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sábado, 8 de agosto de 2026

ITÁLIA: PLATAFORMA COM 121 SENSORES MONITORIZA ESTUFAS AGRIVOLTAICAS

  • Uma equipa de investigação italiana desenvolveu um sistema de monitorização para estufas agrivoltaicas que integra 121 sensores distribuídos por três subsistemas principais: monitorização do desempenho do sistema fotovoltaico, monitorização do microclima da estufa e dos parâmetros ambientais, e gestão automatizada da irrigação: (1) Monitorização do desempenho fotovoltaico – Mede a irradiância, a temperatura dos módulos, a iluminância, a temperatura do ar, a humidade e os níveis de CO₂ para avaliar tanto a produção de energia como o impacto do sistema nas condições de cultivo. Utiliza também sensores de luz para inclinar automaticamente os módulos fotovoltaicos com seguimento solar para uma posição quase vertical quando os níveis de luz descem abaixo de um limiar definido. (2) Deteção do microclima e do ambiente – Utiliza nós de sensores distribuídos a várias alturas no interior e acima da estufa, além de uma estação meteorológica externa, para monitorizar a temperatura, a humidade, o CO₂, a radiação fotossinteticamente ativa, a iluminância e a irradiância. (3) Gestão automatizada da irrigação – Monitoriza a humidade e a temperatura do solo, o caudal de água e a pressão, e regula automaticamente a irrigação em cada setor da estufa utilizando um algoritmo de humidade do solo de limiar duplo O sistema foi testado num ambiente operacional real, numa estufa agrivoltaica piloto em Pontinia, no centro de Itália, no âmbito do projeto REGACE, financiado pela UE. Fonte.
  • A habitação social de Le Corbusier era para ser um sonho. Num verão de calor extremo, é um pesadelo. Anna Richards, The Guardian.

REFLEXÃO

A MÁSCARA DA TRANSPARÊNCIA CAIU

Foto: Mila Brigas/Universidade FM

Enquanto nos vendem a "transição verde" como a salvação do planeta, nos bastidores do poder, em Bruxelas, o jogo é outro. A recente condenação da Comissão Europeia pela Provedora de Justiça Europeia, Teresa Anjinho, expõe uma realidade sombria: o povo está a ser mantido no escuro enquanto projetos mineiros gigantescos avançam sobre as nossas terras, as nossas águas e o nosso futuro.

A Provedora de Justiça Europeia não usou meias palavras. Concluiu que a Comissão Europeia cometeu um caso de má administração. O crime? Recusar o acesso público a documentos ambientais cruciais sobre projetos de lítio classificados como "Estratégicos". Entre eles, a nossa já bem conhecida e polémica Mina do Barroso, em Boticas.

Bruxelas tentou esconder-se atrás do argumento de que as candidaturas das mineiras eram "comercialmente sensíveis". Mas Teresa Anjinho foi implacável: essa comparação é inadequada. Estes projetos não são simples concursos comerciais; são decisões de interesse público com impactos devastadores na vida das pessoas. Ao inspecionar os ficheiros, a Provedora descobriu que muito do que Bruxelas dizia ser "secreto" era, na verdade, informação genérica ou já pública. Então, porquê o secretismo? O que é que eles não querem que o povo saiba?

Mina do Barroso: O Epicentro da Revolta

A Mina do Barroso tornou-se o símbolo desta luta. Classificada como "Estratégica" por Bruxelas, o projeto da Savannah Resources tem sido empurrado goela abaixo dos portugueses. A organização ClientEarth e a União de Defesa de Covas do Barroso (UDCB) têm denunciado o que parece ser um atropelo sistemático das salvaguardas ambientais.

Como pode um projeto ser "estratégico" se destrói a biodiversidade, ameaça os recursos hídricos e ignora a vontade de quem lá vive? A decisão da Provedora de Justiça é uma vitória moral para estas comunidades, mas é também um alerta: se Bruxelas reconhece um projeto como estratégico, tem a obrigação de explicar ao público como é que os impactos ambientais serão monitorizados e resolvidos. Até agora, a resposta tem sido o silêncio e as portas fechadas.

