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quinta-feira, 2 de julho de 2026

O PARADOXO ESTÉTICO DA CENOURA

  • “Num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade, desperdício alimentar, cadeias curtas, remuneração justa ao produtor e soberania alimentar, continuamos presos a uma lógica absurda: a estética tornou-se critério económico da agricultura. E, demasiadas vezes, manda mais do que o sabor, a origem, a frescura, o valor nutritivo ou o modo como aquele alimento foi produzido.” António Martins Bonito, O Império da Cenoura Perfeita – Vida Rural.
  • Os dois reatores nucleares de Beznau, na Suíça, arrefecidos com água do rio Aare, foram desligados da rede devido ao sobreaquecimento da água. Fonte.
  • Condado com 37 centros de dados pede às escolas que «poupem eletricidade». O Condado de Henrico é um importante centro de centros de dados na Virgínia. As autoridades locais afirmaram que prevêem um aumento de 25% nos custos de eletricidade no próximo ano e aconselharam os trabalhadores a fechar as persianas e a desligar os computadores para compensar esse aumento. Fonte.

BICO CALADO

  • Os EUA são o principal destino mundial para a lavagem de dinheiro sujo através do setor imobiliário, revelou a mais recente atualização do Índice de Sigilo Financeiro. As leis de transparência fracas ou inexistentes valeram aos EUA a pior pontuação possível no indicador de propriedade imobiliária do Índice, com o Canadá e o México, também anfitriões do Mundial, logo atrás, em segundo e quinto lugar, respetivamente, no ranking dos destinos imobiliários para dinheiro sujo. Fonte.
  • A «Polícia Antiterrorista» do Reino Unido deteve advogado norte-americano e ativista dos direitos humanos por críticas a Israel. Dan Kovalik foi detido para interrogatório no Aeroporto Internacional John Lennon, em Liverpool, Inglaterra, por mais de duas horas. Fonte.
  • “As celebrações dos 50 anos da Autonomia continuam transformadas numa espécie de peditório anual da Liga Contra o Cancro, com políticos de todos os quadrantes a agitarem, com uma mão, a bandeira das conquistas autonómicas e, com a outra, a estenderem-na para que alguém nos pague as contas.” Pedro Arruda.
  • “A denúncia é a atitude de quem não luta, não se reúne, face a face, não vai ao plenário, não debate frontalmente, mas faz queixinhas. E o destino da queixinha? A União Europeia foi cuidadosa na diretiva: o destino é decidido pelo chefe ou o diretor ou a comissão “independente” por ele nomeada. E aí dá para tudo. Se gosta de beltrano, que é um corrupto, a queixinha serve para o corrupto ser mais fiel ao chefe e até ajudar o diretor a ser corrupto também. Se o chefe não gosta de sicrano, que fez uma denúncia de assédio moral, sicrano nunca mais passa no SIADAP, sistema de penalização e medo, autodesignado de “avaliação” na função pública. Perdão, função do Estado, que de público, já sabemos, só temos a vergonha da ausência de serviços e a condenação de impostos asfixiantes.” Raquel Varela, O delator e o chefe Maio.
  • O ataque à Escola Pública em 3 atos. Jorge Humberto Nogueira, Esquerda.

REFLEXÃO

A ONDA DE CALOR VAI DESENCADEAR MEDIDAS CONCRETAS OU VAI APENAS AGRAVAR AS GUERRAS CULTURAIS?
Christina Macpherson, Nuclear-news. Rev. O’Lima.


As condições meteorológicas extremas da semana passada deveriam impulsionar a resposta política ao aquecimento global. Mas o triste paradoxo é que isso poderá reforçar o apoio a partidos céticos em relação às alterações climáticas

Seria compreensível pensar que a onda de calor da semana passada na Europa seria um momento mobilizador para a ação face à crise climática. A certa altura, mais de 150 milhões de europeus sofreram com temperaturas superiores a 35 °C (95 °F) – com várias partes do continente a registarem valores acima dos 40 °C. Nunca se registou uma onda de calor desta magnitude tão cedo no ano.

Quando os cientistas concluírem os seus cálculos, o número de mortos provavelmente ascenderá a milhares. Espanha, um dos poucos países que produz estatísticas em tempo real sobre mortes em excesso relacionadas com o calor, registou mais de 100 por dia desde quarta-feira. As autoridades francesas afirmaram que foram registadas pelo menos mais 1 000 mortes entre 24 e 27 de junho, um número que provavelmente irá aumentar. Entre elas contam-se quatro crianças pequenas que morreram em incidentes relacionados com o calor. Um menino de três anos, num subúrbio de Paris, foi encontrado morto na semana passada depois de ter entrado num carro e ficado preso lá dentro.

