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quarta-feira, 8 de julho de 2026

ALCOCHETE: CONDENADA POR PLANTAR SOBREIROS

  • Bianca Castro, ativista da Climáximo, recebeu uma pena suspensa de um ano e seis meses na sequência de uma ação simbólica realizada em maio de 2025 nos terrenos do Campo de Tiro de Alcochete, local apontado para a construção do futuro aeroporto de Lisboa. A ação consistiu na plantação de sobreiros e na colocação de uma faixa com a mensagem “Aeroporto de Alcochete p’ró cacete – Nem aqui, nem em lado nenhum!”, numa manifestação contra a expansão aeroportuária e o aumento das emissões de gases com efeito de estufa. O Ministério Público acusou Bianca Castro do crime de entrada ou permanência ilegítima, tendo o processo sido tratado como um caso de natureza militar. Na altura do protesto, a porta-voz da iniciativa justificou a ação com o impacto ambiental previsto para o projeto aeroportuário. “A construção de um novo aeroporto é o equivalente a lançar bombas de carbono na atmosfera”, afirmou Bianca Castro, defendendo que o empreendimento representa um agravamento da crise climática. Os ativistas argumentam que o projeto implica o abate de dezenas de milhares de sobreiros e explicam que a plantação das árvores teve um valor sobretudo simbólico. FonteVejamos a desproporção da nossa Justiça: ex-dirigente do Chega condenado a pena suspensa a um ano e três meses por prostituição infantiltrês e meio de cadeia, com pena suspensa para agente da PSP que matou Odair Moniz, Padre condenado a 1 ano e 8 meses suspensos por tentativa de abuso sexual de menor, Professor condenado a três anos de prisão com pena suspensa por abuso sexual de crianças.
  • Estes ‘editores’ não se entendem? Sensivelmente à mesma hora, o mesmo portal publica duas notícias com títulos referindo 13 e 15 mil hectares de floresta ardida em Vouzela. Para eles parece não haver qualquer diferença entre 13 mil e 15 mil hectares.
  • Em 2025, as emissões dos voos com partida da Europa atingiram um recorde de 195 Mt de CO₂, ultrapassando pela primeira vez os níveis pré-pandémicos. A Ryanair continua a ser a companhia aérea mais poluente da Europa, sendo agora as suas emissões globais 50 % superiores às de 2019 — o maior aumento entre as 20 companhias aéreas mais poluentes do mundo. Dois terços das emissões da aviação europeia escapam ao Sistema de Comércio de Emissões da UE, uma vez que este abrange apenas as rotas intra-europeias de curta distância, isentando os voos de longa distância. Isto cria condições de concorrência desiguais — a Ryanair paga cerca de 50 € por tonelada de carbono, enquanto a Lufthansa paga cerca de 20 € e as companhias aéreas do Golfo, como a Emirates, pagam quase nada. A T&E recomenda alargar o mercado de carbono a todos os voos de partida e canalizar as receitas para combustíveis de aviação sustentáveis e para a prevenção de rastos de condensação. Sublinhe-se que o aumento dos preços dos bilhetes é impulsionado pela dependência dos combustíveis fósseis, e não pelas políticas climáticas. Fonte.

REFLEXÃO

ENQUANTO A ÍNDIA SE APRESSA A CULTIVAR MILHO PARA A PRODUÇÃO DE ETANOL, SERÁ QUE PODE APRENDER COM OS ERROS DO PASSADO?
Niladri Giri, Medium. Rev. O’Lima.

Foto de Gavin Allanwood no Unsplash

Durante o inverno de 1989, os condutores em São Paulo viram-se a esperar em longas filas para abastecer, apesar de o seu país ter prometido que o combustível estaria sempre disponível.

Não se tratava de gasolina, mas sim de álcool. No final da década de 1980, mais de quatro milhões de automóveis no Brasil funcionavam a etanol puro, cerca de um terço de todos os veículos do país. Durante quinze anos, o Brasil tinha reestruturado a sua agricultura para apoiar esta transição. O programa Proálcool, lançado em 1975 após a primeira crise do petróleo, superou as expectativas. Em 1986, 92 por cento dos carros novos vendidos funcionavam exclusivamente a etanol. Os produtores de cana-de-açúcar tinham encontrado o cliente ideal: aquele que precisava sempre de mais.

Mas depois as coisas mudaram. O preço do petróleo bruto caiu de uma média de 78 dólares por barril em 1981 para menos de 27 dólares em 1986, tornando a gasolina novamente barata. Ao mesmo tempo, os preços globais do açúcar subiram, pelo que as fábricas começaram a destinar mais cana à produção de açúcar em vez de combustível. Entre 1989 e 1990, os postos de abastecimento ficaram sem combustível. Milhares de carros faziam fila nas estações de serviço ou ficavam parados nas garagens, construídos para um combustível que já não estava disponível. As vendas de carros a etanol caíram drasticamente e muitos brasileiros sentiram que todo o esforço tinha sido em vão.

Há um pormenor dessa história que me chama a atenção. O produtor de cana fez tudo como deve ser. Cultivou o que o seu país precisava. A sua colheita não era o problema. A verdadeira questão residia numa série de decisões tomadas longe dali — em locais como uma bolsa de açúcar em Londres, uma reunião da OPEP ou um ministério das finanças a ajustar subsídios. O risco desceu pela cadeia e acabou por recair sobre a pessoa que menos sabia e tinha menos opções.

Há doze anos que trabalho como técnico agrícola nos distritos de Odisha, no leste da Índia. Na maioria dos dias, ajudo os agricultores a lidar com os riscos que enfrentam — chuvas tardias, pragas precoces ou a queda dos preços de mercado durante a colheita. Recentemente, porém, tenho vindo a refletir sobre um risco que não conseguimos ver a partir do terreno, à medida que a Índia repete a experiência do Brasil, mas a um ritmo muito mais acelerado.

O Segundo Acto Americano

Antes da vez da Índia, a história repetiu-se mais uma vez, desta vez no Iowa.

Os Estados Unidos criaram a sua Norma de Combustíveis Renováveis em 2005 e alargaram-na em 2007, exigindo que as companhias petrolíferas misturassem milhares de milhões de galões de biocombustível na gasolina. A região do milho reagiu da mesma forma que os agricultores de todo o mundo reagem perante um comprador garantido. Nos últimos anos, mais de 40 por cento da colheita de milho americana foi destinada à produção de etanol. Reflitamos sobre essa percentagem por um momento. Quase metade do milho cultivado pelo maior produtor mundial de milho é utilizado em motores, e apenas uma pequena parte do que resta é cultivada para ser realmente consumida pelas pessoas.

