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sábado, 28 de fevereiro de 2026

VAGOS: AREEIRO ACUSADO DE EXTRAÇÃO INDEVIDA

  • A GNR constituiu arguido um homem de 62 anos em Vagos por incumprimento de decisão administrativa de suspensão imediata de escavação e extração de inertes avaliados em 4,9 milhões de euros, destruição de revestimento vegetal e alteração da morfologia do solo. A Guarda procedeu à apreensão de uma máquina industrial (Dumper), uma máquina industrial (escavadora/giratória), oito câmaras de CCTV e 85 metros de cabo de rede. Fonte.
Fotos: Manuel Joaquim Rodrigues.
  • Este esgoto descarrega para a Vala Real em São Martinho do Porto, corre para a baía e, daí para a praia de São Martinho do Porto. Via António de Lemos.
  • As novas casas que estão a ser construídas e vendidas em Earnley/Bracklesham (Chichester-West Sussex) não podem ser ocupadas porque não há capacidade de esgoto no sistema. O promotor imobiliário sabia disso e continuou a vender as casas, apesar de a decisão da Inspeção de Planeamento ter afirmado claramente que nenhuma casa deveria ser ocupada até que a Southern Water aumentasse a capacidade. Entretanto, a Barratt, empresa-mãe do promotor imobiliário, apresentou um pedido para construir mais 268 casas num terreno próximo, que já foi recusado para habitação em recurso e que, de acordo com a Avaliação Estratégica do Risco de Inundações do Conselho Distrital de Chichester, está em risco de inundações causadas pelas marés durante o seu período de vida útil. O terreno é atualmente um local designado para aves migratórias, terras agrícolas de primeira qualidade e está excluído do Plano Local de desenvolvimento da área. Da última vez que foi para recurso, a Barratt contratou DOIS KC para defender o caso e mesmo assim perdeu. Mas insiste. Fonte.

REFLEXÃO

CONSTRUIR SOBRE O ESTUÁRIO DO TEJO É TERRAPLENAR O FUTURO
Carla Castelo, O Maio.

Foto: Nuno Ferreira Santos/Arquivo do Público.

Nas últimas semanas, registaram-se perdas irreparáveis de vidas humanas e elevados prejuízos materiais em todo o país. No município de Oeiras, a destruição do chamado passeio marítimo de Algés, entre a Cruz Quebrada e Algés, não é inédita e voltou a obrigar ao encerramento da via pedociclável. Mas desta vez, com um rombo mesmo junto à ferrovia, está também a causar grandes constrangimentos à circulação de comboios na Linha de Cascais, que opera em via única desde 5 de fevereiro.

Perante uma situação complexa, que afeta a vida de milhares de pessoas, a resposta do autarca de Oeiras veio, como habitualmente, em forma de vídeo nas redes sociais. Além de uma obra imediata de contenção do muro para permitir a reposição da circulação ferroviária, defende uma obra mais profunda em toda a extensão do passeio marítimo, com o alargamento do terrapleno cerca de 30 metros para cima do estuário do Tejo.

A ideia não é nova e as preocupações são óbvias face aos dados conhecidos. As alterações climáticas e a subida do nível médio do mar são mesmo para levar a sério.

São precisas soluções de proteção da costa baseadas no conhecimento científico e em estudos técnicos, para que sejam eficazes na sua funcionalidade e na utilização de dinheiros públicos.

Já no estudo encomendado pelo município de Oeiras à Faculdade de Ciências.ID – Associação para a Investigação e Desenvolvimento de Ciências, em 2017, denominado Plano Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Oeiras (PMAACO) afirmava-se que as áreas sujeitas a inundações costeiras podem quadruplicar nas próximas décadas, afetando zonas residenciais, vias de circulação e infraestruturas essenciais. O mesmo estudo apontava precisamente o passeio marítimo, a Avenida Marginal e a linha ferroviária como as áreas mais vulneráveis.

O PMAACO recomendava, por isso, o reforço de defesas costeiras, elevação de infraestruturas, desde logo a cota da linha ferroviária, e outras medidas de proteção, precisamente para reduzir a exposição ao risco. O que não recomendava era construir mais em zonas vulneráveis.

No entanto, é precisamente isso que está previsto, com sucessivas autorizações e até planos aprovados pelo município de Oeiras, para a zona. Numa ponta, o empreendimento imobiliário Porto Cruz, na outra, as instalações da Information Management School da Universidade Nova e, em toda a extensão entre Pedrouços e a Cruz Quebrada, o projeto Ocean Campus. Ou seja, mais e mais construção, numa zona ribeirinha, vizinha do estuário do Tejo e às fozes de um rio, o Jamor, e de uma ribeira, a de Algés.

Construir mais nestes locais significa aumentar o risco e criar problemas que, inevitavelmente, acabarão por ser pagos por todos, quando ocorrerem novos episódios extremos.

É incompreensível a insistência em projetos urbanísticos em zonas reconhecidamente vulneráveis. Todos estes projetos seguem o mesmo padrão: ocupar zonas onde o PMAACO já em 2019 alertava para o agravamento dos riscos climáticos. Por exemplo, na Cruz Quebrada, na foz do Jamor e rente ao estuário do Tejo, não faz sentido construir megaempreendimentos imobiliários, mas sim restaurar a zona – hoje muito degradada e com um passivo ambiental perigoso de amianto –, renaturalizá-la e deixá-la o mais livre possível de construções para prevenir perdas e danos.

O ordenamento do território implica decidir onde faz sentido construir e onde devemos deixar terreno não edificado, permeável à infiltração da água da chuva ou à inundação, precisamente para não colocar pessoas e bens em perigo.

Os riscos estão identificados. O nível do mar vai continuar a subir e os fenómenos extremos vão repetir-se. A questão é simples: escolhemos soluções que reduzem a exposição ao risco ou damos cabo do futuro?

