O presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto (PS), manifestou a sua indignação em relação àquilo que considera ser um crime ambiental em plena Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal, e anunciou que irá avançar com uma queixa contra os prevaricadores que estão a pôr em causa este ecossistema, com proteção legal desde 2024, e a sobrevivência de espécies únicas, algumas que se encontram em vias de extinção, nomeadamente algumas aves, mamíferos e anfíbios. Em causa está a abertura artificial indevida deste sistema húmido, em plena época de reprodução da maioria das espécies da fauna e flora aqui existente, com especial destaque para as aves, colocando em causa toda uma nova geração de espécies que ali se iriam reproduzir, durante a primavera, como acontece todos os anos. Fonte.
Ambiente Ondas3
Recortes de notícias ambientais e outras que tais, com alguma crítica e reflexão. Sem publicidade e sem patrocínios públicos ou privados. Desde janeiro de 2004.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
AUSTRÁLIA: INCÊNDIO EM REFINARIA DE PETRÓLEO AMEAÇA ABASTECIMENTO
- Um incêndio numa das duas refinarias de petróleo que ainda restam na Austrália durou 13 horas antes de ser extinto, ameaçando o abastecimento de gasolina num país que já enfrenta as consequências da guerra entre os EUA e o Irão. A causa parece ter sido uma avaria no equipamento, provavelmente uma fuga ou um mau funcionamento de uma válvula. Fonte.
- Quando a crise é causada pela dependência do petróleo, a solução não é petróleo mais barato. As táticas utilizadas pelos manifestantes mostram que a nossa vulnerabilidade reside no próprio sistema dos combustíveis fósseis. Durante os bloqueios, os ciclistas desfrutaram das ruas vazias de Dublin e os condutores de veículos elétricos brincaram sobre quem é que agora tinha «ansiedade de autonomia» Fonte.
- A fabricante norte-americana de biocombustíveis Diamond Green Diesel, que exporta diesel “verde” e combustível sustentável de aviação para a Europa, comprou sebo bovino de um fornecedor abastecido por um frigorífico diretamente ligado à criação clandestina de gado na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Rondônia, revela uma reportagem da Repórter Brasil.
- Funcionário de uma fábrica de embalagem de carne é condenado a seis fins de semana de prisão por descarregar contaminantes no rio Floyd, Iowa. Fonte.
- Quem são os grupos a favor dos PFAS que estão a pressionar para enfraquecer as leis que protegeriam a nossa saúde? Fonte.
REFLEXÃO
NAVIGATOR: QUE CONTRAORDENAÇÕES AMBIENTAIS?
Informação sobre contraordenações ambientais foi conseguida através de ataque cibernético à Navigator. Fonte.
As alegadas infrações ambientais da Navigator, revelada por meios ilegítimos, coloca um dilema: o modo como se obtém a informação não pode ser ignorado, mas também não deve desviar o foco do essencial — saber se a empresa, que se proclama transparente e ecológica, age de acordo com esse discurso. Se os dados forem verdadeiros, estamos perante um problema grave de credibilidade. Se forem falsos ou manipulados, o ataque cibernético terá servido apenas para difamar ou eventual extorsão. Importa agora que as autoridades investiguem os factos ambientais de forma legal e célere, e que a Navigator preste os esclarecimentos devidos, sem se escudar apenas na ilicitude da prova.
BICO CALADO
- “Ontem discutia-se se um partido que viola sistematicamente os princípios fundamentais da Constituição deveria ser proibido (obviamente que sim). Hoje, discute-se o perfil do magistrado que esse partido quer indicar para o Tribunal Constitucional. Desloca-se a 'janela' pela qual vemos o mundo, a chamada moldura Overton, e o que antes era impensável, entra na agenda política. A forma mais eficaz de deslocar a 'janela', do que é aceitável estar na agenda política, é usar os jornais, as televisões e as redes sociais. É isso que um grupo de investidores, multimilionários, tem feito, em Portugal e no resto da UE. São financiadores de campanhas de direita e extrema-direita, querem os seus lucros e fortunas a pagar menos impostos e os direitos cívicos reduzidos (a começar pelos direitos laborais). E, para já, não querem que se saiba que financiam políticos corruptos e movimentos de extrema-direita.“ Miguel Szymanski.
- Ciclo de podridão. Rauqel Varela.
- Um deputado palerma. Leia ‘O Conde de Abranhos, seu palerma.
- A deputada mais jovem do Parlamento já mente como gente grande. Uma vergonha!
- O deputado Frazão, à conta de quem paga Impostos, foi passear para a Hungria à beira do Danúbio onde "largou" várias mentiras e loas sobre a Nossa Senhora de Fátima entre o apoio ao Orban e a bela jantarada.
- Graças à guerra de Trump contra o Irão, as grandes petrolíferas estão a arrecadar 30 milhões de dólares por hora em lucros extraordinários. Fonte.
- Numa votação histórica no Senado, mais de 75 % dos democratas votaram a favor do bloqueio da venda de armas a Israel. Fonte.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
EUA: LANÇAMENTO DE BALÕES PROIBIDO EM CELEBRAÇÕES
- Lançar balões em celebrações em New Hampshire pode agora resultar em multas, ao abrigo de uma nova lei estadual que visa reduzir a poluição por plástico e proteger a vida selvagem. A HB 387, que entrou em vigor em janeiro, torna a libertação intencional de 20 ou mais balões uma infração de nível de violação. Quem cometer a infração pela primeira vez enfrenta uma multa de 250 dólares, que aumenta para 500 dólares em caso de infrações subsequentes. Grupos ambientalistas afirmam que a lei é um passo significativo, mesmo que considerem que não vai suficientemente longe. Fonte.
- A Navigator colocou à discussão pública uma atualização do licenciamento ambiental da sua fábriac em Vilha Velha de Ródão, obrigatório por lei. O objetivo fundamental é demonstrar conformidade, atualizar condições de operação e integrar eventuais alterações tecnológicas ou produtivas.
REFLEXÃO
CÂMARA DE SEVER SUSPENDE ATIVIDADE FLORESTAL PARA RALI DE PORTUGAL
A Câmara de Sever do Vouga decidiu mandar suspender, até 7 de maio, todos os trabalhos de extração, corte, arraste e transporte de madeira nos troços Alombada – Alto do Roçario e Braçal – Alto da Serra até 7 de maio (inclusive) devido ao Rali de Portugal. O aviso da Câmara determina ainda a limpeza das bermas e a remoção urgente de todas as pilhas de troncos, ao longo dos percursos. A Unimadeiras, contesta a decisão, alegando que a interrupção da operação de limpeza de matas fragiliza o sistema, num momento de pressão crescente, devido a eventos climáticos e risco de incêndio. Nuno Pinto salienta que “a gestão da floresta é uma atividade económica estruturante” e reclama “maior equilíbrio entre eventos mediáticos e a economia real”. Fonte.