O Triângulo do Lítio em Portugal: Barroso, Romano e Argemela

Mas o escândalo não fica por aqui. Além do Barroso, o povo português enfrenta outras duas frentes de batalha: a Mina do Romano, em Montalegre, e a Mina da Argemela, no Fundão. Estes três projetos formam um triângulo de incerteza e medo.

A inclusão destes projetos em listas "estratégicas" da União Europeia, muitas vezes através de processos pouco claros e com indícios de pressão política, é um insulto à democracia. O projeto "Lift One", da Lifthium Energy, focado no processamento, também se junta a esta lista. A pressa de Bruxelas em garantir o "ouro branco" para as baterias europeias está a criar zonas de sacrifício em Portugal.

Onde Está a Proteção do nosso Povo?

A pergunta que todos fazemos é simples: por que mãos andamos a ser governados? A Comissão Europeia, que deveria ser a guardiã dos tratados e a defensora dos cidadãos, parece estar mais preocupada em satisfazer os interesses das grandes mineiras do que em proteger o ambiente e a saúde pública.

A invocação da Convenção de Aarhus, que garante aos cidadãos o acesso à informação ambiental, foi ignorada por Bruxelas sob o pretexto de que os dados eram "hipotéticos". A Provedora de Justiça discordou frontalmente: as emissões futuras são previsíveis e os dados são objetivos. Esconder estes dados é uma violação direta dos direitos dos cidadãos europeus.

Não Seremos Zonas de Sacrifício

Esta reportagem não é apenas sobre minas; é sobre governança, ética e dignidade. Não podemos aceitar que a transição energética seja feita à custa da destruição das nossas comunidades e do secretismo institucional.

O povo não pode ser tratado como um obstáculo ao progresso, mas sim como o seu principal beneficiário. Se Bruxelas quer lítio, tem de o fazer com transparência total, com respeito pelas leis ambientais e, acima de tudo, com o consentimento de quem vive na terra.

BICO CALADO

Foto: Javier Aparicio/EPA
  • "A cunha que resultou. A exceção de Salazar para os condes de Sabugosa. Um dos pilares da ponte caía sobre a propriedade dos condes de Sabugosa, que inclui um palácio e um jardim. A família, com acesso direto a Salazar, ficou alarmada e moveu influências para preservar a propriedade, conta Luís F. Rodrigues em A Ponte Inevitável. O próprio Salazar intercedeu a favor - um desvio no pilar salvou a propriedade." Fonte: Revista Sábado 5-11 agosto 2026.
  • “(…) Portugal produz, e em grande escala, comentadores. Não é uma produção qualquer. É uma produção intensiva. Quase industrial. Enquanto outras nações extraem minerais do subsolo, nós extraímos conclusões a todas as horas do dia e da noite. (…) A Suíça tem montanhas. A Arábia Saudita tem petróleo. Nós temos opiniões. E quem tem opiniões tem “opinadores”. E fazemos deste recurso a nossa melhor indústria. (…) Porque, e observando atentamente o país, percebe-se que já não existem acontecimentos. Existem apenas pretextos para interpretar. (…) Os gregos inventaram a democracia. Os romanos inventaram o direito. Portugal inventou a mesa-redonda permanente. A nossa verdadeira instituição nacional já não é o Parlamento. É o painel. (…) E o painel é uma criação genial. Reúne quatro pessoas visionárias que discordam em absoluto umas das outras para explicarem, durante uma hora, que a realidade confirma precisamente aquilo que cada uma delas pensava antes dos factos acontecerem. Isto é uma forma superior de conhecimento. Aristóteles acreditava que a observação devia preceder as conclusões. Nós ultrapassámos essa fase primitiva. As conclusões já vêm prontas de fábrica. Os acontecimentos limitam-se a confirmar a encomenda. (…) Imagine-se a perda de tempo que seria esperar pelos factos. Os factos são lentos. As convicções são imediatas. E vivemos numa época que valoriza a produtividade. (…) E nem sequer é necessário conhecer profundamente os temas abordados. Essa é práxis antiga. O comentador contemporâneo não trabalha com conhecimento. Trabalha com posicionamento. O conhecimento exige investigação, e isso cansa. O posicionamento exige apenas rapidez, e isto é produção em grande escala. É por isso que os grandes comentadores conseguem falar com igual autoridade sobre geopolítica, educação, habitação, energia, futebol, inteligência artificial, sistemas eleitorais, alterações climáticas, fertilizantes agrícolas, a sexualidade na menopausa e o comportamento reprodutivo do ornitorrinco. (…) O país gosta de ser explicado. Aliás, suspeito que gostamos mais de explicações do que de soluções. As soluções possuem um defeito irritante: exigem pensar. E o pensamento exige trabalho. (…) Se um dia desaparecer a agricultura, não tenho dúvida de que iremos sobreviver. Se desaparecer a indústria, facilmente nos iremos adaptar. Se desaparecer o turismo, reinventamo-nos. Mas se desaparecerem os comentadores, Portugal ficará perante um problema verdadeiramente existencial. (…) Não quero sequer imaginar tal cenário. Seria o caos. Milhões de cidadãos abandonados à terrível responsabilidade de pensar por conta própria. (…)” Luís Ochoa.