Havia muito dinheiro em jogo. Um estudo amplamente citado revelou que, entre 2006 e 2014, os preços do milho foram cerca de 30 por cento mais altos do que teriam sido sem a obrigatoriedade. Os rendimentos agrícolas aumentaram. O valor dos terrenos em todo o Midwest subiu na mesma proporção. O mesmo aconteceu com algo mais difícil de perceber num balanço financeiro: a dependência. Os sistemas de combustível e os motores americanos não conseguem absorver confortavelmente muito mais do que 10% de etanol, um limite máximo a que a indústria chama «a barreira da mistura», e a produção de etanol tem estado encostada a essa barreira há mais de uma década. De poucos em poucos anos, Washington renegocia a obrigatoriedade e, de poucos em poucos anos, a economia de distritos rurais inteiros fica com a respiração suspensa. Se o consumo de gasolina nos EUA diminuir — o que acabará por acontecer com os veículos elétricos —, mesmo uma obrigatoriedade inalterada empurrará o etanol para além desse limite máximo dispendioso. O maior cliente do agricultor do Iowa é, no fim de contas, um parágrafo de regulamentação federal. Ele aprendeu a ler documentos normativos da mesma forma que o seu avô lia as nuvens. Os produtores brasileiros ficaram à mercê de um preço. Os americanos estão vinculados a uma política. Duas das maiores nações agrícolas do mundo chegaram à mesma conclusão: o combustível é um cliente diferente de tudo o que um agricultor já conheceu.

Terceiro Ato: Em avanço rápido

Em 2018, a Índia estabeleceu a meta de misturar 20 por cento de etanol na gasolina até 2030. O país atingiu esta meta em dezembro de 2025, cinco anos antes do previsto. Desde abril, todos os postos de abastecimento na Índia vendem E20. O milho desempenhou um papel fundamental para que isto fosse possível. No ano de abastecimento de 2024–25, o milho ultrapassou a cana-de-açúcar como principal fonte de etanol da Índia, fornecendo quase metade do abastecimento nacional a um preço fixado pelo governo de ₹71,86 por litro.

O Brasil precisou de quinze anos para reorientar as suas explorações agrícolas para a produção de combustíveis. Os EUA demoraram cerca de dez anos. A Índia fez essa transição em sete. Eu próprio testemunhei uma pequena parte desta mudança. Na zona de cultivo de milho de Nabarangpur, que faz fronteira com o meu distrito, um agricultor de Umerkote mostrou-me o campo onde costumava cultivar arroz até 2023. O agente da refinaria ofereceu-lhe 3200 rúpias por quintal, contou-me ele, em comparação com o preço local de 2600 rúpias. O acordo prometia recolha garantida, pagamento no prazo de 5 dias e ausência de regateio com os comerciantes. Ele aceitou. Quando lhe perguntei o que a refinaria fazia com o seu milho, ele respondeu-me que ia «para a empresa». Não sabia qual era a empresa nem o que faziam com ele. Não insisti. Foi uma resposta honesta. Em todos os anos em que vendeu cereais, nunca precisou de saber o que lhes acontecia após a venda. O que lhes acontecia depois.

Mas eis a que ele está agora ligado, quer alguém lho tenha explicado ou não. O preço do seu milho depende das compras das refinarias. As compras das refinarias dependem da obrigatoriedade de mistura. A economia dessa obrigatoriedade depende da procura de gasolina. E a procura de gasolina depende dos preços do petróleo bruto, da adoção de veículos elétricos e do número de trabalhadores de escritório em Bengaluru que optam por apanhar o metro. Um homem que nunca viu uma refinaria de petróleo encontra-se agora a jusante do petróleo bruto Brent e a montante do depósito de combustível de uma scooter.

Durante milhares de anos, os agricultores venderam as suas colheitas a pessoas que as consumiam. Quem consome é o cliente mais fiável da história. As populações crescem lentamente e, mesmo durante as secas, todos continuam a precisar de comida. Os condutores são um tipo de cliente muito diferente. Mudam de combustível, compram veículos novos e mudam-se para novas cidades. A sua procura muda com a tecnologia e os acontecimentos mundiais — duas coisas que nunca vi abordadas em nenhum guia agrícola que tenha levado a uma aldeia.

Que lições foram aprendidas?

Permitam-me ser cauteloso nesta questão, porque esta é a parte que acaba por ser reduzida a slogans. Não estou a argumentar que a mistura de etanol seja uma má política. A Índia importa a maior parte do seu petróleo bruto, e a questão da segurança energética é real. O dinheiro que chega aos agricultores também é real. Vi, de perto, o que um comprador garantido significa para uma família que passou gerações a negociar em posição de fraqueza à porta do mercado. O agricultor de que falo fez uma escolha racional. O negócio que tinha diante de si era demasiado bom para recusar.

Foto de Roger Starnes Sr. no Unsplash

A questão que os dois primeiros atos levantam é mais específica e mais complexa. O que acontece quando a procura de gasolina estabiliza? Não se trata de «se», mas de «quando». Os próprios decisores políticos da Índia estão a promover a mobilidade elétrica com a mesma convicção que demonstraram em relação ao etanol, e ambas as apostas não podem dar frutos na totalidade. Quer a transição ocorra daqui a cinco ou quinze anos, uma reserva de gasolina cada vez mais reduzida terá, um dia, de satisfazer uma percentagem fixa de mistura. A conta recai sobre a refinaria, e a conta da refinaria recai sobre um campo de milho.

O Brasil acabou por encontrar uma solução. Os carros flex-fuel, que surgiram quase três décadas após o início do Proálcool, permitem que os motores funcionem a gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois, proporcionando aos produtores de cana um mercado que pode ceder sem se partir. O que levanta uma questão que ainda não vi ser colocada na celebração atual: qual é a opção flexível para o produtor indiano, em vez de para o motor indiano? A resposta honesta hoje é que não existe nenhuma, a não ser regressar ao mercado de onde acabou de sair.

Mais um pormenor que não consigo deixar de referir. Em 2024, mesmo com as suas refinarias a comprar milho para combustível, a Índia tornou-se um importador líquido de milho, adquirindo cereais no estrangeiro para substituir os que queimava no próprio país. O avicultor e a fábrica de etanol viram-se a disputar a mesma espiga, e um navio compensou a diferença.