BICO CALADO

Foto: RTP Açores
  • "Sendo incontestável que -- ao contrário do que o MNE deixou entender -- o Acordo sobre a utilização da base das Lajes (Açores) pela força aérea norte-americana carece explicitamente de autorização prévia nacional quando se trate de operações fora do quadro da Nato ou de outra organização a que ambos os países pertençam - o que se aplica manifestamente às operações de preparação da provável intervenção norte-americana no Irão -, não se compreende o estranho silêncio, tanto da oposição socialista como do Presidente da República, perante esta posição do Governo, que configura um patente caso de "frete" político a Washington contra o interesse nacional." Vital Moreira, Causa Nossa.
  • O Zimbábue recusou «acordo» de saúde dos EUA no valor de 367 milhões de dólares. Os EUA ofereceriam ao Zimbábue o dinheiro ao longo de cinco anos para apoiar um milhão de zimbabuenses a receber tratamento para o VIH. As negociações foram interrompidas porque os termos ameaçavam a autonomia nacional, com preocupações de que o pacto pudesse transferir o controlo da resposta à doença e conceder a Washington amplo acesso aos dados de saúde. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A ERA HUMANA DAS REDES SOCIAIS CHEGOU AO FIM
Ricky Lanusse, Medium. Trad. O’Lima.

(…)

Da audiência à colheita

As redes sociais começaram com uma promessa simples: ver o que as pessoas de quem gostas estão realmente a fazer. As fotos das férias do teu amigo. O novo bebé do teu primo. As terríveis experiências culinárias do teu colega de quarto da faculdade. Posicionaram-se como uma interface única para toda a vida online. O Facebook como centro social. O Twitter como agência de notícias. O YouTube como emissora. O Instagram como álbum de fotografias. O TikTok como motor de distração. O crescimento parecia inexorável, como se essas plataformas fossem órgãos em expansão da sociedade humana.

Mas, com o tempo, as plataformas perceberam que poderiam ganhar muito mais dinheiro se parassem de mostrar o que você queria e começassem a mostrar o que elas queriam que você visse.

O feed deixou de ser um espelho e tornou-se uma refinaria.

Já conhece as contas de spam geradas por IA que criam seguidores, aquelas dezenas de milhares de publicações genéricas escritas por máquinas que inundam as redes, promovendo fraudes e clickbaits em grande escala — a mais recente adição à desordem da informação e à dinâmica da manipulação. O que antes exigia «fábricas de trolls» em armazéns clicando em botões e digitando mensagens agora requer uma assinatura e um prompt.

E é assim que a emoção bruta entra e os estímulos processados saem. O rendimento aumenta, enquanto a qualidade da troca se reduz a modelos de reação. E os influenciadores começam a assemelhar-se a chatbots, e os chatbots começam a assemelhar-se a influenciadores.

Agora, quando abre o seu feed, já não se trata realmente das pessoas. Trata-se de transformá-lo num consumidor, de manter a sua atenção apenas o tempo suficiente para lhe apresentar um anúncio, um produto ou outro conteúdo concebido para mantê-lo viciado.

Você deixa de ser o público e passa a ser o produto que está a ser explorado para métricas de envolvimento numa relação unilateral com influenciadores, marcas ou personagens geradas por IA que o tratam como uma transação. As plataformas de redes sociais hoje são como casinos que se aproveitam da solidão e do desespero. Não se importam se está a ganhar ou a perder, se está feliz ou infeliz, informado ou confuso. O conteúdo em si (seja ele real, falso, ponderado ou tóxico) não lhes importa. Só se importam que permaneça na mesa, que continue envolvido.

O seu cérebro já reconhece o padrão. Não precisa de um estudo para saber que algo está errado. Consegue sentir isso ao percorrer o ecrã. Consome mais e retém menos. Encontra indignação que se dissolve em ruído estético. Assiste a um vídeo que parece importante e esquece-o antes do clique seguinte.

Porque tudo isso é lixo «otimizado» e vazio, produzido por bots que publicam sem dúvida, sem constrangimento ou sem se cansar após a centésima publicação do dia. Em vez disso, eles geram conteúdo que é perfeitamente legível para os sistemas de classificação, porque foi projetado para eles.

O sistema interpreta isso como confiabilidade. E você atualiza mesmo assim, esperando apenas novidades suficientes para suprimir a ansiedade de parar. Essa é a genialidade disto: tudo carrega instantaneamente e infinitamente, dando-lhe essa compulsão zumbi de não procurar nada em particular. Sim, você rola o ecrã não porque gosta, mas porque não sabe como parar.

Escreva algo real e as pessoas irão encontrá-lo — diziam eles.

Mesmo plataformas como Medium ou Substack, que outrora se vendiam como refúgios, mudaram o discurso. O Medium era onde as nuances podiam respirar. O Substack era onde os escritores podiam escapar aos algoritmos e falar diretamente com os leitores. A proposta era a seguinte: escreva algo real e as pessoas irão encontrá-lo. Esse acordo está morto.

Estas plataformas agora recompensam conteúdos que se comportam mais como um bot amigável ao algoritmo do que como uma expressão humana. Quanto mais a sua escrita imitar o que o sistema deseja, mais visibilidade você terá — especialmente se favorecer as narrativas certas. Portanto, se você escrever algo genuíno, matizado ou fora do roteiro, será enterrado. Mas se produzir conteúdo polido, porém sem graça, que se encaixa nas preferências do algoritmo, será impulsionado.

Você já não escreve para se conectar com os leitores. Está a ser treinado para alimentar uma máquina que lucra mantendo as pessoas a rolar em câmaras de eco moldadas ideologicamente.

É por isso que muitos escritores de sucesso dessas duas plataformas, e criadores de conteúdo de outras, migraram. O império das redes sociais está a fragmentar-se devido à saturação do vazio.

Este é o fim das redes sociais como as conhecemos: atingimos o limite máximo da atenção humana. Assim como a mudança climática, esgotámos a nossa capacidade de nos importarmos e agora ficamos olhando para um deserto infinito de lixo algorítmico que ninguém pediu e ninguém realmente quer.

E isto está a mudar a forma como as pessoas reagem a isso. Antes mesmo de vermos manchetes sobre o declínio no número de utilizadores ou o encerramento de plataformas, já estamos a mudar o nosso comportamento: gastando menos tempo a interagir, sentindo-nos mais indiferentes ao que vemos e migrando silenciosamente para espaços menores, onde as conversas ainda parecem reais, definidas menos pela escala e mais pelo entendimento comum.

