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domingo, 12 de abril de 2026

FRANÇA ACELERA ELETRIFICAÇÃO DA ECONOMIA

Foto: The Associated Press
  • O governo francês anunciou que iria acelerar a eletrificação da sua economia e eliminar gradualmente a dependência das importações de combustíveis fósseis. «A questão já não se resume apenas ao clima, agora diz respeito ao interesse nacional», afirmou na altura o primeiro-ministro Sébastian Lecornu. O objetivo é reduzir a dependência da França dos combustíveis fósseis de 60% para 40% até 2030. Este objetivo será alcançado principalmente através da eletrificação dos transportes e dos edifícios, bem como da adoção mais generalizada de veículos elétricos e bombas de calor. Fonte.
  • Quanto custa a residência da Shakira em Espanha? (ou como externalizar os custos logísticos e ambientais). Meio milhão de espectadores num estádio temporário para 11 concertos. O modelo das residências musicais não elimina a pegada de carbono das digressões, mas transfere-a para os fãs, que terão de percorrer mais quilómetros e gastar mais dinheiro para assistir aos concertos. Eduardo Robaina, Climática.
  • Ativistas em Minneapolis iniciaram uma greve de fome para exigir o encerramento do Hennepin Energy Recovery Center (HERC), um incinerador de lixo localizado numa comunidade predominantemente negra. Argumentam que a instalação agrava a poluição atmosférica tóxica, contribuindo para as elevadas taxas de asma e outros problemas de saúde na zona. Hennepin reafirmou a sua intenção de encerrar a HERC algures entre 2028 e 2040, mas os ativistas afirmam que não existe um plano concreto, uma votação ou uma data definida, e que este atraso está a causar danos contínuos. A área em torno do HERC apresenta algumas das taxas mais elevadas do estado de visitas às urgências relacionadas com asma. Um estudo de 2022 estimou que a poluição da instalação poderia causar 1 a 2 mortes prematuras por ano. Os ativistas consideram a situação uma forma de racismo ambiental. Fonte.
  • Na Austrália, empresas mineiras apostam nas energias renováveis e no armazenamento em baterias para abandonar o gasóleo. Fonte.
  • O Conselho Dinamarquês do Consumidor THINK Chemicals analisou os ingredientes de pastilhas, pós e detergentes para máquinas de lavar louça domésticas e constatou que alguns contêm substâncias nocivas. Foram encontradas nos produtos substâncias como um suposto desregulador endócrino, fragrâncias desnecessárias e até mesmo um potencial carcinogéneo. Fonte.

REFLEXÃO

A AVALIAÇÃO DA SAÚDE DOS RIOS EM PORTUGAL ESTÁ INCOMPLETA

Foto: Mafalda Gama

Segundo os investigadores, medir a taxa de decomposição da matéria vegetal permite avaliar a integridade funcional dos ecossistemas aquáticos, um aspeto que não é considerado na avaliação oficial, que se baseia quase exclusivamente em indicadores estruturais, como as comunidades aquáticas ou a qualidade da água.

A equipa de investigadores analisou a decomposição de folhas e madeira em 37 ribeiros do continente e da Madeira, e realizou uma revisão de 61 estudos prévios sobre decomposição de detritos vegetais em rios portugueses.

“Mesmo entre ribeiros praticamente intactos, observamos grande variabilidade nas taxas de decomposição”, afirma Verónica Ferreira, coordenadora do estudo. “Só conhecendo as taxas naturais de decomposição é possível identificar desvios que indiquem perturbações, mesmo antes de serem visíveis nas comunidades aquáticas.” O estudo revela, ainda, que fatores como o tipo de detrito vegetal, a presença de macroinvertebrados fragmentadores, a temperatura da água, o regime hidrológico, a estação do ano e a composição química da água influenciam a velocidade de decomposição. Ribeiros permanentes e intermitentes apresentam dinâmicas distintas, refletindo diferenças na disponibilidade de água e na atividade biológica ao longo do ano.

