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terça-feira, 27 de outubro de 2026

BICO CALADO

Crédito: Sabur Rashid/Zuma Press Wire/Shutterstock
  • A atriz Maria João Luís juntou-se ao Movimento pela Habitação, defendendo que a discussão sobre a habitação “tem de ser mais alargada”. A atriz apelou aos jovens para que não se deixem enganar pelas forças extremistas e afirmou que a carga policial da madrugada de domingo “não teve razão de acontecer”. Veja a entrevista completa em: https://bit.ly/4yEyZp5
  • “Mostra a cara!”. Um coro das Caldas da Rainha foi para a porta da casa de António José Seguro exigir que o Presidente da República apareça a público.
  • “(…) este PSD e este PS, têm contribuído objetivamente para consolidar um modelo de sociedade injusto, em que a desigualdade cresce, e um modelo económico predatório, de acumulação galopante da riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas. Enquanto a social-democracia se propunha “reformar e humanizar a economia de mercado”, o socialismo defendia um sistema de propriedade pública de sectores estratégicos, como a banca e seguros, as redes de telecomunicações, a electricidade ou os recursos naturais. Tudo isso foi para o caixote de lixo da história. Muitos daqueles que os novos fascistas no parlamento querem “encostar à parede” (a quem chamam “extremistas de esquerda”), defendem hoje nas manifestações os ideais que há 50 anos também estavam nos programas do PSD e do PS, os mesmo ideais que estão, ainda hoje, na sua essência, na Constituição e que o PSD e PS actuais estão a ignorar. A doutrina social e económica da Igreja católica é hoje mais social-democrata do que o PSD e mais socialista do que o PS. (…) A tomada de posição inequívoca - pela igualdade, a solidariedade e a liberdade - por parte de um Presidente da República teria de levar, necessariamente, à queda dum governo que descaradamente viola o que a Constituição da República Portuguesa tem de mais valioso. Esperarei sentado (se for necessário em frente a uma tenda no Rossio, em frente à Assembleia da República ou ao Palácio de Belém).” Miguel Szymanski, Embalagens enganosas.

BOTICAS: CORDÃO HUMANO PARA TRAVAR MINA DE LÍTIO

Créditos: Pedro Sarmento Costa/TSF

Dezenas de pessoas bloquearam os trabalhos para a exploração de uma mina de lítio, em Boticas. Por volta das 06h00, formou-se um cordão humano para travar progressos numa das áreas da servidão administrativa da empresa Savannah Resources. "Quando vemos, neste momento, a questão da habitação, das pessoas estarem a ser expulsas e não se poderem manifestar nos sítios públicos, nós estamos a ser expulsos daquilo que é nosso, dos nossos terrenos, dos terrenos privados", denuncia o o presidente da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, Nélson Gomes. "A terra é nossa, o baldio é nosso, a aldeia é nossa. Não vamos deixar que ninguém de fora decida o futuro da nossa gente. Savannah fora do baldio já!” Fonte.

COP31: TURQUIA QUER COMPROMISSO GLOBAL PARA REDUZIR PELA METADE O CRESCIMENTO DO VOLUME GLOBAL DE RESÍDUOS PLÁSTICOS

  • A Turquia, que sediará a COP31 em novembro, tornou-se um dos principais destinos do lixo plástico da União Europeia e do Reino Unido. Só no ano passado, o país importou quase 650 mil toneladas de resíduos plásticos, um volume que cresce ano após ano. Esses resíduos frequentemente acabam em rios e praias, inclusive em Antália, a cidade costeira que receberá a conferência, contaminando o solo e a vida marinha. O problema se intensificou a partir de 2018, quando a China — até então uma grande importadora de resíduos plásticos — deixou de processar material estrangeiro. Além disso, como a UE deve proibir a exportação de resíduos para países que não são membros da OCDE, isso provavelmente aumentará ainda mais o volume direcionado à Turquia, que é membro fundador do grupo. Para os turcos, a reciclagem gera empregos e fornece materiais baratos para setores como embalagens, papel e têxteis. No entanto, falhas no processamento e centrais inadequadas resultam em contaminação do solo e de corpos d'água. A Turquia pretende usar a conferência para buscar um compromisso global com o objetivo de reduzir pela metade o crescimento do volume global de resíduos plásticos até 2035. O ministro Murat Kurum, presidente designado da COP, afirmou que a meta é "colocar o desperdício zero e a redução do metano no centro da ação climática". Fonte.
  • A reeleição de Lula aumenta as probabilidades de o Brasil conseguir atingir um objetivo fundamental para pôr fim à perda de floresta na Amazónia e reforça a confiança num novo fundo destinado a proteger as florestas tropicais do mundo. Fonte.
  • O governo neerlandês irá contribuir com cerca de 500 milhões de dólares ao longo da próxima década para um fundo internacional destinado a ajudar a proteger as florestas tropicais. O dinheiro irá ajudar a criar o «Tropical Forest Forever Facility», um novo fundo de riqueza público-privado que visa recompensar os países pela preservação das florestas tropicais. Fonte.
  • As pessoas mais ricas do mundo não estão apenas a lucrar com as causas poluentes das alterações climáticas, como também estão, cada vez mais, a tirar proveito das consequências catastróficas. Um estudo da Oxfam constatou que os 0,1% mais ricos da população mundial têm investido fortemente na preparação para catástrofes, na recuperação e na reconstrução — um mercado que se prevê que cresça de 70 mil milhões de dólares para 92 mil milhões de dólares por ano até 2029. Isto proporciona às pessoas mais ricas e poderosas do planeta um «duplo dividendo» decorrente da crise climática e, o que é mais alarmante, um incentivo para atrasar ou impedir as medidas destinadas a resolver o problema, afirma a ONG. Além disso, agrava a desigualdade global, uma vez que aqueles que menos contribuem para o aquecimento global acabam por ter de pagar aos principais responsáveis, seja através de preços mais elevados dos alimentos, da reparação de casas danificadas por fenómenos meteorológicos extremos ou da deslocação para outras áreas. Fonte.

