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sexta-feira, 26 de junho de 2026

ALENTEJO: OBRAS NA BARRAGEM DO PISÃO SUSPENSAS

  • O Tribunal Central Administrativo Sul rejeitou o recurso apresentado pela Agência Portuguesa do Ambiente e pelos promotores da Barragem do Pisão, mantendo a suspensão provisória da Declaração de Impacte Ambiental. Esta decisão impede o avanço dos trabalhos do Aproveitamento Hidráulico de Fins Múltiplos do Crato, uma infraestrutura de grande escala planeada para o Alto Alentejo, até que exista uma sentença final sobre a conformidade legal do projeto. Cinco Organizações Não Governamentais de Ambiente (GEOTA, LPN, Quercus, SPEA e ZERO) aplaudiram a resolução judicial, destacando que a prioridade deve ser a salvaguarda dos ecossistemas contra danos severos e potencialmente irreparáveis. Fonte.
  • A gigante química Chemours Co. Foi multada em 22,5 milhões de dólares por descargas ilegais, que se prolongaram por vários anos, de «químicos eternos» sintéticos utilizados na fabricação de produtos resistentes à água, à gordura e às manchas. A empresa está ainda intimada a investir 90 milhões de dólares ao longo de 15 anos para mitigar as descargas de PFAS nos estados da Virgínia Ocidental, Carolina do Norte e Nova Jérsia. Fonte.

BICO CALADO

A guerra acaba quando eu disser.

  • "À medida que o apoio público a Israel continua a diminuir no contexto das guerras em Gaza, no Líbano e no Irão, uma disposição pouco notada, escondida na Lei de Autorização da Defesa Nacional de 2027, poderá redefinir fundamentalmente a relação entre Washington e Tel Aviv. Os críticos alertam que a Secção 224 — a «Iniciativa de Cooperação Tecnológica de Defesa entre os Estados Unidos e Israel» — ultrapassaria a ajuda militar anual e avançaria para uma integração militar-industrial total, criando uma infraestrutura permanente que une os setores de defesa dos dois países, ao mesmo tempo que reduz a transparência, a supervisão do Congresso e a responsabilização perante o público." Joshua Scheer, O Congresso avança discretamente para a fusão das forças armadas dos EUA e de IsraelSheerpost.
  • “Israel está a sabotar as negociações com o Irão e a afastar o seu último aliado importante, ao recusar-se a cessar os seus ataques ao Líbano e a retirar-se da ocupação do sul. Está determinado a reacender uma conflagração regional que poderia levar o Irão a fechar definitivamente o Estreito de Ormuz e a mergulhar a economia mundial numa depressão global. E continua o seu genocídio em Gaza. Israel está contaminado pelo racismo e pela violência genocida. Está cego por uma repugnante superioridade moral. Está corrompido por uma classe de bilionários sionistas nos EUA que usam a sua riqueza para moldar a política externa de modo a servir os interesses israelitas. Está equipado com um arsenal nuclear que as autoridades israelitas têm repetidamente ameaçado utilizar. É uma ameaça para a região. É uma ameaça para si próprio. E é uma ameaça para nós.” Chris Hedges, A ruptura suicida de Israel com os EUASubstack.
  • As forças armadas dos EUA proibiram as máquinas de jogo nas suas bases nacionais em 1951. No entanto, isso não impediu a prática do jogo nas bases militares norte-americanas no estrangeiro, onde o Pentágono tem vindo a gerir uma operação de jogo que gera cerca de dezenas de milhões por ano. Fonte.
  • Enfermeira sofre acidente em serviço e Hospital lusíadas manda-a embora. A enfermeira estava em período experimental. O Hospital recentemente anunciou um investimento de 30 milhões num novo hospital em Sintra e 60 milhões num novo hospital em Faro. Fonte.
  • O Ambiente Ondas3 está de boa saúde e continua a recomendar-se.







LEITURAS MARGINAIS

A TRAIÇÃO DO PEOJETO EUROPEU
Hugo Dionísio, SCF. Via A Estátua de Sal.


Como a deriva belicista subverte o direito comunitário e enriquece o complexo militar-industrial norte-americano.

O problema da União Europeia não passa somente por um desfasamento total entre o que representa e o significado semiótico da sua própria designação – “união” –, como o facto de utilizar e almejar a inconsistente imagem de “união” que nos surge na media corporativa e nos discursos dos seus dirigentes, basear-se apenas e tão só no fomento de que a Federação Russa é um inimigo vital, em torno do qual toda a estratégia territorial, militar, industrial e comunicacional, deve assentar. Quando observamos o assédio da UE a um país asiático como a Arménia, especialmente depois de rejeitada a Turquia, como podemos não constatar que, hoje, a União Europeia baseia toda a sua existência neste logro, que tenta alimentar comportando-se como uma extensão da NATO e, logo, dos EUA?

O desfasamento é tal que, um dos mais importantes ideólogos da construção europeia, de seu nome Robert Schuman, acreditou que tal construção se faria pela fusão dos interesses económicos, ao invés da força das armas, como haviam tentado Hitler, Napoleão e tantos outros antes deles, e que essa fusão de interesses económicos conduziria à paz. Partindo de tal concepção, Schuman idealizou que as matérias-primas fundamentais, de então, como o carvão e o aço, deveriam ser colocadas sob uma autoridade europeia e supranacional comum, tornando “materialmente impossível” a guerra entre França e Alemanha. Para os construtores e ideólogos da construção europeia, o carvão e o aço tinham o mesmo papel que hoje a energia e os minerais críticos, algo que tornou possível a coexistência entre a Europa ocidental e a União Soviética ou a Federação Russa.

O projeto europeu nasceu, portanto, e pelo menos na Teoria, como um projeto de desarmamento e de troca da força das armas, pela força económica daqueles que eram, à data, alguns dos países economicamente mais desenvolvidos do mundo.

Setenta e seis anos depois, a União Europeia tornou-se capaz de gastar 90 mil milhões de euros em empréstimos, para financiar um país em guerra, de criar um Fundo Europeu de Defesa, lançar o plano “ReArm Europe” e aprovar instrumentos como o EDIRPA, o ASAP e o EDIP – todos destinados a transformar o orçamento comunitário num motor de produção de armamento. A pergunta que se impõe vai para além da conformidade de tais políticas para com os desígnios iniciais do projeto – usar o poder da economia como arma de construção da paz –, mas também, se tais mecanismos cumprem, ao menos, para com a própria legislação europeia. Será que ainda existe “União Europeia”?

