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quarta-feira, 8 de abril de 2026

FARMACÊUTICAS FALHAM NO CUMPRIMENTO DE METAS AMBIENTAIS

  • A Agência Portuguesa do Ambiente veio a público esclarecer a responsabilidade da indústria farmacêutica na gestão de resíduos, admitindo falhas no cumprimento de metas ambientais e apelando a um maior compromisso do setor. Fonte.
  • O Governo de Luís Montenegro vai avançar com um estudo técnico para avaliar o potencial de antigas áreas mineiras abandonadas para a instalação de centros eletroprodutores de energia renovável. Fonte.
  • Pelo menos quatro aeroportos no norte de Itália — Milão Linate, Bolonha, Veneza e Treviso — impuseram restrições ao combustível para aviões devido à escassez, dando prioridade aos voos de longo curso e aos voos médicos. Fonte.
  • Os EUA estão a usar o México como um depósito de lixo, o que está a provocar uma crise tóxica, afirma Marcos Orellana, especialista da ONU. Fonte.

REFLEXÃO

O BOMBARDEAMENTO DO IRÃO PELOS EUA E POR ISRAEL ESTÁ A PROVOCAR UMA CATÁSTROFE AMBIENTAL
Pat Elder, CoverAction Magazine. Trad. O’Lima.


Aviões de guerra israelitas incendiaram o campo de gás de South Pars, no Irão

A 18 de março de 2026, aviões de guerra israelitas atacaram o campo de gás de South Pars, no Irão, provocando incêndios num dos complexos energéticos mais críticos do planeta. O ataque teve como alvo infraestruturas no coração do sistema global de gás natural, provocando chamas nas instalações que sustentam uma parte significativa da produção mundial de fertilizantes.

O ataque a South Pars e o encerramento do Estreito de Ormuz não são apenas uma questão energética — são também uma questão relacionada com o abastecimento alimentar global. A agricultura moderna depende fundamentalmente do gás natural, que é utilizado para produzir fertilizantes à base de amoníaco e ureia. A região do Golfo Pérsico fornece uma parte substancial dos fertilizantes azotados do mundo, pelo que as perturbações neste sistema repercutem-se imediatamente nos mercados globais, na produção agrícola e, em última análise, no abastecimento alimentar.

Em resposta, os países mais afetados, como o Japão, estão a recorrer à aplicação de lamas de esgoto contaminadas com PFAS nos campos agrícolas.

O presidente Donald Trump procurou distanciar os EUA do bombardeamento, afirmando: «Os Estados Unidos não sabiam nada sobre este ataque em particular.» Atribuiu a responsabilidade a Israel, dizendo que este país tinha «atacado violentamente o campo de gás de South Pars».

O Japão é o país mais vulnerável

A grave perturbação do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz reduziu o fluxo de ureia, amoníaco e outros fertilizantes para o Japão, um país que depende quase inteiramente de nutrientes importados produzidos a partir de gás natural. Uma vez que cerca de um terço dos fertilizantes comercializados a nível mundial, e uma parte significativa do gás natural utilizado na sua produção, passa por este estreito corredor, o conflito no Golfo Pérsico traduziu-se imediatamente em perturbações no abastecimento para as economias agrícolas a jusante.

A palavra «ureia» deriva do grego «ouron», que significa «urina». Mais tarde, os cientistas adotaram o termo latinizado «ureia» para designar o composto identificado pela primeira vez na urina.

Sem gás natural, não conseguimos produzir amoníaco facilmente e, sem amoníaco, não conseguimos produzir ureia. Sem ureia, a agricultura moderna tem dificuldade em produzir alimentos suficientes. É por isso que acontecimentos que afetam o gás natural — como uma greve no campo de gás de South Pars — podem ter repercussões que vão desde os mercados energéticos até ao preço e à disponibilidade de alimentos no Japão e em toda a Ásia.

A transição para o lodo

Os países mais expostos a crises de fertilizantes — em particular o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e as nações dependentes de importações do Sul e Sudeste Asiático — estão a recorrer cada vez mais às lamas de esgoto como fonte alternativa de nutrientes, uma mudança que corre o risco de transferir a contaminação industrial por PFAS dos fluxos de resíduos urbanos diretamente para os solos agrícolas. É terrível!

A Universidade de Agricultura de Tóquio relatou, já em 1997, que a utilização de lamas de esgoto no Japão estava a aumentar gradualmente. Ao longo das décadas de 1990 e 2000, várias mudanças políticas incentivaram a aplicação de lamas de esgoto nos solos.

Esta tendência assumiu uma nova urgência, à medida que o Japão enfrentava a guerra entre a Rússia e a Ucrânia de 2022, que fez subir os preços globais dos fertilizantes e reforçou o interesse nas lamas de esgoto. A atual crise no Golfo desferiu um segundo golpe. Para o Japão, isto representa uma grave ameaça ao sistema de fertilizantes azotados do qual a sua agricultura depende.

Embora o Japão tenha construído um sistema altamente sofisticado para transformar lamas de esgoto numa mercadoria agrícola regulamentada, muitos países, incluindo o Bangladesh, a Indonésia e as Filipinas, carecem da infraestrutura necessária para tratar e normalizar estes materiais em grande escala.

‍Milhões de toneladas de lamas de esgoto são produzidas anualmente nos sistemas de tratamento de águas residuais do Japão, contendo azoto e fósforo recuperáveis. Em condições normais, apenas uma pequena fração é aplicada em terrenos agrícolas. O restante é incinerado.

O Japão depende fortemente da incineração de lamas, mas os incineradores típicos de lamas de esgoto operam frequentemente a cerca de 800-900°C. Os compostos PFAS requerem geralmente temperaturas significativamente mais elevadas para uma destruição fiável, muitas vezes acima dos 1000-1200 °C. A temperaturas mais baixas, podem persistir, transformar-se ou ser redistribuídos nas cinzas e nas emissões.

