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quinta-feira, 30 de abril de 2026

PTRR – 9 ANOS PARA COMBATER ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, FALHAS DE ENERGIA E CIBERATAQUES

Passageiros esperam no exterior de um terminal do Aeroporto de Lisboa durante um corte de energia, em Lisboa, Portugal, 
a 28 de abril de 2025. REUTERS/Pedro Nunes.

O Governo de Luís Montenegro 'anunciou' um programa de investimento de 22,6 mil milhões de euros a ser implementado ao longo de nove anos, com o objetivo de mitigar riscos como as alterações climáticas e as falhas de energia. A iniciativa, denominada «Transformação, Recuperação e Resiliência de Portugal», visa reforçar as infraestruturas, as instituições, as habitações e as empresas contra ameaças relacionadas com as alterações climáticas, a segurança energética, a atividade sísmica e os ciberataques. Será financiada em 37 % pelo orçamento do Estado, representando o financiamento privado 34 % do total e os fundos europeus cobrirão 19 %. O plano foi lançado na sequência das fortes tempestades que atingiram a região central do continente português em janeiro e fevereiro, causando prejuízos estimados em 5,3 mil milhões de euros, e de uma falha de energia devastadora em Espanha e Portugal há exatamente um ano. Fonte.

"A operação foi de propaganda primária (...). Montenegro apresentou como novidade aquilo que já fora anunciado tantas vezes desde os efeitos das tempestades de há dois meses. Prometeu apoios, proclamou investimentos, garantiu transformações. Tudo muito bonito em powerpoint, tudo muito convincente em slides bem desenhados, tudo muito impressionante em gráficos coloridos. E tudo completamente desligado da realidade que as pessoas vivem. Porque na realidade (...) não há nenhuns apoios efetivos às pessoas e às empresas para reerguerem as suas vidas. Os que perderam casas continuam sem saber como as reconstruir. Os que viram negócios destruídos continuam sem apoio concreto. Os que ficaram sem nada continuam com nada. E as seguradoras fazem aquilo que muito bem sabem: rápidas a cobrarem os prémios dos seguros, especialistas em encontrar cláusulas que lhes permitem escusar-se a indemnizar os clientes quando estes se veem sinistrados (...). Mas o cúmulo da desfaçatez — aquilo que transformou conferência de imprensa em farsa inqualificável — foi Montenegro recusar-se a responder a qualquer pergunta dos jornalistas. (...) Chamou os ministros. E ali, perante jornalistas atónitos e uma nação que assistia incrédula, obrigou-os a cantar em coro o hino nacional. Coisa nunca vista. Nunca. Em décadas de democracia portuguesa, em centenas de conferências de imprensa, em milhares de momentos de comunicação governamental — nunca se tinha visto tamanha instrumentalização patética de um símbolo nacional para fugir a perguntas incómodas. É a expressão de um nacionalismo serôdio que, como bem se sabe desde Samuel Johnson, costuma ser o último refúgio dos canalhas. Quando não tens argumentos, agitas a bandeira. Quando não tens respostas, cantas o hino. Quando não tens competência para governar, escondes-te atrás de símbolos pátrios como se isso compensasse a tua mediocridade. (...) quando um primeiro-ministro precisa de transformar conferência de imprensa em número de circo, quando tem de obrigar ministros a cantar o hino para evitar responder a jornalistas, quando substitui prestação de contas por teatralização patriótica — é porque já não tem nada de substancial para dizer. É patético. Mas é também perigoso. Porque este tipo de nacionalismo performativo — esse que substitui governação por símbolos, que troca políticas por folclore, que esconde incompetência atrás de pátria — é o mesmo que historicamente sempre antecedeu derivas autoritárias Não que Montenegro seja fascista. Não é. É apenas incompetente e desesperado. Mas a incompetência desesperada que recorre a nacionalismo barato para se legitimar cria condições para que verdadeiros autoritários — esses sim, como Ventura — se apresentem como alternativa credível. (...) aquilo não foi conferência de imprensa de um Governo que governa. Foi o canto do cisne de quem já sabe que está a afundar-se e tenta disfarçar o naufrágio com hinos e bandeiras. Não resultará. Nunca resulta. Mas pelo menos ficará registado para a História: o dia em que um primeiro-ministro português, incapaz de responder a jornalistas, transformou uma conferência de imprensa em sessão de karaoke patriótico."  Jorge Rocha, Ventos semeados.

REINO UNIDO: TECNOLOGIA VERDE CHINESA É PERIGOSA PARA A SEGURANÇA NACIONAL?