Os autores defendem a padronização dos métodos de medição das taxas de decomposição - incluindo o tipo de detrito a usar, a duração da incubação e o acesso dos invertebrados - como ferramenta robusta para avaliação funcional e comparações entre diferentes ecossistemas.

“Este trabalho estimula a integração de indicadores funcionais na avaliação da saúde dos rios, permitindo uma visão mais completa e realista da condição destes ecossistemas”, concluem os investigadores.

BICO CALADO


  • Spinumviva: Secretismo protector da PGR ao primeiro-ministro nas mãos do Supremo Tribunal Administrativo. Pedro Almeida Vieira, P1.
  • Cotrim de Azevedo, um cata-vento no prime-time. Volksvargas.
  • Caso dos almoços: Miguel Pinto Luz “escapou” à justiça. Pelo menos para já, e que se saiba. Quando era autarca em Cascais, o atual ministro teve 545 refeições “de trabalho” com jornalistas e políticos pagas pela câmara, mas a investigação só foi em Oeiras e a Isaltino Morais. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

MISSÃO ARTEMIS-2 À LUA: UM DELÍRIO PERIGOSO DE CRIANÇAS MIMADAS
Vincent Lucchese, Reporterre. Trad. O’Lima.

O lançamento do foguetão Space Launch System da NASA, para a missão Artemis-2, na noite de 1 para 2 de abril de 2026. 
- © NASA / Joel Kowsky

(…)
O programa Artemis da NASA, que visa construir uma base na Lua com vista à sua exploração económica, encarna na perfeição esse imaginário astrocapitalista, no que há de mais irracional e tóxico. A agência espacial norte-americana acaba de dar um passo fundamental neste programa, com o lançamento bem-sucedido da missão Artemis-2, na noite de 1 para 2 de abril, num clima de entusiasmo generalizado por parte dos media, em grande parte desprovido de espírito crítico. (…)

Conquista e busca pelo poder

Tudo isto para quê? Certamente não é pela ciência. Esta serve, com demasiada frequência, de pretexto e de desculpa para a inutilidade dos voos espaciais tripulados. A maioria das missões científicas de exploração do cosmos pode ser realizada com igual ou melhor eficácia por robôs, a um custo infinitamente menor. Foi precisamente isso que observou um dos investigadores entrevistados pela revista científica Nature em 31 de março, demonstrando o pouco entusiasmo, ou mesmo o desinteresse, de grande parte da comunidade científica pelo programa Artemis.

É importante distinguir bem duas coisas: a exploração espacial e a conquista espacial. A primeira, movida pelo espírito de curiosidade, pela fasciínio pelos mistérios do universo e pelo desejo de compreender melhor o mundo, pode estar repleta das virtudes da ciência, incluindo o lançamento de satélites de observação, hoje cruciais para estudar o clima terrestre, entre outros.

A conquista espacial, por sua vez, responde a uma ambição totalmente diferente. Trata-se de colonizar novos territórios, de despertar os nacionalismos ao hastear bandeiras e de explorar sem limites os recursos minerais dos corpos celestes. É, antes de mais nada, uma corrida pelo poder e pelos símbolos de poder.

Os bilionários Elon Musk e Jeff Bezos, como duas crianças grandes e narcisistas, disputam quem terá o foguetão maior. Proprietários, respetivamente, das empresas espaciais SpaceX e Blue Origin, ambas parceiras da NASA, travam uma corrida para ver quem terá a ilustre honra de pousar o seu módulo na Lua em primeiro lugar. Os Estados Unidos, de forma mais geral, estão obcecados com a ideia de regressar à Lua antes da China.

A grave patologia que afeta estes líderes mundiais de primeira linha deve ser interpretada literalmente. O lançador espacial Starship, de Musk, foi inicialmente batizado de «Big Fucking Rocket» (a «Porra de um foguetão enorme»). A desmesura, a vontade de poder e de conquista ultrapassam, no entanto, os seus casos pessoais: são o síndrome sistémico do capitalismo, da sua arrogância que encontra no espaço o seu local de expressão ideal.