REFLEXÃO

A IMPORTÂNCIA DE UMA COBERTURA MEDIÁTICA MAIS AMPLA E PRECISA SOBRE AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
James Painter, BMJ. Rev. O’Lima.


Apesar das temperaturas globais que batem recordes e da crescente preocupação da população, a cobertura mediática das alterações climáticas tem diminuído drasticamente, o que tem graves implicações para a compreensão do público e para a preparação em matéria de saúde.

2025 foi um dos anos mais quentes de que há registo, com o CO₂ atmosférico no seu nível mais elevado em milhões de anos; no entanto, a cobertura mediática global sobre as alterações climáticas diminuiu 14 % em comparação com 2024. Desde o seu pico em 2021, a cobertura na imprensa escrita e online diminuiu 38%, com um declínio adicional de 25% nos primeiros oito meses de 2026, em comparação com o ano anterior. Este declínio é generalizado, afetando os media em África, no Médio Oriente, na América do Norte e na Europa, embora seja menos acentuado na Ásia, na América Latina e na Oceânia.

Várias razões para este declínio:
  1. As redações reduziram os recursos editoriais dedicados à cobertura climática.
  2. O «espaço noticioso» diminuiu devido a outros conflitos globais prementes, como os de Gaza, do Irão e da Ucrânia.
  3. Há uma sensação de «cansaço climático» entre o público, face a uma crise de longa duração que carece de soluções fáceis.
  4. Os jornalistas seguem frequentemente as indicações dos políticos. À medida que os governos aumentam as despesas com a defesa e limitam as contribuições para o financiamento climático, a perda de prioridade política atribuída à ação climática desempenha um papel substancial na redução da cobertura. Isto pode levar a um «silenciamento climático», em que a questão é minimizada, consciente ou inconscientemente.
Os media tradicionais continuam a ser a fonte de informação sobre o clima mais popular e fiável para a maioria das pessoas. Isto confere-lhes um papel determinante na definição da agenda, moldando o que o público considera importante e a forma como compreende a emergência climática. Uma vez que a maioria das pessoas não lê revistas científicas nem conhece diretamente cientistas climáticos, depende dos meios de comunicação para interpretar a complexidade da ciência. Quando os meios de comunicação e os políticos negligenciam uma questão, é também mais provável que o público lhe atribua menor importância na sua própria hierarquia de preocupações.

Para além da quantidade de cobertura, há também problemas significativos de qualidade. No Reino Unido, por exemplo, alguns cientistas climáticos e analistas dos meios de comunicação social têm observado uma «separação» entre as alterações climáticas e as políticas de «Net Zero» em setores da imprensa que se opõem ao «Net Zero». Isto pode minimizar ou marginalizar a questão climática e, quando ocorrem ondas de calor, a ligação às alterações climáticas muitas vezes não é estabelecida de forma suficientemente explícita. Além disso, as ilustrações podem, por vezes, sugerir «diversão ao sol» em vez de salientar os impactos nocivos nas populações vulneráveis. Quatro órgãos de comunicação de direita no Reino Unido tinham, cada um, mais de 70% dos seus editoriais ou artigos de opinião sobre o «Net Zero» que continham pelo menos uma afirmação enganosa. Isto impede os leitores de formarem uma compreensão bem fundamentada dos argumentos. Numa escala mais ampla, estudos realizados nos EUA sugerem que, entre 1984 e 2025, as alterações climáticas representaram apenas 0,55% de toda a cobertura noticiosa, uma proporção ínfima quando comparada com o desporto e o entretenimento.