  • Um relatório britânico, encomendado pela Loom, alerta que a dependência da tecnologia verde chinesa está a tornar os países europeus vulneráveis a riscos de segurança nacional, incluindo ciberataques, restrições comerciais e espionagem. O relatório identificou oito riscos associados a uma dependência excessiva da tecnologia verde chinesa. Entre os principais riscos destaca-se a perturbação da cadeia de abastecimtransento, uma vez que a China poderia restringir o fornecimento de tecnologia e componentes de baixo carbono. Um risco subestimado era o de os EUA poderem exigir que a Europa retirasse a tecnologia chinesa dos seus sistemas energéticos — ou enfrentasse tarifas, sanções ou compromissos de segurança reduzidos. Recorde-se que o Reino Unido, após intensa pressão dos EUA, proibiu a Huawei de fornecer equipamento para as redes de telemóveis 5G britânicas. Outro risco inclui um ataque disruptivo em grande escala que poderia utilizar os chamados «kill switches» para desativar remotamente painéis solares, turbinas eólicas e outras tecnologias. Recorde-se que em 2023, o Centro Nacional de Cibersegurança aconselhou a National Grid do Reino Unido a remover componentes fornecidos por uma empresa apoiada pelo Estado chinês da rede de transmissão de eletricidade britânica devido a receios de cibersegurança. Em março passado, o Reino Unido rejeitou os planos para a construção de uma fábrica chinesa de turbinas eólicas na Escócia por motivos de segurança nacional. Um leilão italiano realizado em 2025 exigiu que os módulos e inversores para novos projetos solares fossem de origem não chinesa. As autoridades chinesas rejeitam as preocupações relativas à dependência da tecnologia verde do seu país, afirmando que Pequim não tem qualquer intenção de a utilizar para obter vantagens políticas e que as turbinas, os painéis solares e outros produtos de energia renovável a preços acessíveis reduzem o risco muito maior decorrente das elevadas emissões de carbono. Fonte.
  • Não há dinheiro para o comboio, mas para o avião, a história é outra. No final de 2025, o governo francês eliminou os comboios noturnos Paris-Viena sob o pretexto de «fazer poupanças». Mas, alguns meses depois, decidiu subsidiar a nova linha aérea entre Estrasburgo e Munique, inaugurada no início de abril. No entanto, estas duas cidades estavam bem ligadas pelo comboio noturno Paris-Viena. Fonte.
  • Desastre ambiental no Mar Negro após ataques ucranianos à refinaria de Tuapse. Fonte.
  • Na Carolina do Norte, dezenas de casas foram engolidas pelo mar. Algumas das casas que sobreviveram estão agora a ser transportadas sobre rodas. Fonte.

REFLEXÃO

EMIRATOS REALIZAM 300 SEMEADURAS DE NUVENS POR ANO
Ines Eisele, Cai Nebe, Emad Hassan, Alima de Graaf e Ardit Toca, Deutsche Welle
Trad. O’Lima.

Um piloto e um responsável dos Emirados Árabes Unidos verificam os foguetes de sal numa aeronave de semeadura de nuvens no aeroporto de Al-Ain, em 2015. Os Emirados Árabes Unidos realizam cerca de 300 missões de semeadura de nuvens por ano para combater a escassez de água. Imagem: Marwan Naamani/AFP

(...) Os Emirados Árabes Unidos têm um centro denominado Programa de Investigação para a Ciência do Aumento da Precipitação (UAEREP). (...)

O UAEREP existe desde 1990 e «está na vanguarda do avanço da investigação sobre o aumento da precipitação e da promoção de inovações que reforçam a segurança hídrica global».

Ambos financiam investigação em todo o mundo e conduzem as suas próprias operações de semeadura de nuvens.

«Estou muito familiarizado com isso», disse Armin Sorooshian, um investigador da Universidade do Arizona que estuda os efeitos das partículas de aerossóis nas nuvens. «Para quem estuda física atmosférica e interações entre aerossóis e nuvens, esta é uma oportunidade de financiamento que existe há muitos anos, na qual as pessoas apresentam propostas a este programa.»

O que é a sementeira de nuvens?

Esta tecnologia remonta a meados do século XX e é conhecida como sementeira de nuvens. Os cientistas descobriram uma técnica para estimular a chuva a partir de nuvens que já se encontram prestes a precipitar. Para tal, lançam agentes como o iodeto de prata ou o cloreto de sódio nas nuvens, utilizando aviões ou lançadores terrestres.

«O ponto-chave aqui é que isto não faz chover do nada», explicou Edward Gryspeerdt, professor de física atmosférica no Imperial College London. «Não se pode ter um céu limpo, semeá-lo de repente e ver aparecerem nuvens e chuva. É preciso que essas nuvens já estejam prestes a chover, e o que se faz é, de certa forma, empurrá-las para além desse ponto.»

Como as nuvens já têm de estar propensas à precipitação, pode ser difícil medir a eficácia da técnica. É normalmente utilizada em ambientes de pequena escala, como para aumentar a camada de neve numa pista de esqui, explicou Gryspeerdt. Nos Emirados Árabes Unidos, o objetivo é combater o stress hídrico.

Frame de video da DW.

Capacidade de semeadura de nuvens «em escala muito reduzida»

Até à data, as tecnologias de semeadura de nuvens não conseguem influenciar os padrões meteorológicos em toda uma região.

«Mesmo que funcionassem, continuariam a ser aplicadas numa escala muito reduzida», afirmou Gryspeerdt. «Não atingem uma escala que lhes permita alterar os padrões de fluxo atmosférico, por exemplo, e desviar a chuva para o outro lado do planeta.»

A literatura científica atual sugere que a semeadura de nuvens pode aumentar a precipitação em 5-20% numa microescala.

