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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ILUMINAÇÃO PÚBLICA VERMELHA REDUZ EFEITOS DA POLUIÇÃO LUMINOSA

A luz vermelha avisa os transeuntes que esta é uma área natural especial que o município deseja proteger e preservar. 
(Foto: AFRY| Rune Brandt Hermannsson)
  • Cidades europeias estão a instalar iluminação pública vermelha, um programa para reduzir os efeitos da poluição luminosa, particularmente sobre os animais noturnos. Fonte.
  • Mansões de luxo ilegais substituem florestas tropicais neste parque nacional da UNESCO. Fonte.
  • Os distritos dos EUA localizados mais próximos de centrais nucleares em funcionamento apresentam taxas de mortalidade por cancro mais elevadas do que as localizados mais longe, conclui um novo estudo liderado pela Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard.

REFLEXÃO

POR QUE CADA VEZ MAIS PAÍSES ESTÃO A RECORRER À SEMEADURA DE NUVENS
Sam Meredith, CNBC. Trad. O’Lima.

Nanomaterial experimental é lançado para o Centro Nacional de Meteorologia e Sismologia durante um voo de demonstração de semeadura de nuvens em Al Ain, Emirados Árabes Unidos, em 3 de março de 2022. À medida que as alterações climáticas tornam a região mais quente e seca, os Emirados Árabes Unidos lideram os esforços para extrair mais chuva das nuvens, e outros países correm para acompanhar. 
(Bryan Denton/The New York Times/The Denver Post)

Em todo o mundo há cada vez mais países a recorrer a uma técnica de modificação climática com décadas de existência, como parte de um esforço para controlar quando e onde chove.

Juntamente com os EUA e a China, que possuem o maior programa de modificação climática do mundo, França, Rússia, Índia e Arábia Saudita constam de uma lista crescente de países que experimentaram a semeadura de nuvens.

Para muitos, a adoção de operações de produção de chuva decorre da necessidade de aumentar o abastecimento de água, à medida que a procura global continua a aumentar em meio à crise climática.

Outros têm procurado usar a semeadura de nuvens para dispersar o nevoeiro nos aeroportos, combater a poluição do ar, reduzir os danos causados pelo granizo ou mesmo manipular o clima para grandes eventos, como os Jogos Olímpicos de Verão de 2008 em Pequim.

A semeadura de nuvens visa melhorar a capacidade de uma nuvem de produzir chuva ou neve através da introdução de pequenas partículas, geralmente iodeto de prata. O processo é limitado tanto em área como em duração e, ao longo do tempo, estima-se que aumente a precipitação local em 5% a 15%.

No entanto, o conceito não é isento de controvérsia. Desde que começou a ser praticada na década de 1940, as experiências de semeadura de nuvens têm suscitado preocupações quanto aos potenciais riscos ambientais e ecológicos e alimentado tensões de segurança regional, com países a acusarem-se mutuamente de roubar chuva.

Augustus Doricko, CEO da Rainmaker, uma empresa de semeadura de nuvens sediada na Califórnia, afirmou que há duas dinâmicas em jogo que parecem estar a reacender o interesse das pessoas nesta tecnologia, tanto nos EUA como em todo o mundo.
«Uma delas é realmente apenas uma circunstância: muitos desses países e regiões estão a sofrer com uma maior volatilidade nos padrões climáticos e de precipitação e no seu abastecimento de água, o que os está a levar, por necessidade, a serem mais criativos do que eram no passado», disse Doricko à CNBC por telefone.

«A segunda razão, e acho que esta é a verdadeira razão pela qual a Rainmaker foi criada, é porque nos últimos anos houve alguns avanços fundamentais na forma de fazer medições e atribuir os efeitos da semeadura de nuvens.»

Apesar de um legado de 80 anos, Doricko disse que o interesse na semeadura de nuvens «realmente diminuiu» nas décadas de 1970 e 1980, porque era difícil medir com precisão a quantidade de precipitação derivada das aplicações de semeadura de nuvens.

Avanços tecnológicos recentes permitem agora verificar o sucesso dessas implantações em tempo real, disse Doricko.

A empresa, que afirma ter a intenção de deter a aridificação do oeste americano, cresceu rapidamente nos últimos meses, passando de apenas 19 funcionários no início de 2025 para 120 atualmente, uma tendência que parece reforçar o crescente interesse pela semeadura de nuvens.

No entanto, apesar do nome, Doricko disse que os projetos de semeadura de nuvens da empresa são projetados principalmente para fazer nevar.

“Acabei por dar um nome errado à empresa, e ‘Snowmaker’ provavelmente teria sido mais adequado. Não soa tão bem para o que vale a pena”, disse Doricko. E acrescentou: “Acho que o mais importante para a Rainmaker nesta altura é apenas apresentar evidências inequívocas da neve artificial — e fazê-lo com tanta frequência que seja inegável que se trata de uma tecnologia viável e escalável.”

Outras empresas de semeadura de nuvens sediadas nos EUA incluem a Weather Modification Inc. em Dakota do Norte e a North American Weather Consultants em Utah, embora alguns estados americanos, como Flórida e Tennessee, tenham proibido atividades de modificação climática.

«Uma fonte de água viável»

De acordo com Frank McDonough, investigador científico do Instituto de Investigação do Deserto, com sede em Nevada, há duas razões principais pelas quais cada vez mais países estão a adotar operações de semeadura de nuvens.