Para o autor, a qualidade é tão importante como a quantidade. Ele sugere várias formas de melhorar a cobertura:

  1. Estabelecer ligações com a vida quotidiana: as discussões sobre o clima concentram-se fortemente na reportagem ambiental especializada, mas as questões de saúde e justiça social — onde o público sente diretamente os impactos climáticos — não recebem atenção suficiente.
  2. Explicar as ligações: seriam úteis explicações regulares e claras sobre as ligações científicas entre as alterações climáticas, o «Net Zero» e os fenómenos meteorológicos extremos.
  3. Abordagens inovadoras: embora o público continue interessado, os media têm de encontrar formas inovadoras de abordar a questão climática que forneçam a informação que as pessoas realmente querem.
Apesar do declínio na cobertura, Painter termina com uma nota de otimismo cauteloso: 74% dos inquiridos em 2025 estão preocupados com os impactos das alterações climáticas no seu país, o que representa um aumento da preocupação na maioria dos países desde 2022. Mesmo nos EUA, não há indícios de que as pessoas se tenham tornado menos preocupadas com as alterações climáticas desde abril de 2022. A preocupação do público existe — o desafio para os meios de comunicação social é responder a essa preocupação com uma cobertura precisa, relevante e envolvente.

LEITURAS MARGINAIS

O QUE A ALEMANHA PENSA DO ACORDO DE 4 MIL MILHÕES DE DÓLARES ENTRE A AUDI E TRUMP
Nik Martin, DW. Rev. O’Lima.

Imagem: Edgar Su/REUTERS

A Audi confirmou um plano de cerca de 3,6 mil milhões de euros para construir a sua primeira fábrica nos EUA, perto de Macon, na Geórgia, criando cerca de 4 500 postos de trabalho e, a longo prazo, produzindo até 200 000 SUV de gama alta por ano para o mercado americano. O presidente Trump anunciou o investimento num comício de campanha e atribuiu o mérito às suas tarifas sobre veículos fabricados na Europa, afirmando que «isto não teria acontecido sem as tarifas».

Esta fábrica ajudaria a Audi a evitar ou a reduzir essas tarifas, que, segundo a empresa, lhe custaram cerca de 1,2 mil milhões de euros no ano passado. As vendas da Audi nos EUA também caíram 16% devido à forte concorrência e à perda de subsídios para veículos elétricos no seu segundo maior mercado. O CEO da Audi enquadrou esta medida como uma decisão de crescimento, afirmando que os EUA são «um dos mercados premium mais importantes do mundo», onde a Audi ainda não atingiu todo o seu potencial.

A reação alemã é extremamente negativa. Os críticos estão a centrar-se no momento em que isto acontece — a Audi está a investir nos EUA enquanto a sua empresa-mãe, o Grupo VW, se prepara para cortar até 100 000 postos de trabalho até 2030 e a fábrica da Audi em Neckarsulm corre o risco de encerramento. Grande parte da indignação é dirigida ao CEO Gernot Döllner, por ter aparecido ao lado de Trump num comício republicano. Um porta-voz social-democrata para os transportes classificou o gesto como «apoio à campanha de um autocrata que está a travar uma guerra comercial contra a Alemanha» e uma «vergonha», enquanto o presidente do IG Metall considerou a aparição «extremamente embaraçosa, politicamente inaceitável e indigna da empresa». Um responsável do conselho de empresa da VW afirmou que Döllner tinha sido transformado «num fantoche» no «espetáculo de propaganda» de Trump, embora tenha reconhecido que a fábrica nos EUA poderia fazer sentido do ponto de vista empresarial.

Por outro lado, um porta-voz da Audi afirmou que o investimento «não é uma decisão contra a Alemanha, mas sim um passo no sentido de reforçar a nossa competitividade global», e o presidente do conselho de supervisão argumentou que a empresa precisa de coragem para investir, em vez de depender apenas da redução de custos.

O anúncio deste negócio foi visto como programado para coincidir com as eleições intercalares nos EUA e feito no estado da Geórgia, enquadrando-se na estratégia mais ampla de Trump para pressionar os fabricantes de automóveis a expandirem a produção americana.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

MARÃO: APA REJEITA HIBRIDIZAÇÃO FOTOVOLTAICA DO PENEDO RUIVO

  • A Agência Portuguesa do Ambiente emitiu uma decisão desfavorável ao projeto de hibridização fotovoltaica do Parque Eólico de Penedo Ruivo, na Serra do Marão, alegando impactes ecológicos, paisagísticos, territoriais e cumulativos significativos. Proposto pela EnergieKontor, previa-se a produção de energia elétrica através de sistema fotovoltaico em hibridização com o parque eólico existente e uma fase de exploração de 30 anos. Fonte.
  • A Galp cancelou as negociações para a fusão dos seus negócios com a espanhola Moeve, deitando por terra a planeada reestruturação que previa transferir o controlo da refinaria de Sines para as mãos dos acionistas da congénere espanhola. Fonte.
  • Lucro da Galp aumenta 68% para 682 milhões de euros no terceiro trimestre. Fonte.
  • A Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão ordenou à Google que suspendesse os trabalhos em Muhos e em Otanmäki, depois de a empresa não ter concluído as avaliações de impacto ambiental necessárias antes de proceder ao desmatamento total do terreno. Fonte.
  • Lula vence as eleições no Brasil depois de ter reduzido a desflorestação na Amazónia para um mínimo histórico. Angela Symons, EuroNews.