Algures naquele cinturão do milho, um agricultor que conheço está a decidir quanto plantar na próxima época. O agente apresentou-lhe o preço, e o preço parece bom. Parecia bom em São Paulo, em 1985, e em Des Moines, em 2010. Ninguém se sentou à frente desses agricultores para lhes explicar quem era realmente o seu cliente.

BICO CALADO

  • «Ponham os olhos nestes dois. Vocês, que torcem por esta seleção como quem vai para Aljubarrota, vocês que se excitam pela pátria com esta sombra de futebol, lembrem-se de quão destrutivo podem ser o egoísmo, o narcisismo e a falta de espinha. Para estes dois, valeu tudo para tentarem sair por cima. A causa do desastre é, em grande parte, deles. Ponto. Foram eles que roubaram dois mundiais a Gonçalo Ramos e a outros que ficam na fila de espera para dar lugar ao egoísmo sem freio, enquanto se perde uma geração. De Roberto Martinez pouco se falará, cheira-me. Daqui a nada deve andar pelas Arábias. Quanto a Cristiano Ronaldo apenas confirmo o que sempre pensei: dificilmente veremos algo deste calibre no que o futebol tem de persistência, talento e sacrifício. Fez-se a si próprio e isso tem um mérito incontestável. Na sombra, no quotidiano, pode ainda ter gestos muito cristãos, mas o seu ego, a sua falta de respeito pelo coletivo, o seu egoísmo doentio são também o seu bilhete de identidade. Por isso, CR7 acaba como mereceu. Pena ter enterrado outros com ele. Por mim, até podia ser um ET no relvado, mas quando olho para as decisões que toma e, de certo modo, impõe, não passa de um profissional de segunda. Está óptimo para uma sociedade do eu, cada vez mais atomizada, cega de individualismo. E ainda convence os garnizés de sempre que adoram homens providenciais. "Demos o nosso melhor", desabafou Diogo Costa no final. Não, não deram. Foram subservientes com a mais abjecta sociedade que a seleção de todos vós já pariu: Roberto & Cristiano, Lda. Amanhem-se.» Miguel Carvalho, A DUPLA.


  • O regime de Trump confiscou pelo menos 8 mil milhões de dólares da riqueza petrolífera da Venezuela desde que derrubou e capturou o presidente Nicolás Maduro em janeiro. Agora, enquanto a Venezuela luta para lidar com dois sismos catastróficos ocorridos no final do mês passado, que mataram pelo menos 3 300 pessoas e deixaram dezenas de milhares de feridos e desalojados, com 41 000 a 50 000 pessoas dadas como desaparecidas, os EUA estão a fornecer apenas 300 milhões de dólares em ajuda humanitária, uma pequena fração do dinheiro que roubaram. Fonte.
  • Os trabalhadores alemães deixarão de poder faltar ao trabalho por motivo de doença sem um atestado médico no primeiro dia de doença. A reforma visa combater o número «extraordinariamente elevado» de dias de baixa por doença entre a população ativa do país. Atualmente, os alemães têm direito a três dias de baixa por doença sem atestado médico, embora os patrões possam solicitar um atestado mais cedo. Fonte.
  • "Há vídeos de robôs quadrúpedes a disparar armas com precisão e recuo mínimo. Sei que temos vindo a chamar a estas coisas «cães-robô» este tempo todo, mas é um nome um pouco inadequado, uma vez que sabemos desde o início que foram concebidos apenas como um sistema de transporte todo-o-terreno para armas autónomas destinadas a reprimir revoluções." Caitlin Johnstone.
  • Marine Le Pen condenada a 15 meses de inelegibilidade . Fonte.
  • A UE autorizou a instauração de processos penais contra qualquer pessoa que partilhe vídeos da RT na Internet, devido às sanções impostas à Rússia na sequência da invasão da Ucrânia. Com esta nova medidaos cidadãos europeus podem agora vir a cumprir pena de prisão efetiva se partilharem vídeos da RT nos seus próprios sites pessoais.
Cartune de Angel Boligan

LEITURAS MARGINAIS

OS ESTÁDIOS E OS ESTÚDIOS COMO NOVOS BRINQUEDOS POLÍTICOS


“(…) A sinédoque fatal “Portugal perdeu?!” terá ecoado longamente pela noite fora -imagino- e não parará de acontecer até que alguma coisa menor se torne em assunto do dia. Podemos escolher: gente que perdeu a casa, crianças na miséria com as suas famílias, gente a dormir nas ruas, gente a nascer nos passeios, gente pouco "resiliente" a morrer antes da cirurgia cardíaca, os entrefolhos do país a arder, os combustíveis a subir e o crudea descer, as falências em série de PMEs, os despedimentos coletivos, os exames liceais esvoaçando pelos céus ministeriais como as Pombinhas da Catrina, que hão-de ser de quem as apanhar,

O arroubo “patriótico” vira-se contra o espanhol, claro. Por menos, foi morto o Conde Andeiro, em 1383. E algum traidor nas fileiras poderá ser defenestrado qual Miguel de Vasconcelos, em 1640. Que se passou, desta vez, entre o oito e o oitenta?

Virão os analistas, os jornalistas, os treinadores, os ex- e os jogadores, políticos, empresários, especialistas de marketing desportivo, doutores da ciência da previsão e da revisão, economistas, tarólogos, tudólogos, toda a opinião publicada… daqui não sairemos sem gente crucificada. Nós em questões de bola somos uma fera, sabemo-lo.

A imensa ficção lúdica do jogo transformada em questão pátria, com Primeiro-Ministro e respetivo séquito transatlantizados “entre Braga e Nova Iorque”, para citar Variações, não fica assim. Um horoscópico deputado “orgânico”, Hugo Soares, situou bem a questão: - com um “amuleto” como o Primeiro-Ministro a “seleção” nada tem a temer. Falava depois da vitória sobre a Croácia, de onde chegaram imagens do Luís a trabalhar no balneário, agarrando-se a Ronaldo, com o presidente da Federação de Futebol, Pedro Proença, agarrando-se ao Luís, tudo de cachecol ao pescoço e a demagogia a subir a níveis mais elevados que o esplendor na relva.

