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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

JAVALIS: GOVERNO PARA ATÉ 70 EUROS POR CADA ABATE

 

  • Governo vai pagar 50 euros por javali macho e 70 euros por fêmea para aumentar abates. Fonte.
  • Um buraco no passeio, junto ao n.º 966 da rua 36, em Anta, Espinho, está há anos sem so­lução e preocupa os moradores. O abatimento do piso terá sido provocado por uma fuga numa conduta de água, que levou ao aluimento da terra. António Rocha, de 76 anos, vive no local há 14 anos e diz ter aler­tado repetidamente a Junta de Freguesia de Anta e o Município de Espinho. Apesar de algumas intervenções pontuais, garante que o problema persiste. Fonte.
  • Bristol juntou-se a quase duas dezenas de outras cidades do Reino Unido na luta contra a promoção de produtos com elevada pegada de carbono, como a gasolina e os voos aéreos, em propriedades pertencentes à autarquia. A proibição inclui também anúncios que incentivam o consumo excessivo da «moda rápida» — uma indústria que exige enormes quantidades de recursos, como água e materiais sintéticos à base de petróleo, para acompanhar as tendências globais de vestuário. O setor têxtil é responsável por 2 a 10 por cento das emissões globais de carbono anualmente, de acordo com um relatório de 2023 do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, bem como por quase 10 por cento da poluição por microplásticos nos oceanos. Fonte.
  • Fraudes e abusos em grande escala: os milhões perdidos na transição ecológica. Erwan Manac’h, Reporterre

BICO CALADO

  • “(…) Há um tom performativo da extrema-direita que precisa de ser desmontado. Tenta-se dar a ideia de que os comentadores mais extremistas são alvo de censura e que as televisões estão dominadas pela esquerda. André Ventura tem mais tempo de antena que qualquer um dos políticos, passeando-se quase todas as semanas pelos estúdios televisivos e há comentadores residentes que comentam tudo e um par de botas, da Ucrânia aos incêndios e de Luís Neves ao Irão, sem qualquer preparação para além dos soundbites que algum partido ou embaixada lhes envia. (…)” Bruno Carvalho.
  • A decadência final do país dos 19 e 20 valores. António Carlos Cortez. Maio.
 
  • Quem ganha com a divisão da CP? Maio.
  • O regime de Trump notificou o Congresso sobre uma proposta de venda de armas à Arábia Saudita que inclui mais de 10 000 bombas de 2 000 libras e 500 libras e 10 004 kits de orientação JDAM de alcance alargado, que convertem bombas não guiadas em armas guiadas com precisão. A Boeing seria a principal contratante da transferência proposta, que surge num contexto de renovados ataques aéreos sauditas no Iémen. Fonte.
  • O regime de Trump aprovou um pacote de armamento no valor de 2,8 mil milhões de dólares para Israel, que inclui 40 000 bombas. O pacote inclui 20 000 bombas Mk84 de 2 000 libras e 20 000 bombas de uso geral BLU-117. O Congresso foi informalmente notificado da venda pendente. A maior parte do pacote seria financiada através do financiamento militar estrangeiro dos EUA, o que significa que os fundos dos contribuintes americanos disponibilizados a Israel seriam utilizados para adquirir as armas aos EUA. Fonte.
  • Os EUA gastaram cerca de 33,4 mil milhões de dólares na Operação Epic Fury até 29 de junho, incluindo 22,3 mil milhões de dólares em munições utilizadas e 3,7 mil milhões de dólares em perdas de equipamento, de acordo com um relatório do Inspetor-Geral do Pentágono apresentado ao Congresso. Este valor não inclui o custo da reparação das infraestruturas militares norte-americanas danificadas pelos ataques iranianos, que danificaram ou destruíram centenas de edifícios e estruturas em bases americanas espalhadas por oito países. O relatório refere ainda que dezenas de aeronaves norte-americanas foram danificadas ou destruídas. Fonte.

REFLEXÃO

COMO A INSTABILIDADE CLIMÁTICA, A POBREZA, AS CRENÇAS TRADICIONAIS E O DESESPERO SE COMBINAM PARA TRANSFORMAR FIGURAS ESPIRITUAIS RESPEITADAS EM BODES EXPIATÓRIOS — E, EM ALGUNS CASOS, EM VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA LETAL.

RODNEY MUHUMUZA e JOSEPH FALZETTA, AP. Rev. O’Lima.


Em algumas regiões do Uganda e do Sudão do Sul, os «fazedores de chuva» são figuras espirituais tradicionais que, segundo se acredita, têm o poder de provocar ou impedir a chuva. Os agricultores pagam-lhes por esses serviços.

À medida que as secas e as inundações se tornam mais imprevisíveis, os agricultores culpam cada vez mais os feiticeiros da chuva quando o tempo corre mal — mesmo que o problema subjacente seja a alteração dos padrões climáticos.