BICO CALADO

  • “Se os manifestantes são donos de restaurantes de luxo, frequentados por banqueiros, ministros, deputados e assessores, as tendas podem ficar. Podem ficar uma semana inteira, o tempo que for preciso, montadas junto à Assembleia da República, noite após noite, com fogareiros portáteis na via pública a preparar iguarias e cartazes no chão. Ao sétimo dia, os gastrónomos são recebidos pelo Governo, que é bom garfo. Se a maioria dos manifestantes são jovens sem estatuto, sem carro, sem casa, que não sabem apreciar um amuse-bouche ou tornedó ou bife kobe, chama-se a PSP e as forças de intervenção e acabou-se o direito à manifestação e essa história dos direitos, liberdades e garantias. Após 24 horas, por ordem ministerial, a polícia entra à bastonada, vai tudo dentro e acabou-se a festa. Para se perceber a diferença, ajuda a distinção entre o poder e o povinho, entre o sofisticado consumo de cocaína no terraço de um apartamento com vista de rio e o popularacho cheiro a erva no meio da rua, entre o fato e gravata de quem se governa a fazer negociatas (obras em piscinas, com Israel ou com fundos de Bruxelas), e o lenço palestiniano à volta do pescoço, de quem usa calças de fato treino e luta por um mundo menos injusto.” Miguel Szymanski.
  • “A Caixa Geral apresenta lucros e é do Estado. Não os vai aplicar num casino. Que tal aplicar em habitação? (…) Fui fala com quem vendeu o terreno ao Ronaldo e disse-lhe: ‘Tenho de cortar sobreiros, é proibido’. E o homem: ‘À noite ninguém vê’”. Eduardo Souto Moura, Isto é Gozar com Quem Trabalha/Ricardo Araújo Pereira/Expresso.
  • Querem que as notícias unam as pessoas? Deixem que sejam elas a dar as notícias. Elizabeth Hewitt.

LEITURAS MARGINAIS

O GÉNIO OCULTO DE VANESSA REDGRAVE*


Vanessa Redgrave chegou a receber um Óscar, chamou metade da sala de «delinquentes sionistas», foi vaiada em direto na televisão e saiu do palco tão calma como uma santa — porque acreditava em cada palavra que disse. Era 1978. O filme «Julia» tinha-a tornado a sensação de Hollywood — uma interpretação marcante no papel de uma combatente da resistência antinazi que os críticos classificaram de «transcendente». Mas, embora a indústria celebrasse o seu talento artístico, detestava as suas posições políticas. Redgrave tinha financiado publicamente um documentário pró-palestiniano, The Palestinian, filmado no Líbano devastado pela guerra. Apenas alguns dias antes dos Óscares, manifestantes armados tinham marchado à porta da cerimónia, agitando cartazes com a inscrição «Vanessa, a terrorista». Apesar de tudo, ela ganhou. E depois explodiu.

Segurando a estatueta dourada, ela agradeceu ao seu realizador — e depois, com uma serenidade gélida, disse: «Agradeço-lhe por se ter mantido firme contra aquele pequeno grupo de rufiões sionistas, cujo comportamento é um insulto à dignidade dos judeus em todo o mundo.»

Suspiros. Vaias. Caos.

Os produtores tentaram passar para o intervalo publicitário. Diz-se que Bob Hope escondeu o rosto entre as mãos. Mais tarde, nessa mesma noite, o argumentista Paddy Chayefsky subiu furioso ao palco para a repreender: «Um simples “obrigada” teria bastado.»

Redgrave não vacilou. Ela já tinha vencido — não o Óscar, mas a guerra pela sua própria consciência.

Aquele momento transformou-a de estrela de cinema em exilada política. Foi dispensada pelos estúdios, rejeitada pelos produtores e rotulada como «incontratável». Os agentes avisaram-na de que ninguém voltaria a trabalhar com ela. A sua resposta? «Então, vou criar o meu próprio trabalho.» E foi o que fez — encenando peças em armazéns, financiando companhias de teatro radicais e interpretando Shakespeare em zonas de guerra.

Este era o génio oculto de Vanessa Redgrave: ela não precisava da aprovação de Hollywood, porque já tinha vivido vidas mais grandiosas do que a ficção. Ela marchou ao lado de refugiados. Foi alvo de gás lacrimogéneo em manifestações. Foi investigada pelo MI5 por «atividade subversiva». E quando os jornalistas lhe perguntaram se se preocupava em ser colocada na lista negra, ela respondeu: «Não se pode colocar na lista negra alguém que não pertence à vossa lista.»

Poderia ter-se contentado em viver na segurança. A sua linhagem era ilustre — os Redgrave eram a realeza da representação britânica. A sua beleza era intemporal, o seu talento inquestionável. Mas recusou-se a ser meramente decorativa. Os seus colegas tentaram rotulá-la como a «grande dama». Ela continuava a aparecer descalça nas manifestações.

O preço foi brutal. Perdeu trabalhos. Perdeu amigos. Décadas mais tarde, perdeu a sua filha, Natasha Richardson, num acidente de esqui — uma agonia que poderia tê-la destruído. Mas regressou ao palco semanas depois. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu suavemente: «Porque se não representar, deixo de respirar.»