Em primeiro lugar, os esforços de investigação científica e validação que têm sido realizados em projetos de semeadura de nuvens em todo o mundo nas últimas décadas “forneceram dados e análises de custo-benefício suficientes para que as partes interessadas utilizem esta ferramenta com confiança”, disse McDonough. «O outro conceito que explica por que mais países podem estar a adotar tecnologias de semeadura de nuvens é que atualmente essa é uma das únicas opções para melhorar os recursos hídricos localizados cada vez mais escassos ou ajudar a mitigar a poluição atmosférica regional, utilizando os sistemas atmosféricos naturais da Terra como uma fonte viável de água», acrescentou.

 
A maioria das outras tecnologias depende de recursos hídricos que são retirados diretamente da superfície ou das águas subterrâneas de uma bacia hidrográfica, disse McDonough, citando como exemplo as estações de esqui que utilizam água armazenada para operar os seus equipamentos de produção de neve artificial no inverno.

«A semeadura de nuvens pode realmente adicionar novos recursos hídricos ao sistema. Ter recursos extras para colocar no 'banco da bacia hidrográfica' para as necessidades de produção de neve do ano seguinte é a razão pela qual as partes interessadas continuam a financiar esses projetos», acrescentou.

Em termos de apoio estatal, a China teria apoiado o seu programa de modificação climática com US$ 2 biliões entre 2014 e 2021, enquanto a Arábia Saudita gastou US$ 256 milhões em 2022 para apoiar o primeiro ano do seu programa regional de semeadura de nuvens.

Resultados contraditórios

Autoridades no Irão teriam pulverizado nuvens com produtos químicos sobre a bacia do lago Urmia no final de 2025, procurando aumentar as chuvas para combater a pior seca do país em décadas.

No entanto, esses projetos nem sempre são bem-sucedidos. Em conjunto com o governo de Deli, uma equipa do Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) de Kanpur relatou recentemente resultados contraditórios após um teste de semeadura de nuvens para combater a poluição do ar na capital da Índia.

O IIT afirmou que a sua tentativa «não foi totalmente bem-sucedida» devido à falta de humidade no ar, acrescentando que houve uma redução mensurável das partículas em suspensão após a experiência.

Pessoas observam um avião durante uma operação de semeadura de nuvens na base aérea de Adi Soemarmo, em Boyolali, 
Java Central, Indonésia, em 24 de fevereiro de 2023. Agência de Notícias Xinhua| Getty Images

Diana Francis, diretora do laboratório de Ciências Ambientais e Geofísicas da Universidade Khalifa, em Abu Dhabi, disse que a semeadura de nuvens pode «aumentar modestamente» a precipitação nas condições certas. «Mas é gradual, não transformadora, e funciona melhor como parte de uma estratégia mais ampla de qualidade da água e do ar», acrescentou.

As operações de semeadura de nuvens podem custar normalmente entre US$ 1 e US$ 10 por hectare-metro de água adicional, disse Francis, observando que, embora isso continue sendo altamente variável, acaba sendo muito mais barato do que a dessalinização.

Há também outras ressalvas importantes a serem consideradas, como uma forte dependência da microfísica das nuvens (já que a semeadura de nuvens só funciona em nuvens existentes), problemas com atribuição e potenciais questões geopolíticas e legais relacionadas aos impactos a favor do vento, disse Francis.

As operações de semeadura de nuvens podem custar normalmente entre US$ 1 e US$ 10 por hectare-metro de água adicional, disse Francis, observando que, embora isso continue sendo altamente variável, acaba sendo muito mais barato do que a dessalinização.

Há também outras ressalvas importantes a serem consideradas, como a forte dependência da microfísica das nuvens (já que a semeadura de nuvens só funciona em nuvens existentes), problemas com atribuição e potenciais questões geopolíticas e legais relacionadas aos impactos a favor do vento, disse Francis.

Estudos mostraram que não houve impacto significativo na saúde humana ou no meio ambiente em projetos anteriores de semeadura de nuvens com iodeto de prata, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial, embora sejam necessárias mais investigações para avaliar os efeitos a favor do vento.

A agência meteorológica da ONU também reconheceu que os desafios significativos na aceitação pública, social e local das operações de indução de chuva continuam amplamente evidentes.

BICO CALADO

  • “Vem falar com os autarcas ou com a imprensa? O senhor chega a Coimbra… há um dever institucional, tem de falar com os autarcas. Se vem fazer uma conferência de imprensa, nós [autarcas] vamos embora”. Ana Abrunhosa, presidente da Câmara de Coimbra para José Manuel Fernandes, ministro da Agricultura e do Mar. Fonte.
                                                                                Vilnius, 11 de janeiro de 1991. | Foto: Paulius Lileikis

«Aceito solenemente a responsabilidade por usarmos técnicas de luta não violenta numa situação em que pessoas poderiam morrer.» Audrius Butkevicius, ex-ministro da Defesa da Lituânia, admitindo à jornalista Galina Sapozhnikova ter sido um dos principais líderes da batalha de Vilnius contra Moscovo, em janeiro 11-13 de 1991 - três dias que culminaram num tiroteio em massa contra manifestantes na Torre de TV de Vilnius, com 14 mortos e mais de 140 feridos. As forças soviéticas foram supostamente responsáveis. O derramamento de sangue provocou uma avalanche de simpatia internacional pela Lituânia, levando vários estados a reconhecerem a república como um país independente. Foi um evento crucial na dissolução da URSS. Fonte.