(Fonte: Digital 2026: o estado das redes sociais em 2026)

Tudo começou como uma festa onde todos vinham para se conectar, ter conversas reais, namorar sem fingimento. Agora é como entrar numa sala onde todos falam ao mesmo tempo, ninguém diz nada interessante e tudo parece uma farsa. No fim, você para de ouvir, exausto com tudo isso. E sai antes do fim da festa.

O fim das redes sociais como as conhecemos

A atual arquitetura das redes sociais foi criada para eliminar o atrito, da mesma forma que os casinos eliminam os relógios. Rolagem infinita. Reprodução automática. Tudo foi polido para que nada interrompa o fluxo entre estímulo e reação. Quanto mais suave for a sensação, mais tempo você fica. Quando a interação é sem atrito, o consumo torna-se reflexo, e o reflexo torna-se hábito.

Se a exaustão é o sintoma, o atrito é o remédio.

Adicionar pequenos obstáculos, como um feed que pausa e pergunta: «Tem a certeza de que quer mais?», não iria prejudicar a internet. Isso revelaria o quanto ela depende do impulso. Parece irritante, mas é a mesma razão pela qual as escadas têm corrimãos e as portas têm fechaduras — o atrito impede que caia ou se magoe.

Atualmente, o algoritmo que decide o que você vê nas redes sociais é como um restaurante onde você não consegue ver o menu, não consegue falar com o chef e não tem ideia do porquê de estar a ser servido o que está no seu prato.

A escolha algorítmica não deve ficar escondida nos menus de configurações ou ser vendida como um recurso premium. Em vez disso, deve estar em destaque, tão fundamental quanto escolher o que você vai comer num restaurante. Você deve poder ver e escolher facilmente: “Mostrar as publicações por ordem cronológica”, “Priorizar o conteúdo das pessoas com quem eu realmente interajo” ou “Filtrar o conteúdo gerado por IA”.

Amigos e família ganham sempre, independentemente da idade (Fonte: Digital 2025: o estado das redes sociais em 2025)

Se as plataformas de redes sociais afirmam ser espaços públicos onde ocorrem conversas importantes, então as regras que determinam quem é ouvido não devem ser transparentes, ajustáveis pelos utilizadores e explicáveis — não uma caixa preta concebida exclusivamente para maximizar o envolvimento e o lucro. Sim, isto parece improvável dentro de um ecossistema treinado para monetizar a distração. Mas improvável não significa impossível. Significa que a estrutura de incentivos ainda não mudou.

Este é o fim das redes sociais como as conhecemos. E o que vier a seguir precisa recuperar a internet como uma ferramenta para a conexão humana, em vez de uma máquina otimizada para a distração. As plataformas que sobreviverem a essa transição serão aquelas dispostas a trocar o vício sem atrito pela confiança duradoura.

O resto pode manter as luzes do casino acesas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

INGLATERRA: EROSÃO COSTEIRA AMEAÇA LOCAL DE CONSTRUÇÃO DE CENTRAL NUCLEAR

  • A costa em torno de Norfolk e Suffolk é uma das que sofre uma erosão mais rápida na Europa, mas a desintegração intensificou-se em várias partes nos últimos meses, incluindo uma área a apenas 2 km do local de construção da central nuclear de Sizewell C. Mais de 27 metros de falésia na aldeia de Thorpeness foram perdidos desde dezembro de 2024. Dez casas, incluindo dois apartamentos que foram vendidos nos últimos anos por mais de £ 600.000, foram demolidas desde outubro. Fonte.
  • O Crédit Agricole foi multado pelo BCE em€7.55 milhões por não identificar riscos climáticos e ambientais. Fonte.
  • Cinzas vulcânicas estão a ser utilizadas como fertilizante na agricultura, na construção de estradas, no isolamento de paredes, na purificação de água e em tinta para impressoras 3D. Fonte.
  • A China diz ter inventado um processo que transforma areia do deserto em solo fértil em apenas 10 meses. Os cientistas utilizaram micróbios cultivados em laboratório para unir areia solta do deserto numa camada fina e estável que o vento não consegue facilmente soprar. Essa superfície mais resistente dá às equipas de restauração tempo para plantar arbustos e gramíneas antes que os ventos fortes e o calor destruam as plantas jovens. Fonte.
  • Em 2025, apenas 6% dos artigos da imprensa abordaram o tema do ambiente, conclui um estudo do Observatório dos Meios de Comunicação. Este número sobe para 8,1% na imprensa diária, nacional ou em revistas, e desce para 5% na televisão e na rádio, bem como para 4,6% na imprensa diária regional. Fonte.

BICO CALADO

  • O Índice de Perceção da Corrupção (IPC) 2025 apresenta uma constatação inequívoca: a corrupção está a aumentar em todo o mundo, mesmo em democracias bem estabelecidas. Pela primeira vez em mais de uma década, os resultados do IPC refletem uma deterioração global e sustentada da situação. Esta evolução reflete uma falta de liderança política, o desmantelamento progressivo dos mecanismos anti-corrupção, bem como a multiplicação dos ataques ao Estado de direito e das restrições ao espaço cívico. Dos 182 países avaliados, 122 obtiveram uma pontuação inferior a 50, limite abaixo do qual a corrupção no setor público é considerada elevada. A grande maioria dos países não consegue, portanto, controlar a corrupção de forma sustentável, apesar dos compromissos assumidos em matéria de transparência e boa governação. Fonte.
  • Dezanove membros do Governo português recebem subsídio de apoio à habitação mesmo tendo casa em Lisboa. Entre os casos identificados contam-se o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, e o secretário de Estado Pedro Machado, ambos com património imobiliário em Lisboa e, ainda assim, beneficiários de uma compensação mensal de €724,79. Fonte.
  • O presidente da Fundação Nacional para a Democracia, Damon Wilson, gabou-se perante uma comissão da Câmara dos Representantes dos esforços agressivos do seu grupo para provocar agitação no Irão, incluindo o contrabando de terminais Starlink e a criação de narrativas anti-Irão para os meios de comunicação social. Fonte.
  • A Venezuela gastou centenas de milhões de dólares para construir petroleiros que nunca chegaram às suas costas. (...) Em 2010, numa visita de Chávez a Portugal, encontrou-se com o então Primeiro-Ministro português, José Sócrates, com o objetivo de assinar um contrato de financiamento para a construção de dois navios de asfalto entre a PDVSA e o Banco Espírito Santo. Estas embarcações estavam programadas para serem montadas no estaleiro Viana do Castelo, que deixou de funcionar em 2014. A este respeito, o Correio da Venezuela afirma que até 2017 a construção das embarcações "nunca fez qualquer progresso", apesar do 128 milhões de euros que a Venezuela havia destinado a isso. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

AS FORÇAS ARMADAS DOS EUA AUXILIARAM NA VIOLAÇÃO EM MASSA DE CRIANÇAS NO AFEGANISTÃO. AGORA, OS SEUS SOLDADOS ESTÃO A COMETER ESTE CRIME EM FORT BRAGG.
Alan Macleod, MPN. Trad. O’Lima.