Por trás da sua ferocidade escondia-se uma espécie de luto sagrado. Cada papel que interpretou — desde «Isadora» até «The Bostonians» — carregava esse peso: rebelião envolta em ternura, coragem entrelaçada com a perda.

Meryl Streep disse uma vez: «A Vanessa não representa; ela testemunha.»

E nunca deixou de testemunhar — sobre refugiados, crimes de guerra, hipocrisia política, o custo do silêncio. Mesmo com mais de oitenta anos, continuava a participar em manifestações, continuava a arriscar-se a ser detida, continuava a exigir que a arte tivesse significado.

Quando um jornalista lhe perguntou uma vez se se arrependia do seu discurso nos Óscares, ela sorriu — aquele mesmo sorriso sereno, quase perigoso, de 1978 — e disse: «Se disseres a verdade e as pessoas te vaiarem, estás a fazer algo certo.»

Vanessa Redgrave não se limitou a interpretar revolucionárias. Ela era uma — daquelas raras que sabiam que o verdadeiro poder não está nos aplausos, mas em recusar-se a calar-se quando a sala exige silêncio.

* O título é da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3.

domingo, 25 de outubro de 2026

VISEU DESCARTA FAGILDE E DEFENDE GIRABOLHOS


A construção de uma nova barragem em Fagilde, Viseu, está a gerar controvérsia. Investigadores defendem Girabolhos como solução mais sustentável e económica para o abastecimento de água na região. Situada no rio Mondego e abrangendo os concelhos de Seia, Gouveia, Mangualde e Nelas, poderia abastecer a região de Viseu sem necessidade de elevação. Se mantida nos 310 metros, permitiria resolver os desafios de abastecimento de Viseu de forma mais eficiente, evitando investimentos desnecessários em Fagilde. Fonte.

FRANÇA: MEDUSAS ENTOPEM FILTROS DE ÁGUA DO MAR NUMA CENTRAL NUCLEAR

  • Várias toneladas de medusas obstruíram os filtros de água do mar na central nuclear de Gravelines, na costa norte de França, tendo três reatores entrado em paragem automática. Fonte.
  • Poço de petróleo abandonado espalha vapores tóxicos e causa pânico num bairro de San Antonio. À medida que novos bairros são construídos no Texas, os residentes nem sempre sabem que vivem sobre antigos campos petrolíferos. Fonte.
  • Espécies do fundo do mar lutam para recuperar após o derrame da Deepwater Horizon. Os cientistas que monitorizam as profundezas do oceano perto do local do desastre constataram que as populações animais diminuíram até 80 por cento, com poucos sinais de recuperação. Fonte.

REFLEXÃO

AGÊNCIA PARA O CLIMA OU AGÊNCIA DE VIAGENS? EM 16 MESES, DESLOCAÇÕES EQUIVALEM A 11 VOLTAS À TERRA
Elisabete Tavares e Pedro Almeida Vieira, Página Um.

A Agência para o Clima (ApC), criada pelo Governo de Luís Montenegro e em funções desde Junho do ano passado para coordenar a política climática nacional e gerir os instrumentos financeiros destinados à sustentabilidade ambiental, parece ter desenvolvido, em pouco mais de um ano, uma actividade particularmente intensa no sector das viagens.

Entre Junho de 2025 e Outubro deste ano, os seus registos de contratação pública desenham um roteiro que atravessa todos os cantos do Mundo, de Bruxelas a Belém do Pará, de Nova Iorque a Maputo, de Paris à Mongólia, passando pela Arménia, pela Turquia e pela Etiópia.

Um levantamento efectuado pelo PÁGINA UM, a partir dos contratos disponibilizados no portal BASE⁠, revela a existência de 202 registos relacionados com deslocações, voos e alojamento, num montante acumulado de 320.900 euros. (…)


Nos destinos, Bruxelas destaca-se como um óbvio destino dominante, com 70 registos e 51.193 euros, aos quais acrescem três contratos que identificam apenas a Bélgica, elevando o conjunto a 53.083 euros.


A frequência das deslocações à capital europeia encontram explicação nas responsabilidades da Agência para o Clima no acompanhamento da legislação comunitária e na coordenação da representação portuguesa em matérias ambientais, mas a repetição dos contratos não permite conhecer quantas reuniões justificaram as viagens ou quantos trabalhadores participaram em cada uma.

Seguem-se, entre os destinos de maior valor, o Brasil, com 96.798 euros, a Turquia, com 29.375 euros, e países como França, Estados Unidos e Alemanha, todos com montantes superiores a dez mil euros. No conjunto, os registos identificam 27 países, incluindo Portugal, e 31 cidades sem ambiguidade geográfica.

O caso financeiramente mais expressivo encontra-se no Brasil, onde decorreu, entre 10 e 21 de Novembro do ano passado, a 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a COP30. Portugal participou com uma numerosa delegação chefiada pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, cabendo à Agência para o Clima a liderança da delegação técnica nacional, conforme informação publicada pelo Instituto Camões⁠. (...)