Inundações na área de Al-Mawasi, em Khan Younis, Gaza, em 24 de fevereiro de 2026. Foto de Abdallah F.s. Alattar/Anadolu via Getty Images.
  • Um ex-instrutor da academia da ICE na Geórgia testemunhou perante o Congresso, acusando a agência de cortar cerca de 240 horas do seu programa de formação básica — incluindo aulas sobre uso da força, segurança com armas de fogo e procedimentos de detenção. Fonte.
  • A Hungria continuou a exercer o seu veto sobre um novo pacote de sanções da União Europeia contra a Rússia e um empréstimo de 90 mil milhões de euros para a Ucrânia, como parte da sua disputa com Kiev sobre a interrupção do fornecimento de petróleo através do oleoduto Druzhba. A Eslováquia apoiou a decisão da Hungria, anunciando que se recusaria a fornecer eletricidade de emergência à Ucrânia até que o petróleo voltasse a fluir através do oleoduto. Fonte.
  • O “caso Mortágua” e o estado da Universidade e do Parlamento. Raquel Varela.

LEITURAS MARGINAIS

ESPINHO: A TEMPESTADE DE SÁBADO, 15 FEVEREIRO 1941
Defesa de Espinho, 23 de fevereiro de 1941


Aqui na Vila, o temporal desgraçado do penúltimo sábado teve, perante a população, o que
de resto devia ter acontecido em todo o País, o seu todo de inédito, de patético, de infernal, que causava arrepios e intimidava os mais fortes corações.
Em Espinho, a doida e caprichosa ventania começou a fustigar-nos cerca das 18 e 30. Parecia que levava tudo ...
Ao principio dessa noite extremamente tempestuosa, aqui à beira do nosso jornal, por exemplo, não se podia parar com a ‘chuva’, uma autêntica chuva de areia que parecia levar-nos a cara, de conjunto com a ventania avassaladora que parecia levar-nos a todos ...
O mar encapelara-se, rugia a bom rugir, como que centenares de leões que de momento tivessem surgido à beira-mar e ao sabor da duríssima invernia rugissem furiosamente em conjunto.
Assim estivemos duas, três, quatro horas seguidas debaixo desta tempestade de que não há memória, a que nunca julgavamos assistir.
Felizmente que não houve quaisquer vitimas, apenas se registando um pequeníssimo número de pessoas feridas sem gravidade, que receberam curativo na farmácia de serviço dessa noite.

Prejuízos materiais alguns se registaram, como, na Fostoreira Portuguesa, o desabamento do tecto do respectivo escritório, o desmoronamento do muro que vedava o campo do ‘Sporting’, lado da Avenida 8, bastantes globos da iluminação pública partidos e postes da rêde electrica da mesma derrubada, o que, para os Serviços Municipalizados, trouxe o prejuízo de alguns pares de contos; um enorme pedaço do telhado da igreja matriz que ‘voou’, dois moinhos de vento que se foram abaixo, o ‘esqueleto’ dos B. V. Espinhenses que deixou de o ser, arrastando na queda o motor do jardim do Teatro, a chaminé da Padaria Central destruída; no bairro da ‘Mata’ desabou um barracão onde viviam alguns pescadores, um grande número de telhados, beirais, etc., que se foram ‘à vela’, vedações de madeira e tijolo derrubadas, e ... mais nada. Graças!
Os comboios não chegavam, bastantes pessoas residentes em Espinho não apareciam, as quais surgiam, depois, a pé, umas do Porto e outras de Gala, Granja, etc.
Fomos muito poupados. Ao sabermos o que se passou noutras localidades, constatamos que aqui, isto, foi ‘mel’...
Sábado, 15. Pouco faltava para a meia-noite. A pouco e pouco chegou, ainda bem, a tão almejada bonança. Mas não faltaram sustos ... parecia ir tudo pelos ares ...

Pelo concelho

As freguesias rurais do nosso concelho, devido à arborização, foram mais atingidas, em todas elas havendo grande número de árvores, principalmente pinheiros derrubados que causaram avultados prejuizos.
A rêde da iluminação electrica também sofreu importantes avarias que atingem algumas dezenas de contos.
Dentre as freguesias, a mais castigada foi a de Paramos, onde cairam sobre o belo edificio da escola oficial alguns pinheiros que muito a danificaram.

No Aeródromo temos a registar alguns estragos causados pelo temporal. Ali, grande parte dos ‘hangars.’ foi abaixo – telhado, armações, traves, - tudo isto ‘varrido’, encontrando-se, à data da nossa visita ao Campo (5ª feira, 20), quatro avionetas cá fora, ‘ao relento’, três delas com asas partidas e o resto ... tudo como dantes, estando a proceder-se, com afã, à restauração da parte abati- da. Foi uma calamidade.
Na estrada Espinho-Pôrto, principalmente no Pinhal da Bela, pinheiros cairam sôbre a estrada, tornando o trânsito impossivel não só a quaisquer veiculos como até a peões.
Muitos automóveis tiveram de ser abandonados pelos seus proprietários, em virtude de não poderem seguir para a frente nem para trás.
Quando regressava a Espinbo no seu automovel, o conhecido capitalista, sr. António Miguel
Taveira, na altura de Gulpilhares caiu-lhe um pinheiro na frente e, momentos depois; outro sôbre a trazeira do carro, amolgando-o grandemente e apavorando o condutor e o proprietário que fugi- ram espavoridos, escapando, por pouco, de uma morte certa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PORTUGAL: ALBUFEIRAS COM NÍVEIS HISTÓRICOS DE ARMAZENAMENTO DE ÁGUA