Há uma inevitabilidade desoladora em torno destes acontecimentos: os cientistas há muito que alertam para a sua chegada. No entanto, os países não têm feito o suficiente para reduzir as emissões provenientes dos combustíveis fósseis que estão a causar estes fenómenos meteorológicos extremos — nem para se adaptarem às realidades da gestão do impacto nos seus sistemas de transportes e de saúde. (…)

Por vezes, os fenómenos meteorológicos relacionados com o clima podem ter um impacto temporário, afirma Ajit Niranjan, correspondente do The Guardian para assuntos ambientais na Europa: «Uma tendência que é possivelmente a mais contraintuitiva em relação a este tipo de momentos é que os partidos de extrema-direita que negam a ciência das alterações climáticas podem receber um certo impulso devido a fenómenos meteorológicos extremos», continua Ajit. «Eles apresentam o clima extremo como um fracasso da política governamental, argumentando que o foco nas alterações climáticas fez parte do problema inicial e que se trata, antes, de má gestão.»

Em muitos casos, como nas inundações de 2024 em Valência, em que mais de 230 pessoas perderam a vida depois de ter caído, em oito horas, o equivalente a um ano de chuva em algumas regiões do leste de Espanha, ambas as coisas são verdadeiras: o clima provocou o fenómeno meteorológico extremo, mas a má governação contribuiu para o desfecho mortal. É provável que esta dinâmica se torne cada vez mais comum à medida que os fenómenos meteorológicos extremos ganham frequência.

«É preciso abordar ambos os aspetos desta questão», afirma Ajit. «Há uma tendência estranha em que os partidos políticos negam completamente uma das causas, concentrando-se apenas no clima ou apenas na adaptação, sem terem um bom plano para a outra. Isto faz certamente parte da estratégia utilizada pelos partidos de extrema-direita para atacar a política climática.»

LEITURAS MARGINAIS

OS DEPLORÁVEIS E O ESPELHO II. O PARADOXO DO VOTO
Jorge Rocha, Ventos Semeados.


Há uma aldeia no interior de Portugal — escolha-se qualquer uma, servem quase todas — onde fecharam a escola, a extensão de saúde, a estação dos correios e o último café que ainda juntava gente ao fim da tarde.

Os jovens partiram. Ficaram os velhos e ficou o ressentimento.

Nessa aldeia, nas últimas eleições, o Chega cresceu. E a pergunta que a esquerda faz, perplexa, é o porquê? Porque votam estas pessoas em quem nunca lhes dará escola, saúde, correios nem café?

O mesmo se pergunta no cinturão industrial do norte de França, onde Le Pen colhe o voto de operários que outrora votavam comunista. Ou nas cidades pós-industriais inglesas que Farage convenceu a votar pelo Brexit contra os seus próprios empregos.

O paradoxo é internacional: os mais pobres votam em quem governa para os mais ricos. Trump corta impostos aos milionários e enche comícios de gente que mal chega ao fim do mês. Ventura defende o IRS proporcional, que beneficia quem mais ganha, e recolhe aplausos de quem menos tem.

A tentação de explicar isto por estupidez é grande e é errada. Não é estupidez. É outra coisa, mais funda e mais difícil de combater: é dignidade ferida à procura de quem a reconheça.

Quem perdeu a fábrica não ficou só sem o salário. Perdeu o lugar no mundo, a utilidade, o orgulho de quem produzia algo. Quem viu a aldeia esvaziar-se não se viu apenas sem os serviços — perdeu a sensação de pertencer a um país que se lembra de que existe. E durante décadas, quem deveria estar do seu lado andou distraído.

A esquerda, quando governou, geriu globalizações que deslocalizaram fábricas, assinou tratados que premiaram o capital móvel e abandonou o território profundo à sua sorte, ocupada com causas que, sendo justas, não chegavam à mesa onde faltava o pão.

O populismo de direita percebeu este vazio antes da esquerda. Não o preencheu com soluções — não tem nenhuma —, mas com algo que a esquerda deixou de oferecer: atenção. Ventura vai à aldeia, fala a sua língua, nomeia a sua raiva e dá-lhe um culpado com cara e nome. É mentira, mas é a de quem escuta.

