- A associação ambiental +Pinhal acusou a Câmara de Ovar e a Junta de Cortegaça de prestarem esclarecimentos incorretos sobre o abate de árvores no Parque do Buçaquinho. O abate é injustificado porque a área (talhões 4 e 5 do Perímetro Florestal das Dunas de São Jacinto) devia ter regressado automaticamente ao Perímetro Florestal das Dunas de Ovar ao abrigo do Decreto n.º 18/2001, dado que não foi utilizada para equipamentos desportivos no prazo de 3 anos. Um plano de requalificação que implica “abate massivo” de árvores é “à partida, um mau plano” e destrói o património natural em vez de o valorizar. As autarquias defendem que o projeto de requalificação preserva a história e memórias do local, mas a associação ambiental contesta a versão oficial e critica a falta de transparência. Fonte.
Ambiente Ondas3
Recortes de notícias ambientais e outras que tais, com alguma crítica e reflexão. Sem publicidade e sem patrocínios públicos ou privados. Desde janeiro de 2004.
sábado, 16 de maio de 2026
OVAR: AUTARQUIAS ACUSADAS DE PRESTAREM INFORMAÇÃO INCORRETA SOBRE ABATE DE ÁRVORES
REFLEXÃO
O SILÊNCIO CÚMPLICE PERANTE O ABATE DAS ÁRVORES EM OVAR
Fernando Almeida, Ovar News.
O recente abate de árvores no Parque de Merendas do Buçaquinho não pode ser tratado como uma simples operação de manutenção florestal. O que aconteceu naquele espaço representa mais um episódio de uma política ambiental marcada pela falta de transparência, pela ausência de escrutínio público e por uma inquietante banalização do corte de árvores em zonas de elevado valor ecológico e social no concelho de Ovar.
O Buçaquinho é muito mais do que um parque de lazer. É um dos poucos espaços naturais onde ainda se consegue encontrar equilíbrio entre floresta, biodiversidade e usufruto público. Durante anos foi apresentado pela própria autarquia como símbolo da valorização ambiental do concelho. Porém, quando chega o momento de justificar o desaparecimento de dezenas de árvores, instala-se o silêncio, surgem explicações vagas e os cidadãos são tratados como meros espectadores de decisões já tomadas.
A Câmara Municipal de Ovar tem obrigação de explicar, com detalhe e frontalidade, quem autorizou os abates, quais os critérios técnicos utilizados, quantas árvores foram efetivamente cortadas e que estudos sustentaram essas decisões. Mais do que isso, deve explicar porque razão a população só toma consciência da dimensão das intervenções quando os troncos já estão no chão.
Mas também o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) não pode continuar refugiado numa postura tecnocrática e distante, como se a gestão florestal pudesse ser feita apenas em gabinetes e mapas administrativos, ignorando a realidade local e a sensibilidade das populações. O ICNF existe para proteger património natural, não para se limitar a validar operações que, aos olhos de muitos cidadãos, parecem cada vez mais agressivas e desproporcionadas.
Nos últimos anos, o que se tem verificado em várias zonas florestais de Ovar é um padrão preocupante de cortes sucessivos que transformam profundamente a paisagem. Áreas densamente arborizadas dão lugar a clareiras extensas, alterando ecossistemas, destruindo habitats e empobrecendo visualmente territórios que demoraram décadas a consolidar-se.
E sempre com o mesmo discurso repetido até à exaustão: “gestão florestal”, “limpeza”, “segurança”, “prevenção”. Conceitos importantes, sem dúvida, mas que não podem servir de argumento automático para justificar qualquer intervenção sem debate público, sem transparência e sem verdadeira avaliação ambiental independente.
Porque importa dizer aquilo que muitos pensam, existe hoje uma crescente sensação de que se corta primeiro e se explica depois, quando se explica… E isso mina a confiança das populações nas instituições que deveriam proteger o património natural coletivo.
Mais grave ainda é a aparente ausência de uma estratégia coerente de reflorestação e recuperação ambiental. Cortar árvores maduras e anunciar posteriormente pequenas ações simbólicas de plantação não resolve o problema. Uma árvore centenária não é substituída por meia dúzia de mudas fotografadas para redes sociais ou cerimónias institucionais. O valor ecológico perdido leva décadas a recuperar, quando recupera.
Num contexto de alterações climáticas, aumento das temperaturas, erosão costeira, perda de biodiversidade e crescente vulnerabilidade ambiental, assistir ao desaparecimento sistemático de árvores adultas deveria preocupar seriamente qualquer entidade pública responsável. As árvores não são obstáculos administrativos nem meros elementos decorativos da paisagem. São infraestrutura ambiental essencial. Produzem oxigénio, regulam temperaturas, fixam carbono, protegem solos e contribuem diretamente para a qualidade de vida das populações.
Por isso, torna-se incompreensível que tanto a autarquia como o ICNF continuem a comunicar estas intervenções quase sempre numa lógica defensiva e minimalista, como se o incómodo estivesse na reação das pessoas e não na dimensão dos cortes realizados.
