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domingo, 26 de julho de 2026

BORBA: DETIDOS POR CAÇA DE OURIÇOS-CACHEIROS

Foto: Francisco Clamote. 
  • GNR de Borba detém 5 homens por caça ilegal a ouriços-cacheiros, uma espécie em declínio. Fonte.
  • Pela primeira vez em França, um projeto de centro de dados foi suspenso por via de medida cautelar pela justiça, no departamento de Drôme. Uma vitória provisória, devida à ausência de um estudo de impacto ambiental para este projeto, cujo custo está estimado em 1,5 mil milhões de euros. Fonte.
  • O Ministério do Ambiente da Alemanha aprovou um projeto franco-russo para a produção de barras de combustível utilizadas em reatores de conceção russa na cidade de Lingen, no noroeste da Alemanha. O projeto de joint venture entre uma subsidiária da francesa Framatome e da russa Rosatom suscitou receios de espionagem, mas as autoridades alemãs afirmaram que não tinham qualquer possibilidade legal de o rejeitar. Fonte.
  • Os apicultores e ambientalistas em França reagiram com indignação depois de o parlamento ter aprovado um projeto de lei que reautoriza a utilização de dois neonicotinóides para combater doenças que destroem as culturas mas que irá matar as abelhas e reduzir as colheitas. Fonte.

BICO CALADO


A propósito de ajuste direto de 120 mil euros da Câmara para sunset party em Espinho a cargo de empresa feita à pressa e sem currículo. Via Mário Ortigão.


A Câmara Municipal de Espinho atribuiu apoio de 60.000 euros à Paróquia de Nossa Senhora d'Ajuda de Espinho para realização de obras de beneficiação e requalificação da Capela de Nossa Senhora d'Ajuda, obra orçada em 390 mil euros. E, como se trata de obras que certamente vão exigir cimento preparado por betoneira, nada como um texto adequado de tipo betoneira como o fabricado pelo executivo camarário e copicolado na íntegra pelos media locais e adjacentes. Reparem no texto dedondinho onde perdemos a contagem do número de vezes em que certas palavras são repetidas.

Sobre este tema, convirá ler e apreciar este soneto.

LEITURAS MARGINAIS

SALAZAR NÃO MORREU POBRE: E ISSO NÃO É UM PORMENOR
Paulo Marques, baseado numa reportagem da revista Sábado.


«Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves, publicado na revista “Sábado” (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026), veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que “morreu pobre”.

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o quadro completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Convém, aliás, não perder de vista uma evidência que por vezes desaparece das discussões sobre a probidade pessoal de Salazar. O antigo presidente do Conselho permaneceu no poder durante trinta e seis anos, não porque fosse regularmente submetido ao veredicto de eleições livres e competitivas, mas porque dirigia um regime que controlava a vida política do país. Os partidos foram proibidos ou severamente condicionados, a União Nacional manteve o monopólio do apoio institucional ao regime, a censura limitava a liberdade de expressão e a polícia política vigiava, perseguia, prendia e, em alguns casos, esteve associada à morte de opositores. Tudo isto não serve para demonstrar que Salazar se tenha enriquecido ilicitamente. Serve apenas para recordar que a sua permanência no poder não resultou dos mecanismos normais de uma democracia liberal, mas dos instrumentos próprios de uma ditadura.

E convém lembrar que Salazar não governava sozinho nem pairava acima das fragilidades humanas que tantas vezes denunciava. Pelo contrário: rodeou-se durante décadas de uma constelação de homens cuja principal virtude era a obediência. Uns eram ambiciosos, outros bajuladores, alguns francamente comprometidos com interesses pouco recomendáveis. Salazar conhecia-os bem e sabia utilizá-los. Promovia-os, afastava-os, colocava-os em confronto ou fazia-os cair em desgraça conforme as necessidades do momento. Era um mestre da intriga, da insinuação e da pequena política de bastidores. Mantinha-se acima das fações precisamente porque estimulava a competição entre elas.