Ora, quem se sente escutado perdoa muita mentira a quem lhe dá atenção.

O voto contra o próprio interesse material não é irracional, mas escolha de quem prefere quem lhe reconhece a existência a quem lhe explica o erro. Entre o doutor que tem razão e o demagogo que lhe dedica tempo, ganha quase sempre o segundo.

Resta saber com que matéria se constrói esta mentira reconfortante — e por que razão resiste mesmo quando a realidade a desmente todos os dias. É o que veremos a seguir.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

ESPANHA: BANDEIRAS PRETAS 2026

  • Após a inspeção dos mais de 8 000 quilómetros das costas espanholas, a Ecologistas en Acción apresenta o relatório «Bandeiras Negras 2026». Das 48 bandeiras negras atribuídas este ano, destacam-se: Urbanização da costa e invasão do domínio público marítimo-terrestre (8 bandeiras), despejos, deficiências nos sistemas de saneamento e graves problemas de depuração (14 bandeiras), impactos na biodiversidade (9 bandeiras), acumulação de lixo, plásticos e microplásticos na costa (2 bandeiras), obras portuárias ou de defesa costeira desnecessárias ou mal geridas (3 bandeiras), poluição química (7 bandeiras), danos ao património histórico e cultural no domínio público marítimo-terrestre (1 bandeira) e degradação ambiental resultante da turistificação e da sobrelotação (4 bandeiras). Bandeiras negras de 2026 por tipo, aqui.
  • A rápida expansão da energia solar em Espanha suscitou preocupações quanto ao excesso de capacidade, levando alguns investidores a procurar oportunidades noutros locais, nomeadamente no mercado norte-americano. Esta mudança é influenciada pela necessidade de diversificação e pelos desafios enfrentados no mercado interno. Fonte.
  • Alta velocidade Évora-Elvas pronta e parada desde janeiro. IP e IMT passam as culpas. Fonte.
  • Dois meses depois de a administração Trump ter cancelado dois grandes contratos de arrendamento para energia eólica offshore, o Departamento do Interior dos EUA anunciou um acordo com a Duke Energy. A empresa desiste do projeto de energia eólica offshore Carolina Long Bay, previsto para gerar energia para abastecer 300 mil residências e redireciona os 129 milhões para investir em centrais a gás ou tecnologias nucleares. Fonte.
  • A canadiana Reflect10 desenvolveu um projeto de módulo fotovoltaico que diz poder aumentar a produção de energia em 20 % em comparação com um módulo solar convencional. Em vez de recorrer a espelhos externos, a Reflect10 diz que o seu projeto incorpora uma geometria refletora na arquitetura do módulo, onde a luz solar é refletida várias vezes antes de ser absorvida pelas células fotovoltaicas, aumentando a captura de fotões sem alterar as próprias células. Fonte.

BICO CALADO

Cartune: Bruce MacKinnon
  • Dez anos após o Brexit, a economia britânica sofreu uma queda de 6 a 8%, o investimento e a produtividade entraram em colapso e a instabilidade política atingiu níveis históricos. Mas, para além do desastre económico, Londres assumiu uma posição muito mais beligerante em relação à Rússia, como forma de compensação pelas suas perdas políticas e económicas — uma estratégia tácita que está a conduzir o resto da Europa para uma guerra aberta. Com os EUA e outras nações a não proporcionarem acordos comerciais adequados, Londres passou a tentar ganhar a simpatia da Europa através de uma postura belicista em relação à Ucrânia. A UE continua a ser «o prémio principal» para a Grã-Bretanha — e apoiar a guerra por procuração é o preço da readmissão no seio da Europa. Fonte.
  • A alemã Allianz e a sua filial norte-americana PIMCO acumularam, pelo menos, 2,67 mil milhões de dólares em obrigações do Estado israelita desde 2024. FontePor outro lado, o Barclays e o BNP Paribas deixaram de subscrever obrigações de Israel.
  • Por que razão o valor do Brent desce mas os preços dos combustíveis se mantêm em Portugal? Fonte.
  • Um artigo intitulado «Identidade política para além da política: a preferência por Messi ou Ronaldo em 26 países» analisa os indicadores políticos da preferência de uma pessoa por estrelas do futebol, como Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo. Os investigadores inquiriram mais de 10 000 adultos em 26 países e descobriram que as pessoas que se identificavam como mais liberais tendiam a preferir Messi, enquanto as que se consideravam mais conservadoras preferiam Ronaldo, e as pessoas que consumiam frequentemente notícias em vídeos curtos preferiam Ronaldo, enquanto o consumo de meios de comunicação tradicionaisnão foi um indicador significativo de nenhuma das preferências. Via Hanaa' Tameez, Nieman Lab.
  • O músico brasileiro Sérgio Pererê foi detido no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Viajava com a cantora Badi Assad e o violinista Kevin Callahan para Berlim a convite de um festival. Ele ficou detido para interrogatório durante 4 horas enquanto os outros músicos seguiam viagem. A sua detenção só acabou com a intervenção de uma advogada e da convocação da imprensa. Com o atraso, a mala com os instrumentos chegou fora de horas e Pererê teve de improvisar no primeiro concerto. O Bloco de Esquerda questiona o Governo de Luís Montenegro, classifica a situação como uma "retenção injustificada" e exige esclarecimentos sobre o ocorrido.