As conferências internacionais constituem, de resto, uma parte importante da geografia das viagens da agência. Em Agosto passado, foram contratados uma viagem e um alojamento na Mongólia, por 7.307 euros, coincidindo com a realização da COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, que decorreu em Ulan Bator entre 17 e 28 de Agosto.

Na Arménia, onde decorre entre 19 e 30 de Outubro a COP17 da Convenção sobre a Diversidade Biológica, encontram-se dois contratos de deslocação no valor conjunto de 4.508 euros, ambos datados de 16 de Outubro. (...)


A Turquia constitui outro caso expressivo, tanto pelo montante como pelo calendário. Os contratos identificados com aquele país, incluindo Antália, totalizam 29.375 euros, dos quais 22.689 euros correspondem a três adjudicações para alojamento e 5.950 euros a quatro viagens com destino expresso a Antália.

A cidade turca acolherá, entre 9 e 20 de Novembro, a COP31 das Nações Unidas sobre o Clima, pelo que a agência apresenta já uma despesa contratada significativa associada a um destino onde está marcada mais uma grande conferência climática internacional.


A sucessão de viagens a grandes conferências internacionais não constitui, por si, um desvio às competências da Agência para o Clima.

O Decreto-Lei n.º 122/2024⁠, que criou o instituto público, atribui-lhe a preparação das posições nacionais nas negociações internacionais sobre alterações climáticas e a coordenação da actividade do Ministério do Ambiente e Energia nas relações europeias e internacionais.

Essa avaliação ganha importância perante a dimensão financeira da instituição. O Plano de Actividades de 2026 prevê um orçamento próprio de aproximadamente 25,1 milhões de euros para a ApC, incluindo cerca de 10,6 milhões destinados a pessoal e 10,4 milhões à aquisição de bens e serviços.

A agência administra ainda instrumentos financeiros de dimensão muito superior, nomeadamente o Fundo Ambiental e o Fundo Azul, cujas verbas não devem ser confundidas com as despesas do seu funcionamento.

Na programação do Fundo Ambiental publicada em Agosto, através do Despacho n.º 10014-A/2026⁠, encontram-se previstos 10.038.181 euros para a “Comissão anual da Agência para o Clima e outros custos de gestão”. Trata-se de uma rubrica que não deve ser somada automaticamente ao orçamento próprio da agência, sem conhecer a relação entre as duas dotações.

A importância deste financiamento público contrasta com a juventude da instituição. Criada no final de 2024, a Agência para o Clima recebeu competências anteriormente distribuídas pela Agência Portuguesa do Ambiente e por outros serviços do Ministério.

Em 31 de Dezembro de 2025, segundo o relatório anual de actividades, contava com 145 trabalhadores em exercício efectivo de funções, embora o mapa de pessoal previsse um número superior de postos.

Para 2027, a estrutura já contempla 356 lugares. A agência é presidida, desde Julho de 2026, por Rosário Sequeira, que integrou anteriormente o gabinete da ministra Maria da Graça Carvalho e já desempenhava funções no conselho directivo do organismo. (…)

Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia. / Foto: Agência para o Clima

ApC afirma que privilegia a participação por meios digitais, mas considera que a natureza de algumas matérias, as condições impostas pelas entidades organizadoras e as exigências das negociações tornam necessária ou justificam a presença física. Quanto à contratação de viagens e alojamento, diz ter aderido voluntariamente ao Sistema Integrado de Agenciamento de Viagens, da Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública,, que permite solicitar propostas em simultâneo a 10 operadores, com o objectivo de comparar preços e condições, promover a concorrência e a transparência e obter condições economicamente vantajosas.

O conselho diretivo da Agência para o Clima é presidido por Maria do Rosário Sequeira e integra Duarte Rodrigues, como vice-presidente, e Luís Silva e Joana Veloso, como vogais. / Foto: ApC

Mas não está apenas em causa uma questão de custos para os contribuintes. O PÁGINA UM procurou ir mais longe e avaliar o impacto ambiental potencial associado à intensidade destas viagens. A partir da base de contratos foi construído um modelo de deslocações, considerando apenas os registos que permitiam identificar um destino concreto e evitando somar alojamentos a viagens já contabilizadas.

Foram excluídas as entradas sem destino conhecido, as que mencionavam apenas o país sem identificar a cidade, as referências geográficas ambíguas e uma duplicação detectada. O resultado foi um conjunto de 90 deslocações estimadas, das quais 88 foram consideradas viagens aéreas e duas viagens rodoviárias, sempre com a hipótese de uma única pessoa por ida e volta.

Para calcular a distância, Lisboa foi adoptada como ponto de partida e de regresso. Nas deslocações aéreas, o PÁGINA UM utilizou as distâncias geográficas aproximadas entre as cidades e acrescentou uma margem de 8% para desvios de trajecto, de acordo com uma prática de estimação utilizada nos factores internacionais de emissões. Nas duas deslocações nacionais modeladas, a Arcos de Valdevez e Guimarães, foram consideradas distâncias rodoviárias.


O resultado foi uma extensão acumulada de aproximadamente 439.973 quilómetros, o que, tendo como referência os 40.075 quilómetros de circunferência equatorial da Terra, equivale a 10,98 voltas completas ao planeta.