Alimentar a negação da realidade

Nesse sentido, o aspeto mais importante da conquista espacial não é o que ela realmente consegue realizar, mas o que ela conta. A sua narrativa, a sua visão do mundo, ainda amplamente dominante, tornaram-se indispensáveis para justificar o comportamento irresponsável da classe capitalista.

Todos compreenderam bem que um crescimento infinito num planeta finito é impossível. A ciência mostra que estamos a tornar a Terra inabitável, já ultrapassamos a maioria dos limites planetários, a situação só piora e pode mesmo chegar a um ponto de ruptura muito rapidamente. Mas, uma vez que a necessidade de acumulação crescente de capital é inegociável para o sistema, ouvir a ciência não é uma opção.

É melhor continuar como antes e alimentar a negação da realidade. Começamos então a fabular: a sonhar com mundos infinitos, com a colonização espacial. Exploramos excessivamente a Terra, mas isso não é assim tão grave, prometem-nos muitos planetas de substituição! A aldeia lunar permitirá, dizem-nos, explorar metais raros na Terra, recolher hélio-3, combustível dos futuros reatores de fusão nuclear, outra fantasia capitalista de fonte de energia infinita.

https://geeksofdoom.com/GoD/img/2014/05/interstellar-christopher-nolan.jpg

Mas a Lua é apenas uma etapa. Deve preparar a conquista de Marte, a obsessão de Elon Musk. Este último chegou mesmo a confidenciar, em fevereiro, o seu desejo de ver a humanidade «tornar-se uma civilização de tipo II na escala de Kardashev», ou seja, ser capaz de captar toda a energia da sua estrela. O seu rival, Jeff Bezos, promete, por seu lado, um futuro radiante feito de cidades-nave cilíndricas (para simular a gravidade), cada uma contendo milhares de milhões de seres humanos, prontos para se espalharem pelo espaço. Estes «cilindros de O’Neill» são um clássico da ficção científica, desde os romances de Arthur C. Clarke até ao filme Interstellar, de Christopher Nolan.

É claro que se trata de projetos totalmente irrealistas. Essas fantasias demiúrgicas de adolescentes tirânicos seriam risíveis se não estivessem a guiar o mundo. E se os defensores tecno-idolátricos destas visões do mundo não usassem de uma retórica falaciosa para silenciar as críticas: recusar estas fantasias de ópera espacial seria ser reacionário, ser anticientífico, querer regressar à Idade da Pedra e negar as potencialidades emancipadoras do génio humano.

Voltar à Terra

No entanto, é precisamente o contrário. A verdadeira lição que a astronomia nos ensina é que a Terra é insubstituível para a humanidade. Para quem realmente dá ouvidos à ciência, é claro que a prioridade absoluta deveria ser concentrarmo-nos no nosso planeta e na degradação cataclísmica da biosfera que estamos a provocar.

Longe de ser uma ambição reduzida, isso pressupõe, pelo contrário, mobilizar tesouros de engenho humano. O que há de mais complexo e fascinante do que tentar compreender a vida de milhões de organismos do solo e integrá-los num projeto titânico de revolução agroecológica mundial? Que aventura científica mais emocionante do que decifrar o canto das baleias e os poderes secretos das árvores? Que desafio para a imaginação mais ambicioso do que descobrir como desmantelar todas as multinacionais petrolíferas sem provocar uma crise financeira global?

Estas grandes questões têm apenas um defeito: não favorecem nem geram qualquer aumento dos lucros do capital. No entanto, são elas, e não as aventuras adulteradas pela propaganda astrocapitalista, que mereceriam ainda o rótulo de «progresso».

