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domingo, 31 de maio de 2026

EUA: ESGOTOS NÃO TRATADOS CONTAMINAM RIO POTOMAC

Em 16 de fevereiro, em Cabin John, Maryland, tubagens desviam águas residuais não tratadas para o Canal C&O, contornando uma secção danificada do coletor do Potomac. Crédito: Chip Somodevilla/Getty Images

Em janeiro, um cano de esgoto com 60 anos, conhecido como «Potomac Interceptor», que percorre a margem do rio Potomac no estado de Maryland, ruiu perto do corredor da Clara Barton Parkway, no distrito de Montgomery, derramando cerca de 243 milhões de galões de esgoto não tratado para o rio Potomac durante aproximadamente três semanas. Mas mesmo antes desse derrame, outra crise já tinha começado a desenrolar-se noutro local da bacia hidrográfica. Na Base Conjunta Andrews, no distrito de Prince George, uma falha no sistema de combustível a 11 de dezembro levou à entrada de milhares de galões de combustível de aviação na nascente do Piscataway Creek, um afluente que desagua diretamente no Potomac. A fuga continuou durante meses antes de as autoridades reguladoras estaduais terem sido notificadas. Com mais de 400 milhas de extensão, o rio Potomac é fonte de água potável para mais de 5 milhões de pessoas na área metropolitana de Washington, D.C. Em abril, a American Rivers, uma organização sem fins lucrativos dedicada à conservação, nomeou-o o rio mais ameaçado do país. Fonte.

BICO CALADO

PORQUE É QUE A ONU NÃO SANCIONA ISRAEL?

Cartoon: Carlos Latuff

Se a Carta das Nações Unidas prevê sanções, suspensões e até expulsão de Estados que violem persistentemente o direito internacional, porque razão Israel continua imune a medidas concretas apesar das sucessivas acusações, resoluções ignoradas e denúncias internacionais acumuladas ao longo de décadas?

A resposta curta é brutalmente simples: porque a ONU não funciona apenas pelo direito. Funciona sobretudo pelo poder.

A Organização das Nações Unidas nasceu da promessa de que existiriam regras universais aplicáveis a todos os Estados. A própria Carta das Nações Unidas prevê mecanismos claros para agir contra países que violem os princípios fundamentais do sistema internacional. E esses mecanismos já foram utilizados.

– A Coreia do Norte sofreu pesadas sanções internacionais por programas nucleares e ações consideradas ameaças à paz.
– O Irão enfrentou bloqueios económicos e restrições financeiras durante anos.
– O Iraque foi alvo de sanções devastadoras após a invasão do Kuwait.
– A Líbia sofreu medidas coercivas em vários períodos.
– A Rússia foi alvo de múltiplas sanções internacionais após a anexação da Crimeia e a invasão da Ucrânia – ainda que muitas delas tenham sido aplicadas fora do quadro formal da ONU devido ao veto russo.

Ou seja: os mecanismos existem. Já foram usados. E continuam disponíveis. Então porque não são aplicados a Israel? Porque Israel possui aquilo que, na prática, vale mais do que qualquer artigo da Carta da ONU: proteção geopolítica.

Desde há décadas, os Estados Unidos utilizam o poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas para bloquear resoluções mais duras contra Israel. Esse apoio não nasce apenas de afinidades históricas ou políticas internas americanas. Israel é visto por Washington como um aliado estratégico fundamental no Médio Oriente.

E aqui reside a maior contradição da ONU: o direito internacional aplica-se plenamente aos países sem poder suficiente para o evitar. A partir do momento em que uma potência com direito de veto decide proteger um aliado, a capacidade coerciva das Nações Unidas fica praticamente neutralizada.

Isto não significa que Israel não enfrente condenações internacionais. Muito pelo contrário. Ao longo dos anos, Israel foi alvo de inúmeras resoluções da ONU relacionadas com: ocupação de territórios palestinianos; expansão de colonatos; uso desproporcional da força; bloqueios; operações militares em Gaza; violações de direitos humanos; e incumprimento de resoluções internacionais.

O problema é que grande parte dessas resoluções não possui força executiva efetiva sem aprovação coerciva do Conselho de Segurança.

Entretanto, a tensão entre Israel e a ONU atingiu níveis quase sem precedentes. A recente decisão israelita de cortar relações institucionais com António Guterres não surgiu do vazio. Ela está profundamente ligada ao agravamento do confronto político entre o governo israelita e as estruturas das Nações Unidas.

Um dos pontos mais sensíveis foi o recente relatório anual apresentado ao Conselho de Segurança, no qual a ONU incluiu forças de segurança israelitas numa lista de partes acusadas de violência sexual em contexto de conflito armado – informação divulgada por vários meios internacionais, incluindo o jornal israelita Haaretz.

Para Israel, essa inclusão foi interpretada como uma tentativa de criminalização política do Estado israelita e das suas forças armadas. Para os críticos de Israel, pelo contrário, trata-se apenas da aplicação de critérios que a ONU já utilizou relativamente a outros conflitos e outros países.

Mas o episódio expôs algo ainda mais profundo: a rutura crescente entre Israel e instituições internacionais que passaram a questionar abertamente a condução da guerra em Gaza e o impacto humanitário das operações militares.

A questão central, porém, permanece intacta. Se outros Estados foram sancionados por violações persistentes da Carta das Nações Unidas, porque não Israel?

A resposta é desconfortável para as políticas ocidentais porque desmonta parte do idealismo sobre o qual a ONU foi construída: a igualdade jurídica entre Estados nunca resistiu completamente à realidade da hierarquia do poder internacional. Na teoria, a Carta das Nações Unidas é universal. Na prática, a sua aplicação depende demasiadas vezes de quem protege quem.

E enquanto esse sistema existir, haverá sempre países punidos pela força do direito… e países protegidos pela força da geopolítica dos mais poderosos.

E é por isso que a ONU está tão desacreditada. É, aliás, como se nem existisse. Fosse simplesmente inútil.

LEITURAS MARGINAIS

NRP MONDEGO E GOUVEIA E MELO: O NAUFRÁGIO IMINENTE

Militares tinham sido acusados do crime de desobediência durante o mandato de Gouveia e Melo como chefe do Estado-Maior da Armada. Foto: Homem De Gouveia/Lusa/RR

Há uns dias, alguma Comunicação Social deu conta pública de partes de um relatório pericial elaborado por um perito civil independente, nomeado pelo Tribunal, no âmbito de um dos processos-crime instaurados pelo almirante Gouveia e Melo contra 13 militares do NRP Mondego, devido aos acontecimentos da noite de 11 de Março de 2023.