No Uganda, o feiticeiro da chuva David Nabutsilili foi uma vez perseguido por aldeões furiosos depois de uma chuva forte ter inundado as suas colheitas. Ele caiu e partiu a perna e, ainda hoje, por vezes tem de fugir de casa quando as pessoas o culpam pelo mau tempo.

A situação é ainda mais extrema no Sudão do Sul, onde pelo menos dois feiticeiros da chuva foram mortos nos últimos dois anos, incluindo homens que, segundo consta, foram enterrados vivos durante períodos de seca.

As alterações climáticas estão a tornar o sistema tradicional particularmente instável: algumas regiões estão a registar menos dias de chuva, mas precipitações mais intensas, o que gera um ciclo de secas, inundações e quebras nas colheitas.

O facto de a invocação da chuva ser frequentemente um serviço pago agrava as tensões. Quando a chuva não chega — ou chega e destrói as colheitas —, os agricultores podem exigir o reembolso do dinheiro ou pedir que sejam aplicadas sanções.

Existe também concorrência entre os próprios feiticeiros da chuva, com alguns a acusarem os rivais de interferirem deliberadamente nos seus rituais.

As comunidades que dependem da agricultura de sequeiro estão sob enorme pressão, e os feiticeiros da chuva podem tornar-se bodes expiatórios convenientes para fenómenos meteorológicos que não conseguem controlar.

LEITURAS MARGINAIS

IRÃO E EUA: DOIS PAÍSES E O PISTÁCIO QUE OS SEPARA
Fatemeh Roshan, DW. Rev. O’Lima.

Os pistácios vendidos em todos os EUA têm uma história surpreendente: as árvores da Califórnia têm as suas raízes no Irão. Agora, ambas as regiões enfrentam a mesma ameaça — as suas terras agrícolas estão a afundar-se à medida que as águas subterrâneas desaparecem

Imagem: Svetlanasf/Pond5 Images/IMAGO

Fendas com a largura de uma mão atravessam o pomar de pistácios de Armin, no sudeste do Irão, danificando os tubos de irrigação e engolindo água preciosa à medida que o solo sob os seus pés afunda.

«Olhamos e vemos que a terra abriu a boca, e a água simplesmente jorra para dentro», diz Armin. Ele tem visto as fendas alastrarem-se rapidamente nos últimos cinco anos e receia que os seus filhos possam não conseguir cultivar a terra como o seu pai e o seu avô fizeram antes dele.

Armin, cujo nome verdadeiro não se revela por razões de segurança, vive na região árida de Rafsanjan. Há várias gerações que os agricultores da região cultivam a árvore de pistácio pelas suas pequenas sementes verdes comestíveis, utilizadas em tudo, desde gelados até ao famoso chocolate do Dubai.

Há muito que a região satisfaz grande parte da procura mundial de pistácios, mas uma combinação de seca e extração de águas subterrâneas para irrigação tornou Rafsanjan uma das áreas que mais rapidamente se afunda no Irão. Um estudo revelou que algumas partes do solo estão a afundar-se até 37 centímetros por ano. E isso está a afetar a produção.

O quadro é semelhante na Califórnia, onde alguns produtores de pistácios também estão a assistir ao afundamento dos seus terrenos. A família de Joe Coelho cultiva esta fruta desde 2000 e, segundo ele, embora a sua exploração em Fresno não esteja diretamente afetada, «os produtores estão bem cientes do risco».

Algumas áreas nas proximidades enfrentam graves problemas hídricos, afirma Coelho, que é diretor de sustentabilidade da American Pistachio Growers. «O afundamento é, sem dúvida, um problema grave em algumas partes do Vale de San Joaquin.»


O mesmo pistácio e os mesmos problemas

A ligação entre os produtores dos dois países remonta à década de 1960, quando os agricultores norte-americanos começaram a desenvolver a indústria do pistácio. Fizeram-no utilizando uma variedade iraniana — o pistácio que hoje domina a maioria dos pomares californianos chama-se Kerman, em homenagem a uma cidade próxima da quinta de Armin.

A Califórnia ultrapassou recentemente o Irão como o maior produtor mundial de pistácio, sendo a maior parte da colheita cultivada no Vale Central, onde Coelho tem o seu pomar. E embora seja uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo, há locais onde o solo está a afundar-se até 20 centímetros por ano.

Tal como no Irão, o problema reside no facto de estar a ser bombeada mais água dos aquíferos subterrâneos para a irrigação das culturas do que a que volta a infiltrar-se.

