Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

ALGARVE: MAIS DUAS ÁREAS PROTEGIDAS

  • O concelho de Loulé, que detém até à data 30% das áreas protegidas locais da Rede Nacional de Áreas Protegidas, vê agora duas novas áreas protegidas de âmbito local serem reconhecidas com a publicação oficial da Reserva Natural Local da Nave do Barão e do Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro, em Diário da República. Fonte.
  • A jornada de renascimento do aço naval, algures no Paquistão. Video clip.
  • As árvores nos ensinam a educarmos nossos filhos. Rosângela Trajano, EcoDebate.

BICO CALADO

  • “D. Marcelo, presidente vitalício da Fundação Casa de Bragança, com mandato suspenso por mais 35 dias, com o país de rastos e milhares de portugueses sem telhado, água ou luz, foi a Roma ajoelhar-se e implorar bênçãos ao Papa Leão XIV. (…) foi, pela sexta vez, ao beija-mão do Pontífice. (…) O que o PR não pode fazer é lamber a mão do Papa, inclinar-se subserviente, deixar-se fotografar num ato humilhante para a República laica, que representa, e portar-se como se a CRP, que jurou, permitisse o aviltamento do seu guardião. Portugal não é protetorado do Vaticano e o PR sacristão. Ao bajular o Papa não cumpriu uma visita de Estado, levou a cabo uma promessa pia e denegriu a imagem do País. (…) O respeito que devia merecer como PR esbanjou-o em vergonhosas exibições pias, no seu incoercível proselitismo, na incapacidade de distinguir as funções de Estado das suas convicções religiosas. (…)” Carlos Esperança, Marcelo foi ontem ao Vaticano.
  • O Ministério Público apanhou um comprometedor “esquecimento” de Gouveia e Melo em plena audiência do julgamento em quo de 2021, cerca de quatro mil médicos não prioritários foram vacinados em hospitais militares a troco de 27 mil euros. Gouveia e Melo afirmou em tribunal que só teve conhecimento do uso dos hospitais militares após a vacinação, mas o procurador do MP mostrou e-mails que comprovam que coordenou o processo com o actual deputado do PSD, Miguel Guimarães. Fonte.
  • Portugal, visto de cima, é um pequeno pedaço de terra onde se torna difícil marcar distâncias. As conversas bairristas são ligeiramente irritantes e até ridículas. Mostram alguma falta de mundo, se me permitem. Tiago Franco, Lá longe, a 140 km, a profundidade da estupidez.
  • “Quando um exército é chamado a intervir em apoio às populações, não basta colocar fardas no terreno. É preciso comando, planeamento, meios técnicos e uma clara definição de tarefas. Sem isso, o que se obtém não é ajuda eficaz, mas desgaste inútil - físico e moral - de quem obedece ordens mal pensadas. Como ex-combatente, senti vergonha. Vergonha ao observar este espetáculo de improviso, 51 anos após o 25 de Abril e depois de quatro anos da minha vida como miliciano na guerra colonial. Não pelo esforço dos soldados - esses fizeram o que lhes mandaram - mas pelo retrato que ficou de uma instituição que deveria ser sinónimo de organização, disciplina e capacidade operacional. Um exército sem organização não é apenas ineficiente. É um exército sem razão. E quando assim é, não falha apenas a missão: falha o Estado que o comanda.” João Gomes.
  • As tarifas não ajudaram: 72 000 empregos na indústria transformadora — e a contagem continua — eliminados desde o Dia da Libertação de Trump. «Há muito poucos produtos no nosso portfólio que tenham beneficiado das tarifas», afirmou o CEO de uma empresa de produtos siderúrgicos sediada na Carolina do Norte. Fonte.
  • A oligarquia dos media digitais: quem é o dono das notícias online? Caitlin Scialla, Sheerpost.

LEITURAS MARGINAIS

A IA PODERÁ TRANSFORMAR A EDUCAÇÃO SE AS UNIVERSIDADES DEIXAREM DE AGIR COMO GUILDAS MEDIEVAIS.
Enrique Dans, Medium. Trad. O’Lima.


O pânico não é uma estratégia pedagógica

Quando o ChatGPT surgiu, grande parte da academia reagiu não com curiosidade, mas com medo. Não medo do que a inteligência artificial poderia permitir que os alunos aprendessem, mas medo de perder o controlo sobre como o aprendizado era tradicionalmente supervisionado. Quase imediatamente, os professores declararam a IA generativa como «veneno», alertaram que ela destruiria o pensamento crítico e exigiram proibições total em todas as faculdades (…) Outros apressaram-se em reviver os exames orais e as avaliações manuscritas, como se voltar no tempo pudesse fazer o problema desaparecer. Isso nunca foi realmente sobre pedagogia. Era sobre autoridade.

A narrativa da integridade mascara um problema de controlo

A resposta tem sido tão caótica que os investigadores já documentaram a confusão resultante: políticas contraditórias, diretrizes vagas e mecanismos de aplicação que até mesmo os professores têm dificuldade em compreender (...)

As universidades falam incessantemente sobre integridade académica, enquanto admitem discretamente que não têm uma definição comum do que significa integridade num mundo aumentado pela IA. Enquanto isso, tudo o que realmente importa para a aprendizagem, desde a motivação até a autonomia, o ritmo, a capacidade de tentar ou falhar sem humilhação pública, mal entra na conversa.

Em vez de perguntar como a IA poderia melhorar a educação, as instituições têm-se obcecado em como preservar a vigilância.

As evidências apontam na direção oposta.

No entanto, as evidências apontam numa direção muito diferente. Os sistemas de tutoria inteligente já são capazes de adaptar conteúdos, gerar exercícios contextualizados e fornecer feedback imediato de maneiras que salas de aula grandes não conseguem, conforme resumido em pesquisas educacionais recentes. Essa desconexão revela algo desconfortável.

A IA não ameaça a essência da educação: ela ameaça a burocracia construída à sua volta. Os próprios alunos não estão a rejeitar a IA: estudos mostram consistentemente que eles veem o uso responsável da IA como uma capacidade profissional essencial e querem orientação, não punição, para usá-la bem. A desconexão é gritante: os alunos estão avançando, enquanto as instituições académicas estão-se entrincheirando.

Como é, na prática, uma abordagem «all-in»

Há mais de 35 anos que leciono na IE University, uma instituição que sempre assumiu uma postura contrária. Muito antes de a IA generativa entrar no debate público, a IE já experimentava a educação online, modelos híbridos e aprendizagem aprimorada pela tecnologia. Quando o ChatGPT chegou, a universidade não entrou em pânico. Em vez disso, publicou uma Declaração Institucional sobre Inteligência Artificial muito clara, enquadrando a IA como uma mudança tecnológica histórica, comparável ao motor a vapor ou à internet, e comprometendo-se a integrá-la de forma ética e intencional no ensino, na aprendizagem e na avaliação.