Ao mesmo tempo, apoiou-se nas grandes famílias económicas e financeiras do seu tempo, servindo-se delas e servindo-as quando isso convinha à estabilidade do regime. Curiosamente, muitas dessas famílias continuariam a ocupar posições relevantes na sociedade portuguesa muito depois do fim do Estado Novo. Por isso, a imagem do professor solitário, isolado das redes de influência e dos interesses instalados, é quase tão fantasiosa como a do asceta sem património.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que esta promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

Mais uma vez, as interpretações dividem-se. Uns consideram que esse apoio era uma obrigação para com um antigo chefe do Governo. Outros entendem que representava um privilégio incompatível com a imagem de rigor que o próprio cultivava.

Mas há uma ironia impossível de ignorar.

Durante décadas, Salazar construiu um regime baseado na exaltação da disciplina, da contenção e do sacrifício. O país foi educado para admirar a poupança e desconfiar da abundância. O chefe surgia como exemplo máximo dessa pedagogia moral.

Só que os documentos mostram que a realidade era mais complexa. O homem era poupado, sem dúvida. Era meticuloso, também. Não gostava de desperdício. Mas possuía bens, património, poupanças e uma rede de facilidades associadas ao cargo que ocupou durante quase quarenta anos.

Por outras palavras, não era o milionário corrupto imaginado pelos seus detratores mais ferozes. Mas também não era o santo laico que uma certa memória nostálgica insiste em apresentar.

E talvez seja precisamente isso que incomoda.

Porque é mais fácil lidar com caricaturas do que com seres humanos reais. A caricatura do ditador ladrão é simples. A caricatura do ditador asceta também. O problema é que os factos raramente têm a delicadeza de caber nas caricaturas.

Os documentos analisados pela investigação da “Sábado” sugerem que António de Oliveira Salazar foi aquilo que muitos mitos se recusam a admitir: um homem austero, sim; um homem frugal, frequentemente; mas também um homem que acumulou património, beneficiou das prerrogativas do poder que exerceu e morreu bastante mais confortável do que a lenda (alimentada pelos seus admiradores, mas também por ele próprio) nos habituou a acreditar. E talvez o erro mais persistente seja imaginar que esse poder foi exercido num vazio, acima dos interesses, das influências e das dependências humanas. Não foi. Como tantos governantes que permanecem tempo suficiente no topo, Salazar tornou-se o centro de uma teia de lealdades pessoais, favores, rivalidades e conveniências. É precisamente por isso que a história séria é sempre menos confortável do que a nostalgia: porque troca a lenda pelo homem real. E os homens reais, quase sem exceção, são sempre mais contraditórios do que os mitos que deixam para trás.»

sábado, 25 de julho de 2026

ESPANHA: ATIVISTAS GALEGOS E PORTUGUESES OCUPAN MINA ILEGAL DE SAN XOÁN

  • A organização Ecologistas en Accion e o Movimento UIVO (Portugal) realizaram uma ocupação internacional da exploração mineira ilegal de San Juan, promovida pela empresa sueca Eurobattery Minerals, logo após uma manifestação em Gudiña que reuniu mais de uma centena de pessoas. Durante a ocupação, foi desfraldado um enorme cartaz com 40 metros de comprimento, exigindo o fim da impunidade na indústria mineira. Fonte.
  • A África Ocidental aprovou o plano do Gasoduto Atlântico Nigéria-Marrocos, uma infraestrutura de 6 000 km que percorrerá a costa atlântica de 14 países africanos, transportando gás nigeriano até Marrocos, antes de se ligar à rede de gás europeia existente através de Espanha. Fonte.
  • A Arábia Saudita, apesar da sua vasta riqueza petrolífera, está a apostar na energia nuclear para reduzir o seu consumo interno de petróleo, poupar mais petróleo para exportação e diversificar a sua economia, afastando-se da dependência dos combustíveis fósseis. O país pretende reduzir a sua dependência do petróleo no âmbito do seu plano Visão 2030, uma vez que registou défices orçamentais em nove dos últimos dez anos. Atualmente, a Arábia Saudita queima grandes quantidades do seu próprio petróleo e gás para produzir eletricidade. Ao utilizar a energia nuclear para a produção de eletricidade, pode exportar mais petróleo bruto para obter receitas mais elevadas, em vez de o utilizar internamente. Além disso, pretende-se que 50% da sua eletricidade provenha de fontes limpas até 2030, mas, atualmente, menos de 1% provém da energia solar e eólica, sendo a maior parte proveniente do petróleo e do gás. Embora a Arábia Saudita afirme oficialmente que o seu programa nuclear se destina a fins civis, o príncipe herdeiro já alertou que, se o Irão desenvolver uma arma nuclear, a Arábia Saudita fará o mesmo. Os EUA assinaram recentemente um acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita, permitindo a cooperação no desenvolvimento do seu programa nuclear civil, incluindo o enriquecimento de urânio. Fonte.