LEITURAS MARGINAIS

A TORRE DA LELLO E DA AUTARQUIA TREMEU*



Erguer uma "Cidade-Livro" no coração do Porto parecia, no papel, o pináculo do esclarecimento cultural. Sob o mote de BABELL, a Fundação Livraria Lello, de braço dado com a Câmara Municipal do Porto, propôs-se a erguer uma torre contemporânea de pensamento, unindo a urbe sob a celebração da palavra.

Mas o mito de Babel não é uma fábula sobre harmonia — é uma narrativa humana, demasiado humana, escrita por homens para dar sentido à soberba dos homens. Não há punição divina em Babel: há apenas o inevitável colapso de quem tenta centralizar o mundo em torno de si. A história, caprichosa na sua ironia, repetiu-se na Invicta com precisão cirúrgica.

O primeiro abalo na estrutura desta torre cultural deu-se na própria gramática do festival. Ao assumir o inglês como língua franca que tudo unificaria, a organização mimetizou os babilónios que recusavam a dispersão. Perante a recusa do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em vergar o seu pensamento ao Globalese comercial, o Jardim do Pensamento transformou-se num palco de incompreensão e protesto. Logo ele, o pensador que tornou a filosofia acessível às massas, acabou silenciado pela ausência de tradução.

A sua presença no Porto tornou-se o espelho da sua própria obra: a denúncia da homogeneização cultural e da pressa de uma sociedade hiperconectada que já não sabe escutar o Outro.

A ironia adensa-se quando olhamos para o alinhamento dos autores do certame. Aponto alguns, o húngaro László Krasznahorkai, cujo romance Herscht 07769 traça a radiografia da decadência ocidental e da inevitabilidade de uma catástrofe que se instala quando as instituições falham; o aviso da canadiana Margaret Atwood, cujas distopias ensinam como o poder absoluto, disfarçado de missão cultural, começa sempre por purgar a dissidência e ditar quem tem direito à palavra. Os autores convidados escrevem contra a opressão e o esmagamento das minorias. Os seus nomes foram usados como tijolos para edificar uma Babel que faz precisamente aquilo que as suas obras repudiam.

Pois é sob o manto desta "missão cultural" que o grupo Lionesa (grupo com uma biografia empresarial que, ela própria, mereceria um capítulo de Atwood), proprietário da Lello, decidiu falar a língua mais clara do nosso século: a do Capital. Em fevereiro de 2025, a Lello Vitória — Livros e Turismo, Lda. adquiriu o imóvel no 19A da Travessa da Rua do Loureiro e notificou a Associação Comunidade do Bangladesh do Porto de que o seu contrato de arrendamento não seria renovado após outubro de 2025. A mesquita Hazrat Hamza, instalada naquele espaço desde 2003, recebe centenas de fiéis diariamente — e cerca de 1.500 às sextas-feiras. O objetivo declarado do grupo é transformar aquele quarteirão num "circuito criativo" higienizado e apelativo para o turismo de elite. Seria redutor, contudo, carregar toda a responsabilidade sobre a Lello. A situação foi agravada por uma sequência de decisões políticas que deixaram a comunidade sem saída. O anterior presidente da Câmara, Rui Moreira, prometera à associação a cedência do direito de superfície de um espaço alternativo na Rua da Porta do Sol — uma solução que nunca chegou a ser votada por o mandato estar a chegar ao fim e o atual presidente, Pedro Duarte, anunciou depois a intenção de colocar esses imóveis em hasta pública, declarando que "a construção de mesquitas não é prioridade". A comunidade ficou presa entre a indiferença de um executivo e a expansão imobiliária de outro.

