Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

terça-feira, 29 de setembro de 2026

ANGOLA: PETROLÍFERAS POLUEM O MAR HÁ 13 ANOS

Incêndio em maio de 2025 na plataforma operada pela Cabinda Gulf Oil Company, subsidiária da Chevron, localizada no Bloco 14, ao largo da costa de Cabinda. Imagem: AMOG.
  • Operações das grandes petrolíferas europeias, britânicas e norte-americanas, - ExxonMobil, BP, Eni, Equinor e Sonangol - , no Bloco 15 têm provocado derrames de petróleo de forma sistemática nos mares de Angola há 13 anos, deixando os residentes doentes (infeções cutâneas, dos problemas gastrointestinais e das náuseas) e sem condições para se alimentarem, uma vez que muito do peixe capturado se envcontra contaminado. Várias queixas foram ignoradas, enquanto a Chevron pede aos pescadores que façam a limpeza ao abrigo de «acordos de trabalho voluntário. Pelo menos 13 países em todo o mundo beneficiam deste petróleo, incluindo Espanha, Itália, Canadá, EUA, Índia e China. Mais de 370 milhões de barris de petróleo foram enviados para refinarias. A cadeia tem ligações com algumas entidades controversas, como a Trafigura e a Glencore, na qualidade de fretadores. A TotalEnergies, a Shell, a ConocoPhillips, a Sinopec e a Sinochem também atuam como fretadores, enquanto a Sinopec, a IOC, a Sinochem, a Nayara Energy, a Repsol e a Petronas adquirem petróleo proveniente do bloco 15 em questão. Fonte.
  • Fort McKay, uma comunidade indígena no norte de Alberta, situada perto de importantes explorações de areias petrolíferas, está a sofrer uma grave poluição por poeira que, frequentemente, excede os limites provinciais de qualidade do ar. Durante um período de amostragem de 24 meses (2022–2025), Fort McKay excedeu as diretrizes de Alberta relativas à precipitação de poeira 17 vezes e quase duplicou o limite aceitável em cerca de 20% das ocasiões. A comunidade está rodeada por minas a céu aberto, estradas, áreas desmatadas, pedreiras e lagoas de rejeitos. Fonte.

BICO CALADO

  • A equipa da Irlanda baixou a cabeça durante o hino nacional de Israel, enquanto usava braçadeiras pretas em sinal de protesto. Mas não ficou por aí: os jogadores também se recusaram a apertar a mão aos jogadores israelitas. Estas acções surgem num contexto de protesto contra a actuação de Israel em Gaza e contra o facto de o país não ter sido suspenso pela UEFA. O protesto estendeu-se para lá do relvado: cerca de 140 pubs e bares recusaram transmitir o encontro, enquanto a própria RTÉ reduziu a emissão ao mínimo contratualmente obrigatório, sem estúdio, comentadores próprios, publicidade ou patrocínios. A dignidade também conta. E o futebol também é político, por mais que alguns continuem a insistir em negá-lo. A Rússia, suspensa das competições da UEFA desde 2022, é um exemplo disso. RiseUp Portugal.
  • “(…) As cidades estão transformadas em refugio de capitais especulativos, em hotéis, hotéis, hotéis, hotéis e as pessoas vivem a 2 horas do trabalho, não comem bem para pagar metade do salário em habitação ou vivem sem dignidade três gerações em cubículos. As terras estão a ser pilhadas, de Oeiras ao Barroso, da Comporta e Évora para estes vampiros colocarem os seus capotais. Não vivem, não habitam, não trabalham, não produzem, esmifram quem trabalha e destroem a paisagem e o espaço comum. As medidas fofinhas para parar esta obscenidade - que se chama açambarcamento de casas e espaço público e não "crise de habitação" (parem de usar de palavras do senhor amo, não é "crise", é açambarcamento) - têm sido o financiamento aos senhorios, o que, evidentemente só serviu para aumentar o preço das casas. Há dias escutei na rádio Antena 1 -sem contraditório - um auto designado representante dos fundos de investimento imobiliários (um trabalhador árduo, tive pena do suor que verte) a dizer que têm muitas casas com rendas até 2300 euros para o Governo lhes pagar (subsídios) e eles colocarem no mercado...Ou seja, querem viver estes senhores de subsídios, da lei feita à medida deles pelo Governo deles pelo Estado deles. Não vi Ventura chamar-lhes parasitas, andava entretido com o tanque do Neves. Na verdade, do Ventura do Chega que trabalhou nos vistos gold ao serviço de imigrantes milionários ao PSD, IL e PS todos apoiam estas medidas desde a lei Cristas, que têm servido para fazer das casas casinos, e da cidade um parque de diversões, esvaziadas de alma e beleza. (…) Podem dar voltas, não há outra forma, o país está a ficar vazio de gente, nem trabalhadores nacionais nem imigrantes, ninguém aqui consegue viver. É urgente socializar os solos urbanos, mantemos a propriedade das casas mas não dos solos urbanos. Não há crise de habitação nem falta de construção, pelo contrário, estamos rodeados de betão. Faltam jardins, ciclovias, espaços livres de convívio. Faltam-nos partidos socialistas a sério. Se alguém for ao supermercado comprar a comida toda e colocá-la no mercado um ano depois ao triplo é ilegal, como pode alguém, neste caso Bancos e hotéis, comprar as casas todas e ainda falar na rádio pública a pedir um rendimento máximo parasitário?” Raquel Varela, Expropriar os fundos imobiliários, já!
  • A galinha dos ovos de ouro está a tornar-se numa vaca sagrada. República dos Pijamas, Substack.
  • Ucranianos e ucranianas, quem são os vossos defensores? – por Boaventura de Sousa Santos. António Gomes Marques, A viagem dos argonautas.

REFLEXÃO

Largada de 90 mil mosquitos-tigre-asiáticos em Lisboa pelo INSA terá sido feita à margem da lei
Pedro Almeida Vieira, Página Um.

A libertação de 90 mil mosquitos-tigre-asiáticos, com o nome científico Aedes albopictus, no bairro lisboeta de Alvalade, concluída esta semana no âmbito de um projecto experimental coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), avançou sem que, até ao momento, tenha sido identificada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) qualquer licença ou acto formal de aprovação para a colocação destes insectos no meio natural.