REFLEXÃO

A FRAUDE DO GÁS NATURAL «LIMPO».
COMO AS GRANDES EMPRESAS DO PETRÓLEO E DO GÁS CRIARAM O MITO DE QUE O GÁS NATURAL É UMA SOLUÇÃO PARA O CLIMA.
Rebecca John, Rebecca Leber, Davis Allen – Center for Climate Integrity. Rev. O’Lima.


A indústria do gás sabia já em 1907 que o gás natural era uma fonte de problemas respiratórios quando queimado em espaços fechados e, na década de 1950, sabia que o gás causava problemas no ar exterior. A partir da década de 1960, a indústria do petróleo e do gás tomou conhecimento de outra ameaça — estudos científicos emergentes revelaram que o gás natural era um contribuinte potencialmente significativo para o metano na atmosfera. À medida que as empresas e os seus representantes acompanhavam de perto os desenvolvimentos científicos sobre o metano, o nome químico do gás natural, também descobriram que se tratava de um potente gás com efeito de estufa e prejudicial para o clima.

A indústria do gás ignorou estes avisos. Sabendo que a expansão do gás natural criaria poluição atmosférica e aumentaria os níveis atmosféricos tanto de metano como de dióxido de carbono, trabalhou para minimizar estas preocupações, posicionar o gás como a alternativa limpa e amiga do clima ao carvão e concretizar uma ambição que transformaria o gás natural de um combustível marginal numa força motriz do setor energético.

As empresas de gás conceberam a primeira campanha estratégica na década de 1970 para promover o gás natural como um combustível limpo, patrocinando e promovendo as suas próprias investigações e programas publicitários que sustentassem essa afirmação através da American Gas Association (AGA) e das suas empresas de relações públicas e publicidade. Com o passar do tempo, a campanha ganhou em ambição e alcance. Os principais produtores de petróleo e gás uniram forças com a AGA, tornando-se membros da sua principal organização de investigação e financiando novos esforços para posicionar o gás natural como uma solução tanto de energia limpa como climática.

No final da década de 1980, a indústria do gás e as principais empresas petrolíferas começaram a promover o gás como um «combustível de transição» — um combustível de combustão limpa para a transição para um futuro de energias renováveis. Na realidade, planearam um futuro a longo prazo para o gás natural, ao mesmo tempo que minavam as energias renováveis, obstruindo o destino para o qual a «ponte» do gás era suposto conduzir. Ao longo dos 20 anos seguintes, a

indústria consolidou efetivamente o mito do combustível de transição ao cooptar a ciência e a supervisão originalmente destinadas a manter as emissões de carbono e metano sob controlo.

Trabalhando em conjunto numa coligação em expansão que incluía as grandes petrolíferas e, por fim, vários importantes grupos ambientalistas, a indústria conseguiu atenuar as preocupações relativas ao metano, recorrendo a estratégias elaboradas pelas mesmas empresas que, durante décadas, minaram o consenso científico sobre os malefícios do tabaco. A AGA e os grupos aliados contestaram agressivamente os dados científicos relativos ao metano através de estudos financiados pela indústria e da criação do Gas Research Institute, cujo nome soa a objetividade.