Essa posição "all-in" não tinha a ver com novidade ou branding. Baseava-se numa ideia simples: a tecnologia deve adaptar-se ao aluno, e não o contrário. A IA deve ampliar o ensino humano, não substituí-lo. Os alunos devem poder aprender ao seu próprio ritmo, receber feedback sem julgamentos constantes e experimentar sem medo. Os dados devem pertencer ao aluno, não à instituição. E os educadores devem dedicar menos tempo a fiscalizar os resultados e mais tempo a fazer o que só os humanos podem fazer: orientar, inspirar, contextualizar e exercer o julgamento. A decisão da IE de integrar as ferramentas da OpenAI em todo o seu ecossistema académico reflete essa filosofia na prática.

A uniformidade nunca foi rigor

Esta abordagem contrasta fortemente com as universidades que tratam a IA principalmente como um problema de fraude. Essas instituições defendem um modelo baseado na uniformidade, ansiedade, memorização e avaliação, em vez da compreensão. A IA expõe os limites desse modelo precisamente porque torna possível um modelo melhor: aprendizagem adaptativa e centrada no aluno em grande escala, uma ideia apoiada por décadas de investigação educacional.

Mas abraçar essa possibilidade é difícil. É preciso abandonar a ficção reconfortante de que ensinar o mesmo conteúdo a todos, ao mesmo tempo, avaliado pelos mesmos exames, é o ápice do rigor. A IA revela que esse sistema nunca teve a ver com eficiência de aprendizagem, mas sim com conveniência administrativa. Não é rigor... é rigor mortis.

As Escolas Alpha e a ilusão da disrupção

É claro que há experiências que afirmam apontar para o futuro. As Escolas Alpha, uma pequena rede de escolas privadas com foco em IA nos EUA, chamaram a atenção por reestruturar radicalmente o dia letivo em torno de tutores de IA. A proposta é atraente: os alunos concluem as disciplinas básicas em poucas horas com o apoio da IA, liberando o resto do dia para projetos, colaboração e desenvolvimento social.

Mas as Escolas Alpha também ilustram como é fácil errar na aplicação da IA na educação: o que elas implementam hoje não é um ecossistema de aprendizagem sofisticado, mas uma fina camada de conteúdo impulsionado por IA otimizado para velocidade e desempenho em testes. O modelo de IA, simplista e fraco, prioriza a aceleração em detrimento da compreensão, a eficiência em detrimento da profundidade. Os alunos podem avançar mais rapidamente através do material padronizado, mas fazem-no ao longo de percursos rígidos e predefinidos, com ciclos de feedback simplistas. O resultado parece menos uma aprendizagem aumentada e mais uma automatização disfarçada de inovação.

Quando a IA se torna um tapeterolante

Este é o principal risco enfrentado pela IA na educação: confundir personalização com otimização, autonomia com isolamento e inovação com automação. Quando a IA é tratada como um tapete rolante em vez de uma companheira, ela reproduz as mesmas falhas estruturais dos sistemas tradicionais, só que de forma mais rápida e barata.

A limitação aqui não é tecnológica: é conceitual.

A verdadeira educação impulsionada pela IA não consiste em substituir professores por chatbots ou comprimir currículos em intervalos de tempo mais curtos. Consiste em criar ambientes onde os alunos possam planear, gerir e refletir sobre processos de aprendizagem complexos; onde o esforço e a consistência se tornem visíveis; onde os erros sejam seguros; e onde o feedback seja constante, mas respeitoso. A IA deve apoiar a experimentação, não impor a conformidade.

A verdadeira ameaça não é a IA

É por isso que a reação contra a IA nas universidades é tão equivocada. Ao concentrarem-se na proibição, as instituições perdem a oportunidade de redefinir a aprendizagem em torno do crescimento humano, em vez do controlo institucional. Elas agarram-se aos exames porque são fáceis de administrar, não porque são eficazes. Temem a IA porque ela torna óbvio o que os estudantes sabem há muito tempo: que grande parte do ensino superior mede os resultados, negligenciando a compreensão.

As universidades que prosperarão não são aquelas que proíbem ferramentas ou ressuscitam rituais de avaliação do século XIX. Serão aquelas que tratam a IA como infraestrutura educacional essencial — algo a ser moldado, governado e aprimorado, não temido. Elas reconhecerão que o objetivo não é automatizar o ensino, mas reduzir a desigualdade educacional, expandir o acesso ao conhecimento e libertar tempo e atenção para os aspetos profundamente humanos da aprendizagem.

A IA não ameaça a educação: ela ameaça os sistemas que se esqueceram para quem é a educação.

Se as universidades continuarem a responder defensivamente, não será porque a IA as substituiu. Será porque, quando confrontadas com a primeira tecnologia capaz de permitir uma aprendizagem genuinamente centrada no aluno em grande escala, elas optaram por proteger os seus rituais em vez dos seus alunos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

ESPINHO: FORTE ONDULAÇÃO PROVOCA ROMBO NO ENROCAMENTO DE SILVALDE

Foto: JN

A forte ondulação registada na madrugada desta terça-feira provocou um rombo de grandes dimensões no enrocamento no bairro piscatório de Silvalde, tendo o mar galgado e atingido áreas muito próximas das habitações, gerando apreensão entre a população local. Fonte.

O litoral de Espinho é frequentemente alvo de galgamentos que provocam grandes estragos. É o preço que pagamos por querermos usufruir dele. Seguem-se registos dos impactos de alguns galgamentos passados:

LINHA DO SADO PRIVATIZADA?

  • A proposta do Governo para subconcessionar a linha do Sado da CP a grupos privados é “uma transferência inaceitável de recursos dos contribuintes para o lucro privado”, afirma a distrital de Setúbal do BE. Fonte.
  • Barragens libertam água equivalente a três anos de consumo de Lisboa. Fonte.