  • Albufeiras com níveis históricos de armazenamento de água. Cerca de 95% das barragens monitorizadas apresentam disponibilidades hídricas acima de 80% do volume total. Fonte.
  • O Bloco de Esquerda lançou uma petição pública - “INDAQUA fora de Santa Maria da Feira!” -, contestando o atual modelo de gestão do abastecimento de água no concelho de Santa Maria da Feira. Tudo porque a privatização deste bem comum tem resultado em elevados custos para os munícipes, especialmente os de menores rendimentos, não havendo garantias de acesso igualitário aos serviços de água e saneamento. O BE defende a remunicipalização do serviço de abastecimento de água e saneamento, a criação de um tarifário específico para famílias numerosas, o fim das taxas de ligação e da taxa de disponibilidade, bem como a remunicipalização da recolha de resíduos. O documento propõe ainda a cobertura total da rede de abastecimento e saneamento no prazo máximo de dois anos.
  • Há falhas no Plano Nacional de Renovação de Edifícios, alerta a Zero, que metas concretas e justiça social. Fonte.

FRANÇA: REFINARIA EM ZONA INUNDÁVEL DESAFIA PARECERES DESFAVORÁVEIS

Visualização do projeto Emme em Parempuyre (Gironde), numa zona inundável 
a poucos metros das margens do rio Garonne. © JDS Architects
  • Luz verde para a refinaria classificada como Seveso numa zona inundável, apesar da consulta pública ter merecido 85% de pareceres desfavoráveis dos 2.000 recebidos. Fonte.
  • A Yorkshire Water foi multada em mais de £ 700.000 por repetidos derrames de esgoto não tratado. Fonte.
  • O Mardi Gras de New Orleans é responsável pela produção de elevado volume de resíduos que lixeiras e estão a causar impactos na saúde da cidade. Um estudo de 2013 descobriu que mais de 60% das contas de carnaval — um item comum atirado dos carros alegóricos — continham níveis perigosos de chumbo. Em 2018, descobriu-se que 46 toneladas de colares estavam a entupir infraestruturas vitais de prevenção de inundações. Agora, ONGs, autoridades municipais e cientistas avançam na adopção de estratégias de prevenção de resíduos e exploram tudo, desde colares feitos de um subproduto da produção de cana-de-açúcar até colares impressos em 3D com sementes de quiabo incorporadas. Fonte.
  • Embora a vida útil média de um sistema de águas residuais seja de 40 a 50 anos, nos EUA, muitas das estações e tubagens podem ter o dobro dessa idade ou mais. Fonte.

REFLEXÃO

COLONIALISMO CLIMÁTICO SOCIAL: O NOVO CERCO DO IMPÉRIO
Sammy Attoh, Dissident Voice. Trad. O’Lima.


Invocação

A crise climática não é uma tempestade neutra. Não é um acidente climático infeliz ou uma reviravolta trágica do destino. É o mais recente campo de batalha do império — um cerco lento e sufocante no qual o Sul Global paga pela poluição do Norte Global. A subida do nível do mar, as florestas em chamas, o colapso das colheitas e o desaparecimento de espécies não são convulsões aleatórias da natureza. São as consequências previsíveis de séculos de exploração, ganância industrial e arrogância colonial.

A atmosfera tornou-se a nova fronteira da conquista. O colonialismo climático é o cerco silencioso da nossa era — uma guerra sem declarações, uma violência sem balas, uma dominação mascarada de diplomacia.

Fundamentos históricos

A história é antiga, embora o cenário tenha mudado.

Antigamente, as potências coloniais saquearam o ouro da África, as especiarias da Ásia e a prata das Américas. Dividiram continentes, escravizaram povos e extraíram riquezas com precisão implacável. Hoje, saqueiam a atmosfera com o mesmo direito. A revolução industrial — alimentada pelo carvão, pelo petróleo e pelo trabalho escravo — enriqueceu a Europa e a América do Norte, ao mesmo tempo que lançou as bases para o colapso planetário.

As nações que construíram impérios com base na escravatura, na extração de recursos e na hierarquia racial dominam agora as negociações climáticas. Elas ditam os termos da sobrevivência, ao mesmo tempo que se recusam a assumir a responsabilidade. Antes, as instituições de Bretton Woods impunham dívidas; agora, as cimeiras climáticas impõem atrasos. A linguagem mudou, mas a lógica permanece a mesma: os poderosos decidem, os impotentes sofrem.

A retórica verde tornou-se o novo dialeto imperial — polido, diplomático e profundamente desonesto.

Incêndio contemporâneo

A crise climática é global, mas os seus encargos são violentamente desiguais. As inundações no Paquistão deslocaram milhões de pessoas, embora o país contribua com menos de 1% das emissões globais. As secas no Sahel devastam os agricultores que nunca lucraram com os combustíveis fósseis. As nações insulares do Pacífico enfrentam a subida do nível do mar que ameaça a sua própria existência, embora não tenham sido elas que provocaram o aumento das emissões.

Moçambique, as Ilhas Dominicanas, as Filipinas reconstruem-se repetidamente após tempestades intensificadas pelo aquecimento dos oceanos. Entretanto, o Norte Global continua a queimar petróleo, expandir oleodutos e subsidiar empresas de combustíveis fósseis. As promessas de «financiamento climático» permanecem por cumprir ou são reembaladas como empréstimos — aprofundando a dívida que estrangula o Sul. O Sul é instruído a adaptar-se com migalhas, enquanto o Norte se banqueteia com os lucros da destruição.