Assim foi sempre. Com o poder político a sanguessugar o desporto. Os primeiros campeões mundiais portugueses de alguma coisa, os hoquistas dos anos 1940, ou os Eusébios de 1966 bem o sabiam. Agora que o desporto se agarre às abas do poder político, para se transformar em mais poder ainda, isso é coisa mais elaborada.

A seleção de futebol tem-se constituído numa metáfora da dominação política do negócio do nosso tempo: o homem-marca -no caso, Cristiano Ronaldo-, que para além do que ganha e dá a ganhar à Federação em metálico, entenda-se, pode, a troco disso declarar, à revelia dos treinadores e responsáveis, que só sai da seleção quando ele quiser, e não quando “vocês” quiserem.

A reprodução autoritarista pelo desporto do poder cada vez mais violentamente oligocrático da política, é um modelar canal aberto para as condutas de uma sociedade barbarizada como a que temos hoje. Que mistura grunhidos quando ganha com vagidos quando perde. Que assobia para o lado e sai de fininho quando a coisa corre mal deixando os demais a naufragar por sua conta e risco, e dá entrevistas tonitruantes quando ganha, a bater no peito de todos tarzans de t-shirt "de Portugal”, salário de miséria e cabelo rapado em baixo com tufo em cima, que pululam pelas ruas e ecrãs.

É esse o modelo que o Primeiro-Ministro recomenda que cada português siga. É esta a subjetividade que o poder deseja produzir sob a marca “portugueses”. Contudo, enquanto o ar nesta latrina se vai tornando cada vez mais irrespirável, como dizia o título de um belo disco dos Mão Morta, o “ambiente amigo dos negócios” prosperará. ¿Verdad?"

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Adendas:

 
  • «"Burros" e "vendidos", foi desta forma que Sandra Marisa Prata dos Santos, de 58 anos, secretária pessoal do primeiro-ministro desde novembro de 2025, classificou os jornalistas do Público que, na sua opinião, se 'atreveram' a questionar a viagem de Montenegro aos Estados Unidos, a terceira em apenas duas semanas, para assistir ao jogo da seleção portuguesa no Mundial de futebol, hoje frente a Espanha. Visivelmente incomodada com o título do post publicado na conta do Público no Instagram, Sandra Prata, que no passado foi secretária durante 12 anos de Joaquim Pinto Moreira, o antigo presidente da Câmara de Espinho que está a contas com a justiça no chamado 'caso Vortex', certamente esquecendo-se das funções oficiais que desempenha no gabinete de Luís Montenegro em S. Bento, não encontrou melhor maneira de comentar a notícia do que escrever na caixa de comentários: "Que título parvo, PM não é bombeiro, e para tratar dos incêndios temos o MAI". E rematou, aqui confundindo o diário Público com o semanário Expresso: "No Expresso ou são burros ou vendidos". Assim, tal e qual…» Fonte.


terça-feira, 7 de julho de 2026

FOGOS DE ARTIFÍCIOS: IMPACTOS SIGNIFICATIVOS E DURADOUROS

  • Estudos recentes publicados em revistas da American Chemical Society (ACS), que revelam que os fogos de artifício têm impactos ambientais significativos e duradouros, para além do espetáculo visual que proporcionam. Os resíduos de fogos de artifício usados libertam iões metálicos e matéria orgânica dissolvida em lagos e rios, ao mesmo tempo que absorvem outras substâncias. Estas alterações químicas podem perturbar as comunidades microbianas e os ecossistemas aquáticos, especialmente quando grandes quantidades de lixo são arrastadas para os cursos de água após as celebrações. Um estudo realizado durante as celebrações do Ano Novo Lunar na China, detetou aumentos substanciais de aminas — substâncias químicas que reagem na atmosfera para formar neblina — a par de outros poluentes relacionados com fogos de artifício, como partículas finas e iões de sulfato. Fonte.
  • A Colúmbia Britânica e Alberta ficam para trás no que diz respeito às distâncias de segurança para os residentes em relação à fraturação hidráulica. Muitos dos produtos químicos utilizados na fraturação hidráulica são nocivos para os seres humanos e incluem substâncias cancerígenas, como os PFAS (comumente designados por «produtos químicos eternos»), e desreguladores endócrinos. Estes produtos químicos podem vazar para o ambiente através de derrames, de tubagens que acabam por sofrer erosão e fissuras, e da evaporação para a atmosfera quando armazenados em tanques abertos de águas residuais. A toxicidade desta mistura química é ainda mais agravada por materiais radioativos naturais e metais pesados extraídos das profundezas do subsolo durante o processo de fraturação hidráulica. Fonte.
  • Consulta pública até 24 de julho: Projeto Híbrido da Herdade dos Gagos (Vidigueira e Portal) - produção de energia elétrica a partir de fonte solar e eólica. Fonte.
  • Alemanha salva floresta da exploração mineira. Os alemães venceram a batalha para impedir a construção de uma mina de carvão numa floresta ancestral. Resta apenas 145 da floresta original. Fonte.

BICO CALADO

  • Balogun apanhou um cartão vermelho e foi expulso por pontapé no tornozelo do defesa Tarik Muharemovic no jogo frente a Bósnia-Herzegovina. Trump pediu a Infantino que reexaminasse a expulsão. A FIFA transformou a expulsão em pena suspensa de um ano., contrariando as regras de suspensão automática previstas no código da FIFA e nos regulamentos do torneio. Fonte.
  • "(...) O caso de Montenegro é pagológico, não falha um jogo lá fora, não o demove a aceitação sistemática de favores da FIFA cuja ética é ainda mais suspeita do que a sua. Com o País a arder, metódica e eficientemente, o Luís reincide em ausentar-se do País, indiferente às Jornadas Parlamentares do PSD, fuga que se compreende para não aturar os deputados do seu partido. Tal como em Sevilha, os supersticiosos da oposição, supersticiosos e fanáticos da bola há-os em todos os partidos, hão de atribuir ao Luís o efeito pernicioso da sua presença. De qualquer modo, a Pátria está hoje em Dallas a prestar homenagem ao Ronaldo, numa devoção beata e esquizofrenia futebolística enquanto o País arde, as contas do Estado se deterioram, os exames se encontram num caos e a vida dos portugueses se complica. O luís troca o retiro espiritual da bancada do seu partido pela peregrinação a Dallas. O regresso a Fátima e ao Futebol é o Fado de um país que se esquece de si próprio nos jogos de futebol onde entra sempre em euforia e sai frequentemente em depressão." (Carlos Esperança

