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domingo, 30 de agosto de 2026

UCRÂNIA: MISCANTHUS GIGANTE PODE CAPTURAR METAIS PESADOS?

Tatyana Stefanovska no campo de miscanthus gigante em Vorzel. © Pia de Gouvello / Reporterre
  • A 45 km de Kiev, os investigadores estão a testar a capacidade do miscanthus gigante para regenerar solos degradados e poluídos pela guerra. Esta planta poderá sequestrar carbono e capturar metais pesados, um grande desafio para o celeiro da Europa. Fonte.
  • O enorme surto de ciclospora nos EUA em 2026, que provocou diarreia explosiva, milhares de casos e até mesmo mortes, é o resultado direto de três crises interligadas: os cortes orçamentais da administração Trump, o domínio corporativo do setor agrícola e as alterações climáticas. Entre maio e agosto de 2026, foram confirmados mais de 10 000 casos e 517 hospitalizações em 47 estados, tendo só o Michigan registado mais de 12 000 casos e as primeiras mortes. O parasita está associado a produtos hortícolas contaminados, nomeadamente alface iceberg ralada da Taylor Farms de México. A administração reduziu drasticamente o financiamento e o pessoal destinados a programas essenciais de segurança alimentar. A consolidação empresarial do sistema alimentar, com a Taylor Farms a controlar 40% das «saladas de valor acrescentado» dos EUA permitiu que um único caso de contaminação causasse doenças a pessoas em todo o país. Verões mais quentes e mais longos proporcionam um período mais alargado para o parasita se desenvolver. Fonte.
  • Em Cumbria, o direito dos rios a não receberem produtos químicos eternos e radiação é ignorado pela máfia nuclear — em nome da segurança nacional. Fonte.

REFLEXÃO


Nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, numa operação conjunta da Comissão Nacional da Água, do Exército Mexicano e da Guarda Nacional, as forças federais desmantelaram uma rede de reservatórios ilegais, canais de desvio e estações de dessalinização na zona costeira da Baixa Califórnia, junto às Playas de Tijuana e Rosarito. As infraestruturas clandestinas vinham apropriando-se de milhões de metros cúbicos de água destinados ao abastecimento público do México.

No local, empresas norte-americanas haviam instalado sistemas de osmose inversa, dissimulados por trás da fachada de hotéis de luxo e mansões privadas. Além disso, tanto cidadãos como corporações dos Estados Unidos adquiriram, de forma estratégica, propriedades de veraneio nas faixas litorâneas fronteiriças mais cobiçadas do estado.

Por baixo dessas fachadas de luxo, os operadores montaram equipamentos de grande porte que extraíam água diretamente do mar territorial mexicano, processavam-na clandestinamente e bombeavam-na em direção ao norte. De acordo com as investigações, essa infraestrutura ilegal estava interligada a tubagens de alta pressão ancoradas no fundo oceânico do Pacífico. Estas tubagens submarinas atravessavam a fronteira marítima de forma dissimulada e desembocavam diretamente nas estações de armazenamento de San Diego — fugindo aos impostos, violando tratados bilaterais e evitando qualquer forma de supervisão internacional. A Presidente informou que formalizará queixas junto da Procuradoria-Geral da República, sob a acusação de extração ilícita de água e de cumplicidade por parte das autoridades.

A drástica medida ocorre na pior crise de seca que assola a bacia do rio Colorado há décadas, período em que as cidades mexicanas na fronteira suportam restrições severas de abastecimento, com cortes diários que chegam a atingir 12 horas em bairros de Mexicali, Tijuana e San Luis Río Colorado. As autoridades detetaram que os grandes distritos do Vale do Imperial, na Califórnia, beneficiam de um abastecimento artificial e ilegal, com captações diretas nos aquíferos e canais da Baixa Califórnia. O contraste não poderia ser mais brutal: enquanto, do lado mexicano, os agricultores veem as suas culturas secarem e as famílias racionam a água para o consumo essencial, do lado norte-americano, os campos de hortaliças mantêm-se verdejantes, alimentados por um fluxo ininterrupto de recursos hídricos subtraídos. Os fundamentos técnicos subjacentes a esta apropriação ilícita revelam-se ainda mais elucidativos.

Em virtude das correntes marinhas profundas e da menor carga poluente industrial no litoral da Baixa Califórnia, a água captada nas praias mexicanas apresenta concentrações significativamente inferiores de metais pesados, microplásticos e resíduos químicos urbanos, em comparação com as águas saturadas e altamente degradadas das costas de San Diego e Los Angeles. Para as estações de dessalinização, essa qualidade superior traduzia-se em poupanças milionárias em manutenção, uma vez que as dispendiosas membranas de osmose inversa, livres do desgaste prematuro provocado pela poluição industrial norte-americana, garantiam uma produção de água potável 40% mais rápida, mais pura e mais barata.