O n.º 2 do artigo 41.º do Tratado da União Europeia é muito claro: “As despesas operacionais (…) ficarão igualmente a cargo do orçamento da União, com excepção das despesas decorrentes de operações que tenham implicações no domínio militar ou da defesa e nos casos em que o Conselho, deliberando por unanimidade, decida em contrário”. Esta redacção não é de modo nenhum ambígua, visando duas coisas muito importantes: 1. Manter a UE e as suas instituições afastadas, operacionalmente, das coisas da Guerra; e, 2. Impedir que a União Europeia financie despesas militares. Ler este artigo hoje parece estarmos perante uma anedota e diz-nos o quão longe tem sido a traição dos “princípios e valores” que tanto apregoam Von der Leyen e Kaja Kallas. Quanto mais os apregoam, mais deles se afastam.

O TFUE é muito claro a este respeito, na alínea d) do seu artigo 32.º diz que “a Comissão orientar-se-á pela necessidade de evitar perturbações graves na vida económica dos Estados-Membros e de assegurar o desenvolvimento racional da produção e a expansão do consumo na Comunidade”. Gostava de saber onde ficou esta norma na decisão de acabar com o consumo de gás russo, aplicar 21 (?!?!) pacotes de sanções e prescindir de todos os factores de produção garantidos pela Federação Russa, com base em argumentos – de ofensa a outros Estados – que não encontram o mesmo tipo de resposta em casos mais graves como os dos EUA e Israel.

É inequívoco que a Comissão Europeia contorna constantemente a proibição que diz respeito às restrições quanto à sua interferência em matéria de política de segurança e assuntos militares, recorrendo amiúde à criatividade malandra, perpetrada por todo um gabinete jurídico que, tal como a Guerra, também nos custa milhões. Tornando-se o que nunca poderia vir a ser, a Comissão Europeia dedica o seu tempo a encontrar formas de violar os tratados que jurou defender, provocando, com as suas acções – em representação dos interesses inconfessáveis que a dominam –, precisamente o contrário do que prevê a legislação a que teria de se submeter.

Por exemplo, no caso dos empréstimos à Ucrânia (90 mil milhões) invoca-se o artigo 122.º do TFUE – a cláusula de “dificuldades excepcionais” – como se a geopolítica fosse uma catástrofe natural e como se a Ucrânia fosse um Estado da União Europeia, que justificasse a aplicação de tal mecanismo. Já o ReArm Europe (150 mil milhões) usa a mesma base legal, argumentando que os empréstimos são realizados aos Estados-Membros e não à Ucrânia. Para que tudo seja menos evidente, cria-se a narrativa de que a Federação Russa vai atacar a NATO amanhã, daqui a um ano, dois, três, ou dez, consoante os calendários e as pretensões de rearmamento através do dinheiro dos contribuintes, e, assim, o perigo passa a ser para a própria União Europeia, comprovando, desta forma, a sua relação instrumental com a NATO. Assim, a Ucrânia recebe dinheiro e os Estados-Membros da UE podem rearmar-se porque “ocorrências excepcionais” que não podem controlar, surgiram, subitamente, por graça divina.

Um artigo que se refere a “dificuldades de aprovisionamento de certos produtos, designadamente energia”, “calamidades naturais”, é usado para justificar, não apenas o enviesamento belicista, mas também a centralização de cada vez mais competências na Comissão Europeia, uma estrutura burocrática não eleita e muito longe da vida do europeu comum. Energia, armas, semicondutores, tudo passou a ser centralizado ao abrigo de circunstâncias excepcionais que só existem por incompetência da própria UE.

Já a reindustrialização em torno da defesa, recorre ao mecanismo do artigo 173.º do TFUE (competitividade industrial), como se a produção de munições e tanques fosse uma questão de mercado interno. Não apenas a UE e a Comissão Europeia, passam a concentrar-se em matérias que não era suposto concentrarem-se, como passam a fazer leituras enviesadas dos tratados, encontrando em todas as previsões, uma justificativa para a Guerra e para o desvio de verbas, da área social, para o complexo militar-industrial. Uma UE que entregou a competição pela 4ª revolução industrial aos EUA, que deixou cair na amargura a estratégia de transição energética e a energia atómica, vem usar o artigo que trata da “capacidade concorrencial” económica, não para a economia, mas para a Guerra. Para a competição militar.

Isto não é interpretação jurídica! É uma técnica de contorno sistemático. O artigo 24.º, n.º 1 do TUE proíbe a adopção de actos legislativos na Política Externa e de Segurança Comum (PESC). A solução? Não adoptar os instrumentos sob a insignia da CFSP. O artigo 41.º, n.º 2 do TUE proíbe a utilização do orçamento da UE para operações militares. A solução? Criar instrumentos intergovernamentais “off-budget” (como o EPF – European Peace Facility (que é para a Guerra e não para a paz)) ou invocar bases legais industriais. O artigo 4.º, n.º 2 do TUE estabelece que a segurança nacional é da “exclusiva responsabilidade de cada Estado-Membro”. A solução? Centralizar o financiamento da defesa em Bruxelas.

A Comissão, o Parlamento e os dirigentes nacionais que participam no Conselho sabem que os Tratados não foram feitos para isto. Como o sabem muitas caixas de ressonância com tempo de antena diário! Um estudo do Instituto Sueco de Estudos Políticos Europeus (SIEPS) questiona precisamente se esta “utilização criativa de bases legais”, acusando-a de reflectir um “desalinhamento crescente entre os Tratados actuais e a resposta da UE a uma realidade geopolítica em evolução”. O problema é que, ao contrário do que nos querem fazer crer, o desalinhamento não é uma fatalidade geológica – é uma escolha política. E escolhas políticas erradas e antidemocráticas, costumam ter consequências jurídicas.