Fontes contactadas pelo PÁGINA UM garantem que o INSA nunca pediu sequer qualquer licença e que se tratou de um “acto voluntarioso”, sem se terem medido as consequências legais e, sobretudo, os impactes ambiental e social. Caso seja comprovada pelo menos a negligência, a coima para o INSA pode variar entre 24 mil e 144 mil euros.


Originário das regiões tropicais e subtropicais do Sudeste Asiático e, em sentido mais amplo, da região Ásia-Pacífico, o chamado mosquito-tigre-asiático expandiu-se para outros continentes sobretudo através do transporte humano, com destaque para pneus usados e plantas ornamentais capazes de transportar ovos resistentes à dessecação. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) descreve-o como uma das espécies invasoras de mosquitos com maior expansão mundial. Somente as fêmeas picam.

O risco de saúde pública é, porém, bastante limitado. O maior perigo está na capacidade das fêmeas para actuarem como vectores de vírus, podendo participar na transmissão de doenças como dengue, chikungunya e zika, além de outros arbovírus em determinadas condições epidemiológicas, que, até agora, não se encontram em circulação autóctone em território nacional, em especial no Continente.

Com efeito, Portugal já registou casos das principais doenças que o Aedes albopictus pode transmitir, embora a transmissão local permaneça uma situação bastante excepcional. O caso mais relevante ocorreu na Madeira, onde um surto de dengue entre 2012 e 2013 provocou 2.168 casos prováveis, cerca de metade confirmados laboratorialmente, mas associado a outra espécie de mosquito do mesmo género: o Aedes aegypti.

Imagem da libertação de mosquitos divulgado em comunicado pela ULS de Santa Maria.

No Continente, os casos recentes de dengue, chikungunya e outras doenças não endémicas transmitidas por mosquitos têm sido classificados pela Direcção-Geral da Saúde como importados, ou seja, as pessoas já estavam infectadas antes da chegada a Portugal. No mais recente relatório de monitorização, publicado em 18 Setembro, o INSA também não tinha detectado agentes patogénicos nas amostras de mosquitos invasores recolhidas no território nacional.

A operação de libertação no bairro de Alvalade terá decorrido em três vagas de 30 mil exemplares, a última das quais nesta quinta-feira, 24 de Setembro, depois de já terem sido libertados 60 mil mosquitos numa fase anterior, antes da divulgação pública. Ao jornal Público, o responsável pela investigação, o médico Afonso Moreira, justificou a escolha de Alvalade com as características da freguesia, nomeadamente a vegetação e os logradouros, que podem “proporcionar condições favoráveis ao desenvolvimento do mosquito”.

O projecto, designado POR5007, pretende testar em meio urbano a denominada Técnica do Insecto Estéril, conhecida pela sigla inglesa SIT, medindo nesta primeira fase a capacidade de dispersão e sobrevivência dos machos libertados. Se os resultados forem favoráveis, os investigadores prevêem avançar em 2027 para uma fase de controlo populacional, procurando reduzir a reprodução da espécie através do acasalamento das fêmeas selvagens com machos estéreis.

Foto da equipa de investigadores que libertou os mosquitos-tigre-asiáticos conforme divulgado comunicado divulgado pela Unidade Local de Saúde de Santa Maria.

A experiência do INSA conta com um apoio financeiro que pode parecer inusitado — o da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) —, embora a agência participe há décadas em projectos baseados na Técnica do Insecto Estéril, precisamente por esta recorrer à radiação ionizante. Não são revelados os montantes.

O projecto envolve também, para além do INSA, a Unidade de Saúde Pública Francisco George, da Unidade Local de Saúde (ULS) de Santa Maria, a DGS, a Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia de Alvalade e a empresa pública espanhola Tragsa, que possuirá experiência na produção e libertação de insectos estéreis.

O problema desta largada surge, sobretudo, num enquadramento legal que, aparentemente, foi negligenciado. O Aedes albopictus consta como espécie invasora numa Resolução do Conselho de Ministros de Maio de 2023, estando mesmo ao lado da vespa-asiática. Esse enquadramento remete para o regime das espécies exóticas invasoras, segundo o qual pode ser interdita “a detenção, cultivo, criação, comércio, introdução na natureza e o repovoamento” de espécimes das espécies abrangidas.


A própria lei define “repovoamento” como a disseminação ou libertação de exemplares de uma espécie exótica num território onde essa espécie já tenha sido introduzida — situação que corresponde, à letra, ao que sucedeu em Alvalade, onde os investigadores libertaram os machos numa zona com uma população selvagem pré-existente.

A questão nem sequer se resolve com a alegação de uma eventual licença comum para investigação científica. No mesmo diploma admite-se, com carácter de excepcionalidade, que haja detenção, cedência, compra, transporte, cultivo e criação de espécies invasoras para fins científicos, mas exige-se que essas actividades decorram em “espaços confinados”.

A enumeração não inclui, por isso, a libertação na natureza e, menos ainda, em ambiente urbano, junto a aglomerados populacionais. Mais: o próprio regime qualifica como contra-ordenação ambiental muito grave a introdução na natureza ou o repovoamento de espécies constantes da Lista Nacional quando praticados em violação das proibições legais.


Mesmo em caso de mera negligência, uma eventual infracção ambiental muito grave praticada por uma pessoa colectiva, como seria o caso do INSA, pode ser punida com coima entre 24 mil e 144 mil euros. Se houver dolo, a moldura sobe para 240 mil euros a cinco milhões de euros. A aplicação destes valores ao caso concreto depende, contudo, de se demonstrar que a libertação dos mosquitos preenche efectivamente uma das infracções muito graves previstas no diploma de 2019.

Questionado pelo PÁGINA UM sobre a existência de autorização, Nuno Banza, presidente do ICNF, adiantou inicialmente que os seus serviços tinham encontrado referência a “uma comunicação do início dos trabalhos em 2021 ou 2022” e que, segundo as primeiras informações recolhidas internamente, “este tipo de libertação está excepcionado da autorização”.