  • O bilionário da tecnologia de direita Peter Thiel acusa o Papa Leão XIV de estar a fazer o trabalho do Partido Comunista Chinês com as suas críticas à inteligência artificial. Na sua recente encíclicao Papa apelava a uma regulamentação rigorosa da IA, uma tecnologia que, segundo o pontífice, aumenta o «risco de desumanização» em todo o mundo. Fonte.
  • A proposta da OpenAI de ceder 5% do seu capital ao governo dos EUA — apresentada como uma forma de os americanos partilharem os lucros da IA — é uma daquelas manobras que revelam muito mais do que pretendem esconder. Não se trata de um gesto generoso, mas sim de uma oferta simbólica, uma gorjeta destinada a legitimar uma apropriação maciça de valor construído com base em livros, artigos, conversas, código, imagens, ciência, trabalho académico, jornalismo, criatividade e dados produzidos por milhões de pessoas que nunca foram consultadas, reconhecidas ou compensadas. Enrique Dans, Medium.
  • O Ministério das Finanças decidiu castigar o ECO por uma notícia publicada e por isso 'desconvidou' um jornalista para um encontro informal com um secretário de Estado. Fonte.
  • Uma máquina de morte com 250 anos não é motivo para comemoração. Nate Bear, Substack.

LEITURAS MARGINAIS

“ISRAEL RECORRE À ARQUITETURA PARA PROSSEGUIR O GENOCÍDIO”
Patricia Simón, La Marea.Rev. O’Lima.


O arquiteto israelita Eyal Weizman (Haifa, 1970) tornou-se um dos principais investigadores de crimes de guerra graças à metodologia que desenvolveu juntamente com a sua equipa na Forensic Architecture. Este grupo interdisciplinar sediado na Goldsmiths, Universidade de Londres, reúne arquitetos, programadores, juristas e jornalistas, entre outras disciplinas, para construir representações em 3D com imagens de satélite, vídeos e fotografias, bem como testemunhos de vítimas de graves violações dos direitos humanos. Entre as suas dezenas de investigações, destacam-se as realizadas sobre os bombardeamentos sistemáticos na Síria contra hospitais por parte das forças aéreas russas e síriasbem como os ataques com armas químicas do regime de Al-Assado desaparecimento dos estudantes de Ayotzinapano México; o genocídio alemão na Namíbiabem como numerosos trabalhos sobre a ocupação israelita e o genocídio em curso na Faixa de Gazapelos quais fazem parte da ação movida pela África do Sul contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça.
Em 2023, Weizman publicou «Através das paredes» (Errata Naturae), no qual aborda a forma como o Exército israelita aplicou as teorias pós-modernistas do urbanismo na sua forma de conduzir a guerra durante a Segunda Intifada, perfurando e atravessando as habitações dos civis palestinianos para evitar as zonas abertas e transformando-as numa rede de passagens destinadas a aprofundar o controlo e a ocupação. Três anos depois, publicou «Ungrounding, The Architecture of Genocide»* (Fern Press), um livro excecional pela sua capacidade de revelar, de forma científica, humanista e histórica, como o genocídio de Gaza é um processo que o sionismo tem vindo a executar ao longo do último século através da colonização e como Israel transformou o solo, o subsolo e o espaço aéreo para cumprir o seu objetivo final: expulsar o povo palestiniano da sua terra.
A Penguin vai publicar este livro em Espanha em 2027. O livro, nas palavras do escritor e professor Tareq Baconi, «lança as bases da arquitetura da libertação». Francesca Albanese afirmou que «demonstra que a descolonização não é vingança, mas sim uma condição de justiça para a libertação dos palestinianos e dos israelitas». Ilan Pappé, por seu lado, definiu-o como «extraordinário».
Weizman acaba de o apresentar em Barcelona, aproveitando a sua participação no Congresso Internacional de Arquitetura, para o qual a Forensic Architecture contribui, além disso, com uma conferência sobre o genocídio em Gaza. Em busca de um pouco de tranquilidade, a conversa com ele decorre numa das escadas de emergência do movimentado Centro Internacional de Convenções. Weizman tem pouco em comum com o trabalho da maioria dos participantes. Ele define-se como defensor dos direitos humanos. A arquitetura é a sua forma de o fazer.
Em «Ungrounding», explica e mostra — através das reconstruções em 3D realizadas pela Forensic Architecture — como Israel está a apagar, de diversas formas, as provas do genocídio e da própria existência de vida em Gaza. Uma dessas formas revela-se especialmente infame, mesmo no contexto do pior dos crimes, um genocídio: explica como o Exército israelita está a esmagar com bulldozers os escombros dos edifícios destruídos, a vegetação, os vidros, os plásticos, tudo, incluindo os restos mortais das mais de 10 000 pessoas desaparecidas, até os transformar em dunas de areia. É para lá que os atiradores de elite e os tanques sobem para atacar. Também criam campos fechados de interrogatório e detenção, delimitam novas rotas e fronteiras e, acima de tudo, encerram os 2 milhões de palestinianos que já vivem amontoados em 30% da Faixa de Gaza.

Qual é o objetivo de eliminar tudo o que havia em Gaza quando estamos a assistir ao genocídio em direto?

O genocídio implica sempre várias coisas: um crime contra as pessoas, contra o território e contra as condições que permitem a vida, e implica também uma violência contra as provas que demonstram que esse genocídio foi perpetrado.
O genocídio israelita em Gaza faz parte de uma estrutura histórica mais ampla: o colonialismo de colonização. O colonialismo de colonização, seja o espanhol na América Latina, o australiano ou o israelita na Palestina, segue uma lógica de eliminação do que existe para impor novas paisagens, estilos de arquitetura e infraestruturas, uma nova botânica…
A eliminação da população indígena nem sempre ocorre através de grandes massacres, como estamos a ver em Gaza. Também pode decorrer ao longo de décadas, ou mesmo séculos, privando-a das condições necessárias à vida. É por isso que este livro dedica grande atenção ao solo, porque este é a condição da vida indígena, a fonte de toda a agricultura e dos aquíferos. E o colonialismo por colonização sionista e, posteriormente, o israelita têm estado intimamente ligados à transformação do solo da Palestina e à ocupação das terras mais férteis, como a bacia do Wadi Gaza. No final da Nakba, Israel expulsou os agricultores das suas terras, deslocou-os para o deserto e apagou todas as provas da sua presença. O objetivo era que não tivessem para onde regressar, porque todos os povos indígenas deslocados tentam regressar às terras onde a sua cultura e identidade foram forjadas e onde tinham o seu sustento.
Assim, a criação de Israel na Palestina implicou a destruição de todas as provas da existência palestiniana: demoliram os edifícios, araram os campos na direção oposta à que os palestinianos costumavam seguir, criaram grandes propriedades em vez das pequenas explorações familiares palestinianas e criaram um novo espaço de maneira que os palestinianos não pudessem reconhecer como seu para que, em última análise, não pudessem reivindicar o seu direito ao regresso.
De facto, a Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio inclui entre os seus pressupostos a submissão intencional de um grupo a condições de existência que conduzam à sua destruição física, total ou parcial. E o seu livro começa e termina explicando como, no último século, Israel transformou o ambiente e a arquitetura numa arma para destruir as condições de vida.