Dito de outro modo, as deslocações consideradas no modelo correspondem a quase 11 viagens à volta do mundo, apesar de representarem apenas uma parte dos destinos identificados nos contratos.

A estimativa da pegada de carbono foi efectuada numa segunda fase, recorrendo a coeficientes de emissão por passageiro e quilómetro, tendo como referência a metodologia e os factores de conversão publicados em 2026 pelo Governo britânico⁠.


No modelo adoptado foram aplicados 77 gramas de CO₂ por passageiro-quilómetro aéreo estimado e 165 gramas por quilómetro percorrido em automóvel com um único ocupante.

A multiplicação destes coeficientes pelos percursos considerados conduziu a cerca de 33,8 toneladas de CO₂ associadas aos voos e 0,3 toneladas às deslocações rodoviárias, perfazendo aproximadamente 34,1 toneladas de dióxido de carbono.

A estimativa aumenta quando se considera o efeito climático adicional da aviação, associado, entre outros factores, à formação de rastos de condensação e às alterações atmosféricas provocadas pelas aeronaves.

Foto: Captura de imagem de vídeo promocional da ApC

Nesse cenário, o impacto climático global foi estimado em aproximadamente 58 toneladas de CO₂ equivalente, valor que não representa dióxido de carbono fisicamente libertado e que não deve ser somado às 34 toneladas anteriores. Ambas as estimativas dependem dos pressupostos utilizados, incluindo o tipo de aeronave, a classe de viagem e os trajectos.

Por ausência de informação, também não foram contabilizadas as emissões associadas à hotelaria, às refeições, aos transportes locais ou a outros serviços adquiridos durante as missões.

Saliente-se que esta estimativa considera uma única pessoa por deslocação, porque os contratos não permitem identificar quantos trabalhadores ou dirigentes utilizaram cada reserva.


Se determinadas adjudicações envolveram vários passageiros, a distância total percorrida por pessoas e as emissões correspondentes poderão ter sido superiores às calculadas. Em sentido contrário, a existência de viagens contratadas mas posteriormente anuladas, a utilização de transportes diferentes dos assumidos ou a reunião de vários registos numa mesma missão podem reduzir os valores.

Em conclusão, com mais de 320 mil euros em contratos relacionados com viagens, destinos espalhados por 27 países e uma distância potencial que permite circundar a Terra quase 11 vezes, resta saber o impacto positivo de tudo isto na melhoria do clima. Global, não no clima laboral de quem viajou…

BICO CALADO

  • Pelo Direito à Casa é um opúsculo político publicado em 1976 pela arquiteta e política Helena Roseta, lançado no contexto das eleições autárquicas para apoiar a sua candidatura à Câmara de Lisboa pelo PPD/PSD. A obra conta com uma introdução marcante de Francisco Sá Carneiro, que sublinha a ligação entre o urbanismo, o direito à habitação e a organização democrática da sociedade. O texto de Roseta reflete sobre a necessidade de garantir habitação condigna como um pilar indissociável da liberdade. Fonte.
 
  • "Como se viu esta madrugada, no Rossio e na praça D. João I, estamos entregues ao bichos, com um governo absolutamente vendido aos (poucos) mais ricos e uma larga fatia da população abraçada pelo egoísmo, e falta de solidariedade, com quem, por mais que tente, não consegue arranjar uma casa. Enquanto escrevo isto estou a ouvir a Cristas, a falar da lei Cristas, e a dizer que se sente orgulhosa da obra feita. A polícia está a usar os cassetetes nos lombos errados, diz-me aqui o vizinho no café. Errado não está." Tiago Franco, É meu, meto o preço que quiser.
  • A Procuradoria Europeia confirmou a realização de buscas nos gabinetes dos Patriotas da Europa, o grupo parlamentar que reúne partidos da extrema-direita europeia e que integra o partido Chega. As buscas decorreram esta quarta-feira, em Bruxelas e Estrasburgo, no âmbito de uma investigação por suspeitas de utilização irregular de fundos comunitários. Fonte.
  • Mais de oito em cada dez empresas e outras entidades proprietárias de órgãos de comunicação social continuam sem esclarecer quanto receberam de publicidade paga por organismos públicos nacionais ou estrangeiros, ou sequer se beneficiaram dessas receitas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

DAR NOMES DE TRIBOS INDÍGENAS AMERICANAS A MÁQUINAS DE MATAR É UMA DEGENERAÇÃO
Nate Bear, Substack. Rev, O’Lima.