Mais tarde, acrescentou que os técnicos do instituto sustentavam existir uma excepção “porque [os mosquitos] são geneticamente modificados e com fins sanitários”. Banza afirmou ter solicitado aos serviços uma resposta organizada, mas, até ao fecho desta edição, não foi remetido ao PÁGINA UM qualquer pedido de autorização, licença, despacho, parecer ou outro acto administrativo que enquadre a libertação.


A alegação de que os mosquitos poderão ser geneticamente modificados (OGM) seria relevante porque o regime jurídico aplicável ao controlo, à detenção, à introdução na natureza e ao repovoamento de espécies exóticas da flora e da fauna exclui do seu âmbito os organismos geneticamente modificados que sejam objecto de legislação própria.

Contudo, os documentos conhecidos do projecto do INSA referem explicitamente a irradiação como mecanismo de esterilização. Aliás, a informação científica disponível confirma que a Técnica do Insecto Estéril apoiada pela AIEA não assenta em transgenia.

Segundo a própria agência das Nações Unidas, os machos são tornados inférteis através de irradiação controlada e a AIEA distingue expressamente esta técnica das soluções baseadas em transgenia, salientando que o método que promove “não envolve engenharia genética”. Em concreto, são utilizadas radiações gama ou raios X para danificar as células germinativas dos machos, referindo a AIEA que os animais libertados “não são transgénicos”.


Em todo o caso, mesmo a libertação de mosquitos transgénicos não pode ser feita sem controlo administrativo. Se os 90 mil mosquitos fossem efectivamente OGM, o que não resulta da documentação pública conhecida, entraria em aplicação um diploma de 2003, que também sujeita qualquer libertação deliberada no ambiente a autorização prévia. A autoridade competente seria, nesse caso, a Agência Portuguesa do Ambiente, que recebe a notificação do ensaio e aprecia a autorização, com intervenção da DGS.

Ainda haveria outra possível exclusão de licenciamento se os mosquitos fossem usados como “auxiliares na luta biológica”, mas apenas “quando previstos em legislação própria”. Até ao fecho desta edição, também não foi identificada pelo ICNF qualquer legislação específica ao abrigo da qual os Aedes albopictus esterilizados para fins de saúde pública fossem considerados auxiliares de luta biológica e, por essa via, retirados do regime geral das espécies invasoras.

Até porque esse plano, se for nacional, terá de ser aprovado por Resolução do Conselho de Ministros; se for um plano local, terá de ser promovido por uma entidade pública ou privada e previamente aprovado pelo próprio ICNF.


A consulta das fontes públicas realizada pelo PÁGINA UM não permitiu localizar um plano nacional ou local aprovado ao abrigo do artigo 28.º que identifique a libertação de machos estéreis de Aedes albopictus em Alvalade como medida autorizada de controlo.

Apesar desta polémica, sobretudo por a experiência se ter realizado em meio urbano da capital, o INSA já realizou, há quatro anos, em Gambelas, no concelho de Faro, ensaios de marcação, libertação e recaptura de Aedes albopictus. O estudo científico publicado em 2024 na revista científica Insects revela que então foram preparados para libertação 84 mil machos estéreis de mosquito, distribuídos por três operações semanais e por dois pontos de largada separados por cerca de 50 metros, numa área de estudo de cerca de 50 hectares.

Contudo, um dado chama a atenção: dos 84.000 machos estéreis preparados para a experiência de Faro, 20.712 — quase um quarto, 24,7% — nem sequer chegaram a abandonar os recipientes, pelo que apenas cerca de 63.300 terão efectivamente levantado voo. Dos exemplares marcados, 528 foram recapturados, correspondendo a uma taxa média de apenas 0,8%. Os machos percorreram, em média, 88,7 metros, embora um deles tenha sido encontrado a 299 metros do ponto de libertação. A probabilidade média de sobrevivência diária rondou 61,6%, enquanto a esperança média de vida no terreno ficou pelos 2,1 dias.

Bairro de Alvalade, em Lisboa. Foto: D.R.

Apesar destas limitações, os investigadores consideraram os resultados encorajadores para preparar futuras operações de controlo. O próprio estudo mostra, contudo, a dimensão que uma intervenção destinada a reduzir a população exigiria: a proporção média obtida foi de apenas 0,86 machos estéreis por cada macho selvagem, quando a literatura citada pelos autores aponta para rácios entre 10:1 e 100:1 para atingir níveis de supressão.

Como a população selvagem masculina foi estimada em cerca de 11.970 exemplares, isso corresponderia, numa aproximação puramente proporcional, a cerca de 120 mil a 1,2 milhões de machos estéreis presentes no terreno — e o número a libertar teria provavelmente de ser superior, atendendo à mortalidade, à curta sobrevivência e à necessidade de efectuar largadas repetidas. O próprio artigo conclui que os machos deveriam ser libertados pelo menos três vezes por semana para assegurar uma presença contínua na zona de intervenção.

LEITURAS MARGINAIS


Quantas portas separam um homem da liberdade? De cada vez que uma delas se fecha nas minhas costas, conto-a com os dedos da mão. Diante do portão metálico do exterior, uma voz pergunta quem sou e quem venho visitar. “Me llamo Bruno Carvalho y vengo a ver a James Cox Chambers”. É estranho dizê-lo dessa forma. Não me lembro de um único momento em que o tivéssemos tratado assim no Donbass. Para todos nós, era o Jim. Lembro-me daquele jantar no restaurante Happy Life, em Donetsk, estranho nome para um restaurante no epicentro da guerra, onde eu, o Texas e o Jim deitámos umas quantas canecas de cerveja abaixo. Pode dizer-se que a nossa amizade se forjou no meio das bombas. Ele colaborava com o meio anti-imperialista Toward Freedom e chegámos a viajar juntos ao lado do então repórter da Telesur, Alejandro Kirk. Acabávamos os dias com lama até ao pescoço e com a pressa de contarmos ao mundo o que havíamos visto. Ao longo dos anos, acabei a tratá-lo por Fergie como a larga maioria.