LEITURAS MARGINAIS

PORQUE É QUE NÃO HÁ NENHUM FILME DE HOLLYWOOD SOBRE O BOMBARDEAMENTO DE NAGASAKI?
Walt Zlotow. Rev. O’Lima.


No filme de 1952 «Above and Beyond», o ídolo do cinema Robert Taylor interpretou o coronel Paul Tibbetts, uma figura saída diretamente da Central Casting, que pilotou o Enola Gay para lançar a primeira bomba atómica sobre Hiroshima há 81 anos. Todos nós crescemos a admirar Tibbetts, o «Enola Gay» e a missão perfeita que incinerou Hiroshima com a primeira bomba atómica lançada em ato de guerra. A minha admiração acabou por se transformar em repulsa perante um crime de guerra hediondo.

Mas quem pilotou o avião que lançou a segunda bomba atómica sobre Nagasaki apenas três dias depois? A história americana apagou em grande parte a saga da missão de Nagasaki, por uma boa razão. Foi uma falha colossal que quase levou o piloto a ser julgado em tribunal marcial; na verdade, quase detonou a bomba atómica de Nagasaki, a «Fat Man», sobre o Pacífico, durante o voo.

Os problemas começaram logo no início. Paul Tibbetts, ainda entusiasmado com o seu sucesso em Hiroshima, escolheu o seu amigo Charles Sweeney para pilotar o avião de lançamento «Bockscar», em vez do seu piloto habitual, Fred Bock. Sweeney não estava familiarizado nem com o combate nem com o avião. Ao preparar-se para a descolagem, Sweeney não conseguiu operar o depósito de reserva que continha 640 galões de combustível, necessários para que o Bockscar regressasse em segurança ao seu ponto de descolagem em Tinian. Bock talvez tivesse a familiaridade necessária com o avião para o conseguir. Os regulamentos exigiam que a missão fosse cancelada, pelo que Sweeney e a tripulação saíram do «Bockscar». Mas Tibbetts ignorou a recomendação e a missão prosseguiu com combustível insuficiente.

Três horas depois, surgiram problemas ainda piores. As luzes vermelhas de detonação da «Fat Man» começaram a piscar freneticamente. O chefe de armamento, Dick Ashworth, procurou freneticamente nas plantas e percebeu que dois interruptores tinham sido invertidos durante a montagem pré-voo. Depois de resolver esse problema, todos relaxaram até que o «Bockscar» não conseguiu encontrar-se com o segundo dos dois aviões de apoio, um para fotografia e outro para instrumentos. O avião de instrumentos, o «Big Stink», estava a 9 000 pés acima do «Bockscar». Em vez de prosseguir para o alvo original, Kokura, Sweeney desperdiçou 45 minutos de combustível precioso a tentar estabelecer contacto. O piloto do «Big Stink», Hoppy Hopkins, quebrou o silêncio de rádio, contactando freneticamente Tinian e perguntando: «O Bockscar caiu?» Os responsáveis pela missão apenas ouviram «Bockscar Down» e entraram em pânico, acreditando que o Bockscar, o «Fat Man» e a tripulação de 13 membros estavam no fundo do mar.