A população de Ovar merece respeito. Merece informação prévia, acesso aos pareceres técnicos, identificação clara das árvores em risco, planos de reflorestação concretos e fiscalização independente. Merece participar nas decisões sobre espaços naturais que pertencem à comunidade e não apenas assistir ao desaparecimento gradual da sua floresta.
Existe uma diferença enorme entre gerir a floresta e desfigurá-la e, infelizmente, essa fronteira parece estar cada vez mais ténue em várias zonas do concelho.
Ovar construiu parte da sua identidade em torno da natureza, da floresta e da paisagem. Destruir silenciosamente esse património enquanto se multiplicam discursos institucionais sobre sustentabilidade é um exercício de contradição política que os cidadãos começam legitimamente a questionar.
Porque chega um momento em que já não basta plantar algumas árvores para compensar aquilo que se permite destruir. E talvez esse momento tenha chegado.
Quando o som das motosserras se torna mais frequente do que o som do vento nos pinhais, não estamos apenas perante operações florestais. Estamos perante escolhas políticas. E essas escolhas têm responsáveis.
GAZA: INFESTAÇÃO DE ROEDORES CAUSADA PELA DESTRUIÇÃO POR PARTE DE ISRAEL PROVOCA CATÁSTROFE DE SAÚDE PÚBLICA
- Este ano, foram registados mais de 70 000 casos de infeção em Gaza, com ratos a morderem crianças enquanto estas dormem e doenças de pele a matarem aqueles que não conseguem receber tratamento no estrangeiro. As autoridades de saúde afirmam que um surto de peste já não é uma possibilidade remota. Fonte.
- Um tribunal federal australiano ordenou que a empresa mineira Fortescue pagasse 108 milhões de dólares ao povo Yindjibarndi pela destruição das suas terras ancestrais, na região de Pilbara, no oeste do país. Esta indemnização fica muito aquém do pedido da Yindjibarndi Ngurra Aboriginal Corporation, que reclamava mais de 580 milhões de dólares por perdas económicas e 580 milhões de dólares por danos culturais. As minas, que geraram receitas estimadas em 80 mil milhões de dólares para a Fortescue desde 2013, tinham sido autorizadas pelo governo da Austrália Ocidental sem o consentimento dos Yindjibarndi. No total, quatro minas a céu aberto, uma linha férrea, um aterro de resíduos mineiros, aterros sanitários e pilhas de materiais foram espalhados por estas terras. Devido aos riscos associados à exploração, foi vedada uma área de 135 km² para impedir o acesso. Fonte.
BICO CALADO
- Os CEOs que viajaram com Trump para a China não são seus acompanhantes; são os diretores do novo sistema económico dominado por grandes empresas de tecnologia e outras multinacionais Quando BlackRock, Apple, Nvidia, Goldman Sachs e Tesla se sentam à mesa com Xi Jinping, não se trata de diplomacia, mas sim do "conselho de administração" de uma nação cujo presidente é meramente um diretor eleito e representante dos grandes negócios. Foicebook, A Oligarquia americana foi à China.
- Na madrugada desta sexta-feira (15 maio 2026), as forças de ocupação israelitas incendiaram uma mesquita e vários veículos pertencentes a palestinianos na aldeia de Jibiya, a noroeste de Ramallah. Fonte.
- Starmer está arrumado. Para travar Farage, as esquerdas britânicas têm de se unir. David Hearst, MEE.
- Duas semanas depois, eis que o DE fala do caso em texto assinado por jornalista diferente do da jornalista presente na reunião da assembleia de freguesia de Guetim. «O edil admitiu que o montante em causa é "significativo" para a realidade financeira da freguesia, embora tenha recusado divulgar valores concretos. (…) O autarca fez ainda questão de frisar que o protocolo existente com o SC Espinho é semelhante ao celebrado com os restantes clubes que utilizam o complexo, nomeadamente a AD Guetim e o GD Ronda. "Os três pagam o mesmo montante", assinala, acrescentando que os outros dois clubes não têm qualquer dívida à Junta. (…) deixa um aviso em relação ao futuro. "Se não for cumprido o que estava estipulado, não irá jogar em Guetim", refere. Do lado do SC Espinho, o presidente Bernardo Gomes de Almeida rejeita a ideia de incumprimento deliberado e garante que o clube continua a pagar pela utilização do recinto. (…) O presidente dos tigres assegura ainda que a situação está "muito mais do que regularizada" e mostra-se confiante numa resolução definitiva. "Tudo está e será pago até ao último tostão", garante.»
LEITURAS MARGINAIS
ENCOBRIMENTO DE CRIMES DE GUERRA EM GRANDE ESCALA: 58.º ANIVERSÁRIO DO MASSACRE DE MY LAI
Dr. Gary G. Kohls E Prof Michel Chossudovsky, Substack. Trad. O’Lima.
Esta semana, no auge do genocídio perpetrado por Israel e pelos EUA, comemoramos o 58.º aniversário do Massacre de My Lai, ocorrido a 15 de março de 1968.