Há aqui uma camada de ironia que transcende o óbvio. A narrativa de Babel não pertence apenas à tradição cristã ocidental que a Lello parece invocar como ornamento cultural. É uma história das três religiões abraâmicas — Judaísmo, Cristianismo e Islão partilham o mesmo Deus de Abraão, e a comunidade do Bangladesh, maioritariamente muçulmana sunita, venera essa mesma origem. O festival baptizado com o nome de uma torre que simboliza a arrogância humana expulsa, precisamente, uma comunidade que lê o mesmo texto fundador pela outra face. Babel, afinal, não foi construída por infiéis: foi construída por quem acreditava ser o único centro do mundo.

Acresce que esta comunidade do Bangladesh atravessa em Portugal uma visibilidade pública carregada de ambiguidade. Os cartazes que apareceram em Lisboa a dizer "Isto não é o Bangladesh", os debates mediáticos sobre representatividade da comunidade imigrante e a associação, por vezes apressada, entre a presença bangladeshiana e tensões urbanas, criaram um clima em que estas pessoas chegam ao espaço público já marcadas. Mas seria um erro de lógica — e de justiça — confundir o estigma construído pela opinião pública com uma razão para o silêncio à volta do seu despejo. São pessoas que vivem, trabalham e rezam no Porto há mais de duas décadas e cuja única relação com o festival BABELL é a de quem foi removido para que ele pudesse acontecer com maior conforto estético.

O escrutínio público já começou a fazer o seu trabalho. A torre da Lello e da autarquia tremeu porque esqueceu a lição fundamental que o próprio mito de Babel nos ensina — não como castigo divino, mas como consequência humana previsível: a tentativa de centralizar o poder, de homogeneizar a cultura e de passar por cima do Outro em nome de um monumento próprio atrai sempre a sua própria e justa ruína. A cultura real do Porto não se decreta por contratos de despejo. Sobrevive na tradução, na tolerância e na resistência daqueles que recusam ser apagados da fotografia da cidade.

* O título é da responsabilidade do Ambiente Ondas3.

terça-feira, 30 de junho de 2026

BEJA: A QUEM SERVE EXTERNALIZAR A LIMPEZA URBANA?

  • A coligação Beja Consegue (PSD, CDS-PP e IL), com os votos do PS e do Chega, aprovou uma proposta para a abertura de um concurso público internacional para a aquisição de serviços de limpeza urbana na cidade. A CDU votou contra alegando que a externalização não garante a melhoria da qualidade da limpeza urbana e acarreta um custo financeiro superior para os cofres do município, além de dar continuidade a uma política de privatização de serviços públicos. Fonte.
  • A onda de calor está a afetar a produção de energia. A EDF desativou dois reatores nucleares, em Bugey (Ain) e em Nogent-sur-Seine (Aube), elevando para três o número de reatores paralisados em França devido ao calor intenso, após o de Golfech (Tarn-et-Garonne), enquanto uma unidade em Saint-Alban também terá de reduzir a sua produção. Fonte.
  • Investigadores do Havai estão a dar uma segunda vida a redes de pesca velhas e ao plástico reciclado, incorporando-os no asfalto das estradas. Testes iniciais revelaram que estas estradas não libertam mais partículas de plástico do que o pavimento convencional, sendo que o desgaste dos pneus supera largamente qualquer vestígio de plástico proveniente do material reciclado. Se estudos futuros confirmarem que as estradas são duráveis, esta tecnologia poderá ajudar a combater tanto a poluição marinha como o sobrelotamento dos aterros sanitários. Fonte.

REFLEXÃO

O MILAGRE DOS EUCALIPTOS DE MELRES
Ricardo Meireles, Substack.


A 28 de Junho, o jornal Nascer do Sol publicou uma peça com um título que vale por si: “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo”. O ponto de partida é real. Dois povoamentos de eucalipto ficaram intactos no meio de um incêndio que, em 2024, queimou cerca de quatro mil hectares em Penafiel, Paredes e Gondomar. Quem sobe ao miradouro de Melres vê hoje duas ilhas verdes numa encosta carbonizada. A imagem é forte e a pergunta que ela levanta é legítima. A resposta que o jornal lhe dá é que o problema do fogo está na gestão e não na espécie, e o título dá um salto que o resto do texto não sustenta.