Sob o título, aliás absolutamente certeiro, “Perícia ao navio NRP Mondego desmente Gouveia e Melo”, tais notícias deram a conhecer que, segundo o relatório pericial civil e independente da autoria de um perito da empresa Navaltik Portugal – Marine Surveyors and Consultants, o Mondego apresentava, de facto, “um estado generalizado de degradação com impacto directo na segurança”, pois acumulava “deficiências” que “comprometiam gravemente a segurança e a operacionalidade do navio”: “o motor de bombordo encontrava-se inoperacional”, “ambos os motores excediam largamente as horas limite de manutenção”, havia “alagamentos em compartimentos inferiores”, “o sistema de energia elétrica operava sem margem de segurança”, e, no sistema de combate a incêndios, verificava-se que “as respetivas bombas funcionavam fora dos parâmetros de manutenção, reduzindo a capacidade de resposta em emergência”. Acresce que o navio “tinha apenas um radar operacional” e o seu casco apresentava vários danos e “fissuras”.

Ora, com base na detecção destas graves deficiências, além de inúmeras outras que não foram divulgadas, o perito civil independente contrariou, no seu relatório pericial, toda a narrativa construída desde logo pela Marinha e por quem a chefiava, o almirante Gouveia e Melo. O mesmo que chegou a afirmar, recorde-se, que “a Marinha não manda navios para o mar quando consideramos que esses navios têm algum risco para as guarnições”, atestando, com meridiana clareza, que o NRP Mondego, à data dos factos, apresentava “um estado generalizado de degradação estrutural e funcional, com impacto directo na segurança”.

Em suma, mesmo aquilo que agora se ficou a conhecer apenas parcialmente do citado relatório confirmou mais do que suficientemente tudo quanto, desde o início, os militares atacados e acusados por Gouveia e Melo têm sempre alegado, ou seja, que o NRP Mondego apresentava múltiplas e graves avarias e limitações técnicas, as quais comprometiam decisivamente não só o cumprimento de qualquer missão, como também a segurança do pessoal e a salvaguarda do próprio navio.

Todavia, com a investigação do processo a ser feita pela Polícia Judiciária Militar (que definiu, logo à partida, os crimes pelos quais os militares teriam de ser acusados e condenados, incluindo, pasme-se, o de “cobardia”, entretanto anulado pelo Tribunal) e com o Ministério Público a andar a reboque da mesma PJM e da própria Marinha, designadamente com um “assessor militar” a guiar-lhe os passos, e tal como também os militares do Mondego logo denunciaram, Gouveia e Melo pôde assim tratar, primeiro e logo a seguir aos factos, de fazer seguir por via aérea e apressadamente para a Madeira, onde o Mondego se encontrava, materiais e peças que permitissem intervenções e reparações imediatas no navio. Depois, pôde tratar do seu “lavar de cara”, para de seguida chamar a Comunicação Social amiga para filmar o seu interior, bem como entrevistar o comandante, que asseguraria que o navio estava “100% operacional”.Entretanto, foram também enviados militares da Direcção de Navios, isto é, da hierarquia da Marinha e subordinados de Gouveia e Melo, para elaborarem um documento que convenientemente declarasse a “verdade oficial” do almirante: que o NRP Mondego estaria em condições de partir para a suposta missão.

Tudo culminou no famigerado e indigno “auto-de-fé” perpetrado por Gouveia e Melo na manhã de 14 de Março de 2023 com todos os militares, superiores e inferiores hierárquicos, formados diante de si, na cobertura do navio, com altifalantes colocados para o exterior e a imprensa chamada para filmar e gravar a pública e humilhante reprimenda então aplicada, de dedo espetado, por Gouveia e Melo. Os militares foram, assim, repugnante e caluniosamente apresentados a todo o País como amotinados, cobardes e irresponsáveis.

Mais tarde, e tal como também já foi publicamente denunciado, ainda na fase de inquérito (dirigido pelo Ministério Público sob os “conselhos” da Marinha e de um seu “Assessor”) surgiu no processo, de surpresa e à revelia dos arguidos, um muito conveniente pseudo-relatório, no mesmo sentido do documento dos supra-citados “especialistas” da Marinha, elaborado por uma senhora que ocultou nos autos a sua qualidade de oficial da Armada no activo. Depois, veio a constatar-se que não só recebeu pagamento por tão brilhante “obra”, em completa violação do respectivo estatuto, como a realizou sem sequer ter posto um pé no próprio navio que deveria examinar.

Como se vê, até aqui tudo parecia correr de feição a Sua Excelência o Senhor Almirante e à por ele tão desejada, e por ele previamente e estrondosamente anunciada, condenação dos marinheiros do NRP Mondego.

Mas quando o processo saiu do controlo da superior hierarquia da Marinha e de quem a ela se quis aliar, passando para o domínio de um Tribunal e para a área da sua competência jurisdicional, a verdade começou finalmente a vir ao de cima: um perito civil independente, nomeado já na fase de instrução pela juíza de instrução criminal, e após vários meses de dificuldades e dilações produzidas pela Marinha, elaborou um autêntico e fundamentado relatório pericial, que põe a claro o estado catastrófico e de grave risco em que o navio Mondego realmente se encontrava, com enorme risco para o navio, para a sua tripulação e até para o Ambiente, resultado da responsabilidade dos dirigentes da Marinha e, logo, do seu responsável máximo, ou seja, o então Chefe do Estado-Maior da Armada, Gouveia e Melo.

Ora, a reacção deste a esta notícia e ao que ela revelou não podia ser mais esclarecedora daquilo que, lamentavelmente, sempre foi a sua postura: primeiro, não assumir responsabilidades pelo que de errado pudesse suceder na Marinha; depois, quando tais responsabilidades se tornavam irrefutáveis, lançá-las para cima dos subordinados; e, sempre, tentar impor, pela razão da sua força hierárquica, a sua “verdade oficial”, por mais falsa que ela fosse.