É mais do que urgente travar esta guerra dos imaginários, para que se dedique mais energia e atenção mediática a estes temas do que ao passeio cósmico de quatro astronautas. Se isso vier a acontecer um dia, talvez a humanidade tenha começado a tornar-se adulta e a aceitar a sua finitude, condição paradoxal da sua sobrevivência.

sábado, 11 de abril de 2026

ÁGUA CONTAMINADA E FALTA DE HIGIENE MATAM QUASE TRÊS MIL EM SEIS ANOS

  • 2850 mortes foram registadas em Portugal associadas a problemas de qualidade da água, saneamento deficiente e condições de higiene degradadas entre 2019 e 2024, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE). A evolução recente revela um crescimento acelerado e consistente nos últimos três anos, sem que seja conhecida qualquer explicação pública estruturada por parte das autoridades. Os dados do INE permitem ainda identificar um forte impacto nos grupos etários mais vulneráveis. Em 2024, das 602 mortes registadas, 343 ocorreram em pessoas com mais de 85 anos, enquanto 158 diziam respeito a indivíduos entre os 75 e os 84 anos. Ainda assim, registaram-se 101 mortes em pessoas com menos de 75 anos, observando-se um agravamento a partir dos 55 anos, o que evidencia que este fenómeno não se limita exclusivamente à população mais idosa. Fonte.
  • A Câmara de Anadia emitiu parecer desfavorável ao pedido da Simões Sá Pereira, S.A. para a atribuição de uma área destinada à prospeção e pesquisa de depósitos minerais, nomeadamente caulinos, areias siliciosas e outras argilas especiais no lugar 'Barro do Moleiro’, abrangendo as freguesias de Avelãs de Cima, Moita e a União de Freguesias de Arcos e Mogofores. Fonte.
  • Milei apresentou, e o parlamento aprovou, um projeto de lei que permite a exploração mineira em áreas ecologicamente sensíveis, como glaciares e permafrost. Fonte.
  • Análises exclusivas revelam níveis de urânio preocupantes para a saúde nas proximidades das instalações de extração de urânio da Orano no Cazaquistão. A filial local da multinacional foi condenada por infrações ambientais. Fonte.

REFLEXÃO

VOLTA, ELES FATURAM MAIS


O Lidl lançou o programa «Volta», que promete devolver dinheiro ao consumidor por cada embalagem comprada e depositada nas suas lojas. À primeira vista, parece uma iniciativa amiga do consumidor e do ambiente: incentivar a reciclagem com um pequeno reembolso. Mas, olhando com mais atenção, há muito mais truque do que virtude.

Primeiro: o greenwashing. Em vez de reduzir as embalagens descartáveis, filmes multicamada difíceis de reciclar ou os produtos de utilização única, a loja empurra a responsabilidade para o consumidor. É o velho truque: recicla tu, que eu continuo a produzir lixo. A pegada ambiental mantém-se, mas a imagem da marca fica mais verde.

Segundo: um programa feito à medida da própria loja. O «Volta» não é um sistema universal: só aceita embalagens vendidas no Lidl ou de marcas parceiras. Ou seja, exclui grande parte do que realmente consumimos. O logótipo do programa serve mais para filtrar do que para incluir. O Ambiente agradece pouco; a fidelização à marca agradece muito.

Terceiro: a devolução é uma fidelização forçada. A loja admite acrescentar dez cêntimos ao preço do produto para depois os ‘devolver’ — não em dinheiro, mas num vale de compras, utilizável apenas através de uma aplicação exclusiva. É menos incentivo ambiental e mais mecanismo de retenção de clientes.

Quarto: processo pouco prático e muito frustrante. Guardar embalagens sujas, transportá-las até à loja, lidar com máquinas que recusam embalagens ligeiramente amassadas ou com códigos de barras ligeiramente danificados, para no fim receber dez cêntimos por unidade — mais parece penitência do que incentivo. E quando a máquina avaria, o que não é raro, o stresse e o tempo perdido em filas é um custo real que ninguém devolve.

Quinto: o paradoxo logístico. Deslocar-se de carro para depositar meia dúzia de embalagens pode gerar mais emissões de CO₂ do que a recolha porta-a-porta pelos sistemas municipais. Ao criar um sistema paralelo, o «Volta» arrisca prejudicar a adesão aos circuitos públicos, sem trazer ganhos ambientais líquidos.