Ashford estava em pânico, pensando que tudo estava perdido. À medida que a tensão aumentava entre o responsável pelo armamento e o piloto, acabou por convencer Sweeney a prosseguir para o alvo principal, Kokura. Mas uma cortina de fumo lançada pelos defensores japoneses, em resposta ao ataque a Hiroshima, obrigou Sweeney a dar a volta para uma segunda e terceira passagem de bombardeamento, desperdiçando combustível. Mais problemas. O fogo antiaéreo e os Zeros japoneses que se aproximavam forçaram Sweeney a abandonar Kokura para fugir 100 milhas até ao alvo alternativo, Nagasaki.

Feito o lançamento, Sweeney fez uma descida desesperada para evitar a nuvem em forma de cogumelo que quase os engolfou. Mas os seus atrasos anteriores tornaram impossível a viagem de regresso a Tinian. Com pouco combustível, Sweeney iniciou um voo perigoso de 450 milhas, com o combustível a esgotar-se, em direção a Okinawa. Todos a bordo do Bockscar prepararam-se para uma aterragem forçada. Ao aproximar-se do aeródromo de Okinawa, sem conseguir comunicar por rádio a sua emergência à torre de controlo, o Bockscar teve de efetuar uma aterragem forçada no meio de inúmeros outros voos, sem autorização da torre de controlo. O Bockscar saltou 25 pés no ar, aterrando a 30 MPH acima da velocidade máxima de aterragem, quase colidindo com uma fila de B-24 carregados de combustível. Um motor parou durante a aproximação e outro no momento do contacto com o solo. Pensando que o «Bockscar» estava perdido, o pessoal do aeroporto perguntou que avião estranho era aquele que tinha descido do céu sem aviso prévio. «Acabámos de lançar uma bomba atómica», foi a resposta.

Não houve celebrações para a tripulação do Bockscar. As autoridades ponderaram submeter Sweeney a um tribunal marcial devido aos atrasos que colocaram em risco a sua vida e a missão, mas perceberam o embaraço que isso causaria e decidiram não o fazer. Porquê manchar o primeiro bombardeamento nuclear de civis, executado na perfeição por Paul Tibbetts e o Enola Gay?

Embora nunca venhamos a ver uma adaptação hollywoodesca da missão da bomba atómica do Bockscar, seria muito mais emocionante do que «Above and Beyond». Um título apropriado? «Quase a falhar sobre Nagasaki».

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

HUNGRIA: BAIXO NÍVEL DE ÁGUA NO DANÚBIO FORÇA ENCERRAMENTO DE CENTRAL NUCLEAR


A Hungria está a preparar-se para o racionamento de eletricidade, uma vez que os níveis vertiginosamente baixos da água do rio Danúbio forçam a única central nuclear do país a encerrar completamente. A central de Paks, que fornece até 40% da eletricidade do país, depende do Danúbio para o arrefecimento e não dispõe de um fornecimento de água de reserva. «Estamos a enfrentar os cinco dias mais críticos», disse o primeiro-ministro Péter Magyar numa mensagem de vídeo no domingo. «A partir de amanhã, a central nuclear de Paks deixará de gerar eletricidade, precisamente quando chegam os dias mais quentes, com temperaturas a atingir os 40 °C. O nosso sistema elétrico, os nossos serviços públicos e todos nós estaremos sob uma enorme pressão.» Fonte.

REFLEXÃO

ENXURRADAS DE ARROGÂNCIA


Na madrugada de ontem, os Açores voltaram a sentir a omnipotência da Mãe Natureza que, interrompendo o silêncio da noite, descarregou sobre nós o clarão dos relâmpagos, o estrondo dos trovões e a força da água que caiu em enxurrada.