Contudo, e depois de tudo isto, mesmo assim, o caso mais escandaloso é mesmo o dos empréstimos à Ucrânia. A Hungria, a Eslováquia e a República Checa opuseram-se. Sob as regras da PESC. De acordo com as regras e tratando-se de segurança comum, tal oposição deveria ter automaticamente bloqueado o processo – a unanimidade é a regra e não por acaso. O objectivo é não fazer Guerra e seguir o caminho da economia que conduz à paz, lembram-se? Mas a Comissão recorreu ao artigo 332.º do TFUE, argumentando com a lógica da “cooperação reforçada”, permitindo que 26 Estados avançassem sem os dissidentes, mas usando normas que não haviam sido construídas para situações como esta. Ou seja, violando o princípio da especialidade das normas, que devem ser usadas para o que foram previstas. Mais uma estratégia sabuja para contornar a legislação europeia.

Isto constitui, em termos constitucionais, um golpe. A cooperação reforçada foi concebida como último recurso, para quando a integração não pode avançar por unanimidade em áreas de competência partilhada. Mas a PESC não é uma área de competência partilhada como as outras. É uma área de competência exclusiva dos Estados-Membros, ou seja, não partilhada. É uma área onde a unanimidade é a própria alma do compromisso soberano que deveria enformar esta União Europeia, uma UE que vive e se alimenta da soberania dos povos. Usar a cooperação reforçada para contornar o veto de um Estado-Membro em áreas que nos podem levar à Guerra, a uma Guerra mundial, é como usar uma ambulância para fugir da polícia: tecnicamente possível mas moralmente inaceitável.

O que está em jogo para os povos europeus, contudo, não é apenas a legalidade formal. É o princípio da confiança mútua entre Estados-Membros. Se a maioria puder impor a Guerra à minoria, a UE deixa de ser uma união de soberanos e torna-se uma federação coerciva – sem, no entanto, ter o mandato democrático de uma federação. E esta é o logro para o qual nos conduziram os dirigentes nacionais, nomeadamente todos os governos Portugueses desde a entrada na então CEE. A cada passo, contribuíram para e aprofundaram a natureza puramente colonial desta União Europeia.

Mas há, no entanto, uma traição ainda mais profunda. A deriva belicista da UE não fortalece a Europa. Fortalece, especialmente, os Estados Unidos. Os números são implacáveis. Entre 2020 e 2024, as importações de armas dos EUA para a Europa – incluindo a Ucrânia – mais do que triplicaram em relação ao quinquénio anterior. A quota dos EUA nas exportações globais de armamento subiu de 35% para 43%. A Alemanha, historicamente reticente em matéria militar, viu as suas importações de armas aumentarem 334%, cerca de 70% das quais provenientes dos EUA.

O F-35 é o símbolo perfeito desta dependência. Mais países europeus compraram este caça americano desde a invasão da Ucrânia. Todos passaram a depender do governo dos EUA e da Lockheed Martin para actualizações de software. O avião foi concebido para usar armas americanas e adaptá-lo a armamento europeu exigiria aprovação de Washington – algo que não é realista. Aliás, a quebra no consórcio de construção do caça de sexta geração França-Alemanha, não deverá ser alheia a esta realidade.

O plano “ReArm Europe” de 150 mil milhões de euros, apesar do nome pomposo, não é, nem de longe nem de perto, um plano de autonomia europeia. Trata-se, isso sim, de um plano de compra. E quem vende? Os EUA. O Presidente Trump exigiu explicitamente que os parceiros da NATO aumentassem o gasto em defesa para 5% do PIB e comprassem armas americanas.

O “Buy European” de Berlim – que prevê apenas 8% de compras a fornecedores americanos – é uma reacção tardia e ainda assim incompleta. O problema não é apenas quem vende as armas, mas sim quem controla a tecnologia. Os sistemas de inteligência militar, as bases de dados de targeting, os softwares de defesa, a Inteligência Artificial – tudo isto depende dos EUA. É a própria Chatham House quem diz que “dados de sistemas de armas americanos são enviados automaticamente para os EUA, actualizações cruciais de software dependem de fabricantes americanos”.

A traição é dupla. Trata-se de uma traição aos Tratados – que a UE viola com a conivência de um exército de juristas criativos, para não lhes chamar outra coisa, sendo também uma traição ao espírito do projeto europeu, pelo menos, aquele que havia sido vendido para consumo interno.

Schuman poderia não ser ingénuo, mas sabia que se a integração não se fizesse pela paz, nunca se faria. Pelo menos assim o dizia. Não obstante, podemos sempre dizer que, um projeto de Guerra apenas pode dividir, porque é isso que a Guerra faz, divide, ao invés de unir!

A UE está a fazer exactamente isso. Está a usar o orçamento comunitário – financiado por contribuintes europeus que pagam impostos para hospitais, escolas e infraestruturas – para garantir empréstimos que financiam a indústria de defesa. Está a transformar o Banco Europeu de Investimento, historicamente proibido de financiar armamento, num banco de guerra. Está a aprovar regulamentos que obrigam a compra de produtos de defesa “europeus” – mas que, na prática, beneficiam empresas americanas com joint ventures na Europa e com diversos controlos de capital incorporados nas companhias europeias.

O argumento preferido dos defensores desta deriva belicista reside na “excepcionalidade” do momento. Ao classificarem a invasão russa da Ucrânia como um evento sem precedentes, arrastam todos os povos da UE para a ideia de que enfrentamos a inevitabilidade da adaptação. Poderiam apresentar-nos a inevitabilidade da denúncia e rejeição da Guerra, para que aponta a legislação europeia e internacional, aplicada na UE, mas não. Aproveita a excepcionalidade para não aplicar a lei que visava, precisamente, responder a tal situação.

Ao traírem o projeto europeu que venderam aos povos europeus e para o qual, muitas vezes de forma antidemocrática, os arrastaram, esta estirpe de dirigentes não trai apenas esse projeto. Trai tudo o que disseram que seria tal projeto, traem o que venderam, traem o que prometeram.

Houve quem, analisando a natureza profunda desse projeto o denunciasse desde sempre e acusasse tal empreitada de ser impossível, dada a relação de forças em confronto. Mas ter razão quando vem a desgraça, não é algo de que se orgulhe quem esteve nessa luta! A luta hoje reside em parar esta deriva para o abismo, sob pena de todos a ela capitularmos, uns conscientemente, uns culposamente e outros, ingenuamente!