«Talvez essa precipitação possa durar mais tempo e cair noutro local, mas a escala de que estamos a falar (…) é muito maior do que aquilo que pode ser alcançado com uma instalação de semeadura», afirmou o investigador Armin Sorooshian.

BICO CALADO

O que vi hoje...
  • Ex-chefe do Mossad compara a violência dos colonos israelitas na Cisjordânia à dos nazis durante o Holocausto. «O que vi hoje fez-me sentir envergonhado de ser judeu», afirmou Tamir Pardo após visitar a Cisjordânia ocupada. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A PALANTIR JÁ NÃO VENDE APENAS «SOFTWARE»: VENDE UMA TEORIA TECNOFASCISTA DE GOVERNAÇÃO GLOBAL
Guillem Pujol, La Marea. Trad. O’Lima.

Peter Thiel, presidente da Palantir Technologies. Foto: GAGE SKIDMORE / CC BY-SA 2.0

O manifesto de 22 pontos divulgado pela Palantir representa uma exposição resumida de um programa histórico em que a guerra, a gestão algorítmica das populações e a aliança entre as grandes empresas tecnológicas e o Estado surgem como um horizonte desejável. E convém interpretá-lo assim, porque a Palantir já obtém 54% das suas receitas de clientes governamentais e transformou essa proximidade com o aparelho estatal no cerne do seu modelo de negócio.

Mas vamos por partes. Durante anos, grande parte do discurso dominante sobre Silicon Valley assentou numa fábula infantil de inovação, disrupção e criatividade individual. A garagem, o fundador visionário, a aplicação que melhora a vida quotidiana, a tecnologia entendida como uma extensão amigável do consumo e outras narrativas ilusórias que constituíam o imaginário do self-made man e que serviam para justificar, basicamente, que uns ganhassem muito e outros muito pouco.

O breve catecismo agora publicado pela Palantir tem o mérito de quebrar esse cenário. Fá-lo de forma brutal e, por isso mesmo, reveladora. Enquanto outras empresas ainda envolvem o seu poder na linguagem aséptica da eficiência, a Palantir optou por enunciar a sua ambição sem muitos rodeios.

O Vale do Silício, afirma ele, tem uma «obrigação positiva» de participar na defesa da nação. Segundo a sua perspetiva tecnofascista, o mundo caminha para um futuro apocalíptico em que os Estados já não têm capacidade para defender as suas populações; consequentemente, o papel que o setor privado deve desempenhar para garantir a «segurança» das «democracias» apresenta-se como algo inevitável. O mundo pós-Segunda Guerra Mundial acreditou na ilusão ingénua do multiculturalismo e da paz mundial, provocando um «ewnfraquecimento» da ordem ocidental do pós-guerra.

A primeira tentação consiste em ler esse texto como mais uma provocação do ecossistema Thiel-Karp, um artifício concebido para escandalizar a opinião pública liberal e ganhar protagonismo na discussão. Essa leitura capta uma parte do fenómeno, mas fica aquém: o manifesto importa menos pela sua estridência do que pela sua função. A Palantir não procura simplesmente descrever a sua cosmovisão, mas normalizar uma nova relação entre capital tecnológico, soberania e violência. Procura tornar senso comum a ideia de que o futuro das democracias depende de uma integração cada vez mais orgânica entre infraestruturas digitais, defesa, inteligência e vigilância.

O que é a Palantir: do Vale do Silício ao complexo técnico-militar

A Palantir é uma empresa fundada com o apoio inicial da In-Q-Tel, o fundo ligado à CIA, e hoje profundamente envolvida em contratos militares, policiais, migratórios e de saúde. O antigo complexo militar-industrial de inteligência, após o golpe na sua credibilidade que representou o atentado de 11 de setembro, lançou-se aos braços do setor privado.

Novos lóbis e laboratórios de ideias juntaram-se então ao complexo industrial-militar, o monstro que corrói por dentro a «democracia mais antiga do mundo» e que o presidente Eisenhower já em 1957, no seu discurso de despedida, qualificou como «o principal inimigo» dos EUA.

Ao contrário dos fornecedores tradicionais, a Palantir não se limita a fornecer ferramentas. As suas plataformas — Gotham, Foundry, Apollo — não só integram dados, como os reorganizam segundo uma lógica operacional que traduz a complexidade social em padrões passíveis de ação. O mundo surge como uma superfície legível, passível de intervenção em tempo real. Algo que é muito bem descrito no livro coordenado por Júlia Nueno, Genocídios. Uma leitura forense (Galaxia Gutenberg, 2025).

Esta mudança tem implicações profundas: onde antes havia conflito, interpretação ou disputa, surge uma arquitetura de decisão baseada em correlações, probabilidades e alertas automatizados. A política reconfigura-se como gestão de riscos. O governo como otimização contínua. E nesse processo, quem concebe a infraestrutura não só executa decisões, como delimita de antemão o que pode ser visto, pensado e decidido.

A doutrina Palantir

A primeira consiste numa redefinição do papel da tecnologia. A Palantir rejeita explicitamente a tendência consumista de Silicon Valley e defende um regresso à «missão»: identifica-se sem ambiguidades com a defesa nacional, com a capacidade de exercer poder e com a produção de superioridade estratégica. A tecnologia deixa de ser um espaço de inovação aberta para se tornar infraestrutura de soberania.