Sexto: a desigualdade social. Consumidores com menor poder de compra sentir-se-ão pressionados a acumular embalagens para obter pequenos reembolsos, enquanto os de maiores rendimentos poderão ignorar o programa. E quem vive longe de um Lidl fica automaticamente excluído. Não é um sistema para todos, é um sistema para quem já está dentro.

O ecoponto de rua — esse herói anónimo da reciclagem portuguesa — continua a ser mais eficiente, mais inclusivo e com menor pegada carbónica. Pode não dar vales de desconto, mas pelo menos não exige carregar lixo no porta-bagagens. Faz apenas aquilo que deve: recolher para reciclar. Por isso, continuo fiel a ele. Pode não ser bonito nem moderno, mas funciona — e não precisa de marketing para provar isso.

BICO CALADO

Foto: Martin Lelievre/AFP/Getty Images
  • Carlos Monteiro, atual presidente da junta de freguesia da Guarda, eleito pelo PSD, está na calha para ser nomeado pelo Governo como diretor da Segurança Social naquele distrito. A esperada nomeação está a provocar indignação dentro da própria estrutura porque Carlos Chaves Monteiro exerceu funções como advogado enquanto recebia o subsídio de desemprego total, como provam documentos enviados a entidades públicas. Como a inscrição na Ordem dos Advogados estava suspensa, o ato pode ser procuradoria ilícita. Fonte.
  • Deputados do Chega pediram ajudas de custo por reunião em dia sem trabalhos no Parlamento. Aguiar-Branco recusou pedido porque a bancada do partido de André Ventura não pediu autorização para se reunir num dia em que decorriam as jornadas parlamentares do PSD. Fonte.
  • Quem reza pelas chefias intermédias? Entre as ordens de cima, a pressão das metas a impor aos de baixo e as queixas dos clientes, o chefe intermédio é esmagado e ainda sai com as culpas. Catarina Teixeira, Substack.
  • Rutte, o agente funerário da NATO. Fonte.
  • Nos EUA, os 1% mais ricos receberão 117 mil milhões de dólares em reduções fiscais este ano, enquanto os 95% mais pobres pagarão mais. Fonte.
  • O grande doador do Partido Republicano, Leonard Leo, financia um site que partiu para a guerra contra os Somalis. O Maine Wire apresenta-se como um novato corajoso que luta pelos cidadãos comuns do Maine, mas é financiado por poderosos financiadores da direita. Fonte.
  • Visões gerais sobre IA e a erosão silenciosa da credibilidade do Google. Enrique Dans, Medium.
  • O presidente da FCC nomeado por Trump, Brendan Carr, ameaça retirar as licenças de transmissão a órgãos de comunicação que classifica como «notícias falsas». A mensagem da FCC não tem precedentes na história dos EUA: noticiem o que aprovamos ou perderão a vossa licença. Os esforços de Carr para fazer cumprir a lei baseiam-se num flagrante duplo padrão: os programas de rádio de direita podem transmitir com total proteção, sem ameaças e imunes ao escrutínio da FCC, enquanto qualquer notícia ou programa de entretenimento que desagrade à Casa Branca, especialmente a cobertura negativa da guerra no Irão, é alvo de repressão. Fonte.
  • Israel bombardeou o Líbano 100 vezes em 10 minutos. Menos de um dia após o acordo de cessar-fogo com o Irão, Israel matou pelo menos 303 pessoas. Hoje, Netanyahu afirmou que iria iniciar negociações de paz com o Líbano, embora já tenha dito isso anteriormente. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A TUA PRIVACIDADE POR UM DOCE
Ana Ordaz, Democráter. Trad. O’Lima.