FONTES E REFERÊNCIAS EXTERNAS

Empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia (2026-2027):
  • Conselho da UE, “Council finalises €90 billion support loan to Ukraine”, 23 de abril de 2026.
  • The Conversation, “EU agrees €90 billion loan to Ukraine, but squabbles over frozen Russian assets expose the bloc’s deep divisions”, 19 de dezembro de 2025.
Plano “ReArm Europe” (150 mil milhões de euros):
Serviço de Pesquisa do Parlamento Europeu (EPRS), “ReArm Europe Plan/Readiness 2030”, abril de 2025.

European Peace Facility (EPF) – instrumento “off-budget”:
  • Serviço de Instrumentos de Política Externa (FPI), Comissão Europeia.
  • European Law Blog, “The European Peace Facility: A Problem Of Democratic Accountability?”, 2 de fevereiro de 2026.
Base legal do artigo 122.º do TFUE (dificuldades excepcionais):
  • SIEPS (Instituto Sueco de Estudos Políticos Europeus), “Article 122 TFEU: The legal workaround to freeze Russian assets and possible repercussions”, 17 de dezembro de 2025.
  • Max Planck Institute, “Frozen assets: Hard compromises in the European Council”, 17 de abril de 2026.
Base legal do artigo 332.º do TFUE (cooperação reforçada) e veto da Hungria, Eslováquia e República Checa:
Max Planck Institute, “Frozen assets: Hard compromises in the European Council”, 17 de abril de 2026 (sobre a cooperação reforçada com 24 Estados-Membros).

Exportações de armas dos EUA para a Europa (2020-2024):
  • SIPRI (Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo), “Trends in International Arms Transfers, 2024”, março de 2025.
  • SIPRI, “Global arms flows jump nearly 10 per cent as European demand soars”, 9 de março de 2026.
Dependência tecnológica dos EUA e dados militares:
Chatham House, referências sobre dependência de sistemas de armas americanos e partilha de dados (citado no texto original; fonte específica a confirmar em publicações do Royal Institute of International Affairs).

Artigo 41.º, n.º 2 do TUE (orçamento da UE e operações militares):
Tratado da União Europeia (TUE), artigo 41.º, n.º 2.

Artigo 32.º, alínea d) do TFUE (desenvolvimento racional da produção):
Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), artigo 32.º, alínea d).

Artigo 173.º do TFUE (competitividade industrial):
Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE), artigo 173.º.

Artigo 24.º, n.º 1 do TUE (proibição de actos legislativos na PESC):
Tratado da União Europeia (TUE), artigo 24.º, n.º 1.

Artigo 4.º, n.º 2 do TUE (segurança nacional – exclusiva responsabilidade dos Estados-Membros):
Tratado da União Europeia (TUE), artigo 4.º, n.º 2.

Estudo do SIEPS sobre “utilização criativa de bases legais”:
SIEPS (Instituto Sueco de Estudos Políticos Europeus), publicações sobre desalinhamento entre Tratados e resposta da UE à realidade geopolítica.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

GREENWASHING QB

Ambiente Ondas3 / IA

Ainda não sabe o que é greenwasking, lavagem verde? Veja mais este exemplo, divulgado por um meio que se presta a isso“A Altri integra pela segunda vez consecutiva o ranking das empresas mais sustentáveis do mundo em 2026, ocupando o 495º lugar”. 
E quem avaliou? A mui insuspeita revista norte-americana Time, que, para tal, terá analisado exaustivamente o volume de negócios, capitalização bolsista e a notoriedade pública das 5.000 maiores e mais influentes empresas em todo o mundo. 
Andem-me a caçar!

AUSTRÁLIA: HERBICIDA PARAQUAT LEGAL

  • O herbicida paraquat, proibido em mais de 70 países, continuará a ser legal na Austrália, apesar de associações de doentes com Parkinson, cientistas e neurologistas defenderem que existe uma forte correlação entre a exposição direta a este produto e a incidência da doença. Será que a balança regulatória pende a favor da grande agricultura? Fonte.
  • Foi lançado o alerta: Não plante bambu perto de centros de dados!