A rubrica #areiaparaosolhos existe também para separar as frases que seduzem daquilo que as frases escondem. Vamos por partes.

O que o título promete e o que o próprio texto admite

O título diz “eucaliptos resistem”. Sugere que a espécie tem uma qualidade de resistência ao fogo. A explicação que o jornal apresenta aponta para o contrário. Segundo o jornalista a peça jornalística, aquele povoamento aguentou porque foi plantado em terraços, porque as máquinas conseguem entrar para controlar a vegetação, e porque beneficiou de preparação do terreno e de redução de combustível. Por outras palavras, o que ali resistiu foi um regime de gestão intensiva, assente no uso de petróleo como energia barata, com solo trabalhado e biomassa retirada à mão e à máquina.

A própria peça responde, portanto, ao seu título. Aquelas árvores não pararam o fogo por serem eucaliptos. Pararam o fogo apesar de o serem, graças a um esforço de limpeza que removeu quase tudo o que era inflamável à volta delas. Atribuir esse mérito à espécie é o primeiro grão de areia para os olhos de quem lê. O mérito é do trabalho, e o trabalho foi feito precisamente porque o eucalipto, sozinho e em quantidade, arde com violência.

A frase que viaja sem o seu contexto

O artigo cita um investigador da Universidade de Lisboa para sustentar a ideia de que a espécie não é o problema e que o que conta é a quantidade de biomassa disponível para as chamas. A frase é defensável em termos estritos de comportamento do fogo. A carga de combustível pesa, e muito, na forma como um incêndio se propaga. O investigador é uma fonte independente e o reparo que aqui se faz não é sobre ele. É sobre o uso que o artigo faz das suas palavras.

A frase chega ao leitor decapada do contexto. “A espécie não é o problema” é verdade quando se fala apenas de física da combustão num talhão específico. Deixa de ser verdade quando se usa essa meia-ideia para ilibar um modelo inteiro de ocupação do território. Já o escrevi noutro texto neste site: o que desertifica o solo não é a árvore em si, é o regime de monocultura em que é plantada e explorada. A reportagem do Nascer do Sol fica-se pela primeira metade dessa frase, a que tira o foco do eucalipto, e descarta a segunda, a que devolve o foco ao regime que o multiplica em talhões de idade igual, sem estratos, sem sombra e sem água retida no solo.

O que a montra esconde: água, solo, microclima

Ao fixar todo o problema na quantidade de combustível e na limpeza do chão, o artigo apaga a dimensão que mais importa quando se fala de paisagens que ardem. Uma floresta biodiversa e estratificada, com plantas a ocupar diferentes alturas, funciona como um condensador. A atividade fotossintética arrefece o ar à sua volta, atrai humidade da atmosfera, condensa-a e prende-a no primeiro palmo de terra. Esse solo húmido e sombreado abranda o fogo. Um eucaliptal em monocultura faz o oposto. Deixa o vento seco correr, aquece, evapora e prepara o terreno para arder.


A ciência feita em Portugal já mediu estes factos. O investigador Joaquim Sande Silva ordenou, num estudo de 2009, as formações florestais por propensão para arder, e colocou o pinheiro-bravo e o eucalipto no topo, com o sobreiro, o castanheiro, a azinheira e o pinheiro-manso no fundo da lista. Vale a pena reter que o pinheiro-manso, também ele uma resinosa, fica entre os menos inflamáveis, sinal de que a etiqueta da espécie não decide tudo. Trabalho posterior da equipa de Jordi Garcia-Gonzalo, no mesmo Instituto Superior de Agronomia, mostrou que os povoamentos mistos e de folhosas reduzem o risco de fogo face ao pinheiro-bravo e ao eucalipto. O risco mora na monocultura densa e contínua de espécies inflamáveis, e a diversidade trabalha como corta-fogo.

E há uma razão económica para que estas espécies menos inflamáveis ocupem hoje tão pouco terreno. O carvalho, o castanheiro e o sobreiro são de crescimento lento, próprios das fases maduras da floresta, daquilo a que se chama o regime de abundância, e que podem levar décadas ou séculos a instalar-se. Esse tempo longo não serve o modelo da indústria da pasta de papel, que vive de cortar depressa e em grande quantidade. A própria Navigator descreve o eucalipto globulus como a espécie que está na origem dos seus papéis e valoriza-o justamente por ser de crescimento rápido, com ciclos de plantação e corte de cerca de doze anos, em povoamentos plantados exclusivamente para esse fim. Uma floresta que arde menos é, quase sempre, uma floresta que amadurece devagar, e uma floresta que amadurece devagar é tudo o que um modelo da industria da celulose não pode permitir.

