólares em subvenções dos EUA. Por exemplo, o ADN Cuba recebeu mais de 3 milhões da USAID desde 2020, e o Diario de Cuba recebeu 1,3 milhões entre 2016 e 2020. Os jornalistas destes media apoiados pelos EUA recebem salários extremamente elevados (até dez vezes superiores aos dos jornalistas da imprensa estatal), o que os torna algumas das pessoas mais ricas da ilha. O seu conteúdo é regularmente citado pelos principais media ocidentais como reportagem «objetiva», divulgando, na prática, as narrativas do Departamento de Estado dos EUA. Fonte.
  • André Ventura alvo de cinco processos de contra-ordenação por violação da Lei das Sondagens durante as Presidenciais. Fonte.
  • Trump diz ter arrasado o Irão em todos os domínios e acusa um repórter do NYTimes de traição por contestar essa ‘verdade’. Fonte.
  • Um artigo de opinião do «New York Times», da autoria de Nicholas Kristof, analisa a violência sexual sistemática praticada por Israel contra detidos palestinianos. Istrael vai processar o jornalista e o jornal. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

PÂNICO DO HANTA: MAIS UM RATO A BORDO
Ricky Lanusse, Medium. Trad. O’Lima.


A minha mãe enviou-me uma foto tirada do seu terraço: mais um «ratón colilargo». O rato-pigmeu-de-cauda-longa, Oligoryzomys longicaudatus. Por estas bandas, as pessoas identificam-no primeiro pela versão mais simples: o rato-hanta.

Ela não está com medo. Está farta. O sacaninha andou outra vez a comer as nozes e as maçãs das árvores do seu jardim, tratando o terraço como um buffet, o pomar como uma filial da Whole Foods, a casa como um spa entre refeições.

Para alguém fora da Patagónia, a foto provavelmente pareceria uma pequena história de terror. Um rato de cauda longa em tábuas de madeira. Um transmissor. Um aviso. Algo para partilhar num grupo de chat com demasiados pontos de exclamação.

Aqui, o sentimento é mais antigo e menos cinematográfico.

Vês o animal e a tua mente abre o arquivo: galpões, pilhas de lenha, cabanas, excrementos, poeira, luvas, máscaras, lixívia, espaços fechados, bambu em flor, proliferação de roedores e a palavra «hantavírus» a repousar silenciosamente no fundo da garganta.

Está lá desde que me lembro.

A Patagónia não precisa de um navio de cruzeiro para saber que este vírus existe. Temos vivido com o risco da mesma forma que as pessoas vivem com avalanches, incêndios, pumas, árvores a cair, estradas em mau estado e mudanças climáticas repentinas. Não entras em pânico todas as manhãs. Aprendes onde colocar as mãos. Aprendes o que não varrer. Aprendes que a natureza não se torna mais segura só porque lhe deste um folheto.

Então o mundo fica em alvoroço porque três pessoas morrem num navio.

O MV Hondius partiu de Ushuaia a 1 de abril, navegando do extremo da Argentina em direção a Cabo Verde. Em pouco tempo, a história deixou de ser uma questão local sobre florestas e roedores e passou a fazer parte do discurso global sobre surtos, passageiros, portos, rastreio, testes, avaliação de riscos e aquele leve tremor de nervosismo que ainda percorre o mundo sempre que um agente patogénico surge no contexto das viagens internacionais.

De repente, o navio de cruzeiro holandês tornou-se o pano de fundo de toda a história, ativando o sistema nervoso pós-COVID.

A Patagónia foi tratada como a fonte do problema porque todas as histórias, tal como o pangolim, precisam de um vilão.

E, de um momento para o outro, todos exigiam um quadro claro do perigo: onde tinha começado, para onde se tinha espalhado, onde traçar uma fronteira para que o resto do mundo pudesse voltar a sentir-se seguro.

O rato-pigmeu-de-cauda-longa no terraço da minha mãe (fotografia tirada pela minha mãe)

O navio tornou o local global

A primeira coisa a dizer é a mais enfadonha, mas que também é a mais responsável: A COVID é o modelo mental errado. A Organização Mundial de Saúde afirmou que o risco para a população em geral é «absolutamente baixo». O hantavírus não se transmite facilmente através do contacto casual. Não se apanha a doença só porque alguém passa por nós num corredor do aeroporto ou respira perto de nós numa fila do supermercado.

A estirpe associada ao surto no navio é a estirpe Andes, encontrada principalmente em regiões da Argentina e do Chile, incluindo, claro, a minha cidade natal na Patagónia. Esta é a única estirpe de hantavírus em que se documentou a transmissão entre pessoas. Mas, mesmo assim, as condições são específicas: contacto próximo e prolongado, frequentemente em ambientes íntimos ou confinados. Uma cabine de um navio de cruzeiro pode proporcionar exatamente o tipo de proximidade em espaço fechado de que os agentes patogénicos gostam. A vida pública normal, por norma, não o faz.