Embora se possam colocar de lado as questões relativas à utilidade pública, aos impactos ambientais, aos custos económicos e aos riscos de segurança que um rali automóvel inevitavelmente acarreta, a decisão desta Câmara revela problemas graves nos domínios legal, económico e da proporcionalidade.
Decisões desta natureza deveriam ser obrigatoriamente precedidas de pareceres vinculativos ou, pelo menos, técnicos da Proteção Civil, da GNR e de especialistas em gestão florestal. Na ausência dessa fundamentação, a deliberação torna-se arbitrária, o que a expõe a impugnação administrativa ou judicial.
Em alternativa a uma suspensão geral e desproporcionada, a Câmara poderia adotar medidas menos restritivas e mais eficazes, designadamente: estabelecer um plano de condicionamento temporário de acessos durante as passagens do rali, coordenar com os proprietários florestais horários específicos para a realização de trabalhos naquelas janelas temporais e exigir aos organizadores seguros de responsabilidade civil que cubram, de forma explícita, eventuais danos causados a pessoas, bens ou ao meio ambiente.
A decisão de suspender as atividades florestais pode, ironicamente, aumentar o risco de incêndio, na medida em que ignora a importância da gestão florestal ativa para a segurança dos territórios.
Os proprietários florestais têm o direito de gerir os seus terrenos dentro da lei. Ao suspender todas as atividades sem a presença de um perigo concreto e iminente, a Câmara pode estar a incorrer numa restrição abusiva ao direito de propriedade e ao livre exercício da atividade económica.
Muitos trabalhadores florestais, pequenos proprietários e empresas do setor dependem da continuidade das operações de gestão — como podas, abate e transporte de biomassa. Uma suspensão abrupta e genérica pode causar perdas económicas significativas, sem que esteja prevista qualquer forma de compensação.
Se esta decisão se mantiver, outros municípios poderão ser tentados a imitá-la para qualquer tipo de evento (romarias, corridas, festas populares), criando instabilidade no setor florestal e desincentivando a gestão ativa e responsável do território.
BICO CALADO
- “Sr. Dr. José Quinaz Garcia Ferreira, se continuar a insultar-me não o bloqueio, porque não é meu hábito, mas faço um post a mostrar aos meus leitores quem é o fascista que no colégio de Almeida era salazarista e no liceu da Guarda, onde fez o 6.º e 7.º ano, ameaçava os colegas de os denunciar à Pide. Compreendo que o 25 de Abril lhe alterou o percurso, acabando médico quem desejava ser o chefe da Pide em Vilar Formoso e ficar perto de casa na Freineda. Tem menos 16 anos do que eu. Não lhe admito faltas de respeito, calúnias e mentiras.” Carlos Esperança.
- "No Ceará, o emparedamento político de Luizianne Lins revela a força opressora dos acordos masculinos de poder. Sua trajetória insurgente foi sabotada pelo “pragmatismo eleitoral”. Como Ariadne, da mitologia grega, é a heroína descartada." Sara Goes e Paola Jochimsen, O labirinto da política devora mulheres fortes – Outras Palavras.
- “Quando o líder «interino» da Síria, Ahmed al-Sharaa, aterrou em Londres a 31 de março, recebeu uma receção muito mais calorosa do que muitos alguma vez pensaram ser possível. Como líder de longa data da filial da Al-Qaeda na Síria, os EUA tinham oferecido uma recompensa de 10 milhões de dólares por informações sobre o seu paradeiro apenas 15 meses antes. No entanto, ali estava Al-Sharaa, a posar orgulhosamente para fotos com o rei Carlos e o primeiro-ministro Keir Starmer. Os serviços secretos britânicos vinham a trabalhar para este dia há quase duas décadas. O caminho para o governo de Al-Sharaa foi aberto pelo MI6 após anos de orientação sob a tutela de Jonathan Powell, que agora desempenha as funções de conselheiro de segurança nacional de Starmer. Chegara a hora de a Grã-Bretanha consagrar formalmente o seu fantoche sírio.” Kit Klarenberg, The Grayzone.
- "Depois de uma repórter de renome da BBC ter suscitado indignação por publicar uma citação em que exigia que o Irão fosse alvo de um ataque nuclear, ficou a saber-se que ela é uma ativista empenhada na mudança de regime, cuja carreira foi lançada por uma rede de propaganda fundada pela CIA. Permanecem sérias questões sobre o processo editorial da BBC." Wyatt Reed, The Grayzone.
- “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.” Padre António Vieira, Sermão do bom ladrão.
- Graças a uma lei promovida por Trump e pelo Partido Republicano, pelo menos 88 grandes empresas norte-americanas pagaram 0 dólares em imposto sobre o rendimento federal no ano passado. As empresas evitaram pagar mais de 26,7 mil milhões de dólares em impostos sobre o rendimento no ano passado, um montante suficiente para proporcionar refeições escolares gratuitas a todas as crianças dos Estados Unidos. Fonte.
- Doadores dos partidos e campanhas passam a ser secretos. Fonte.
- O presidente da Câmara de Mirandela lamentou que o município não tenha sido ouvido sobre a Escola Profissional de Agricultura de Carvalhais passar para a sua alçada, afirmando que não aceita a competência sem o devido financiamento. Fonte.
LEITURAS MARGINAIS
O FASCISMO DO SÉCULO XXI E O ANTICRISTO
Boaventura De Sousa Santos, Brasil 247.
Uma das interpretações mais influentes do fascismo do século XX é a de o fascismo ser uma rebelião contra o secularismo da época moderna, que propunha uma sociedade transcendente tanto no plano prático (o progresso) como no plano teórico (a possibilidade de ultrapassar todos os limites). Essa rebelião fez com que a religião política (a religião como forma de poder temporal) regressasse sob diferentes formas como fator político. Esta interpretação tem sido imensamente debatida e não é meu propósito analisar esse debate. Interessa-me apenas tratar da questão das relações entre fascismo e religião. Falar de fascismo do passado e de fascismo do futuro pode conter a armadilha de pensar que não há fascismo no presente. Também pode levar a pensar que o fascismo é uma entidade monolítica e que, portanto, só há um tipo de fascismo. Usualmente, as definições de fascismo referem-se todas ao fascismo como regime político. Eu, pelo contrário, distingo entre fascismo político e fascismo social: o primeiro ocorre nas relações propriamente políticas e o segundo, nas relações sociais.