Foi assim que Gouveia e Melo, com toda aquela sua conduta, pôde violar, de forma tão ostensiva quanto impune, os seus mais elementares deveres, desde logo disciplinares. Violou o dever de tutela, previsto no artigo 15.º do Regulamento de Disciplina Militar (RDM), que estabelece o dever de zelar pelos interesses dos subordinados; o dever de lealdade, previsto no artigo 16.º, n.º 2, alínea b), do RDM, que estatui o dever de respeitar e agir com franqueza e sinceridade para com os subordinados; e o dever de correcção, previsto no artigo 23.º, n.º 2, alíneas b) e g), do RDM, que impõe os deveres de não se referir a outros militares por qualquer forma que denote falta de respeito e de não advertir qualquer militar na presença de militares de graduação inferior.

Mas a verdade é que Gouveia e Melo violou também, aliás, em directo e para todo o País, falando para as televisões e para a demais Comunicação Social, o segredo de Estado, ao revelar publicamente qual seria a suposta missão do NRP Mondego: seguir um navio russo, o Akademik Tryoshnikov. Só que Gouveia e Melo ocultou que tal navio se encontrava, à data dos factos, a dezenas de milhas a norte da ilha do Porto Santo e se deslocava a uma velocidade de cerca do triplo daquela que o Mondego, com todas as suas várias deficiências e avarias, designadamente com apenas um motor operacional, poderia desenvolver. Assim, enquanto a PJM e o Ministério Público ficavam à porta do gabinete do então Chefe do Estado-Maior da Armada, nada fazendo para apurar estas responsabilidades, Gouveia e Melo pôde ir repetindo e impondo a sua falaciosa, e de todo inverídica, versão dos factos.

O primeiro e violento rombo na nau desta versão ocorreu quando o Supremo Tribunal Administrativo, na impugnação judicial dos processos disciplinares instaurados, dirigidos e decididos por Gouveia e Melo, declarou, sem margem para quaisquer dúvidas, a existência de graves e múltiplas violações de direitos fundamentais dos militares arguidos, bem como de princípios essenciais e constitucionais, e, em consequência, anulou as sanções por aquele aplicadas aos militares do Mondego.

Logo então Gouveia e Melo mostrou bem quais são as normas, não só jurídicas como também éticas, por que se move. De imediato, tratou, por um lado, de invocar –falsamente – que as decisões anuladas não eram suas, mas de um seu subordinado, o Comandante Naval; e, por outro, de desdenhar da decisão jurisdicional daquele Tribunal Supremo, proclamando que as razões do seu acórdão se reportariam, afinal, a meras “formalidades”.

Agora, perante o relatório pericial civil e independente da autoria de um perito da empresa Navaltik, e completamente furioso e mesmo desesperado com o desmascaramento da sua narrativa oficial, tratou de depreciar publicamente o referido perito e a empresa a que este pertence, tentando fazer passar a ideia de que ambos nada perceberiam da matéria de navios militares. Como se os princípios da engenharia e da arquitectura naval não se aplicassem a todos os navios. Como se muitos dos seus sistemas e equipamentos, desde logo os motores de propulsão, os motores auxiliares, os grupos electrogéneos, os sistemas eléctricos e electrónicos, entre outros, não fossem da mesma tipologia, ou de tipologia idêntica, nuns e noutros navios. Como se os padrões mínimos de operacionalidade, mesmo dos navios de guerra, não existissem e não constassem até de documentos públicos, como o Naval Ship Code, da NATO, acessível inclusive na Internet e conhecido pela denominação ANEP-77. E, enfim, como se a Navaltik não fosse uma empresa de consultadoria e peritagem naval com 35 anos de existência, cerca de 4.500 perícias efectuadas em 30 anos e entre 50 e 150 avaliações de navios por ano. Uma empresa certificada ISO 9001:2015 pela Lloyd’s RegisterQuality Assurance e que tem como clientes ou referências entidades como administrações portuárias, companhias e grupos seguradores, companhias de navegação, estaleiros navais (como os da Figueira da Foz, de Peniche e de Viana do Castelo, onde estão a ser construídos seis NPO – Navios Patrulha Oceânicos, para a Marinha Portuguesa), sociedades e armadores de pesca atlântica e diversos departamentos governamentais estrangeiros e nacionais, como a Secretaria de Estado das Pescas.

Todo este desesperado desnorte do almirante Gouveia e Melo já não significa apenas incompetência e arrogante negligência na apreciação do “iceberg” da verdade de que, pelas suas condutas, o navio da sua “verdade oficial” se foi aproximando cada vez mais. Significa agora, e mais do que nunca, que, do alto da sua arrogância, e dos tempos de antena de que ainda vai dispondo, ele já não consegue sequer “destrancar” o leme e deixar de navegar, à velocidade máxima, para a frontal e definitiva colisão contra esse mesmo iceberg.

sábado, 30 de maio de 2026

CENTROS DE DADOS: OCULTAÇÃO DO IMPACTO AMBIENTAL É ILEGAL

  • Trinta e cinco membros do Parlamento Europeu instaram a Comissão Europeia a revogar uma cláusula de confidencialidade «ilegal» que oculta o impacto ambiental de centros de dados específicos. Os eurodeputados denunciaram a Comissão por ceder ao lóbi da indústria. Acusam a Comissão de violar as regras de acesso do público à informação ao alterar uma lei destinada a trazer transparência a um setor em rápida expansão. Fonte.
  • Lítio no Barroso: Savannah pagou à GNR para proteger a mina. Fonte.

BICO CALADO

Ronen Tivony/NurPhoto/Shutterstock

Um juiz de Delaware — um estado com mais empresas registadas do que habitantes — decidiu a favor de uma pequena cidade que permite que as empresas votem nas eleições locais. O juiz Craig Karsnitz, do Tribunal Superior de Delaware, decidiu que a cidade de Fenwick Island, com 400 habitantes, não violou a Constituição estadual ao permitir que entidades empresariais — que representam 12% da «população» da cidade — votassem nas eleições municipais. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A ASCENSÃO DO SUL GLOBAL
Chris Hedges, BNW. Revisão O’Lima.

Hubris Gargantua – by Mr. Fish

A humilhante derrota de Israel e dos EUA na sua guerra contra o Irão, a par da brutalidade do genocídio em curso em Gaza, está a dar início a uma nova ordem mundial. Esta ordem é aquela em que as vozes da razão e da estabilidade emanam não do Ocidente — que gastou dezenas de milhares de milhões de dólares a sustentar o genocídio de Israel — mas do Sul Global, incluindo a China. É uma ordem em que as alianças estão a ser rapidamente reconfiguradas para proteger os países de um Estado americano desregrado que ataca como um animal ferido, à medida que entra numa espiral de declínio terminal.