A segunda operação é mais subtil. Consiste numa releitura da ordem internacional pós-1945. Aí onde o consenso liberal tinha situado valores como a cooperação, o multilateralismo ou os direitos humanos, o manifesto introduz uma narrativa de decadência. O problema já não seria o excesso de poder, mas sim a sua ausência. O «enfraquecimento» do Ocidente surge como uma anomalia histórica que deve ser corrigida. Desta forma, a militarização não se apresenta como uma ruptura, mas sim como uma restauração.

A terceira operação é talvez a mais relevante. Trata-se de uma naturalização da integração entre o Estado e as empresas tecnológicas. O manifesto não discute se essa aliança deve existir, mas parte do princípio de que sim: Silicon Valley não só pode colaborar com o aparelho de segurança, como deve fazê-lo. Trata-se de um imperativo moral em que a externalização de funções estratégicas deixa de ser um problema democrático para se tornar um imperativo político.

Nesta lógica, e lido no seu conjunto, o texto não propõe simplesmente uma agenda, mas sim uma mudança de paradigma: a democracia deixa de ser concebida em termos de deliberação, conflito ou representação, e passa a ser entendida como capacidade de antecipação, cálculo e implementação técnica. Não se trata apenas de governar melhor, mas sim de governar a partir de outro lugar. O seu, nem mais nem menos.

Contribuição da Palantir para o genocídio em Gaza

Nos últimos anos, a Palantir reforçou a sua colaboração com o aparelho militar e de inteligência de Israel, oferecendo capacidades de análise de dados, integração de fontes e modelização de alvos em contextos de guerra. No âmbito da ofensiva sobre Gaza, vários relatórios e denúncias de organizações de direitos humanos têm apontado que sistemas deste tipo participam na seleção e priorização de alvos.

É aqui que o manifesto deixa de ser um texto ideológico para se tornar uma chave de leitura concreta. O apelo ao hard power, a defesa da superioridade tecnológica como condição da democracia e a naturalização do uso da inteligência artificial em contextos bélicos encontram uma tradução direta em práticas concretas.

Falar de «crimes de guerra» neste contexto não se refere apenas à ação direta de um Estado, mas à configuração de um ecossistema técnico que facilita, acelera e legitima determinadas formas de violência. A automatização parcial da seleção de alvos, o alargamento do raio de danos aceitáveis sob parâmetros probabilísticos e a opacidade dos sistemas utilizados introduzem uma camada adicional de irresponsabilidade distribuída. A aliança da Palantir com Israel deve ser interpretada neste contexto: não como mais um contrato na sua carteira, mas como uma articulação estratégica entre a empresa e o Estado num cenário em que a guerra funciona como laboratório. E o manifesto publicado procura simplesmente preparar o terreno cultural para aceitar como inevitáveis processos que já estão a ocorrer.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

ESPANHA: ELÉTRICAS E PP PROPAGAM NOTÍCIAS FALSAS CULPANDO AS RENOVÁVEIS PELO APAGÃO


A Greenpeace denunciou quatro notícias falsas que estão sendo propagadas por empresas elétricas e pelo Partido Popular (PP), com o objetivo de culpar as energias renováveis pelo apagão e justificar a manutenção de centrais nucleares e de gás:

1: “Havia energia renovável em excesso”
Realidade: O apagão foi causado por falhas no controle de tensão atribuíveis a centrais de gás e nucleares (que não forneceram os serviços de segurança pelos quais foram pagas). Países com maior participação renovável (Alemanha, Grécia) não sofreram apagão.

2: “Não podemos prescindir da energia nuclear para evitar novos apagões”
Realidade: A nuclear foi um peso durante a crise. Mais de metade do parque nuclear estava operacional, mas não ajudou a estabilizar o sistema (inclusive há processos contra centrais como Almaraz, Ascó e Vandellós II). Além disso, centrais nucleares são lentas para religar (levam dias), ao contrário de outras tecnologias.

3: “Sem gás não podemos viver”
Realidade: Embora as cantrais de gás tenham ajudado na recuperação pós-apagão, 16 centrais de gás também falharam em controlar a tensão para evitar o colapso (e estão sendo sancionadas).

4: “Só com renováveis não podemos funcionar”
Realidade: Um estudo da Greenpeace (Energia para viver melhor) conclui que Espanha e Portugal podem abandonar completamente os combustíveis fósseis e a energia nuclear até 2040, com redução de 39% da procura energética total e abastecimento 100% renovável (eólica, solar, hidráulica, armazenamento e gestão da procura).

A Greenpeace sugere a aplicação de um imposto específico sobre as grandes empresas elétricas (que aumentaram lucros pós-apagão) para financiar o combate à pobreza energética e uma transição energética justa.