ESPANHA: REPSOL MULTADA POR PREJUDICAR GALOSINEIRAS INDEPENDENTES

  • A Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência impôs uma sanção de 20,5 milhões de euros ao Grupo Repsol. O regulador espanhol considera provado que a empresa energética abusou da sua posição dominante no mercado grossista de combustíveis durante o ano de 2022, levando a cabo uma estratégia de «redução das margens» destinada a obstaculizar a atividade dos seus concorrentes, principalmente as estações de serviço independentes e de baixo custo. A resolução inclui a proibição de participar em concursos públicos para o fornecimento de combustíveis durante seis meses. Fonte.
  • A Espanha aproxima-se dos 100 milhões de turistas enquanto tenta liderar a descarbonização. Dois objetivos do país que hoje colidem frontalmente. Pode a Espanha turística ser também uma Espanha climaticamente responsável? Reflexão interessante de Andrés Actis, na Climática.
  • Até metade dos sedimentos grosseiros de algumas praias britânicas são compostos por materiais artificiais, como tijolos, betão, vidro e resíduos industriais, conclui um estudo recente.
  • Reino Unido é o pior país do mundo por permitir que empresas de combustíveis fósseis perfurem em reservas naturais. Uma investigação recente revela vasta sobreposição global entre licenças de perfuração e locais protegidos cruciais para a natureza. Fonte.
  • Organizações de ambiente lançam maior petição europeia contra a simplificação das leis ambientais, alegando que, com essa “simplificação” e “redução de burocracia”, a Comissão Europeia se prepara para implementar um novo pacote legislativo – o chamado “omnibus” de desregulamentação – que poderá enfraquecer várias leis ambientais fundamentais, incluindo leis da água, resíduos, químicos, poluição industrial e proteção da natureza. Entre as medidas em discussão estão menos monitorização (mais poluição não detetada, com impactos irreversíveis na saúde e na natureza), padrões mais fracos (pior qualidade da água, do ar e dos solos), fiscalização mais lenta (maior risco para a saúde pública), mais autoavaliação por parte da indústria (menos responsabilização e mais oportunidades para contornar regras), e limites mais elevados para as empresas (menos poluidores obrigados a cumprir a lei). E leis mais fracas significam menos responsabilidades para quem polui e maior risco para a saúde e segurança das pessoas. Fonte.
  • A administração Trump isenta novos reatores nucleares da avaliação ambiental. O anúncio da exclusão surge poucos dias depois de se saber que funcionários do Departamento de Energia tinham secretamente reescrito as regras ambientais e de segurança para facilitar a construção dos reatores. Fonte.
  • Como tornar as políticas climáticas mais justas? Henrique Cortez, EcoDebate.
  • O exército israelita usarou escavadoras para arrasar terras agrícolas na cidade de al-Khader, a sul de Belém, arrancando cerca de 200 videiras maduras. Fonte.

REFLEXÃO

‘PERDA GLOBAL DE BIODIVERSIDADE, COLAPSO DOS ECOSSISTEMAS E SEGURANÇA NACIONAL: UMA AVALIAÇÃO DA SEGURANÇA NACIONAL’
Relatório compilado pelo Comité Conjunto de Inteligência (que inclui os chefes do MI5, MI6 e GCHQ)
Tim Smedley, Medium. Trad. O’Lima.


O que diz este relatório para ter sido retido e só agora ter vindo a público?
Os riscos à segurança nacional identificados pelo relatório do Comité Conjunto de Inteligência com um nível de confiança «alto» são:
  • «A degradação e o colapso do ecossistema global ameaçam a segurança nacional e a prosperidade do Reino Unido. O mundo já está a sofrer impactos, incluindo quebras nas colheitas, intensificação de desastres naturais e surtos de doenças infecciosas. As ameaças aumentarão com a degradação e intensificar-se-ão com o colapso. Sem uma intervenção significativa para reverter a tendência atual, é altamente provável que isso continue até 2050 e depois.»
  • «Os ecossistemas críticos que sustentam as principais áreas de produção alimentar global e afetam o clima global, os ciclos hídricos e meteorológicos são os mais importantes para a segurança nacional do Reino Unido. A degradação grave ou o colapso desses ecossistemas provavelmente resultariam em insegurança hídrica, redução severa na produtividade agrícola, redução global das terras aráveis, colapso da pesca, alterações nos padrões climáticos globais, libertação de carbono retido, agravando as alterações climáticas, novas doenças zoonóticas e perda de recursos farmacêuticos. A floresta amazónica, a floresta do Congo, as florestas boreais, os Himalaias e os recifes de coral e mangais do Sudeste Asiático são particularmente significativos para o Reino Unido».
  • «Está a ocorrer uma elevada degradação dos ecossistemas em todas as regiões. Todos os ecossistemas críticos estão a caminho do colapso (perda irreversível de função, sem possibilidade de reparação).»
Vamos ler novamente a última frase. As ameaças na avaliação de segurança nacional são classificadas em baixo, médio e alto nível de confiança. O facto de «todos os ecossistemas críticos estarem a caminho do colapso (perda irreversível de função sem possibilidade de reparação)» ser classificado como alto pelos serviços secretos britânicos deve abalar-nos profundamente. Mais adiante, o relatório explica: «Há uma possibilidade realista de alguns ecossistemas começarem a entrar em colapso até 2030 ou antes, como resultado da perda de biodiversidade devido à alteração do uso do solo, poluição, alterações climáticas e outros fatores.»

O relatório identifica «6 ecossistemas globais críticos» em risco de colapso — ver mapa abaixo). Metade deles tem uma «possibilidade realista de colapso a partir de 2030». Faltam quatro anos para isso. Este é um relatório recente.

1. Floresta Amazónica, América Latina. Escala temporal de transição: 50–100 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2050; 2. Bacia do Congo, África. Escala temporal de transição: incerta. Possibilidade realista de colapso a partir de 2050. 3. Sudeste Asiático. Recifes de coral, escala temporal de transição: 10 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030. Manguezais. Prazo de transição: incerto. Possibilidade realista de colapso a partir de 2050. 4. Himalaia, Ásia. Escala temporal de transição: 50–1000 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030. 5. Florestas boreais, Rússia. Escala temporal de transição: 40–100 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030. 6. Florestas boreais, Canadá. Escala temporal de transição: 40–100 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030.

Como uma ameaça à segurança nacional do Reino Unido, tudo isso pode parecer geograficamente distante, mas não para os chefes dos serviços secretos. Essas «regiões ecossistémicas são críticas para a segurança nacional do Reino Unido, dada a probabilidade e o impacto do seu colapso. Uma degradação grave ou colapso provocaria a deslocalização de milhões de pessoas, alteraria os padrões climáticos globais, aumentaria a escassez global de alimentos e água e impulsionaria a competição geopolítica pelos recursos restantes».

O relatório sublinha que o Reino Unido importa 40% dos seus alimentos do exterior, com apenas 25% provenientes da Europa. O Reino Unido depende fortemente das importações de frutas frescas, vegetais e açúcar. A pecuária nos níveis atuais é insustentável sem importações — a soja da América do Sul representa 18% da ração animal produzida. Quase 50% dos produtos embalados contêm óleo de palma importado. O Reino Unido não é autossuficiente em fertilizantes — tanto o azoto como o fósforo dependem, pelo menos parcialmente, das importações.

O Reino Unido (…) tem enfrentado uma crise após outra no custo de vida desde, pelo menos, a crise financeira de 2008, agravada pelo Brexit, a partir de 2016. Os salários estão estagnados desde 2008, há quase duas décadas. Muitas vezes, a única coisa que mantém os britânicos à tona é um setor de supermercados muito competitivo, que mantém os custos dos alimentos baixos. Essa tábua de salvação, alerta o relatório das secretas, não sobreviverá aos próximos pontos de inflexão climáticos: «O Reino Unido é incapaz de ser autossuficiente em alimentos no momento, com base nas dietas e preços atuais. A autossuficiência total exigiria aumentos de preços muito substanciais para os consumidores, bem como melhorias na eficiência, redução de resíduos e resiliência em todo o sistema alimentar, incluindo produção agrícola, processamento, distribuição e consumo de alimentos. O Reino Unido não tem terra suficiente para alimentar sua população e criar gado».