O fim do Império dos EUA, liderado por um Donald Trump impetuoso e desorientado, é irreversível. Os EUA perderam a sua sexta guerra no Médio Oriente em 25 anos. O poder do Irão foi reforçado não só porque — juntamente com Omã — controla o Estreito de Ormuz — por onde passam cerca de 25% do petróleo transportado por via marítima e 20% do gás natural liquefeito transportado por via marítima — mas porque enviou uma mensagem clara, com os seus drones e mísseis, aos aliados e bases dos EUA na região, ao mesmo tempo que lançou a economia global numa espiral descendente.

Trump e o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu — que, segundo consta, seduziram Trump para a guerra com visões dignas de «Alice no País das Maravilhas» de uma mudança de regime fácil no Irão, na sequência dos ataques de decapitação contra o país em 28 de fevereiro de 2026, que incluíram o assassinato do líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, e de outras figuras políticas e militares, juntamente com 168 crianças em idade escolar e os seus professores — podem atacar o Irão novamente. Estão desesperados. Mas um novo bombardeamento do Irão não vai funcionar. A estratégia de defesa em mosaico do Irão garante que todos os comandantes políticos e militares sejam facilmente substituídos.

O Irão pode estrangular a economia mundial fechando o Estreito de Ormuz. Pode acelerar o sofrimento fazendo com que os seus aliados iemenitas — Ansar Allah — fechem o Estreito de Bab el-Mandeb no Mar Vermelho, tal como fizeram com os navios com destino a Israel ao defenderem os palestinianos após 7 de outubro. Isto poderia resultar num bloqueio total. A Arábia Saudita, com o Estreito de Bab el-Mandeb aberto, consegue contornar o Estreito de Ormuz e exportar cinco milhões de barris por dia através do seu oleoduto para os petroleiros no porto de Yanbu, no Mar Vermelho.

Se não for alcançado em breve um cessar-fogo entre os EUA e o Irão, a economia global entrará em colapso, talvez dentro de poucas semanas. Os EUA e os seus aliados, como o Japão, libertaram parte das suas vastas reservas estratégicas de petróleo; no entanto, não conseguirão amortecer o impacto nos mercados indefinidamente. Os níveis das reservas da Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA estão próximos dos mais baixos registados em mais de 40 anos. Assim que estas reservas se esgotarem, o preço dos combustíveis disparará. Se o barril de petróleo disparar para 200 dólares, o preço na bomba poderá subir até aos 10 dólares por galão. Isto, aliado à escassez de outros produtos derivados do petróleo, juntamente com fertilizantes azotados, alumínio e hélio — um elemento indispensável na produção de máquinas de ressonância magnética e semicondutores —, já está a paralisar indústrias vitais e a fazer subir os preços dos produtos básicos.

O Banco Mundial prevê um aumento de 31% apenas no custo dos fertilizantes nitrogenados — que são produzidos no Golfo Pérsico e transitam pelo Estreito de Ormuz — se a guerra continuar. Isto significará um aumento acentuado no preço dos alimentos.

Trump é como um cão que está a ser empurrado contra a sua vontade para dentro de uma caixa de transporte. Quando parece que um acordo com o Irão está próximo, ele rosna e ladra, sabotando o acordo de cessar-fogo proposto para um período de 30 a 60 dias. As reações histéricas de Netanyahu a qualquer acordo que ponha fim aos ataques israelitas contra o Líbano, juntamente com a potencial libertação de parte dos cerca de 100 mil milhões de dólares em ativos congelados do Irão, estimulam a rebeldia momentânea de Trump.

Mas o tempo está a esgotar-se. Resta pouco tempo. E quanto mais Trump esperar, pior ficará a situação. Nem Trump, nem Netanyahu, são os mestres deste jogo. O Irão tem as cartas na mão.

O sonho de Israel de formalizar a sua hegemonia sobre o Médio Oriente, codificado nos Acordos de Abraão durante o primeiro mandato de Trump — que normalizaram as relações entre Israel e os Estados da região — está morto. Esta guerra e o genocídio em Gaza acabaram com ele.

Trump está a tentar ressuscitá-los, inserindo-os num acordo para pôr fim à guerra contra o Irão. Exigiu que Estados anteriormente não envolvidos nos Acordos de Abraão, como o Paquistão e, eventualmente, o Irão, aderissem para normalizar as relações com Israel. O Paquistão — o único Estado a responder publicamente — rejeitou o convite devido ao que designou como um conflito com as «ideologias fundamentais» do país. Todos os outros Estados a quem Trump apelou reagiram com um silêncio perplexo.

O Irão exige o levantamento das sanções e o fim do bloqueio naval — que, segundo a CIA, o Irão pode suportar durante meses antes de enfrentar graves dificuldades económicas — em troca da reabertura do Estreito de Ormuz. O acordo proposto não faz qualquer referência ao arsenal de mísseis balísticos do Irão, que, segundo o «The New York Times», as autoridades militares e de inteligência dos EUA acreditam que se mantém a 70 % dos níveis pré-guerra.

O Irão, o Paquistão, a Turquia e o Catar — um dos principais negociadores com o Hamas — são os novos atores de poder na região.

O Paquistão não só assinou um pacto de defesa mútua com a Arábia Saudita em 2025, como também enviou tropas, jatos e sistemas de defesa aérea para a ditadura do Golfo em abril. Tem também vindo a acolher as negociações de cessar-fogo entre a dupla de negociadores principais de Trump, «Dumb and Dumber» — o seu genro incompetente Jared Kushner e o seu colega promotor imobiliário e parceiro de golfe, Steve Witkoff.

A guerra reforçou o prestígio e o poder da China, que, em comparação com Washington, é vista a nível mundial como a personificação de uma liderança racional, prudente e estável. O Irão, num sinal da nova ordem mundial, permite que petroleiros chineses e paquistaneses, juntamente com outros navios não aliados a Israel e aos EUA, atravessem o estreito.

Israel, incapaz de convencer os EUA a fazer o seu trabalho sujo de bombardear o Irão até transformá-lo num Estado falhado, irá, prevejo eu, atacar com renovada fúria contra Gaza, talvez ocupando os restantes 30% do que resta do território sitiado. Continuará a sua política semelhante à de Gaza de transformar em escombros todas as estruturas a sul do rio Litani, no Líbano, que bombardeia diariamente, apesar de o Irão afirmar que os ataques ao Líbano violam o atual acordo de cessar-fogo.