Desde a Segunda Guerra Mundial, os ataques contra civis inocentes tornaram-se a marca distintiva das atrocidades cometidas pelos EUA. Lembrem-se do general Curtis LeMay: «Depois de destruir 78 cidades e milhares de aldeias da Coreia do Norte, e de matar um número incontável de civis, [o general] LeMay comentou: “Durante cerca de três anos, exterminámos — o quê? — vinte por cento da população.” Acredita-se agora que a população a norte do imposto Paralelo 38 perdeu quase um terço da sua população de 8 a 9 milhões de pessoas durante a guerra “quente” de 37 meses, de 1950 a 1953, talvez uma percentagem de mortalidade sem precedentes sofrida por uma nação devido à beligerância de outra.” (Brian Willson)
Sem exceção, todas as guerras dos EUA e da NATO têm tido como alvo civis, em violação do direito internacional. É o que se designa por «Responsabilidade de Proteger».
A criminalidade está enraizada na política externa dos Estados Unidos.
A prática de massacres de civis é invariavelmente recompensada. Colin Powell, responsável pelo encobrimento do massacre de My Lai, teve uma carreira «brilhante» nas Forças Armadas. Em 2001, foi nomeado Secretário de Estado na administração Bush. Embora nunca tenha sido indiciado, Powell também esteve profundamente implicado no caso Irão-Contras.
Vale a pena referir que Colin Powell era Presidente do Estado-Maior Conjunto na altura da Guerra do Golfo, que resultou na morte de milhares de soldados iraquianos em retirada, naquilo a que a correspondente de guerra britânica e colaboradora da Global Research, Felicity Arbuthnot, chamou «Operação Massacre do Deserto».
«Os quarenta e dois dias de bombardeamentos intensivos, apoiados por trinta e dois outros países, contra um país com apenas vinte e cinco milhões de habitantes, com um exército jovem e composto por recrutas, com cerca de metade da população com menos de dezasseis anos e sem força aérea, foram apenas o início de um cerco global liderado pelas Nações Unidas, de uma ferocidade quase medieval.»
Nas palavras do General Norman Schwartzkopf, que liderou a Operação Desert Slaughter, “‘Não restava mais ninguém para matar’…
Desde a Guerra do Vietname, ocorreram muitos casos semelhantes ao de My Lai patrocinados pelos EUA. Afeganistão, Jugoslávia, Iraque, Somália, Sudão, Síria, Líbia, Palestina. Para não falar da «Guerra Suja» e dos golpes militares na América Latina.
Numa amarga ironia, em 2018, o Vietname tornou-se um aliado militar «não oficial» dos EUA contra a China.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
REFLEXÃO
O HANTAVÍRUS É UMA QUESTÃO CLIMÁTICA
Emily Atkin, Substack. Trad. O’Lima.
(…) Analisar o impacto climático num surto específico de uma doença é um pouco como analisar o impacto climático num furacão ou incêndio florestal específico enquanto este está a ocorrer. Sem um estudo de atribuição, é realmente difícil identificar a influência exata.
No caso deste surto específico do vírus Andes — a única estirpe de hantavírus conhecida por se transmitir de pessoa para pessoa —, ainda nem sequer sabemos exatamente onde teve origem. Uma teoria que se espalhou rapidamente é que o primeiro doente conhecido foi exposto enquanto observava aves perto de um aterro sanitário nos arredores de Ushuaia, na Argentina, mas as autoridades locais, guias de observação de aves e especialistas médicos têm contestado veementemente essa hipótese, afirmando que provavelmente teve origem mais a norte.
Mas mesmo sem essa informação, podemos falar sobre as condições que tornam os surtos de hantavírus mais prováveis. E, de um modo geral, um planeta mais quente e as doenças infecciosas são uma combinação desastrosa, pelo menos para os seres humanos. Um estudo de 2022 publicado na revista Nature Climate Change concluiu que mais de metade das doenças infecciosas conhecidas já foram, de alguma forma, agravadas pelos riscos climáticos.
Em muitos casos, isso deve-se ao facto de as alterações climáticas permitirem que animais selvagens portadores de doenças se espalhem por locais onde antes não existiam, afirmou o Dr. James Shepherd, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Yale: «À medida que o planeta aquece, à medida que o ambiente aquece, a gama de doenças também muda, porque as doenças tropicais ou subtropicais podem agora tornar-se doenças de climas temperados. Se os seus vetores e os seus hospedeiros puderem deslocar-se para norte, por exemplo — que é o que estamos a ver com as infeções transmitidas por carraças —, então podem chegar a áreas onde nunca tinham sido observadas antes.»
A boa notícia é que o hantavírus não é uma doença tropical ou subtropical, pelo que não corre o risco de se deslocar para zonas temperadas. A má notícia é que já é uma doença global. Há mais de 40 tipos de hantavírus em todo o mundo, e estão presentes em roedores praticamente em todo o lado.
Assim, no que diz respeito às alterações climáticas, os especialistas em doenças infecciosas não estão tão preocupados com a migração dos hospedeiros do hantavírus (termo científico para designar roedores portadores da doença) das zonas tropicais para as zonas temperadas. Estão mais preocupados com a sua migração da natureza para locais onde os seres humanos vivem, trabalham e, de um modo geral, coexistem.