Há uma epidemia de crimes sexuais contra crianças em Fort Bragg, Carolina do Norte, e arredores. Desde 2021, e da retirada americana do Afeganistão, dezenas de soldados de elite estacionados na base militar foram condenados por violar crianças, distribuir pornografia infantil e outros crimes semelhantes. Muitos desses soldados serviram no Afeganistão, onde agora se reconhece que as forças armadas dos EUA ajudaram os seus aliados locais no «bacha bazi» (brincadeira com meninos): a prática de sequestrar e manter meninos como escravos sexuais, muitos dos quais foram escravizados em complexos militares dos EUA. A MintPress News explora este tema sombrio e profundamente perturbador.

CRIMES INCONCEBÍVEIS

Em agosto de 2023, Joshua Glardon – primeiro-sargento do 4.º Grupo de Operações Psicológicas (Aerotransportado) em Fort Bragg – foi condenado a 76 anos de prisão, seguidos de liberdade condicional supervisionada perpétua, pela distribuição de pornografia infantil na Internet. Uma mulher não identificada – sua cúmplice – foi condenada a 30 anos de prisão depois de «confessar ter permitido que ele violasse» o seu filho.

Apenas duas semanas depois, o major Vincent Ramos foi preso no Aeroporto Internacional de Raleigh-Durham, na Carolina do Norte, por uma acusação de estupro de uma criança menor de 15 anos, sete acusações de abuso sexual de uma criança menor de 15 anos e duas acusações de atos obscenos com uma criança. Oficial de logística baseado em Fort Bragg, ele foi posteriormente acusado de mais duas acusações de atos obscenos com uma criança.

E um mês depois disso, em outubro de 2023, o subtenente Stuart P. Kelly, da 82ª Divisão Aerotransportada, foi condenado a 16 anos de prisão e à dispensa desonrosa após se declarar culpado de violar e abusar de uma criança menor de 12 anos. Kelly obrigou a criança a tocá-lo e a fazer sexo oral diante da câmara.

Entretanto, o sargento Carlos Castro Callejas foi condenado a 55 anos de prisão, dispensa desonrosa e rebaixamento ao posto de soldado raso, após enfrentar 13 acusações de violação de uma criança menor de 12 anos.

Todos os quatro homens não só estavam baseados em Fort Bragg, como também serviram durante longos períodos no Afeganistão. Mas eles são apenas a ponta de um enorme iceberg chocante de dezenas de indivíduos de Fort Bragg que foram presos por crimes relacionados com abuso e tráfico de menores.

De acordo com o jornalista investigativo Seth Harp, que revelou no seu livro “The Fort Bragg Cartel: Drug Trafficking and Murder in the Special Forces” (O Cartel de Fort Bragg: Tráfico de Drogas e Assassinatos nas Forças Especiais) uma enorme rede de contrabando e distribuição de narcóticos operada por militares de elite na base, houve um aumento de dez vezes nesses casos desde 2021 e da retirada dos EUA do Afeganistão. Mas ainda mais assustadora é a escolha das vítimas por esses predadores sexuais. «Há anos que não ouço falar de nenhum caso de estupro de mulheres por membros das forças especiais. Ao mesmo tempo, ouvi falar de cerca de 15 casos de estupro de crianças», disse ele a Abby Martin e Mike Prysner no podcast Empire Files.

Tudo isso levanta uma série de questões sérias sobre o que está a acontecer na base e que tipo de segredos sombrios e assustadores estão a ser mantidos lá.

“RIR  DO” ABUSO SEXUAL INFANTIL


Uma extensa base, do tamanho de uma cidade, nos arredores de Fayetteville, Carolina do Norte, Fort Bragg alberga cerca de 50.000 militares, tornando-a uma das maiores instalações militares do mundo. É o lar de muitas das organizações de elite dos EUA, incluindo JSOC, Delta Force, o 3º Grupo de Forças Especiais e a 82ª Divisão Aerotransportada.

Também fica a poucos minutos da I-95, a principal rota interestadual norte-sul da costa leste americana. A I-95 estende-se de Miami, no sul, até a fronteira entre o Canadá e o Maine, no norte, tornando-a uma rodovia de transporte crucial. Fayetteville fica perto da sua metade. «É um ponto natural, quase como uma cidade que cresceu na Rota da Seda nos tempos antigos», disse Anthony Aguilar à MintPress News. «É um facto que em toda esta parte da Carolina do Norte, ao longo do corredor 95, há uma grande quantidade de tráfico sexual e tráfico de pessoas nessas áreas. É por causa da rota acessível de fronteira a fronteira que essas coisas são traficadas ou contrabandeadas.» Anthony Aguilar é um ex-tenente-coronel do Exército dos Estados Unidos, Boina Verde das Forças Especiais e ex-comandante de batalhão em Fort Bragg. Em 2025, tornou-se um denunciante, revelando graves irregularidades nas operações apoiadas pelos EUA e por Israel em Gaza.

Ele alegou que outros comandantes em Fort Bragg estão bem cientes da epidemia de crimes sexuais contra crianças, mas «riem-se disso ou ignoram o assunto», afirmando: «Os líderes militares nos escalões mais altos estão cientes do que está a acontecer e optam por encobrir o assunto. Não o ignoram; eles reconhecem-no. Optam por encobri-lo, porque ninguém quer que a sua unidade pareça ser má e indisciplinada. Ninguém quer parecer problemático.»