A selvajaria e a fanfarronice de Trump – ele ameaçou «explodir» Omã se este não «se comportasse» após relatos de que Omã cobrava portagens em conjunto com o Irão aos navios que passavam pelo Estreito de Ormuz – não conseguem mascarar a impotência dos EUA. A recusa dos aliados dos EUA em atender ao apelo de Trump para o ajudar a reabrir o Estreito, juntamente com a miséria económica que se abateu sobre nações que lutam para lidar com a escassez e o aumento dos custos dos fornecimentos de energia e fertilizantes, são provas evidentes do estatuto de pária de Washington.

Os impérios, cegos pelo mito da sua própria omnipotência e superioridade militar, cometem erros fatais nas fases finais de conflitos, sem compreenderem para onde se dirigem. Afastam os seus aliados. Passam de um fiasco militar para outro, tal como os EUA têm feito há mais de duas décadas no Médio Oriente.

O Império Britânico, em 1956, já em declínio vertiginoso, foi humilhado quando conspirou com a França e Israel para tomar o Canal do Suez, que Gamal Abdel Nasser tinha nacionalizado. Os EUA obrigaram os três países a interromper a invasão. A libra esterlina britânica deu lugar ao petrodólar. Isso marcou o último capítulo do Império Britânico.

A guerra contra o Irão é a Crise de Suez de Washington.

Isto pode não ser o fim do Império Americano, mas é o início do fim.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

REFLEXÃO

A ROLAGEM DE ÁRVORES DÁ-LHES FORÇA?

Tavira. Amigo doAlgarve.

Depois de uma poda drástica, a árvore costuma rebentar com uma força impressionante. Mas o que muitos interpretam como "pujança" e "vitalidade" é, na verdade, um grito de desespero e um mecanismo de sobrevivência.

​Quando despimos uma árvore dos seus ramos e folhas, retiramos-lhe a capacidade de fazer fotossíntese. Ela entra em modo de emergência e gasta as suas últimas reservas de energia para produzir rapidamente novos ramos (chamados ramos epicórmicos) para não morrer à fome.

​O problema? A ilusão da "pujança" esconde dois perigos graves:

​Ramos "colados com cuspo": Estes novos ramos crescem muito rápido, mas nascem na camada mais superficial da casca. Eles não têm a ligação estrutural profunda e sólida que os ramos originais tinham.

​Apodrecimento invisível: Os cortes brutais deixam feridas enormes que a árvore não consegue cicatrizar. Fungos e bactérias entram ali, apodrecendo o tronco por dentro.

​O resultado final: Daqui a uns anos, esses ramos novos tornam-se grandes, pesados e frondosos, mas estão presos a uma base podre e frágil. Ironicamente, a poda que foi feita para "dar segurança" cria uma árvore muito mais perigosa, com um risco altíssimo de queda de ramos grandes em dias de tempestade.

​A natureza é resiliente e tenta sobreviver a tudo, mas confundir rebentação de emergência com saúde é o maior erro da gestão urbana. Uma árvore podada com respeito e ciência não precisa de "ressuscitar" com pujança; cresce equilibrada, segura e saudável para todos nós.


BICO CALADO

Philip Jones/Alamy Live News
  • O Tribunal de Justiça da União Europeia proferiu dois acórdãos importantes que visam combater a utilização abusiva de trusts, nomeadamente no que diz respeito ao sigilo e à proteção de ativos. Fonte.
  • O pacote orçamental que o presidente dos EUA, Donald Trump, e os republicanos do Congresso aprovaram à pressa no verão passado já provocou uma redução em grande escala da assistência alimentar destinada a crianças de baixos rendimentos. Uma análise agora divulgada estima que mais de 700 000 crianças em doze estados perderam a ajuda alimentar federal desde que a lei do Partido Republicano entrou em vigor.
  • A IA está a tornar a linguagem jornalística mais repetitiva e previsível – e isso é um problema para todos nós. Xosé López-García e Cristian Augusto Gonzalez Arias, The Conversation.
  • 28 de maio de 1926: MADEIRA – 1.º CENTENÁRIO. Comemora hoje 1 século sem mudanças. Depois de 48 anos de partido único, seguiram-se 52 anos de um único partido. Carlos EsperançaAlegadamente associando-se à efeméride, o supremo Tribunal Administrativo decidiu confirmar a extinção da Fundação Berardo, o que pode significar a recuperação de 980 milhões.
  • A empresa militar responsável por um derrame químico no sul da Califórnia, que obrigou cerca de 50 000 pessoas a evacuar as suas casas durante o fim de semana, fabrica peças para caças F-35 que provavelmente se destinam a Israel. A fábrica da GKN Aerospace em Garden Grove, Califórnia, cujo tanque químico de 7.000 galões se rompeu na semana passada e ameaçou explodir, arrecadou mais de 13 milhões de dólares desde 2017 em subcontratos com a gigante da indústria militar Lockheed Martin. A Lockheed distribui subcontratos a centenas de empresas em mais de uma dúzia de países para ajudar a construir os caças. Entre elas está a GKN Aerospace Transparency Inc., a subsidiária da GKN sediada em Garden Grove, que arrecadou mais de 255 milhões de dólares em subcontratos com a Lockheed Martin. Fonte.

REFLEXÃO

A TRETA DO VOLTA
RiseUP Portugal.


O novo sistema de depósito de embalagens em Portugal, através do Programa Volta, está a gerar revolta por uma razão muito simples: transfere a responsabilidade ambiental e o custo financeiro diretamente para o bolso do cidadão.

A partir de agora, pagamos mais 10 cêntimos por cada garrafa de plástico ou lata, valor que só recuperamos se guardarmos a embalagem intacta e a devolvermos numa máquina.

Mas importa olhar para quem está no topo da cadeia de produção. Estamos a falar de colossos mundiais como a Nestlé, a Coca-Cola, a PepsiCo e a Danone. Só para dar uma ideia do volume financeiro envolvido, estas empresas registam lucros líquidos anuais absolutamente extraordinários à escala global. A Nestlé lidera o setor alimentar com lucros anuais na ordem dos 10,9 mil milhões de dólares. A Coca-Cola (Responsável por 11% de toda a poluição plástica mundial), e a PepsiCo dominam o mercado de bebidas acumulando, respetivamente, cerca de 10,6 mil milhões e 8,2 mil milhões de dólares de lucro líquido anual. A Danone fecha este grupo no topo dos laticínios e nutrição com lucros a rondar os 2 mil milhões de dólares por ano.