Como as alterações climáticas estão a aproximar os seres humanos dos roedores
Para ser claro: há muitas razões, para além das alterações climáticas, pelas quais os roedores estão cada vez mais a migrar da natureza para locais onde vivem os seres humanos. Em todo o mundo, estamos a abater mais florestas, a expandir mais explorações agrícolas e cidades e a avançar com mais estradas e minas para o interior dos habitats selvagens.
Mas muitos estudos mostram que, para além destes fatores, as alterações climáticas também estão a levar os roedores a um contacto mais próximo com os seres humanos.
Em 2021, o Dr. Douglas ajudou a conduzir uma revisão sistemática da literatura científica sobre o hantavírus e as alterações climáticas. O que ele descobriu foi que, em áreas onde as alterações climáticas estavam a tornar o clima mais húmido, as populações de roedores estavam a explodir. Ele disse-nos: «Quando chove muito, o que acontece? A humidade do solo aumenta, o crescimento das plantas e da vegetação intensifica-se e, consequentemente, aumenta a produção e a disponibilidade de alimentos para os roedores. Assim, verifica-se um aumento exponencial da população de roedores. E quando isso acontece, aumenta o risco de os seres humanos entrarem em contacto, quer diretamente com os roedores, quer indiretamente com o pó contaminado proveniente das excreções dos roedores infetados, sejam estas fezes ou urina. … As inundações também podem expulsar os roedores dos seus habitats, fazendo com que fiquem deslocados e, muitas vezes, acabem por se aproximar das habitações humanas.»
Os roedores e os seres humanos também correm o risco de entrar em maior contacto em locais onde as alterações climáticas estão a agravar a seca. Eis o que diz o Dr. Douglas: «As secas também têm um impacto negativo na disponibilidade de alimentos… Assim, com menos alimentos disponíveis, [os roedores] vão à procura de comida noutro lugar. E o que fazem os seres humanos durante as secas? Particularmente na região da América Latina, armazenam cereais. É aí que se encontra a maior atração para os roedores… [o que] também os coloca em contacto mais próximo com os seres humanos.
Este padrão também se manifestou nos dados relativos a doenças humanas. Um estudo de 2024 publicado na JAMA Network Open descobriu que, após inundações graves na bacia do rio Yangtze, na China, o risco de doença por hantavírus transmitida por roedores permaneceu elevado durante um período de até três anos.
É claro que os dados podem ser complexos. Um estudo realizado no Arizona, por exemplo, revelou que as inundações extremas não beneficiaram a população dominante de ratos-canguru da região — pelo contrário, quase os exterminaram por completo. Entretanto, os ratos-bolso da região sobreviveram e multiplicaram-se, alterando de forma permanente a composição das espécies de roedores que dominavam o habitat.
Assim, o quadro do impacto das alterações climáticas no clima e na população de roedores pode ser complexo. Mas não é a única forma como as alterações climáticas agravam a propagação de doenças infecciosas como o hantavírus.
As alterações climáticas agravam a urbanização e a perda de biodiversidade
As alterações climáticas estão também a agravar outros problemas que contribuem para a propagação de doenças — como o aumento da urbanização ou, por outras palavras, o êxodo de pessoas das zonas rurais para as cidades, onde os roedores prosperam. Eis o que diz o Dr. Shepherd: «Um dos grandes efeitos [das alterações climáticas] sobre nós, enquanto hospedeiros de infeções, é que estamos a mudar-nos. … Mas estamos a mudar-nos porque já não conseguimos sustentar estilos de vida que nos sustentaram durante milénios, como a agricultura de subsistência, por exemplo, em África. Há regiões que estão a ficar demasiado secas, demasiado húmidas ou demasiado imprevisíveis. … Estamos, portanto, a assistir a uma urbanização em grande escala impulsionada pelas alterações climáticas, pela imprevisibilidade e pelas dificuldades em cultivar alimentos num clima extremamente imprevisível. Isto está a resultar numa expansão maciça das cidades, sobretudo nas regiões mais quentes e mais pobres do mundo. Daqui a 50 anos, as maiores cidades do mundo estarão quase todas em África. E prevê-se que algumas dessas cidades cheguem a ter cerca de 100 milhões de habitantes.»
Outro problema que as alterações climáticas estão a agravar é a perda de biodiversidade. O IPCC constatou que, com cada ligeiro aumento da temperatura, o risco de extinção aumenta: a 1,5 °C, estima-se que a percentagem média de espécies em risco muito elevado de extinção seja de 9 por cento; a 2 °C, é de 10 por cento; a 3 °C, de 12 por cento, e assim por diante. Isso não é bom para as doenças.
«À medida que a biodiversidade diminui e os ambientes são devastados, muitas vezes os agentes que transportam e transmitem infeções — hospedeiros e vetores — tendem a tornar-se mais resistentes», afirmou o Dr. Shepherd. «Eles avançam.»