Este fim de semana, a minha vizinha, que é encantadora, voltou a animar-me para me juntar a uma sessão de corrida em grupo no parque. Apesar de ter as minhas reservas, sacudi os lençóis e a preguiça e preparei-me para o plano: calças de treino, ténis, café com creatina, protetor solar, e cá vamos. «Vá lá, alinho! [emoji bíceps emoji carinha sorridente]», respondi-lhe com a minha melhor atitude motivada. Sábado de manhã, exercício ao ar livre, conviver um pouco e terminar com um doce na pastelaria do bairro. O que poderia correr mal? Bem, muitas coisas.

Acontece que há pouco mais de um mês «uns rapazes» criaram um grupo de corrida na zona. Desde então, todos os fins de semana organizam encontros «gratuitos» para dar uma corridinha pelo parque, tudo num ambiente muito amigável e nada competitivo; além disso, no final, um café nas proximidades oferece 15% de desconto ou oferece um biscoito aos participantes. Pensei: «Que bom, finalmente uma iniciativa para criar espírito de bairro e, de passagem, apoiar o comércio local». Como eu estava enganada.

A primeira, na frente

O primeiro sinal de alerta surgiu rapidamente. Para participar na atividade, não bastava aparecer no local e à hora marcados; não: era preciso inscrever-se através de uma aplicação de fitness, a Strava. Eu desconhecia-a, tal como desconhecia a história, absolutamente surreal mas real, de que, neste mesmo mês de março, o jornal francês Le Monde localizou a posição exata do porta-aviões Charles de Gaulle —destacado no Mediterrâneo Oriental no contexto da guerra entre Israel, os Estados Unidos e o Irão— porque um dos oficiais a bordo se dedicou a correr pelo navio almirante da Marinha Francesa enquanto partilhava o seu treino na aplicação de corrida.

Publicação anonimizada que mostra a rota registada no mar, em 13 de março de 2026 | Le Monde.

Este primeiro passo deixou-me furiosa e pareceu-me igualmente absurdo. Estou absolutamente farta de que qualquer trâmite tenha de passar por uma aplicação; de que cada atividade, por mais simples que seja, implique um toque no smartphone. Como é que, para ir correr meia hora, tenho de me registar numa aplicação e fornecer uma infinidade de dados pessoais a uma empresa privada? No entanto, já tinha dito que sim à minha vizinha, por isso decidi não dar muita importância ao assunto e simplesmente ignorar o registo e aparecer lá à hora combinada.

Nada é de graça

Encontrei ela e os restantes corredores, agrupados em rodas que se cumprimentavam e conversavam animadamente. Após alguns minutos de cortesias, subidos a um banco a servir de púlpito, os organizadores do «clube» tomaram a palavra. E aí surgiu o segundo sinal de alerta, muito maior do que o anterior: «Passamos agora a palavra ao Fulano, da [inserir aqui o nome de uma empresa de bebidas e alimentos], que, após o treino, nos oferecerá uma degustação de [colocação de produto aqui]».

Já te enganaram. Levantas-te para ir fazer desporto e, de repente, dás por ti no meio de um anúncio de televenda do qual não consegues mudar de canal. Foi aí que percebi que aquilo não era a iniciativa de bairro que me tinham apresentado, um grupo informal de pessoas que combina pelo WhatsApp para ir correr, mas sim um projeto planeado desde o início, rentável e até com patrocinadores. O meu nível de irritação a esta hora da manhã já era elevado. Mas ainda iria piorar.

O produto és tu

Enquanto ouvia de soslaio o Fulano a soltar o seu discurso promocional e algo sobre a importância de cuidar de si, olhei à minha volta e surgiu o terceiro sinal de alerta, mais ou menos do tamanho da Plaza de Colón. Na verdade, era tão óbvio que nem sequer conta como sinal de alerta, mas sim como «amiga-alerta». Entre leggings e camisolas de cores fluorescentes estava a única pessoa que não estava vestida de desporto, uma rapariga com estabilizador de imagem e telemóvel na mão, a gravar tudo para posterior publicação nas redes sociais.