A “limpeza” que a reportagem celebra é, vista por este ângulo, parte do problema e não a solução. Um chão raspado até ao osso é um chão que perde água por evaporação, que regride na sucessão ecológica e que precisa de recomeçar do zero o trabalho de se cobrir. A peça apresenta o solo exposto como virtude. Em rigor, é a assinatura de um ecossistema mantido em estado de adolescência permanente, ao serviço da extracção, sempre pronto a recomeçar e nunca autorizado a amadurecer até à fase em que a paisagem se torna húmida e pouco inflamável.

Incêndio a atravessar a A3 entre o Porto e Valença, na zona da Trofa, há cerca de vinte anos, em pleno território de monocultura de eucalipto gerido por empresas de celulose. O problema é antigo e é estrutural. Fotos: ©Ricardo Meireles 2006

A escala que falta à fotografia

A reportagem mostra dois talhões. O país tem outra dimensão. Portugal tem perto de oitocentos mil hectares de eucalipto e mais de um milhão de hectares de plantações industriais de espécies de crescimento rápido. As áreas onde o eucalipto não arde de forma explosiva são as parcelas bem geridas e protegidas pelas celuloses, uma minoria do total. A larga maioria, a que alimenta a indústria, é onde se exprimem as características mais combustíveis da espécie, a biomassa que se acumula depressa e o material incandescente que salta a quilómetros de distância e abre novas frentes.

Há ainda um problema de método na própria escolha do caso. Mostrar dois povoamentos que sobreviveram dentro de quatro mil hectares ardidos é seleccionar pelo resultado. Falta a pergunta que daria sentido ao número: quantos talhões de eucalipto, geridos ou não, arderam naquele mesmo incêndio? Sem essa conta, dois sobreviventes são uma anedota fotogénica e não uma prova.

Quem explica o “milagre”

A fonte que explica a resistência daqueles povoamentos é um engenheiro florestal da Navigator, a empresa proprietária dos eucaliptais. O perito que elogia a gestão dos talhões trabalha para a dona dos talhões. A reportagem apresenta-o entre especialistas, sem uma palavra sobre o conflito de interesse evidente. Não é preciso supor má-fé de ninguém para reconhecer o óbvio. Quem tem o ativo a defender não é uma fonte neutra sobre o valor ou risco desse ativo.

O desvio para os quatrocentos mil proprietários

No fim, a peça empurra a culpa. Diz que o problema da floresta portuguesa está nos mais de quatrocentos mil proprietários com parcelas minúsculas, sem escala para oferecerem rentabilidade. Repare o leitor neste movimento. Um problema de água, de solo e de modelo ecológico é convertido num problema de escala empresarial. E a solução implícita nesse diagnóstico é concentrar a terra em explorações grandes e geridas, ou seja, mais do mesmo modelo que produziu a paisagem inflamável e influenciou o clima seco. A pergunta que falta é simples. A floresta serve para dar rentabilidade a um sector que a quer tornar num chão de fábrica, ou serve para segurar água, sombra e comunidades? A reportagem responde à primeira e finge que é a única.

Veredito

O mais difícil de desmontar num texto destes não são as mentiras. São os factos verdadeiros postos ao serviço de uma conclusão falsa.

O facto de base é verdadeiro. Dois povoamentos de eucalipto sobreviveram ao incêndio em Melres, e sobreviveram por terem sido geridos, com terraços, acessos e remoção de combustível. Isso aconteceu e está correctamente descrito.

O título é falso. “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo” generaliza dois talhões geridos para a espécie inteira e afirma quase o contrário do que a ciência e o próprio corpo do artigo dizem. O que resistiu foi a gestão do deserto verde.

A tese geral é descontextualizada. Constrói-se a partir de uma frase verdadeira retirada do seu contexto técnico, ilustra-se com um caso escolhido pelo resultado, sustenta-se numa fonte com interesse directo no assunto, e omite a água, o solo, a estratificação e a escala real do eucaliptal português. Cada peça, isolada, quase se defende. O conjunto conduz o leitor a uma conclusão que os factos não autorizam.