E para dissipar quaisquer pensamentos românticos de regressar à autossuficiência dos tempos de guerra e ao «esforço coletivo pela Grã-Bretanha», o relatório deixa dolorosamente claro: «A produção alimentar do Reino Unido é vulnerável à degradação e ao colapso do ecossistema. A perda de biodiversidade, juntamente com as alterações climáticas, está entre as maiores ameaças a médio e longo prazo para a produção alimentar doméstica — através da degradação dos solos, perda de polinizadores, secas e inundações.»

Mas este relatório é apenas o mais recente de uma longa série de alertas. Ele não revela nada de novo. Trata-se, na verdade, de uma mera consolidação de relatórios já existentes — a lista de referências inclui a meta-análise de Mahon, M.B., et al. (2024) sobre os fatores que impulsionam as mudanças globais e o risco de doenças infecciosas; o IPBES. (2019) Resumo para decisores políticos do relatório de avaliação global sobre biodiversidade e serviços ecossistémicos; o Relatório Planeta Vivo 2024 da WWFo próprio Relatório de Segurança Alimentar do Reino Unido 2021 do Governo Britânico; o Relatório Global Tipping Points 2023. (...)

A previsão é catastrófica. Estamos a seguir um caminho que nós mesmos criámos, rumo à destruição mútua. No entanto, um caminho alternativo de conservação generalizada, consumo e produção sustentáveis não só interrompe o declínio, como nos leva de volta a níveis superiores aos atuais de biodiversidade e ecossistemas, nos quais podemos prosperar. Esse caminho continua disponível para nós.

Ruth Chambers, que apresentou o pedido de acesso à informação, concorda: «A sua publicação neste momento sugere que aqueles dentro do governo e da comunidade de segurança, que compreendem os riscos sistémicos da degradação climática e do declínio da biodiversidade, convenceram os seus colegas de que esta informação não deveria, com razão, ser escondida do público. Esta é uma vitória importante para a transparência.» Ao contrário de outros documentos governamentais que «acabam num canto empoeirado de Whitehall», este, diz ela, dada a sua crescente notoriedade e urgência, «deve ser agendado como um item importante na agenda do Conselho de Ministros, com base no parecer do comité COBR [Emergência Nacional]».

Talvez ironicamente, um relatório bloqueado pelo governo receba mais atenção dos media do que um que é publicado abertamente. Por isso, e somente por isso, temos que agradecer ao governo desta vez.

BICO CALADO

  • O Departamento de Segurança Interna dos EUA está a usar um contrato da Marinha no valor de 55 mil milhões de dólares para converter armazéns em prisões improvisadas e planear extensas cidades de tendas em áreas remotas. O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) já utilizou parte dos 45 mil milhões de dólares para adquirir armazéns em quase duas dezenas de comunidades remotas, cada um deles destinado a albergar milhares de detidos. Fonte.
  • As centenas de cr7 que tratam de refazer a vida e recuperar os bens danificados esperam que uma quantia semelhante à que se enviou para os nazis de kiev roubarem seja disponibilizada para a cobertura dos prejuízos que a tempestado causou por todo o país. E com celeridade. A não ser assim fica comprovado que os políticos que hoje governam não fazem mais que tratar, de forma mesquinha, da própria VIDINHA. Veremos se é diferente. oxisdaquestao.
  • A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, decidiu retirar um projeto de lei tecnológica da UE após reunião com o vice-presidente dos EUA, JD Vance. Essa regulamentação poderia ter poupado às empresas da UE milhares de milhões de euros em taxas de patentes pagas a empresas tecnológicas americanas. Von der Leyen retirou a lei pouco depois de uma, disse Wölken. Entretanto, o pedido do eurodeputado alemão Tiemo Wölken para obter documentos que detalhassem a decisão de retirar a lei chegou a um beco sem saída. Agora, o seu processo judicial — atualmente pendente no tribunal — visa obter acesso a e-mails e mensagens de texto trocadas por von der Leyen e a sua equipa que possam revelar o que realmente aconteceu à porta fechada. Fonte.
  • As autoridades policiais francesas realizaram uma operação nos escritórios da empresa de redes sociais X, propriedade de Elon Musk, com base em alegações de «abuso ilegal de algoritmos e extração fraudulenta de dados» por parte de executivos da empresa. Fonte.
  • O município de Thurrock, Inglaterra, investiu 1 bilião de libras numa série de empreendimentos comerciais secretos e ruinosos entre 2016 e 2020. Muitos dos negócios envolveram Liam Kavanagh, que embolsou dezenas de milhões e gastou tudo numa vida de luxo. O colapso subsequente de muitos desses negócios deixou o município numa situação financeira desesperada e sob ordens do governo para abandonar os seus investimentos, a fim de recuperar o máximo de dinheiro possível. Fonte.
  • No Reino Unido, uma empresa que recebeu milhões de libras em dinheiro público para administrar lares infantis ilegais foi apanhada a alojar uma criança vulnerável numa residência degradada, onde dormia num colchão no chão. A Great Minds Together foi suspensa pela Ofsted por falhas graves na proteção das crianças, após inspetores visitarem a propriedade em Oldham no ano passado. Mas, desde então, ela ressurgiu com outro nome e continua a lucrar com colocações ilegais. Sob as suas duas identidades, a GMT arrecadou mais de £ 12 milhões das autarquias locais nos últimos três anos, quase todo esse valor proveniente do fornecimento de acomodações ilegais para crianças sob cuidados institucionais. Os lares em questão são ilegais porque não estão registados na Ofsted. Isso significa que eles não precisam passar por inspeções de rotina e, portanto, não há garantias de qualidade ou segurança. Fonte.
  • Empresa de relações públicas de Londres reescreve a Wikipédia para governos e bilionários. Fundada pelo diretor de comunicação do primeiro ministro britânico e Keir Starmer, a Portland Communications ajuda clientes ricos a «proteger a sua reputação» – com um serviço obscuro e não oficial. Fonte.
  • A UE está a perder 5 vezes o PIB da Gronelândia devido à conquista fiscal de Trump. Sem qualquer debate público, os países da UE concordaram em isentar as multinacionais norte-americanas da maioria dos elementos do imposto mínimo global – quando a evasão fiscal dessas mesmas multinacionais norte-americanas custa ao bloco 14 mil milhões de euros em receitas perdidas todos os anos. A perda representa um enfraquecimento significativo da soberania fiscal da UE, alimentado pela Lei de Redução de Impostos e Emprego da primeira administração Trump, que permitiu às empresas norte-americanas duplicar a transferência de lucros, e sustentado pela segunda administração Trump, que conseguiu intimidar os países da UE a isentar as empresas americanas do imposto mínimo global proposto. As perdas fiscais equivalem à UE ceder 4,6 vezes por ano o PIB da Gronelândia aos EUA, ou entregar anualmente 30 euros por cada pessoa que vive na UE às multinacionais americanas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A AGENDA SECRETA DO APARTRHEID NO VALE DO SILÍCIO
Enrique Dans, Medium. Trad. O’Lima.