Diante destes números recorde, a pergunta impõe-se: por que razão se castiga o consumidor com uma espécie de taxa verde disfarçada em vez de se obrigar estas multinacionais a alterarem a sua forma de produção na origem?

Todos nós consumimos cerveja ou água em garrafas de vidro reutilizáveis no circuito de cafés e restaurantes. Esse vidro é recolhido, lavado, esterilizado e volta a entrar no mercado dezenas de vezes sem necessidade de ser destruído. É um sistema que funciona há décadas.

A reciclagem mecânica do plástico gasta quantidades brutais de energia e água, além de continuar a alimentar o ciclo de fabrico de novos polímeros. A verdadeira ecologia faz-se pela redução e pela reutilização, não pela criação de barreiras financeiras a quem compra.

NB - perspetivas complementares sobre este tema:

LEITURAS MARGINAIS

NEGÓCIOS SUJOS: A VERDADEIRA HISTÓRIA DO ESCÂNDALO DAS ÁGUAS RESIDUAIS NO REINO UNIDO
Tim Smedley, Medium. Revisão: O’Lima.

Bourton-on-the-Water. Foto: Martin Fenton, Unsplash

Ash tinha-se mudado para os Cotswolds para uma reforma tranquila, após uma carreira na polícia. Tinha sido polícia, mas não um polícia qualquer — era do tipo que investiga polícias corruptos, um verdadeiro DS Arnott da série «Line of Duty». Mas a reforma tranquila não durou muito tempo. Em 2015, ele e o seu vizinho, o professor da Universidade de Oxford Peter Hammond, descobriram que a estação de tratamento de águas residuais local, gerida pela Thames Water, estava a despejar ilegalmente águas residuais não tratadas no rio que atravessava a sua aldeia. Sendo bons cidadãos, denunciaram o caso à Agência do Ambiente (EA), que «investigou» devidamente. «Embora eu use esse termo de forma bastante vaga», disse-me ele. «A Thames Water “autoavaliou” que o impacto ambiental de terem despejado esgoto não tratado durante muitos anos era “baixo”. E a Agência Ambiental aceitou isso sem questionar e não tomou mais nenhuma medida.»

Isso irritou profundamente o Ash. O que foi um erro, porque, desde então, o Ash e o Peter fundaram a Windrush Against Sewage Pollution (WASP) e elevaram a poluição fluvial ao nível de escândalo nacional. A tal ponto que agora foi transformado numa minissérie de docudrama televisiva, Dirty Business, que foi transmitida pela primeira vez no Channel 4 no Reino Unido em fevereiro (2026) e está agora disponível para visualização em Video on Demand. Ash e Peter são interpretados pelos atores multipremiados David Thewlis (Harry Potter; The Sandman) e Jason Watkins (The Crown; e, por coincidência, Line of Duty).

Esquerda: «Dirty Business» já disponível em Vídeo a Pedido, com David Thewlis no papel de Ash Smith, de boné. Direita: o verdadeiro Ash Smith e o seu cão Archie, durante o nosso passeio em 2021 — foto do autor © Tim Smedley.

Antes de 2015, os tubos de escoamento que ligavam as estações de tratamento de águas residuais aos rios — conhecidos como descargas pluviais ou transbordamentos de esgotos combinados — nem sequer eram monitorizados. Posteriormente, a EA determinou que, até 2023, todos os transbordamentos deveriam estar equipados com «monitores de duração de eventos» para registar a frequência e a duração da sua utilização. A notícia tornou-se um escândalo em 2020, quando 70% dos escoamentos de águas residuais tinham monitores instalados e os dados ficaram disponíveis pela primeira vez. Revelou-se que, durante o ano anterior, as empresas de água na Inglaterra e no País de Gales tinham descarregado águas residuais não tratadas nos rios em mais de 200 000 ocasiões, num total combinado de mais de 1,5 milhões de horas. Isto foi um choque para muitos, incluindo para mim na altura, mas também uma subestimação enorme, com 30% dos escoamentos ainda por contabilizar.

Em 2021, quando Ash me mostrou o rio Windrush, os monitores de duração de eventos já cobriam mais de 80 % da rede, e a verdadeira dimensão do escândalo começou a tornar-se evidente. Era duas vezes pior do que se pensava. As empresas de água tinham descarregado esgoto não tratado em rios e águas costeiras na Inglaterra e no País de Gales mais de 400 000 vezes nesse ano, durante 3 milhões de horas. A Comissão de Auditoria Ambiental da Câmara dos Comuns, chocada, declarou no seu relatório de 2021–22: «… os rios em Inglaterra estão num estado deplorável. Um “cocktail químico” de esgoto, resíduos agrícolas e plástico está a poluir as águas de muitos dos rios do país. As empresas de água parecem estar a despejar esgoto não tratado ou parcialmente tratado nos rios de forma regular, violando frequentemente os termos das licenças que, no papel, só lhes permitem fazê-lo em circunstâncias excecionais.»

As «circunstâncias excecionais» deveriam incluir apenas chuvas intensas e tempestades, quando o sistema de esgotos misto ficava sobrecarregado. No entanto, essas circunstâncias excecionais estavam a ocorrer com uma frequência excecional. Ash e Peter chegaram mesmo a encontrar inúmeros exemplos de estações de tratamento a descarregar águas residuais não tratadas para os rios, mesmo quando não tinha chovido nada. Isto estava a acontecer em todas as empresas de abastecimento de água.

Dirty Business conta a história de como, após as políticas de austeridade do primeiro-ministro David Cameron e a «fogueira» de regulamentos de 2014, a Agência do Ambiente começou a reduzir, e acabou por eliminar por completo, as suas investigações sobre derrames de esgoto não tratado; em vez disso, introduziu a «automonitorização dos operadores» — as próprias empresas de águas residuais deveriam comunicar se tivesse ocorrido um derrame ilegal. Como era de esperar, poucas o fizeram.

