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sábado, 30 de maio de 2026

CENTROS DE DADOS: OCULTAÇÃO DO IMPACTO AMBIENTAL É ILEGAL

  • Trinta e cinco membros do Parlamento Europeu instaram a Comissão Europeia a revogar uma cláusula de confidencialidade «ilegal» que oculta o impacto ambiental de centros de dados específicos. Os eurodeputados denunciaram a Comissão por ceder ao lóbi da indústria. Acusam a Comissão de violar as regras de acesso do público à informação ao alterar uma lei destinada a trazer transparência a um setor em rápida expansão. Fonte.
  • Lítio no Barroso: Savannah pagou à GNR para proteger a mina. Fonte.

BICO CALADO

Ronen Tivony/NurPhoto/Shutterstock

Um juiz de Delaware — um estado com mais empresas registadas do que habitantes — decidiu a favor de uma pequena cidade que permite que as empresas votem nas eleições locais. O juiz Craig Karsnitz, do Tribunal Superior de Delaware, decidiu que a cidade de Fenwick Island, com 400 habitantes, não violou a Constituição estadual ao permitir que entidades empresariais — que representam 12% da «população» da cidade — votassem nas eleições municipais. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A ASCENSÃO DO SUL GLOBAL
Chris Hedges, BNW. Revisão O’Lima.

Hubris Gargantua – by Mr. Fish

A humilhante derrota de Israel e dos EUA na sua guerra contra o Irão, a par da brutalidade do genocídio em curso em Gaza, está a dar início a uma nova ordem mundial. Esta ordem é aquela em que as vozes da razão e da estabilidade emanam não do Ocidente — que gastou dezenas de milhares de milhões de dólares a sustentar o genocídio de Israel — mas do Sul Global, incluindo a China. É uma ordem em que as alianças estão a ser rapidamente reconfiguradas para proteger os países de um Estado americano desregrado que ataca como um animal ferido, à medida que entra numa espiral de declínio terminal.

O fim do Império dos EUA, liderado por um Donald Trump impetuoso e desorientado, é irreversível. Os EUA perderam a sua sexta guerra no Médio Oriente em 25 anos. O poder do Irão foi reforçado não só porque — juntamente com Omã — controla o Estreito de Ormuz — por onde passam cerca de 25% do petróleo transportado por via marítima e 20% do gás natural liquefeito transportado por via marítima — mas porque enviou uma mensagem clara, com os seus drones e mísseis, aos aliados e bases dos EUA na região, ao mesmo tempo que lançou a economia global numa espiral descendente.

Trump e o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu — que, segundo consta, seduziram Trump para a guerra com visões dignas de «Alice no País das Maravilhas» de uma mudança de regime fácil no Irão, na sequência dos ataques de decapitação contra o país em 28 de fevereiro de 2026, que incluíram o assassinato do líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, e de outras figuras políticas e militares, juntamente com 168 crianças em idade escolar e os seus professores — podem atacar o Irão novamente. Estão desesperados. Mas um novo bombardeamento do Irão não vai funcionar. A estratégia de defesa em mosaico do Irão garante que todos os comandantes políticos e militares sejam facilmente substituídos.

O Irão pode estrangular a economia mundial fechando o Estreito de Ormuz. Pode acelerar o sofrimento fazendo com que os seus aliados iemenitas — Ansar Allah — fechem o Estreito de Bab el-Mandeb no Mar Vermelho, tal como fizeram com os navios com destino a Israel ao defenderem os palestinianos após 7 de outubro. Isto poderia resultar num bloqueio total. A Arábia Saudita, com o Estreito de Bab el-Mandeb aberto, consegue contornar o Estreito de Ormuz e exportar cinco milhões de barris por dia através do seu oleoduto para os petroleiros no porto de Yanbu, no Mar Vermelho.

Se não for alcançado em breve um cessar-fogo entre os EUA e o Irão, a economia global entrará em colapso, talvez dentro de poucas semanas. Os EUA e os seus aliados, como o Japão, libertaram parte das suas vastas reservas estratégicas de petróleo; no entanto, não conseguirão amortecer o impacto nos mercados indefinidamente. Os níveis das reservas da Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA estão próximos dos mais baixos registados em mais de 40 anos. Assim que estas reservas se esgotarem, o preço dos combustíveis disparará. Se o barril de petróleo disparar para 200 dólares, o preço na bomba poderá subir até aos 10 dólares por galão. Isto, aliado à escassez de outros produtos derivados do petróleo, juntamente com fertilizantes azotados, alumínio e hélio — um elemento indispensável na produção de máquinas de ressonância magnética e semicondutores —, já está a paralisar indústrias vitais e a fazer subir os preços dos produtos básicos.

O Banco Mundial prevê um aumento de 31% apenas no custo dos fertilizantes nitrogenados — que são produzidos no Golfo Pérsico e transitam pelo Estreito de Ormuz — se a guerra continuar. Isto significará um aumento acentuado no preço dos alimentos.

Trump é como um cão que está a ser empurrado contra a sua vontade para dentro de uma caixa de transporte. Quando parece que um acordo com o Irão está próximo, ele rosna e ladra, sabotando o acordo de cessar-fogo proposto para um período de 30 a 60 dias. As reações histéricas de Netanyahu a qualquer acordo que ponha fim aos ataques israelitas contra o Líbano, juntamente com a potencial libertação de parte dos cerca de 100 mil milhões de dólares em ativos congelados do Irão, estimulam a rebeldia momentânea de Trump.

Mas o tempo está a esgotar-se. Resta pouco tempo. E quanto mais Trump esperar, pior ficará a situação. Nem Trump, nem Netanyahu, são os mestres deste jogo. O Irão tem as cartas na mão.

O sonho de Israel de formalizar a sua hegemonia sobre o Médio Oriente, codificado nos Acordos de Abraão durante o primeiro mandato de Trump — que normalizaram as relações entre Israel e os Estados da região — está morto. Esta guerra e o genocídio em Gaza acabaram com ele.