A prisão de Aranjuez está a uma hora de Madrid, no meio do nada. A paisagem desértica faz-me pensar como é que há 90 anos mulheres e homens combatiam o fascismo em plena canícula. Poucos dias antes, havia escrito ao Fergie uma carta desde Lisboa em que explicava que, na minha opinião, a Palestina é uma das grandes causas do nosso tempo e que, por cada dia de inércia, toda a humanidade se aproxima um pouco mais da barbárie.

“As gerações futuras perguntarão como pudemos nós permitir tal coisa, mas de ti, e de tantos outros que com sacrifício pessoal não aceitaram ficar de braços cruzados, dirão que estiveram do lado certo da história. Em 1938, durante a guerra civil, na Batalha do Ebro, milhares de trabalhadores norte-americanos atravessaram o rio a nado durante a noite para surpreender as forças fascistas. Muitos morreram na batalha mais sangrenta desse conflito onde a Brigada Lincoln mostrou que a classe trabalhadora norte-americana pode lutar dignamente. Ficaram na história das Brigadas Internacionais e da luta contra o fascismo”.

Deixo todos os meus pertences num cacifo e sou inspeccionado com um detector de metais. Pedem-me a impressão digital. Ao longo de um enorme corredor envidraçado, vejo as vedações, as torres de vigilância e as pequenas janelas de onde pouco ou nada podem ver os que vivem no cárcere. Não é a primeira vez que entro numa prisão, não é a primeira vez que entro nesta prisão. À minha frente, seguem duas crianças. Uma leva a camisola da selecção argentina com o nome de Diego Maradona, a outra leva a do Rayo Vallecano. Sorrio. Olho para as vedações, cheias de ninhos, e pergunto-me: como será para os pássaros verem humanos dentro de gaiolas?

Na canção Txoria Txori, de Joxean Artze, o basco Mikel Laboa canta sobre alguém que decide cortar as asas de um pássaro para que não fuja e possa ser apenas dele. Contudo, se assim fosse, “deixaria de ser pássaro”. É o que querem fazer com o meu amigo Fergie Chambers acusado de financiar o Hamas quando, na verdade, contribuiu com mais de um milhão de dólares para projectos humanitários em Gaza. Desde que a barbárie se abateu sobre aquele território, financiou clínicas médicas, padarias, escolas, ginásios e uma estação de dessalinização de água. Fez o que todos os governos do mundo deviam estar a fazer.

Se é certo que vivemos numa época de assassinos sem escrúpulos, a espécie humana consegue produzir gente extraordinária. Através do materialismo histórico, olhando para trás, podemos dizer que caminhamos sobre os ombros de gigantes. Desde o tempo de Espártaco que empurramos a história através da luta contra a opressão. Os Estados Unidos e Israel, com o silêncio cúmplice ou a colaboração mais ou menos envergonhada do restante Ocidente, perseguem a solidariedade com o povo palestiniano. Fergie nasceu no seio de uma das famílias mais ricas dos Estados Unidos, rompeu com o negócio familiar e escolheu pôr o seu dinheiro ao serviço da luta dos oprimidos. Ainda adolescente começou a ler Karl Marx e a estudar os Panteras Negras. Apoiou dos índios americanos à população negra do seu país, apoiou as manifestações pelo direito à habitação em Atlanta e meios digitais anti-imperialistas, assim como pagou as custas judiciais e fianças de revolucionários em todo o mundo.

Começou a aparecer nas revistas como louco. O comunista rico que dá dinheiro a causas revolucionárias. “Fergie Chambers é o herdeiro de uma das famílias mais ricas dos Estados Unidos — e está determinado a ver a queda dos EUA”, escreveu a Rolling Stones. “Com centenas de milhões de dólares à disposição, um fervor revolucionário e um instinto inato para o confronto, está a tornar-se o comunista radical de referência nos Estados Unidos”, apresentou a Vanity Fair.

Do outro lado do vidro, os olhos de Fergie brilham quando me diz que viu na televisão o despejo de Maricarmen, de 87, da casa onde viveu 70 anos e que agora pertence a um fundo imobiliário. Pede-me que lhe faça chegar uma mensagem: "Maricarmen, ouvi as tuas palavras na televisão na minha cela e também vi como todas aquelas pessoas defendiam a tua casa. Quero enviar-te um abraço solidário e muita força”.

Pode conhecer-se um homem pelo que lê? Fala-me de livros. Está agora a reler "Por Quem os Sinos Dobram”, de Hemingway, que lhe comprei numa livraria de Madrid. Também tem lido George Jackson e voltou a ler “Peles Negras, Máscaras Brancas” de Frantz Fanon. Digo que lhe vou oferecer o Partido com Paredes de Vidro, de Álvaro Cunhal, em inglês. Está orgulhoso do canto da cela em que reuniu tudo o que tem de Che Guevara.

Não esconde a revolta por saber que a mulher está grávida de três meses. E por saber que corre o perigo de ficar 30 anos preso se for extraditado para os Estados Unidos. Ainda não sabe que os movimentos pró-Palestina do Estado espanhol começaram uma campanha para lhe fazerem chegar milhares de cartas de apoio. Uma vez mais, recordamos juntos as palavras de Georges Abdallah, o comunista libanês que esteve preso 41 anos em França, que numa entrevista, em Beirute, me explicou que um revolucionário nunca está sozinho nem desligado da organização sempre e quando estiver conectado com a luta exterior.

Despedimo-nos como sempre. “Venceremos” e os nossos punhos cerrados. Atravesso cada uma das portas até ao exterior e conto-as novamente. São exactamente dez.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