BICO CALADO

  • O argumento sanitário da FIFA para introduzir pausas de hidratação dos jogadores num contexto de onda de calor não mais é do que uma manobra comercial. A ideia de dividir o jogo em quatro partes não é nova: já estava nos planos da FIFA desde 1994. A implementação destas pausas obrigatórias, anunciada não num congresso sobre saúde, mas numa reunião com as emissoras, transforma de facto o jogo em quatro períodos. Para as emissoras de televisão, trata-se de uma oportunidade lucrativa: cada pausa de 3 minutos oferece cerca de 2 minutos e 10 segundos de publicidade. Os lucros financeiros são colossais. A norte-americana Fox, que pagou 485 milhões de dólares pelos direitos, poderá recuperar mais de metade do seu investimento apenas com estes anúncios, cujos preços variam entre 200 000 e 750 000 dólares. No total, a FIFA terá disponibilizado mais de 10 horas de tempo publicitário acumulado ao longo de todo o mundial. Fonte.
  • A rastejar, professores são agora polícias das bigtecs. Raquel Varela.
  • Pelo menos 135 escolas públicas encerraram no Texas desde o final de 2023. Os encerramentos mais do que duplicaram, passando de 22 em 2024 para 50 em 2025, e só na primeira metade de 2026, pelo menos mais 55 escolas já foram encerradas. Os encerramentos não se limitam a uma única região ou grupo demográfico. Têm afetado todas as partes do estado — tanto as zonas urbanas, como as rurais e suburbanas. Para além dos cortes orçamentais, a expansão das escolas charter e o novo programa de vouchers para escolas privadas têm desviado alunos e financiamento estatal das escolas públicas. Fonte.
  • O péssimo historial de Starmer como primeiro-ministro mal foi mencionado nos seus obituários políticos. Em particular, a sua cumplicidade no genocídio de Gaza foi praticamente apagada; nomeadamente pela BBC e pelo Guardian. Mas, antes de mais, considerem esta visão geral seletiva dos seus dois anos no poder desde a sua vitória «esmagadora» nas eleições gerais de 2024. (Com apenas um terço dos votos eleitorais — menos do que o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn obteve tanto em 2017 como em 2019 —, o Partido Trabalhista de Starmer conquistou cerca de dois terços dos assentos parlamentares devido ao absurdo sistema eleitoral britânico de maioria simples): -Após a sua eleição como primeiro-ministro, Starmer abandonou as dez promessas que tinha feito durante a sua campanha à liderança do Partido Trabalhista, que o tinham apresentado de forma enganosa como um sucessor de Corbyn, de tendência de esquerda e progressista, a quem ele se tinha referido como seu «amigo». -Tentou conquistar os eleitores de direita do partido Reform, adotando a retórica do fascista Enoch Powell ao alertar que a «imigração em massa» tinha causado «danos incalculáveis» à economia britânica e que o Reino Unido poderia tornar-se uma «ilha de estranhos». - Atacou os reformados, as pessoas com deficiência, as famílias de baixos rendimentos com mais de dois filhos (até dar uma volta de 180 graus na sequência de uma enorme reação negativa por parte da opinião pública) e os migrantes. - Contrariando recomendações veementes, nomeou Peter Mandelson, um amigo íntimo do pedófilo Jeffrey Epstein, como embaixador do Reino Unido nos EUA. - Declarou guerra à ala esquerda do Partido Trabalhista, suspendeu Jeremy Corbyn e muitos outros, incluindo inúmeros membros judeus. - Minou o julgamento por júri e, alargando injustamente a definição de «terrorismo», proibiu a «Palestine Action» e supervisionou as detenções de mais de 3 000 manifestantes pacíficos, muitos deles idosos ou com deficiência, que se opunham ao genocídio perpetrado por Israel em Gaza. - Continuou a armar e a apoiar Israel durante o genocídio, apesar das suas obrigações ao abrigo da Convenção sobre o Genocídio de tomar medidas imediatas para o impedirrecebeu o presidente israelita Isaac Herzogque tinha utilizado linguagem genocida contra os palestinianos em Gaza; aprovou visitas de oficiais militares israelitas e frustrou os apelos a um cessar-fogoPermitiu também que a base da RAF em Akrotiri, no Chipre, fosse utilizada para voos de espionagem sobre Gaza, partilhando informações secretas inteligência com Israel que provavelmente foram utilizadas para atacar alvos em Gaza. - De forma infame, chegou mesmo a declarar, numa entrevista em direto na rádio com Nick Ferrari, que Israel «tem esse direito» quando questionado sobre a recusa de Israel em fornecer eletricidade e água aos palestinianos em Gaza e, dias depois, tentou manipular o públicoalegando que, na verdade, não tinha dito isso. Como a rede israelita de Jeffrey Epstein moldou o comércio mortal de minerais no Congo. Documentos divulgados revelam como contratantes militares ligados aos serviços secretos israelitas treinaram secretamente uma força de intervenção de operações especiais na região oriental do Congo, rica em minerais. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O RACISMO 'EDUCADO'
Caitlin Johnstone, Substack. Rev. O’Lima.


Há dois tipos de racismo no Ocidente: o que é considerado aceitável na sociedade liberal e educada, e o que é amplamente mal visto.

O tipo aceitável de racismo é aquele que considera normal e aceitável lançar bombas sobre famílias muçulmanas no estrangeiro. O que encara as sanções que provocam fome como uma questão menor, cujos prós e contras são avaliados exclusivamente com base no facto de serem ou não bem-sucedidas na concretização de uma mudança de regime. O tipo que encara a exploração imperialista do Sul Global como a ordem natural do mundo, com centristas e progressistas a discutir apenas sobre a forma como essa pilhagem deve ser distribuída equitativamente entre os ocidentais.

O tipo inaceitável de racismo é aquele que afeta outros ocidentais. O tipo cujas consequências os liberais ocidentais têm de enfrentar.

Se uma mulher branca chamar a polícia para denunciar um homem negro que está apenas a cuidar da sua vida no parque, os liberais ocidentais vão torná-la viral nas redes sociais, e ela será mal vista na sociedade respeitável até a poeira assentar. Se uma celebridade for filmada a proferir um insulto étnico, ficará impopular durante algum tempo e será considerada um risco pelos patrocinadores e pelos estúdios cinematográficos. Este é o tipo errado de racismo.

É isso que se vê sempre que a imprensa ocidental ignora completamente uma dúzia de palestinianos mortos por munições de fabrico ocidental no mesmo dia em que toda a comunicação social se concentra numa alegação de «anti-semitismo» sem consequências materiais, para além de alguns judeus ocidentais se sentirem emocionalmente perturbados. O primeiro é o tipo certo de racismo, enquanto o segundo é o tipo errado. Um é visto como aceitável e normal, enquanto o outro é um abuso horrível.

O racismo ocidental divide-se em duas categorias distintas, porque toda a nossa civilização assenta no racismo «educado», enquanto o «grosseiro» só é útil aos poderosos como tema de divisão para manter as populações ocidentais divididas umas contra as outras. A política ocidental dominante é, muitas vezes, apenas uma guerra cultural entre um grande partido — que abraça tanto o racismo «educado» como o «grosseiro» — e outro grande partido — que abraça apenas o racismo «educado», garantindo assim que nenhuma energia política seja canalizada para pôr fim ao racismo «educado».

O racismo «educado» é muito mais importante para os poderosos no século XXI, porque constitui um componente absolutamente fundamental do seu domínio, em vez de ser meramente uma ferramenta útil. Sem a exploração imperialista da mão-de-obra e dos recursos do Sul global através de meios extorsivos, não se veriam megacorporações em expansão a transformar milionários em bilionários e trilionários, que depois utilizam a sua riqueza para manipular a política ocidental com o objetivo de promover as suas próprias agendas. Sem o expansionismo militar incessante e os abusos do cartel de serviços secretos ocidentais, os gestores do império ocidental não poderiam dominar o nosso planeta.