O fascismo e a religião no século XX
A relação do fascismo político da primeira metade do século XX com a religião é complexa. O secularismo da sociedade moderna (a separação entre a Igreja e o Estado) nunca foi completo e só operou nas metrópoles, não nas colônias. Como tanto a religião como o Estado laico continuaram a disputar o seu lugar na sociedade, as contradições e disputas entre uma e outro coexistiram com convergências, cumplicidades e utilizações recíprocas. No caso do fascismo italiano, podemos dizer que a sacralização da política (a veneração do Estado fascista, os rituais e os símbolos fascistas) significou a emergência de uma religião política, secular, laica, que passou a existir em paralelo com a religião tradicional (o reconhecimento privilegiado do catolicismo). Em 1932, Mussolini afirmava que, em contraposição com Robespierre, o Estado fascista não tinha uma teologia própria, mas sim uma moralidade própria.
A religião tradicional foi pragmaticamente utilizada para reforçar a sujeição das massas aos desígnios políticos do fascismo. Os conflitos existiram e foram fortes entre a religião laica e o catolicismo no domínio da educação, uma vez que o fascismo não queria abrir mão do monopólio na formação das novas gerações. Mas o objetivo foi sempre o de abolir as fronteiras entre a esfera política e a esfera religiosa. Nada disto era completamente novo.
Desde o século XV tinham surgido movimentos para a criação de religiões cívicas, desde as sociedades secretas (Maçonaria, Illuminati, Opus Dei) ao jacobinismo e ao positivismo. A fé na nação e no nacionalismo era uma forma de combater o socialismo e de conter o catolicismo. O socialismo revolucionário do primeiro Mussolini pretendia ser mais uma crença do que uma ciência. Como ele repetia: “a humanidade precisa de uma crença”. Tratava-se de apelar a uma experiência de fé na religião da Nação. A religião patriótica. Giovanni Gentile defendia que o fascismo tinha um caráter religioso, “na medida em que leva a vida a sério”, e “como movimento surgiu de toda a alma da nação”. Visava criar um Estado ético.
A sacralização da política sempre envolveu a sacralização da guerra, a violência purificadora: o sacrifício máximo do corpo e da alma por uma causa sublime. A morte e a ressurreição aparecem transfiguradas no culto dos mártires e dos heróis. A relação da guerra com o despertar do sentimento religioso é tão evidente em D’Annunzio como em Marinetti. Em Il Fascio, de 1921, escrevia-se: “Somos os depositários de uma geração que, há muito tempo, ultrapassou os limites da sua própria realidade histórica e avança imparável em direção ao futuro... Somos o mais alto dos altos... A Santa Comunhão da guerra moldou-nos a todos com o mesmo espírito de generoso sacrifício”. A crença fascista transcendia o natural apego à vida na terra.
Em 1932, o jornal da juventude fascista afirmava que “um bom fascista é religioso”. E os jovens universitários de Milão criaram, em 1930, uma escola de misticismo fascista à volta do Duce como mito vivo. Um certo sincretismo com o catolicismo era evidente, e os possíveis conflitos de interpretação eram resolvidos pela devoção ao partido. A leva fascista era um ritual de iniciação dos jovens semelhante à “confirmação” na Igreja Católica, por via da qual os jovens eram “consagrados fascistas”. As cerimónias eram realizadas em público em todas as cidades e incluíam, além das cerimónias de consagração, cerimónias de juramento e de veneração das bandeiras e o culto dos mártires mortos. A celebração do nascimento de Roma, o dia de Roma, a romanità, o “espírito latino” foram transformados em modelos arquetípicos da grandeza da pátria e da “civilização de Itália”.
Os diferentes componentes religiosos convergiam na luta contra “a besta triunfante do bolchevismo”. A bênção do gagliardetto, a bandeira das “Esquadras” fascistas, foi inicialmente usada como cerimónia de redenção de uma comunidade que antes fora governada pelos socialistas. Se o fascismo era uma religião, os dissidentes eram “traidores à fé”. A vontade de Deus e a vontade do Estado fundiam-se. Os traidores eram excomungados, banidos da vida pública. Augusto Turati, secretário do partido de 1926 a 1930, pregava à juventude “a necessidade de acreditar cegamente; de acreditar no fascismo, no Duce, na Revolução, tal como se acredita em Deus... aceitamos a Revolução com orgulho, tal como aceitamos estes princípios – mesmo que nos apercebamos de que estão errados, e aceitamo-los sem discussão”. Em suma, o supremo mandamento: “crê, obedece e luta”.
A fé fora convertida em suprema virtude e as sedes do Partido Nacional Fascista eram consideradas os “altares da religião da Pátria”. A rejeição do racionalismo e a adoção do pensamento mítico está bem patente neste passo de um livro fascista: “As massas não conseguem distinguir nuances; precisam de espiritualidade, piedade, princípios religiosos e rituais”. O programa político era bem menos importante que o sistema de crenças, os rituais e os símbolos. Só assim se garantia o apoio massivo, intenso e de longa duração. A sacralização da violência estava relacionada com a estetização da política, como bem notou Walter Benjamin: a política como rutura das restrições civilizacionais. Foi essa rutura que levou Ezra Pound a sentir-se atraído pelo fascismo. A irracionalidade fascista é esteticamente reconfigurada como espontaneidade, intensidade e autenticidade. O extremo anticonformismo em relação ao mundo é o outro lado da obediência cega ao líder fascista. Daí, também, em última instância, a miséria da estetização da violência, sobretudo quando os corpos começaram a ser lançados nos crematórios.
O fascismo gota a gota nas entranhas da democracia
No período pós-1945 proliferaram as análises e interpretações do fenómeno fascista. Uma importante corrente considerava que o fascismo fora uma rutura na continuidade histórica da cultura europeia e alguns concebiam-no como uma patologia social ou como uma imposição por parte de minorias manipuladoras sem uma doutrina ou um pensamento coerente. Ou seja, o fascismo, sendo fruto de manipulação política, não tivera uma base social genuína. Interesses egoístas ou práticas de intimidação tinham criado o corpo dos seguidores do fascismo. A corrente oposta via no fascismo uma continuidade com a belle époque francesa e considerava que o fascismo tinha um sistema de pensamento bem coerente.