AVEIRO: BUGAS GRÁTIS NA PRIMEIRA HORA DE UTILIZAÇÃO

  • As Bicicletas de Utilização Gratuita de Aveiro (BUGA) passam a ter a primeira hora de utilização gratuita, mantendo-se a cobrança a partir da segunda hora, de acordo com o tarifário atualmente em vigor. Fonte.
  • “As pessoas remexem no lixo porque 10 cêntimos fazem diferença. E se 10 cêntimos fazem diferença, talvez o problema não esteja no contentor. Nem na garrafa. Nem sequer no Volta. Está num sistema económico e social onde há pessoas para quem aquilo que nós deitamos fora se transformou numa fonte de rendimento. A própria ministra reconhece, aliás, que estamos a falar de pobreza e de pessoas sem-abrigo que procuram nas garrafas “alguma forma de ter algum rendimento. (…) O Volta não criou a pobreza. Limitou-se a pôr-lhe um preço por garrafa.” Sérgio Alves.
  • Uma diretiva europeia que entrou em vigor a 27 de setembro proíbe inúmeras alegações que se enquadram no «greenwashing». A nova diretiva proíbe uma série de slogans e práticas frequentemente utilizados pelas empresas para se apresentarem como «ecológicas». Estes passarão a estar sujeitos a sanções por práticas comerciais enganosas. Em particular, já não será possível que um produto se apresente como «neutro em carbono». Doravante, essa alegação será proibida sempre que se baseie num mecanismo de compensação de emissões de carbono. Na prática, este mecanismo, de eficácia duvidosa, era sistematicamente invocado para sustentar essa suposta «neutralidade». Para além das alegações enganosas, deverá também haver uma revisão em profundidade no que diz respeito aos selos. Apenas os selos públicos (Bio, selo ecológico europeu, etc.) e os selos privados sujeitos a controlo por uma entidade certificadora independente (ou seja, os mais fiáveis) continuam a ser autorizados. Fonte.
  • Bristol é a primeira cidade britânica a proibir, nos seus suportes publicitários municipais, a publicidade ao pronto a vestir, aos SUV, aos voos, aos cruzeiros e às empresas ligadas aos combustíveis fósseis. Apesar de uma perda de receitas estimada em 80 000 libras por ano, a autarquia apresenta esta medida como uma forma de limitar a promoção de produtos com elevadas emissões e de incentivar modos de consumo com menor pegada de carbono. Fonte.
  • Em Aix-en-Provence, a autarquia está a reduzir ou a adaptar a iluminação noturna na zona da Torse e do Arco, para preservar os percursos da fauna, nomeadamente dos morcegos. Estão a ser testadas medidas como o desligar das luzes, a utilização de detetores de movimento, a redução da intensidade e a utilização de luz mais quente, embora o acompanhamento científico ainda seja demasiado recente para se poderem tirar conclusões definitivas. Fonte.
  • Barcelona investe 150 milhões de euros para transformar uma parte do seu litoral numa infraestrutura resiliente, recuando os enrocamentos e algumas obras de ordenamento, de modo a alargar as praias e a absorver melhor as tempestades e a subida do nível do mar. O projeto, que deverá criar 22 hectares de espaços públicos adaptados às ondas de calor e restaurar habitats marinhos, é finalista do Prémio Earthshot 2026. Fonte.
  • O Senado italiano aprovou uma lei que abre caminho para o regresso à energia nuclear, quase quatro décadas depois de o desastre de Chernobyl ter levado o país a abandonar a energia atómica. Fonte.
  • Na Coreia do Sul, a reciclagem de resíduos alimentares passou de 2,6 % em 1996 para cerca de 97 % em 2023, graças à separação seletiva obrigatória, à proibição do seu envio para aterros e aos contentores conectados. Nova Iorque inspira-se agora neste modelo, com a separação obrigatória dos resíduos orgânicos e mais de 400 pontos de compostagem, mas continua a enfrentar dificuldades em termos de participação. Fonte.

BICO CALADO

  • Uma nova estirpe de jornalistas: os jornaleiros colaboradores. Fonte.
  • Nem Porto nem Lisboa. Jornalistas estrangeiros elegem esta cidade portuguesa como destino de Outono. Fonte. Ora cá está mais um frete de jornalismo/marketing promocional. O logotipo da Câmara de Espinho está lá, nem se deram ao trabalho de o omitir. Mas não disfarçam a propaganda. Já agora, quanto custou o frete?
  • Há uma fábrica de peças para drones de guerra no sul de Londres. É da Isembard’ e está em Old Kent Road. Fonte.
  • “Nós pensávamos que o Expresso e a SIC, ao publicarem esta notícia seis, sete ou oito vezes, o faziam porque andavam aflitos à procura de cliques. Mas não! Isto já não pode ser justificado apenas com a desculpa dos cliques. Quando os mesmos órgãos de comunicação repetem incessantemente a propaganda de Giorgia Meloni, estão a ajudar a promover e a normalizar a extrema-direita e a xenofobia.” Fonte.
  • Um voo da Air Seicheles que deveria partir de Israel com destino às Maurícias, foi cancelado depois de as autoridades não terem concedido autorização para a sua aterragem. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS


«O país em que nasci tinha 30% de analfabetos. Bêbados a cair pelas ruas era um espectáculo permanente, bem como pessoas a pedir à porta das igrejas, a quem se dava uns trocos e paternalismo ao cubo. A juventude ia morrer em África ou fugia a salto para França, se não quisesse morrer prematuramente nos campos onde a vida seguia o seu curso medieval. Dois anos após a revolução em que a história ajustou contas com este passado ensimesmado, na escola a professora espancava-me ainda e aos meus colegas rotineiramente como técnica pedagógica, e obrigava-nos a rezar no final do dia. De tudo isto sobram hoje alguns lastros, como o flagelo da violência doméstica, o respeitinho e o andar-se com a cabeça entre as orelhas, e os bufos que da mesa do lado do café passaram para as redes sociais.

No país em que nasci era um escândalo (fora das duas únicas grandes cidades) as mulheres usarem calças, e era necessária a autorização do marido para poderem obter um passaporte, viajarem e abrirem uma conta bancária. Nesse tempo, as mulheres iam à missa vestidas de negro e com véu à cabeça, e em zonas do interior sentavam-se na igreja apartadas dos homens. Era como se o estarem vivas fosse uma razão para o luto, até porque delas não se esperava muito mais do que a maternidade, a submissão e o silêncio.