É por isso que, de anos a anos, os ocidentais podem votar sobre se devem ou não promover o tipo de racismo «indelicado» na sua sociedade, enquanto o tipo de racismo «delicado» nunca aparece nos boletins de voto. Permitem-te votar sobre se o teu governo se tornará ou não mais abusivo para com os imigrantes e outros membros marginalizados da tua sociedade, mas nunca te é permitido votar sobre se a guerra, o militarismo e a exploração imperialista continuarão ou não. Esta manifestação de racismo (ou supremacia branca, ou xenofobia, ou supremacia ocidental, ou como lhe quiserem chamar) é considerada demasiado importante para ser deixada à vontade do eleitorado.

E isto reflete-se na consciência da mentalidade ocidental. Mesmo os ocidentais relativamente conscientes, que se situariam na extrema esquerda do espectro político, dedicam frequentemente muito mais energia às questões internas do que aos abusos da máquina de guerra ocidental.

No início deste mês, o debate no Twitter de esquerda girou em torno da questão de saber se seria ou não uma «perspetiva privilegiada» afirmar que as pessoas não deveriam servir nas Forças Armadas dos EUA, alegando que muitos militares norte-americanos provêm de meios desfavorecidos. Vi muitos progressistas norte-americanos que criticam furiosamente os agentes do ICE e a polícia americana a esforçarem-se ao máximo para defender aqueles que se alistam na máquina de guerra dos EUA, que é, de forma quantificável, muito mais assassina e opressiva do que as forças da ordem internas dos EUA.

A única forma de ver as coisas desta maneira seria considerar aqueles que vivem no Sul Global como menos humanos do que as pessoas que vivem nos Estados Unidos. Essa é a única forma de fazer sentido, na vossa mente, considerar os abusos das forças policiais internas do vosso país como piores do que os abusos comprovadamente mais graves da máquina de guerra dos EUA. Teria de considerar que uma escola cheia de crianças iranianas a ser destruída pela Marinha dos EUA merece menos atenção e oposição do que um americano a ser espancado por um agente da polícia nos EUA. Teria de partir do princípio de que essas vidas iranianas não importam.

E esses são alguns dos membros mais conscientes da sociedade ocidental. A maioria dos ocidentais é muito menos consciente e compassiva do que isso.

Os ocidentais vivem na civilização mais selvagem e assassina do mundo. Não nos sentimos selvagens nem assassinos porque externalizamos a maior parte da nossa violência e escravatura para operações no estrangeiro, mas é isso que somos. Vivemos as nossas vidas a consumir produtos fabricados por escravos assalariados sob uma máquina de opressão que é defendida através de constantes massacres militares em massa e, depois, apontamos o dedo a um vídeo viral de algum esquizofrénico a dizer coisas racistas, só para nos sentirmos bem connosco próprios. É isso mesmo que é a vida ocidental.

Temos muito que amadurecer. Precisamos de uma mudança drástica e revolucionária, mais abrangente do que provavelmente a maioria de nós consegue imaginar neste momento. Temos um longo, longo caminho a percorrer e uma enorme, enorme quantidade de injustiças que precisamos de corrigir em todo o mundo.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DA TEORIA PARA A PRÁTICA

  • A educação ambiental em Portugal deve deixar de se focar apenas na sensibilização teórica para preparar os cidadãos para a ação concreta face às alterações climáticas, defende a rede portuguesa de embaixadores do Pacto Climático Europeu para a revisão da Estratégia Nacional de Educação Ambiental (ENEA 2030). Para tal, sugere-se (1) a formação de “Clima Clubes" nas escolas, plataformas de aprendizagem interdisciplinar para explorar soluções ambientais, projetos de ciência cidadã e desenvolver competências práticas; (2) a introdução de uma uma unidade curricular de "Sustentabilidade Aplicada" em todos os cursos das universidades e politécnicos; (3) Formação contínua em sustentabilidade, integrada nas ofertas formativas das empresas e da Administração Pública, ao longo da vida profissional. Os especialistas defendem ainda uma abordagem multidisciplinar, envolvendo áreas como História, Filosofia, Ciências e Artes. O objetivo é capacitar os cidadãos para responder a fenómenos como secas, incêndios e ondas de calor, combatendo a "ecoansiedade" ao transformar a preocupação em capacidade de intervenção. Fonte.
  • A Praia do Furadouro ficou em segundo lugar no concurso “Praias Memoráveis”, promovido pela ABAAE – Associação Bandeira Azul de Ambiente e Educação, em parceria com a BW. Entre as 192 praias concorrentes, o Furadouro reuniu a preferência dos banhistas, refletindo o lugar especial que ocupa na memória e nas vivências de gerações de ovarenses e visitantes. FontePassámos por lá no domingo à tarde. Por duas vezes tive de tapar os ouvidos com rolhões tal era o volume e intensidade da ‘música’ debitada por dois recintos, um deles defendido por meia dúzia de gorilas vestidos de preto e ar feroz. O passadiço salvou a situação. Notícias destas, muito provavelmente patrocinadas com generosidade, servem para promover um sítio, tudo temperado com enorme greenwashing.
  • Consulta pública até 3 de agosto: O Projeto do Parque Eólico do Paiva e linhas elétricas associadas tem como objetivo a produção de eletricidade a partir de fonte renovável, contribuindo para o reforço da capacidade nacional de geração elétrica com origem não fóssil. O Projeto do Parque Eólico do Paiva prevê a instalação de 45 aerogeradores, distribuídos por três núcleos, bem como de quatro linhas de média tensão, a 30 kV. Enquadra-se nas Regiões Centro e Norte, e abrange os distritos de Viseu e da Guarda, integrando-se nos concelhos de Viseu, Vila Nova de Paiva, Sátão, Sernancelhe e Aguiar da Beira.
  • Como se impede a pesca ilegal com redes de arrasto no Camboja. Fonte.

REFLEXÃO

O IMÓVEL MAIS VALIOSO DO MUNDO É A ÁGUA VAZIA
Martina H, Medium. Rev. O’Lima.


O capitão de um petroleiro alinha o seu navio para o Estreito de Ormuz e, antes de a proa entrar no canal, faz as contas: a passagem custará até dois milhões de dólares, pagos ao Irão, pelo privilégio de atravessar um trecho de água com trinta e nove quilómetros de largura. Dois milhões de dólares parecem um resgate. Se dividirmos esse valor pelos dois milhões de barris nos seus tanques, dá cerca de um dólar por barril, menos do que a comissão que um banco retira de uma transação com cartão de crédito na loja da esquina. E ele paga. Claro que paga.