A face humana

Por trás de cada estatística há uma vida, uma família, uma nação lutando para respirar. Crianças em Bangladesh atravessam as águas da enchente que engoliram as suas escolas. Mães no Quénia veem as colheitas murcharem sob uma seca implacável. Pescadores nas Caraíbas regressam com as redes vazias enquanto os recifes de coral branqueiam e morrem. Famílias nos Andes veem os glaciares — as suas torres de água ancestrais — derreterem até se tornarem memória. Os pobres não emitem o carbono que causa a catástrofe, mas respiram as suas consequências. O colonialismo climático garante que os menos responsáveis sejam os que mais sofrem. Isto não é azar. É injustiça.

Polémica profética

O império adapta-se. As suas ferramentas evoluem, mas as suas intenções permanecem inalteradas. Os mercados de carbono mercantilizam a atmosfera, transformando o céu numa bolsa de valores. O greenwashing disfarça a destruição como sustentabilidade, permitindo que as empresas poluam enquanto se apresentam como salvadoras. A dívida climática obriga as nações a contrair empréstimos por desastres que não causaram, aprofundando a dependência. Os esquemas de geoengenharia ameaçam transformar o céu numa arma, permitindo que nações poderosas manipulem o clima sob o pretexto de «inovação». A apropriação de terras para a «energia verde» desloca comunidades indígenas, repetindo o mais antigo roteiro colonial. O ciclo repete-se com precisão assustadora: extração → poluição → catástrofe → dívida → controlo. O colonialismo climático não tem a ver com salvar o planeta. Tem a ver com preservar os privilégios do império.

Manchetes

“Os pobres respiram o fumo, os poderosos acumulam lucros”

“Marés em alta, desigualdade em alta”

“Colonialismo climático: o novo cerco do império”

Bênção final

Que a crise climática não seja considerada um destino, mas uma injustiça. Que os poluidores sejam responsabilizados e as vítimas sejam indemnizadas. Que a atmosfera seja libertada da mercantilização e a terra da extração. Que todos os seres humanos respirem ar puro, bebam água pura e comam alimentos cultivados em solo fértil. Que o mundo desperte para a verdade de que a justiça climática não é caridade — é reparação, restauração e o renascimento da dignidade global.

Que a justiça corra como as águas e que toda a terra respire novamente.

BICO CALADO

  • Contradição em Espinho: Centro tecnológico de luxo vs escola degradada. Um Centro Tecnológico Especializado de Informática foi inaugurado na Escola Secundária Dr Manuel Gomes de Almeida. A cerimónia mereceu a presença do ministro da Educação (Fernando Alexandre), do presidente da Câmara (Jorge Ratola), do diretor do agrupamento ESMGA-Domingos Capela (Ilídio Sá) e de personalidades ligadas ao atual poder local. A inauguração aconteceu precisamente 10 dias depois de alunos e professores da Escola Domingos Capela se terem manifestado junto dos Paços do Concelho denunciando as más condições do edifício e exigindo medidas urgentes para a sua resolução. Resta agora saber quanto tempo levarão os responsáveis a concretizá-las.
Foto: Linda Johnson/SWNS
  • Algumas centenas de documentos maliciosos são suficientes para corromper qualquer IA. Enrique Dans, Medium.
  • «Não assinámos contrato para fabricar armas»: a preocupação dos funcionários da Renault face a um projeto de drones militares. Fonte.
  • Israel não contribuirá financeiramente para o Conselho de Paz, confirmou o ministro das Finanças e membro do gabinete de segurança Ze'ev Elkin. Elkin afirma que Israel “não tem motivos” para pagar pela reconstrução de um território que, segundo ele, foi usado para atacá-lo. Israel assinou o estatuto do Conselho na sua reunião inaugural na semana passada, mantendo influência direta sobre as decisões relativas ao futuro de Gaza. Fonte.
  • Depois dos pontos de acesso à Sport TV nos gabinetes do Governo de Luís Montenegro, agora um contrato de 11 mil euros de serviços de maquilhagem. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O TERRÍVEL CICLONE DE 1941: SALAZAR PRIMEIRO FEZ-SE DE MORTO…
Jaime Pinho, O Setubalense.

Vista parcial da Avenida Luísa Todi, em Setúbal, aquando do ciclone de 1941. Foto: Américo Ribeiro

O ciclone de 15 de fevereiro de 1941 foi o mais violento, destrutivo e mortífero que atingiu Portugal continental desde que há registos. As zonas ribeirinhas foram duplamente fustigadas: primeiro pelos ventos do furacão, depois por chuvas torrenciais, marés de tempestade, inundações. A recente série de eventos extremos de janeiro de 2026, que atingiu em cheio os distritos de Coimbra, Leiria, Castelo Branco… rivaliza com a de 1941, mas com muito menos mortes. Relativamente à velocidade dos ventos e apesar da escassez da rede de registos de há 85 anos atrás, podemos constatar que os efeitos foram muito semelhantes.

Em 1941 morreram mais de 100 pessoas, muitas foram dadas como desaparecidas, inúmeras ficaram feridas. Os impactos na economia foram tremendos e duradouros por décadas. Para as classes populares a fome severa, o desalojamento, o desemprego e a miséria que se seguiram a 1941 foram inimagináveis. A mendicidade, sobretudo das crianças, era a única hipótese de escapar à morte. Mesmo assim a polícia não lhes dá tréguas e persegue-as: nas ruas das cidades, à porta dos restaurantes.