Estas interpretações tinham duas características em comum. Por um lado, concebiam o fascismo como um fenómeno do passado e de um passado irreversivelmente superado. Por outro lado, constituíam uma visão externa do fascismo. Não analisavam a vivência interna do fascismo, o modo como foi vivido pelas populações onde ele vigorou como sistema político, como foi passivamente aceite ou entusiasticamente celebrado pelas populações. Muito menos se interessaram por facetas da personalidade ou pulsões psíquicas que fizeram da vida fascista um modo “natural” ou “normal” de viver para as grandes maiorias que ativa ou passivamente viveram sob o fascismo. Como fora possível que Nietzsche ou Heidegger fossem proto-nazis e que a combinação entre teoria da evolução, ciclos civilizacionais e biologia racista conduzisse a fusões entre Charles Darwin e Oswald Spengler?
Mais recentemente, o campo analítico diversificou-se. Surgiram interpretações internas sobre o modo de vida fascista, assentes na ideia de que, se o fascismo pretendia ser religioso e apelava ao irracional ou mítico, as razões pragmáticas do interesse próprio ou da intimidação não eram suficientes para explicar a adesão ao fascismo. Por outro lado, foi dado novo relevo a leituras psicanalíticas anteriormente veiculadas pela Escola de Frankfurt, que concebem o fascismo como uma potencialidade permanente da vida em comum, não fazendo, por isso, sentido falar do fascismo como algo historicamente ultrapassado. Não se trata de teorizar o regresso do fascismo, trata-se antes de teorizar a presença continuada do fascismo sob diferentes formas e potencialidades. Em livro recente, Vladimir Safatle defende eloquentemente esta teoria num livro intitulado A Ameaça Interna: Psicanálise dos Novos Fascismos Globais.
Esta viragem analítica tem uma razão sociopolítica bem evidente: o crescimento global das forças políticas de extrema-direita que advogam o fascismo político e que, quando no poder, procuram efetivamente implantá-lo. Talvez o que caracteriza melhor o tempo presente é o fato de a democracia liberal estar a ser utilizada cada vez mais frequentemente para que antidemocratas fascistas cheguem ao poder. Trata-se de políticos que são eleitos democraticamente, mas que, uma vez eleitos, não exercem o poder democraticamente. É o fascismo gota a gota nas entranhas da democracia. O fato não é novo. Aconteceu com Hitler depois das eleições de 1932. Mas a intensidade com que está a ocorrer faz com que a quantidade se transforme em nova qualidade. A maior intensidade do fascismo político gota a gota alimenta-se do crescimento intersticial de um outro tipo de fascismo, o fascismo social.
Fascismo social é todo o sistema de relações sociais de extrema desigualdade de poder em que a parte mais forte tem o direito de veto sobre as oportunidades de vida e de sobrevivência da parte mais fraca. Consiste em situações em que pessoas ou grupos estão à mercê de poderes unilaterais, sem direitos nem defesa legal, mesmo se viverem formalmente em democracia. É a exclusão social extrema, a exclusão abissal, onde a vida humana é desvalorizada pela lógica do mercado e do poder. Ao contrário do fascismo político, o fascismo social é pluralista. Distingo cinco formas de fascismo social:
fascismo contratual, em que a parte mais fraca não pode deixar de aceitar as condições impostas pela parte mais forte, por mais injustas que sejam, sob pena de não sobreviver;
fascismo de apartheid social, em que as populações excluídas vivem em guetos, zonas urbanas mas não urbanizadas e à mercê de todo o tipo de violência;
fascismo paraestatal, em que a violência do Estado é subcontratada a grupos paramilitares, crime organizado, milícias que exercem impunemente a maior violência sobre as populações;
fascismo financeiro, em que setores poderosos do capital financeiro manipulam o Estado para, através de juros usurários, extrair uma parte significativa dos salários dos trabalhadores e para engendrar crises permanentes que justifiquem o roubo das poupanças das classes médias ou a expropriação de bens dados em garantia de dívidas;
fascismo da insegurança, que consiste na ocorrência de situações de extrema insegurança – acidentes, acontecimentos meteorológicos extremos etc. – para as quais não existem ou não são acessíveis apólices de seguros e em que a intervenção protetora do Estado está ausente.
A intensificação destas diferentes formas de fascismo social deve-se em grande medida ao neoliberalismo como forma dominante do capitalismo global. A intensificação do fascismo gota a gota tem por objetivo criar as condições para uma nova fase de fascismo político. Não há qualquer determinismo nisto. Há apenas um objetivo, e compete aos democratas não permitir que ele se concretize.
O fascismo do século XXI e o Anticristo
O fascismo emergente é mais extremista na sua identidade religiosa do que o fascismo do passado. Tal como este, assenta na sacralização da violência e na santificação das elites, mas alimenta-se de uma visão distópica do futuro que condensa no conceito de Anticristo. Está sobretudo presente nos EUA, mas a sua capacidade de disseminação é enorme. Através da ideia do Anticristo, o neofascismo (ou neonazismo) exacerba a sua identidade cristã e concebe a sociedade presente como uma luta de morte entre o Bem e o Mal, onde não cabem negociações nem cessar-fogos, mas apenas rendição e extermínio de quem perder. A sociedade está em permanente guerra civil e o seu futuro é o apocalipse, se não for salvo por Estados racial e religiosamente supremacistas servidos pelas tecnologias de ponta para o controlo das populações.
No plano religioso, há diferenças significativas entre o fascismo do século XX e o fascismo do século XXI. O fascismo do século XX criou uma religião laica, mas manteve com a religião tradicional uma relação de cooperação-tensão que pressupunha a relativa autonomia desta última. O fascismo do século XXI leva o seu identitarismo cristão ao extremo de procurar absorver a religião tradicional que lhe esteja mais próxima, as correntes evangélicas pentecostais. A fusão entre a esfera política e a esfera religiosa é agora muito mais intensa, se não mesmo total.
O fascismo do século XX tinha na sua base a ideia de uma sociedade futura melhor, e tanto assim que originalmente o socialismo estivera presente tanto nas convicções de Mussolini como nas de Hitler. Ao contrário, o fascismo do século XXI é distópico, apocalíptico e, por isso, o Anticristo não é apenas o comunismo e o socialismo; é também a própria democracia e o tipo de convivência que ela promove, ao conduzir à estagnação do progresso tecnológico, que é a única via de redenção. A política do ódio que sustenta a guerra civil não conhece adversários políticos, apenas conhece inimigos a abater.
Devido ao seu caráter apocalíptico, não admira que o fascismo do século XXI, ao contrário do fascismo do século XX, seja promovido por setores das elites, em geral os mais ricos, os bilionários, de que é exemplo paradigmático Peter Thiel. Enquanto para o fascismo do século XX a democracia era apenas um regime decadente, para o fascismo do século XXI a democracia, tal como os direitos humanos, são a encarnação do Mal. Tal como o é a luta ecológica ou qualquer reivindicação que coloque entraves à acumulação infinita da riqueza e da tecnologia de que ela depende.