Aguilar partilhou com a MintPress um exemplo disso de quando era comandante do 18.º Corpo Aerotransportado em Fort Bragg. Um suboficial foi acusado várias vezes de agredir e abusar sexualmente da sua enteada – uma menor – e de produzir pornografia desses eventos. A sua cadeia de comando decidiu não fazer nada a respeito disso, apenas o transferiu para a unidade de Aguilar.

«Ele veio para cá e voltou a fazê-lo. A minha posição sobre o assunto era: tribunal marcial, audiência do grande júri, processo criminal, acusação criminal perante um juiz militar», afirmou. No entanto, ele não conseguiu levar isso adiante porque “um general de três estrelas contornou a minha autoridade para acusá-lo, levou o caso do tribunal marcial ao seu nível, depois retirou as acusações e acabou por propor um acordo: ‘saia do Exército e não o acusaremos criminalmente’”. O suboficial aceitou o acordo, foi dispensado e não enfrentou acusações criminais. Claramente perturbado com o acontecimento, Aguilar observou: «É por isso que isto continua a acontecer. É por isso que isto faz parte da cultura. É por isso que estas coisas continuam a crescer. É porque os comandantes ao mais alto nível continuam a escondê-lo. Mentem sobre isso. E não responsabilizam aqueles que o fazem, com medo de que isso os faça parecer mal como comandantes.»

“AS MULHERES SÃO PARA AS CRIANÇAS, OS RAPAZES SÃO PARA O PRAZER”

Muitos soldados e operadores americanos encontraram uma prática igualmente difundida de abuso sexual infantil no Afeganistão – e descobriram uma atitude permissiva correspondente por parte das autoridades americanas e dos altos escalões militares.

A prática chama-se bacha bazi, um processo pelo qual os homens exploram e escravizam rapazes adolescentes, coagindo-os a vestir-se com roupas femininas, usar maquilhagem, dançar de forma insinuante e agir como escravos sexuais. Os bachas (rapazes) têm geralmente entre nove e quinze anos de idade e, na sua maioria, provêm de meios pobres ou vulneráveis. Muitos cresceram em orfanatos, são crianças de rua ou foram vendidos como escravos por familiares que enfrentavam a fome. Outros são simplesmente raptados. Os bacha bazes (jogadores) são normalmente homens mais velhos e ricos que consideram a posse de um ou mais rapazes jovens um símbolo de status, muitas vezes dando-lhes dinheiro e roupas caras. Na sociedade afegã, rigorosamente segregada por género, é comum dizer-se que «as mulheres são para ter filhos, os rapazes são para o prazer».

As Nações Unidas condenaram o bacha bazi. «É hora de enfrentar abertamente essa prática e pôr-lhe um fim», disse Radhika Coomaraswamy, então subsecretária-geral das Nações Unidas e representante especial para Crianças e Conflitos Armados, à Assembleia Geral da ONU em 2009. «Tem que se aprovar leis, realizar campanhas e os perpetradores devem ser responsabilizados e punidos», acrescentou.

Embora fosse conhecida há séculos, a prática explodiu no Afeganistão na década de 1980, com a ascensão do governo mujahideen apoiado pelos EUA. Foi brevemente suprimida sob o regime talibã (1996-2001), mas voltou a surgir no século XXI sob o governo afegão protegido pelos EUA, composto por muitos dos mesmos elementos que estavam no poder duas décadas antes.

COMO WASHINGTON PARTICIPOU NA ESCRAVATURA SEXUAL EM MASSA DE CRIANÇAS

Um soldado norte-americano toma posição na aldeia de Mush Kahel, província de Ghazni, 
Afeganistão, 23 de julho de 2012. Andrew Baker | DoD

O governo dos EUA tentou ativamente ignorar a prática – um segredo aberto nos círculos militares e diplomáticos. No entanto, ao retirar-se do país, o Departamento de Estado divulgou tardiamente um relatório admitindo que, durante quase 20 anos de ocupação, existiu «um padrão governamental de escravatura sexual em complexos governamentais». As autoridades treinadas e financiadas pelos EUA, observou o relatório, «continuaram a prender, deter, penalizar e abusar de muitas vítimas de tráfico, incluindo punir vítimas de tráfico sexual por “crimes morais” e agredir sexualmente vítimas que tentavam denunciar crimes de tráfico às autoridades policiais». As ONGs que ajudavam as crianças, observou o relatório, aconselhavam-nas a não ir à polícia, pois muitas vezes eram elas as responsáveis por escravizá-las.

O bacha bazi era praticado principalmente por indivíduos de alto estatuto colocados no poder pelas forças de ocupação dos EUA – polícia, militares, professores e funcionários do governo. Muitas dessas pessoas viviam com os seus meninos em complexos militares americanos. Isso significava que, na prática, o contribuinte americano estava a subsidiar a violação generalizada de crianças, uma das muitas razões pelas quais o pessoal americano era tão impopular entre a população local e pela qual o governo instalado pelos EUA caiu poucos dias após a retirada militar em 2021. Como afirmou Harp: «Durante todo o tempo em que os EUA estiveram no Afeganistão, eles trabalharam com, protegeram, financiaram e armaram homens que violavam sistematicamente meninos, mantendo-os acorrentados em bases militares americanas – crianças acorrentadas em bases americanas que eram violadas todas as noites! O que podemos pensar disso? Tenho dificuldade em compreender não só a maldade disso, mas também o pouco se falou sobre o assunto.»

Um exemplo dos níveis de depravação dos aliados dos EUA vem de Jordan Terrell, um ex-paraquedista de Fort Bragg da 82ª Divisão Aerotransportada. Na Base Operacional Avançada Shank, na província de Logar, em 2014, Terrell lembra-se de ter visto um grupo de jovens bachas a correr pela base. Ele notou que um deles «tinha algo a sair do rabo». Inicialmente confuso com a cena, ele percebeu mais tarde que o que viu era o ânus prolapsado da criança, resultado de repetidas sodomias. «Os tipose stavam muito expostos a essas coisas», disse ele, «o Exército Nacional Afegão, a polícia afegã... Os contratados que cozinhavam a nossa comida. Esses tipos estupravam crianças».