Com o passar do tempo, estas substâncias químicas persistentes entram na cadeia alimentar — acumulando-se nas culturas, no gado e nos produtos do mar — e acabam por expor as populações humanas através da água potável e da alimentação, aumentando os riscos de cancro, disfunção imunitária e outros efeitos crónicos para a saúde.

Já há programas em vários municípios em todo o Japão. À medida que os preços da ureia voltam a subir, é provável que programas semelhantes se expandam.

Quando a guerra ameaça as infraestruturas energéticas e o transporte marítimo no Golfo, os mercados de fertilizantes reagem imediatamente. Os danos não se limitam ao que é fisicamente destruído. Os japoneses, no entanto, não parecem estar preocupados. ‍ ‍

Quando a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi se reuniu com o presidente Trump na Casa Branca, em Washington, D.C., a 19 de março de 2026, no dia seguinte ao ataque a South Pars, ela apoiou a guerra contra o Irão e elogiou o presidente americano. «Acredito firmemente que só tu, Donald, podes alcançar a paz em todo o mundo. Para tal, estou pronta para contactar muitos dos parceiros da comunidade internacional para alcançarmos o nosso objetivo em conjunto.»

Donald Trump e Sanae Takaichi na Casa Branca, a 19 de março. [Fonte: jp.usembassy.gov]

No início de dezembro de 2025, antes do início das habituais ameaças de guerra, os preços da ureia situavam-se nos 352 dólares por tonelada. Considera-se que as declarações belicistas do presidente Trump tenham impulsionado o preço da ureia para 467 dólares, no dia em que a primeira-ministra Takaichi se reuniu com ele. Três dias depois, ultrapassou os 600 dólares por tonelada, enquanto atualmente é negociada a cerca de 683 dólares. Isto está a afetar o Japão talvez mais do que qualquer outro país. O Japão importa 80-90% dos seus fertilizantes, enquanto os EUA importam menos de 25% dos seus fertilizantes.

Preços da ureia por tonelada em dólares americanos (maio de 2025–março de 2026)

[Fonte: militarypoisons.org]

O dia 5 de dezembro de 2025 marcou uma viragem no mercado da ureia

Os mercados de matérias-primas reagem habitualmente não só a acontecimentos, mas também às expectativas de perturbações futuras. Nesse contexto, o aumento rápido e previsível dos preços da ureia, na sequência da escalada da retórica e da ação militar, levanta questões sobre se alguns participantes no mercado próximos da administração Trump se terão posicionado antecipadamente para lucrar com a situação.

Sistemas de tratamento de águas residuais

Os sistemas de tratamento de águas residuais não são concebidos para remover muitos produtos químicos persistentes. Em vez disso, compostos como os PFAS passam para os lamas. Isto é particularmente preocupante no Japão, onde os fluxos de águas residuais incluem não só esgotos domésticos, mas também efluentes ligados a setores de fabrico de alta tecnologia, incluindo a produção de semicondutores e eletrónica, indústrias conhecidas por utilizarem grandes quantidades de PFAS em vários processos.

Um estudo de 2026 publicado no Journal of Hazardous Materials revelou que as concentrações de PFAS em fertilizantes derivados de lamas no Japão atingiam 78 000 nanogramas por quilograma (78 000 ppt) de peso seco. Imagine isto como uma cafeteira gigante. A infusão tóxica escorre para as águas subterrâneas e os cursos de água, envenenando a cadeia alimentar.

Os modernos sistemas de energia, agricultura, resíduos e contaminação fundem-se neste admirável mundo novo. Um campo de gás arde no Golfo Pérsico. A espuma extingue incêndios industriais. Os preços dos fertilizantes disparam. As lamas de esgoto são espalhadas nas terras agrícolas. Os PFAS penetram no solo e nos alimentos. Nunca desaparecem.

Segurança alimentar

Os preços elevados da ureia e a escassez de oferta exercem pressão ascendente sobre os custos da produção alimentar interna, contribuindo para preocupações inflacionistas mais generalizadas. A preocupação a longo prazo para o Japão é que, mesmo que o conflito se acalme rapidamente, os danos nas instalações de liquefação de alta tecnologia em South Pars e Ras Laffan poderão demorar anos a reparar, levando a um prolongado período de custos elevados dos fertilizantes.

O que se está a desenrolar no Japão, portanto, não é simplesmente uma mudança na origem dos fertilizantes. É uma convergência de perturbações geopolíticas, necessidade económica e consequências ambientais. Não têm muitas opções.

A crise dos fertilizantes desencadeada pela guerra no Golfo Pérsico opera em dois níveis: à superfície, uma história de cadeias de abastecimento, preços e segurança alimentar; por baixo, uma mudança nas práticas agrícolas que reduz a dependência de mercados voláteis, ao mesmo tempo que espalha contaminantes industriais persistentes.

Ao passar dos fertilizantes importados para as lamas de esgoto disponíveis a nível nacional, o Japão pode estar a estabilizar o seu abastecimento de nutrientes a curto prazo. Mas pode também estar a incorporar uma segunda crise, de evolução mais lenta, nos seus solos e sistemas alimentares — uma crise que não se mede em picos de preços, mas em nanogramas por quilograma, acumulando-se silenciosamente ao longo do tempo.