«À medida que a fiabilidade das águas superficiais tem vindo a diminuir, os produtores têm dependido cada vez mais das águas subterrâneas», explicou Coelho, acrescentando que testemunhou a transformação do terreno. «Em certas áreas, o solo já não tem a mesma estrutura nem o mesmo movimento de água que tinha outrora.»

Os pomares de pistácio no Vale Central consomem cerca de 4% da água destinada às culturas do vale. Em Rafsanjan, mais de nove em cada dez litros de águas subterrâneas são destinados aos pomares de pistácio.

À medida que os níveis das águas subterrâneas baixam devido à extração excessiva, os espaços no interior do aquífero colapsam e o solo acima começa a afundar-se, num processo denominado subsidência do solo.

«O afundamento do solo no Irão é um risco provocado pelo homem, não um fenómeno natural como um terramoto», afirma Ali Beitollahi, que lidera a investigação sobre afundamento no Centro de Investigação de Estradas, Habitação e Desenvolvimento Urbano do Irão. «Grande parte dos danos é irreversível. Quando um aquífero colapsa, nunca mais consegue reter tanta água como antes.»

Os agricultores mais velhos de Rafsanjan lembram-se de terem acedido a água a profundidades de apenas 20 metros, diz Armin. Hoje em dia, muitos têm de perfurar até aos 300 metros. Algumas terras agrícolas próximas das de Armin estão mortas ou a morrer, afirma ele, enquanto outros pomares foram abandonados à medida que os poços secaram.

É mais um golpe para os agricultores em dificuldades, que afirmam que o boom impulsionado por tendências alimentares como o chocolate de Dubai nunca chega até eles, porque as sanções internacionais e a concorrência global privaram o Irão dos mercados que outrora detinha enquanto maior produtor mundial de pistácios.

«Costumávamos ser conhecidos pela qualidade», diz ele. «Agora somos conhecidos pelo preço baixo.»


Duas regiões produtoras de pistácio, duas respostas diferentes

A maior diferença entre as duas regiões reside na forma como estão a responder à crise. Na Califórnia, a Lei de Gestão Sustentável das Águas Subterrâneas (SGMA), aprovada em 2014, exige que as agências de água equilibrem a captação e a recarga nas bacias hidrogeológicas até 2040.

A recarga controlada dos aquíferos é um dos métodos que o estado está a utilizar para o efeito. Consiste em permitir que a água recarregue os aquíferos em anos chuvosos — por exemplo, inundando terras agrícolas —, servindo assim de reserva para períodos de seca. Coelho está a participar num projeto-piloto que faz exatamente isso.

A SGMA tem registado alguns progressos. De acordo com o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia, os níveis das águas subterrâneas subiram em quatro dos dez poços monitorizados. No entanto, grandes partes do Vale Central continuam a afundar-se.

Helen Dahlke, professora de ciências hidrológicas integradas na Universidade da Califórnia, em Davis, afirma que a recarga, por si só, provavelmente não será suficiente para compensar décadas de sobreexploração das águas subterrâneas. «A agricultura é, de longe, o maior consumidor de água no Vale Central, pelo que restabelecer o equilíbrio nas bacias de águas subterrâneas exigirá, provavelmente, alinhar a procura de água para as culturas com a disponibilidade hídrica a longo prazo num clima mais quente e mais variável.»

No Irão, a sensibilização para a gestão das águas subterrâneas e o afundamento tem vindo a crescer ao longo da última década entre os cientistas, mas continua a ser limitada, afirma Ali Beitollahi. Ele trabalhou na elaboração de um projeto de regulamentação sobre o afundamento que se encontra atualmente a aguardar aprovação do governo.

Citando o exemplo de Tóquio, onde as taxas de subsidência diminuíram drasticamente depois de as autoridades terem restringido a captação de águas subterrâneas, ele acredita que o problema poderia ser gerido se o Estado agisse rapidamente. No entanto, dada a atual situação política no Irão, é improvável que se tomem medidas rápidas.

Outra medida urgente, afirma ele, «é mudar imediatamente a forma como os agricultores regam os seus campos e ensinar-lhes por que razão isso é importante». A maioria dos pomares de Rafsanjan ainda é irrigada por inundação, o que significa que grandes quantidades de água se perdem por evaporação antes de chegarem às raízes das plantas.

Armin afirma que está a tentar aprender com os produtores norte-americanos, mas que muitos agricultores mais velhos estão agarrados aos seus hábitos.


O significado de um pistácio

Em todo o Vale Central da Califórnia, é difícil ignorar as pressões decorrentes do aquecimento climático, da seca e da diminuição dos recursos hídricos subterrâneos.

«Vivemos com isso todos os dias», afirma Coelho, acrescentando que os produtores de pistácio da Califórnia também precisam de uma melhor política hídrica, bem como de melhores infraestruturas e da proteção dos direitos sobre a água. «A sustentabilidade financeira, a sustentabilidade hídrica e a sustentabilidade ambiental estão interligadas», disse.