(…) O sistema de apartheid da África do Sul não era apenas um regime político injusto, era uma visão de mundo totalizante que normalizava situações que, de qualquer perspectiva humana razoável, não faziam sentido. Refiro-me ­a alguns indivíduos cuja influência no ecossistema tecnológico global é difícil de subestimar.

Elon Musk cresceu na África do Sul do apartheid, num ambiente de privilégios para os brancos que normalizava completamente a desigualdade extrema: o seu desprezo pela regulamentação, a sua concepção instrumental do trabalho e a sua deriva política estão cada vez mais próximos de posições autoritárias e não surgiram do nada.

Roelof Botha, neto de Pik Botha, o ministro dos Negócios Estrangeiros mais antigo do país, cresceu no centro do poder sul-africano e é hoje uma das figuras mais influentes no capital de risco, promovendo modelos de negócios orientados para o crescimento, extração e sem responsabilidade social.

David Sacks, que também cresceu na África do Sul antes de emigrar, é um defensor declarado do autoritarismo «eficiente» e, particularmente, do trumpismo.

Peter Thiel, embora tenha nascido na Alemanha, passou vários dos seus anos de formação na África do Sul e é talvez o ideólogo mais coerente deste grupo: um inimigo declarado da democracia, um defensor do elitismo intelectual e o fundador de empresas como a Palantir, que incorpora uma visão das pessoas como objeto de vigilância e controlo constantes.

Crescer na África do Sul do apartheid, mesmo sem apoiá-lo explicitamente, implicava normalizar e interiorizar uma série de pressupostos: que a assimetria de direitos pode ser racional, que a exclusão é funcional, que a concentração de poder é necessária para o funcionamento do sistema. A socialização opera no que é implícito, no que é inquestionável.

Décadas depois, não é difícil ver essa estrutura mental refletida em grande parte do discurso tecno-libertário, cada vez mais dominante. A desconfiança na democracia, apresentada como um sistema lento e ineficiente, o fascínio por figuras providenciais capazes de resolver problemas complexos a partir de cima, a aversão quase patológica a qualquer forma de regulamentação coletiva. Tudo isso configura uma visão de mundo em que o poder não precisa ser legitimado, apenas eficaz, geralmente acompanhada por uma simplificação grosseira. Não é por acaso que esse imaginário se conecta com as crenças reacionárias e abertamente fascistas de alguns líderes tecnológicos.

A substituição da hierarquia racial por uma hierarquia tecnológica ou meritocrática é apenas uma mudança de narrativa. Onde antes falávamos de raça, hoje falamos de talento, QI, disrupção ou superioridade técnica. O resultado, porém, é semelhante: poucos decidem, muitos obedecem. Poucos beneficiam, muitos absorvem os custos. A desigualdade deixa de ser um problema político e passa a ser um fator de custo no progresso.

As grandes plataformas digitais são laboratórios desta lógica. Um pequeno grupo de executivos e acionistas define arquiteturas de poder que condicionam o acesso à informação, a visibilidade pública, as relações sociais e, cada vez mais, os processos democráticos. Milhares de milhões de pessoas estão sujeitas a sistemas opacos e não negociáveis, explicitamente concebidos para maximizar a mineração de dados e a rentabilidade. A transformação da X, anteriormente Twitter, sob o controlo de Elon Musk, é um exemplo particularmente revelador: uma plataforma deliberadamente transformada numa placa de Petri para a radicalização política, onde os algoritmos são utilizados para espalhar conflitos e assediar pessoas, onde a desinformação não é uma falha do sistema, mas uma estratégia consciente apresentada como uma «defesa da liberdade de expressão». A responsabilidade é diluída, os danos são uma «externalidade» e a desumanização é normalizada como uma forma de eficiência operacional.

O caso da Palantir leva essa concepção à sua expressão mais crua. O seu modelo baseia-se numa visão instrumental das pessoas como dados a serem processados, correlacionados e explorados. Tornamo-nos variáveis, parte de mapas de risco, com o nosso comportamento a ser previsto. A empresa não esconde as suas ligações aos aparelhos militares e policiais, nem o seu desprezo por qualquer debate ético que interfira na expansão dos seus sistemas. É a lógica do controlo total envolta na linguagem asséptica da engenharia.

Este ecossistema não se limita à esfera empresarial: está cada vez mais interligado com um complexo militar-digital onde convergem vigilância, armamento, IA e plataformas privadas, no qual podemos enquadrar, por exemplo, a expansão vertiginosa do ICE por Donald Trump durante o seu segundo mandato. A promessa de segurança serve para justificar uma expansão paramilitar sem precedentes de tecnologias intrusivas, enquanto a fronteira entre o público e o privado é deliberadamente esbatida. O resultado é uma infraestrutura de poder difícil de conciliar com sociedades abertas.

O libertarianismo tecnológico desempenha aqui um papel fundamental como mecanismo de branqueamento moral. Ao apresentar decisões profundamente políticas como simples resultados de mercado ou inevitabilidades técnicas, permite que o poder seja exercido sem assumir responsabilidade democrática. «O algoritmo decide», «o mercado corrige», «a tecnologia é neutra»: fórmulas que lembram assustadoramente as antigas justificações para a desigualdade, quando esta era apresentada como uma suposta «ordem natural». A diferença é que agora a hierarquia não se baseia na raça, mas em dados, capital e controlo da infraestrutura. Assim como o apartheid justificou a sua violência estrutural em nome da eficiência e estabilidade económicas, a eficiência algorítmica contemporânea é usada para legitimar a exclusão, a vigilância e a amplificação dos danos sociais: o que otimiza as métricas não precisa justificar as suas consequências humanas.

Vale a pena acrescentar um elemento que reforça a relevância da análise: a influência extraordinária e desproporcional que este pequeno grupo de pessoas com origens ou formação na África do Sul do apartheid e que caracterizam em grande parte a diáspora sul-africana e a Mafia do PayPal exerce no Vale do Silício. Não se trata apenas de histórias de sucesso individuais, mas de uma densa rede de capital, ideologia e capacidade executiva que definiu a cultura tecnológica dominante. Essas pessoas definem que empresas recebem financiamento, além de normalizar discursos abertamente antidemocráticos, moldando um ecossistema onde a concentração de poder, a tolerância ao dano social e o desprezo pelos freios e contrapesos institucionais são celebrados como evidência de confiança e visão.

Obviamente, não estamos a falar do único fator. Focar numa constelação específica, a órbita sul-africana da Mafia do PayPal, para esclarecer um aspeto pouco discutido do atual ecossistema tecnológico, não nega que haja, naturalmente, várias outras genealogias igualmente válidas (como a financeirização, o capitalismo de vigilância e as soluções tecnológicas) que poderiam e deveriam ser analisadas para completar adequadamente o panorama. Não pretendo explicar ou atribuir todos os males do Vale do Silício ao facto de algumas das suas figuras proeminentes terem crescido na África do Sul do apartheid, mas situo claramente uma de suas origens.