DENGUE: MOSQUITO DETETADO EM 28 CONCELHOS

  • O mosquito Aedes albopictus, transmissor de doenças como dengue, chikungunya, febre-amarela e Zika, foi detetado em 2025 em 28 concelhos de Portugal, informa o mais recente Relatório REVIVE, divulgado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que confirma a expansão da espécie no território nacional. O número representa um aumento face a 2024, quando a espécie invasora estava identificada em 18 concelhos, refletindo uma tendência de crescimento contínuo da sua presença em Portugal. Fonte.
  • Cientistas britânicos da Universidade de Manchester estão a investigar uma técnica de geoengenharia denominada «clareamento de nuvens marinhas». Pretendem lançar uma névoa fina de água salgada a grande altura no céu para tornar as nuvens mais claras, de modo a que estas reflitam mais luz solar de volta para o espaço e ajudem a arrefecer o planeta. O projeto REFLECT é financiado pela Agência de Investigação Avançada e Inovação (ARIA) do Reino Unido, que atribuiu 57 milhões de libras a 22 projetos de geoengenharia. Os investigadores e a ARIA salientam que a descarbonização continua a ser a única solução sustentável para a crise climática e que esta investigação apenas tem como objetivo criar uma base de dados objetivos que sirva de suporte para a tomada de decisões seguras. Tudo isto porque há empresas privadas, apoiadas por capital de risco, que já estão a entrar neste setor sem qualquer quadro regulamentar, o que cria uma necessidade urgente de investigação independente financiada com fundos públicos. Quaisquer ensaios futuros exigirão avaliações de segurança independentes e uma conceção conjunta com a comunidade. Ainda não foi escolhido nenhum local, e as experiências ao ar livre não terão lugar antes de 2028. Fonte.
  • A administração Trump anunciou mais dois pagamentos a empresas do setor energético para que abandonem projetos eólicos offshore em desenvolvimento nos EUA. A Bluepoint Wind e a Golden State Wind concordaram em rescindir os seus contratos de arrendamento eólico offshore em troca de reembolsos que totalizam quase 900 milhões de dólares. Fonte.
  • O ministro do Ambiente do Líbano acusou as forças armadas de Israel de cometerem «um ato de ecocídio» no prefácio de um relatório que detalha os danos causados aos recursos naturais do país durante a invasão de 2023 a 2024.
  • A tribo Stillaguamish, a norte de Seattle, está a devolver terras agrícolas ao mar para salvar o salmão e ajudar a proteger contra inundações uma comunidade que tem enfrentado dificuldades devido à subida do nível do mar causado pelas alterações climáticas. Fonte.

BICO CALADO

DINNER FOR ONE by Marian Kamensky, Courtesy CagleCartoons.com
  • Trump aproveita o tiroteio no Jantar dos Correspondentes para justificar o alargamento dos poderes de vigilância à medida que o prazo se aproxima. Julia Conley, Common Dreams.
  • O governo do Reino Unido anunciou planos para alargar a utilização do reconhecimento facial em tempo real (LFR) a todo o país, na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal que confirmou a legalidade da utilização do sistema pela Polícia Metropolitana. A ministra da Polícia, Sarah Jones, saudou a decisão, afirmando: «Os cidadãos cumpridores da lei não têm nada a temer.» Pior ainda, classificou quem se opõe à tecnologia como «incivilizado» e insinuou que essas pessoas estão do lado de assassinos e violadores. Aparentemente, é errado querer privacidade. (…) Os agentes da polícia estão a arrastar pessoas da rua e a exigir os seus dados se estas se recusarem a ter o rosto digitalizado. Apenas um pequeno número de verdadeiros criminosos está a ser apanhado, com um julgamento a resultar em zero detenções, mas a vigilância em massa está a ser vendida como o «maior avanço desde o ADN» para apanhar criminosos violentos. A solução deles para o crime é fazer com que o seu rosto se torne o seu cartão de identificação. CEM, Substack.
  • Peter Magyar derrotou Victor Orban nas eleições realizadas na Hungria no início desta semana, o que provocou uma onda de júbilo por parte dos meios de comunicação liberais e da classe política. Muitos seguiram a linha de Obama, saudando o resultado como uma vitória para a democracia e o Estado de direito. De facto, Magyar está tão empenhado no Estado de direito que convidou Netanyahu para visitar a Hungria em outubro. Nate Bear, Numa Época de Monstros, Os Piores HeróisSubstack.
  • A gigante tecnológica americana responsável pelo software de declaração de impostos mais popular dos EUA permite que os seus funcionários usem os uniformes das Forças de Defesa de Israel no trabalho e também lhes concede licenças de vários meses para combater nas guerras de Israel. No mês passado, Tom Yacobi, analista de dados da gigante de tecnologia financeira Intuit — cujos produtos incluem o TurboTax, um programa de declaração de impostos amplamente utilizado —, participou numa videoconferência da empresa no Zoom, com todos os funcionários, vestindo o uniforme completo das Forças de Defesa de Israel. Nate Bear, Substack.
  • Paris vai quase duplicar o imposto sobre os apartamentos devolutos em 2027. O imposto sobre o valor cadastral de arrendamento passará de 17 % para 30 % durante o primeiro ano de desocupação de um imóvel. Uma percentagem que subirá até 60 % após dois anos de desocupação. Fonte.
  • A BP duplicou os seus lucros para 3,2 mil milhões de dólares. Fonte.
  • O Reino Unido foi apontado como o maior violador do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares no «Nuclear Weapons Ban Monitor 2026», um relatório elaborado pela Norwegian People’s Aid (NPA). Esta classificação deve-se, em parte, ao facto de o Reino Unido possuir as suas próprias armas nucleares, bem como ao facto de se entender que começou a acolher armas nucleares dos EUA de Trump. Fonte.
  • O endurecimento do embargo de 65 anos imposto pelos EUA a Cuba pelo presidente Donald Trump ao longo dos seus dois mandatos é provavelmente a principal causa de um aumento sem precedentes da taxa de mortalidade infantil em Cuba, que disparou 148 % entre 2018 e 2025, conclui um relatório do Centro de Investigação Económica e Políticasediado em Washington, DC.

terça-feira, 28 de abril de 2026

DESTRUIR PAINÉIS SOLARES – PORQUÊ?