Ainda assim, de um modo geral, os cientistas são claros ao afirmar que é difícil identificar a influência exata das alterações climáticas nesta estirpe específica de hantavírus. Eis o que diz a Dra. Angel Desai, médica especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em Davis: «É complicado porque, embora haja todos estes fenómenos relacionados com o clima, também há toda uma série de outros fatores no contexto do comportamento humano. Por isso, é sempre um desafio conseguir distinguir o que está especificamente relacionado com fatores climáticos e o que está relacionado com os outros fatores. Mas, na minha opinião, acho que tudo está interligado, e é isso que está a impulsionar as mudanças que estamos a observar nas doenças infecciosas.»
A importância de falar sobre a ligação com o clima
Ainda assim, todos os cientistas com quem falei sublinharam que, mesmo que não possamos identificar com exatidão a influência das alterações climáticas no surto do vírus Andes, vale a pena abordar o assunto.
Uma das razões é que, num futuro muito próximo, os meteorologistas prevêem que estamos prestes a enfrentar um dos fenómenos El Niño mais intensos da história registada — um fenómeno agravado pelas alterações climáticas. Isso poderá afetar as populações de roedores em todo o mundo, mas também especificamente na Argentina e no Chile, onde o vírus dos Andes tem origem. Eis o que diz o Dr. Shepherd: «Quando se tem o que vamos ter ainda este ano, um ano de El Niño muito intenso, que vai ser ainda mais forte porque o planeta está muito mais quente do que antes. As populações de roedores nas zonas agrícolas húmidas e chuvosas do mundo tendem a explodir e a sobrepovoar-se, registando aumentos massivos. E isso vai aumentar o número de... agentes patogénicos que transportam e introduzem no ambiente.»
Outra razão pela qual é sensato abordar as alterações climáticas em relação a este surto de hantavírus é que isso realça a necessidade de os governos investirem em modelos de investigação que tenham em conta as alterações climáticas na previsão de surtos de doenças. Eis o que diz o Dr. Douglas: «Porque é que não se consegue prever o risco de doenças infecciosas de forma a ajudar no planeamento e na preparação, tal como se faria para um furacão? Não se quer esperar até que o furacão esteja à porta para garantir que se tem reservas de alimentos e que foram tomadas todas as medidas preparatórias necessárias para minimizar o impacto. Não se trata de o impedir. Trata-se de mitigar e reduzir o risco.»
De um modo geral, os cientistas com quem falei afirmaram que este surto de hantavírus põe em evidência o facto de que as condições para o surgimento de surtos de doenças infecciosas estão a mudar mais rapidamente do que os nossos sistemas de previsão e prevenção desses surtos.
E num mundo afetado pelas alterações climáticas, já não podemos considerar doenças como o hantavírus como algo a erradicar. «No que diz respeito às doenças infecciosas, elas estão aqui para ficar», afirmou Shepherd. «Fazem parte do nosso ambiente. Fazem parte da ordem natural das coisas.»
Isso não significa que os surtos sejam inevitáveis. Significa que o risco de doença é fundamentalmente moldado pela saúde do mundo natural. «Precisamos de reconhecer que não somos os donos», disse Shepherd. «Somos apenas mais um membro de um ecossistema interdependente excepcionalmente complexo.»
A destruição de habitats, a redução da biodiversidade e o rápido aquecimento do planeta não prejudicam apenas a «natureza» num sentido abstrato. Também enfraquecem algumas das barreiras que ajudam a manter os agentes patogénicos afastados das pessoas. E, em última análise, ao perturbar o ambiente de forma tão radical, Shepherd afirmou que é provável que estejamos a contribuir para o surgimento de mais pandemias.
«Temos de reconhecer que fazemos parte de um sistema planetário complexo e biodiverso», disse Shepherd, «e que o perturbamos por nossa conta e risco.»
BICO CALADO
Foto: Nuno Brites
- “Não sei se o Peregrino Luís foi ali rezar pelo sucesso da Spinumviva, pelo fim das investigações à nebulosa imobiliária com que fintou o fisco e recebeu avenças ou por qualquer outro milagre que Amadeu Guerra não consegue obrar. O CEO da Spinumviva, a implorar a proteção do Céu no Mariódromo de Fátima, pode ter estado a pedir à Senhora que interceda junto do seu divino filho para ser servido de chamar o rival, Passos Coelho, à divina presença, mas não é crível que o Peregrino Luís se deixasse contagiar pela fé como se deixou deslumbrar pelo poder. A desfaçatez de se fotografar em Fátima, de vela na mão, com a consorte e sócia, é um ultraje à laicidade por quem não tem escrúpulos. O Luís, por milagre ou perfídia de Marcelo e insensatez de Lucília Gago, é PM de um País laico, que lhe permite ter a fé que quiser, e não lhe permite a exibição pública para as televisões. O Luís pode saber rezar, pode ser devoto do anjo que poisou no anjódromo onde ontem esteve de vela na mão, mas o que o País espera dele não é que reze, é que resolva o que prometeu, que governe como se soubesse, que substitua as ave-marias e a propaganda por decisões acertadas de governo e pela decência. Para sacristão bastou-nos o anterior PR.” Carlos Esperança, Luís Montenegro (Luís), um tartufo na Cova da Iria.