Ele paga-o pela mesma razão que Evangelos Marinakis o paga. O magnata grego gere uma frota de mais de duzentas embarcações e afirmou claramente que prefere pagar uma taxa ao Irão a ter de lidar com «todo este incómodo». Esses aborrecimentos consistem em minas, mísseis e seguradoras marítimas que aumentaram os prémios para sete milhões e meio de dólares por viagem durante o pior período da guerra. Comparado com isso, uma travessia com segurança garantida por alguns milhões é uma pechincha, e a poupança no seguro cobre quase por si só o valor da portagem. O que, à distância, parece extorsão, visto de perto revela-se apenas um item da lista, o mais barato de todos.


Essa lacuna é toda a história. Baixa o suficiente para que o mundo a engula sem se engasgar, alta o suficiente para que quem controlar a água ganhe uma fortuna apenas por ficar na parte mais estreita.

O Irão pode ter vencido ou perdido a guerra, dependendo de quem perguntar. Mas encontrou, sem dúvida, o modelo de negócio.

O dinheiro é a metade menor — a alavancagem é o resto

As forças armadas do Irão estão devastadas, a sua economia está de joelhos, o seu chefe de Estado morreu no ataque inicial e o país saiu da guerra mais forte do que quando entrou, detendo a posição mais lucrativa do comércio global. Não é o petróleo. É o local por onde o petróleo tem de passar.

Esqueçam os dois milhões que aparecem nas manchetes. Cobrar algumas centenas de milhares por navio — mais ou menos o que os canais do Suez e do Panamá cobram — e um quinto do petróleo transportado por via marítima a nível mundial ainda representa milhares de milhões de dólares por ano, que continuam a entrar indefinidamente, em troca do serviço de permitir a passagem do tráfego por um canal junto ao qual o Irão por acaso está. Nenhum país abdica voluntariamente de uma receita como essa. A portagem é uma pensão, e Teerão irá defendê-la como tal.

O dinheiro é a parte menor. A influência é o resto. Quando a guerra prejudicou o transporte marítimo, a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, apelou diretamente a Teerão para que deixasse passar os petroleiros do seu país, o que significa que o Irão pode agora negociar separadamente com cada governo cuja iluminação dependa daquela via navegável. Alívio das sanções em troca de passagem. Cobertura diplomática em troca de passagem. E por baixo de tudo isto, a ameaça constante de simplesmente fechar a passagem, um elemento dissuasor contra a próxima ronda de ataques mais credível do que qualquer arma que o Irão possua, porque o planeta inteiro já viu o que o seu encerramento faz ao preço de tudo.

Os EUA depararam-se com o limite do seu próprio poder perante aquele bloqueio no início de maio. Enviaram as forças armadas para forçar a abertura do estreito e, trinta e seis horas após a retaliação iraniana, Trump suspendeu a missão. No mesmo dia, Teerão criou a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, uma entidade burocrática com papel timbrado e o mandato de gerir as portagens, da mesma forma que se constitui uma empresa que se pretende manter.

E agora, todos sabem: um drone de vinte mil dólares pode manter refém um petroleiro de cento e cinquenta milhões de dólares, e nem mesmo o exército mais poderoso do mundo consegue anular totalmente essa equação.

Trump pode anunciar quantas vezes quiser que o estreito está «permanentemente isento de portagem». Mas quem pode fechar a passagem é quem pode atribuir-lhe um preço.

Todos viram que funcionou

Uma lição de que o que é bom não fica confinado a uma sala de aula.

Em abril, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, participou numa reunião do Conselho de Ministros e questionou-se em voz alta se o seu país compreendia a sua própria posição: que 70 por cento da energia do Leste Asiático atravessa as águas indonésias.

Duas semanas depois, o seu ministro das Finanças, Purbaya Yudhi Sadewa, lançou a ideia óbvia que se seguia num simpósio em Jacarta: o Estreito de Malaca transporta gratuitamente cerca de um quarto de todo o comércio marítimo que passa pelas costas indonésias; por isso, se dividissem uma portagem em três partes com a Malásia e Singapura, o montante aumentaria rapidamente. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura rejeitou a ideia no dia seguinte. O ministro afirmou que estava a brincar. Ninguém na região se riu, porque todos compreenderam que se tratava do tipo de piada que um governo conta para ver como a sala reage.

No seu ponto mais estreito, o Estreito de Malaca tem apenas 2,8 km de largura.

O mundo está a reagir ao mesmo tempo.

Os houthis no Iémen, que já esvaziaram o Mar Vermelho de tráfego marítimo com alguns anos de ataques com mísseis, estarão, segundo consta, a questionar se também poderiam cobrar pelo passagem pelo estreito de Bab el-Mandeb. A China enviou navios da agência marítima para interrogar embarcações comerciais nas águas ao largo de Taiwan pela primeira vez, numa operação que os seus responsáveis designaram, com o dom dos burocratas para frases sem emoção, como «aplicação especial da lei do tráfego marítimo».

A Organização Marítima Internacional alertou que a cobrança de portagem pelo Irão cria «um precedente perigoso». Mas isto já está a acontecer.

Durante oitenta anos, os navios circularam livremente pelos estreitos do mundo porque a Marinha dos EUA garantia que o podiam fazer, e o direito do mar — o tratado UNCLOS, assinado pela maioria dos países do planeta — consagrou essa garantia por escrito. A livre passagem parecia permanente, mas era uma promessa apoiada por uma única marinha, e essa marinha acabou de receber ordens para se retirar do ponto de passagem mais importante do mundo. Assim que a garantia vacila, todos os países que controlam um ponto de estrangulamento têm de fazer a pergunta que a Indonésia colocou em voz alta: Por que estou a deixar que esta fatia lucrativa do comércio global atravesse as minhas águas de graça?