Os problemas da Inglaterra remontam ao seu sistema único, em que empresas privadas de abastecimento de água receberam monopólios estatais. Antes de 1989, o abastecimento de água era de propriedade pública, tal como em todo o resto do mundo. Mas Margaret Thatcher pôs fim a isso. Em 1989, os ativos e o pessoal das dez autoridades de abastecimento de água que abrangiam a Inglaterra e o País de Gales foram transferidos para sociedades anónimas e cotados na Bolsa de Valores de Londres. Hoje, quase toda a gente na Inglaterra e no País de Gales recebe os seus serviços de água e esgotos dessas mesmas dez empresas de água e esgotos e de treze empresas exclusivamente de água. Cada uma tem o seu próprio feudo no mapa, sem concorrência, gerido com fins lucrativos privados; somos obrigados a subscrever o nosso fornecedor regional. A Lei da Água de 1991 também eliminou as restrições anteriores aos montantes financeiros que as empresas de água podiam contrair como empréstimos ou distribuir como dividendos aos acionistas. No entanto, para proteger os interesses dos clientes e do ambiente, a privatização foi acompanhada de supervisão regulatória, principalmente por parte da EA.

A privatização poderia ter funcionado, em teoria, se fosse acompanhada por uma regulamentação de mão de ferro. Em vez disso, o que tivemos foi uma abordagem de luvas de pelica; na verdade, sem luvas, apenas «de mãos livres», «à distância»… escolham o eufemismo baseado em membros que preferirem. Se se der às empresas privadas uma forma fácil de ganhar muito dinheiro, elas vão aproveitar — na verdade, é seu dever legal proporcionar o melhor retorno aos acionistas. Modernizar estações de tratamento de esgoto é caro; despejar esgoto não tratado num rio ou no mar com impunidade é barato. Só a regulamentação é que torna a água potável tratada e segura, e os rios limpos e saudáveis, importantes para as empresas de água detidas por conglomerados internacionais.

O Financial Times, tradicionalmente um defensor da privatização, constatou que o total de despesas de capital dos dez grandes monopólios do setor da água diminuiu 15 % desde a privatização, passando de 5,7 mil milhões de libras para 4,8 mil milhões de libras por ano: «Durante o mesmo período, as empresas — que foram vendidas sem dívidas e receberam 1,5 mil milhões de libras — contraíram empréstimos no valor de 53 mil milhões de libras, o equivalente a cerca de 2 000 libras por família. Grande parte desse montante foi utilizado não para novos investimentos, mas para pagar 72 mil milhões de libras em dividendos.» A empresa australiana de infraestruturas Macquarie foi proprietária da Thames Water entre 2007 e 2017, deixando-a com 2 mil milhões de libras de dívida, ao mesmo tempo que pagava aos seus investidores, de acordo com uma análise, em média entre 15,5% e 19% em dividendos por ano. Os jornais britânicos acusaram-na de desmantelamento agressivo de ativos, o que lhe valeu a alcunha de «o canguru vampiro». Mas a Macquarie não era um caso isolado — a sua conduta como proprietária de uma empresa de água era a norma, não a exceção. Na verdade, mesmo depois de a Macquarie ter deixado a Thames Water sobrecarregada de dívidas, em agosto de 2021 o governo aprovou uma aquisição de capital no valor de mil milhões de libras de uma das outras «10 grandes» empresas de água, a Southern Water, por nenhuma menos que, adivinhou, a Macquarie.

Como diz Hanna Swift, a denunciante da EA na série «Dirty Business» [aviso: os parágrafos seguintes contêm excertos da série], «as empresas querem ganhar dinheiro, [e] nós garantimos que não envenenem os rios ao fazê-lo». É assim tão simples. Ou, pelo menos, deveria ter sido. A capitulação da auto-monitorização foi seguida pela retirada dos carros da empresa ao pessoal de inspeção da EA, o que significou, na prática, que não tinham como comparecer e investigar incidentes de poluição; e uma ordem para pôr fim a todas as inspeções no local para eventos das categorias 3 e 4 (considerados de «baixo impacto», mas que poderiam, segundo os realizadores do programa, incluir até um derrame de esgoto de 3 quilómetros) e, em vez disso, «arquivar esses relatórios como infundados ou “deixá-los passar silenciosamente”».

«Nós [costumávamos poder] investigar, instaurar processos judiciais, fazer o que fosse preciso. Mas depois disseram às empresas que estas podiam autorregular-se», diz Hanna. Nesta altura do terceiro e último episódio, eu continuava a concordar com a cabeça; até então, tudo me era familiar, tal como as minhas próprias conclusões em The Last Drop. Mas «isso não é tudo», continua Hanna — ela própria uma personagem ficcionada baseada no denunciante da vida real Robert Forrester, que investigou internamente a EA durante sete anos. «Em 2021, Sir James aumentou os preços que as empresas de água pagavam pelas suas licenças», continua «Hanna». «Chamava-se “regulamentação financiada por taxas”. Recebemos 96 milhões de libras do governo. Agora estamos a arrecadar 411 milhões de libras com [estas] taxas… Estamos a nadar em dinheiro». Então, agora que nadam em dinheiro a partir de 2021, por que é que o escândalo do esgoto ainda continua, e muitos dos mesmos chefes das empresas de água não só não estão na prisão como continuam no comando?

Liguei ao Ash Smith em abril de 2026, dois meses após a exibição do programa «Dirty Business». Queria saber se tinha havido alguma repercussão legal na sequência das acusações feitas pelo programa contra as empresas de água e o governo. «Ninguém reagiu a nada disto», diz ele, secamente. «Interessante, não é? Porque sabemos que é tudo verdade. Se há algo a dizer, é que foi minimizado.» Pergunto-lhe por que razão acha que a EA, agora «a nadar em dinheiro», não voltou a investir e a regulamentar adequadamente os derrames de esgoto. «Porque diria que o Defra [o Departamento de Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do governo] lhes disse para não o fazerem. A política do Defra é que não se investigam os casos das categorias três e quatro.»

Anteriormente, sentia alguma simpatia pela EA devido aos severos cortes no financiamento público, e de facto cito Sir James Bevan a dizer «recebe-se a regulamentação pela qual se paga» no meu livro. Agora sabemos, graças ao WASP e ao Dirty Business, que a EA tinha, de facto, dinheiro para investigar, graças à sua lucrativa «regulamentação financiada por taxas». Mas agora a EA estava literalmente a soldo das empresas de água. Ash ri-se, dizendo que «recebes a regulamentação pela qual pagas» foi «uma formulação inteligente. Sim, recebes a regulamentação pela qual pagas, e quem é que paga? A indústria da água. Eles estão a receber a regulamentação pela qual pagam.»

A WASP também descobriu uma «porta giratória de emprego» entre as empresas de água e a Agência do Ambiente, tendo-se verificado que mais de 200 funcionários da EA eram acionistas de empresas de água. O principal diretor não executivo da Agência do Ambiente do Noroeste entre 2011 e 2017 era ele próprio acionista e, anteriormente, diretor de outra das «Big 10», a United Utilities. O próprio Bevan deixou a EA e juntou-se imediatamente ao conselho de administração da Welsh Water.