Mas a sua abordagem foi multidimensional. Enquanto criava confusão em torno do problema do metano da indústria, a indústria do gás teve o cuidado de não negar abertamente a questão das alterações climáticas, concentrando, em vez disso, a atenção no dióxido de carbono. Acompanhou isto com a promoção incansável do conceito de que o gás é limpo — certamente mais limpo do que o carvão ou o petróleo — e posicionou o gás como um combustível de transição e uma solução climática. Nesse processo, a indústria do gás consolidou parcerias com a EPA com o objetivo explícito de afastar regulamentações em favor de uma gestão voluntária das emissões, ao mesmo tempo que recrutava organizações ambientais que conferissem legitimidade aos seus argumentos.

A estratégia foi um sucesso estrondoso. Fundamental para esse sucesso foi um estudo conjunto realizado em 1996 pela indústria e pela EPA sobre as emissões de metano do sistema de gás natural. Documentos recentemente divulgados revelam que a EPA dispensou a sua revisão técnica do estudo, que, segundo o gestor do projeto, a agência não possuía «os conhecimentos especializados» para realizar, cedendo, na prática, o controlo da análise à indústria do petróleo e do gás. O estudo publicado baseou-se numa avaliação altamente seletiva das emissões de metano, e concluiu que as emissões eram tão baixas que as preocupações relativas à contribuição do gás natural para as alterações climáticas eram injustificadas. A indústria do gás sabia que o estudo não representava a totalidade das emissões de metano provenientes do sistema de gás natural, mas utilizou-o para neutralizar as preocupações do público relativamente ao metano, consolidar a reputação do gás como um «combustível de transição» amigo do clima e abrir caminho para a expansão maciça da indústria na década de 2000.

Esta imagem do gás como uma fonte de energia limpa é uma fraude que vem sendo construída há pelo menos 50 anos. É fácil encontrá-la nas comunicações do setor ao longo das últimas cinco décadas, incluindo a publicidade dirigida aos consumidores e o lóbi político. A fraude do gás natural «limpo» tem sido essencial para o sucesso da indústria no mercado, e a ideia de que o gás é amigo do clima tem estado no cerne da rápida expansão das infraestruturas de gás nas últimas duas décadas, incluindo a explosão da fraturação hidráulica, a construção de gasodutos interestaduais e terminais de exportação de gás, e a absurda classificação do gás como energia renovável em vários estados, condenando os EUA a décadas de utilização adicional de combustíveis fósseis e de emissões prejudiciais ao clima.

Grande parte desta investigação centra-se em acontecimentos históricos, em que as emissões de metano surgiram como uma ameaça clara, e no legado do sucesso da indústria. Este relatório baseia-se em documentos recentemente descobertos, pedidos de acesso a registos públicos, comunicações internas da indústria, relatórios confidenciais, artigos científicos e entrevistas com cientistas climáticos, consultores da indústria e representantes de grupos ambientalistas. Embora inúmeros relatórios e investigações tenham demonstrado a forma como a indústria do petróleo e do gás respondeu ao problema do carbono com atrasos e negação, este é o primeiro a traçar a história da resposta da indústria do gás ao seu problema do metano e a situá-la no contexto de décadas de engano.

BICO CALADO

Pedro Páscoa/Maio

Guerra: os que lucram e os que pagam. Michael Roberts, Maio.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

TORRES VEDRAS: ATAQUE QUÍMICO DANIFICA VINHA URBANA

  • Uma linha de vinha instalada no separador central de uma das principais avenidas da freguesia de Santa Maria, São Pedro e Matacães sofreu danos graves, alegadamente provocados pela aplicação deliberada de um produto químico. A Junta de Freguesia repudia o ato de vandalismo, considerando tratar-se de uma ação contra o espaço público e a identidade da região. O caso já foi encaminhado para as entidades competentes, que irão apurar eventuais responsabilidades. Fonte.
  • A confederação Ecoloxistas em Acción, da Galiza, e o Movimento Uivo, de Vinhais vão manifestar-se, na quinta-feira, em A Gudiña, em Espanha, e alertar o alcaide deste município para os impactos negativos da exploração mineira próxima do Parque Natural de Montesinho, em Portugal. Este projeto mineiro, que está a ser levado a cabo pela Tungsten San Juan, filial galega da Eurobattery Minerals, prevê, a partir do quarto trimestre deste ano, a extração de volfrâmio em Pentes, aldeia do município de A Gudina, a dois quilómetros do concelho de Vinhais. Fonte.
  • Lítio e demissões na CTMAD: O esclarecimento aos sócios. Trás-os-Montes não tem preço: A dignidade da nossa Casa e o futuro do Barroso. Teresa A. Ferreira, Diário de Trás-Os-Montes.