Trump está a tentar ressuscitá-los, inserindo-os num acordo para pôr fim à guerra contra o Irão. Exigiu que Estados anteriormente não envolvidos nos Acordos de Abraão, como o Paquistão e, eventualmente, o Irão, aderissem para normalizar as relações com Israel. O Paquistão — o único Estado a responder publicamente — rejeitou o convite devido ao que designou como um conflito com as «ideologias fundamentais» do país. Todos os outros Estados a quem Trump apelou reagiram com um silêncio perplexo.

O Irão exige o levantamento das sanções e o fim do bloqueio naval — que, segundo a CIA, o Irão pode suportar durante meses antes de enfrentar graves dificuldades económicas — em troca da reabertura do Estreito de Ormuz. O acordo proposto não faz qualquer referência ao arsenal de mísseis balísticos do Irão, que, segundo o «The New York Times», as autoridades militares e de inteligência dos EUA acreditam que se mantém a 70 % dos níveis pré-guerra.

O Irão, o Paquistão, a Turquia e o Catar — um dos principais negociadores com o Hamas — são os novos atores de poder na região.

O Paquistão não só assinou um pacto de defesa mútua com a Arábia Saudita em 2025, como também enviou tropas, jatos e sistemas de defesa aérea para a ditadura do Golfo em abril. Tem também vindo a acolher as negociações de cessar-fogo entre a dupla de negociadores principais de Trump, «Dumb and Dumber» — o seu genro incompetente Jared Kushner e o seu colega promotor imobiliário e parceiro de golfe, Steve Witkoff.

A guerra reforçou o prestígio e o poder da China, que, em comparação com Washington, é vista a nível mundial como a personificação de uma liderança racional, prudente e estável. O Irão, num sinal da nova ordem mundial, permite que petroleiros chineses e paquistaneses, juntamente com outros navios não aliados a Israel e aos EUA, atravessem o estreito.

Israel, incapaz de convencer os EUA a fazer o seu trabalho sujo de bombardear o Irão até transformá-lo num Estado falhado, irá, prevejo eu, atacar com renovada fúria contra Gaza, talvez ocupando os restantes 30% do que resta do território sitiado. Continuará a sua política semelhante à de Gaza de transformar em escombros todas as estruturas a sul do rio Litani, no Líbano, que bombardeia diariamente, apesar de o Irão afirmar que os ataques ao Líbano violam o atual acordo de cessar-fogo.

A selvajaria e a fanfarronice de Trump – ele ameaçou «explodir» Omã se este não «se comportasse» após relatos de que Omã cobrava portagens em conjunto com o Irão aos navios que passavam pelo Estreito de Ormuz – não conseguem mascarar a impotência dos EUA. A recusa dos aliados dos EUA em atender ao apelo de Trump para o ajudar a reabrir o Estreito, juntamente com a miséria económica que se abateu sobre nações que lutam para lidar com a escassez e o aumento dos custos dos fornecimentos de energia e fertilizantes, são provas evidentes do estatuto de pária de Washington.

Os impérios, cegos pelo mito da sua própria omnipotência e superioridade militar, cometem erros fatais nas fases finais de conflitos, sem compreenderem para onde se dirigem. Afastam os seus aliados. Passam de um fiasco militar para outro, tal como os EUA têm feito há mais de duas décadas no Médio Oriente.

O Império Britânico, em 1956, já em declínio vertiginoso, foi humilhado quando conspirou com a França e Israel para tomar o Canal do Suez, que Gamal Abdel Nasser tinha nacionalizado. Os EUA obrigaram os três países a interromper a invasão. A libra esterlina britânica deu lugar ao petrodólar. Isso marcou o último capítulo do Império Britânico.

A guerra contra o Irão é a Crise de Suez de Washington.

Isto pode não ser o fim do Império Americano, mas é o início do fim.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

REFLEXÃO

A ROLAGEM DE ÁRVORES DÁ-LHES FORÇA?

Tavira. Amigo doAlgarve.

Depois de uma poda drástica, a árvore costuma rebentar com uma força impressionante. Mas o que muitos interpretam como "pujança" e "vitalidade" é, na verdade, um grito de desespero e um mecanismo de sobrevivência.

​Quando despimos uma árvore dos seus ramos e folhas, retiramos-lhe a capacidade de fazer fotossíntese. Ela entra em modo de emergência e gasta as suas últimas reservas de energia para produzir rapidamente novos ramos (chamados ramos epicórmicos) para não morrer à fome.

​O problema? A ilusão da "pujança" esconde dois perigos graves:

​Ramos "colados com cuspo": Estes novos ramos crescem muito rápido, mas nascem na camada mais superficial da casca. Eles não têm a ligação estrutural profunda e sólida que os ramos originais tinham.

​Apodrecimento invisível: Os cortes brutais deixam feridas enormes que a árvore não consegue cicatrizar. Fungos e bactérias entram ali, apodrecendo o tronco por dentro.

​O resultado final: Daqui a uns anos, esses ramos novos tornam-se grandes, pesados e frondosos, mas estão presos a uma base podre e frágil. Ironicamente, a poda que foi feita para "dar segurança" cria uma árvore muito mais perigosa, com um risco altíssimo de queda de ramos grandes em dias de tempestade.

​A natureza é resiliente e tenta sobreviver a tudo, mas confundir rebentação de emergência com saúde é o maior erro da gestão urbana. Uma árvore podada com respeito e ciência não precisa de "ressuscitar" com pujança; cresce equilibrada, segura e saudável para todos nós.