Uma estação de tratamento de águas residuais no Japão

Não são apenas os PFAS que causam tanta preocupação. Após o processo de tratamento de águas residuais, permanece uma vasta gama de contaminantes, incluindo metais pesados, produtos farmacêuticos e hormonas que as estações de tratamento não estão concebidas para remover, juntamente com substâncias químicas que perturbam o sistema endócrino, microplásticos e poluentes industriais persistentes, como PCB e dioxinas. Quando aplicados em terrenos agrícolas, podem migrar para o solo, as águas subterrâneas, as culturas e a cadeia alimentar em geral, suscitando preocupações a longo prazo em termos de ambiente e saúde pública.


A situação no Japão é uma versão moderna de um fracasso histórico recorrente. Ao longo de séculos, as sociedades humanas têm descartado resíduos de forma imprudente, apenas para vê-los regressar com força total sob a forma de água contaminada, alimentos contaminados e doenças. Agora, esse ciclo ancestral está a desenrolar-se a nível global, ligando a guerra, a energia, a agricultura e a saúde humana num carrossel catastrófico.

BICO CALADO


  • O presidente Donald Trump prometeu na segunda-feira encontrar o «informador» que revelou que as forças americanas não conseguiam localizar o segundo piloto retido no Irão após o abate do seu caça F-15, ameaçando prender jornalistas não identificados que tenham recebido a informação caso não revelem a sua fonte. Fonte.
  • "No início do dia, Donald Trump publicou no Truth Social: 'Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais voltar.' Isto vai dar jeito se algum dia chegarmos ao julgamento por crimes de guerra que tudo isto merece. A declaração de motivo e intenção é absolutamente clara. Não preciso dizer o quão vil isto é. É chocante, embora, de certa forma, se não se considerasse isto uma possibilidade real, então é porque não se estava a prestar atenção. Não há muito a dizer aqui, exceto falar sobre como devem comportar-se aqueles de nós que não são Donald Trump. Em primeiro lugar, qualquer comandante militar que receba ordens para começar a destruir infraestruturas civis no Irão deve desobedecer a essa ordem, deve dizê-lo, não deve sequer demitir-se discretamente. Este é o momento de se levantar e deixar claro que isto é totalmente inaceitável. Isto é uma violação de tudo aquilo que as forças armadas representam. É uma violação de tudo aquilo que a América representa. Em segundo lugar, qualquer membro da administração Trump: continuar no seu cargo a fazer o seu trabalho enquanto Trump leva a América no caminho de se tornar uma nação terrorista criminosa, não pode continuar em boa consciência." Pual Krugman, Substack.
  • Ben Roberts-Smith, um ex-soldado das forças especiais australianas de 47 anos e condecorado com a Cruz de Vitória, foi detido e acusado de cinco crimes de guerra relacionados com o alegado homicídio de cinco civis afegãos entre 2009 e 2012. Roberts-Smith é acusado de ter disparado diretamente contra afegãos que não participavam em hostilidades no momento das suas mortes ou de ter ordenado esses disparos aos seus subordinados. Cada acusação acarreta uma pena máxima de prisão perpétua. Fonte.
  • O Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciou a suspensão das evacuações médicas de doentes da Faixa de Gaza, na sequência da morte de uma pessoa contratada para prestar serviços à Organização. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

BASE DAS LAJES – UM AEROPORTO MILITAR CAPTURADO
João Gomes

Fonte: RTP

(…) Desde a sua última revisão em 1995, o chamado Acordo das Lajes tem sido interpretado como um instrumento técnico de cooperação no quadro da NATO e da relação transatlântica. Na prática, porém, tornou-se algo mais difuso e preocupante: uma autorização tácita para utilização de território português em operações cuja natureza, finalidade e enquadramento jurídico escapam ao escrutínio democrático nacional.

A questão central é simples, mas raramente colocada com frontalidade: pode Portugal aceitar que uma potência aliada utilize uma infraestrutura militar no seu território para operações de guerra que não foram formalmente declaradas, que não passaram por mecanismos multilaterais, e que podem colidir com os princípios consagrados após a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente sob a égide da Organização das Nações Unidas?

A resposta, se levada a sério, deveria ser negativa.

A utilização da Base das Lajes por forças norte-americanas tem sido frequentemente enquadrada como compatível com o direito internacional. Mas essa compatibilidade assenta num pressuposto frágil: o de que as operações em causa respeitam, de facto, esse mesmo direito. Quando esse pressuposto deixa de ser verificável – ou sequer transparente – o acordo transforma-se num cheque em branco. E um cheque em branco em matéria de guerra não é um detalhe técnico. É uma abdicação de soberania.

O caso recente da intensificação das operações militares no Médio Oriente expõe essa fragilidade. A Base das Lajes volta a surgir como peça logística relevante – um ponto de apoio discreto, funcional, quase invisível. E é precisamente essa invisibilidade que levanta o problema: Portugal pode estar, na prática, a participar – ainda que indiretamente – em conflitos cuja legitimidade internacional é contestada, sem debate parlamentar efetivo, sem escrutínio público e, em certos casos, sem informação completa. Isto não é uma aliança. É uma captura funcional.

Comparações com outros países europeus tornam esta situação ainda mais evidente. Estados como Espanha, Itália ou mesmo a Áustria – cada um com os seus enquadramentos específicos – desenvolveram mecanismos políticos e jurídicos que permitem condicionar ou mesmo bloquear o uso do seu território em operações militares externas, exigindo clareza quanto aos objetivos, enquadramento legal e implicações estratégicas. Portugal, pelo contrário, parece operar num regime de deferência automática.

A posição do presidente do governo dos Açores, ao enfatizar a necessidade de compensações financeiras ou investimento em infraestruturas de duplo uso, revela uma leitura incompleta do problema. Não se trata apenas de saber quanto valem os Açores no tabuleiro geopolítico. Trata-se de saber se esse valor está a ser utilizado de forma compatível com os princípios que Portugal afirma defender no plano internacional. A soberania não é negociável em parcelas. E muito menos em função de contrapartidas económicas.