Portanto, sim, compreendo o reflexo pandémico, mas o vírus e a doença são algo bastante diferente. O surto pode ser grave, cientificamente importante e emocionalmente perturbador. Ainda assim, não se comporta como o SARS-CoV-2.

O Ministério da Saúde da Argentina afirmou que não foi confirmado que a infeção tenha ocorrido na Argentina. A província da Terra do Fogo, de onde o navio partiu, não registou nenhum caso confirmado nos últimos 30 anos. O casal holandês que se acredita estar relacionado com o surto tinha viajado extensivamente pela Argentina, Chile e Uruguai antes de embarcar, incluindo regiões onde a doença é historicamente conhecida. As autoridades planeavam capturar roedores ao longo do percurso para realizar testes.

É assim que uma investigação realmente se desenrola. É um processo lento e sem espalhafato. As pessoas armam armadilhas, recolhem amostras, constroem cronologias e reconstituem o que aconteceu antes de a Internet transformar tudo numa história com um vilão bem definido e um final feliz.

Mas a forma como o mundo reage também diz muito sobre o mundo. Quando um trabalhador rural adoece na Patagónia, o mundo não atualiza a página. Quando um surto numa aldeia mata pessoas longe das rotas de cruzeiro dos viajantes abastados, torna-se uma tragédia local, talvez notícia regional, e depois memória. Quando um navio internacional que transporta passageiros de outros lugares se torna o veículo, a história é elevada a ansiedade global.

O vírus não ganhou maior importância no mar. Em vez disso, tornou-se mais visível para as pessoas que, em terra, tinham o luxo de o ignorar. Essa é a primeira verdade incómoda.

A segunda é que a Argentina conhece bem esta doença. Um surto na Patagónia em 1996 ajudou os cientistas a documentar a transmissão entre pessoas pela primeira vez. Outro surto há quase uma década, também na Patagónia, forneceu provas detalhadas da propagação entre humanos depois de um trabalhador rural infetado ter participado numa festa de aniversário numa pequena aldeia. Onze pessoas morreram.

O mundo está a descobrir um perigo pelo qual o meu povo na Patagónia já pagou com a vida.

A porta continua a alargar-se

O hantavírus não surge nas nossas vidas como uma maldição sobrenatural. Tem uma ecologia. Na Patagónia, parte dessa ecologia começa com a caña colihue, um bambu nativo que pode florescer em massa após longos ciclos. Quando floresce, produz enormes quantidades de sementes. As sementes caem. Os roedores alimentam-se. As populações aumentam. Depois, quando o banquete termina ou a densidade populacional aumenta, os animais deslocam-se. As pessoas daqui sabem como é isso. Chamamos-lhe ratada (pronuncia-se com um «arrrr» muito forte).

Ratos que aparecem em barracões, cabanas, jardins, pilhas de lenha, áreas de compostagem, debaixo de terraços, perto de galinheiros, à volta de árvores de fruto, em locais que os humanos pensavam que lhes pertenciam. E, depois de se empanturrarem, muitos afogam-se nas margens, sedentos e a desmoronar-se por dentro após o seu banquete.

Os impulsos alimentares movem os animais e os animais trazem riscos.

O vírus vive nessa zona de contacto, especialmente através da urina, das fezes, da saliva, do pó contaminado e em espaços fechados onde as pessoas limpam demasiado depressa e respiram muito perto umas das outras. É por isso que os conselhos antigos são de natureza física, quase doméstica.

Pense nos excrementos de roedores como se fossem purpurina. Se os varrer a seco, transformam-se em pó invisível que pode acabar nos seus pulmões. Por isso, primeiro abre-se tudo e deixa-se o local arejar, depois molha-se a sujidade com desinfetante, espera-se um pouco e limpa-se, em vez de a espalhar pelo ar. Tudo isto com luvas e uma boa máscara. Em termos simples, as regras são: arejar, não varrer nem aspirar, pulverizar, esperar, limpar. Essa é a rotina enfadonha que impede que um pequeno problema com animais se transforme num problema hospitalar.

É simples até deixar de o ser.

Porque as pessoas não vivem em condições de laboratório. Vivem em casas com lenha, árvores de fruto, arrecadações, cantos com infiltrações, tábuas velhas, arrumos de inverno, cabanas de turismo, trabalho rural e famílias que limpam quando têm tempo, não quando o cartaz de saúde pública assim o diz.

E agora, as condições climáticas estão a fazer com que esses contactos rotineiros se tornem mais evidentes

A Argentina registou 101 casos de hantavírus desde julho do ano passado, com 32 mortes, de acordo com dados do Ministério da Saúde citados em reportagens recentes. As épocas anteriores apresentaram números mais baixos: 64 casos e 14 mortes entre 2024 e 2025, e 82 casos com 13 mortes entre 2023 e 2024.