BICO CALADO

Philip Jones/Alamy Live News
  • O Tribunal de Justiça da União Europeia proferiu dois acórdãos importantes que visam combater a utilização abusiva de trusts, nomeadamente no que diz respeito ao sigilo e à proteção de ativos. Fonte.
  • O pacote orçamental que o presidente dos EUA, Donald Trump, e os republicanos do Congresso aprovaram à pressa no verão passado já provocou uma redução em grande escala da assistência alimentar destinada a crianças de baixos rendimentos. Uma análise agora divulgada estima que mais de 700 000 crianças em doze estados perderam a ajuda alimentar federal desde que a lei do Partido Republicano entrou em vigor.
  • A IA está a tornar a linguagem jornalística mais repetitiva e previsível – e isso é um problema para todos nós. Xosé López-García e Cristian Augusto Gonzalez Arias, The Conversation.
  • 28 de maio de 1926: MADEIRA – 1.º CENTENÁRIO. Comemora hoje 1 século sem mudanças. Depois de 48 anos de partido único, seguiram-se 52 anos de um único partido. Carlos EsperançaAlegadamente associando-se à efeméride, o supremo Tribunal Administrativo decidiu confirmar a extinção da Fundação Berardo, o que pode significar a recuperação de 980 milhões.
  • A empresa militar responsável por um derrame químico no sul da Califórnia, que obrigou cerca de 50 000 pessoas a evacuar as suas casas durante o fim de semana, fabrica peças para caças F-35 que provavelmente se destinam a Israel. A fábrica da GKN Aerospace em Garden Grove, Califórnia, cujo tanque químico de 7.000 galões se rompeu na semana passada e ameaçou explodir, arrecadou mais de 13 milhões de dólares desde 2017 em subcontratos com a gigante da indústria militar Lockheed Martin. A Lockheed distribui subcontratos a centenas de empresas em mais de uma dúzia de países para ajudar a construir os caças. Entre elas está a GKN Aerospace Transparency Inc., a subsidiária da GKN sediada em Garden Grove, que arrecadou mais de 255 milhões de dólares em subcontratos com a Lockheed Martin. Fonte.

REFLEXÃO

A TRETA DO VOLTA
RiseUP Portugal.


O novo sistema de depósito de embalagens em Portugal, através do Programa Volta, está a gerar revolta por uma razão muito simples: transfere a responsabilidade ambiental e o custo financeiro diretamente para o bolso do cidadão.

A partir de agora, pagamos mais 10 cêntimos por cada garrafa de plástico ou lata, valor que só recuperamos se guardarmos a embalagem intacta e a devolvermos numa máquina.

Mas importa olhar para quem está no topo da cadeia de produção. Estamos a falar de colossos mundiais como a Nestlé, a Coca-Cola, a PepsiCo e a Danone. Só para dar uma ideia do volume financeiro envolvido, estas empresas registam lucros líquidos anuais absolutamente extraordinários à escala global. A Nestlé lidera o setor alimentar com lucros anuais na ordem dos 10,9 mil milhões de dólares. A Coca-Cola (Responsável por 11% de toda a poluição plástica mundial), e a PepsiCo dominam o mercado de bebidas acumulando, respetivamente, cerca de 10,6 mil milhões e 8,2 mil milhões de dólares de lucro líquido anual. A Danone fecha este grupo no topo dos laticínios e nutrição com lucros a rondar os 2 mil milhões de dólares por ano.

Diante destes números recorde, a pergunta impõe-se: por que razão se castiga o consumidor com uma espécie de taxa verde disfarçada em vez de se obrigar estas multinacionais a alterarem a sua forma de produção na origem?

Todos nós consumimos cerveja ou água em garrafas de vidro reutilizáveis no circuito de cafés e restaurantes. Esse vidro é recolhido, lavado, esterilizado e volta a entrar no mercado dezenas de vezes sem necessidade de ser destruído. É um sistema que funciona há décadas.

A reciclagem mecânica do plástico gasta quantidades brutais de energia e água, além de continuar a alimentar o ciclo de fabrico de novos polímeros. A verdadeira ecologia faz-se pela redução e pela reutilização, não pela criação de barreiras financeiras a quem compra.

NB - perspetivas complementares sobre este tema:

LEITURAS MARGINAIS

NEGÓCIOS SUJOS: A VERDADEIRA HISTÓRIA DO ESCÂNDALO DAS ÁGUAS RESIDUAIS NO REINO UNIDO
Tim Smedley, Medium. Revisão: O’Lima.

Bourton-on-the-Water. Foto: Martin Fenton, Unsplash

Ash tinha-se mudado para os Cotswolds para uma reforma tranquila, após uma carreira na polícia. Tinha sido polícia, mas não um polícia qualquer — era do tipo que investiga polícias corruptos, um verdadeiro DS Arnott da série «Line of Duty». Mas a reforma tranquila não durou muito tempo. Em 2015, ele e o seu vizinho, o professor da Universidade de Oxford Peter Hammond, descobriram que a estação de tratamento de águas residuais local, gerida pela Thames Water, estava a despejar ilegalmente águas residuais não tratadas no rio que atravessava a sua aldeia. Sendo bons cidadãos, denunciaram o caso à Agência do Ambiente (EA), que «investigou» devidamente. «Embora eu use esse termo de forma bastante vaga», disse-me ele. «A Thames Water “autoavaliou” que o impacto ambiental de terem despejado esgoto não tratado durante muitos anos era “baixo”. E a Agência Ambiental aceitou isso sem questionar e não tomou mais nenhuma medida.»

Isso irritou profundamente o Ash. O que foi um erro, porque, desde então, o Ash e o Peter fundaram a Windrush Against Sewage Pollution (WASP) e elevaram a poluição fluvial ao nível de escândalo nacional. A tal ponto que agora foi transformado numa minissérie de docudrama televisiva, Dirty Business, que foi transmitida pela primeira vez no Channel 4 no Reino Unido em fevereiro (2026) e está agora disponível para visualização em Video on Demand. Ash e Peter são interpretados pelos atores multipremiados David Thewlis (Harry Potter; The Sandman) e Jason Watkins (The Crown; e, por coincidência, Line of Duty).

Esquerda: «Dirty Business» já disponível em Vídeo a Pedido, com David Thewlis no papel de Ash Smith, de boné. Direita: o verdadeiro Ash Smith e o seu cão Archie, durante o nosso passeio em 2021 — foto do autor © Tim Smedley.