O maior choque e escândalo de todos em «Dirty Business», no entanto, é a história verídica de Heather Preen, de oito anos, que morreu duas semanas após contrair a bactéria E. coli em 1999. Para minha vergonha, eu não conhecia a sua história antes de ver o programa, e acompanhar o desenrolar dos acontecimentos ao longo da minissérie de três episódios foi profundamente comovente. Os realizadores do programa intercalam flashbacks da história de Heather e da sua família com as investigações mais recentes de Ash e Peter na WASP. Eu não sabia o desfecho — dei por mim a esperar que se tratasse apenas de uma doença grave. Quando ela morre nos braços dos pais, é devastador. Mas esta história humana, na sua forma mais crua, eleva o escândalo das águas residuais para além de noções abstratas de dividendos dos acionistas e supervisão regulatória. Trata-se, acima de tudo, de saúde pública. A nossa saúde. A vida dos nossos filhos.

Heather, de Birmingham, morreu no 12.º dia de umas férias em família em Dawlish Warren, Devon. A família tinha passeado pela praia e brincado na água, sem saber que se encontrava perto de um tubo de escoamento de águas residuais. Numa entrevista recente ao programa BBC Breakfast, após o lançamento de «Dirty Business», a mãe de Heather, Julie Maughan, afirmou: «A forma como a Heather morreu foi horrível — na verdade, ela foi envenenada. Pedi [aos realizadores do programa] para se certificarem de que transmitiam isso às pessoas… Senti-me realmente ouvida e compreendida — as cenas são tão sensíveis e poderosas.» Mark Preen, o pai enlutado de Heather, suicidou-se em 2016.

Ash informa-me que ele e Julie Maughan estão agora a trabalhar em conjunto com o objetivo de lançar uma investigação sobre a E. coli contraída a partir de esgotos na água.

A South West Water, empresa responsável pela rede de esgotos em Dawlish, emitiu uma declaração à BBC em resposta ao programa «Dirty Business», afirmando que «as circunstâncias relativas às infraestruturas de águas residuais e à regulamentação no final da década de 1990 eram muito diferentes das atuais» e alertando contra a «revisitação de acontecimentos históricos através da dramatização». No entanto, logo abaixo da notícia no site da BBC encontram-se duas manchetes recentes dos últimos dois anos: «E. coli em local de banhos 20 vezes acima dos padrões mínimos» — referindo-se a uma área da South West Water — e «Os derrames de esgotos nos rios e mares de Inglaterra por parte das empresas de água mais do que duplicaram no ano passado.» Só em 2024, a Surfers Against Sewage recebeu 1.853 relatos de doenças através da sua aplicação Safer Seas & Rivers Service — uma média de cinco pessoas a adoecer por dia.

O atual governo do Reino Unido afirma que a sua Lei de Medidas Especiais para a Água (2025) visa resolver o escândalo dos esgotos, reforçando a regulamentação, introduzindo penas de prisão para os executivos, proibindo bónus e permitindo multas mais rápidas e automáticas por poluição. Os ministros têm afirmado repetidamente que retirar as empresas de água da propriedade privada seria demasiado complexo e dispendioso. Em resposta, Ash afirma que a lei está em vigor há mais de um ano e não tem funcionado. «Continuam a contar com a poluição ilegal e não estão a cumprir o que a lei lhes exige. Nada mudou.» Quanto ao custo e à complexidade de devolver as empresas de água à propriedade pública, ele afirma que seria muito mais barato do que o sistema atual. «Ficaríamos imediatamente 33 pence por libra melhor... Todos podem ver a sua conta reduzida.» Esses 33% correspondem ao montante pago para pagar a dívida das empresas de água. «Está a ser extraída uma quantia absurda de dinheiro dos contribuintes. Portanto, só por não fazer isso, o país ficará em muito melhor situação.»

Para aproveitar a indignação pública suscitada pelo documentário «Dirty Business» e forçar o governo a agir, Ash e Peter lançaram agora uma petição ao governo para a realização de um referendo sobre a propriedade do nosso setor da água. Uma petição que atinja 100 000 assinaturas será debatida no parlamento (e já ultrapassou esse número). Pergunto a Ash: porquê um referendo? Precisamente, diz Ash, porque «na verdade, ninguém quer um referendo». O país ainda está a recuperar das consequências do referendo do Brexit, há dez anos; a mera ameaça de outro referendo pode ser suficiente para forçar a mão do governo. Há um precedente. A Escócia não seguiu a Inglaterra e o País de Gales na privatização da água na década de 1990, em parte graças a um referendo local. Quando questionados «Concorda com a proposta do governo [de privatizar] os serviços de água e esgotos?», 97,2% (1 194 667 pessoas) votaram contra a privatização. Há todos os motivos para acreditar que uma votação inglesa resultaria numa vitória esmagadora semelhante, especialmente na sequência das provas contundentes compiladas pela WASP e por outros. De acordo com uma sondagem da We Own It, 82% da população britânica quer que a água volte a ser gerida pelo setor público.

Na Escócia, onde a água continua a ser propriedade pública, a conta média anual da água é 107 libras mais barata do que em Inglaterra. Um estudo da Universidade de Greenwich sugere que a Inglaterra tem vindo a pagar, em média, mais 2,3 mil milhões de libras por ano em água e esgotos do que pagaria se as empresas de água tivessem permanecido sob propriedade estatal.

«Trata-se de perguntar: “Não achas que as pessoas que são vítimas desta situação deveriam ter uma palavra a dizer sobre o assunto?”», diz-me Ash. «Trata-se de democracia… O objetivo é fazer com que o governo comece a ouvir, a debater e a discutir a verdade sobre o assunto». Quando isso acontecer, com o apoio da pressão pública, o resultado será finalmente «ditado por factos, provas e integridade, em vez de mentiras, batota e suborno». A petição decorre até outubro de 2026. Alcançou a sua meta de 100 000 assinaturas na primeira semana. Ash espera agora chegar ao milhão. Uma petição separada da Surfers Against Sewage, apelando ao fim do sistema de água privatizado, tem perto de 300 000 assinaturas.

Entretanto, as empresas de abastecimento de água na Inglaterra e no País de Gales continuam a lucrar com a poluição.