Se o uso da Base das Lajes continuar a ser determinado essencialmente pela vontade estratégica de administrações norte-americanas – independentemente da sua adesão ou não ao direito internacional – então Portugal não está a exercer soberania. Está a delegá-la. E delegá-la sem mecanismos de controlo eficazes.

A solução não exige ruptura, mas exige clareza. Qualquer revisão do acordo deveria assentar em três pilares fundamentais: transparência plena sobre a natureza das operações, necessidade de autorização explícita para usos que envolvam cenários de conflito, e a existência de um mecanismo rápido e vinculativo que permita a Portugal suspender ou recusar a utilização da base em caso de violação dos princípios do direito internacional.

Sem isso, a Base das Lajes deixará de ser uma infraestrutura estratégica portuguesa integrada numa aliança – para se consolidar como aquilo que já começa a parecer: um aeroporto militar capturado. E quando a soberania se torna invisível, como na advertência de Edward Bernays, é porque alguém, em algum lugar, já a está a exercer em nosso nome.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CALIFÓRNIA: LAGO SALTON LIBERTA POEIRA TÓXICA

  • O Lago Salton, na Califórnia, outrora um destino turístico, liberta agora poeira tóxica à medida que vai encolhendo. Um estudo realizado com 700 crianças que vivem nas proximidades revela que a poeira está a impedir o crescimento pulmonar – com efeitos mais graves do que a poluição proveniente de autoestradas movimentadas. Fonte.
  • Perante um clima cada vez mais quente e a seca do Grande Lago Salgado, algumas famílias planeiam deixar o Utah. Fonte.
  • Milhares de manifestantes reuniram-se no Capitólio do Texas, em Austin, para se oporem aos planos de construção de um muro fronteiriço que atravessaria o Parque Nacional Big Bend e o parque estadual adjacente. Segundo os organizadores do protesto, o muro prejudicaria o ecossistema desértico único, a vida selvagem (carneiros selvagens, ursos negros) e a arte rupestre sagrada dos nativos americanos. Fonte.
  • Os microplásticos podem reduzir a produção nos sistemas de aquicultura em até 18%, de acordo com um novo estudo realizado por investigadores da Universidade de Istambul, que alertam para a necessidade de medidas urgentes para proteger a produção alimentar sustentável. Fonte.

BICO CALADO

Christian Petersen/Getty Images
  • Ministro da Educação Fernando Alexandre com ligações estreitas ao lobby que deseja autonomia (ou privatização) da Nova School of Business and Economics. Pedro Almeida Vieira, Página Um.
  • Bloco apresenta queixa na PGR sobre uso da Base das Lajes para ataque ilegal ao Irão. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

DAS BOMBAS DE 75 A “VICE” DO PARLAMENTO? QUEM É E COMO PENSA DIOGO PACHECO DE AMORIM
Miguel Carvalho, Visão 4abr2026

Foto: Luís Barra

O antigo dirigente político do MDLP, movimento armado de extrema-direita, é o preferido de Ventura para ocupar lugar de relevo no Parlamento. Consensual? De todo. Nem sequer no partido. Tal como a VISÃO adiantara na sua edição de quinta, 3, Diogo Pacheco de Amorim é o escolhido de André Ventura para o lugar de vice-presidente da Assembleia da República. Uma vontade que , no entanto, deve esbarrar na nega da esmagadora maioria dos deputados. Mas quem é este homem da “velha direita”, curtido nos combates universitários e do processo revolucionário que já substituíra o deputado do Chega para que este pudesse candidatar-se à Presidência da República?

Aos 72 anos, Diogo Pacheco de Amorim, o neto de um monárquico íntimo de Salazar e sobrinho do fundador dos extremistas do Partido do Progresso no pós-25 Abril, é considerado uma espécie de “ideólogo” do Chega, do qual é vice-presidente. Mas o seu papel na definição identitária do partido e o seu perfil não são consensuais. Quando substituiu Ventura na AR, alguns dirigentes temeram que a sua militância na direita armada do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) em 1975 e a alegada inaptidão para tribuno fragilizassem o partido nos acesos debates parlamentares. Algo que não se confirmaria.

O que pensa Diogo?

A 29 de fevereiro de 2020, quando o líder apresentou a candidatura em Portalegre, Diogo também subiu ao palco: citou Sá Carneiro – “a política sem ética é uma vergonha” – e prometeu a André Ventura fazer tudo para dignificá-lo, quando chegasse a hora de substituí-lo.
Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra, onde partilhou trincheiras políticas com o advogado José Miguel Júdice, Diogo Pacheco de Amorim rejeita o rótulo de extremista de direita. Define-se antes como “conservador liberal”. Católico, tem vários familiares ligados ao movimento religioso Comunhão e Libertação, com grande influência político-financeira no país de origem (Itália), mas também em Portugal.