A relação entre o fascismo do século XXI e o sionismo merece uma reflexão especial. O fascismo do século XX foi antissemita, entendendo-se por tal uma política racista radical contra o povo judeu, cujo extermínio proclamava e ativamente procurou. O sionismo, entendido como pretensão de criar um Estado judeu, era nessa altura muito minoritário entre os judeus. A sua recetividade era maior entre os judeus russos e da Europa Oriental (países bálticos, Bielorrússia, Ucrânia, Polónia). As organizações sionistas da altura procuraram e tiveram formas de entendimento com o nazismo, nomeadamente no que respeita à deslocação de judeus para a Palestina e à constituição do Estado de Israel (entendimentos que, aliás, tiveram pouco êxito entre o povo judeu).
Logo após a Segunda Guerra Mundial, muitos intelectuais judeus chamaram a atenção para o perigo do sionismo e para as afinidades dos métodos sionistas com os do fascismo e do nazismo. Em 1948, Albert Einstein e Hannah Arendt assinaram a famosa carta ao New York Times, mostrando tais afinidades no caso do partido de Menachem Begin, hoje Likud.
Os sionistas extremistas, atualmente dominantes no governo de Israel, têm em comum com os cristãos evangélicos fundamentalistas a ideia do apocalipse baseada nas mesmas leituras bíblicas, sobretudo do Livro de Daniel (Dan 7-12) e do Apocalipse de João no Novo Testamento. Daí a emergência do sionismo cristão, que tem vindo a fortalecer enormemente o movimento fascista global deste século.
O Anticristo é, como afirma Robert Fuller, uma obsessão norte-americana. A luta contra o Anticristo está hoje personalizada na figura do bilionário Peter Thiel, fundador do PayPal e da Palantir, cuja inteligência artificial foi aparentemente responsável pela morte dos aiatolás iranianos e das 208 crianças, alunas do ensino básico da Escola Shadjareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no Irão.
Peter Thiel, sem qualquer preparação teológica, circula pelo mundo exorcizando, como manifestações do Anticristo conducentes ao apocalipse final, todas aquelas conquistas políticas por que lutámos nos últimos duzentos anos para devolver um pouco de dignidade às classes e aos grupos sociais excluídos pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado: um Estado minimamente redistributivo, por via das políticas sociais (saúde, habitação e educação públicas); a democracia como um sistema de convivência pacífica e um modo de conter os “excessos” do capitalismo; direitos humanos como luta pela dignidade humana em sociedades onde a prosperidade de alguns é obtida à custa da desumanização de muitos; lutas ecológicas para construir um novo metabolismo com a natureza que permita reconstruir os ciclos naturais de regeneração vital. Tudo isto é anátema que impede a salvação que só a tecnologia inteligente da IA pode trazer. As ameaças existenciais não são a mudança climática, a ameaça atómica, a ameaça nuclear ou a ameaça da IA. As ameaças existenciais vêm das resistências ao pleno desenvolvimento desses “progressos”. Tudo isso são manifestações de um anti-Messias, a besta triunfal do fim dos tempos.
A nova terra prometida é o Vale do Silício, teorizada com recurso a Carl Schmitt e, de modo distorcido e perverso, a René Girard (a teoria do bode expiatório e a imitação como o outro lado da rivalidade). O novo Anticristo é toda a acumulação histórica de conhecimento, de organização e de luta que tem vindo a alertar para os riscos existenciais que a humanidade e o planeta Terra correm, se nada for feito para travar a injustiça social, histórica, ambiental, racial e sexual, se a democracia não se souber defender dos antidemocratas, se a vontade imperial se substituir ao direito internacional, se a guerra, o genocídio e a pilhagem de recursos forem os únicos meios de “resolver” conflitos. Para os fascistas do Anticristo, todo este acumulado histórico dos últimos duzentos anos é um campo de manobras de estagnação que impede a única redenção possível, a redenção tecnológica.
O fascismo do Anticristo e o identitarismo extremista, tanto cristão como sionista, em que se funda, não deixam de ser manifestações do pensamento eurocêntrico, o que não nos deve surpreender, já que cada civilização contém a “sua” barbárie. E, bem à maneira europeia, as experiências “laboratoriais” desse fascismo começam fora das metrópoles eurocêntricas, na Ásia Ocidental (Iraque, Palestina, Síria, Irão e Líbano), mas nunca se sabe onde terminam. Afinal, não foi o genocídio dos povos Herero e Namaqua da Namíbia, levado a cabo pelos alemães entre 1904 e 1908, o ensaio para o Holocausto dos judeus na Europa?
quarta-feira, 15 de abril de 2026
IRLANDA DO NORTE: MINISTRO MINIMIZA CONTAMINAÇÃO DE ÁGUAS COSTEIRAS POR ESGOTO NÃO TRATADO
- Os cartazes, que se apresentam como um «aviso público urgente», descrevem o Belfast Lough, em Antrim, Irlanda do Norte, como «altamente contaminado com esgoto não tratado» e alertam as pessoas para não entrarem na água nem permitirem que animais de estimação e crianças entrem na praia. No entanto, Andrew Muir, ministro responsável pelo Departamento de Agricultura, Ambiente e Assuntos Rurais, afirmou não saber quem colocou os cartazes, considerando-os enganadores. Fonte.
- 18% das baleias cinzentas que entram na Baía de São Francisco morrem nesse local, principalmente devido a colisões com embarcações. Devido à crise climática, que está a reduzir as suas presas no Ártico, a população de baleias cinzentas diminuiu mais de 50 % desde 2016. A baía serve como um ponto de paragem de emergência para as baleias famintas que se desviam da sua tradicional rota migratória. As baleias cinzentas têm um perfil discreto quando emergem, o que as torna difíceis de avistar no nevoeiro habitual da Baía de São Francisco. Além disso, o Estreito da Golden Gate funciona também como um gargalo por onde todo o tráfego marítimo e as baleias têm de passar. Fonte.
- Jim Wright concorreu à Comissão Ferroviária do Texas há seis anos como reformista. Mas as suas reformas despertaram a ira de poderosos magnatas do petróleo, que agora tentam destituí-lo. Fonte.
- Na Suécia, áreas de florestas primárias, que nunca foram abatidas ou sofreram pouca intervenção humana, armazenam mais de 70% a mais de carbono por hectare em comparação com florestas regeneradas ou plantadas. Fonte.
- Solidariedade com os presos políticos no Uganda condenados pela sua resistência ao oleoduto de morte. Fonte.