Oficialmente, Washington não viu nada. Em 5.753 ocasiões entre 2010 e 2016, as Forças Armadas dos EUA foram solicitadas a inspecionar unidades afegãs para verificar se havia algum abuso grave dos direitos humanos. A lei americana exige que a ajuda militar seja cortada de qualquer unidade infratora. Em nenhuma ocasião eles relataram qualquer abuso.

No entanto, o bacha bazi era tão comum que praticamente todo o pessoal americano já tinha ouvido falar dele. Aguilar afirmou que os soldados ficavam aliviados quando chegava a sexta-feira, brincando: «É sexta-feira do amor entre homens e meninos, então não vamos ser muito atacados hoje, porque todos eles estão a fazer sexo com os seus jovens concubinos».

A prática era aberta e generalizada. Em 2016, um comandante da polícia afegã convidou um jornalista do Washington Post para tomar chá no seu escritório, onde ele exibiu alegremente o que chamou de seu “lindo escravo menino”. A polícia afegã era apenas uma das inúmeras organizações patrocinadas pelo governo dos EUA durante a sua ocupação de 20 anos e US$ 2 triliões no país.

«Ouvi falar disso várias vezes, tanto por parte de oficiais militares dos EUA como de funcionários do Departamento de Estado em todo o Afeganistão e em Washington, geralmente de forma casual, com um tom exasperado do tipo "o que é que se pode fazer" nos seus comentários», disse Matthew Hoh, ex-capitão da Marinha dos EUA e funcionário do Departamento de Estado, à MintPress News, acrescentando: «Era claro que tais crimes não deviam ser investigados. Duvido que houvesse documentação oficial a esse respeito, mas estava claro que devíamos aceitar a violação de crianças como parte do acordo na nossa relação com os afegãos que tínhamos colocado e mantido no poder.»

Em 2009, cada vez mais desiludido com a missão dos EUA no Afeganistão, Hoh demitiu-se do seu cargo no Departamento de Estado na província de Zabul.

Outros americanos que tentaram denunciar essa prática perturbadora (e a cumplicidade americana nela) acabaram mortos. Um deles foi o cabo Gregory Buckley Jr., que ficava acordado à noite ouvindo os gritos de crianças a serem violadas pela polícia afegã em quartos ao lado do seu na Base Operacional Avançada de Delhi, na província de Helmand.

Por telefone, Buckley disse ao pai que, do seu beliche, «podemos ouvi-los gritando, mas não temos licença para fazer nada a respeito disso». Os seus oficiais disseram-lhe para «fazer vista grossa» porque «é a cultura deles». Essa seria a última vez que o seu pai ouviria a voz de Buckley, pois ele foi assassinado na base dias depois pelos mesmos locais que tentava treinar e proteger.

Outros que tomaram o assunto nas próprias mãos tiveram as suas carreiras destruídas pelos militares. O capitão Dan Quinn e o sargento de primeira classe Charles Martland, ambos dos Boinas Verdes, descobriram que um comandante da polícia local na província de Kunduz tinha raptado um rapaz e mantinha-o acorrentado à cama como escravo sexual. Depois de saber que ele tinha pedido ajuda aos americanos, o comandante também espancou a mãe do rapaz. Quinn e Martland confrontaram-no, mas ele riu-se, dizendo-lhes que, afinal, «era apenas um menino». Indignados, os dois atiraram-no ao chão, socaram-no e pontapearam-no.

Quinn foi destituído do seu comando e enviado de volta para os EUA, onde deixou o exército. Martland ia ser expulso do exército, mas, após uma reação pública, foi discretamente reintegrado.

ABUSO DE DROGAS, ABUSO INFANTIL

A prevalência do Bacha bazi reflete de perto o envolvimento dos EUA no Afeganistão. A prática era muito menos comum nas décadas de 1970 e 1980, sob o governo comunista secular apoiado pela URSS. Num esforço para derrubar o regime e esgotar os soviéticos, Washington gastou US$ 2 biliões financiando, treinando e armando milícias mujahideen locais (incluindo Osama bin Laden). Os mujahideen assumiram o controle do Afeganistão em 1992, pouco depois do fim da União Soviética.

Apresentados como bravos e galantes combatentes pela liberdade, os mujahideen foram elogiados no Ocidente. Mas, como na Venezuela, no Irão, em Cuba e em grande parte do resto do mundo, os EUA aliam-se frequentemente a movimentos profundamente desagradáveis para alcançar os seus objetivos.

Os mujahideen não eram apenas reacionários religiosos, mas também demonstravam uma tendência notável para sequestrar e molestar crianças, prática que explodiu assim que chegaram ao poder.

Embora o bacha bazi tenha sido amplamente adotado pelos mujahideen, nunca foi aceite pela maioria da população, que o considerava bárbaro e monstruoso. Portanto, apesar de serem retratados pela imprensa ocidental como o equivalente afegão dos Pais Fundadores, muitos no Afeganistão viam os seus novos governantes como pouco mais do que um bando de senhores da guerra pedófilos impostos pelos EUA.

Os mujahideen seriam suplantados em apenas quatro anos pelos talibãs, que chegaram ao poder em grande parte devido à repulsa e indignação nacional em relação ao bacha bazi. De facto, o mulá Omar, líder dos talibãs até à sua morte em 2013, ganhou fama devido à sua oposição aberta à prática. Em 1994, ele liderou um grupo de homens armados numa série de incursões para resgatar meninos e meninas sequestrados e escravizados.

A ação tornou-o um herói nacional e aumentou consideravelmente a força e o prestígio dos Talibãs. De uma força de apenas 30 combatentes, a sua milícia cresceu para 12.000 até ao final do ano, à medida que milhares se juntavam à sua causa, abrindo caminho para a sua marcha sobre Cabul em 1996. Ao tomar o poder, os Talibãs proibiram o bacha bazi, tornando-o punível com a morte. Assim, embora os Talibãs não sejam conhecidos pelas suas políticas de direitos humanos, eles conseguiram pelo menos ganhar algum apoio público pelas suas ações na erradicação do estupro infantil.