Como é que se está a fazer durante o genocídio?

Compilámos todas as ordens de evacuação que Israel emitiu ao longo destes quase três anos. Sempre que anunciavam que iriam bombardear um bairro e ordenavam aos seus habitantes que se deslocassem, em poucas horas, para uma suposta zona de segurança, avisavam-nos de que, caso não cumprissem a ordem, perderiam o seu estatuto de civis. Trata-se de mais uma das mais de um milhão de manobras jurídicas que Israel está a utilizar para alegar que estava a tentar salvar vidas no processo interposto pela África do Sul perante o Tribunal Internacional de Justiça.
Ao recolhermos todas as localizações das áreas para onde a população foi deslocada ao longo destes três anos, constatámos que a foram empurrando para sudoeste até a confinar num campo de concentração situado exatamente onde termina a zona fértil e começam as dunas de areia. Ou seja, continuam a criar as condições para provocar a destruição dos sobreviventes. Esta cláusula estrutural da convenção é como se definisse o genocídio por desgaste, no qual os povos indígenas são assassinados lentamente através da fome, das epidemias, da pobreza intergeracional, da doença… O genocídio continua em curso.

O senhor divide os capítulos do seu livro em solo, subsolo e espaço aéreo. Por que razão é tão importante compreender como Israel controla estes três espaços para compreender a ocupação e o genocídio?

Precisamos de desenvolver uma conceção tridimensional do território. Um mapa mostra a superfície, mas por baixo existe uma paisagem subterrânea variada: arqueologia, infraestruturas, aquíferos… O espaço aéreo, incluindo o das cidades palestinianas, também é controlado por Israel. Por conseguinte, temos uma arquitetura tridimensional que foi, de facto, compreendida pelos combatentes da resistência palestiniana.
Os agricultores palestinianos compreenderam a tridimensionalidade do terreno e foram eles que desenvolveram os túneis, que constituem a arquitetura de resistência mais extraordinária. Ao longo de séculos, estes agricultores aprenderam a escavar poços com mais de 100 metros de profundidade, pois sabiam como escavar com quase nenhum oxigénio, atravessando argila, areia e arenito, e como reforçar as cavidades no subsolo. Quando foram expulsos das suas terras e ficaram confinados em campos de refugiados nas dunas de areia, utilizaram esse conhecimento ancestral para escavar túneis e manter o contacto com os seus entes queridos, que tinham sido deslocados para o Egito. Mais tarde, quando Israel asfixiou Gaza com o bloqueio, os túneis tornaram-se vias de abastecimento para a Faixa. E, claro, estabeleceram-se também como meio de defesa. Quando Israel escava bunkers, os palestinianos escavam túneis, que, além disso, não podem ser destruídos tão facilmente pela força aérea israelita.
Agora, Israel declarou ter destruído 20% dos túneis. Isso não tem de ser verdade. Se apresentam essa percentagem, é provável que o número seja inferior. Mas destruíram, de facto, 80% do solo de Gaza, pelo que, por baixo, existe uma matriz social que contém a memória da relação com uma superfície tão destruída que se tornou irreconhecível.
Trata-se de uma guerra tridimensional em que, quanto mais Israel controla o espaço aéreo, mais a resistência palestiniana se aprofunda no subsolo.

Muitas vezes, a imprensa ocidental apresenta os colonos como um grupo radicalizado e fora do controlo do Estado israelita. Mas, como bem explica no seu livro, os colonos são o pilar do Estado israelita desde a sua fundação, o que é lógico se tivermos em conta que se trata de um projeto colonial. Qual é o plano israelita para Gaza e que papel desempenham os colonos nesse plano?

O objetivo de Israel com o genocídio não era matar todos os palestinianos, mas sim um número suficiente para que os restantes fugissem para o Egito e fechar as portas da Palestina atrás deles. Mas o Egito manteve a fronteira fechada e o que Israel procura agora é aquilo a que chama a «transferência silenciosa» ou «voluntária» por parte dos palestinianos. Israel mantém Gaza em condições tão difíceis para que os palestinianos deixem de resistir, para que partam para qualquer país que lhes conceda um visto e acabem por renunciar ao seu direito de regresso. E a arquitetura e a reconstrução desempenham um papel importante no objetivo da limpeza étnica.
Nem o plano estúpido de Trump para a Riviera do Médio Oriente, que nunca se concretizará, nem o plano egípcio de construir habitações em massa têm a ver com a reconstrução, mas sim com o deslocamento. Ambos são uma forma de forçar os palestinianos a partir enquanto, supostamente, se erguem os novos edifícios. Mas Israel nunca lhes permitiria regressar. Como disse um ministro israelita, as forças do mercado farão o que o Exército israelita não conseguiu fazer: a limpeza étnica total dos palestinianos da Faixa de Gaza. Ou seja, Israel utiliza a arquitetura para prosseguir o genocídio por outros meios. Mas o povo palestiniano tem memória da Nakba, de 1947 e 1948, dos anos 50, dos anos 60 e de todas as campanhas através das quais Israel tentou expulsá-los. Por isso, tantos não abandonaram as suas casas e, por isso também, muitos continuam a viver entre os escombros das mesmas.

Muitas vezes pensamos que a degradação da maior parte da sociedade israelita, bem como a desumanização que esta desenvolveu contra o povo palestiniano, são o resultado dos sistemas e políticas que tornaram possível quase 80 anos de ocupação. No entanto, no seu livro, vemos que os padrões de ódio e crueldade que hoje nos horrorizam já eram utilizados pelas milícias sionistas nos primeiros anos da ocupação. Como é que puderam recorrer a essa maldade logo desde o início, após a experiência tão recente do Holocausto?