Diogo Pacheco de Amorim reserva um papel secundário para o Estado, reduzindo-o às funções de Defesa, Justiça e Política Externa. No resto, vê-o como regulador e árbitro, quase sem mão na Economia. É a favor de uma redução fiscal drástica, do princípio do cidadão “utilizador-pagador” e do desmantelamento do aparelho burocrático da administração pública e pela eliminação de incentivos, subsídios, apoios e benefícios que, na sua perspetiva, só devem ser garantidos a pessoas em situação de absoluta incapacidade de subsistência. No caso da Saúde e da Educação, o provável substituto de Ventura no Parlamento considera que o Estado só deve estar presente nas áreas geográficas onde o setor privado não queira fornecer esses serviços. O dirigente do Chega defende mesmo a extinção do Ministério da Educação, “uma tecnoestrutura blindada pelo PCP e BE, impossível de ser penetrada e reformada por qualquer ministro”, conforme é relatado no livro do investigador Riccardo Marchi, A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega, para o qual Diogo foi entrevistado.
De acordo com o programa do Chega, de que foi o principal autor e no qual reproduziu partes da declaração de princípios do Partido da Nova Democracia (PND), liderado por Manuel Monteiro, do qual foi também dirigente, Diogo apoia a “despolitização” do ensino e atribuiu às famílias o primado da transmissão de valores sociais às crianças. Segundo ele, a escola deve preocupar-se em consolidar os “valores culturais e civilizacionais judaico-cristãos» e cívicos, entre eles “a disciplina e o respeito pelos mais velhos, pelos professores, pela autoridade”. Para Diogo, a família natural é “heterossexual” e o Estado deve desincentivar casamentos e adoções por casais do mesmo sexo.
A nível internacional, o vice-presidente do Chega foi próximo das teses da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen – já gosta menos da renovação do ideário entretanto assumido pela filha, Marine Le Pen – e embora discorde da vertente estatista do Fidesz, partido do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, é um admirador deste líder político que tem assombrado os alicerces democráticos da União Europeia.
Diogo é também um partidário da saída de Portugal da ONU, organização que, na sua visão do mundo, se tornou “uma agência de divulgação do marxismo cultural e do globalismo massificador”. Quanto à concessão de cidadania portuguesa, não tem papas na língua: “Imigração ilegal, nem pensar. Imigração legal, sim, são bem-vindos. Vêm para trabalhar, porreiro. Vêm para viver à conta da Segurança Social, esqueçam”.

O passado presente

Se estas posições são, à partida, um rastilho no Parlamento, o percurso político de Diogo Pacheco de Amorim é também potencialmente explosivo. Embora negue qualquer ligação às atividades militares do MDLP nos tempos de brasa do pós-revolução, Diogo esteve no setor político do movimento liderado pelo antigo Presidente da República, António Spínola, que coordenou e promoveu centenas de atentados bombistas e assaltos a sedes de partidos e organizações de esquerda naqueles primeiros anos de liberdade, alguns dos quais resultaram em mortes, como foi o caso do padre Max e da estudante Maria de Lurdes, na Cumieira, em Vila Real.
Do Movimento Independente para a Reconstrução Nacional (MIRN), de Kaúlza de Arriaga, um dos ultras da ditadura, à clandestinidade do MDLP, que contou com vastas e poderosas ramificações políticas, policiais, militares, religiosas e financeiras, a militância extremista de Diogo Pacheco de Amorim contagiou a sua veia poética. É dele a autoria do poema Ressurreição, hino nacionalista cantado por José Campos e Sousa, em cujos versos o vice-presidente do Chega deixa uma imagem elucidativa do rasto então deixado em várias zonas do País: “E já ardem bandeiras vermelhas / Nos campos há gritos de guerra / Nas trevas da noite há centelhas / Das rosas em festa da terra”.
Antigo jornalista do semanário O Diabo e do diário O Primeiro de Janeiro, Diogo foi representante, em Portugal, da revista Nouvelle Écolle, orgão da Nova Direita francesa. Assessor do Vice-Primeiro Ministro Diogo Freitas do Amaral no 1º Governo da AD e Chefe de Gabinete do Grupo Parlamentar do PP entre 1995 e 1997, o dirigente do Chega está hoje ligado à área da consultoria imobiliária, embora não se lhe conheça grande atividade, pelo menos nos últimos cinco anos. Depois de ter substituído Ventura no lugar de deputado, a indicação de Diogo Pacheco de Amorim para “vice” da Assembleia é outra bomba. Pelo menos desta vez, não no sentido literal.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

PAPUA-NOVA GUINÉ: MORTANDADE MARINHA

Foto: Sebastian Velasquez
  • Desde dezembro de 2025, tem-se verificado uma mortandade marinha em grande escala ao largo da costa de Nova Irlanda, na Papua-Nova Guiné. Milhares de peixes mortos (incluindo tubarões, enguias e polvos) foram levados pela maré até à costa, muitos deles sem olhos. Simultaneamente, surgiu uma emergência de saúde pública, com pelo menos 750 pessoas a relatarem erupções cutâneas graves, inchaço, dificuldades respiratórias e outras doenças após o contacto com a água do mar ou a inalação de vapores provenientes da costa. A causa exata continua desconhecida, uma vez que os resultados das análises da água ainda estão pendentes. No entanto, as autoridades e os cientistas suspeitam de vários fatores: escorrência de fertilizantes, pesticidas e herbicidas provenientes das plantações de óleo de palma nas proximidades, especialmente após chuvas intensas da monção; crescimento excessivo de algas sargassum, que esgota o oxigénio e liberta gás sulfureto de hidrogénio tóxico à medida que se decompõe; aquecimento dos oceanos combinadas com a possível presença de esgotos não tratados. Fonte.
  • Testes exaustivos comprovam a reutilização de módulos solares policristalinos com 23 anos de vida útil. Investigadores no Brasil testaram módulos fotovoltaicos policristalinos reutilizados durante dois anos e constataram que estes mantinham 87–88 % da sua potência original, com uma degradação mínima e um desempenho estável. Apesar dos importantes benefícios em termos de sustentabilidade e economia circular, os incentivos económicos continuam a ser limitados devido à redução dos custos e às garantias de curta duração dos novos módulos fotovoltaicos de silício de última geração. Fonte.
  • O oeste dos EUA já está a ficar sem água — e ainda faltam meses para o verão. As pistas de esqui estão fechadas, os aspersores foram proibidos e estão previstas mais restrições. Fonte.

REFLEXÃO

EXCREMENTOS PARA CULTIVAR OS NOSSOS LEGUMES
Lorène Lavocat, Reporterre. Trad. O’Lima.