REFLEXÃO
LÓBIS DO SETOR BIOTECNOLÓGICO ESTÃO PRESTES A ARRASTAR AGRICULTORES E CRIADORES PARA UM CAMPO MINADO DE PATENTES
A 18 de maio, o Parlamento Europeu deverá votar uma nova lei que isentaria as plantas alimentares obtidas através de novas técnicas de engenharia genética (NGTs) das regras atuais relativas aos OGM. A desregulamentação das NGTs irá comprometer as normas de segurança alimentar e o direito de escolha dos consumidores, sendo também provável que conduza a uma maior concentração no setor das sementes através do patenteamento de culturas alimentares.
Um artigo do Corporate Europe Observatory e da GMWatch mostra que os grupos de pressão da indústria tentam acalmar as preocupações sobre o impacto das culturas patenteadas com argumentos superficiais e enganosos. Uma sondagem recente revela que a maioria dos cidadãos da UE se opõe às patentes sobre plantas e animais.
Documentos de lóbi obtidos junto da Comissão Europeia revelam que: (1) os grupos de pressão da indústria Euroseeds e CropLife Europe, que representam multinacionais biotecnológicas como a Bayer e a Syngenta, minimizam os problemas associados às patentes e propõem «soluções» inadequadas, e (2) o grupo de pressão agrícola Copa-Cogeca emitiu um forte aviso contra as patentes, mas posteriormente silenciou-se sobre o assunto. Outros grupos agrícolas, como a Deutsche Bauern Verband e a ECVC, continuam a manifestar abertamente as suas objeções às patentes.
BICO CALADO
- “Não se debate com fascistas. Combate-se. O fascismo tem como premissa o irracionalismo, não mobilizam argumentos, interrompem, gritam, mentem, são cães raivosos esmagados pela concorrência, são milícias. Quando podem, matam, quando não podem mentem, e defendem abertamente assassinos e corruptos como Oliveira Salazar. Não se pede a um fascista que seja educado. O problema de Trump não é que ele é buçal e bruto ou mesmo louco. O problema é que manda matar 160 crianças numa escola; o problema de Ventura não é que ele é mal educado, rude, mentiroso e aldrabão, o problema é que ele é um fascista, que defende um regime de violência contra os opositores. Não foi um debate, foi mais uma cena sofrível, como todas as que vemos hoje diariamente nas TVs, com comentadores ao estilo Ventura, agora há vários, não sei os nomes, mas quando entro num café e há uma TV ligada há sempre um/umas que berram e gesticula barbaridades. Porque não pedir bons modos ao genocida Israelita ou doçura a sequestrar e isolar países? Não foi uma aula de história, nem um desmascarar na ignorância de Ventura. Foi apenas mais um dia normal da anormalidade das TVs portuguesas, que resolveram ser espelho das instituições, em vez da sua crítica.” Raquel Varela, Não se debate com fascistas.
- “A Meta tem vindo a argumentar há anos, com aquela mistura de cinismo corporativo e arrogância monopolista, que as suas plataformas são simplesmente espaços neutros nos quais, de vez em quando, acontecem coisas lamentáveis. Mas quando um júri começa a dizer o que a empresa tem negado há demasiado tempo, e quando escritórios de advogados começam a anunciar na Meta, procurando representar vítimas do seu design viciante, a reação da empresa não é rever o seu modelo, assumir a responsabilidade ou corrigir o produto, é simplesmente remover esses anúncios. Nenhuma tentativa de discutir o mérito da questão. Em vez disso, mais uma vez, ignorar o problema.” Enrique Dans, Medium.
- A Itália suspendeu a renovação automática do seu acordo de defesa com Israel. Fonte.
- O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão acusa o YouTube de tentar «suprimir a verdade» ao banir a Explosive Media, a conta responsável por uma série de animações virais ao estilo Lego que ridicularizam a guerra entre os EUA e Israel. Fonte.
LEITURAS MARGINAIS
TODAS AS GUERRAS SÃO GUERRAS DOS BANQUEIROS: O IRÃO E O DESFECHO DOS BANQUEIROS
Ellen Brown, Global Research. Trad. O’Lima.
(…) A tese de que «Todas as Guerras São Guerras dos Banqueiros» foi popularizada por Michael Rivero num documentário de 2013 com esse nome. O seu artigo que acompanha o documentário começa com uma citação de Aristóteles (384-322 a.C.): A forma mais odiada [de ganhar dinheiro], e com maior razão, é a usura, que obtém lucro do próprio dinheiro, e não do seu uso natural. Pois o dinheiro destinava-se a ser usado na troca, mas não a aumentar com juros.
Rivero mostra como os interesses bancários privados têm financiado e lucrado com conflitos de ambos os lados ao longo de séculos — desde a fundação do Banco de Inglaterra em 1694 para financiar as guerras de Guilherme III até às modernas guerras de mudança de regime.
Domínio financeiro em todo o espectro
Outros comentadores referem-se ao relatório do Project for the New American Century intitulado «Rebuilding America’s Defenses» (setembro de 2000), que apelava à criação de forças militares norte-americanas «em todo o espectro» para alcançar a preeminência global. Este postulava a necessidade de um «evento catastrófico e catalisador — como um novo Pearl Harbor» para acelerar a transformação militar que os autores tinham em vista.
Seguiu-se uma entrevista de 2007 no Democracy Now, na qual o general Wesley Clark revelou que, semanas após o 11 de setembro, lhe tinha sido mostrado um memorando confidencial do Pentágono que delineava planos para «eliminar sete países em cinco anos»: Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e, por fim, o Irão. Os primeiros seis foram, desde então, desestabilizados ou sofreram mudanças de regime. O Irão, considerado o prémio supremo para o domínio do Médio Oriente e o controlo do petróleo, continua a ser o último a resistir.
Porquê esses sete, e por que razão era o Irão o prémio supremo? O artigo de Greg Palast de 2013, intitulado «Larry Summers and the Secret ‘End-Game’ Memo», forneceu a lógica financeira que faltava. Em 1999, o mundo abriu-se à negociação não regulamentada de derivados, de modo que obrigações soberanas, fluxos de petróleo, rotas marítimas e apólices de risco de guerra pudessem ser todas dadas em garantia, rehipotecadas (penhoradas várias vezes) e apostadas. O eixo central foi o Acordo sobre Serviços Financeiros da OMC de 1997 (o Quinto Protocolo do GATS), que entrou em vigor em 1999.
Nenhum dos sete países visados aderiu à OMC, nem eram membros do Banco de Pagamentos Internacionais (BPI). Isso deixou-os fora do longo alcance regulatório do «banco central dos bancos centrais», sediado na Suíça. Outros países que foram posteriormente identificados como «Estados párias» também não eram membros do BPI, incluindo a Coreia do Norte, Cuba e o Afeganistão.