Antes de 2015, os tubos de escoamento que ligavam as estações de tratamento de águas residuais aos rios — conhecidos como descargas pluviais ou transbordamentos de esgotos combinados — nem sequer eram monitorizados. Posteriormente, a EA determinou que, até 2023, todos os transbordamentos deveriam estar equipados com «monitores de duração de eventos» para registar a frequência e a duração da sua utilização. A notícia tornou-se um escândalo em 2020, quando 70% dos escoamentos de águas residuais tinham monitores instalados e os dados ficaram disponíveis pela primeira vez. Revelou-se que, durante o ano anterior, as empresas de água na Inglaterra e no País de Gales tinham descarregado águas residuais não tratadas nos rios em mais de 200 000 ocasiões, num total combinado de mais de 1,5 milhões de horas. Isto foi um choque para muitos, incluindo para mim na altura, mas também uma subestimação enorme, com 30% dos escoamentos ainda por contabilizar.

Em 2021, quando Ash me mostrou o rio Windrush, os monitores de duração de eventos já cobriam mais de 80 % da rede, e a verdadeira dimensão do escândalo começou a tornar-se evidente. Era duas vezes pior do que se pensava. As empresas de água tinham descarregado esgoto não tratado em rios e águas costeiras na Inglaterra e no País de Gales mais de 400 000 vezes nesse ano, durante 3 milhões de horas. A Comissão de Auditoria Ambiental da Câmara dos Comuns, chocada, declarou no seu relatório de 2021–22: «… os rios em Inglaterra estão num estado deplorável. Um “cocktail químico” de esgoto, resíduos agrícolas e plástico está a poluir as águas de muitos dos rios do país. As empresas de água parecem estar a despejar esgoto não tratado ou parcialmente tratado nos rios de forma regular, violando frequentemente os termos das licenças que, no papel, só lhes permitem fazê-lo em circunstâncias excecionais.»

As «circunstâncias excecionais» deveriam incluir apenas chuvas intensas e tempestades, quando o sistema de esgotos misto ficava sobrecarregado. No entanto, essas circunstâncias excecionais estavam a ocorrer com uma frequência excecional. Ash e Peter chegaram mesmo a encontrar inúmeros exemplos de estações de tratamento a descarregar águas residuais não tratadas para os rios, mesmo quando não tinha chovido nada. Isto estava a acontecer em todas as empresas de abastecimento de água.

Dirty Business conta a história de como, após as políticas de austeridade do primeiro-ministro David Cameron e a «fogueira» de regulamentos de 2014, a Agência do Ambiente começou a reduzir, e acabou por eliminar por completo, as suas investigações sobre derrames de esgoto não tratado; em vez disso, introduziu a «automonitorização dos operadores» — as próprias empresas de águas residuais deveriam comunicar se tivesse ocorrido um derrame ilegal. Como era de esperar, poucas o fizeram.

Os problemas da Inglaterra remontam ao seu sistema único, em que empresas privadas de abastecimento de água receberam monopólios estatais. Antes de 1989, o abastecimento de água era de propriedade pública, tal como em todo o resto do mundo. Mas Margaret Thatcher pôs fim a isso. Em 1989, os ativos e o pessoal das dez autoridades de abastecimento de água que abrangiam a Inglaterra e o País de Gales foram transferidos para sociedades anónimas e cotados na Bolsa de Valores de Londres. Hoje, quase toda a gente na Inglaterra e no País de Gales recebe os seus serviços de água e esgotos dessas mesmas dez empresas de água e esgotos e de treze empresas exclusivamente de água. Cada uma tem o seu próprio feudo no mapa, sem concorrência, gerido com fins lucrativos privados; somos obrigados a subscrever o nosso fornecedor regional. A Lei da Água de 1991 também eliminou as restrições anteriores aos montantes financeiros que as empresas de água podiam contrair como empréstimos ou distribuir como dividendos aos acionistas. No entanto, para proteger os interesses dos clientes e do ambiente, a privatização foi acompanhada de supervisão regulatória, principalmente por parte da EA.

A privatização poderia ter funcionado, em teoria, se fosse acompanhada por uma regulamentação de mão de ferro. Em vez disso, o que tivemos foi uma abordagem de luvas de pelica; na verdade, sem luvas, apenas «de mãos livres», «à distância»… escolham o eufemismo baseado em membros que preferirem. Se se der às empresas privadas uma forma fácil de ganhar muito dinheiro, elas vão aproveitar — na verdade, é seu dever legal proporcionar o melhor retorno aos acionistas. Modernizar estações de tratamento de esgoto é caro; despejar esgoto não tratado num rio ou no mar com impunidade é barato. Só a regulamentação é que torna a água potável tratada e segura, e os rios limpos e saudáveis, importantes para as empresas de água detidas por conglomerados internacionais.

O Financial Times, tradicionalmente um defensor da privatização, constatou que o total de despesas de capital dos dez grandes monopólios do setor da água diminuiu 15 % desde a privatização, passando de 5,7 mil milhões de libras para 4,8 mil milhões de libras por ano: «Durante o mesmo período, as empresas — que foram vendidas sem dívidas e receberam 1,5 mil milhões de libras — contraíram empréstimos no valor de 53 mil milhões de libras, o equivalente a cerca de 2 000 libras por família. Grande parte desse montante foi utilizado não para novos investimentos, mas para pagar 72 mil milhões de libras em dividendos.» A empresa australiana de infraestruturas Macquarie foi proprietária da Thames Water entre 2007 e 2017, deixando-a com 2 mil milhões de libras de dívida, ao mesmo tempo que pagava aos seus investidores, de acordo com uma análise, em média entre 15,5% e 19% em dividendos por ano. Os jornais britânicos acusaram-na de desmantelamento agressivo de ativos, o que lhe valeu a alcunha de «o canguru vampiro». Mas a Macquarie não era um caso isolado — a sua conduta como proprietária de uma empresa de água era a norma, não a exceção. Na verdade, mesmo depois de a Macquarie ter deixado a Thames Water sobrecarregada de dívidas, em agosto de 2021 o governo aprovou uma aquisição de capital no valor de mil milhões de libras de uma das outras «10 grandes» empresas de água, a Southern Water, por nenhuma menos que, adivinhou, a Macquarie.