O ciclone de 41, como ficou conhecido, levou tudo pela frente: de norte a sul há relatos de pessoas que foram arrastadas pelo vento e derrubadas, no caso de Setúbal há mesmo o registo de uma senhora projetada fatalmente contra a parede numa rua da Baixa. Em Grândola pessoas foram arrastadas dezenas de metros e só a custo conseguiam segurar-se, agarradas aos arbustos. As casas atingidas ficaram sem telhados e sem chaminés, que foram pelos ares. Em Coimbra destelharam-se bastantes edifícios, como quartéis, Hospitais da Universidade, Hospital Militar. Nos dias seguintes as fábricas e armazéns de cerâmica registavam filas de pessoas em busca de telhas, como no caso da Cerâmica Lusitana, no Arco do Cego, em Lisboa! A Pastoral Coletiva do Episcopado Português, organismo da Igreja católica, recebe pessoas que a procuram como se fossem “evadidos da morte, fugitivos, esfarrapados”. Centenas de milhares de árvores, milhares de hectares de floresta foram arrancadas pela raiz ou cortadas a meio. Estradas, linhas de comboio e rede elétrica foram bloqueadas ou destruídas pela queda de árvores e desmoronamentos.

As zonas ribeirinhas foram as que mais sofreram: afogamentos, embarcações afundadas ou destroçadas, inundações de casas. A destruição da frota pesqueira atira milhares de pescadores e operárias conserveiras para desespero e a mendicidade. Só no caso de Sesimbra, passada uma semana dos acontecimentos, contabilizavam-se 113 embarcações partidas e 196 desaparecidas. As marinhas de sal, idem: arrasadas. A inviabilização de colheitas agrícolas provocada pela invasão da água salgada, como no caso dos arrozais, iria agravar ainda mais a falta de alimentos: a fome. A destruição de olivais e sobreiros de cortiça engrossaram o desemprego. A herdade do Pinheiro, para os lados de Alcácer do Sal, virou “um mar de troncos lançados à terra”. As notícias de morte e destruição da zona da Grande Lisboa e distrito Setúbal são coincidentes: Lisboa, Alhandra, Sesimbra, Alhos Vedros, Setúbal, Alcácer do Sal terão concentrado o maior número de vítimas humanas. Mas atenção: Um mês após o ciclone de 15 de fevereiro a imprensa continuava a dar conta de corpos que continuavam a dar à costa achados por pescadores e populares: o de uma mulher da Carrasqueira que tinha vindo num pequeno bote aviar-se a Setúbal…o de um rapaz de 16 anos de nome José, que trabalhava nas marinhas de sal…

Em vão se procura nas páginas do jornal diário de Setúbal ao longo das semanas uma reação, uma palavra do governo, do seu chefe: Nada! Caladinho como um rato.

A inoperância do governo nos dias e semanas a seguir à catástrofe é total. A resposta do regime ao desastre nacional foi levada a cabo através do Sub-Secretariado de Estado da Assistência Social, recentemente surgido e com pouco ou nenhum orçamento. Aliás, a tarefa principal seria desenhar o plano para uma recolha de fundos de pessoas particulares a nível nacional. O mesmo se diga das Câmaras municipais, se tomarmos como padrão a de Setúbal. Os dramáticos acontecimentos devastaram a cidade e o concelho, com mortes, feridos, desaparecidos, atividades económicas paralisadas ou gravemente afetadas, casas sem telhados, centenas de famílias dos bairros de barracas desalojadas e perdidas pelas ruas e caminhos, sem terem onde se abrigar e aos seus ente-queridos, como aconteceu no bairro da Monarquina junto ao hospital e nos Olhos de Água na subida para o Viso. Como refere o jornal após passar pela censura prévia salazarista, no dia 3 de março de 1941: “A hora não é de ficar de braços cruzados à espera que o estado faça. Nunca é lícito pedir demasiadamente ao estado – e muito menos agora que são enormes os seus prejuízos”.

…depois mostrou a verdadeira face

As consequências da catástrofe vêm juntar-se às já difíceis condições de vida agravadas pelos efeitos da guerra mundial que começara em 1939 e que cada vez mais afetava os países parcialmente neutrais, como Portugal. Retomamos de seguida dados de um exaustivo estudo do historiador Fernando Rosas sobre estes anos.

A fome, a escassez de alimentos, o desemprego, as famílias numerosas, a vida nas barracas, os salários miseráveis sufocados pela repressão total e o poder de compra em erosão acelerada, a inexistência do estado social, conduzem a explosões e revoltas populares logo na primavera e verão de 1941: o pessoal das minas da Panasqueira, os salineiros de Alhos Vedros e Lavradio, motins camponeses pelo Minho, Beira e Douro Litoral, Trás os Montes. Em novembro de 1941, ocorre a grande greve do pessoal da indústria de lanifícios da Covilhã, imortalizada pelo escritor Ferreira de Castro, no livro “A lã e a neve”. Nesta cidade da Serra da Estrela, 14 grevistas são acusados de “crime de sublevação” por um tribunal militar (!) especial. A imprensa clandestina e as autoridades da repressão registam agitação, manifestações, protestos por todos os centros industriais do país. O governo de Salazar parece ter sido apanhado de surpresa e não estar preparado para o confronto.