Esse período, no entanto, provou ser de curta duração, pois apenas cinco anos depois, em 2001, os EUA invadiram o Afeganistão para derrubar os Talibãs, colocando no poder muitas das figuras mujahideen depostas do regime anterior. O regresso do governo apoiado pelos EUA viu o ressurgimento do bacha bazi, com muitos altos funcionários do governo, da polícia e das forças armadas a exibirem as suas concubinas infantis. Isto incluiu até mesmo membros da família do presidente Hamid Karzai.

Da mesma forma, a produção de drogas no Afeganistão está diretamente relacionada com o envolvimento dos EUA no país. Na década de 1970, a produção de heroína era mínima e destinava-se principalmente ao consumo interno. Mas, à medida que a guerra pela mudança de regime apoiada pelo Ocidente se prolongava, Washington procurou outras formas de apoiar a insurgência. Encontraram a resposta no ópio e, em pouco tempo, surgiram refinarias de processamento de sementes de papoila cultivadas localmente na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Camiões carregados com armas financiadas pelos contribuintes norte-americanos entravam no Afeganistão a partir do seu aliado, o Paquistão, e regressavam cheios até à borda com ópio.

Como disse o professor Alfred McCoy, autor de “The Politics of Heroin: CIA Complicity in the Global Drug Trade” (A política da heroína: a cumplicidade da CIA no comércio global de drogas), à MintPress: “O que os combatentes da resistência fizeram foi recorrer ao ópio. O Afeganistão produzia cerca de 100 toneladas de ópio por ano na década de 1970. Em 1989-1990, no final dessa operação de 10 anos da CIA, essa quantidade mínima de ópio — 100 toneladas por ano — tinha-se transformado numa quantidade significativa, 2000 toneladas por ano, e já representava cerca de 75% do comércio ilícito de ópio mundial.»

A operação causou um boom mundial no consumo de ópio, com o vício em heroína mais do que a dobrar apenas nos EUA. A droga tornou-se uma referência cultural, como ilustrado em filmes populares como Trainspotting e Requiem for a Dream. Em 1999, a produção anual tinha aumentado para 4.600 toneladas.

Mais uma vez, os Talibãs, profundamente religiosos, intervieram para reprimir a prática. A proibição do cultivo de ópio em 2000 levou a uma queda vertiginosa na produção, com apenas 185 toneladas colhidas no ano seguinte. Embora a proibição tenha afetado duramente os agricultores locais, ela começou a combater a terrível crise de opiáceos no Afeganistão, dando novamente aos Talibãs alguma legitimidade junto à população local.

Tal como aconteceu com o bacha bazi, porém, a ocupação dos EUA reverteu essa tendência. Sob a supervisão norte-americana, a produção de ópio disparou, atingindo um pico de 9.000 toneladas em 2017. O Afeganistão tornou-se o primeiro verdadeiro narcoestado do mundo, com McCoy observando que, em 2008, o ópio era responsável por bem mais da metade do produto interno bruto do país. Em comparação, mesmo nos dias mais sombrios da Colômbia, a cocaína representava apenas cerca de 3% do seu PIB. Havia mais terras cultivadas para o ópio no Afeganistão do que as utilizadas para a coca em toda a América Latina.

Pouco depois de voltar ao poder, os Talibãs proibiram novamente a produção de ópio, enviando equipas de homens por todo o país para erradicar os campos de papoilas. No que até mesmo os media corporativos ocidentais chamaram de “o esforço antinarcóticos mais bem-sucedido da história da humanidade”, a produção caiu mais de 80% quase da noite para o dia e só continuou a diminuir desde então. A rapidez e o sucesso da operação levantaram sérias questões sobre a verdadeira relação dos Estados Unidos com o comércio global de drogas.

UM NEGÓCIO INCRIVELMENTE LUCRATIVO

Os soldados em Fort Bragg estavam mais próximos do que ninguém do lado obscuro da ocupação do Afeganistão. Unidades como a JSOC, a Delta Force, o 3.º Grupo de Forças Especiais e a 82.ª Divisão Aerotransportada trabalhavam em estreita colaboração com as forças de segurança afegãs e tinham uma visão privilegiada das suas atividades.

«The Fort Bragg Cartel» revela uma gigantesca rede de tráfico de armas e drogas centrada na base, mostrando como os soldados usavam aviões militares para contrabandear armas e narcóticos para os EUA, distribuindo-os por todo o continente. Os criminosos nas Forças Armadas dos EUA, observa Aguilar, aprenderam muito sobre tráfico e contrabando, afirmando que: “Quando você é destacado como militar e tem todos os seus contentores de 90 polegadas cúbicas trancados com todas as suas coisas dentro. Eles não são inspecionados quando voam de regresso num avião militar e pousam em Fort Bragg... [Eles aprendem] como seria fácil transportar e traficar armas, drogas e, sim, até mesmo seres humanos, de um país para outro. É tudo muito viável. E é tudo muito lucrativo.”

As bases militares são centros perfeitos para operações de contrabando. Há pouca supervisão ou inspeção, e os soldados podem circular pelo país de base em base, sendo menos provável que sejam parados e revistados pela polícia. Uma quantidade desproporcional desses soldados condenados tinha formação em logística, onde lhes era confiada a tarefa de transportar grandes remessas de mercadorias de e para os EUA, tudo com o mínimo de supervisão ou escrutínio por parte dos superiores.

Vender armas e drogas é uma coisa. Mas traficar e violar crianças é outra completamente diferente. Como é que alguém pode considerar envolver-se em um comportamento tão repugnante? E por que é que essa prática explodiu em torno de Fort Bragg? Para alguns, a resposta era psicológica: as tropas americanas, ensinadas a desumanizar os seus inimigos e expostas diariamente a abusos infantis, passaram a ver isso como um comportamento normal. Como Terrell sugeriu, “De alguma forma doentia... quando voltaram, talvez tenham apenas interiorizado isso e transformado em uma propensão sexual”.

Há, no entanto, uma explicação mais simples: dinheiro. Alguns soldados de Fort Bragg estacionados no Afeganistão e expostos ao bacha bazi voltaram para os Estados Unidos e viram uma oportunidade de ganhar muito dinheiro com o tráfico de seres humanos e a criação e venda de pornografia infantil.