Como diz Hanna Swift, a denunciante da EA na série «Dirty Business» [aviso: os parágrafos seguintes contêm excertos da série], «as empresas querem ganhar dinheiro, [e] nós garantimos que não envenenem os rios ao fazê-lo». É assim tão simples. Ou, pelo menos, deveria ter sido. A capitulação da auto-monitorização foi seguida pela retirada dos carros da empresa ao pessoal de inspeção da EA, o que significou, na prática, que não tinham como comparecer e investigar incidentes de poluição; e uma ordem para pôr fim a todas as inspeções no local para eventos das categorias 3 e 4 (considerados de «baixo impacto», mas que poderiam, segundo os realizadores do programa, incluir até um derrame de esgoto de 3 quilómetros) e, em vez disso, «arquivar esses relatórios como infundados ou “deixá-los passar silenciosamente”».

«Nós [costumávamos poder] investigar, instaurar processos judiciais, fazer o que fosse preciso. Mas depois disseram às empresas que estas podiam autorregular-se», diz Hanna. Nesta altura do terceiro e último episódio, eu continuava a concordar com a cabeça; até então, tudo me era familiar, tal como as minhas próprias conclusões em The Last Drop. Mas «isso não é tudo», continua Hanna — ela própria uma personagem ficcionada baseada no denunciante da vida real Robert Forrester, que investigou internamente a EA durante sete anos. «Em 2021, Sir James aumentou os preços que as empresas de água pagavam pelas suas licenças», continua «Hanna». «Chamava-se “regulamentação financiada por taxas”. Recebemos 96 milhões de libras do governo. Agora estamos a arrecadar 411 milhões de libras com [estas] taxas… Estamos a nadar em dinheiro». Então, agora que nadam em dinheiro a partir de 2021, por que é que o escândalo do esgoto ainda continua, e muitos dos mesmos chefes das empresas de água não só não estão na prisão como continuam no comando?

Liguei ao Ash Smith em abril de 2026, dois meses após a exibição do programa «Dirty Business». Queria saber se tinha havido alguma repercussão legal na sequência das acusações feitas pelo programa contra as empresas de água e o governo. «Ninguém reagiu a nada disto», diz ele, secamente. «Interessante, não é? Porque sabemos que é tudo verdade. Se há algo a dizer, é que foi minimizado.» Pergunto-lhe por que razão acha que a EA, agora «a nadar em dinheiro», não voltou a investir e a regulamentar adequadamente os derrames de esgoto. «Porque diria que o Defra [o Departamento de Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do governo] lhes disse para não o fazerem. A política do Defra é que não se investigam os casos das categorias três e quatro.»

Anteriormente, sentia alguma simpatia pela EA devido aos severos cortes no financiamento público, e de facto cito Sir James Bevan a dizer «recebe-se a regulamentação pela qual se paga» no meu livro. Agora sabemos, graças ao WASP e ao Dirty Business, que a EA tinha, de facto, dinheiro para investigar, graças à sua lucrativa «regulamentação financiada por taxas». Mas agora a EA estava literalmente a soldo das empresas de água. Ash ri-se, dizendo que «recebes a regulamentação pela qual pagas» foi «uma formulação inteligente. Sim, recebes a regulamentação pela qual pagas, e quem é que paga? A indústria da água. Eles estão a receber a regulamentação pela qual pagam.»

A WASP também descobriu uma «porta giratória de emprego» entre as empresas de água e a Agência do Ambiente, tendo-se verificado que mais de 200 funcionários da EA eram acionistas de empresas de água. O principal diretor não executivo da Agência do Ambiente do Noroeste entre 2011 e 2017 era ele próprio acionista e, anteriormente, diretor de outra das «Big 10», a United Utilities. O próprio Bevan deixou a EA e juntou-se imediatamente ao conselho de administração da Welsh Water.

O maior choque e escândalo de todos em «Dirty Business», no entanto, é a história verídica de Heather Preen, de oito anos, que morreu duas semanas após contrair a bactéria E. coli em 1999. Para minha vergonha, eu não conhecia a sua história antes de ver o programa, e acompanhar o desenrolar dos acontecimentos ao longo da minissérie de três episódios foi profundamente comovente. Os realizadores do programa intercalam flashbacks da história de Heather e da sua família com as investigações mais recentes de Ash e Peter na WASP. Eu não sabia o desfecho — dei por mim a esperar que se tratasse apenas de uma doença grave. Quando ela morre nos braços dos pais, é devastador. Mas esta história humana, na sua forma mais crua, eleva o escândalo das águas residuais para além de noções abstratas de dividendos dos acionistas e supervisão regulatória. Trata-se, acima de tudo, de saúde pública. A nossa saúde. A vida dos nossos filhos.

Heather, de Birmingham, morreu no 12.º dia de umas férias em família em Dawlish Warren, Devon. A família tinha passeado pela praia e brincado na água, sem saber que se encontrava perto de um tubo de escoamento de águas residuais. Numa entrevista recente ao programa BBC Breakfast, após o lançamento de «Dirty Business», a mãe de Heather, Julie Maughan, afirmou: «A forma como a Heather morreu foi horrível — na verdade, ela foi envenenada. Pedi [aos realizadores do programa] para se certificarem de que transmitiam isso às pessoas… Senti-me realmente ouvida e compreendida — as cenas são tão sensíveis e poderosas.» Mark Preen, o pai enlutado de Heather, suicidou-se em 2016.

Ash informa-me que ele e Julie Maughan estão agora a trabalhar em conjunto com o objetivo de lançar uma investigação sobre a E. coli contraída a partir de esgotos na água.