Vale a pena enfatizar algo essencial: o contexto não é automaticamente o fator determinante. Milhões de pessoas cresceram sob o apartheid e não desenvolveram visões de mundo autoritárias. No entanto, quando vários atores com poder desproporcional compartilham contextos formativos marcados pela normalização da desigualdade e acabam promovendo sistemas tecnológicos que concentram o poder, corroem a democracia e desumanizam a sociedade, a questão torna-se essencial. Obviamente, o risco é transformar a biografia sul-africana de Musk, Thiel, Sacks ou Botha numa «explicação total» determinista, mas, em vez de provar uma causalidade linear, estou apenas a destacar a ressonância entre uma cultura política aprendida num ambiente de hierarquia extrema e certas formas atuais de exercer o poder tecnológico, apontando para um padrão sugestivo que merece uma investigação mais aprofundada.

Não se trata de fazer julgamentos morais individuais ou construir teorias da conspiração, mas de identificar padrões estruturais. Entender por que a tecnologia que nos é apresentada como emancipatória acaba, com frequência alarmante, reforçando dinâmicas de dominação, vigilância e exclusão. Se continuarmos a tratar estes resultados como desvios acidentais, continuaremos a ser surpreendidos (e parecer desarmados) por eles.

Talvez tenha chegado o momento de aceitar que muitos dos problemas do ecossistema tecnológico não são falhas de implementação, mas sim consequências lógicas de uma visão do mundo que desconfia da igualdade, que despreza a deliberação democrática e que concebe as pessoas como meios e não como fins. Somente questionando essas raízes ideológicas podemos aspirar a uma tecnologia que seja verdadeiramente compatível com sociedades livres, pluralistas e humanas. E se esse modelo nos deixa desconfortáveis quando olhamos para o passado do apartheid na África do Sul ou seus descendentes diretos, ele deve deixar-nos ainda mais desconfortáveis quando vemos que, infelizmente, é ele que governa as nossas atuais infraestruturas digitais.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

ALASKA: PLATAFORMA DE PETRÓLEO TOMBA

Foto da Doyon Drilling via Departamento de Conservação Ambiental do Alasca

Quando a ConocoPhillips obteve aprovação federal em 2025 para explorar petróleo no Ártico do Alasca, grupos ambientalistas alertaram que a proposta fora aprovada à pressa, sem as proteções adequadas. Na semana passada, uma plataforma de petróleo tombou na tundra quando se dirigia para a perfuração, provocando um incêndio e derramando diesel sobre a terra coberta de neve. Agora, o tempo está tão severo que nenhuma equipa está no local para responder ao derrame ou avaliar a extensão dos danos. Fonte.

BICO CALADO

  • Acabámos de saber sobre um programa pioneiro de satélites espiões dos EUA, quase 40 anos após o lançamento da sua última nave espacial para a fronteira final. O Gabinete Nacional de Reconhecimento dos EUA (NRO) desclassificou o seu satélite espião «JUMPSEAT», oito dos quais atingiram uma órbita altamente elíptica entre 1971 e 1987. Fonte.
  • Despedimentos em massa nos EUA: Amazon (mais 16.000), United Parcel Service (30.000), Dow (3.000), Home Depot (800). Fonte.
  • A prisão de dois jornalistas norte-americanos por causa de uma reportagem sobre um protesto numa igreja em Saint Paul no início deste mês causou comoção entre organizações de direitos humanos que há muito defendem repórteres em todo o mundo contra ataques semelhantes à liberdade de imprensa. O ex-âncora da CNN Don Lemon, agora jornalista independente, e Georgia Fort, repórter independente sediada em Minnesota, reportaram e filmaram um protesto organizado por residentes locais em 18 de janeiro contra um pastor de uma igreja que também teria trabalhado como agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Fonte.
  • O maior fundo de pensões privado da Suécia alienou até 8,8 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA, marcando a retirada mais significativa até agora dos títulos do governo americano desde que eclodiu a crise da Gronelândia do presidente Donald Trump. Fonte.
  • “(…) a cartilha e os discursos do Chega em Portugal são directamente decalcados da estratégia anti-imigração de Trump, do populismo racista e do Projecto 2025 dos Estados Unidos. Não é por acaso que Ventura, os deputados e os financiadores do Chega são confessos admiradores de Trump. Enquanto Ventura foi a Washington assistir à tomada de posse e Ronaldo expressa a sua admiração por Trump, muitos outros multimilionários portugueses apoiam directa e indirectamente a extrema-direita em Portugal e financiam o Chega. Para que não haja dúvidas: exportar a agenda de Trump, que é o que Elon Musk, Bannon e outros estão a fazer apoiando por toda a Europa partidos como o Chega, significa criar condições para que os líderes da extrema-direita europeia possam, também eles, um dia, tal como Trump, mobilizar unidades das forças de autoridade ou militares para atingir os seus propósitos: espalhar terror, calar críticos e adversários, dar rédeas livres aos oligarcas da Wallstreet, de Silicon Valley ou do PSI20 português (baixar os impostos das grandes empresas e desregulamentar os sectores, anular as leis de protecção ambiental, privatizar os últimos redutos do domínio público, a água, as praias etc.). Nada disto é especulação: as linhas de acção estão claramente delineadas em documentos de estratégia política publicados pela administração Trump e pelos 'think tanks' na sua órbita.” Miguel Zymanski.
  • Exercícios de onicofagia do ministro Leitão Amaro em pavor da Kristin. Brás Cubas, Página Um.
  • A tempestade que desnudou os politiqueiros, Jorge Rocha – Ventos semeados.
  • Os EUA lideram o ranking global dos países mais cúmplices em ajudar indivíduos a esconder a sua riqueza do Estado de direito, obtendo a pior classificação já registada desde o início do ranking, em 2009. FontePortugal é 82º em 141 países analisados.
  • Por que é que a BBC está a defender Trump em relação às acusações contra Epstein? A minha opinião é que isso se deve, em parte, ao facto de Trump estar a processar a BBC por outra questão e a BBC agora estar com medo de o irritar. Portanto, vai deixá-lo escapar impune de crimes graves. Isso não é jornalismo. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

COMO A EUROPA PODE LEVAR OS ESTADOS UNIDOS À FALÊNCIA
Vikas, Medium. Trad. O’Lima.


Durante décadas, a Europa e os EUA viveram como parceiros, satisfazendo as necessidades mútuas. Os EUA protegiam a Europa. A Europa confiava nos EUA. O dinheiro fluía silenciosamente das capitais europeias para os mercados norte-americanos, e ninguém questionava esse acordo. A relação parecia forte, permanente, quase inquebrável. Essa ilusão está agora a desmoronar-se. Sob Donald Trump, a Europa já não é tratada como um parceiro. É tratada como um dependente.