As portas que Abril abriu, que coincidem, no plano católico, com as aberturas possibilitadas pelo Concílio de Vaticano II, permitiram que as mulheres, bem como todos os cidadãos, possam exercer a sua fé (ou não ter fé sem ter que disso dar satisfações), viver a sua sexualidade e conduzir a sua vida sem o peso das tradições arcaicas. No entanto, passado meio século dessas conquistas, vivemos hoje num mundo em que elas enfrentam sérios riscos de regressão. Agentes políticos sem escrúpulos de novo se servem da religião como arma de arremesso e os direitos das mulheres, das pessoas transgénero e das pessoas que exercem uma sexualidade não heteronormativa são abertamente atacados na esfera pública e nos órgãos de soberania, inclusive por partidos fundadores da democracia e não obstante a palavra dada de que não se serviriam do poder para o fazer. A mentira é hoje, na arena política, o único entendimento que alguns têm da honra. E de novo vemos os nossos representantes políticos com a mão ao peito ou a persignarem-se durante atos de estado, promovendo uma promiscuidade entre estado e religião, e efetivamente validando a ideia inconstitucional de religião de estado.

Perante isto, a imagem da esposa do presidente da República envergando uma indumentária ao estilo pré-Vaticano II durante uma visita de estado a Roma, numa interpretação desnecessariamente rígida do protocolo em vigor no Vaticano, despertou-me repúdio. A esposa de António José Seguro é uma mulher bonita e que, nas poucas ocasiões em que aconteceu dar-me conta, se apresenta com elegância. É possível que a escolha desta para mim infeliz indumentária tenha obedecido ao seu gosto pessoal, e é também possível que não tenha para ela nenhum dos significados que tem para mim. Lamento se um post que fiz antes sobre esta questão tenha sido recebido como gratuito e/ou ofensivo, pois não era essa a minha intenção. Este meio é muito propício a equívocos e o significado das palavras mediadas por ecrâs teima em apegar-se à unidimensionalidade. Mas quero deixar bem claro que, no rescaldo de tudo o que nos vem acontecendo, do presidente em quem votei como única escolha possível perante as circunstâncias e a troco de considerável despesa de tempo e de recursos financeiros –porque a minha assembleia de voto se encontra a centenas de quilómetros de distância; benzer-se ao lado de membros do Governo durante uma inauguração de uma escola pública, de colocar a sua assinatura em leis iníquas –imigração e burcas – que fazem o jogo dos inimigos da democracia; um vestido negro com véu projeta a sombra pesada e violenta do retrocesso civilizacional em que as mulheres têm de conduzir-se como viúvas de si mesmas e que nos querem impor as forças mais sinistras que hoje uivam à solta. Uma coisa é eu saber que vivo aprisionado num tempo que é e não é o meu. Outra coisa é aceitá-lo, e eu não aceito. Nem hoje, nem nunca aceitarei viver sob essa sombra outra vez.»


sábado, 26 de setembro de 2026

BICO CALADO


Soneto da República Genuflexa

Em Cascais, entre cânticos e véus ao vento,
Patriarca abençoa a obra recém‑erguida;
E três figuras, num devoto movimento,
Persignam-se em coro — coreografia bem urdida.

Em Espinho, Ratola canta hossanas com fervor,
Louva a Senhora d’Ajuda, rainha das festividades;
E o povo, entre fé, negócio e algum calor,
Mistura crença com turismo em certas cumplicidades.

Porém, a pobre Constituição, exausta de pancadas,
Grita ao ver o Estado laico em nova contradição:
Facadas simbólicas, sempre bem coreografadas.

E o país segue, entre procissões e inaugurações,
Num bailarico onde a República, ajoelhada,
Confunde altar com palco — e fé com promoções.

  • Deliciem-se com este mui sugestivo título na  capa do Maré Viva de 23Set2026.
  • “Hoje não sou português nem alemão, não sou austríaco, italiano ou polaco. Um cidadão do mundo não assiste, calado, sentado e passivo, ao discurso de assassinos e genocidas quando as suas vítimas estão, neste momento e amanhã, a morrer em hospitais, mutiladas, sem casa, perseguidas, torturadas ou já enterradas às dezenas de milhares, na Palestina, no Líbano, na Síria, no Iraque e no Irão. Hoje sou um europeu espanhol, irlandês e esloveno, sou um africano moçambicano ou angolano, sou um americano brasileiro e peruano, sou um asiático usbeque ou malaio e sou mais meia centena de nacionalidades, porque levantar da cadeira e abandonar a sala é o gesto de protesto mínimo contra um orador que é o principal responsável por milhares de crianças assassinadas, enterradas em cemitérios em terra batida ou desaparecidas debaixo de montanhas de entulho dum país bombardeado e em ruínas. Só lamento não terem também abandonado a grande sala quando discursou o outro criminoso de guerra, cúmplice genocida e terrorista de estado, um criminoso condenado, um autocrata acusado de violações e suspeito de actos de pedofilia.” Miguel Szymanski.
  • Como três irmãos construíram um império de conteúdo de má qualidade baseado em IA, comprando sites de notícias legítimos e transformando-os em «fábricas de conteúdo» fantasmas que, segundo eles, registam 50 milhões de visualizações de páginas por mês. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

COMO A PALANTIR TRANSFORMOU OS UCRANIANOS EM COBAIAS (E AJUDOU A ARRUINAR A UCRÂNIA)
Nate Bear, Substack. Rev. O’Lima.


A empresa de tecnologia de guerra baseada em IA, Palantir, integrou-se profundamente nos sistemas militares e na sociedade civil ucranianos, transformando o país num laboratório para as suas tecnologias distópicas de localização, vigilância e identificação de alvos a abater.

A Palantir, fundada pelo senhor da guerra tecnofascista Peter Thiel e atualmente dirigida pelo supremacista judeu Alex Karp, começou a fornecer à Ucrânia sistemas de dados que controlam e aceleram a «cadeia de morte» militar pouco depois do início da guerra com a Rússia, em 2022. A «cadeia de morte», que agrega enormes quantidades de dados para rastrear um alvo até ao momento do ataque, ou da morte, é controlada por um sistema de IA criado pela Palantir chamado «Maven». Outro sistema da Palantir, o «Prisma», dirige ataques com drones, enquanto um terceiro produto da Palantir, o «Metaconstellation», designa satélites em órbita terrestre baixa para vigiar uma área específica em qualquer ponto do planeta antes de ordenar um ataque.