A South West Water, empresa responsável pela rede de esgotos em Dawlish, emitiu uma declaração à BBC em resposta ao programa «Dirty Business», afirmando que «as circunstâncias relativas às infraestruturas de águas residuais e à regulamentação no final da década de 1990 eram muito diferentes das atuais» e alertando contra a «revisitação de acontecimentos históricos através da dramatização». No entanto, logo abaixo da notícia no site da BBC encontram-se duas manchetes recentes dos últimos dois anos: «E. coli em local de banhos 20 vezes acima dos padrões mínimos» — referindo-se a uma área da South West Water — e «Os derrames de esgotos nos rios e mares de Inglaterra por parte das empresas de água mais do que duplicaram no ano passado.» Só em 2024, a Surfers Against Sewage recebeu 1.853 relatos de doenças através da sua aplicação Safer Seas & Rivers Service — uma média de cinco pessoas a adoecer por dia.

O atual governo do Reino Unido afirma que a sua Lei de Medidas Especiais para a Água (2025) visa resolver o escândalo dos esgotos, reforçando a regulamentação, introduzindo penas de prisão para os executivos, proibindo bónus e permitindo multas mais rápidas e automáticas por poluição. Os ministros têm afirmado repetidamente que retirar as empresas de água da propriedade privada seria demasiado complexo e dispendioso. Em resposta, Ash afirma que a lei está em vigor há mais de um ano e não tem funcionado. «Continuam a contar com a poluição ilegal e não estão a cumprir o que a lei lhes exige. Nada mudou.» Quanto ao custo e à complexidade de devolver as empresas de água à propriedade pública, ele afirma que seria muito mais barato do que o sistema atual. «Ficaríamos imediatamente 33 pence por libra melhor... Todos podem ver a sua conta reduzida.» Esses 33% correspondem ao montante pago para pagar a dívida das empresas de água. «Está a ser extraída uma quantia absurda de dinheiro dos contribuintes. Portanto, só por não fazer isso, o país ficará em muito melhor situação.»

Para aproveitar a indignação pública suscitada pelo documentário «Dirty Business» e forçar o governo a agir, Ash e Peter lançaram agora uma petição ao governo para a realização de um referendo sobre a propriedade do nosso setor da água. Uma petição que atinja 100 000 assinaturas será debatida no parlamento (e já ultrapassou esse número). Pergunto a Ash: porquê um referendo? Precisamente, diz Ash, porque «na verdade, ninguém quer um referendo». O país ainda está a recuperar das consequências do referendo do Brexit, há dez anos; a mera ameaça de outro referendo pode ser suficiente para forçar a mão do governo. Há um precedente. A Escócia não seguiu a Inglaterra e o País de Gales na privatização da água na década de 1990, em parte graças a um referendo local. Quando questionados «Concorda com a proposta do governo [de privatizar] os serviços de água e esgotos?», 97,2% (1 194 667 pessoas) votaram contra a privatização. Há todos os motivos para acreditar que uma votação inglesa resultaria numa vitória esmagadora semelhante, especialmente na sequência das provas contundentes compiladas pela WASP e por outros. De acordo com uma sondagem da We Own It, 82% da população britânica quer que a água volte a ser gerida pelo setor público.

Na Escócia, onde a água continua a ser propriedade pública, a conta média anual da água é 107 libras mais barata do que em Inglaterra. Um estudo da Universidade de Greenwich sugere que a Inglaterra tem vindo a pagar, em média, mais 2,3 mil milhões de libras por ano em água e esgotos do que pagaria se as empresas de água tivessem permanecido sob propriedade estatal.

«Trata-se de perguntar: “Não achas que as pessoas que são vítimas desta situação deveriam ter uma palavra a dizer sobre o assunto?”», diz-me Ash. «Trata-se de democracia… O objetivo é fazer com que o governo comece a ouvir, a debater e a discutir a verdade sobre o assunto». Quando isso acontecer, com o apoio da pressão pública, o resultado será finalmente «ditado por factos, provas e integridade, em vez de mentiras, batota e suborno». A petição decorre até outubro de 2026. Alcançou a sua meta de 100 000 assinaturas na primeira semana. Ash espera agora chegar ao milhão. Uma petição separada da Surfers Against Sewage, apelando ao fim do sistema de água privatizado, tem perto de 300 000 assinaturas.

Entretanto, as empresas de abastecimento de água na Inglaterra e no País de Gales continuam a lucrar com a poluição.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

ÉVORA E BEJA COMBATEM CALOR COM MUDANÇAS NA PAISAGEM URBANA

  • Évora e Beja lideram a transformação urbana no Alentejo através de um projeto-piloto nacional desenhado para reverter o efeito das ilhas de calor e baixar as temperaturas extremas no verão. A estratégia assenta na reconversão de pavimentos áridos, plantação massiva de árvores e instalação de sistemas inovadores de arrefecimento natural por água. As intervenções estruturais nas duas cidades alentejanas vão muito além da jardinagem tradicional, consistindo em engenharia urbana focada na resiliência climática para reter a humidade e bloquear a radiação solar direta. Uma das principais frentes de obra foca-se na substituição do asfalto escuro e dos pavimentos cimentados por pisos permeáveis de cores claras, que refletem a radiação solar e evitam a acumulação de calor no solo. Em paralelo, decorre a plantação estruturada de árvores de copa densa e espécies autóctones, selecionadas especificamente por necessitarem de pouca água e por garantirem a criação imediata de vastas zonas de sombra natural. Para maximizar o arrefecimento por evaporação, os projetos integram a instalação de espelhos de água dinâmicos, fontes decorativas, pulverizadores urbanos e pequenas bacias de retenção que ajudam a humedecer o ar circundante. Estas medidas são interligadas através de redes de conforto climático, que consistem em corredores pedonais sombreados por toldos térmicos e vegetação vertical, permitindo a circulação segura dos cidadãos entre as áreas residenciais e os novos refúgios climáticos da cidade. Em Évora, os trabalhos de requalificação do Rossio de São Brás já arrancaram. O antigo espaço descampado, historicamente exposto ao sol e responsável por acumular níveis críticos de calor, está a ser transformado num grande pulmão verde multifuncional preparado para acolher a abertura da Capital Europeia da Cultura 2027. Em Beja, o foco coi a criação de micro-oásis urbanos e caminhos sombreados distribuídos por pontos críticos da cidade, especialmente junto a habitações e infraestruturas sociais. O município delineou uma rede de percursos urbanos frescos equipados com pontos de água potável gratuita e áreas de descanso protegidas do sol, visando mitigar o impacto do calor extremo na saúde de franjas mais vulneráveis da população, como idosos e crianças, com um horizonte de conclusão previsto até 2027. Fonte.
  • Limpeza florestal em Leiria cria excesso de madeira e ninguém a quer comprar. FonteOs campeões das celuloses querem-na mais barata, e o que é feito das centrais de biomassa?