O investigador Fabien Esculier, especialista em «fertilizante humano», a 19 de março de 2026. - © Mathieu Génon / Reporterre

Neste jardim às margens do Loire, a primavera canta. No meio de um tapete verdejante, tulipas recém-plantadas desdobram a sua luminosa corola violeta. O segredo da sua vitalidade? «Adubámo-las com composto de fezes humanas», sorri maliciosamente Fabien Esculier, proprietário do local.

Não há nada de surpreendente nisso: nesta casa, a urina e as fezes são tratadas como matérias preciosas. Recolhida em bidões equipados com funis, a urina acaba num ponto de recolha seletiva vizinho, em Angers — e irá depois fertilizar as terras de horticultura da região. O cocó, por sua vez, termina o seu percurso numa compostagem dedicada, no fundo do jardim, onde se decomporá durante dois anos antes de servir como corretivo do solo.

Uma evidência para Fabien Esculier e a sua família. Pois o homem dedicou a sua carreira à reabilitação do adubo humano, tanto como investigador na École nationale des ponts et chaussées como autor: publica, a 1 de abril, Une autre histoire des excréments (ed. Actes Sud), uma obra que pretende revolucionar a nossa relação com as nossas excreções. «Há aqui um potencial de transformação prodigioso», insiste ele, com o olhar brilhante por detrás dos óculos redondos.

Fabien Esculier criou este fertilizante à base de fezes que cheira a sub-bosque. © Mathieu Génon / Reporterre

No entanto, o cientista não conheceu a «cazinha ao fundo do quintal», nem o monte de estrume onde se despejavam (também) os penicos. Da sua infância no 13.º arrondissement de Paris, nada se sabe, ou muito pouco — a avó canadiana que o incentivava a urinar sobre o ruibarbo «para o fazer crescer». Embora seja inesgotável quando se trata de falar de excrementos, Fabien Esculier mantém-se discreto sobre a sua vida pessoal. Ele remonta a sua «tomada de consciência» aos seus anos na École Polytechnique.

«Descobri o desastre ecológico em 2004», conta ele, citando o engenheiro Jean-Marc Jancovici. Foi um choque traumático, senti-me então muito sozinho na esperança de uma transformação radical das nossas sociedades.» O estudante decidiu então ingressar na função pública, «um bom patamar para impulsionar a transição». Rumo a Achères para o seu primeiro estágio, a maior estação de tratamento de águas residuais da Europa, às portas de Paris.

Foi ali, entre os odores de lodo e de produtos químicos, que lhe ocorreu a ideia. «Estávamos a destruir toneladas de fertilizantes naturais presentes na nossa urina, ao mesmo tempo que fabricávamos e importávamos em grande escala fertilizantes fósseis», resume ele.

Vejam só: poderiam ser produzidas 25 milhões de baguetes por dia com a urina de todos os habitantes da região de Paris. No entanto, atualmente, os nossos preciosos efluentes acabam nas águas residuais e, depois, principalmente no ar ou nos rios. Um sistema que consome muita energia e água — cada utilização da sanita consome 10 litros de água — e que é ineficaz.

Para o jovem engenheiro, «a aberração parece óbvia». No entanto, recorda ele, «mais ninguém parecia chocado».

Tendo-se tornado posteriormente chefe da guarda fluvial da Île-de-France, participou nas reflexões sobre o Grande Paris. «Questionávamo-nos em que medida o futuro crescimento urbano iria levantar problemas», explica ele. «Conseguimos demonstrar que um dos obstáculos era o saneamento.» Pois mais habitantes significam mais águas residuais despejadas nos rios, «ao mesmo tempo que o caudal dos cursos de água já está a diminuir e vai diminuir ainda mais». Com um risco acrescido de poluição por nutrientes, nomeadamente os contidos na nossa urina.

Mas o relatório que apontava o impasse acabou por ser arquivado… e Fabien Esculier decidiu deixar o seu cargo — «demasiada dissonância», resume ele. Mas como agir? «Eu tinha muitas perguntas e poucas respostas. Ora, quando não se sabe o que fazer, é preciso investigar.»

Com o seu brilhante currículo na mão e uma motivação inabalável, lançou-se na criação de um programa de investigação inédito, denominado Ocapi (Organização dos ciclos do carbono, do azoto e do fósforo nos territórios), apoiado principalmente pela Agência da Água Sena-Normandia e pela Agência da Transição Ecológica (Ademe).

Primeiros sucessos coletivos

«Ele tem uma energia transbordante, que colocou ao serviço desta causa», observa Sabine Barles. Esta professora de urbanismo e ordenamento do território acompanha o trabalho de Fabien Esculier desde o início. «Nos anos 2000, éramos poucos os investigadores interessados no tema do adubo humano, mas com a Ocapi, eles fizeram-no descolar», observa ela. «O que fazem é de uma importância capital.»

Na sua tese, defendida em 2018, Fabien Esculier coloca assim as casas de banho no centro da aldeia: «Os nossos sistemas agroalimentares não se limitam ao que comemos. » Alimentar-se e excretar são duas necessidades fisiológicas vitais, tanto para os seres humanos como para todos os seres vivos de um ecossistema. O investigador fala assim de «sistemas de alimentação-excreção», para combater o «inconsciente coletivo» que envolve o fundo das nossas sanitas.

Em Châtillon (Hauts-de-Seine), os membros de uma AMAP trocam bidões de urina por cestas de legumes, 
uma iniciativa coordenada pela Ocapi. © Mathieu Génon / Reporterre

Mas como impulsionar tal mudança de paradigma? «Perante a complexidade dos desafios ecológicos, a forma convencional de produzir conhecimento científico, muito compartimentada, é ineficaz», afirma Marine Legrand, antropóloga da Ocapi. Assim, o programa foi gradualmente criando uma nova forma de produzir conhecimento, combinando investigação académica, trabalho de campo e sensibilização.