É difícil explicar o nível de indignação que senti naquele momento, a sensação de vulnerabilidade, a cara de idiota com que fiquei. Estamos fartas de ouvir isso e até de repetir, mas continuamos a cair nessa: se o produto é de graça, o produto és tu.

Afastei-me instintivamente e disse-lhe para não me filmar. Mas ainda havia uma última surpresa. À espera em frente ao pelotão, a filmar em plano fixo o início da corrida, o Fulanito. Ou seja, não é só que estes «eventos gratuitos» tenham patrocinadores e até dinheiro para pagar a uma pessoa exclusivamente para as redes sociais, é que o patrocinador também fica com algumas imagens de arquivo.

Tudo é monetizável

Chegados a este ponto, convém recordar que, em Espanha, de acordo com a Lei Orgânica de Proteção de Dados, é permitido gravar sem pedir autorização individual em eventos públicos e quando as imagens são de caráter geral (como, por exemplo, uma corrida popular ou um comício). Mas isso não faz com que me sinta menos incomodada. De boa, e em menos de cinco minutos, acabaste por ver um anúncio que não querias ver; uma organização captou a tua imagem e vai usá-la para se promover na Internet.

No entanto, o que mais me alarmou neste episódio foi que, quando identifiquei a câmara e saí do seu campo de visão, fui a única a fazê-lo. O resto do grupo parecia não se aperceber, ou não se importava, alguns até acenavam. Em que momento normalizámos tudo isto? Quando é que nos habituámos à presença de câmaras nos momentos e locais mais insuspeitos? Como é que chegámos a aceitar que as empresas nos gravem para promover a sua atividade? Por que é que tudo, até o lazer ou a atividade mais inocente, é suscetível de ser monetizado?

A M. tinha razão

Tenho uma amiga, a M., que tem uma obsessão por certos assuntos. Um deles é a privacidade e os cookies — não aqueles que davam na pastelaria do bairro depois da corrida, mas sim os que rastreiam o nosso comportamento na Internet e partilham os nossos dados com terceiros. Antes, às vezes achava que a M. exagerava um pouco ou que, afinal, não fazia diferença.

Mas os anos passam e o tempo mostrou-me que talvez a minha amiga não fosse de todo exagerada, que sim, que a M. tinha razão. Por isso, cada vez mais, dou por mim a clicar em todas as abas de «recusar cookies», a desinstalar aplicações e a deixar apenas aquelas de que não tenho outra escolha, não escrevendo uma crítica a um restaurante que adorei, ou marcando a caixa de «não aceito» na autorização de uso de imagens que me apresentam na academia de línguas, no ginásio e até na escola de condução. Nem sempre é confortável, porque ninguém gosta de ser o Grinch, mas às vezes é preciso ser um pouco o Grinch.

Assim, o encontro de corrida social acabou logo no início: saí do pelotão e corri sozinha enquanto refletia sobre tudo isto. Não ganhei nenhum doce de recompensa, mas consegui proteger a minha privacidade.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