DINAMARCA PINTA ESTRADA DE VERMELHO PARA FACILITAR CIRCULAÇÃO DE MORCEGOS

  • A Dinamarca está a desligar a luz branca dos seus candeeiros de rua e a pintar uma estrada de vermelho para resolver uma crise noturna que quase ninguém repara: a luz urbana estava a bloquear o caminho dos morcegos. Fonte.
  • “Grande parte da vida moderna está concebida de forma a que nunca se veja diretamente o custo ambiental do que consumimos. Os alimentos surgem embalados e prontos a consumir. Recebemos eletricidade através das paredes. O lixo desaparece do passeio. As compras online transformam a produção e o transporte globais num único clique. Às vezes pergunto-me como seria diferente a forma como as pessoas pensariam sobre o consumo se a extração, a poluição, os resíduos e a destruição de habitats associados à conveniência do dia a dia fossem fisicamente visíveis para nós em tempo real. Não estou a tentar ser pessimista. Apenas sinto que a desconexão ambiental pode ser uma das maiores barreiras a uma mudança significativa.” Anónimo.
  • A InnoEnergy, uma das principais entidades europeias de investimento em tecnologias limpas, afirma que as empresas do seu portefólio poderão evitar 2,3 gigatoneladas de CO2 equivalente atá 2030, o que seria o mesmo que retirar 534 milhões de veículos de combustão interna da estrada durante um ano. Uma investigação independente revela, no entanto, que essas estimativas aceites pela EU vêm das próprias empresas beneficiárias, sem utilizarem uma metodologia uniforme e que, na sua grande maioria se recusam divulgar os seus números individualmente. Fonte.

REFLEXÃO

CEGADAS PELA POLUIÇÃO LUMINOSA: AS CIDADES PROCURAM RECUPERAR A NOITE
Jeannette Cwienk, DW. Revisão: O’Lima.

Cidades de todo o mundo, como Frankfurt, estão inundadas de luz. Imagem: S. Ziese/blickwinkel/picture alliance

Um poste de iluminação mesmo em frente à sua casa pode facilitar a entrada em segurança à noite — mas não consegue tentar dormir sem cortinas grossas. Esse é apenas um exemplo de como a luz artificial é útil em muitos aspetos da nossa vida quotidiana, mas também constitui um grande problema.

O nosso mundo está mais iluminado por luz artificial do que nunca. Um estudo norte-americano recente revelou que as emissões de luz artificial à noite aumentaram cerca de 16% a nível global entre 2014 e 2022, de acordo com uma investigação publicada na revista Nature. As áreas que registaram um aumento da luminosidade também viram a intensidade da luz aumentar, em média 9%.


O excesso de luz artificial pode fazer-nos mal

Podemos desligar fontes de luz como computadores, telemóveis, televisões e candeeiros. Mas outras fontes estão fora do nosso controlo: iluminação pública, faróis de automóveis, monumentos iluminados, painéis publicitários intermitentes e holofotes em estaleiros de construção, montras, paragens de autocarro, parques de estacionamento, campos desportivos e estádios, para citar apenas alguns exemplos.

A exposição excessiva à luz artificial pode perturbar o nosso ciclo natural de sono-vigília, desestabilizando o nosso equilíbrio hormonal e aumentando o risco de distúrbios metabólicos, como diabetes, depressão e obesidade.

A cor da luz também tem um efeito. Quanto mais fria, ou mais branca, for a luz, mais se assemelha à luz do dia — e mais suprime a hormona melatonina, que é o que nos faz sentir sonolentos à noite.

Nenhuma outra condição ambiental permaneceu inalterada ao longo dos milénios como a luz natural do sol, da lua e das estrelas. Todos os seres vivos adaptaram-se a este ritmo. Mais de metade de todas as espécies são noturnas — se as noites se tornarem mais claras, isso poderá ter consequências devastadoras.

As aves migratórias utilizam a lua e as estrelas para se orientarem. A luz artificial pode distraí-las e desviá-las das suas rotas, levando a desvios e à exaustão. Outras aves podem ser induzidas a pôr os seus ovos demasiado cedo na estação, quando ainda não há insetos suficientes para alimentar os filhotes recém-nascidos.

Insetos como traças e besouros usam a luz do céu noturno estrelado para encontrar alimento e parceiros de acasalamento. Mas as luzes artificiais são muito mais brilhantes e inevitavelmente atraem-nos para longe. Eles circulam continuamente em torno da fonte de luz até caírem no chão, mortos de exaustão. Biliões são mortos desta forma todos os anos, um número devastador quando os insetos já estão ameaçados pela poluição, pela diminuição da biodiversidade e por outros perigos.

Mamíferos noturnos, como ouriços e morcegos, evitam geralmente locais bem iluminados; no nosso mundo mais iluminado, o seu habitat está a encolher progressivamente. E a luz pode criar uma barreira artificial que algumas espécies de peixes não atravessam. As luzes projetadas na superfície da água a partir de uma ponte, por exemplo, podem impedir as enguias de nadar — um grande problema durante o seu período migratório de desova.