«Desenvolvemos uma abordagem interdisciplinar inédita sobre este tema», indica a investigadora. Para além dos estudos realizados, nomeadamente em agronomia ou sociologia, o programa implementa projetos-piloto, acompanha os promotores de projetos, desenvolve a mediação artística…

Com sucesso: trabalharam no desenvolvimento de casas de banho secas em França, participaram na abertura de pontos de recolha voluntária de urina e demonstraram o potencial fertilizante da urina. «Eles também fizeram a escolha política do coletivo, o que ainda é raro na investigação», observa Sabine Barles.

«Um mundo que funciona»

«Este percurso “radicalizou-me”, constata Fabien Esculier. No sentido etimológico muito positivo: voltei às origens, desconstruindo o meu olhar de engenheiro e essa crença absoluta nas soluções tecnológicas.»

Em 2020, escreveu uma carta aberta aos seus colegas da École Polytechnique, convidando-os a «reservar tempo para refletir, interromper parcial, temporária ou definitivamente o seu trabalho atual, se necessário, e a reorientar as suas trajetórias pessoais e profissionais para resistir seriamente ao desastre ecológico e social que estamos a viver».

No seu quintal repleto de ervas aromáticas, o investigador acredita firmemente nisso: «Descrevemos um mundo que funciona. É possível alimentar o mundo sem fertilizantes sintéticos, é possível melhorar a saúde das pessoas utilizando menos recursos fósseis, é possível preservar melhor a água.» Para ele, o problema não é, portanto, principalmente técnico — aliás, ele conta no seu livro como a humanidade utilizou durante muito tempo as suas excreções como fertilizantes —, mas político. A Ocapi acaba, aliás, de publicar recentemente propostas nesse sentido.

Então, como concretizar este mundo do «nada para o esgoto»? Fabien Esculier não aposta nem na revolução nem no reformismo. «Inclino-me para a estratégia intersticial — começar em pequena escala, organizar-se nos interstícios, experimentar, expandir», afirma. Como prova disso, aponta para o desenvolvimento da compostagem urbana, desde a primeira cidade a empenhar-se na compostagem coletiva à porta dos edifícios em 2006 (Rennes) até à lei que generaliza a recolha de resíduos orgânicos em 2025.

Para o investigador, todos temos a ganhar com essa mudança, pois, como diz a sua colega Marine Legrand, este tema liga «o íntimo ao planetário». A nível individual, «trata-se de nos reconectarmos com os seres humanos e os não humanos que nos dão vida, de nos reconectarmos com o facto de que o nosso corpo produz fertilizantes todos os dias», escreve ele. Na sua obra, ele detalha assim, ao longo de cerca de dez páginas, «onde fazer xixi» — sobretudo não num rio ou numa baía, e não mais do que seis micções anuais por metro quadrado de relvado.

«As possibilidades de ação em pequena escala não devem ser negligenciadas. Têm um alcance potencialmente muito importante. » Mas para além desta abordagem doméstica, o investigador sublinha a importância geopolítica dos nossos excrementos. «A França depende em mais de 90 % dos seus fertilizantes de produtos fósseis fabricados por um complexo militar-agrícola», observa ele. Pois, recordemos, a indústria do azoto também produz bombas.

A partir de sua casa, com os seus bidões e o seu composto, Fabien Esculier espera assim «contribuir para a nossa autossuficiência alimentar». É também a conclusão otimista do seu livro: «Será que urinar num regador e defecar num composto não podem conter em si a possibilidade de uma paz no mundo?» Como um raio de esperança no fundo da sanita.

BICO CALADO

  • E continua o teatro, à moda medieval, com o patrocínio/selo da câmara - recorde-se aquela cena do Velho Testamento de Jesus com uma corda na mão desancando e expulsando os vendilhões do templo
  • "Caros Concidadãos, a programada e provocatória arruaça de André Ventura e do Chega na sessão do Parlamento de 5a fa é muito mais do que a demonstração do seu estilo de taberneiros da Política . Ela comprova sobretudo que com intolerantes não pode haver tolerância e que quem, nomeadamente em nome da “liberdade de expressão” e da própria Constituição, legaliza e legitima fascistas e com eles contemporiza, às mãos lhes acaba por morrer! Com fascistas não se “dialoga”, combate-se! E quem opta por “dialogar”, ou se torna igual a eles (veja-se a recente aprovação da lei da nacionalidade e o que se prepara para as leis laborais) ou é por eles engolido (Alemanha dos anos 30, Chile dos anos 70, etc). Neto, sobrinho e primo de presos políticos do fascismo, colega, amigo e camarada de Ribeiro Santos, assassinado em 12/10/72 por um esbirro da PIDE (que ficou impune) nunca deixarei de denunciar e combater o Fascismo e os fascistas! E conclamo-vos a adoptarem, sempre e sempre, a mesma atitude!“ António Garcia Pereira.
  • Abaixo do valor de mercado, Estado já começou a entregar imóveis públicos a privados. O primeiro leilão de imóveis do Estado realizou-se esta semana no CCB e a maioria dos interessados eram sociedades de investimento imobiliário. Uma das empresas, a Timeless Wizard, que adquiriu um prédio na Rua Filipe Folque por 5 milhões, diz que vai aproveitar a taxa de IVA reduzida para a construção. Abril Abril.
  • “(…) O que se passa hoje no plenário e nos corredores é de outra natureza. E nada tem a ver com liberdade de expressão, tem a ver com violência em múltiplas formas. Insultar as deputadas, que são, como mulheres, um dos alvos do machismo do homem branco e da multidão de forcados em potência que lá está, com mugidos de vaca e beijos obscenos, no passado teria uma resposta dada por um gesto amplo da mão e um encontro imediato do terceiro grau com uma face, gesto cujo nome me abstenho de dar. O que se passou esta semana na comemoração do aniversário da Constituição da democracia tem um significado político que ultrapassa a dimensão parlamentar. Não me refiro às mentiras, omissões da verdade e sugestões de falsidade, a panóplia total das formas de mentir, proferidas no púlpito. Aí, ainda estamos no domínio da liberdade de expressão, mas essa liberdade tem consequências quando faz parte de uma espécie de guerra civil contra o 25 de Abril e a democracia. Feita onde foi e perante quem foi, é um insulto e uma intimação para um confronto. Nessa liberdade diz-se alguma coisa que está para além do Parlamento: o que se diz é que a luta dos portugueses já não só pela liberdade conquistada em 25 de Abril, mas na construção posterior da democracia, foi uma “traição” aos portugueses de lei que gostavam de Salazar, das prisões políticas e da guerra colonial, cujo número de mortos nunca se refere como se não tivesse nada a ver connosco. Que sorte que eles têm em estarmos em 2026, em terem à sua frente gente com princípios e educação, gente que já demonstrou a sua coragem, e que lhes deu uma lição, mesmo assim muito “limpa” face à sujidade que lhes atiraram.” Pacheco Pereira, Público 4abr2026.
  • Irão está a ganhar a guerra contra os EUA. É assim que o Irão está a ganhar a guerra iniciada por Trump. Isto é agora reconhecido até mesmo pelos meios de comunicação ocidentais. Teerão destruiu importantes bases militares dos EUA na Ásia Ocidental, obrigando as tropas americanas a retirarem-se para a Europa. Ben Norton.