- A Polícia Judiciária desencadeou uma operação de buscas relacionada com suspeitas de corrupção em concursos públicos para o aluguer de helicópteros destinados ao combate a incêndios. Um dos visados é Ricardo Leitão Machado, empresário e cunhado do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, proprietário da Gesticopter, empresa que venceu concursos para o fornecimento destes meios aéreos. O empresário está associado à Operação Torre de Controlo, relacionada com alegadas práticas de cartelização entre empresas concorrentes em concursos públicos para meios aéreos de combate aos incêndios. Em causa estarão suspeitas de manipulação de concursos e de aumento artificial dos custos de adjudicação em contratos avaliados em cerca de 100 milhões de euros. Fonte.
- Restaurar o serviço militar obrigatório? Jovem de 18 anos responde a Pacheco Pereira. José Duarte, Maio.
- Um tribunal norte-americano suspendeu as sanções impostas à Relatora Especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinianos, Francesca Albanese. O tribunal afirmou que a administração Trump terá violado o seu direito à liberdade de expressão ao impor essas medidas depois de ela ter criticado aquilo que descreveu como uma guerra de genocídio em Gaza. Fonte.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
CUBA: REVOLUÇÃO SOLAR EM MARCHA
- Enquanto os EUA a privam de petróleo, Cuba está a levar a cabo uma das revoluções solares mais rápidas do planeta — com a ajuda da China. Fonte.
- Investigação sobre fugas de metano revela poluição persistente em torno de instalações petrolíferas e de gás francesas. No final de abril, duas ONG inspecionaram cerca de 60 instalações e registaram fugas deste potente gás com efeito de estufa em dois terços delas. Fonte.
- Será que as plantas de interior conseguem mesmo purificar o ar da sua casa? seriam necessárias entre dez e mil plantas por metro quadrado para igualar o que a ventilação passiva de um edifício já consegue. Fonte.
- Consulta pública até 25 de junho: Unidade de Produção de Biometano de Torres Novas. Fonte.
BICO CALADO
“(…) Mas quando uma grande editora me propôs, no início deste ano, reeditar este primeiro romance policial e só me 'ofereceu' 10% do preço de venda, decidi fazer algo diferente. (…) aumentei os meus direitos de autor em 250% (!) e - em vez da margem de lucro ir toda para prémios de 'gestores' e dividendos de accionistas - ainda fiz um donativo de 25% do preço de venda de cada livro a uma ONG (Associação de Mulheres Contra a Violência). Mais: reduzi o preço do livro em 25% (preço final 12 euros com 325 páginas). Não cabe a quem escreve uma história (com sacrificio do seu tempo e muito, muito trabalho) assegurar os lucros, dividendos, nem os salários de toda uma indústria. Tem de haver outros modelos para reunir escritores e leitores. (…)” Miguel Szymanski.
A organização «Homeless In Need» está a ser investigada devido às suas atividades de angariação de fundos. A «Homeless In Need» afirma estar a angariar fundos para apoiar pessoas em situação de sem-abrigo, em particular aquelas que sofrem de stress pós-traumático. Ao aceitar doações dos passageiros, em dinheiro ou através de terminais de cartão, pode parecer a muitos londrinos que se trata de uma instituição de caridade registada. As contas mais recentes da empresa sugerem que pouca parte do dinheiro angariado durante o seu primeiro ano de atividade acabou por chegar aos sem-abrigo. Em vez disso, os registos mostram que a empresa gastou quase metade das suas receitas de 41 000 libras em «remunerações dos administradores», sendo o fundador James Gordon Adams o único administrador identificado. Gastou também 12 847 libras em «materiais para angariação de fundos», bem como cerca de 6000 libras em salários e despesas. Fonte.
A IA não vem para nos libertar: vem para acumular mais capital. Guillem Pujol, Lamarea.
“Donald Trump diz que Joe Biden transformou os Estados Unidos num «motivo de chacota» e que ele é que nos tornou novamente grandes e respeitados em todo o mundo. No entanto, isto é o oposto da verdade. Em resultado das políticas petulantes e autodestrutivas de Trump, grande parte do mundo agora despreza-o a ele e aos Estados Unidos como um todo. Como o New York Times noticiou pouco antes da visita de Trump a Pequim, os chineses agora falam rotineiramente sobre o «declínio americano» e descrevem Trump como «um acelerador da decadência americana». (…) A visita de Trump a Pequim é uma viagem de estudo de um aspirante a autocrata em declínio e à deriva, implorando a um verdadeiro homem forte — que lidera um país muito mais sério — para que o tire da confusão que ele próprio criou.” Paul Krugman, Um presidente em declínio e em apuros implora a Xi – Substack.
O presidente Trump terá pressionado a FDA para que autorizasse a venda de cigarros eletrónicos com sabores a fruta e a doces, revogando uma proibição anterior, para beneficiar os doadores das grandes empresas tabaqueiras, apesar dos riscos para as crianças. Fonte.