Fontes próximas da investigação afirmam que esta diferença de custos se traduziu em centenas de milhões de dólares de lucro anual para os operadores ilegais. Lucros que nunca foram declaradas nem partilhadas com o México. Mas a pilhagem não se limitou ao mar. Aproveitando os antigos leitos do rio Colorado, escavadoras norte-americanas penetraram em território mexicano para construir diques e barragens ocultas. Estas estruturas armazenavam a água das cheias e os excedentes mexicanos, impedindo o reabastecimento dos aquíferos locais e direcionando-os sistematicamente para norte. O mecanismo mais alarmante consistia numa rede de tubagens enterradas a mais de 3 metros de profundidade. Estas linhas atravessavam a fronteira de forma oculta, ligando estações de bombagem camufladas no lado mexicano diretamente aos canais de regadio do Vale Imperial.

As autoridades localizaram e encerraram poços profundos, perfurados a escassos metros da linha fronteiriça, equipados com bombas submersíveis de grande capacidade industrial. Através de uma captação horizontal forçada, estes dispositivos drenavam os aquíferos de Mexicali, canalizando a água para irrigar campos de hortaliças em território norte-americano. O resultado foi um rebaixamento contínuo dos níveis freáticos do lado mexicano, um fenómeno que os técnicos da CONagua já vinham documentando há anos, mas cuja causa exata nunca haviam conseguido identificar até este desmantelamento.

A operação relâmpago incidiu sobre três pontos estratégicos da fronteira entre a Baixa Califórnia e a Califórnia, culminando na destruição integral da infraestrutura ilegal. Na região dos campos de algodão, no município de Mexicali, foram desmanteladas as condutas subaquáticas e de alta pressão que trespassavam o subsolo fronteiriço; unidades de engenharia do Exército, com o apoio de efetivos especializados da Guarda Nacional, localizaram e cortaram dezenas de quilómetros dessas tubagens clandestinas. Já na zona conhecida como «o muro da salada», a Guarda Nacional recorreu a maquinaria pesada e a detonações controladas para demolir quatro açudes erguidos ilegalmente em solo nacional. Dissimulados entre dunas e vegetação rasteira, esses depósitos captavam águas superficiais e armazenavam-nas temporariamente antes de as bombear para o norte. Por fim, a terceira frente de intervenção abriu-se no distrito de Arrigo XIV, no Vale do Mexicali, onde agentes da CONAGUA, escoltados por elementos do Exército, encerraram as baterias de poços profundos de captação lateral e destruíram as comportas ilegais que desviavam os canais de rega.

Estes poços, que extraíam água de aquíferos partilhados através de sistemas de bombagem horizontal, foram encerrados com a selagem definitiva das respetivas bocas em betão armado e a remoção de toda a maquinaria. Só nesta zona, os técnicos mexicanos estimam que o volume diário captado era suficiente para abastecer uma cidade de média dimensão. O cerne do problema reside no facto de, em períodos de seca, os agricultores norte-americanos insistirem em manter a mesma área cultivada, em claro detrimento da superfície que os agricultores mexicanos conseguem efetivamente explorar.

A reação em ambos os lados da fronteira foi imediata e tensa. O governo federal anunciou o reforço permanente da vigilância na faixa fronteiriça, prevendo-se que, nas próximas semanas, sejam apresentadas queixas formais perante organismos internacionais, por violação dos tratados sobre águas partilhadas e por atentado à soberania territorial.

É neste contexto que se inscreve a decisão de construir a estação de dessalinização de Rosarito, destinada a abastecer principalmente os municípios de Rosarito e Tijuana. Com a destruição das instalações clandestinas e de toda a rede de condutas, fica suprimida, de um só golpe, uma fonte artificial de abastecimento que sustentava parte da agricultura intensiva no sul da Califórnia.

Num cenário de seca prolongada e de redução das quotas atribuídas pelo rio Colorado, o impacto sobre os produtores norte-americanos poderá revelar-se severo. Do lado mexicano, por seu turno, abre-se a possibilidade de recuperar os aquíferos e de redirecionar a água até então desviada para as comunidades e campos locais, que há anos padecem com a escassez. Entretanto, a agência já se encontra a elaborar um mapa atualizado dos potenciais focos de extração ilegal ao longo de toda a fronteira noroeste, enquanto o Exército e a Guarda Nacional manterão uma presença permanente nas áreas já libertadas. Por último, não se descarta a possibilidade de virem a ser detetadas instalações análogas noutros trechos da costa da Baixa Califórnia, o que implicaria o lançamento de uma segunda fase de operações.