Armin não vê futuro no cultivo de pistácios. Mas quando olha para um único pistácio, vê mais do que uma cultura a competir pela água ou um petisco numa prateleira do outro lado do mundo. Vê a história e o presente da sua família e da sua região. «Este pistácio provém, por vezes, de uma árvore com 100 anos», diz ele. «Pagou um casamento, a educação de uma criança, a felicidade de alguém. O dinheiro que gera cria uma vida.»

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SINES: ALGA INVASORA PREJUDICA PESCA MAS HÁ POTENCIAL INDUSTRIAL

  • Uma invasão da alga Rugulopteryx okamurae está a perturbar a biodiversidade marinha e a subsistência dos pescadores na região de Sines. A comunidade científica defende que a solução passa pela valorização económica desta alga. Atualmente, já existem projetos em Portugal para aplicar estas algas no setor agrícola, sendo necessário lavá-las previamente para remover o sal e utilizá-las como fertilizante direto. Há ainda o potencial industrial da espécie para a extração de coloides, óleos e carragenas. Estas substâncias podem ser aproveitadas tanto para a produção de rações animais como para a indústria alimentar humana. Fonte.
  • A Quercus emitiu um parecer desfavorável à Unidade de Produção de Biometano de Abrigada, no concelho de Alenquer, juntando-se à contestação da autarquia e da população local. O projeto apresenta fragilidades ambientais significativas, nomeadamente ao nível dos recursos hídricos, solos, emissões, odores e impactes sobre as populações. O projeto prevê a afetação direta de uma linha de água de primeira ordem e do domínio hídrico de uma linha de água de segunda ordem, além de um consumo anual de 20.091 metros cúbicos de água da rede pública. A associação defende que o projeto seja reformulado de forma a eliminar a afetação das linhas de água e a privilegiar fontes alternativas de água não potável, como a reutilização de águas residuais tratadas. Fonte.
  • A petição pública que exige o fim do sistema Volta, de devolução de embalagens, reuniu 37 mil assinaturas. O documento aguarda discussão no parlamento. Fonte.
  • A União Europeia decidiu continuar a exportar grandes volumes de resíduos plásticos para a Turquia, apesar de a sua própria avaliação admitir problemas ambientais e regulamentares significativos na forma como estes resíduos são tratados. A Turquia é o maior importador de resíduos plásticos da UE, tendo exportado 510 000 toneladas em 2025 — mais de um terço de todas as exportações de resíduos plásticos da UE. Apenas cerca de 10% destes resíduos são realmente reciclados na Turquia, acabando a maior parte em aterros sanitários, mal gerida ou a verter para o ambiente. Fonte.

REFLEXÃO

DAS ÁGUAS BALNEARES


Agora que o verão que nunca verdadeiramente começou começa oficialmente a acabar, talvez seja tempo de fazer um breve balanço do que fica desta temporada estival.

Um dos indicadores mais reveladores, mais até do que essas multidões de turistas que também nunca chegaram, é a velha questão da qualidade das águas balneares. Um problema que nos atormenta ano após ano e que, este verão, voltou a revelar uma dimensão particularmente preocupante.

Das vinte e cinco águas balneares classificadas em São Miguel, apenas uma, as Piscinas Naturais da Lagoa, conseguiu apresentar uma folha limpa nas análises de qualidade da água. Se juntarmos as treze águas balneares não classificadas, mas igualmente sujeitas a análises periódicas, apenas mais uma, a Praia do Lombo Gordo, no Nordeste, conseguiu passar com distinção no teste do papel higiénico marítimo.

Ainda sem alguns dos resultados finais, que à data em que escrevo não foram publicados pelo competente departamento do Governo Regional, uma leitura preliminar dos dados disponíveis deixa-nos um quadro francamente inquietante.

Das trinta e oito localizações analisadas, sete apresentaram, pelo menos uma vez, valores de Escherichia coli ou Enterococos superiores a 500, quando o valor de referência é inferior a 15. Pelo menos quatro estiveram periodicamente encerradas durante a época balnear. Nem sequer lugares tradicionalmente associados ao cartão-postal dos Açores escaparam ao problema, como foi o caso da Caloura ou, um dos meus lugares de banhos prediletos, do Portinho do Faial da Terra.

Outros parecem ter adquirido já o estatuto de casos crónicos de insalubridade balnear, como são os casos da Vinha da Areia, Ribeira dos Pelames, Monte Verde, Mosteiros, Baixa da Areia e Ilhéu de Vila Franca do Campo.