LEITURAS MARGINAIS
O PACTO SUICIDA DA AMÉRICA
Chris Hedges, Substack. Trad. O’Lima.
As civilizações, como argumentou de forma célebre o historiador Arnold J. Toynbee, «morrem por suicídio, não por homicídio». Desmoronam-se a partir de dentro. São vítimas da decadência moral, social e espiritual. São dominadas por uma classe dominante parasitária. As instituições democráticas ficam paralisadas. A população é empobrecida, a riqueza é canalizada para a classe dominante e a coerção torna-se a principal forma de controlo.
A nossa marcha suicida começou muito antes de Donald Trump e a sua bizarra corte de palhaços, bajuladores, vigaristas e fascistas cristãos terem chegado ao poder. Começou quando a classe dominante, especialmente sob as administrações Reagan e Clinton, se propôs a explorar o país e o império para lucro pessoal. Há uma palavra para estas pessoas. Traidores.
Esses traidores, instalados na liderança dos dois partidos no poder, privaram-nos lentamente dos nossos bens e do nosso poder. Recorreram a subterfúgios, mentiras e suborno legalizado. Fingiram respeitar a política eleitoral, o sistema de pesos e contramedidas, a imprensa livre e o Estado de direito, enquanto subvertem todos esses pilares democráticos. Aquele velho sistema, por mais imperfeito que fosse, foi esvaziado. Foi entregue aos amorais e aos idiotas — vejam o Supremo Tribunal ou o Congresso —, aqueles dispostos a cumprir as ordens da classe bilionária.
Munidas de milhares de milhões fornecidos pelo inimigo mortal do povo — os oligarcas e as grandes empresas —, as elites políticas, republicanas e democratas, destruíram as carreiras dos políticos que resistiram. Esmagaram os sindicatos. Colocaram jornalistas honestos na lista negra e concentraram o controlo da imprensa nas mãos de um punhado de grandes empresas e oligarcas. Eliminaram regulamentações que limitavam a ganância desenfreada e protegiam a população contra empresas predatórias e toxinas ambientais. Aprovaram legislação que criou um boicote fiscal de facto para os ricos — Trump ficou famoso por não ter pago impostos federais sobre o rendimento em 10 dos 15 anos anteriores à sua presidência —, ao mesmo tempo que despojavam o país da sua indústria e deixavam cerca de 30 milhões de pessoas sem emprego. A riqueza já não é criada pela produção ou pela indústria transformadora. É criada pela manipulação dos preços das ações e das matérias-primas e pela imposição de uma servidão por dívida incapacitante ao público.
Estes parasitas cortaram ou aboliram programas sociais, militarizaram a polícia, construíram o maior sistema prisional do mundo e injetaram fundos numa indústria bélica inchada e fora de controlo. O socialista e político alemão Karl Liebknecht, na véspera da loucura suicida da Primeira Guerra Mundial, chamou aos imperialistas alemães «o inimigo interno». Os nossos governantes, os nossos inimigos internos, montaram uma série de guerras fúteis que degradaram a hegemonia global do império e despejaram biliões de dólares do dinheiro dos contribuintes nas suas contas bancárias. O Irão é o exemplo mais recente.
Trump não é um caso isolado. Ele é a expressão nua e crua deste pacto suicida. Ele não finge que o sistema que herdou funciona. Mente com menos subtileza. Enriquece-se a si próprio e à sua família de forma grosseira. Fala com vulgaridades cruas. Desmantela qualquer agência governamental dedicada ao bem comum, incluindo a Agência de Proteção Ambiental, o Departamento de Educação e o Serviço Postal dos EUA. Mas ele personifica o que veio antes dele, embora sem a fachada liberal.
«Trump não é uma anomalia», escrevi em «America: The Farewell Tour»: ‘Ele é o rosto grotesco de uma democracia em colapso. Trump e o seu círculo de bilionários, generais, idiotas, fascistas cristãos, criminosos, racistas e pervertidos desempenham o papel do clã Snopes em alguns dos romances de William Faulkner. Os Snopes preencheram o vazio de poder do Sul decadente e tomaram o controlo de forma implacável das elites aristocráticas degeneradas, outrora proprietárias de escravos. Flem Snopes e a sua família alargada — que inclui um assassino, um pedófilo, um bígamo, um incendiário, um homem com deficiência mental que copula com uma vaca e um parente que vende bilhetes para assistir à bestialidade — são representações ficcionais da escória agora elevada ao mais alto nível do governo federal. Eles personificam a podridão moral desencadeada pelo capitalismo desenfreado.’