Na sequência desta parceria militar inicial, a Palantir expandiu rapidamente a sua influência no país, tornando-se parte integrante do próprio funcionamento do Estado ucraniano. Em 2023, a Ucrânia anunciou que a Palantir tinha estabelecido um «ponto de entrada» através do Ministério da Transformação Digital da Ucrânia e tinha começado a trabalhar com «muitas instituições governamentais ucranianas». Atualmente, o software da Palantir contribui para o funcionamento dos serviços de segurança interna da Ucrânia e do seu sistema educativo, e está na vanguarda dos esforços do país para digitalizar todas as funções governamentais e criar o que a Ucrânia denomina o primeiro «Estado agente» do mundo, impulsionado pela IA.

A manifestação mais distópica da transformação da Ucrânia num «Estado agente» é a localização e o rastreio de homens em idade militar para os apanhar na rua e os enviar para carne para canhão. Para tal, a Ucrânia digitalizou a sua base de dados militar nacional, conhecida como Oberih, e consolidou os dados num sistema denominado Reserve+. Este sistema combina os dados do Oberih com os dos registos estatais do país, juntamente com uma grande quantidade de outras informações pessoais, incluindo registos fiscais e laborais, informações de residência e registos médicos. Assim que se obtém um retrato completo de uma pessoa, o sistema utiliza IA para determinar a aptidão e o estatuto dessa pessoa para o serviço militar obrigatório.

E é este sistema Reserve+ que alimenta o detestado programa de mobilização forçada da Ucrânia. Os vídeos que documentam as unidades de mobilização ucranianas a raptar homens enquanto fazem compras em supermercados, ou nas ruas, muitas vezes na frente das suas famílias, amontoando-os em carrinhas antes de os enviar para uma morte quase inevitável na linha da frente, tornaram-se ocorrências diárias e omnipresentes nos canais ucranianos do Telegram.

Embora nem a Palantir nem a Ucrânia tenham confirmado que a empresa esteja por trás da digitalização dos sistemas militares ucranianos, as provas circunstanciais são extremamente fortes, dado que a tecnologia da Palantir foi concebida especificamente para ligar várias bases de dados e extrair relações e padrões a partir delas. É precisamente isso que o sistema Reserve+ faz. E a Palantir tem acesso livre a todas as instituições governamentais da Ucrânia.

Também não é por acaso que estas unidades de mobilização apresentam uma semelhança impressionante com os esquadrões de detenção do ICE que percorrem os EUA com impunidade, tendo em conta que a Palantir tem vindo a colaborar com o ICE e a fornecer-lhe ferramentas de IA e de dados há mais de uma década. A plataforma Investigative Case Management da Palantir é utilizada pelo ICE para recolher e agregar enormes quantidades de dados sobre indivíduos, incluindo situação escolar, relações familiares, informações laborais, registos telefónicos, ligações pessoais, informações biométricas e moradas. Tanto na Ucrânia como nos EUA, portanto, o software subjacente que conduz à detenção física de uma pessoa é quase idêntico. E a Palantir é o fio condutor que liga os dois.

A Palantir também está a causar sofrimento aos ucranianos ao orientar os chamados «ataques profundos» contra a Rússia. Esta campanha, amplamente anunciada e promovida pelos media e pelas elites ocidentais, não alcançou quaisquer ganhos estratégicos significativos, tendo, pelo contrário, levado a Rússia a lançar contra-ataques muito mais devastadores, que trouxeram ainda mais sofrimento aos ucranianos. Estes contra-ataques encerraram os portos de Odessa, transformando efetivamente a Ucrânia num país sem saída para o mar, privando os ucranianos de importações vitais, e também tiveram como alvo armazéns críticos e infraestruturas energéticas. De acordo com declarações recentes de responsáveis ucranianos, os ataques russos destruíram cerca de 90% da infraestrutura logística alimentar da Ucrânia e 80% da sua produção de energia.

Encontro entre Karp e Zelensky

Mas Karp e Thiel não se importam com o sofrimento dos ucranianos. Os ataques podem ter sido contraproducentes e ter levado a um maior sofrimento para as pessoas comuns, mas os dados recolhidos durante a campanha serão introduzidos nos sistemas da Palantir e permitirão à empresa aperfeiçoar e comercializar futuros produtos de tecnologia de guerra baseados em IA.

A Palantir não está do lado dos bons. Não está a ajudar a Ucrânia porque se preocupa com a democracia, os direitos humanos ou qualquer outra propaganda que nos é vendida sobre as razões pelas quais o Ocidente deve apoiar a Ucrânia contra a Rússia. Esta é a empresa que ajudou Israel a cometer o genocídio em Gaza. A Palantir, que opera em Israel desde 2014, realizou a sua primeira reunião do conselho de administração de 2024 em Telavive para celebrar a campanha genocida de Israel em Gaza e, pouco depois, começou a fornecer às Forças de Defesa de Israel (IDF) ferramentas de IA para ajudar a colónia a executar o seu massacre em massa. Esta é a empresa cujo sistema de IA «Maven» constitui o sistema central das forças armadas dos EUA e foi utilizado para massacrar 120 crianças em Minab, no Irão, no primeiro dia do ataque conjunto dos EUA e de Israel ao país.

Trata-se da empresa dirigida por um homem que afirma que «o Ocidente tem um modo de vida e de organização superior» e que, numa carta aos acionistas da Palantir, afirmou que «a ascensão do Ocidente não foi possibilitada pela superioridade das suas ideias, valores ou religião, mas sim pela sua superioridade na aplicação da violência organizada». Um homem que chamou às vítimas do massacre em Gaza de «idiotas úteis». Trata-se de um indivíduo profundamente violento, empenhado em utilizar o tecnomilitarismo para promover a barbárie e a hegemonia americanas.

É a empresa fundada por Peter Thiel, um associado de Epstein, sionista convicto e importante financiador da tecnologia israelita, cuja ascensão foi apoiada por grupos neonazis. É a empresa que Thiel fundou juntamente com Joe Lonsdale, que afirmou recentemente que a Palantir foi criada para matar comunistas.

Portanto, não, não se trata de pessoas de bem a ajudar a Ucrânia por motivos altruístas.