Esses números situam-se ainda perto da média anual histórica da Argentina, de cerca de 100 casos, mas o aumento é significativo porque as condições em torno da doença estão a mudar. O aumento pode estar relacionado com o comportamento dos roedores: a seca nos últimos três invernos, seguida de um aumento das chuvas na primavera, mais coberto vegetal e mais alimento para os roedores.

Um mundo mais quente não precisa de inventar novos agentes patogénicos todas as semanas para nos deixar mais doentes. Pode alterar o calendário das chuvas, a sobrevivência dos roedores durante os meses mais frios, a floração das plantas, a migração dos animais, a pressão sobre as florestas, a propagação dos incêndios e o número de ocasiões em que os seres humanos entram em contacto com reservatórios selvagens.

É por isso que o hantavírus é uma história climática, mesmo quando o próprio vírus é antigo.

A interação humana com ambientes selvagens, a destruição de habitats, a expansão dos assentamentos rurais e as alterações climáticas contribuem para o surgimento de casos fora das zonas historicamente endémicas. O aumento das temperaturas afeta a presença do rato de cauda longa, o principal portador na Argentina e no Chile, e faz com que estes roedores possam ser mais capazes de se adaptar às alterações climáticas.


Agora, um possível Super El Niño já se está a formar no horizonte, pronto para aumentar a volatilidade de uma situação de base que deixou de se comportar como um pano de fundo.

A minha família e os meus vizinhos não precisam de um modelo para perceber que algo está a mudar. Eles apenas vêem mais ratos a roer maçãs, o que constitui um problema no jardim. Os relatos informais não são ciência e não devem ser tratados como tal. Mas são frequentemente o ponto de partida da investigação científica.

Continuamos a alargar a porta de entrada.

Quando um velho perigo se torna um incómodo

A reação global ao surto no cruzeiro era previsível, porque o mundo ainda sofre de «PTSD da COVID».

Um agente patogénico num navio. Passageiros internacionais. Mortes. Declarações da OMS. Rotas de viagem. Testes. Isolamento. Um mapa com setas. As pessoas já conhecem esta linguagem visual, e o corpo reage antes de o cérebro ter tempo de distinguir um vírus de outro.

Isso é compreensível. Mas também é perigoso. Porque a história mais fácil é a errada. O hantavírus é grave, mas não se comporta como uma pandemia respiratória. Não se propaga rapidamente em multidões casuais. Não se espalha porque alguém espirra num estádio. A estirpe dos Andes acrescenta a possibilidade de transmissão de pessoa para pessoa, mas em condições muito mais restritas do que a COVID.

Portanto, o surto no MV Hondius é grave. Trata-se do primeiro surto de hantavírus a bordo de um navio documentado, e levanta questões científicas concretas sobre onde ocorreram as primeiras infeções, que tipo de contacto teve lugar a bordo e o que a sequenciação do genoma pode revelar aos investigadores sobre a cadeia de transmissão. A estirpe Andes merece atenção. A Argentina, o Chile, as autoridades europeias e a OMS devem coordenar-se sem que o teatro político interfira. Os passageiros e os contactos próximos devem ser cuidadosamente rastreados. A vigilância de roedores deve ser realizada nos locais onde possa ter ocorrido exposição.

Entretanto, o presidente argentino Milei tem tratado a ciência, a educação e os cuidados de saúde como rubricas descartáveis, como se um país pudesse dar-se ao luxo de pirotecnia ideológica, mas não das instituições que mantêm os factos mensuráveis e as pessoas vivas. Em março, formalizou a saída da Argentina da OMS, replicando o seu ídolo Trump, precisamente no momento em que a cooperação não é um slogan, mas o preço mínimo da segurança.

Uma sociedade que funciona sabe distinguir entre pânico e vigilância. Nós seríamos capazes disso, mas continuamos a entregar o poder a pessoas que vendem a ignorância como coragem, tratam a competência como traição e ensinam o público a confiar mais nos influenciadores do que nos cientistas.

O mundo continuará a perguntar onde é que os passageiros do cruzeiro foram infetados. Mas a resposta mais ampla está à nossa frente há anos, a comer frutos do jardim.

Estamos a criar as condições propícias. Estamos a cortar nas instituições. Estamos a alargar a porta. Depois, fingimos surpresa quando algo pequeno, faminto e vivo entra por ela.

A minha mãe provavelmente enviará outra foto se outro rato de cauda longa aparecer no terraço. Provavelmente ficará irritada outra vez. E algures, longe do seu jardim, alguém chamará a isso uma nova ameaça, porque um velho perigo se tornou subitamente um inconveniente para eles.