Os arquivos de Epstein, uma janela para a degeneração da nossa classe dominante, incluíam não só Trump, mas também o ex-presidente dos EUA Bill Clinton — que alegadamente fez uma viagem à Tailândia com Epstein —, o príncipe Andrew, o fundador da Microsoft e bilionário Bill Gates, o bilionário de fundos de cobertura Glenn Dubin, o ex-governador do Novo México Bill Richardson, o ex-secretário do Tesouro e ex-presidente da Universidade de Harvard Larry Summers, o psicólogo cognitivo e autor Stephen Pinker, o advogado de Epstein e sionista convicto Alan Dershowitz, o bilionário e CEO da Victoria’s Secret Leslie Wexner, o ex-banqueiro do Barclays Jes Staley, o ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Barak, o mágico David Copperfield, o ator Kevin Spacey, o ex-diretor da CIA William Burns, o magnata imobiliário Mort Zuckerman, o ex-senador do Maine George Mitchell e o produtor de Hollywood caído em desgraça e violador condenado Harvey Weinstein. Todos eles gravitavam em torno das bacanais perpétuas de Epstein.
Anand Giridharadas, autor de «Winners Take All: The Elite Charade of Changing the World», observa que o círculo de homens poderosos e um punhado de mulheres que rodeavam Epstein são emblemáticos de uma casta privilegiada que carece de empatia perante o sofrimento e os abusos infligidos aos outros, quer se trate de abuso sexual, incluindo de crianças, colapsos financeiros que orquestram, guerras que apoiam, vícios e overdoses que facilitam, os monopólios que defendem, a desigualdade que agravam, a crise imobiliária de que tiram partido e as tecnologias intrusivas contra as quais se recusam a proteger as pessoas: ‘As pessoas têm razão em sentir que, tal como os e-mails revelam, existe uma aristocracia meritocrática altamente fechada na intersecção entre o governo e as empresas, o lobbying, a filantropia, as start-ups, o meio académico, a ciência, as altas finanças e os media, que, com demasiada frequência, se preocupa mais com os seus próprios interesses do que com o bem comum. Têm razão em ressentir-se pelo facto de haver infinitas segundas oportunidades para os membros deste grupo, enquanto tantos americanos são privados da primeira oportunidade. Têm razão em achar que os seus apelos muitas vezes não são ouvidos, quer estejam a ser despejados, explorados, executados hipotecariamente, tornados obsoletos pela IA — ou, sim, violados.’
«Os e-mails de Epstein, na minha opinião», escreve Giridharadas, «traçam, no seu conjunto, um retrato epistolar devastador de como funciona a nossa ordem social e para quem. Dizer isto não é exagerado. O que é exagerado é a forma como esta elite opera.» «Se esta elite do poder da era neoliberal continua a ser mal compreendida», continua ele, «pode ser porque não se trata apenas de uma elite financeira ou de uma elite instruída, de uma elite com noblesse oblige, de uma elite política ou de uma elite criadora de narrativas; ela abrange todas estas facetas, de forma lucrativa e convencida das suas próprias boas intenções.» «Estas pessoas estão», lembra-nos Giridharadas, «na mesma equipa. No ar, podem entrar em conflito. Promovem políticas opostas. Alguns na rede professam angústia pelo que outros na rede estão a fazer. Mas os e-mails retratam um grupo cujo maior compromisso é a sua própria permanência na classe que decide as coisas. Quando os princípios entram em conflito com a permanência na rede, a rede vence.» Pode ver a minha entrevista com Giridharadas aqui.
O sistema está todo podre. Não se vai reformar por si só.
O Partido Democrata lançou-se numa nova estratégia de campanha baseada na redução de impostos para vencer as eleições intercalares deste ano. Irá, sem dúvida, nomear mais um candidato presidencial insípido, sem programas concretos e que apoia o genocídio. Os doadores democratas injetaram a impressionante quantia de 1,5 mil milhões de dólares na campanha presidencial abreviada de 15 semanas de Kamala Harris, impulsionada por celebridades. Ela tornou-se a primeira candidata presidencial democrata a perder o voto popular nacional em duas décadas e a ser derrotada em todos os estados decisivos.
O Partido Democrata não é um partido político funcional. É uma miragem corporativa. Os seus membros podem, na melhor das hipóteses, selecionar candidatos pré-aprovados e atuar como figurantes em convenções e comícios coreografados. Os membros do partido não têm qualquer influência na política partidária.
Quanto mais evidente se torna o poder em declínio do império, como se vê no fiasco de Trump com o Irão, mais uma população confusa se refugia num mundo de fantasia, um mundo onde os factos difíceis e desagradáveis não se intrometem.
Nos últimos dias de uma civilização, a população deleita-se numa arrogância auto-ilusória e proclama falsas virtudes. Procura bodes expiatórios para explicar os seus fracassos — muçulmanos, trabalhadores indocumentados, mexicanos, afro-americanos, feministas, intelectuais, artistas e dissidentes.
O pensamento mágico e o mito do excecionalismo americano dominam o discurso público e são ensinados nas escolas. A arte e a cultura são rebaixadas a kitsch nacionalista. A ciência é menosprezada, mesmo no meio da crise ambiental. As disciplinas culturais e intelectuais que nos permitem ver o mundo da perspetiva do outro, que promovem a empatia, a compreensão e a compaixão, são substituídas por uma hipermasculinidade e um hipermilitarismo grotescos e cruéis.
Trump é a figura perfeita para estes estertores de morte. Ele não é uma aberração nem uma anomalia. Ele é o rosto nu da nossa doença patológica.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