Estes processos, tal como os incêndios quando não têm mão humana, fazem parte dos ciclos de regeneração da natureza. Como a vida e a morte, também a destruição tem o seu lugar. Da limpeza dos solos nasce frequentemente o renascimento e da aparente devastação regressa a vida. Podemos até dizer que o único elemento verdadeiramente estranho a este ciclo somos nós. Afinal, também a nossa existência é filha de uma grande extinção. Sem o desaparecimento dos dinossauros, dificilmente estaríamos hoje aqui.

Nas últimas décadas, talvez nos últimos séculos, fomos-nos afastando lenta e perigosamente do conhecimento empírico da natureza. Num paradoxo evidente, à medida que o conhecimento científico sobre os ecossistemas se aprofundou, foi crescendo uma arrogância antrópica que nos levou a acreditar que poderíamos moldar o território às nossas conveniências, ignorando os processos naturais que o sustentam. Tornámo-nos simultaneamente vítimas e violadores da natureza, infligindo sobre nós próprios uma lenta automutilação do presente e do futuro.

Muito para lá da discussão sobre as alterações climáticas, frequentemente reduzida a um debate técnico ou ideológico, os incêndios florestais, como entre nós as enxurradas, continuam a ser sobretudo um problema de ordenamento do território e da incapacidade humana de compreender os limites da sua intervenção. A questão essencial não é dominar a natureza, mas aprender a viver com ela. Não como falsos soberanos, mas como participantes de um equilíbrio infinitamente mais antigo do que a nossa própria civilização.

As ribeiras existem para conduzir a água até ao mar. Esse transporte limpa as bacias hidrográficas, alimenta os aquíferos, leva nutrientes aos oceanos e faz parte do funcionamento saudável dos ecossistemas. O problema começa quando ocupamos os seus leitos, impermeabilizamos os solos, desflorestamos encostas, fragmentamos a paisagem ou substituímos a vegetação por usos incapazes de reter a água, como acontece em muitas áreas de pastagem intensiva, sujeitas à fertilização química e ao escorrimento dos inevitáveis xerumes. E agrava-se dramaticamente quando muitos sistemas urbanos continuam a revelar profundas fragilidades no saneamento básico, fazendo das ribeiras o primeiro escape de tudo aquilo que a cidade não consegue, ou não quer, tratar.

O único poluidor somos nós. A natureza apenas transporta aquilo que lhe entregamos.

É por isso que, depois das grandes chuvadas, o mar amanhece castanho. Não porque a natureza tenha mudado, mas porque a água faz aquilo que sempre fez: corre para jusante. Pelo caminho transporta terra e matéria orgânica, mas também plásticos, lixo, detritos, esgotos e todas as marcas da nossa negligência. O mar não produz essa sujidade. Apenas recebe e devolve aquilo que nós lhe entregámos.

Cada enxurrada transforma-se assim num espelho da forma como ocupámos o território. Aquilo que durante meses permanece escondido debaixo do asfalto, nas bermas das estradas, nos terrenos abandonados, nas linhas de água obstruídas, nas deficiências do saneamento urbano ou nas más práticas agrícolas e pecuárias, torna-se subitamente visível em poucas horas. A tempestade não cria o problema. Apenas o ilumina, com a mesma violência com que um relâmpago rasga a escuridão da noite.

E, no entanto, continuamos a discutir exaustivamente os impactos do turismo, multiplicando planos, estratégias e monitorizações, enquanto esquecemos que o maior impacto ambiental continua a ser aquele que produzimos diariamente sobre o nosso próprio território. A verdadeira pressão sobre os nossos mares não começa nas praias cheias de visitantes. Começa muito antes, na forma como construímos, planeamos, drenamos, limpamos (ou deixamos de limpar) as nossas vilas, cidades e paisagens.

Pegando num exemplo que me é particularmente próximo, aqui em frente, no Ilhéu de Vila Franca do Campo, andamos há quase uma década a monitorizar, a debater, a criar planos e comissões de trabalho. Chegámos mesmo a encerrar o Ilhéu durante um ano, prometendo soluções definitivas. E, no entanto, basta uma noite de chuva intensa para as imagens voltarem a falar por si. Basta um dado para percebermos a dimensão do problema: das doze análises oficiais realizadas este ano à água balnear do Ilhéu, apenas três não registaram contaminação por enterococos intestinais e E. coli. Não é o mar que está doente. É a forma como tratamos a terra que o alimenta que corrompe e destrói a saúde do mar.