A Palantir agarrou-se à Ucrânia porque esta é o campo de testes perfeito para as novas tecnologias de morte em massa, subjugação e controlo. Os responsáveis ucranianos vendem regularmente o seu país desta forma grotesca. O ministro da Defesa destituído, Mykhailo Fedorov, afirmou em 2024 que a Ucrânia «é o melhor campo de testes para todas as tecnologias mais recentes, porque aqui é possível testá-las em condições reais». Este tema foi recentemente reiterado pelo diretor da Palantir no Reino Unido, Louis Mosley, que afirmou que a Ucrânia «tem sido o laboratório de I&D para a IA num contexto militar e está na vanguarda absoluta da tecnologia militar». Mosley afirma que a guerra na Ucrânia é responsável por uma «aceleração extraordinária na tecnologia militar», porque «não há substituto para um campo de batalha real».

A Palantir precisava (e continua a precisar) da guerra na Ucrânia. E o preço das suas ações demonstra isso mesmo. Oscilando entre oito e dez dólares antes do início da guerra, o preço das ações da Palantir subiu mais de 2000% desde então, atingindo no ano passado um máximo de 200 dólares.

Ao demonstrarem a viabilidade do conceito no mundo real, os executivos da Palantir posicionaram os seus produtos como indispensáveis para as forças armadas europeias modernas na luta contra o «bicho-papão» russo e ganharam muito dinheiro manchado de sangue. Em 2025, a NATO adquiriu o sistema «Maven» da Palantir (apesar das objeções de alguns países da UE) e o sistema tornou-se totalmente operacional em junho deste ano.

Mas não é só a Palantir. Todas as grandes empresas tecnológicas, desde a Microsoft à Amazon e ao Google, têm-se aglomerado em torno da Ucrânia desde 2022, na esperança de tirar proveito lucrativo dos escombros de um Estado devastado pela guerra.

Recentemente, o fundador da Google, Eric Schmidt, criou uma empresa de drones que fornece grandes quantidades de drones descartáveis à Ucrânia para os «ataques em profundidade» contra a Rússia. Segundo notícias divulgadas pela comunicação social ucraniana, Schmidt «precisava de um verdadeiro campo de batalha para testar os seus novos sistemas». Estes drones e estes ataques não vão ajudar a Ucrânia a derrotar a Rússia. Apenas irão prolongar a guerra, permitindo ao mesmo tempo que Schmidt, em segurança na sua mansão na Califórnia, demonstre a viabilidade do conceito e consiga contratos com outras forças armadas. Entretanto, os ucranianos da classe trabalhadora continuarão a ser enviados para o massacre. Karp, Thiel e Schmidt são mercenários e, na Ucrânia de Zelensky, encontraram as marionetas perfeitas que lhes permitiram lançar as suas tecnologias experimentais sobre um país inteiro, ao mesmo tempo que recolhem dados que só existem à escala e com a qualidade de um Estado.

Por outras palavras, os ucranianos tornaram-se cobaias para as ambições megalomaníacas dos magnatas bilionários do setor tecnológico, todos eles com um interesse profundamente enraizado em garantir que a guerra entre a Ucrânia e a Rússia nunca termine. Estas pessoas não querem, de forma alguma, que a matança e a morte acabem. O complexo militar-tecnológico lucra com um laboratório no mundo real e lucra com pessoas mortas — sejam ucranianos, russos ou palestinianos —, não com pessoas vivas. E na Ucrânia, há tantas pessoas mortas.

Não há números fiáveis sobre o número de mortos, uma vez que ambos os lados têm motivos para minimizar as suas perdas e os lóbis alinhados com a NATO quase certamente sobrestimam as baixas russas e subestimam as perdas ucranianas. O melhor que podemos afirmar é que as estimativas de baixas combinadas bem superiores a um milhão de pessoas estão certamente corretas, com centenas de milhares de mortos em ambos os lados.

E uma guerra de desgaste cruel e prolongada favorece significativamente a Rússia em detrimento da Ucrânia. A Ucrânia já enfrentava uma crise demográfica mesmo antes da guerra. Agora, enfrenta um colapso demográfico. Em 1991, a Ucrânia tinha uma população de cerca de 52 milhões de pessoas. Em 2021, esse número tinha diminuído em mais de 10 milhões, passando para 41 milhões de pessoas. O FMI estima agora que haja pouco mais de 33 milhões de pessoas a viver em território controlado pela Ucrânia, um dos colapsos populacionais mais rápidos da história. E esta diminuição vai continuar. Em 2025, o número de mortes foi aproximadamente três vezes superior ao de nascimentos, enquanto três milhões de ucranianos em idade ativa fugiram do país e a taxa de fertilidade é de apenas uma criança por mulher, muito abaixo da taxa de reposição.

Grande parte da cobertura mediática dominante sobre a Ucrânia, que retrata uma população jovem e versada em tecnologia cuja juventude inerente está a vencer os russos velhos e conservadores, simplesmente não tem qualquer semelhança com a realidade. Este é um país num processo acelerado de colapso e, quanto mais tempo a guerra se prolongar, mais acentuado e brutal será esse colapso. E vai continuar.

A guerra vai continuar porque são muito poucos os que têm interesse em pôr-lhe fim em termos realistas, e muitos os que têm interesse na sua continuação, desde Zelensky e os seus burocratas, que embolsam comissões ilegais de contratos militares, até à indústria de tecnologia bélica que agora rodeia o país. Isto ficou evidente muito recentemente quando Fedorov, o ministro da Defesa destituído que vendeu o seu país como um campo de testes para novas armas, anunciou que Karp seria o principal investidor no seu novo empreendimento de tecnologia bélica baseada em IA.

A guerra proporciona as condições para o desenvolvimento, a implantação e o aperfeiçoamento de armas mortíferas baseadas em IA. Sem guerra, a Palantir e os traficantes de armas de IA não têm modelo de negócio.

Na Ucrânia, assistimos à transformação do Estado numa tela em branco para os senhores da guerra tecnofascistas e as suas experiências com IA. E esta experiência, por ser tão lucrativa, parece destinada a prolongar-se até ruir sob o seu próprio peso; nessa altura, Karp, Thiel, Schmidt e os mercadores da morte da IA passarão simplesmente para a sua próxima tela. E essa tela poderá, a menos que estes psicopatas sejam derrotados, ser o teu país ou o teu bairro a seguir.