INGLATERRA: 25 TONELADAS DE GRÂNULOS DE PLÁSTICO ESPALHADOS NO RIO TYNE APÓS CHOQUE DE NAVIOS

South Shields. Fotografia: Alistair Leadbetter/The Guardian
  • Cerca de 25 toneladas de grânulos de plástico, a matéria-prima para o fabrico de plástico, espalharam-se pelo rio Tyne após a colisão do navio Wind Orca com o porta-contentores BG Orange, atracado no Porto de Tyne, causando danos a uma grua portuária e ferindo uma pessoa. Os grânulos de plástico foram levados pela maré até à praia de South Shields, em South Tyneside. Fonte.
  • O antigo diretor executivo da Southern Water, Matthew Wrightestá entre as quatro pessoas acusadas de conspiração para defraudar as autoridades, devido a alegações de que esteve envolvido num plano para manipular testes de qualidade da água, com o objetivo de evitar multas no valor de milhões de libras. Fonte.
  • As crianças que vivem nas zonas mais pobres de toda a Inglaterra têm 40% mais probabilidades de serem internadas no hospital devido a infeções respiratórias, revela uma análise dos dados do NHS England. Fonte.
  • A Polícia de West Mercia apreendeu mais de 275 000 libras em três empresas, no âmbito de uma investigação sobre atividades ilegais relacionadas com resíduos em Herefordshire, Worcestershire e Shropshire. Fonte.

REFLEXÃO

QUANDO OS OSSOS SÃO TESTEMUNHAS

Mário Freitas, Diário dos Açores, 22 julho 2026.

RTP

Uma tese de doutoramento defendida em Junho, na Universidade de Coimbra, fez o que 20 anos de relatórios não tinham feito - foi procurar a contaminação da Base das Lajes, não no solo nem na água, mas dentro dos corpos das pessoas da Praia da Vitória. Nos seus ossos. (...)
Durante quase 2 décadas soubemos duas coisas sobre a Praia da Vitória, e vivemos com elas com uma serenidade que hoje me parece excessiva. Soubemos que os solos e os aquíferos do concelho estavam contaminados por décadas de atividade militar norte-americana na Base das Lajes - pela circulação de cerca de 800 milhões de litros de combustível, pela Soutk Tank Farm (o maior complexo de tanques da força aérea norte-americana na Europa), por uma rede de oleodutos que atravessa a própria cidade. Soubemos que dessa herança ficaram no ambiente hidrocarbonetos, aromáticos, voláteis e metais. A pergunta que faltava, porem, não era se o ambiente estava doente - era se as pessoas estavam. Entre «o solo está contaminados e e as pessoas adoeceram» há um elo do meio que ninguém tinha testado: a exposição humana. A contaminação chegou, de facto, aos corpos?