A natureza não se vinga, nem castiga. Limita-se a obedecer às suas próprias leis. A água desce sempre para o mar. A diferença é que hoje já não leva apenas a fertilidade da terra. Leva também a prova da nossa incapacidade de respeitar os limites da paisagem e da nossa persistente ilusão de que podemos viver acima das regras da própria natureza. A enxurrada não fabrica a nossa negligência. Apenas torna impossível escondê-la.

BICO CALADO

HIROSHIMA, NUNCA MAIS!

  • Os EUA são o único país desenvolvido que não obriga os empregadores a concederem férias pagas aos trabalhadores. E, de acordo com um relatório divulgado na quarta-feira, o americano médio tem menos dias de férias do que o que muitos dos seus pares consideram o mínimo indispensável.
  • A Volkswagen está em negociações com a Rafael Advanced Defense Systems, empresa estatal israelita, sobre a possibilidade de reaproveitar a sua fábrica em Osnabrück após o término da produção de carros de passeio em 2027. A unidade poderia fabricar componentes para o sistema de defesa aérea israelita Domo de Ferro, incluindo lançadores, veículos de transporte e geradores de energia. Fonte.
  • Município de Espinho vai gastar € 22,8 mil em brindes institucionais. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A PONTE 25 DE ABRIL E OS SAUDOSISTAS DO FASCISMO
Carlos Esperança, Ponte Europa.


Há 60 anos, no dia de hoje, foi inaugurada e convenientemente benzida a primeira ponte que ligou Lisboa à margem sul do rio Tejo. Américo Tomás, mordomo do déspota, quis que o apelido do ditador desse o nome à ponte que inaugurou fardado de almirante.
Gonçalves Cerejeira, cardeal e amigo do ditador, com um báculo de dois metros, mitra e um vistoso vestido rendado, rodeado de clero, fascistas e pides, não poupou latim e água benta. Brandiu vigorosamente o hissope, aspergiu a ponte e exibiu o reluzente anelão.
Foi a obra grandiosa no país que então liderava a Europa no analfabetismo, mortalidade infantil e materno-fetal, na pobreza e no atraso. A partir daí, aos lavadoiros, fontanários, caminhos e escolas, o ditador juntou a glória de mandar construir a Ponte com o seu nome.
As prisões estavam cheias de opositores; a emigração clandestina era o destino de quem fugia à miséria; a censura exercia-se nos jornais, revistas, livros, rádio e televisão; em Angola, Moçambique e Guiné continuavam a morrer jovens numa guerra injusta, inútil e criminosa; os Tribunais Plenários tinham juízes com vocação de algozes e em Caxias, Peniche e na R. António Maria Cardoso a tortura era o método de investigação; o poder discricionário da ditadura ia do Minho a Timor.
Faltavam quatro dias aos dois anos que ainda separavam o ditador da queda da cadeira, uma eternidade para quem sofreu a tirania a que não faltou um precário sucessor.
Hoje, os trogloditas que sobraram, e os que nasceram depois, não deixarão de incensar o tirano e gostariam que o seu nome tivesse perdurado na ponte. O 25 de Abril é o chumbo derretido que os dilacera, e a História, embora tarde, fez justiça.
Os nomes de Franco, Hitler e Mussolini também foram banidos da toponímia, a bem da salubridade pública, mas há saudosistas em cujo devocionário se escreve a memória dos carrascos que oprimiram os seus povos.
Há sessenta anos, no dia de hoje, foi aberta ao trânsito a Ponte 25 de Abril. Era sábado.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

INCÊNDIOS: NEM AVIÕES NEM HELICÓPTEROS

Ilustração: 
Postal do Algarve.

Nem aviões nem helicópteros: pastor diz que a solução para os incêndios está nos montes e limpa mais do que 100 pessoas. Um pastor espanhol defende que o gado consegue limpar os montes de forma mais eficaz do que dezenas de trabalhadores. Fonte.