O colonialismo de colonização baseia-se na desumanização dos palestinianos. A própria noção do Estado de Israel como um Estado judeu significa que esse lugar é apenas para os judeus e que todos os outros são apenas visitantes — sejam do passado, do presente ou do futuro — e que não serão considerados como pessoas ligadas a esse território. Nunca aceitaram a relação dos palestinianos com a Palestina, nem a sua arquitetura ou a sua agricultura como algo de valor. A desumanização dos palestinianos é total e atua em todos os domínios. Assim, podemos também compreender por que razão a desumanização atuou na direção oposta a 7 de outubro de 2023 e por que razão surgiu essa crueldade contra os civis capturados nos kibutz. Ainda assim, senti-me muito inspirado pelas relações humanas que se estabeleceram entre alguns reféns e os palestinianos, pelos testemunhos em que israelitas contavam como partilhavam a comida, pelas suas despedidas comoventes… Não vi isto acontecer no sistema prisional israelita, onde tantos palestinianos são violados e morrem devido às torturas.
Acho que são esses momentos de humanidade e solidariedade que devemos procurar, para que a Palestina volte a ser um lugar respeitável e democrático, onde todas as religiões coexistam e tenham os mesmos direitos. E nenhuma fronteira vai conseguir isso. Precisamos de lutar pela descolonização da Palestina e desmantelar o regime de apartheid, que é o motor do colonialismo de colonatos que visa a transferência das terras palestinianas para os judeus. É preciso democratizar esse lugar através do direito ao regresso.

Mas, de acordo com várias sondagens, como a realizada pelo Penn State Institute e publicada pelo jornal Haaretz, 80% dos judeus israelitas inquiridos apoiam a limpeza étnica de Gaza. Como é possível recuperar uma sociedade tão radicalizada pelo ódio?

Quando um Estado se baseia na discriminação, na supremacia judaica, quando todo o sistema educativo está orientado para a desumanização, a deshistorização e a despolitização da sociedade palestiniana, não é de admirar que 80% dos israelitas defendam a expulsão dos palestinianos. Para desmantelar essa mentalidade, é necessário agir em todos os domínios.
Não sei quando ocorrerá a descolonização; poderá resultar de pressões externas ou da implosão da sociedade devido às suas próprias contradições. Os confrontos entre a extrema-direita e a direita menos extrema estão a dilacerar a sociedade israelita. Em Israel, apenas cerca de quinze deputados apoiam um Estado palestiniano com as fronteiras de 1967, alteradas por acordo. Portanto, não há nada no atual sistema político que represente a possibilidade de uma mudança real. Mas nenhum poder fascista, racista ou colonialista dura para sempre. Não posso saber quando chegará o seu fim, mas, como investigador, devo insistir nas ligações à pequena escala de humanização e de convivência.

De que forma este apagamento do território que Israel está a levar a cabo durante o genocídio está a alterar e a dificultar o trabalho da Forensic Architecture?

Israel não permite que investigadores de direitos humanos entrem em Gaza e já assassinou centenas de jornalistas. E, mesmo assim, os palestinianos arriscam-se a filmar, sabendo que os soldados israelitas têm como política disparar contra quem quer que os aponte uma câmara. Fazem-no para que possamos ver o que está a acontecer. Por isso, temos o dever ético de examinar cada vídeo com muito cuidado para ver onde se situam, como se relaciona com outros vídeos, com outros testemunhos, com o fluxo de documentação que nos chega sobre esse genocídio. E precisamos de verificar se é autêntico, onde e quando foi filmado, para o apresentar como prova no processo de genocídio da África do Sul contra Israel. E mês após mês, ano após ano, Gaza está a desaparecer: os edifícios que apareciam ao fundo de um vídeo são agora dunas sinuosas. Temos habitantes de Gaza a trabalhar connosco que já não conseguem reconhecer Gaza.

Ficou demonstrado que Gaza está a utilizar a inteligência artificial (IA) para acelerar o genocídio, mas como é que a está a utilizar para eliminar as provas?

Todos sabem que Israel está a utilizar a IA para selecionar alvos, mas não devemos exagerar a sua importância, porque Israel quer dar a impressão de que utiliza os melhores meios para distinguir entre os combatentes do Hamas e a população civil; a realidade é que destruiu tudo. Há cerca de 100 000 mortos, para além dos desaparecidos, e cidades inteiras varridas do mapa. O que é que isso tem a ver com o uso da IA?
O nosso trabalho consiste em ouvir testemunhos, analisar as provas e identificar o que está a acontecer. A IA não tem lugar para além da catalogação do material. Diria que a Forensic Architecture é um trabalho que vem do coração, bem como uma ética da precisão e da identificação. Vemos os vídeos como se nos tivessem sido enviados por um ente querido, ouvindo, observando e compilando, vídeo a vídeo, um arquivo do genocídio.

No livro, além de explicar os mecanismos de apagamento da Palestina, o autor reconstrói-a através das pessoas que sofreram o exílio da Nakba. Por que razão é tão importante esse processo de reconstrução?

Traçar um mapa das aldeias de onde foram expulsos é uma forma de lhes prestar homenagem através da precisão e da beleza de reconstruir um poço, a sua casa, numa paisagem que já não existe. Porque o oposto de desenraizar é voltar a enraizar, reescrever a paisagem com o que ela era, ao mesmo tempo que se aceita a ferida e se trabalha pelo regresso dos refugiados.

Como foi o seu processo de tomada de consciência sobre a questão palestiniana?

Sou de Haifa, uma cidade um pouco singular, porque nem todos os palestinianos foram expulsos de lá em 1948. Cresci em contacto com palestinianos e com a determinação de me tornar arquiteto. Foi assim que comecei a perceber as ruínas que restam da vida palestiniana, como os bairros judeus israelitas rodeiam os palestinianos, como a terra é dividida. A arquitetura abriu-me os olhos para a lógica colonial do regime da ocupação israelita.

O senhor reside no Reino Unido, onde o protesto contra o genocídio foi criminalizado e onde a organização Palestine Action foi proibida. Na Alemanha, foi alvo de fortes críticas quando foi dar uma palestra sobre o genocídio com a relatora Francesca Albanese. De que forma o trabalho da Forensic Architecture sobre a Palestina o afetou?