É esse elo que a tese de Félix Rodrigues veio preencher. E começou por construir aquilo que nem sequer existia: a primeira Coleção de Esqueletos Identificados dos Açores (CEI/Açores). A partir de
remanescentes não reclamados dos cemitérios da Terceira, reuniu-se e caracterizou-se um acervo de 171 esqueletos identificados - com sexo, idade e última residência conhecidos -, hoje um verdadeiro património cientifico da Região, já publicado em revista internacional. De ossos
anónimos, que ninguém reclamou, fez-se ciência que fala por todos nós.
Sobre esta coleção, o autor mediu, por espectrometria de fluorescência de raios X portátil - técnica validada e não destrutiva -, as concentrações de metais no osso. E aqui está a intuição feliz do trabalho: o osso e a memória longa do corpo. Cerca de 95% de todo o chumbo que um ser humano acumula ao longo da vida deposita-se no esqueleto, onde permanece durante décadas; o osso é, literalmente, o arquivo mineral de tudo o que uma pessoa bebeu, respirou e comeu. Interrogar o osso é interrogar uma vida inteira de exposição.
O desenho foi rigoroso, e importa dizê-lo: comparou 26 indivíduos da Praia da Vitória (zona de risco) com 71 de Angra do Heroísmo (grupo de comparação, sem risco identificado, a 23km), com distribuições de idade e de sexo semelhantes e sem diferença de idades médias entre os grupos.
Trabalho, de resto, já publicado em revista de primeiro quartil. Isto não é uma opinião de circunstancia; é método.
O resultado é inequívoco na sua direção. Onze metais apresentaram concentrações significativamente superiores no grupo da Praia da Vitória - antimónio, arsénio, cádmio, crómio, ouro, chumbo, molibdénio, prata, estrôncio, estanho e urânio -, todos, sem exceção, mais elevados no grupo exposto. O chumbo, por exemplo, subiu de uma média de 12,3 para 17,6 partes por milhão; a análise multivariada confirmou que o próprio local de residência separa estatisticamente os dois grupos. Pela primeira vez, uma suspeita de 20 anos converteu-se num número.
E convém saber de que metais falamos. O cádmio, o arsénio e os compostos de crómio hexavalente são classificados pela Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC, volume 100C) como cancerígenos comprovados para o ser humano - Grupo 1. Os compostos inorgânicos de chumbo estão no Grupo 2A, provavelmente cancerígenos. Não são metais indiferentes: são precisamente aqueles que uma autoridade de saúde não quer encontrar acumulados nos ossos da sua população.
(…)

Este estudo não prova que a Base das Lajes tenha provocado o cancro de quem quer que seja. A tese di-lo sem rodeios: os resultados são insuficientes para estabelecer uma relação de causa e efeito. Não é um estudo epidemiológico - mede biomarcadores de exposição nos que já morreram, não taxas de doença nos que vivem. Não consegue, pelo seu desenho, atribuir os metais especificamente às Lajes e não a outras fontes históricas, porque a história de vida de cada individuo (profissão, anos de residência, consumo de água) é largamente desconhecida. A amostra
da Praia é pequena. (...)”

Para aprofundar o assunto, convirá consultar o que o blogue Ambiente Ondas3 tem publicado:


BICO CALADO

  • Os lucros da petrolífera nacional da Noruega duplicam para 11,5 mil milhões de dólares no contexto da guerra contra o Irão. Fonte.
  • Os Países Baixos vão proibir a importação de produtos de colonos israelitas a partir de setembro. Fonte.
  • Macário Correia foi nomeado presidente da AdP Aqua, a empresa pública criada para pôr em prática a estratégia «Água que Une». A sua experiência e capacidade executiva pesaram na escolha. Macário Correia foi presidente das câmaras de Tavira e Faro, secretário de Estado do Ambiente e teve uma longa relação com matérias como urbanismo, ordenamento do território e licenciamentos. Uma relação tão intensa que acabou por ser acompanhada pelos tribunais. Em 2012, o Supremo Tribunal Administrativo determinou a perda do seu mandato por violações das regras de urbanismo e ordenamento do território. Em 2016, foi condenado, em primeira instância, a quatro anos e meio de prisãocom pena suspensa, por crimes de prevaricação relacionados com licenciamentos em zonas protegidas. Perante este currículo, o Governo de Luís Montenegro concluiu que estava ali o homem indicado para dirigir uma empresa ligada à água, ao ambiente, ao território e a grandes obras públicas. Não deixa de ser uma escolha coerente. Depois de tanta experiência com zonas protegidas, licenciamentos e decisões administrativas, seria um desperdício mandar tudo isso para casa. O Estado também recicla. Via António Oliveira.
  • Ministro Alexandre, o rosto da (Des)Educação e da infâmia. António Garcia Pereira, Notícias Online.