Este último é particularmente significativo. Depois de um ano encerrado e de um sem-número de promessas atiradas ao vento por políticos de ambos os lados do azimute partidário, o Ilhéu, a pouco menos de um mês do final da época balnear, apresentava apenas quatro resultados, em dezassete análises realizadas, abaixo do limite legal. E, mais uma vez, terminará o ano sem que pareça existir uma explicação convincente para o problema, muito menos uma solução para o resolver.

Comissões de inquérito e grupos de trabalho. Investimentos de vulto em estações de tratamento e redes de esgotos anunciados por autarquias e Governo Regional. Declarações comovidas e juras de contrição. No fim, o resultado é invariavelmente o mesmo: nada. Ou, mais precisamente, mais poluição na água e ninguém verdadeiramente responsável por ela.

É difícil conciliar esta realidade com a imagem dos Açores como destino de natureza, sustentabilidade e excelência ambiental. Continuamos a vender natureza enquanto, literalmente, despejamos no mar a incapacidade de a proteger. Continuamos a dinamitar, a bombas de esgoto, o ouro que nos calhou na sorte, como se o mar não nos devolvesse sempre, mais cedo ou mais tarde, o lixo que teimamos em lhe atirar.

Esta irresponsabilidade coletiva, que tem nos responsáveis políticos os seus principais promotores, tornou-se quase uma assinatura da marca Açores. Lavamos a face em promessas e anúncios que, no fim, não dão em nada. Faz-se de conta que o problema é pontual, varre-se para debaixo do tapete e aguarda-se que a próxima análise, o próximo verão ou a próxima legislatura resolvam aquilo que todos sabem, mas teimam em não resolver.

Talvez seja mesmo uma sorte que as épocas balneares em São Miguel sejam tão ridiculamente curtas para uma ilha que se apresenta como destino de mar e de natureza. Porque, com análises destas, mais vale manter alguma distância da água. Não vá alguém mergulhar à procura dessa natureza pura e intacta açoriana e acabar, literalmente, a nadar no esgoto da nossa indiferença e incivilidade.

Ou então a estratégia é transformar a gastroenterite em produto de animação turística regional.

LEITURAS MARGINAIS

TODA A GENTE MIJA
Cory Doctorow, Medium. Rev. O’Lima.


O Jeff Bezos e eu somos pessoas muito diferentes. Para começar, ele é um bilionário sociopata que construiu a sua fortuna monopolizando a venda de livros, enquanto eu sou um autor de livros sem um tostão. Ele nasceu em 1964 e tem 62 anos; eu nasci em 1971 e tenho 55.

Encontrámo-nos algumas vezes e até trocámos algumas mensagens nos primeiros anos da Amazon, embora não tenha tido contacto com ele há décadas. Apesar deste breve contacto e deste longo hiato na nossa história de mensagens, posso afirmar com certeza uma coisa sobre Jeffrey Preston Bezos: ele precisa de urinar a toda a hora.

Como é que eu sei? Porque urinar a toda a hora é uma característica inevitável do envelhecimento, e o Bezos tem mais oito anos do que eu, e eu preciso de urinar a toda a hora. Jeff Bezos, como todas as pessoas mais velhas, tem de lidar com uma bexiga cada vez mais fraca. Honestamente, é um pequeno preço a pagar pelo milagre diário de envelhecer (em vez de morrer).

A única razão pela qual menciono aqui a bexiga cada vez mais insistente de Jeff Bezos é a dificuldade em conciliar as circunstâncias muito diferentes da bexiga de Bezos com as bexigas das centenas de milhares de estafetas e funcionários de armazém da Amazon que não estão autorizados a urinar. Os estafetas e os funcionários de armazém da Amazon são "centauros ao contrário", monitorizados por uma constelação de aplicações e câmaras, e são severamente punidos por não atingirem o ritmo estabelecido pelo software da Amazon, e este robô cronometrista não tem em conta as pausas para urinar.

Isto não é segredo, e a Amazon tem sido muito criticada por isso. Mas a "solução" da Amazon é acrescentar mais penalizações para quem urina. Os condutores que regressam ao armazém com garrafas cheias de urina nas suas carrinhas são punidos tão severamente como seriam se parassem para usar uma casa de banho. A questão é que o simples facto de o robô do seu chefe dizer que não pode urinar não interessa à sua bexiga ou aos seus rins, e quando a vontade aperta, não há como.

É por isso que as estradas que levam aos armazéns da Amazon estão cheias de garrafas de mijo que os condutores atiram pelas janelas antes de chegarem à doca de carregamento. Há tantas garrafas destas que o ativista dos media britânico Oobah Butler conseguiu recolhê-las e oferecer uma linha de "bebidas energéticas de limão amargo" na Amazon, feitas com urina engarrafada dos condutores. A bebida foi um sucesso de vendas na Amazon e a empresa até perguntou a Butler se queria que o ajudassem a aumentar as suas entregas.