AMAZÓNIA: AUTORIDADES DE 5 PAÍSES DETÊM CENTENAS DE PESSOAS EM OPERAÇÃO CONTRA CRIMES AMBIENTAIS

O desmatamento visível causado pela mineração ilegal rodeia o rio Quito, perto de Paimado, na Colômbia, a 23 de setembro de 2024. 
(Foto AP/Ivan Valencia, arquivo)
  • A polícia de cinco países (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru) deteve 839 pessoas e apreendeu mercadorias ilegais no valor de mais de 280 milhões de dólares. A operação, que decorreu de 15 a 31 de julho, mobilizou mais de 3 600 agentes para combater a mineração ilegal, a exploração madeireira ilegal, o tráfico de animais selvagens, o contrabando de combustível e a apropriação ilegal de terras. Resultou na apreensão de madeira extraída ilegalmente suficiente para encher cerca de 110 piscinas olímpicas, juntamente com 195 toneladas métricas de minerais e mais de 3 000 animais vivos. Fonte.
  • A Doe Run Company, uma empresa mineira norte-americana, chegou a um acordo extrajudicial no valor de 150 milhões de dólares com 1 373 peruanos que sofreram consequências para a saúde devido a envenenamento por chumbo quando eram crianças. O cardeal peruano Pedro Barreto, que liderou uma campanha de quase 20 anos contra a empresa, classificou o acordo como um «marco histórico», mas salientou que o dinheiro não pode compensar totalmente os danos neurológicos permanentes sofridos pelas vítimas. Fonte.
  • Em Brandemburgo, a Tesla e a Red Bull estão a expandir as suas fábricas, consumindo os recursos hídricos locais. Um projeto de mina de cobre está também a suscitar novas preocupações. Quanto tempo falta para a Alemanha enfrentar uma escassez de água potável? Fonte.
  • Mais de dois anos depois de as autoridades reguladoras ambientais terem documentado pela primeira vez a fuga de resíduos industriais de «lama vermelha» da refinaria de alumina Atalco Gramercy para cursos de água públicos, o estado ainda não aplicou multas nem impôs sanções à empresa. Em vez disso, o Departamento de Qualidade Ambiental do Louisiana continua envolvido em negociações confidenciais para chegar a um acordo com a empresa, enquanto um juiz federal mantém em suspenso uma ação judicial movida por cidadãos contra a Atalco. Entretanto, os inspetores estatais relataram, em maio, terem encontrado mais resíduos da refinaria a vazar para valas públicas que drenam para um pântano ligado ao Lago Maurepas. Fonte.

BICO CALADO



Foto: Rasid Necati Aslim/Anadolu/Getty Images
  • Uma megaoperação da Polícia Judiciária resultou na apreensão de um navio porta-contentores carregado com várias toneladas de cocaína, que foi interceptado e escoltado até ao Porto de Sines para uma inspeção minuciosa. Fonte.
  • Os mercados de previsão não são oráculos. São casinos para quem está por dentro. Enrique Dans, Medium.
  • Guilhermino Pedro Sousa Pereira, presidente da mesa da Assembleia de Freguesia de Anta, Espinho, antecipou-se e apresentou a sua demissão, por carta, na sessão extraordinária da mesma assembleia convocada para a destituição da mesa após graves irregularidades apontadas pelas oposições durante a reunião de 30 de junho de 2026. Fonte.
  • Ainda se ouve o grito de dor da gramática no título desta notícia.

LEITURAS MARGINAIS

OS MEDIA DOMINANTES SÃO CULPADOS DE OCULTAR A VERDADE AO PÚBLICO
John Wojcik, People’s World. Rev. O’Lima.


Em praticamente todos os aspetos em que a administração Trump tem vindo a seguir uma política que beneficia os bilionários em detrimento da classe trabalhadora, os media tradicionais têm falhado no cumprimento da sua responsabilidade de manter a população informada.