As tarifas são usadas como ameaças. Os compromissos da NATO são questionados. Os aliados são ridicularizados. E agora, com a pressão sobre a Gronelândia, Washington ultrapassou uma linha psicológica.

Pela primeira vez em décadas, a Europa está a fazer abertamente uma pergunta perigosa: E se deixarmos de ser bonzinhos? A portas fechadas em Bruxelas, Paris e Berlim, uma constatação está a espalhar-se.

A Europa pode ser fraca em termos militares, mas financeiramente, o equilíbrio de poder parece muito diferente. De facto, a Europa possui uma das armas mais poderosas que se pode imaginar contra os EUA — e ela não dispara uma única bala. Essa arma é o dinheiro.

Não se trata de euros ou dólares em circulação, mas sim de propriedade. Propriedade da dívida americana. Propriedade das ações americanas. Propriedade do sistema financeiro que mantém o governo dos EUA vivo.

Este artigo explica, em termos simples, como a Europa poderia prejudicar financeiramente os EUA, por que essa opção aterroriza Washington e por que a Europa ainda não a utilizou — mas pode vir a fazê-lo um dia.

A verdade que ninguém gosta de dizer em voz alta

Os EUA parecem fortes. O seu exército é inigualável. O dólar domina o comércio global. Os seus mercados bolsistas atraem capital de todos os cantos do mundo. Mas por baixo desse poder esconde-se um facto simples e incómodo: os EUA sobrevivem graças a empréstimos. O governo dos EUA gasta muito mais do que ganha. Todos os anos, tem déficits enormes. Para cobrir esses déficits, vende obrigações — títulos de dívida — a investidores de todo o mundo.

Esses títulos são chamados de Títulos do Tesouro dos EUA. Eles representam promessas de que os EUA pagarão juros e, eventualmente, devolverão o dinheiro.

E aqui está o ponto principal: A Europa é um dos maiores compradores dessas promessas. Os governos europeus, fundos de pensão, seguradoras, bancos e investidores privados detêm, coletivamente, mais de US$ 12 trilhões em ativos financeiros dos EUA. Isso inclui ações, dívida corporativa e cerca de US$ 2,8 trilhões em títulos do governo dos EUA. Isso significa que a Europa detém aproximadamente 10% de toda a dívida do Tesouro dos EUA. Isso não é simbólico. É estrutural. O governo dos EUA depende desse dinheiro para funcionar normalmente.

Por que a dívida dos EUA é um ponto fraco

Durante muitos anos, a dívida dos EUA era barata. As taxas de juro eram baixas. Era fácil obter empréstimos. Ninguém se preocupava muito com a sustentabilidade.

Esse mundo acabou. Hoje, a dívida pública dos EUA é de cerca de 120% do PIB. O governo tem déficits de aproximadamente 6% do PIB todos os anos, mesmo quando não há crise. As taxas de juro estão mais altas do que estavam na maior parte da última década. Isso significa uma coisa: os EUA são extremamente sensíveis a choques nas taxas de juro. Mesmo um pequeno aumento nas taxas de juros custa ao governo dos EUA dezenas de milhares de milhões de dólares todos os anos. Um aumento significativo pode rapidamente transformar-se num pesadelo fiscal. E as taxas de juros não são controladas pelos políticos. São controladas pelos mercados. É aí que a Europa entra em cena.

A principal opção: vender a dívida dos EUA

Sejamos muito claros. A Europa não precisa invadir. Não precisa de sanções. Não precisa ameaçar com guerra. Tudo o que precisa fazer é vender. Se a Europa decidisse desfazer-se de uma grande parte dos seus títulos do Tesouro dos EUA, o efeito seria imediato. Os preços dos títulos cairiam. Quando os preços dos títulos caem, as taxas de juro sobem. Isso é finanças básicas.

Taxas de juro mais altas significariam: a nova dívida dos EUA torna-se mais cara, a dívida existente torna-se mais difícil de pagar, os déficits aumentam ainda mais, a confiança nas finanças dos EUA enfraquece.

A certa altura, os investidores começam a fazer uma pergunta perigosa: os EUA ainda são seguros? Quando essa pergunta surge, o pânico espalha-se rapidamente.

É por isso que até mesmo a ideia de uma liquidação europeia já abalou Washington. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, rejeitou publicamente a ideia e disse à Europa para «respirar fundo». Os governos não fazem declarações tranquilizadoras a menos que se sintam expostos.

E é por isso que o aumento das taxas de juros prejudica os EUA sem qualquer venda.

Um equívoco comum nesse debate é como a dívida do governo dos EUA realmente funciona.

Quando os EUA emitem um título do governo, a taxa de juros desse título é fixada para todo o seu prazo de vigência. Se um título é emitido a 2% por dez anos, os EUA continuam a pagar 2% até que esse título vença. O aumento das taxas de juros não altera repentinamente esse acordo. Portanto, o perigo não surge instantaneamente. O perigo surge mais tarde.

O governo dos EUA não paga dívidas antigas com dinheiro economizado. Ele paga dívidas antigas emitindo novas dívidas. Chama-se a esse processo ‘rolagem da dívida’, que ocorre constantemente porque os EUA têm déficits orçamentários permanentes.

Todos os anos, enormes quantidades de títulos dos EUA vencem. Quando isso acontece, Washington tem de voltar ao mercado e pedir novos empréstimos. Se as taxas de juro estiverem mais altas nesse momento, o custo dos empréstimos aumenta automaticamente. É aqui que a influência da Europa se torna muito mais subtil do que uma venda dramática.

A Europa não precisa de se desfazer dos títulos dos EUA para causar danos. Basta apenas abrandar a procura futura. Se menos investidores aparecerem nos leilões de títulos, os rendimentos aumentam. Se os rendimentos aumentarem, os empréstimos futuros tornam-se mais caros. E esse custo mais elevado mantém-se durante anos. Com o tempo, os EUA acabam por substituir a dívida barata por dívida cara. O fardo cresce silenciosamente, de forma constante e implacável.

A inflação agrava ainda mais esta situação. Se a inflação permanecer elevada enquanto as taxas de juro são mantidas baixas por razões políticas, o valor real dos rendimentos das obrigações diminui. Os investidores podem continuar a receber pagamentos de juros, mas esse dinheiro compra menos a cada ano que passa. Os investidores estrangeiros preocupam-se muito com esta questão. Não se limitam a olhar para a taxa de juro. Analisam o valor desses juros após a inflação e as variações cambiais. É assim que a pressão aumenta sem manchetes. Sem colapsos repentinos. Sem anúncios dramáticos. Apenas um aperto lento que se torna impossível de escapar.

Por que o dólar e a Reserva Federal são tão importantes

Outra fraqueza crítica do sistema financeiro dos EUA é a confiança — especialmente a confiança nas suas instituições. Durante décadas, os investidores acreditaram que o Federal Reserve dos EUA era independente. As taxas de juro eram definidas com base na realidade económica, não na política. Essa crença era a base da confiança global nos títulos dos EUA.