O facto de Bezos precisar de urinar e também o facto de comandar um exército de centenas de milhares de trabalhadores que estão proibidos de mijar corrobora realmente a minha hipótese de que os multimilionários não acreditam que as outras pessoas sejam reais. Se Jeff Bezos acreditasse que a necessidade de urinar dos seus motoristas era a mesma que a sua própria, Jeff Bezos deixaria esses motoristas mijar.


A necessidade de urinar é um princípio fundamental da própria existência, estendendo-se para além dos humanos e alcançando os nossos "irmãos e irmãs horizontais" (o termo que John Muir deu aos outros animais com quem partilhámos este planeta). Qualquer pessoa que já teve um cão compreende isso. Não sou propriamente uma pessoa de cães, mas quando vejo um que precisa mesmo de sair de casa, a minha bexiga contrai-se em solidariedade. Quando penso nos rins e bexigas dos motoristas e estafetas de Bezos, sinto uma dor aguda e persistente que começa um pouco abaixo do meu umbigo.

Acho que o solipsismo bilionário é incontornável. O simples facto de lidar com as pessoas como abstrações estatísticas em massa — centenas de milhares de funcionários da Amazon, milhares de milhões de utilizadores de redes sociais e de pesquisas na Google — transforma a maioria dos outros humanos do mundo em fantasmas, bots defeituosos cujos salvadores são irritantemente pouco determinísticos e subóptimos.

Acrescente-se a isto o facto de que faturar milhares de milhões de dólares exige que inflija dor a milhares ou mesmo milhões destes fantasmas cujo dinheiro, privacidade e trabalho extraiu, e é fácil compreender como acabaria num mundo onde não consegue suportar a ideia de que a dor alheia é tão real como a sua. O solipsismo é um risco ocupacional mortal e corrosivo para a consciência dos ricos e poderosos. Nenhum visitante da Ilha Epstein tê-la-ia visitado se a dor daquelas jovens fosse tão real para ele como a dor das suas próprias filhas e amigas.

Há uma linha ténue entre este solipsismo e o entusiasmo dos multimilionários pela IA. Quando não se acredita que as outras pessoas são realmente reais, é fácil acreditar que podem ser substituídas por chatbots. A busca de Mark Zuckerberg para substituir os Teus amigos por chatbots faz sentido quando se percebe que, para Mark Zuckerberg, tu e os teus amigos já são apenas chatbots problemáticos e maus.


A crença de que os robôs podem ensinar os teus filhos, aconselhar-te sobre os teus problemas psicológicos ou cuidar da tua saúde é perfeitamente compatível com a crença de que é, em maior ou menor grau, um robô, e também de que os professores, médicos e terapeutas em quem confia são, no fundo, robôs.


A grande crise da oligarquia não reside apenas na transferência de poder dos funcionários públicos democraticamente responsáveis ​​e dos representantes eleitos para os oligarcas. A verdadeira crise é que alcançar o estatuto de oligarca é incompatível com a visão das outras pessoas como seres humanos reais. Foi assim que chegámos ao ponto em que o homem mais rico do mundo massacra centenas de milhares das crianças mais pobres do planeta por puro prazer.

Toda a gente mija. Quando eu morrer, quando o Jeff Bezos morrer e quando tu morreres, as nossas bexigas vão ceder e vamos fazer xixi nas calças. Declarar guerra ao direito dos outros de urinar é declarar guerra à própria humanidade.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