A sua cobertura da guerra contra o Irão, por exemplo, centra-se em como Trump está a conduzi-la mal — como se houvesse melhores formas de os EUA conduzirem uma guerra que, para começar, não deviam ter iniciado. A medida em que a guerra enche os bolsos dos fabricantes de armamento com lucros astronómicos e, com eles, os bolsos dos magnatas da indústria dos combustíveis fósseis, não é muito mencionada.

O enriquecimento destas pessoas e a concentração do seu poder e riqueza em resultado da guerra não são explicados. Nem, evidentemente, é dada ênfase às mortes e à destruição injustas no Irão. No que diz respeito à guerra contra o Irão, os media falham no seu dever de informar.

Os media dizem-nos que a guerra se arrasta devido à abordagem caótica de Trump em relação a tudo. A verdade é que a sua abordagem é intencional, não caótica. As mudanças diárias — um dia negociações de paz, no dia seguinte ameaças de bombardeamentos — ajudam a manter o conflito em curso, enriquecendo e tornando mais poderosas as pessoas que beneficiam do «caos».

O mesmo se aplica ao orçamento militar na sua totalidade. Além de enriquecer ainda mais os ricos, enfraquece o país. Pagamos a conta com a falta de serviços e infraestruturas, melhorias que temos o direito de esperar, mas que nos são negadas porque o Pentágono está a absorver todo o dinheiro.

Os media costumam resumir o debate sobre o orçamento militar ao facto de os republicanos quererem mais de um bilião de dólares e os democratas quererem um pouco menos. Relatam-nos como os legisladores que apoiam o orçamento militar afirmam que os aumentos são necessários porque nos garantirão segurança. O que não nos dizem é que o orçamento militar nos coloca sob ameaça. Aumenta o número de países ressentidos em todo o mundo e, ao esgotar os recursos necessários a nível interno, torna a vida mais perigosa também aqui. A imprensa também não está a informar sobre isto.

Trump afirmou que o governo não deveria, na verdade, preocupar-se com a Segurança Social, o Medicare, os cuidados de saúde e tudo o resto. «Deixem isso para os estados», disse ele. «O governo federal deveria limitar-se a cuidar das forças armadas e a garantir a nossa segurança.» Essas declarações do presidente deveriam ser amplamente divulgadas em todos os media.

A manipulação das tarifas aduaneiras é mais uma área em que a imprensa fica aquém. As empresas estão a solicitar reembolsos dos custos adicionais que já repercutiram nos consumidores. Isto equivale a um roubo das empresas ao público, e a imprensa deveria estar a afirmar que as tarifas aduaneiras também se revelaram um esquema para aumentar a riqueza das empresas à custa dos trabalhadores.

Nestes dias de verão, toda a gente está incomodada por ter de respirar o fumo dos incêndios florestais. Devemos culpar o Canadá porque as florestas canadianas, tal como muitas das nossas, estão a arder? Ou devemos culpar as alterações climáticas, alimentadas por empresas especuladoras que retiram financiamento à proteção do ambiente? Se os jornalistas dos media tradicionais estivessem a fazer o seu trabalho na íntegra, reportariam mais do que apenas os incêndios propriamente ditos e relacioná-los-iam com o facto de os ricos se tornarem ainda mais ricos e poderosos do que já são.

Depois, há a questão do anticomunismo e dos ataques aos progressistas, rotulados de «socialistas». Os media explicam, com razão, como esses ataques são divisionistas e concebidos para desviar o apoio dos candidatos progressistas para os candidatos reacionários e conservadores.

Mas a notícia fica por aí. Não se explica como o socialismo implica propriedade pública, poder para os trabalhadores se organizarem, um ambiente limpo regulado por pessoas eleitas pelo público e cuidados de saúde universais e gratuitos para todos. Os media são cúmplices em encurtar o debate antes mesmo de o público ter a oportunidade de perceber em que consistem o tão difamado socialismo e o comunismo.

A liberdade de imprensa está consagrada na Constituição porque é a forma como as pessoas exercem o seu direito de serem informadas e de participarem. É claro que devemos combater todas e cada uma das tentativas da administração Trump de reprimir e controlar os media, independentemente das suas falhas. Temos, no entanto, o direito de esperar que os media façam um melhor trabalho ao fornecer ao público a informação de que este necessita.