Ao longo de 1942 desenvolvem-se as primeiras greves intersectoriais e regionais de camponeses no Ribatejo, zona saloia de Lisboa, Alentejo. Verificam-se grandes greves na CARRIS em Lisboa, na Companhia dos Telefones, dos estivadores, das fábricas da CUF no Barreiro, na Tabaqueira, nas oficinas do Diário de Coimbra. As cargas policiais intensificam-se, acompanhadas por uma guerra ideológica contra contestação generalizada, ainda que absolutamente proibida e perseguida pelo regime fascista. O governo lança uma campanha de propaganda contra o que chama de “manobras de agitadores profissionais a soldo de interesses inconfessáveis…”.

O outono de 1942 marca uma viragem no ambiente social do país. O governo endurece a ditadura. Há prisões de grevistas em massa, como aconteceu nas instalações da CARRIS: 1100 presos, os supostos líderes da paralisação despedidos e presos sem qualquer processo ou direito de defesa. As greves passam a ser tratadas pelo Ministério da Guerra e a regra passa a ser: fábricas em greve: todo o pessoal é evacuado e despedido. Há milhares de operários presos, despedidos, substituídos por outros. Depois vem o Verão quente de 1943, coincidente com a queda de Mussolini na Itália e a aceleração da luta antifascista. A guerra mundial acaba em 1945, com a derrota dos amigos de Salazar, particularmente Hitler.

Salazar ficará isolado na Europa, “orgulhosamente só”, ao lado do ditador de Espanha, Francisco Franco. Começa uma nova fase da ditadura, que será derrubada pela Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

EUA: NEW BRUNSWICK BLOQUEIA CENTRO DE DADOS DE IA

  • Os residentes de New Brunswick, Nova Jérsia, conseguiram impedir a construção de um grande centro de dados de IA. Os residentes estavam preocupaos com o consumo massivo de eletricidade e água da instalação, que temiam que levasse a contas de serviços públicos mais elevadas e prejudicasse o ambiente local. Em vez do centro de dados com 27 000 pés quadrados, o local na 100 Jersey Avenue incluirá agora um novo parque público, juntamente com habitações e espaços para pequenas empresas já aprovados. Fonte.
  • O Governo galego deu o golpe final no controverso megaprojeto de celulose que a multinacional Altri e a empresa de energia Greenalia queriam estabelecer no município de Palas de Rei (Lugo), negando a Autorização Ambiental Integrada ao plano. Fonte.
  • Central a Carvão do Pego começa a ser demolida em março. Fonte.

BICO CALADO

© João Marques - RTP
  • “Li hoje na newsletter do Algarve Daily News: 'Uma equipa de 70 trabalhadores do sector energético irlandês esteve nas últimas duas semanas no centro de Portugal a colaborar na reposição do fornecimento de eletricidade em várias comunidades afectadas pelas tempestades recentes, onde alguns habitantes permaneceram sem energia durante mais de três semanas. A chegada dos técnicos a aldeias isoladas foi marcada por momentos de grande emoção entre as populações, que aguardavam por soluções para uma situação insustentável.’ De acordo com a notícia ‘os trabalhadores pertencem à empresa pública de eletricidade da Irlanda’. Viajaram até à região de Fátima, onde ficaram instalados para repararem as infraestruturas em zonas rurais do distrito de Leiria. Portanto, têm sido voluntários da Irlanda a repor alguma normalidade a centenas de famílias nas zonas destruídas pelas tempestades. A ESB, de onde vieram a maioria destes voluntários, é a principal empresa de electricidade da Irlanda. É uma empresa pública: pertence 97% aos Estado e 3% aos funcionários da eléctrica. O que é que esta notícia e a solidariedade dos irlandeses dizem sobre o nosso País? Dizem que sofremos de fragilidades terríveis. Dizem que as privatizações - ao desbarato - de empresas estratégicas, como a EDP, acompanhadas pelo desmantelamento de equipas técnicas, que existiam quando estas estruturas estavam sob controlo público, nos deixam desprotegidos e vulneráveis. Dizem que a sub-contratação de funções essenciais, seja numa E-Redes ou nos hospitais, reduzem a segurança e a qualidade dos serviços. Dizem que a emigração de portugueses qualificados, sejam electricistas ou cirurgiões, nos deixa desprotegidos e vulneráveis. Dizem que a precarização dos contratos de trabalho, a insuficiente aposta na formação técnica, agravaram ainda mais a já anteriormente deficiente capacidade de resposta em situações de emergência. Dizem que enquanto forem accionistas privados - e políticos ao seu serviço - a decidir os meios para reagir numa emergência, os 'apagões' continuarão, como continuarão as os incêndios (em Portugal duas multinacionais da celulose, através dos seus lobistas, mandam na política florestal assente em eucaliptais) e continuarão as listas de espera no SNS.” Miguel Szymanski, Ora tudo se apaga, ora tudo arde.
  • Imigrantes descontaram mais de cinco vezes o que receberam em prestações sociais. Fonte.
  • Jornalistas presos pelo ICE revelam os horrores da encarceramento. Jeremy Busby, Scheerpost/Truthout.
  • EUA aprovam venda de 100 mísseis Hellfire à Dinamarca. FontePara ela defender a Gronelância dos EUA?
  • A decisão de enviar a comissária Dubravka Šuica ao Conselho de Paz torna a UE um participante ativo no desmantelamento do direito internacional. Fonte.
  • A Hungria vai bloquear um empréstimo de emergência de 90 mil milhões de euros para a Ucrânia, acusando o país devastado pela guerra de chantagem devido a um oleoduto danificado utilizado para o trânsito de petróleo russo, o que agravou o confronto antes das eleições gerais de abril. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

EPSTEIN E OS BALLET ROSE DE SALAZAR
Leonel Pedro Pedroso Gonçalves


Muito me tem surpreendido que a propósito do caso Jeffrey Epstein, ninguém em Portugal se tenha lembrado do escândalo 'Ballet Rose', dos salazarentos anos sessenta neste lindo jardim à beira mar plantado.