ESPANHA: FERROVIA COM REDE RÁPIDA MAS POUCO CAPILAR

Foto: ÁLVARO MINGUITO.
  • Embora conste que a Espanha tenha a segunda rede de alta velocidade mais extensa do mundo, as ligações entre as aldeias e as cidades médias foram abandonadas durante décadas. Criou-se assim uma rede rápida, mas pouco capilar, que não serve para deslocações diárias dentro de províncias ou entre cidades médias, havendo estações encerradas e territórios internos sem alternativa ao automóvel. A rede ferroviária espanhola está quase totalmente eletrificada, sendo a energia consumida pela Renfe 100% renovável. O custo do bilhete e do quilómetro do comboio convencional é de 0,029 €, muito inferior ao automóvel (0,13 €) ou ao avião (0,081 €). O que falta para que o comboio volte a ser útil? Não faltam vias, faltam comboios. Pau Noy (Alianza Ibérica por el Ferrocarril) sugere a aquisição de mais comboios para aumentar a frequência de modo a garantir um mínimo de 4 serviços diários em cada estação até à capital provincial, e desenvolver um abono único nacional, que facilite a utilização combinada dos transportes públicos em todo o país. Fonte.
  • O Canal do Panamá vai reduzir novamente o tráfego marítimo devido ao agravamento da seca provocada pelo fenómeno climático El Niño, congestionando ainda mais uma das rotas de navegação mais importantes do mundo. O canal movimenta 5% do comércio marítimo global e cerca de 40% do tráfego de contentores dos EUA; é preferido pelos exportadores e importadores porque reduz os custos e os tempos de trânsito, especialmente para as empresas que comercializam entre a China, a Ásia e os EUA. Fonte.
  • O presidente e o diretor da Chubu Electric Power, operadora da central nuclear de Hamaoka, renunciaram aos seus cargos para assumir a responsabilidade por anos de manipulação de dados de segurança sísmica relativos aos reatores nº 3 e nº 4 daquela central. Uma investigação independente constatou que os funcionários alteraram os dados sísmicos para que os reatores parecessem cumprir os requisitos de segurança. Os principais executivos da empresa não estiveram directamente envolvidos, mas a sua forte pressão para reiniciar os reactores pode ter criado uma pressão que contribuiu para a má conduta. A central de Hamaoka é particularmente sensível por se encontrar numa área considerada vulnerável a um grande sismo na Fossa de Nankai. Isto torna a falsificação de informação sobre o risco sísmico especialmente grave. O escândalo surge numa altura em que o Japão tenta reativar mais reatores nucleares para reduzir os custos de energia e as emissões de carbono, após as paragens causadas pelo desastre de Fukushima em 2011. Atualmente, o Japão tem apenas 11 dos seus 54 reatores comerciais em funcionamento. Fonte.
  • À medida que a indignação pública contra o governo nepalês vai aumentando na sequência dos deslizamentos de terra mortíferos no Nepal, documentos revelam que o novo primeiro-ministro do país e vários dos seus colegas chegaram ao poder graças, em parte, a um programa secreto patrocinado pelo governo dos EUA. Fonte.
  • Petição contra tribunais corporativos secretos usados pelas gigantes multinacionais para processar governos em milhares de milhões por decisões que moldam o nosso futuro coletivo.

REFLEXÃO

NEGOCIATA DE ENERGIA: DEFESA DO BARREIRO METEU SEIS MUNICÍPIOS NA MIRA DO TRIBUNAL DE CONTAS
Pedro Almeida Vieira e Elisabete Tavares. Página Um.


O Barreiro celebrou um contrato de 6,5 milhões de euros, por 20 anos, com um consórcio formado pelas empresas Amener Eficiência Energética e HUB7 Energy Services, para instalar e explorar painéis fotovoltaicos em espaços municipais. O contrato poderia, através de renovações, chegar aos 50 anos.
A autarquia tratou o negócio essencialmente como uma cedência de espaços municipais. O Tribunal de Contas (TdC), porém, entendeu que a realidade era diferente: estava também a ser contratado um serviço de produção de energia, pelo que deveriam ter sido aplicadas regras de contratação pública mais exigentes.
Como o valor ultrapassava os limiares europeus, o TdC considerou que deveria ter existido concurso público ou concurso limitado com publicação no Jornal Oficial da União Europeia. A hasta pública realizada teve apenas uma proposta.
O Tribunal recusou, por isso, o visto prévio ao contrato. Considerou ainda particularmente problemática a duração, já que os 20 anos iniciais poderiam chegar a 50 anos.
Na sua defesa, a Câmara do Barreiro argumentou que não era um modelo inédito e que outros municípios (Figueiró dos Vinhos, Guimarães, Belmonte, Almodôvar, Moita e Lisboa) e entidades públicas já tinham celebrado contratos semelhantes.
Essa tentativa de defesa acabou por ter um efeito contrário ao pretendido: o Tribunal decidiu averiguar outros municípios que tivessem utilizado modelos semelhantes, verificando se os contratos foram gratuitos ou onerosos e se foram submetidos à fiscalização prévia.

BICO CALADO

  • Treinador da águia do Benfica traficava no aeroporto de Lisboa. Fonte.
  • A televisão francesa censura a atriz Adèle Haenel depois de esta ter condenado o genocídio perpetrado por Israel na Palestina. Fonte.
  • O governo britânico arrecada 5 mil milhões de libras por ano com as taxas de imigração, enquanto os requerentes são forçados a endividar-se. As taxas de visto e de cidadania do Ministério do Interior chegam a ser 10 vezes superiores ao custo de processamento – e aumentam todos os anos. Fonte.
 