«Não se trata tanto de soldados que regressam do Iraque ou do Afeganistão e aprendem comportamentos de desvio sexual, pornografia infantil ou abuso de crianças, mas sim de um comportamento aprendido de que a pornografia infantil e o tráfico sexual de menores são muito lucrativos», disse Aguilar; «Eles percebem isso e pensam: "Isto é realmente lucrativo"».

Os talibãs tornaram mais uma vez o bacha bazi um crime capital. Não está claro se a nova lei suprimiu a prática ou apenas a levou para a clandestinidade. Afinal, a economia do Afeganistão, atingida por sanções, significa que os incentivos económicos para famílias carentes venderem os seus filhos a funcionários ricos são tão urgentes como sempre. Além disso, há relatos de que alguns comandantes talibãs supostamente mantêm bachas para si próprios.

O que é claro, no entanto, é que as táticas e práticas utilizadas pelas forças armadas dos Estados Unidos no exterior estão cada vez mais a ser utilizadas contra a população interna. Desde a vigilância e o policiamento militarizado até à crescente intolerância com a dissidência, as liberdades civis estão a ser corroídas por forças que utilizam técnicas aperfeiçoadas em alvos na Ásia Ocidental. Em novembro, um comando afegão e ex-membro de um esquadrão da morte treinado pela CIA levou a cabo um tiroteio em massa em Washington, D.C.

Embora seja claro que a invasão dos EUA destruiu o Afeganistão, ela também teve um impacto negativo nos próprios EUA. A ocupação contribuiu diretamente para a crise de opiáceos no país. E parece que também está relacionada com a epidemia de abuso sexual infantil aqui documentada, já que os soldados abusam de crianças para obter lucro. O que tem acontecido em Fort Bragg, então, faz parte da degradação psicológica mais ampla da sociedade americana, controlada por um governo que sacrificou tudo o que era sagrado para proteger e promover as suas ambições imperiais.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

INGLATERRA: DESCARTE ILEGAL DE LIXO BATE RECORDE

  • Os casos de descarte ilegal de lixo em Inglaterra atingiram o nível mais alto desde o início dos registos atuais, com a maioria das infrações continuando a envolver resíduos domésticos. Em 2024-25, apesar de se ter registado um aumento de 9% de situações ilegais em relação ao ano anterior, o número de multas judiciais diminuiu, com apenas 0,2% dos incidentes a resultar em qualquer ação judicial. Fonte.
  • Durante a campanha para o Senado, o republicano de Montana e ex-membro da Navy SEAL Tim Sheehy criticou a «porcaria da energia verde subsidiada», apesar de já ter instalado sistemas solares e de armazenamento de baterias no telhado da sua casa em Bozeman. Fonte.
  • Cinco grandes empresas petrolíferas obtiveram lucros de quase 467 mil milhões de dólares desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em grande parte devido ao aumento dos preços do petróleo e do gás durante a crise energética global. Este aumento nos lucros ocorreu enquanto muitas famílias na Europa enfrentavam contas de energia elevadas. Fonte.

BICO CALADO

Paul Starosta/Getty Images
  • Donald Trump recebeu uma ovação de pé dos legisladores republicanos e funcionários do governo quando se gabou durante o seu discurso sobre o estado da União de ter retirado a assistência nutricional de milhões de pessoas, o que ele eufemisticamente caracterizou como tirar as pessoas do programa de vale-refeição. «Num ano, tiramos 2,4 milhões de americanos — um recorde — do programa de vale-refeição», disse Trump durante o seu discurso de quase duas horas. Fonte.
  • Ex-advogado do ICE afirma que a agência está a ensinar os recrutas a violar a Constituição. «Nunca na minha carreira recebi uma ordem tão flagrantemente ilegal», afirmou Ryan Schwank, que denunciou no mês passado um memorando secreto do ICE instruindo os agentes a entrar em casas sem mandados judiciais. Fonte.
  • A conta oficial da CIA no X publicou uma mensagem em persa apelando aos iranianos para contactarem a agência de forma segura usando ferramentas como Tor e VPNs, dizendo que poderia «ouvir a sua voz». A divulgação reflete os esforços de longa data dos EUA para apoiar ativos de inteligência dentro do Irão, já que o líder supremo aiatolá Ali Khamenei acusou repetidamente os EUA e Israel de alimentar a agitação no início deste ano. Fonte.
  • Defesa civil ou guerra militar. Mário Tomé, Jornal Maio.
  • A IA não está a substituir-te. Está a reescrever as regras sob as quais trabalhas. Enrique Dans, Medium.
  • Na terça-feira à noite, colonos israelitas incendiaram casas e veículos palestinianos na aldeia de Susya, a sul de Hebron, na Cisjordânia ocupada, numa onda contínua de ataques durante o Ramadão. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

CHEGA E O SEU FINANCIAMENTO
A ubiquidade de um texto sem autoria confirmada


Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa Venturiana do "povo contra as elites".

André Ventura discursa contra o "sistema de interesses instalados" num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete "limpar Portugal" da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

É teatro. Obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente anti-sistema. É preciso uma suspensão de descrença digna de ópera Wagneriana.

Mas talvez o mais fascinante não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exactamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extractos bancários e cruzar transferências.

A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022.

Manuel Carlos de Melo Champalimaud, maior accionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti-elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação "Torre de Controlo" sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que fácilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa de golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exactamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte.

Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

Porque aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre "povo", "nação", "soberania".

É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

Leiamos, então. Directamente do programa do Chega, página 45: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte". Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

Página 49, sobre saúde especificamente: "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente".

Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não reformá-lo. Não melhorá-lo. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem azar. Exactamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer pela primeira vez em décadas entre países desenvolvidos. Exactamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exactamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema actual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

Há um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Óptimo para quem pode comprar os activos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

E para o "povo" que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exactamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, "esquerdalha". Mas soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o "subsidiodependente") enquanto se rouba o que resta da sua protecção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para cima.

E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, performar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extractos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

E há tanto por que estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exactamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já tem demasiado de ambos.

E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro combinado com ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito para uma agenda que nunca ganharia eleições se fosse apresentada honestamente.

Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa "vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos", seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exactamente isso — desde que embrulhe em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extractos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. "Esquece-se" de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos. E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. O SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de protecção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

Mas provavelmente não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não pára. Nunca pára. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

É quase poético. Se não fosse trágico.