O escândalo 'Ballet Rose' foi desvelado, para quem não sabe, quando um jornalista britânico do Daily Telegraph investigou e denunciou um hediondo esquema de pedofilia, prostituição e abuso de menores que envolveu altas figuras do Estado Novo, ministros do governo de Salazar e outros altos cargos do Estado e teve ramificações no excelso mundo empresarial da época, com gradas figuras das primeiras famílias do país, como então se dizia, envolvidas.

Ou seja, lambuzou de fétida sordidez toda a élite do regime ditatorial do velho botas de Santa Comba, impoluto, beato e cheio de virtudes, como hoje dizem os seus numerosos seguidores, liderados pelo grande André de Mem Martins e que quereriam ver tudo de novo e multiplicado por três.

Ora o bom do velho espátula de rapa-tachos, incorruptível, como eles dizem, fez tudo para abafar o caso, calou a justiça, que já pouco o era no seu regime, para proteger os seus ministérios, os ricaços das famílias que ele apoiava e que em troca o apoiavam a ele e, enfim, para se proteger a si próprio e ao seu poder.

Não conseguiu evitar a demissão (melhor dito, o discreto afastamento) de Antunes Varela, ministro da justiça de então, que se lhe opôs (ao velho baboso) e exigia que se fizesse justiça. Mas, de resto, conseguiu um enorme silenciamento. E a limpeza do nome dos criminosos seus amigos.

O caso ainda foi investigado pela Polícia Judiciária e, posteriormente, pela PIDE por decisão de Antunes Varela. A PJ entrevistou algumas das vítimas, incluindo uma prostituta e a filha que denunciaram a lista de clientes que incluía figuras políticas e membros do exclusivo jet-set da ditadura fascista. Nomes importantes.

Assim que Salazar tomou conhecimento do caso, tomou medidas para o abafar. Protegeu, à outrance, nomeadamente o ministro de Estado José Gonçalo Correia de Oliveira, um dos envolvidos.

A Polícia Judiciária acabou, pasme-se, por levar o caso a tribunal em 1967, apenas com a acusação de atentado ao pudor, sendo acusados várias mulheres e homens, mais ou menos anónimos. Apenas três pessoas serão condenadas: uma modista da Avenida de Roma (!), um administrador bancário (do Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa) e um proprietário hoteleiro.

O caso Ballet Rose envolveu a prostituição ou o lenocínio, mais exatamente, de crianças de idades dos 8 aos 12 anos, mais jovens, bem mais jovens, do que as atuais vítimas do caso Epstein , na sua maioria.

E os crimes foram sumariamente encobertos por um regime político que se dizia de uma inabalável moralidade católica.

Havia pagamentos para "desflorar" crianças (tirar a sua virgindade) a professoras e outros responsáveis pelas crianças oriundas de meios pobres.

No início dos anos 1960, uma das raparigas, de 16 anos, abusada desde os 9, decide denunciar o caso à Polícia Judiciária, acompanhada por um advogado.

A partir daí, e sobretudo por ação do jornalista inglês, destapou-se um véu que custou muito ao velho ditador manter no sítio, sobre a putrefacta lama do seu corruptíssimo regime.

Advogados da oposição, nomeadamente, Mário Soares e Francisco Sousa Tavares, tal como o jornalista e escritor Urbano Tavares Rodrigues, ainda tentaram levar a denúncia do sucedido, do envolvimento das élites portuguesas, e do encobrimento feito pela ditadura de Salazar, a instâncias internacionais.

Mário Soares foi acusado de traição à pátria por revelar ao repórter britânico Barry O'Brien, do Daily Telegraph, informações sobre o caso Ballet Rose. A sua prisão ocorreu no dia seguinte à publicação da reportagem no jornal britânico, sendo enviado primeiro para Caxias e, mais tarde, para São Tomé e Príncipe.

Francisco Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues foram ambos presos por denunciar o caso.

O escândalo Ballet Rose, típico caso de abuso de poder por élites que, de tão acima do homem e da mulher comum, se sentem totalmente impunes é de uma semelhança enorme, na sua escala nacional, com o que se passa no de Epstein, até na suposta troca de informações altamente confidenciais como forma de pagamento por tenebrosos favores indizíveis.

Ambos os casos revelam que sem pelo menos alguma justiça social, não haverá, de facto, qualquer tipo de justiça.

Como com quase tudo o que diz respeito a Salazar e ao seu regime, o caso caiu quase no esquecimento da democracia que lhe sucedeu, que não deveria ter parado de repetir incessantemente tais factos para pedagogia popular.

Hoje, a esquerda atordoada não é capaz de pegar nos Ballet Rose para, com a oportunidade de Epstein, mostrar o que era a verdadeira corrupção sem limites do Estado Novo e para contrariar o branqueamento da figura hedionda do baboso botas feito nos media e com a sua colaboração, - noblesse oblige (hahaha e hhh), pelos sequazes do ex-seminarista, ex-comentador do Benfica, de Mem Martins.

PS- ‘Vidas Proibidas – Ballet Rose’, série de 10 episódios da RTP.