  • Consulta pública até 9 de junho: Construção de um espaço verde exterior integrando domínio hídrico público (três linhas de água), na Freguesia de S. Sebastião, Setúbal. O projeto contempla a ocupação de domínio hídrico público num prédio objeto de operação de loteamento. As três linhas de água identificadas apresentam características de regime torrencial, sendo influenciadas por descargas pluviais provenientes de áreas urbanas adjacentes. A intervenção proposta contempla a regularização e renaturalização da linha de água, com integração em espaço verde, e o dimensionamento hidráulico de uma secção trapezoidal apta a assegurar o escoamento de caudais de cheia para um período de retorno de 100 anos. A solução projetada apresenta capacidade hidráulica superior. A ocupação do domínio hídrico resulta da necessidade de compatibilização entre a implantação urbanística e a requalificação hidráulica da linha de água, sendo enquadrada por medidas que visam a proteção, valorização e funcionalidade do sistema hídrico. Fonte.

BICO CALADO

  • Lucro da Galp dispara 41% nos primeiros três meses do ano. O aumento dos preços do petróleo por causa da guerra beneficiou os resultados da empresa nas áreas de produção e exploração petrolífera. Fonte.
  • Ministério da Educação sem controlo: associação sem fins lucrativos é fachada para vendas agressivas através de projectos educativos. Fonte.
  • Israel assassinou ontem Imad Miqdad num ataque com drones, que teve como alvo a sua estação de carregamento de telemóveis movida a energia solar em Gaza. Fonte.
  • O que se passa, afinal, com os cientistas norte-americanos desaparecidos e mortos? CEM, Substack.




LEITURAS MARGINAIS


SER ASSASSINADO EM CASA POR UM ROBÔ ASSASSINO ENVIADO POR UM ESTADO FASCISTA JÁ NÃO É FICÇÃO CIENTÍFICA

Thom Hartmann, Common Dreams. Trad. O’Lima.


Já pensaste que um drone pudesse perseguir-te pela rua ou disparar uma bala pela janela da tua sala de estar só porque irritaste o Trump, o Miller ou os capangas do ICE? Se a resposta for «isso é ficção científica», por favor, continua a ler: essa realidade pode estar a apenas alguns meses de distância, e cada parte da infraestrutura de espionagem e morte necessária para que isso aconteça foi discretamente montada pelo regime de Trump nos últimos catorze meses.

Esta terça-feira, enquanto a América assistia obsessivamente às últimas reviravoltas bizarras no desastre de Trump com o Irão, o Pentágono de Whiskey Pete apresentava um pedido de orçamento de 1,5 biliões de dólares que continha uma rubrica de que quase ninguém fala: um aumento de 24 000 por cento, de 225 milhões de dólares no ano passado para 54,6 mil milhões de dólares este ano, para uma unidade chamada Defense Autonomous Warfare Group.

Este é o maior aumento anual registado por qualquer programa em todo o orçamento da defesa, e está destinado à criação de sistemas autónomos de extermínio humano baseados em IA no âmbito do Comando de Operações Especiais, com sede na Base Aérea de MacDill, na Flórida.

O USSOCOM «fornece forças de elite prontas para o combate... As suas responsabilidades incluem contraterrorismo, guerra não convencional, ação direta, reconhecimento especial, defesa interna estrangeira e operações psicológicas.»

No dia seguinte, o Comando Sul dos EUA anunciou o seu próprio Comando de Guerra Autónoma, focado nas Caraíbas e na América Central, onde Trump e Hegseth já têm vindo a explodir ilegalmente pequenas embarcações sem mandados, julgamentos ou autorização do Congresso, desafiando tanto a legislação dos EUA como o direito internacional.

Se leres esses dois comunicados lado a lado descobrirás o manual de instruções para o que se segue. Para compreender por que razão isto diz respeito a todos os americanos que alguma vez pensaram em protestar contra o Partido Republicano de Trump e o seu monstro de Frankenstein, o ICE, pessoalmente ou nas redes sociais — e não apenas aos pescadores venezuelanos que morreram à deriva ao largo de Curaçao —, teremos primeiro de recuar três meses até uma rua arborizada no sul de Minneapolis, e à manhã em que Renee Nicole Good deixou o seu filho de seis anos na escola.