“(…) A prática de dar nomes de tribos nativas americanas e das suas armas a máquinas de guerra e munições imperiais terá tido início na década de 1940 e foi discretamente codificada por um regulamento do exército na década de 1960, que determinava que todo o equipamento recém-adquirido fosse nomeado de forma a «sugerir um espírito agressivo». Isto, após consulta aos líderes tribais, levou a que novos equipamentos, principalmente helicópteros, fossem batizados com nomes de tribos. Em alguns casos, realizam-se cerimónias nas quais os líderes tribais abençoam estas monstruosidades de aço e plástico. A prática, que se mantém até aos dias de hoje, significa que uma quantidade significativa de equipamento do exército dos EUA tem nomes de tribos indígenas, desde os helicópteros Apache Longbow, passando pelo avião de asa fixa C-12 Huron, até aos navios de resgate da «classe Navajo». Em 2024, um novo navio desta classe recebeu o nome de «Narragansett». Depois, claro, temos o míssil «Tomahawk» e o míssil «Longbow Hellfire». No total, quase trinta peças de equipamento militar dos EUA ostentam os nomes de tribos nativas.

Parece-me bastante óbvio o motivo pelo qual esta prática é tão odiosa: os nomes de um povo vítima de genocídio e de assassinatos em massa foram apropriados pelos seus assassinos para cometer genocídio e assassinatos em massa contra outros povos.

O facto de alguns líderes tribais darem a sua bênção a esta prática é extremamente deprimente, não é inspirador nem justificativo.

O míssil que se abateu sobre uma escola feminina no primeiro dia do ataque ao Irão, matando 156 pessoas, incluindo 120 crianças, chamava-se «tomahawk».

Será que os povos indígenas dos EUA querem mesmo ter nomes inspirados em armas de infanticídio? Será que é realmente uma honra para os nativos americanos que uma arma com o seu nome, operada pelas pessoas que os submeteram a genocídio e os despossuíram, caia do céu para matar 156 pessoas? Será que um míssil lançado a centenas de milhas de distância de um alvo civil honra realmente o espírito de luta dos criadores do tomahawk? Claro que não. O míssil «tomahawk» é uma arma covarde de longo alcance, utilizada para cometer assassinatos em massa a sangue frio.

Não há provas de que o míssil «Tomahawk» tenha alguma vez sido abençoado pelos líderes tribais, nem de que a Marinha dos EUA tenha consultado as tribos sobre o nome. Mas é verdade que o equipamento foi abençoado pelos líderes tribais e que as tribos parecem apoiar as práticas de atribuição de nomes (ou, pelo menos, não se opõem a elas de forma significativa). De facto, em abril passado, depois de o «Tomahawk» ter massacrado crianças iranianas, o novo avião de ataque do Exército dos EUA, o «Cheyenne», foi abençoado numa cerimónia que contou com a participação da Tribo Cheyenne do Norte e das tribos Cheyenne e Arapaho.

Este é, de facto, um aspeto muito desanimador da assimilação dos indígenas na sociedade dos seus opressores. (…) Os líderes tribais podem sentir que não têm escolha. Mas o facto de a prática continuar com qualquer tipo de consentimento indígena é desanimador e deprimente, sobretudo devido à enorme desigualdade entre as comunidades tribais e as comunidades não tribais nos EUA.

Os nativos americanos apresentam a taxa de pobreza mais elevada de todos os grupos raciais nos EUA, situando-se entre os 25% e os 30%. O Dakota do Sul, terra da Nação Sioux — que engloba os povos Nakota, Lakota e Dakota —, é o estado com a taxa de pobreza mais elevada de qualquer grupo específico nos EUA, atingindo os 45%. O helicóptero de ataque «Sioux» e o helicóptero utilitário ligeiro «Lakota» receberam esses nomes em sua suposta honra e, em 2012, os anciãos Lakota abençoaram os helicópteros numa cerimónia realizada na Reserva de Standing Rock. É difícil não chegar à conclusão de que, neste caso, os líderes tribais se contentaram com gestos simbólicos em vez de qualquer justiça verdadeira. A sociedade colonial impôs a assimilação às tribos nativas americanas, atribuindo os seus nomes a máquinas de matar, em vez de progresso, justiça ou igualdade. As taxas de pobreza nas reservas podem atingir os 50%, com taxas de desemprego a aproximarem-se dos 90%.

É claro que algumas nações nativas, e especialmente os líderes tribais, têm poucos motivos para queixa, tendo-se saído muito bem com os seus acordos com vários governos estaduais através da exploração de casinos e resorts de jogo.

E a aceitação desta apropriação parece significativa, mas não é total. O ativista das Primeiras Nações Vernon Bellecourt liderou uma campanha contra as equipas desportivas dos EUA que utilizavam apelidos relacionados com terras tribais e também se opôs à denominação do helicóptero «Black Hawk». Em 2011, o nome de código «Geronimo» para a operação que matou Osama Bin Laden foi também amplamente condenado pelos líderes tribais. Além disso, a resistência dos grupos indígenas à sociedade colonial norte-americana não está, de forma alguma, extinta, como exemplificado pelos protestos de Standing Rock, em 2017, contra o oleoduto DAPL, que viram 200 tribos mobilizarem-se para proteger uma fonte de água sagrada.

A própria sobrevivência é também resistência. Mas a verdade é que, devido ao esgotamento, à cooptação e à brutalidade da sociedade dominante, persiste um panorama verdadeiramente desigual. A prática de atribuir nomes é, portanto, uma acusação severa não aos oprimidos, mas aos opressores. E é, muito honestamente, algo tipicamente «yankee».