  • O argentino Fernando Cerimedo, especialista em interferência eleitoral de extrema-direita, foi detido na Bolívia depois de ter contratado assassinos para tentar matar a sua ex-namorada grávida, Nadia Beller. Eles falharam, e ela está agora a revelar a verdade. Cerimedo tem fortes ligações com o governo norte-americano e com os principais aliados de Donald Trump, como Marco Rubio. Cerimedo trabalhou para muitos líderes de direita apoiados pelos EUA na América Latina, incluindo Javier Milei, da Argentina, Rodrigo Paz, da Bolívia, a família Bolsonaro, do Brasil, e Nasry "Tito" Asfura, das Honduras. Cerimedo está também a ser investigado por tráfico de droga. Ben Norton explica este escândalo insano, que expõe como poderosos grupos de direita apoiados pelos EUA, com financiamento de oligarcas ricos, estão a manipular as eleições e a destruir a democracia.
  • Seis organizações de solidariedade britânicas registadas estão a angariar fundos para atividades e infraestruturas em colonatos israelitas ilegais. Fonte.
  • Por que razão já não querem estar na escola? Luís Ochoa

LEITURAS MARGINAIS

O AR DO TEMPO (2) E EM PORTUGAL (1)
José Pacheco Pereira, Público, 12set2026

Cartune: IA / Ambiente Ondas3

"Em janeiro de 2022, o PS ganhava as eleições com maioria absoluta. De 2015 a 2019, com o Governo da «geringonça», a que se seguiu o XXII Governo Constitucional, que caiu com a rutura da «geringonça», o PS chegou à maioria absoluta, o que significa que não houve rejeição do eleitorado dessa experiência.

Nestes mesmos anos eleitorais, de 2015 a 2026, o PCP tornou-se um partido residual, embora mantenha uma pequena parte da sua influência social através do movimento sindical. O Bloco de Esquerda (BE) praticamente desapareceu, quer em termos eleitorais, quer em termos de influência. O Livre ocupou parcialmente o seu espaço, mas não contrariou o declínio comunista e bloquista.

Ou seja, a esquerda, que era largamente maioritária há quatro anos, tornou-se minoritária, e o PSD prosseguiu a viragem à direita que começara com o Governo de Passos Coelho, foi interrompida por Rui Rio, mas se consolidou com Montenegro. Continuou a ser o primeiro partido desde o colapso do PS, absorveu o CDS, mas sofre de uma erosão na sua base de apoio e de uma paralisia governativa sem precedentes.

Claro que houve muitos erros cometidos, pelo PS em particular, a que se seguiu o facto de o PCP, ao apoiar a invasão russa na Ucrânia, e o BE, com os temas «fraturantes», cavarem a sua sepultura eleitoral. Mesmo assim, tudo isto não justifica a aceleração da queda, que tem também muito que ver com aquilo a que chamo o «ar do tempo» ou, para ser mais fino, o Zeitgeist. Esse ar do tempo não é apenas português, mas está cá e «nacionalizou-se».

Qual foi o principal instrumento nesta mudança? Um novo partido, o Chega, que do nada chegou a líder da oposição parlamentar, com 60 deputados na Assembleia. O crescimento parlamentar do Chega é um reflexo de um crescendo de influência com uma rapidez sem paralelo, que vai muito para além do voto.

O Chega mudou a ecologia política portuguesa, e não foi apenas pelo seu papel como partido «populista», mas pela introdução de um conjunto de temas que são de uma outra herança: a da ditadura do Estado Novo, a mais longa da Europa Ocidental, que durou de 1926 a 1974.

O Chega é hoje um partido de extrema-direita, designação que me parece mais correta do que o epíteto de «fascista», e estendeu a sua influência, radicalizando toda a direita, a começar pelo PSD. No debate que teve comigo, Ventura referiu-se pela primeira vez à Revolução do 25 de Abril como uma «revolução miserável» e, após uma prudência inicial, abriu as comportas não só à justificação da ditadura, como à assunção de uma continuidade de temas, lemas, símbolos e posições políticas salazaristas.

Resolveu, assim, um dilema da direita, que era não ter um passado apresentável, e que com o Chega começou a ter, com um papel relevante na propaganda da trilogia «Deus, Pátria e Família». O retorno à ideologia autoritária do Estado Novo, o revisionismo histórico sobre Salazar, a guerra colonial, a censura, os «feitos» do regime, acompanhado dos interpretadores económicos da escola do «Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas», passaram a servir de inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.

Este tipo de procura de história e memória molda os temas do «ar do tempo» português. Não é diferente do ar do tempo internacional, a começar por Trump purgar a história americana da escravatura e retomar os símbolos da Confederação, ou pela AfD alemã querer voltar a Bismarck para esconder Hitler, ou pelo Vox espanhol reabilitar o franquismo.

Igualmente como acontece no ar do tempo internacional, o «outro» é o inimigo próximo e imediato. O nacionalismo pseudopatriótico, traduzido na «defesa» dos portugueses e na luta contra a «invasão» estrangeira, os imigrantes, os muçulmanos, a associação do «outro» ao incremento da insegurança, pessoal e nas ruas, incorpora medos ancestrais e vive da ignorância e das falsidades. (...)"