Tinha 37 anos, era uma poetisa publicada que se tinha licenciado em Inglês pela Old Dominion, mãe de três filhos e esposa de Becca Good. A poucos quarteirões da escola, deparou-se com uma operação do ICE no seu próprio bairro, com veículos sem identificação, agentes mascarados e os apitos estridentes que os vizinhos de Minneapolis vinham a fazer soar há seis semanas sempre que os bandidos mascarados apareciam.

Renee parou o seu SUV de lado na rua e pegou no telemóvel; alguns minutos depois, o capanga do ICE, Jonathan Ross, disparou três tiros através do pára-brisas e da janela, matando-a a cerca de um quilómetro e meio do local onde George Floyd tinha morrido cinco anos antes. A sua esposa, que estava atrás do veículo a questionar os agentes, foi filmada por transeuntes a correr pela rua coberta de neve e a cambalear de volta, a chorar e coberta com o sangue do seu marido.

Começo pela Renee porque ela é o rosto humano da realidade em que este país já se encontra sob o estado policial que Trump e Miller estão a construir, e não do rumo que estamos a tomar. Quando ela foi alvejada, os agentes do ICE já tinham disparado contra nove pessoas em cinco estados e em Washington, D.C., desde setembro. Nenhum deles foi acusado criminalmente.

Apenas alguns dias após o seu assassinato, agentes federais em Minneapolis terão dito a transeuntes e observadores jurídicos «é por isso que aquela cabra lésbica está morta», e em Portland, no Maine, um capanga do ICE foi filmado a dizer a uma mulher que o estava a filmar: «temos uma bela base de dados, e agora és considerada uma terrorista doméstica».

É essa a cultura que Trump, Miller e o Partido Republicano construíram, recorrendo a agentes humanos armados com armas automáticas, máscaras e matrículas falsas, enquanto partiam vidros de carros, arrombavam portas de entrada, espancavam e matavam impunemente e, agora, «detêm» cerca de 70 000 pessoas sem o devido processo legal exigido pela Constituição.

O que os republicanos se preparam agora para fazer é dotar essa cultura mortal, violenta e invasiva de um algoritmo de alvos e de uma frota de drones assassinos autónomos.

Para compreender o que está para vir, a menos que o Congresso intervenha para o impedir agora, é preciso primeiro saber o que já foi construído em Gaza, que serve de modelo para o regime de Trump. Um denunciante dos serviços secretos israelitas revelou à revista israelita +972, em abril de 2024, a existência de um sistema de IA chamado Lavender que classificava toda a população de Gaza de acordo com a «probabilidade de filiação militante».

Então, o Lavender gerou automaticamente uma «lista de alvos a abater» com cerca de trinta e sete mil pessoas que viviam em Gaza, com base em dados como metadados de telemóveis interceptados e atividade nas redes sociais. Essa lista foi entregue a agentes humanos, que demoravam, em média, vinte segundos a aprovar cada nome antes de a Força Aérea Israelita bombardear a casa de cada alvo, matando esses «militantes» e as suas famílias.

O sistema apresentava uma taxa de erro estimada em cerca de dez por cento, o que, numa população de dois milhões de habitantes de Gaza, se traduz em milhares de civis mortos porque o computador com IA cometeu erros ou tirou conclusões erradas das suas atividades nas redes sociais, no telemóvel ou nas viagens.

Ainda mais brutal, um sistema israelita complementar chamado «Onde está o papá?» localizava esses homens identificados para que pudessem ser bombardeados quando estivessem em casa com as suas mulheres e filhos, porque, como um oficial admitiu aos jornalistas, era «muito mais fácil» bombardear a casa de uma família do que tentar atingir uma instalação militar ou empresarial.

E quanto às famílias destes «militantes»? O comando israelita aprovou até vinte mortes de civis — homens, mulheres, crianças — por cada «militante» de baixo escalão morto, e mais de uma centena de mortos quando se bombardeava para eliminar um «comandante sénior».

É assim que o assassinato automatizado em escala industrial funciona realmente em tempo real, como funciona neste preciso momento enquanto lês estas palavras, e não é ficção científica.

Vê agora o que está a ser montado aqui, peça por peça, com base no modelo israelita da Lavender e nas lições retiradas da sua experiência.

O ICE assinou contratos no valor de mais de 60 milhões de dólares com a Palantir, de Peter Thiel, para desenvolver algo chamado ImmigrationOS e uma aplicação de segmentação chamada ELITE, sigla para «Enhanced Leads Identification and Targeting for Enforcement» (Identificação e Segmentação Avançadas de Pistas para Aplicação da Lei).

O ELITE extrai dados do IRS, da Administração da Segurança Social, dos registos do DMV, dos ficheiros do Medicaid, das contas de serviços públicos, de leitores de matrículas e de corretores de dados comerciais (que normalmente incluem publicações nas redes sociais e, muitas vezes, até e-mails quando estes provêm de fornecedores de e-mail «gratuitos»), preenche depois um mapa com dossiês e atribui uma «pontuação de confiança» ao endereço atual de cada pessoa. Se atualizares o teu endereço para obteres cuidados médicos, por exemplo, isso atualiza a tua pontuação. Ou se publicares algo nas redes sociais.

Stephen Miller, o arquiteto deste regime distópico de fiscalização, detém alegadamente uma participação financeira de seis dígitos na Palantir, sobre a qual, tanto quanto sei, ninguém no Congresso exigiu ainda explicações.