Quanto ao Irão, este não é apenas o maior e mais forte dos países islâmicos, mas opera o único regime bancário do mundo totalmente isento de juros (riba-free). Isto contrasta diretamente com o modelo ocidental convencional, que depende dos juros como seu principal mecanismo de receita. «O dinheiro a gerar dinheiro a partir de si mesmo» sustenta o complexo global de derivados, que assenta em dívida com juros, rehipotecada e garantida por colaterais.
A última peça na malha de controlo financeiro foi detalhada no livro de David Rogers Webb de 2024, The Great Taking. A Bolha do Tudo, incluindo o que alguns comentadores estimam ser mais de um quatrilhão de dólares em apostas em derivados, está apenas à espera de um gatilho. Quando rebentar, provocará grandes falências institucionais; e, ao abrigo da maquinaria jurídica documentada por Webb, os intervenientes nos derivados ficarão com tudo.
A crise dos seguros de Ormuz de 2026, desencadeada pela Lloyd’s de Londres, poderá ser esse gatilho. Mais sobre tudo isto abaixo.
A City de Londres e a Lloyd’s transformam o caos numa arma
Há mais de três séculos que a City de Londres — a «Square Mile», o centro financeiro de Londres — tem financiado ambos os lados das guerras e vendido seguros contra a destruição que se seguiria. A Lloyd’s de Londres é o pilar segurador da rede de controlo financeiro da City. Na verdade, não é uma companhia de seguros, mas sim uma entidade corporativa que «opera como um mercado parcialmente mutualizado, no qual múltiplos financiadores, agrupados em sindicatos, se reúnem para distribuir o risco».
A Lloyd’s construiu a sua reputação com base no facto de cumprir sempre o prometido, mas isso tem um custo. Em 1898, formalizou uma prática de longa data ao introduzir a cláusula «Free of Capture and Seizure» (Isento de Captura e Apreensão), retirando os riscos de guerra das apólices padrão para poder cobrar prémios exorbitantes quando eclodisse um conflito. Exerceu essa cláusula em ambas as guerras mundiais e está a exercê-la em 2026.
Após os ataques ao Irão, o Comité Conjunto de Guerra da Lloyd’s expandiu a sua zona de «alto risco» no Médio Oriente. Vários dos seus subscritores emitiram avisos de cancelamento com 72 horas de antecedência, com efeito a partir de 5 de março, e os prémios de risco de guerra para os trânsitos pelo Estreito de Ormuz saltaram de 0,25% para 1–5% do valor do casco. A Lloyd’s salientou que a cobertura continua disponível — ao preço certo. Mas para um petroleiro de 100 milhões de dólares, isso significa um custo adicional de 1–5 milhões de dólares por viagem, um prémio que os proprietários estão compreensivelmente relutantes em pagar.
A faísca do crédito privado
Entretanto, outras nuvens negras pairam sobre o mercado. A analista financeira Stephanie Pomboy alerta que o mercado de crédito privado, avaliado entre 1,5 e 3 biliões de dólares, está paralisado, forçando vendas precipitadas de ativos líquidos; e o mercado de obrigações corporativas com notação BBB, muito maior, no valor de 5 biliões de dólares, está a vacilar. As descidas de notação forçarão vendas em massa, e os fundos de pensões enfrentam um défice de 4 biliões de dólares.
A crise do Ormuz fornece o acelerador perfeito para esta crise de garantias: preços mais elevados do petróleo criam inflação, o que aumenta os rendimentos das obrigações (juros), fazendo desmoronar o valor das garantias e desencadeando chamadas de margem em todo o tabuleiro de jogo dos derivados. As chamadas de margem forçam então os fundos de crédito privado a vendas precipitadas.
Esta é uma das razões pelas quais alguns comentadores apontam a City de Londres como a verdadeira arquiteta do caos no Médio Oriente. A velha máquina de seguros de guerra e a nova máquina de derivados operam em conjunto. Uma cria o prémio do caos; a outra colhe-o através da rehipotecação e da apreensão legal.
Palast e o Memorando «End Game»: Tornar o Mundo Seguro para os Derivados
A garantia contra perdas no transporte marítimo é um tipo de seguro, mas uma armadilha muito maior no mundo dos seguros é o mercado de derivados. Vendidos como uma forma de seguro contra o risco de mercado, os derivados são um jogo de apostas especulativas que extrai rendimentos de todos os principais fluxos económicos.
No seu artigo de 2013, Greg Palast apresentou provas de um memorando secreto de 1997 enviado ao vice-secretário do Tesouro, Larry Summers, por Timothy Geithner (então embaixador dos EUA na OMC, em representação de Summers), descrevendo o «fim do jogo» das negociações sobre serviços financeiros da OMC. Geithner escreveu a Summers: «À medida que entramos na fase final… acredito que seria uma boa ideia contactares os CEOs…»
O memorando enumerava então os números de telefone privados da Goldman Sachs, da Merrill Lynch, do Bank of America, do Citibank e do Chase Manhattan, números que Palast confirmou serem reais.
Qual era o objetivo final? Palast escreveu: O Secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, estava a pressionar fortemente para desregulamentar os bancos. Isso exigia, em primeiro lugar, a revogação da Lei Glass-Steagall para eliminar a barreira entre os bancos comerciais e os bancos de investimento. Era como substituir os cofres dos bancos por roletas. Em segundo lugar, os bancos queriam o direito de jogar um novo jogo de alto risco: «negociação de derivados». … O vice-secretário do Tesouro, Summers (que em breve substituiria Rubin como secretário), bloqueou qualquer tentativa de controlar os derivados. Mas de que adiantava transformar os bancos dos EUA em casinos de derivados se o dinheiro fugisse para países com leis bancárias mais seguras? A resposta concebida pelos Cinco Grandes Bancos: eliminar os controlos sobre os bancos em todos os países do planeta – num único movimento… O jogo dos banqueiros e de Summers consistia em utilizar o Acordo sobre Serviços Financeiros, um aditamento obscuro e benigno aos acordos comerciais internacionais supervisionados pela Organização Mundial do Comércio. … As novas regras do jogo obrigariam todas as nações a abrir os seus mercados ao Citibank, ao JP Morgan e aos seus «produtos» derivados. E todas as 156 nações da OMC teriam de derrubar as suas próprias divisões ao abrigo da Lei Glass-Steagall entre os bancos comerciais de poupança e os bancos de investimento que especulam com derivados.