Antigamente, a forma de enriquecer era possuir a matéria prima. Controlar o petróleo, o cobre, os cereais. A versão atualizada é mais simples e mais cruel. Não é preciso o petróleo. É preciso o local por onde o petróleo tem de passar, e são necessários drones suficientes — baratos, mas perigosos — para que a decisão de deixar o ponto de passagem aberto seja sua e não de outra pessoa.


O Portão Sem Dono

Assim, o mundo procura a saída, e essa saída tem um alçapão.

Se um quinto do nosso petróleo pode ser retido como refém por qualquer país com litoral e mísseis, a atitude racional é deixar de precisar desse petróleo. Eletrificar. Fabricar painéis solares, baterias, carros elétricos, as máquinas que funcionam com um combustível que nenhum petroleiro transporta. No mês em que o Irão bloqueou o estreito, as exportações chinesas de painéis solares e veículos elétricos duplicaram, atingindo um recorde, porque o mundo inteiro teve o mesmo pensamento racional nesse mesmo mês.

Mas, claro, há uma alçapão. Os painéis, as células, o lítio processado e as terras raras refinadas que compõem tudo isto passam por uma cadeia de abastecimento para tal monopolizadas pela China durante duas décadas. Pequim já demonstrou no ano passado, quando restringiu as exportações de terras raras e obrigou Washington a ceder em relação aos controlos sobre os chips no espaço de alguns meses, que compreende na perfeição o seu próprio ponto de estrangulamento. Afaste-se do estreito e poderá deparar-se diretamente com a fábrica. Troque um ponto de passagem no Golfo Pérsico por um ponto de passagem em Guangdong. A dependência não desaparece. Apenas muda de endereço.

Mas os dois portões não são do mesmo tipo, e essa diferença é a única boa notícia duradoura em toda esta história. Um petroleiro é um portão que cobra sempre, para sempre, porque o combustível esgota-se e o carregamento seguinte tem de fazer a mesma travessia e pagar a mesma portagem. Um painel solar é um portão pelo qual se passa uma única vez. A China pode tributar o fabrico do painel, monopolizar os minerais e pressionar o preço na saída.

E depois o painel fica num telhado durante vinte e cinco anos e retira o seu combustível de uma fonte que não tem estreito, nem autoridade de portagem, nem Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, nem drone que o possa fechar, nem marinha que tenha de o manter aberto. A luz solar chega ao telhado em Jacarta, ao telhado em Lagos e ao telhado em Rosário na mesma manhã, sem ser cobrada a ninguém, sem passar por nenhum ponto de estrangulamento — a única entrega na economia global que nenhum guardião jamais encontrou forma de impedir.

A dependência da produção industrial é real e é finita: paga-se uma única vez e antecipadamente. A dependência dos combustíveis é aquela que nos esgota ao longo de toda a vida, e é essa com que os painéis solares acabam. A direção é mais importante do que a localização da fábrica. O país que fabrica os seus próprios painéis solares, ou que os compra uma única vez e não volta a fazê-lo, atravessa o último portão pelo qual alguma vez terá de pagar.

O negócio mais antigo do mundo

No século V a.c., Esparta derrotou Atenas, mas longe do campo de batalha: ao cortar a rota de abastecimento de cereais através do Helesponto, o estreito de que Atenas dependia para se alimentar. A Dinamarca administrou os direitos de passagem do Estreito durante quatro séculos, cobrando a cada navio que passava entre o Mar do Norte e o Báltico, e, no seu auge, essas portagens representavam até dois terços das receitas da coroa dinamarquesa, até que as potências mundiais finalmente compraram a renúncia de Copenhaga a essa prática em 1857. A primeira guerra ultramarina que os EUA travaram foi contra a regência de Trípoli, para impedir que esta exigisse tributos pela passagem segura pelo Mediterrâneo.

Assim, este novo negócio é o mais antigo do mundo, mais antigo do que o Estado-nação, mais antigo do que o dinheiro na forma que conhecemos, e só ficou em silêncio durante oitenta anos porque uma marinha fez uma promessa que se afogou no Estreito de Ormuz.

O Irão lembrou a todos os países com um estreito de água que os estreitos foram sempre um trunfo, que o espaço entre duas massas continentais vale mais do que tudo o que por ele passa, e que a única época na história da humanidade em que as portas permaneceram abertas e sem vigilância foi uma exceção estranha e breve, e não a regra.

O petroleiro paga. A comporta levanta-se. E num milhão de telhados o sol nasce, sem pedir nada, sem passar pela alfândega em lado nenhum: a última carga na Terra que chega sem um guardião à espera na foz do canal com a mão estendida.

BICO CALADO



Reportagem da Associated Press sobre o assassinato de Letelier-Moffitt, publicada no Fargo-Moorehead Forum a 22 de setembro de 1976.
  • O Instituto de Estudos Políticos congratulou-se com as condenações por homicídio e as penas de prisão proferidas por uma juíza contra três agentes do antigo ditador chileno apoiado pelos EUA, o general Augusto Pinochet, que assassinaram Ronni Karpen Moffitt, uma das colaboradoras deste centro de estudos progressista, durante um atentado bombista contra um automóvel em 1976 que tinha como alvo o seu colega, o diplomata de esquerda exilado Orlando Letelier. A juíza chilena Paola Plaza González condenou três ex-agentes da Direção de Inteligência Nacional (DINA) — Pedro Octavio Espinoza BravoJosé Octavio Zara Holger e Raúl Eduardo Iturriaga Neumann — a 15 anos de prisão cada um pelo homicídio qualificado de Moffitt, que tinha 25 anos na altura em que foi morta juntamente com o seu colega do Instituto de Estudos Políticos, Letelier. Fonte.
  • A única pergunta que os professores devem fazer aos alunos na era da IA continua a ser a mesma de sempre: «O que aprendeste?» Enrique Dans, Medium.
  • O setor da IA ocultou 120 mil milhões de dólares em dívida para parecer menos endividado do que realmente está As grandes empresas tecnológicas estão a gastar 400 mil milhões de dólares para ganhar 60 mil milhões, ao mesmo tempo que vendem a ilusão de que estão de boa saúde. Fonte.
  • Os albaneses derrubaram as barreiras na praia de Kakome, no sul da Albânia, declarando que as praias do país pertencem ao povo e não aos oligarcas. Fonte.