EUA: FORTALEZA YELLOWSTONE

O rio Yellowstone atravessa Paradise Valley, no Montana, onde uma avalanche de riqueza está a afastar quem não é rico. 
Foto: WILLIAM CAMPBELL/CORBIS VIA GETTY IMAGES
  • Sete dos dez maiores proprietários de terras de Park e Sweet Grass, em Montana — que abrigam alguns dos habitats de vida selvagem mais famosos do Grande Ecossistema de Yellowstone — são investidores e industriais extremamente ricos que acumularam as suas fortunas através de indústrias que estão a destruir ativamente ecossistemas noutros locais. A família MacMillan, proprietária maioritária da Cargill Inc. e do rancho Wild Eagle Mountain, com 44 000 acres, nas Crazy Mountains, ilustra este padrão de forma mais evidente: A inauguração pela Cargill, em 2003, de um terminal de exportação de soja em Santarém, no Brasil, desencadeou uma explosão do cultivo industrial de soja no Planalto Santarém que, desde 2000, arrasou mais de 660 milhas quadradas de cobertura florestal amazónica, envenenou cursos de água e deslocou os Mundurukú e outras comunidades indígenas que geriam a terra de forma sustentável há várias gerações. Fonte.
  • Ação judicial acusa a ExxonMobil e a Empire Petroleum de fraude contabilística no valor de 200 milhões de dólares no Novo México. Alega-se que as subsidiárias da ExxonMobil e da Empire Petroleum subvalorizaram fraudulentamente as suas obrigações de limpeza em cerca de 33 vezes o seu custo real ao transferirem várias centenas de poços de petróleo obsoletos em 2021, deixando o estado potencialmente responsável por quase 200 milhões de dólares em custos de remediação. O Novo México já deverá enfrentar custos totais de limpeza entre 700 milhões e 1,6 mil milhões de dólares se as suas regras de garantia e transferência não forem revistas, de acordo com um relatório da comissão de finanças da legislatura estadual. Fonte.
  • Uma mancha de óleo proveniente de um navio iraniano avariado ameaça contaminar uma das zonas húmidas mais importantes do Médio Oriente, segundo sugere a análise de imagens de satélite, tornando-se assim mais um dos vários derrames que representam um risco para os meios de subsistência das comunidades costeiras do Golfo. O Shahid Bagheri, um navio transportador de drones, começou a derramar óleo combustível pesado em águas territoriais iranianas perto do estreito de Ormuz, depois de ter sido atingido por um avião de guerra norte-americano nos primeiros dias do ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

OS MEDIA SÃO MAUS, MAS TAMBÉM SÃO MUITO BURROS
Caitlin Johnstone, Substack. Trad. O’Lima.


O New York Times publicou um artigo intitulado «Uma Organização do Tratado da América do Norte sem a América?», aparentemente tendo passado toda a guerra na Ucrânia sem ter a menor noção de que NATO significa Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Ao mesmo tempo, a CNN exibiu uma reportagem sobre um piloto americano cujo bombardeiro foi abatido sobre o Irão, na qual a analista Amy McGrath sugeriu que os iranianos poderiam ajudar o piloto porque estão «felizes» por ele estar a bombardear o seu país, dizendo que o piloto estaria preocupado porque não sabe «se vai ser capturado por alguém que o vai entregar às forças iranianas, que vão usá-lo e capturá-lo, ou se a população está feliz por ele estar lá?»

Isto ilustra mesmo como o jornalismo ocidental está lixado, não é?


Quero dizer, o que se vê aqui é mesmo um raciocínio de criança. Aquela manchete do New York Times passou por várias etapas de revisão antes da publicação sem que a ninguém sequer ocorresse fazer uma pesquisa rápida no Google para descobrir se o «A» da NATO significa realmente «Americano» e, se sim, por que razão há tantos países europeus na aliança? Aquela analista da CNN tem realmente uma visão de mundo tão infantil e de desenhos animados sobre as guerras americanas que pensa que as pessoas que estão a ser bombardeadas por pilotos americanos vão querer abraçá-los, beijá-los e dar-lhes presentes quando eles se ejetarem de emergência em território inimigo. É incrível que qualquer uma das pessoas envolvidas em qualquer um destes incidentes esteja a trabalhar na comunicação social.

Se alguma vez se perguntaram por que razão tantos americanos são tão ignorantes sobre o que se passa no mundo, é porque, há várias gerações, têm sido este tipo de pessoas a informá-los sobre os acontecimentos mundiais. São estes os media responsáveis por formar uma população informada. E as suas reportagens são partilhadas com todo o mundo ocidental.

Critico constantemente a imprensa ocidental pelo seu papel na propaganda dirigida ao público, com o objetivo de fabricar consentimento para guerras malignas e normalizar um status quo político abusivo. Nunca é demais desprezar estes manipuladores pelo seu papel na disfunção do mundo atual. Mas estes dois incidentes destacam o facto de que as pessoas que dirigem a imprensa ocidental não são apenas más — são também muito, muito estúpidas.