O Acordo sobre Serviços Financeiros da OMC tornou-se o aríete para a abertura dos mercados globais a este jogo de derivados. Todos os países membros foram obrigados a abrir o seu sistema bancário ou a enfrentar sanções. Em 1999, a parte da Lei Glass-Steagall que separava a banca de investimento da banca de depósitos nos EUA foi revogada, deixando o dinheiro dos depositantes vulnerável ao risco especulativo. Os derivados explodiram então. Títulos soberanos, contratos de petróleo, apólices de seguro de transporte marítimo e prémios de risco de guerra foram todos fragmentados em swaps de incumprimento de crédito, hedges e outros produtos derivados.
Desde então, a negociação de derivados tornou-se um dos negócios mais concentrados e lucrativos do planeta, sendo quase inteiramente controlada por um punhado de megabancos. De acordo com dados do Banco de Pagamentos Internacionais e do Gabinete do Controlador da Moeda, só os cinco maiores bancos dos EUA detêm cerca de 90% de todos os derivados bancários dos EUA, com o JPMorgan, o Citigroup, o Goldman Sachs, o Bank of America e o Morgan Stanley a dominarem o mercado global de balcão. Estas instituições ficam com a maior parte dos lucros dos derivados, especialmente durante períodos de volatilidade, quando o «prémio de caos» dispara.
«The Great Taking» — a armadilha jurídica que concede superprioridade aos derivados em caso de falência
Em «The Great Taking», David Rogers Webb revela a peça final desta malha de controlo financeiro: praticamente todos os títulos são hoje desmaterializados (digitalizados) e agrupados em depositários centrais. Alterações discretas ao Código Comercial Uniforme e às regras equivalentes da UE transformaram os investidores comuns em meros “titulares de direitos”, detentores apenas de um crédito legal contra as suas corretoras.
Quanto aos depositantes bancários, há séculos que são classificados como meros “credores” dos seus bancos. Assim que o dinheiro é depositado, a titularidade legal passa para o banco. O depositante detém apenas um direito contratual (uma responsabilidade à vista) que se classifica como uma posição de credor sem garantia em caso de insolvência.
Em qualquer insolvência, ações, obrigações e depósitos são legalmente garantias para o complexo de derivados — garantias que foram rehipotecadas várias vezes. E quando a garantia dos derivados falha, o castelo de cartas rehipotecado que foi construído sobre ela desmorona-se. As chamadas de margem sucedem-se, a superprioridade é acionada e a Grande Apropriação começa. (…)
O sistema bancário islâmico sem juros do Irão: o obstáculo estrutural
Então, que importância tinha o facto de o Irão e um punhado de outros países se recusarem a aderir a este lucrativo jogo dos banqueiros? O risco era que, quando os depositantes e os acionistas percebessem que, na verdade, não eram donos dos seus fundos, transferissem os seus ativos para essas zonas seguras. Os países que se mantiveram à margem também estavam a salvo do tipo de sanções impostas pelos governos ocidentais (e aplicadas pelos bancos e câmaras de compensação ocidentais) aos ativos do banco central russo após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
À frente deste grupo de resistentes estava o Irão, que, desde a sua Lei de 1983 sobre Operações Bancárias Sem Juros, tem vindo a gerir o único regime bancário totalmente isento de juros (sem riba) do mundo. Os seus bancos utilizam contratos em conformidade com a Sharia — partilha de lucros (musharakah), financiamento com margem de lucro (murabaha) e locação financeira (ijara) — em vez de cobrar ou pagar juros. Este modelo bancário contrasta diretamente com o modelo ocidental convencional, que depende dos juros como principal fonte de receitas e sustenta o complexo global de derivados com dívida garantida e rehipotecada.
O sistema iraniano foi concebido para eliminar a usura e alinhar as finanças com a atividade económica real e a partilha de riscos, em vez da dívida especulativa. Há muito que é considerado estruturalmente incompatível com a arquitetura financeira da City de Londres e de Wall Street, baseada em juros e fortemente dependente de garantias — uma arquitetura que exige o serviço perpétuo da dívida e ativos facilmente rehipotecáveis para alimentar a máquina dos derivados.
Ao rejeitar os juros a nível nacional, o Irão isolou-se a si próprio e aos seus parceiros financeiros da rede de controlo que tornou possível a «Grande Apropriação» global.
O caos no setor dos seguros abrandou, mas o «cisne negro» ainda paira no ar
O Estreito de Ormuz não está totalmente fechado, mas o tráfego continua severamente reduzido devido ao regime de trânsito seletivo e sujeito a autorização imposto pelo Irão. Apenas os navios provenientes de nações «amigas» ou não hostis estão a ser autorizados a passar, após coordenação prévia com as autoridades iranianas. Persistem atrasos significativos, com mais de 1 000 navios à espera ou desviados e mais de 34 000 rotas marítimas redirecionadas nas primeiras quatro semanas de conflito.
A linha de resseguro de 20 mil milhões de dólares do Presidente Trump, anunciada a 6 de março, está agora operacional e foi duplicada para 40 mil milhões de dólares. Outras grandes seguradoras norte-americanas aderiram, enquanto a Lloyd’s of London se envolveu em discussões relacionadas. A linha continua centrada em transportadoras americanas com o apoio do governo dos EUA. Mas os analistas duvidam que venha a reiniciar o tráfego comercial generalizado sem uma proteção de responsabilidade mais ampla e condições mais seguras.
Em suma, o gatilho do «caos dos seguros» abrandou, mas não desapareceu. Os prémios continuam elevados, a incerteza persiste e as pressões sobre as garantias e os derivados descritas por Webb continuam em jogo.
Conclusões e Resoluções
A Crise Financeira Global (CFG) de 2007-08 é hoje amplamente considerada como tendo sido desencadeada pela explosão descontrolada de derivados não regulamentados — especialmente swaps de risco de crédito e obrigações de dívida garantidas — que transformaram as hipotecas de alto risco numa bomba-relógio sistémica. Os danos não se limitaram aos EUA: os países em desenvolvimento também sofreram fortemente.
Hoje, o risco de um colapso é ainda maior do que durante a GFC. O mercado global de derivados OTC atingiu oficialmente um valor nocional de 846 biliões de dólares, mais de sete vezes o tamanho de toda a economia mundial.
Soluções políticas de longo prazo são possíveis. O Congresso poderia restabelecer a Lei Glass-Steagall e impor um imposto sobre transações financeiras. Os governos estaduais poderiam retirar a sua aprovação de partes relevantes do Código Comercial Unificado (UCC) e criar bancos públicos capazes de proteger contra falências bancárias locais. (...)
Mas a necessidade imediata no contexto atual é resolver o conflito com o Irão, e resolvê-lo rapidamente, antes que outro choque de «cisne negro» desencadeie a reação em cadeia dos derivados e ative a Grande Apropriação final à escala global.
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