Por tudo isto esta notícia, tendo em conta a disposição dos factos e a falta de independência da fonte é #AreiaParaOsOlhos.


BICO CALADO

Novo Banco tem mil milhões de euros bloqueados da Venezuela. O Novo Banco saiu da Venezuela em 2019, e fechou contas de empresas públicas do país, deixando o dinheiro retido. Invocando suspeita de fraude eleitoral nesse ano, por não saber quem tem legitimidade para o reclamar, o dinheiro continua no banco português. Fonte.



LEITURAS MARGINAIS

ENQUANTO UNS FAZEM TUDO PARA RESGATAR VIDAS , OUTROS PROMOVEM A MORTE*

VÁRIOS EDIFÍCIOS DESABARAM EM MANDALAY, UMA DAS PRINCIPAIS CIDADES DE MYANMAR.

Há cerca de um ano, fui a uma das zonas mais pobres de La Guaira, com o jornalista argentino Sebastian Salgado, entrevistar Pedro Escobar, um jovem venezuelano que sendo emigrante nos Estados Unidos havia sido preso pelo ICE e deportado para um campo de concentração em El Salvador. Pedro Escobar está bem, assim como a sua corajosa mãe que nos contou de lágrimas nos olhos o horror que foi ter um filho sequestrado pelo ICE.

Fizemos essa viagem com a minha amiga Eadra Flores, viúva de Gustavo Rodríguez, um dos históricos revolucionários do Bairro 23 de Enero, bastião do chavismo em Caracas, que durante a minha estadia de meio ano me tratou como um filho. Desde que ocorreram os terramotos tratei de contactar a Eadra sem sucesso, suspeitando que ela estivesse na sua aldeia junto ao mar, La Sabana, no estado de La Guaira. Sem electricidade e sem cobertura móvel, só com muita dificuldade soube que estava tudo bem com ela e com a sua filha. Agora, desesperadamente, calcorreia as listas dos hospitais de Caracas e La Guaira à procura de Orelsy, Ilse e Rousse, os nomes da sua prima, da filha desta e da neta de quatro anos, que estavam em Caraballeda, no edifício Vargas, um dos epicentros do dantesco cenário que se vive em La Guaira.

Dentro de algumas horas, fecha-se o ciclo de 72 horas em que há maior probabilidade de encontrar sobreviventes entre os escombros. As equipas portuguesas de emergência estão, finalmente, na zona para receberem diferentes missões por parte das autoridades locais. A comunidade portuguesa na Venezuela é enorme e está presente em todas as partes, infelizmente também entre as vítimas.

Enquanto uns fazem tudo para resgatar vidas, outros promovem a morte. É o caso de Donald Trump que preferiu fazer ontem um comentário divertido dizendo que os venezuelanos "estão felizes e dançando nas ruasapesar da tragédia, mostrando-se depois mais focado em falar da quantidade de petróleo que extrai do país sul-americano. Simultaneamente a oposição venezuelana procura aproveitar-se da tragédia e criticar as autoridades por terem impedido o acesso generalizado da população a La Guaira.

Durante o dia de ontem, ficou evidente que o voluntarismo é bonito mas é um problema quando não há organização. Milhares de pessoas viajaram de carro e mota para fazer chegar material de resgate e mantimentos a La Guaira e com isso provocaram um engarramento tal que as ambulâncias e escavadoras demoraram horas a chegar aonde era precisas. A partir de agora, as pessoas devem deixar esse apoio em centros preparados para tal em Caracas e só depois de um registo obrigatório e autorização é que pode servir de voluntários em La Guaira. A isto a oposição e alguns jornalistas ocidentais chamam autoritarismo do "regime venezuelano". São os mesmos que nunca disseram uma palavra contra as sanções norte-americanas e europeias que depauperaram a economia e e destruíram o sistema venezuelano de saúde pública, assim como tudo o que diga respeito a emergências médicas e resgate. A melhor prova disso é o facto de os Estados Unidos terem anunciado uma suspensão de parte destas sanções para "facilitar" a entrada de ajuda na Venezuela.

Sim, as consequências das sanções não eram propaganda chavista. Haverá seguramente um tempo para o balanço sobre as falhas e os acertos da resposta do Estado venezuelano e esperemos que seja mais proveitoso do que os balanços inúteis que fazemos, ano após ano, sempre que acontece uma tragédia em Portugal, seja com incêndios, seja com tempestades.

*Título da responsabilidade do Ambiente Ondas3.