Entretanto, o ICE tem vindo a adquirir e a utilizar drones Skydio para monitorizar protestos, a Alfândega e Proteção de Fronteiras tem vindo a utilizar drones MQ-9 Predator (a mesma plataforma que matou pessoas no Iémen e no Paquistão) sobre manifestações anti-ICE em Los Angeles, e a FAA emitiu discretamente um aviso a nível nacional em janeiro, criando zonas de exclusão aérea de 3000 pés em torno de todos os veículos do DHS e do ICE, para que cidadãos e jornalistas não possam filmar operações federais de imigração a partir do ar.

Este último ponto é o mais alarmante de todos: não se fecha o espaço aéreo sobre uma agência de aplicação da lei a menos que se pretenda fazer lá coisas que não se quer que sejam fotografadas.

E não são só as autoridades federais a utilizar este tipo de equipamento. Há quatro dias, o The Intercept noticiou que o Departamento de Polícia de Los Angeles utilizou a sua frota de «Drones como Primeiros Socorros», um programa que inicialmente apresentou ao público como uma «ferramenta de emergência para a segurança pública», para vigiar a manifestação «ICE Out» de 31 de janeiro no centro de Los Angeles e, posteriormente, a manifestação «No Kings» do mês passado.

Os drones são Skydio X10s, que, segundo a publicidade do fabricante, são capazes de detetar uma pessoa a mais de 2 438 metros de distância, identificar facialmente um indivíduo a 800 metros e ler uma matrícula a 244 metros. Dois agentes podem operar oito destes drones ao mesmo tempo, cada um seguindo automaticamente «pessoas de interesse».

É assim que acontece a «derrapagem da missão». Uma ferramenta vendida para salvar vidas acaba por nos espiar durante um protesto pacífico, registando os nossos rostos, as matrículas dos nossos carros e as pessoas com quem marchámos. É assim que esses dados são recolhidos, fluem — tal como todos os dados das forças da ordem na América fluem atualmente — para as mesmas bases de dados federais criadas pela Palantir, das quais o ELITE e o ImmigrationOS estão a extrair dados neste preciso momento.

Depois, há o Pentágono. Aquele pedido de 54,6 mil milhões de dólares do Grupo de Guerra Autónoma da Defesa que mencionei está enterrado num orçamento de 1,5 biliões de dólares, suficientemente grande para esconder quase tudo. O novo Comando de Guerra Autónoma do Comando Sul já está a usar drones para fazer explodir pequenas embarcações nas Caraíbas que o regime de Trump alega estarem a traficar narcóticos, sem nada que se assemelhe a um devido processo legal ou a uma autorização do Congresso.

Ken Klippenstein relatou esta semana que o mesmo orçamento elimina totalmente o financiamento destinado à «mitigação de danos a civis» — ou seja, evitar mortes desnecessárias de civis — no âmbito das operações do Pentágono. Por outras palavras, estamos a construir, abertamente, a infraestrutura que deu origem ao Lavender e que mata pessoas de forma automatizada, e estamos a fazê-lo sem qualquer debate público e sem qualquer oposição perceptível por parte de ninguém no Congresso.

Já passámos por isto antes, embora em escala muito menor e no estrangeiro. Entre 1967 e 1972, a CIA conduziu um programa no Vietname do Sul chamado Phoenix que gerou listas de captura ou morte, baseadas em informações secretas, de suspeitos do Vietcongue e acabou por matar entre vinte e seis e quarenta mil pessoas, muitas delas civis vietnamitas inocentes erradamente sinalizados por informadores e dados pouco fiáveis.

O programa Phoenix foi aprovado sem objeções ao longo da cadeia de comando e gerou a mesma «lacuna de responsabilidade» atrás da qual os defensores de Lavender se escondem agora em Israel, onde ninguém em particular é responsabilizado porque a lista veio do «sistema».

A lição do Phoenix é que temos de incorporar atrito, supervisão e responsabilização humana na maquinaria da violência estatal. Mas agora estamos prestes a eliminar tudo isso, e Trump quer usar o sistema contra pessoas que já rotulou de «terroristas domésticos» por filmarem uma detenção, publicarem online, criticarem o cristianismo ou as «visões tradicionais americanas sobre a moralidade», ou participarem num protesto.

No caso de Renee Good, a decisão de a matar foi tomada por um ser humano que atuava no âmbito de um sistema que já tinha determinado que o seu bairro, a sua oposição ao ICE e o seu estatuto de observadora faziam dela um alvo legítimo. O que acontecerá quando essa decisão for tomada em vinte segundos por uma máquina na Flórida e executada por um drone armado em voo estacionário, após a FAA ter encerrado o espaço aéreo civil para que ninguém esteja a observar?

Se o Congresso não agir agora, antes de esta arquitetura estar operacional, não terá outra oportunidade. O momento de proibir sistemas letais autónomos para a aplicação da lei a nível nacional é antes de o primeiro Predator explodir alguém numa rua de Minneapolis, não depois.

O momento de exigir transparência sobre os índices de confiança da Palantir é antes de o ELITE estar totalmente implementado, não depois. (...)