Perdemos financiadores. Muitos daqueles que pensávamos serem liberais e defensores dos direitos humanos, quando começámos a trabalhar sobre o genocídio e o apartheid, disseram-nos: «Oh, isso é demasiado, não deviam trabalhar nisso». Precisamos de encontrar novos financiadores, mas é muito difícil. A nossa sede na Alemanha quase teve de fechar e a polícia alemã classificou-me como alguém que deve ser vigiado. Como é possível que um defensor dos direitos humanos, um defensor israelita dos direitos humanos, membro de uma família sobrevivente do Holocausto, seja alvo de acusações de antissemitismo na Alemanha? Como chegámos a este ponto?

segunda-feira, 6 de julho de 2026

GONDOMAR: ABSOLVIDOS OS ATIVISTAS DA CAMPANHA ‘PARAR O GÁS’

  • Nove pessoas acusadas de denunciar a Central de Gás da Tapada do Outeiro foram absolvidas em Tribunal Em 2023, ativistas da campanha “Parar o Gás” entraram na Central de Ciclo Combinado da Tapada de Outeiro, em Gondomar, e colocaram faixas numa das torres a denunciar a crise climática e o aumento de custo de vida devido aos lucros da indústria de combustíveis fósseis: “Vossos Lucros = Nossa Pobreza” (tirado da notícia no Expresso). Nessa altura, de acordo com os dados divulgados pela associação Zero, a Central ocupava o segundo lugar das infraestruturas mais poluidoras do país, logo depois da refinaria da Galp em Sines. Fonte.
  • Anda por aí uma petição para acabar com reportagens em direto e noticias de incêndios na comunicação social. Proibir isso seria um ato de censura, porque os cidadãos têm o direito de ser informados sobre eventos de grande impacto público, como os incêndios. Além disso, esconder a informação seria um retrocesso na transparência e na capacidade de a população se proteger. A solução para o problema dos incêndios criminosos passa por um investimento sério na prevenção, investigação e punição, e não na ocultação do problema da população.
  • Uma mina de urânio situada a cerca de 10 milhas a sul do Grand Canyon está a solicitar ao estado que aumente os níveis de arsénico que podem ser legalmente detetados nas águas subterrâneas que utilizam. Os mineiros já bombearam mais de 80 milhões de galões de água subterrânea do interior do poço da mina desde 2016. Essa água contém chumbo, arsénico e urânio. Desde 2023 que a mina de urânio de Pinyon Plain é explorada. Os adversários da ideia afirmaram que a exploração mineira nesta zona e o aumento dos níveis de arsénico são demasiado arriscados, dada a proximidade da mina a um grande aquífero. Fonte.
  • Aconteceu em reunião da Câmara Municipal de Claremore, Oklahoma. Depois de intervir, um cidadão pergunta se pode entrgar uns documentos à mesa. Ouve-se uma voz: Prendem-no! Darran Blanchard ultrapassara o tempo limite de 3 minutos reservados para intervenções públicas. Debatia-se a implantação de um centro de dados na localidadeOs residentes sublinham que há muitas questões por esclarecer, nomeadamente o consumo de água, o consumo de energia, a perda de terras agrícolas e incentivos fiscais que terão sido negociados nas suas costas. Eis como no país que diz ser o mais democrático do mundo lida com a dissidência quando estão envolvidos grandes investimentos em infraestruturas.

REFLEXÃO

QUEM LUCRA COM O FOGO?
Diogo Gomes, Esquerda.


Todos os anos, Portugal arde. Todos os anos, há um debate sobre prevenção, sobre os meios, e sobre culpas. E todos os anos, quando o fumo baixa, as coisas continuam exatamente onde estavam.

A floresta portuguesa foi entregue à indústria da celulose. O eucalipto ocupa hoje 26% da floresta nacional, cresceu 59% entre 2005 e 2015, porque empresas como a Navigator precisavam de matéria-prima barata e o Estado foi deixando aliás foi mais do que deixar: subsidiou, até olhou para o outro lado enquanto o território era transformado numa plantação ao serviço de acionistas. O eucalipto arde, toda a gente o sabe. A indústria também sabe. E continua a plantar.

Isto tem um nome. Chama-se captura do Estado por interesses privados. Uma empresa lucra com uma floresta que é um risco permanente para as populações que vivem à volta. As aldeias arderam. As pessoas morreram. Pedrógão Grande aconteceu. Monchique aconteceu. E a resposta do Estado foi continuar a assinar contratos.

Mas há uma segunda metade neste negócio.

Para combater o fogo que a indústria ajuda a criar, o Estado paga dezenas de milhões por ano a empresas privadas. O orçamento do dispositivo de combate a incêndios cresceu de 38 milhões em 2016 para 75 milhões nos últimos anos. Em 2025, a Polícia Judiciária fez buscas em nove empresas do setor. Constituiu arguidos sete administradores. A suspeita é de cartel com concursos viciados, de informação privilegiada a chegar às empresas certas antes dos concursos fecharem. Uma dessas empresas ganhou 40 milhões de euros em contratos num único dia. E em março deste ano, com as investigações em curso, a Força Aérea voltou a adjudicar 21 milhões à mesma empresa.

Leiam isto outra vez. O Estado sabe que há um cartel suspeito a sugar dinheiro público no combate aos incêndios. E renova o contrato.

Há quem precise que o Estado continue a pagar. Quem tenha acesso suficiente para garantir que isso aconteça. E há populações do interior que continuam a ver as suas casas arder, as suas paisagens desaparecer, enquanto o dinheiro público vai para onde sempre foi.

A quem serve este modelo? Não serve as comunidades rurais, que ficam sem floresta e sem futuro. Não serve os bombeiros voluntários, que arriscam a vida com meios insuficientes. Não serve o erário público, que paga uma fatura que não devia existir nesta escala. Serve a Navigator. Serve os operadores de helicópteros que concertam preços. Serve quem capturou a política florestal e a política de proteção civil como mais um setor de extração de lucro.

A solução é proibir a expansão do eucalipto. É renacionalizar os meios de combate a incêndios, retirando do mercado um serviço público essencial. É responsabilizar quem fez da floresta portuguesa uma fábrica de catástrofes. E é ter a coragem de dizer em voz alta que este país arde todos os anos porque há quem lucre com isso, e porque esse alguém tem mais acesso ao poder do que as pessoas que perdem tudo.

Enquanto isso não mudar, o fogo volta. E o contrato renova-se