LEITURAS MARGINAIS

MENTIR. MENTIR SEMPRE
Miguel Carvalho.


Publicam livros. Fazem discursos grotescos. Reescrevem, uma e outra vez, a história do pós-revolução. Há dias, foi o famoso e desacreditado "Relatório das Sevícias" a vir de novo à baila. É um documento relido amiúde para cavalgar a tese do lado negro da revolução. Não se iludam: esta gente dorme sempre bem. Tem consciência absoluta do que branqueia, descarta e ilude. E dos meios que sempre frequentou. Andam aí, de novo, sem freio nos dentes nem açaime para tanto despudor.
Mas vamos aos factos.


O "Relatório das Sevícias", documento que tanto citam e tanto os exalta teve, pelo menos, dois outros que o contrariam em toda a sua dimensão: "Sevícias dum Relatório" e, mais importante, "O «Relatório das Sevícias» e a Legalidade Democrática", de março de 1977. A obra é assinada, entre outras figuras, por Jorge Sampaio, Orlando de Carvalho e Gomes Canotilho.

O branqueamento dos crimes da PIDE-DGS, as denúncias de torturas e espancamentos sem fundamento, a falta de contraditório, o abismo entre as queixas e a relação de detidos, etc, está lá tudo. Recomendo ainda a leitura do excelente artigo do major-general Costa Neves sobre o antes, durante e depois do relatório, a partir da página 40 da revista "O Referencial", da Associação 25 de Abril.

Quanto às condições prisionais de alguns dos detidos neste período, não generalizo, mas cito Silva Santos (CDS), detido no âmbito do processo da rede bombista de extrema-direita - a tal que não existiu, segundo os tribunais militares - que cito no meu livro "Quando Portugal Ardeu"):

- "[Como eram as condições da prisão?] Catitas. Tinha um quartinho, a cama com lençóis da PIDE, casa de banho privativa com água quente e bidé (...) Ah, entretanto, o comandante mandou pôr um candeeirinho na cela, porque eu disse-lhe que gostava de ler. E uma televisão. À hora do almoço e ao jantar vinha uma cerveja fresquinha. O comandante tinha atenções comigo, não me posso queixar de nada (...)".

- "Quais maus tratos?! Vou-lhe dar um exemplo: o recreio era no pátio, das 10 às 11 horas, e a primeira coisa que o Ramiro [Moreira] pediu à minha mulher, quando ela foi lá visitar-me, foi um bronzeador. Para não se queimar (...) O à-vontade daquilo era ridículo, parecia brincadeira. As famílias iam lá duas ou três vezes por semana e, às vezes, estavam numa sala a conversar umas com as outras. E nós a conversarmos também, com os polícias à volta. «Eu disse isto, os gajos perguntaram aquilo... Agora vão esmiuçar mais isto...» Os advogados traziam fotocópias das perguntas e respostas do processo e depois distribuíam-nas, para sabermos o que um tinha dito, o que tinha dito o outro, etc (...)".


Sobre Marcelino da Mata, um "herói português", sempre evocado nestas lembranças pelos apaniguados da contrarrevolução, publico também uma passagem do meu livro "Por Dentro do Chega". Recorde-se que o militar foi sugerido por Carlos Monteiro, fundador do partido, ao próprio líder AV, para candidato presidencial em 2021. «Sugeri-lhe o tenente-coronel Marcelino da Mata e ele não fazia ideia de quem era», lamentou-se Carlos Monteiro.

Não sei se é suficiente. Mas há mais se precisarem.

Por fim: outra das imagens que aqui mostro é o parágrafo de um dos relatórios da Aministia Internacional sobre Portugal, na época.

Tirem as vossas conclusões. Mas não se esqueçam: o que está em curso, com a mais ampla lavagem coletiva que alguma vez me recordo de assistir, é reconfigurar o regime. Para que a verdade não possa sequer sobreviver como asterísco na narrativa dos vencidos do 25 de Abril.