Os céus noturnos mais iluminados na China e na Índia

O estudo publicado na revista Nature revelou que o aumento das emissões de luz noturnas desde 2014 foi mais acentuado na Ásia, particularmente nas regiões em crescimento económico da China e da Índia.

Nos EUA, a poluição luminosa aumentou mais na Costa Oeste devido ao crescimento económico e populacional nas cidades da Califórnia. A Costa Leste e partes do Centro-Oeste dos EUA, em contrapartida, tornaram-se mais escuras — em parte devido ao encolhimento do setor industrial, ao menor número de residentes e à iluminação mais eficiente em termos energéticos.

Na Europa, a intensidade luminosa global, em comparação com 2014, diminuiu 4%, tendo os investigadores observado uma redução da poluição luminosa em toda a região. Esse declínio foi mais notório em França (33%), no Reino Unido (22%) e nos Países Baixos (21%). Ao contrário do que acontece nos EUA, os céus noturnos mais escuros na Europa nem sempre são resultado de um declínio económico. Em França, por exemplo, novos regulamentos exigem agora que a iluminação de todos os edifícios comerciais, montras, parques de estacionamento, parques públicos e locais de património cultural seja desligada, o mais tardar, à 1 da manhã.

Outros países europeus abordaram a questão do céu noturno cada vez mais iluminado muito mais cedo. A República Checa aprovou a primeira lei do mundo contra a poluição luminosa em 2002, que estipula, entre outras regras, que a iluminação pública só pode ser direcionada para o solo, sob pena de uma multa superior a 3.000 € (3.500 $). A Eslovénia tem vindo a combater a poluição luminosa desde 2007, com um regulamento que limita o consumo anual de eletricidade para iluminação por residente a 50 quilowatts-hora. Outras regras garantem também que a iluminação pública não brilhe com demasiada intensidade à noite em zonas residenciais.

Fulda, a «cidade estrela» da Alemanha, ilumina o caminho

A Alemanha ainda não aprovou qualquer legislação nacional contra a poluição luminosa. No entanto, a Lei Federal de Conservação da Natureza está atualmente a ser atualizada, numa tentativa de controlar este fenómeno. A nível regional, o estado de Baden-Württemberg já aprovou uma lei que proíbe a iluminação de fachadas entre abril e setembro — os meses em que a vida selvagem está mais ativa na Alemanha.

A cidade de Fulda, a cerca de 100 quilómetros a nordeste de Frankfurt, é pioneira no que diz respeito à iluminação. A Catedral de Fulda é iluminada com holofotes direcionados com precisão, em vez dos holofotes convencionais. Nos novos bairros fora do centro da cidade, os passeios e as ciclovias são iluminados apenas a 20 %; quando alguém passa, os detetores de movimento aumentam brevemente a intensidade das luzes de rua para o máximo.

«As armadilhas para insetos instaladas antes e depois da entrada em vigor destas medidas demonstraram que as novas luzes matam menos 90 % de insetos», afirmou Marcel Cire, engenheiro ambiental do departamento de planeamento urbano de Fulda. Ele referiu que Fulda estava a começar a instalar os novos postes de iluminação na cidade, substituindo as lâmpadas antigas à medida que necessário, para manter os custos baixos.

Fulda tem sido reconhecida pelos seus esforços para trazer de volta a noite. A DarkSky International, uma organização sem fins lucrativos sediada nos EUA que sensibiliza para os efeitos nocivos da luz artificial excessiva, designou a cidade como a primeira «cidade das estrelas» da Alemanha em 2019. Juntou-se a outros 11 locais certificados no país com «condições de céu escuro e práticas de proteção excecionais».

Trazer de volta o pirilampo

Como demonstrado na República Checa, na Eslovénia e em Fulda, as luzes devem iluminar apenas onde for absolutamente necessário — passeios, por exemplo, e não todo o céu noturno. As luzes reguladas por sensores de movimento são uma boa alternativa à iluminação exterior sempre acesa.

Quanto mais quente for a luz, menos prejudicial é — para os seres humanos e outras criaturas. As organizações de conservação recomendam a utilização de uma temperatura de cor não superior a 3000 Kelvin para a iluminação exterior, uma luz quente, amarelo-esbranquiçada, comummente utilizada em salas de estar e quartos.


Como reduzir a poluição luminosa

Seguir estas recomendações pode ajudar a trazer de volta os pirilampos aos nossos parques e jardins. O pirilampo é outro inseto ameaçado pela poluição luminosa, uma vez que a luz artificial impede que os machos e as fêmeas se encontrem.

O simples facto de fechar as cortinas em casa à noite pode ajudar não só a bloquear o brilho incómodo proveniente do exterior, mas também a impedir que a luz interior perturbe a vida noturna no exterior.

BICO CALADO

Dimitar Dilkoff/AFP/Getty Images
  • No espaço de uma semana, a Jerónimo Martins, dona dos supermercados Pingo Doce, sofreu duas derrotas pesadas na Justiça na sua batalha para silenciar a associação de defesa do consumidor Citizen’s Voice. A Jerónimo Martins/Pingo Doce tentara silenciar denúncias sobre discrepâncias entre preços anunciados e preços cobrados. Os tribunais entenderam aquilo que numa democracia madura deveria ser evidente: a defesa dos consumidores e a liberdade de expressão não se calam com processos intimidatórios. Fonte.
  • Queimaduras solares graves em “estudo” que, afinal, é marketing. Fonte.
  • Um podcast do Observador sobre a covid-19 e patrocinado pela Hipra, empresa que comercializa uma "nova vacina" contra a doença. Nos três primeiros episódios foram convidados médicos com relações profissionais e financeiras com empresas que comercializam vacinas contra a covid-19 e que integraram o conselho consultivo da Bimervax, a vacina da Hipra. Apesar de, em pelo menos dois episódios, existirem referencias implícitas e comentários favoráveis à vacina do patrocinador, nem o Observador nem os médicos declaram os múltiplos conflitos de interesse existentes. Fonte.