Quando essa crença enfraquece, tudo o resto se segue. Os ataques à independência da Reserva Federal são, portanto, extremamente prejudiciais. Se os mercados começarem a pensar que as taxas de juro estão a ser ajustadas para se adequarem às eleições, em vez de à inflação, os investidores reavaliam o risco.

O dólar americano desempenha um papel central neste cálculo. Os títulos dos EUA são cotados em dólares, mas os investidores estrangeiros medem os retornos nas suas próprias moedas. Se o dólar enfraquece, o valor dos títulos dos EUA cai para eles, mesmo que os pagamentos de juros continuem normalmente.

Imaginem agora um cenário em que várias coisas acontecem ao mesmo tempo. O dólar enfraquece devido à instabilidade política ou às guerras comerciais. A inflação aumenta porque as tarifas aumentam os custos. Ao mesmo tempo, é exercida pressão política para manter as taxas de juro baixas, a fim de apoiar o crescimento ou ganhar eleições. Nessa situação, os títulos dos EUA tornam-se muito

íssimo pouco atraentes para os investidores estrangeiros. Eles são pagos numa moeda em desvalorização. A inflação corrói os retornos. E as taxas de juro não compensam o risco.

No fundo, isso não requer um ataque coordenado. Não exige que a Europa «puna» os EUA. Requer apenas que os investidores ajam racionalmente. É por isso que a maior ameaça ao mercado de títulos dos EUA não é a traição, mas a perda de apelo. Quando os investidores deixam de ver os títulos do Tesouro dos EUA como o lugar mais seguro para aplicar o seu dinheiro, a procura diminui naturalmente. Os leilões tornam-se mais difíceis. Os custos dos empréstimos aumentam ainda mais. A confiança é abalada. E, uma vez perdida a confiança, é extremamente difícil reconstruí-la. Este é o perigo silencioso que Washington enfrenta. Não um colapso repentino, mas uma lenta erosão da confiança impulsionada por escolhas políticas.

Por que a Europa ainda não o fez?

Se a Europa tem esse poder, por que não o utilizou? Porque essa arma é extremamente perigosa — mesmo para quem a empunha. Em primeiro lugar, a maioria dos ativos norte-americanos detidos por europeus não é controlada pelos governos. Pertencem a fundos de pensões privados, bancos e investidores. Obrigá-los a vender exigiria uma intervenção governamental extrema e poderia provocar o caos na própria Europa. Em segundo lugar, uma venda massiva prejudicaria financeiramente a Europa. Vender obrigações rapidamente significa vendê-las a baixo preço. Isso afetaria diretamente as pensões, as poupanças e a estabilidade financeira europeias. Em terceiro lugar, e mais importante, os sistemas financeiros dos EUA e da Europa estão profundamente interligados.

A crise financeira de 2008 provou isso. Embora a crise tenha começado nos EUA, os bancos europeus foram ainda mais afetados porque dependiam do financiamento em dólares. Na verdade, a Reserva Federal forneceu discretamente um enorme apoio de liquidez aos bancos europeus para impedir o colapso do sistema. Um colapso do mercado do Tesouro dos EUA não se limitaria às fronteiras americanas. Afetaria a Europa, a Ásia e os mercados emergentes de uma só vez. É por isso que os economistas comparam uma venda massiva a um ataque nuclear. Todos perdem.

A maneira mais inteligente: pressão lenta, não explosão

A Europa não precisa de destruir o sistema para prejudicar os EUA. A pressão silenciosa funciona melhor. Uma opção é a venda lenta. Instituições públicas europeias, como fundos de pensões e fundos soberanos, podem reduzir gradualmente a sua exposição à dívida dos EUA. Mesmo pequenas mudanças, ao longo do tempo, podem elevar os custos dos empréstimos dos EUA. Outra opção reside na regulamentação. Se o Banco Central Europeu decidir que os títulos do Tesouro dos EUA já não são «livres de risco», os bancos serão obrigados a deter menos títulos. Isso reduziria a procura sem qualquer anúncio dramático.

Depois, há a alavanca mais poderosa de todas: as ações. Os europeus adoram ações americanas. O S&P 500 beneficiou enormemente do dinheiro europeu. Se a Europa incentivar os investidores a transferir o dinheiro de volta para casa — através de incentivos fiscais ou medidas políticas — Wall Street sentirá imediatamente o impacto. Numa altura em que os mercados bolsistas dos EUA já parecem caros e frágeis, mesmo uma retirada parcial da Europa poderia desencadear uma correção acentuada. E, ao contrário dos títulos, as dificuldades do mercado de ações prejudicam politicamente. Os americanos ricos votam. Os reformados reclamam. A confiança desmorona rapidamente.

Por que a estratégia de Trump é arriscada

Trump acredita que a Europa não tem escolha. Militarmente, ele está parcialmente certo. A Europa ainda depende das armas, das informações e da proteção nuclear dos EUA. Mas o poder financeiro funciona de maneira diferente.

O capital não gosta de caos. Não gosta de imprevisibilidade. Quando a confiança desaparece, o dinheiro sai silenciosamente no início — e depois de repente. As ameaças tarifárias de Trump, os seus ataques aos aliados e o seu tratamento da Europa como subordinada estão lentamente a minar a confiança que mantém os mercados americanos fortes. A Europa não precisa de anunciar retaliações. Os mercados irão percebê-las antes de qualquer conferência de imprensa.

O verdadeiro problema da Europa: não confia em si mesma

A principal razão pela qual a Europa não utilizou a sua arma definitiva não é o medo dos EUA. É o medo da divisão interna. A Europa está fragmentada. Os interesses nacionais entram em conflito. A dependência energética, a fraqueza militar e a instabilidade política limitam ações ousadas. Nenhum líder europeu quer ser culpado por desencadear uma crise financeira global.

Mas algo importante mudou. O tabu desapareceu. O que antes era impensável agora é discutido abertamente nos círculos políticos e nos media financeiros. Mesmo pequenas ações — como os fundos de pensão dinamarqueses reduzirem a exposição ao dólar — enviam sinais. E os sinais são importantes nas finanças.

A arma que funciona sem ser disparada

A Europa não precisa levar os EUA à falência. O verdadeiro poder reside neste simples facto: Washington sabe agora que a Europa poderia desestabilizá-la financeiramente se fosse pressionada em demasia. Esse conhecimento, por si só, altera o comportamento. Introduz cautela. Limita a arrogância. Esta é a arma definitiva da Europa — não tanques ou mísseis, mas propriedade e paciência.

Se os EUA continuarem a tratar a Europa como dispensável, essa arma não desaparecerá. Ela ficará ainda mais afiada. E, na política global, o momento mais perigoso não é quando o poder é usado, mas quando o outro lado percebe que ele não é mais intocável.