Embora as posições iniciais pareçam irreconciliáveis — o México exige o fim de qualquer extração ilegal e a reparação dos danos causados aos aquíferos, enquanto do outro lado da fronteira se insiste na necessidade de fontes alternativas face às alterações climáticas —, a operação desta segunda-feira não só derrubou as infraestruturas clandestinas, como dissipou a ilusão de que a pilhagem poderia prosseguir indefinidamente ao abrigo da fachada de propriedades de luxo e de canais subterrâneos. O México foi perentório: a água do seu território e dos seus mares não está disponível para ser captada, tratada e exportada clandestinamente.

BICO CALADO

  • “(…) Riem-se, porque não são responsáveis por nada: se hoje falharem na política, amanhã, pelo efeito das portas rotativas, estarão numa fundação, noutro posto em Bruxelas, numa universidade nos EUA, num banco ou na administração dum fundo de investimento norte-americano – de onde já veio, por exemplo, o chanceler alemão Merz e para onde foi Durão Barroso que esteve sempre do lado das guerras, desde o início a apoiar a invasão do Iraque, desde o início a apoiar o golpe na Ucrânia que levou à atual guerra.” Miguel Szymanski.
  • A Segurança Social e o Luís. Carlos Esperança, Ponte Europa.
  • O Ministério da Defesa israelita e empresas de defesa israelitas canalizaram milhões em financiamento não declarado para programas de investigação de universidades norte-americanas destinados ao desenvolvimento de armas, patrocinando diretamente a investigação ou atuando como entidade intermediária para a transferência dos fundos. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

COMO OS MEDIA PROMOVEM O GENOCÍDIO
Chris Hedges, ScheerPost. Rev. O’Lima.

Joy to the World – by Mr. Fish

Os media ocidentais, ao recorrerem a dois pesos e duas medidas, à censura, a uma linguagem enganosa, ao amplificarem as mentiras israelitas e ao desumanizarem os palestinianos, facilitam o genocídio em Gaza.

Os media ocidentais criam um clima de aceitação para o genocídio. Normalizam a ocupação militar e o apartheid praticados por Israel há décadas. Ignoram as violações flagrantes do direito internacional por parte de Israel. Perpetuam a falácia de que Israel é uma vítima. Traem, desacreditam e demonizam o trabalho dos jornalistas e profissionais dos media palestinianos em Gaza, dos quais pelo menos 220 foram mortos por Israel entre 7 de outubro de 2023 e agosto de 2025. Aceitam passivamente a censura draconiana de Israel. Limitam-se a manifestar timidez através de cartas de protesto contra a recusa de Israel em permitir a entrada de repórteres estrangeiros em Gaza — um esforço de Israel para encobrir os seus crimes de guerra. Amplificam as mentiras israelitas, desde bebés decapitados até agressões sexuais generalizadas contra mulheres israelitas a 7 de outubro, para ofuscar a verdade.

Quando escrevem sobre Gaza, os verbos estão na voz passiva. Não há sujeito. Ninguém é responsabilizado. O genocídio, ao que parece, é um ato de Deus. Não é diferente de um terramoto ou de um tsunami. Clichés e adjetivos vagos, como o «ciclo de violência» ou «confrontos», distorcem e falsificam a realidade.

«Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento», advertiu George Orwell.

Termos como «genocídio», «atrocidade», «limpeza étnica» e «territórios ocupados» desaparecem como por magia das notícias dos media sobre os palestinianos, cuja resistência é rotineiramente descrita como «selvagem» e «bárbara». Os repórteres do New York Times recebem instruções dos editores para evitar termos como «Palestina», «genocídio», «carnificina», «campo de refugiados», «massacre» e «matança» quando se referem aos palestinianos.

Os media repetem servilmente o que Israel lhes fornece. O bombardeamento de saturação transforma-se em «ataques aéreos cirúrgicos». A utilização da fome como arma por parte de Israel torna-se uma «escassez alimentar». O assassinato de civis desarmados — incluindo crianças — torna-se «confrontos». Os complexos dos colonos judeus, semelhantes a fortalezas no topo das colinas, tornam-se «bairros». O assassinato extrajudicial de um jornalista ou de um médico torna-se «faleceu».

O genocídio, referido como a «guerra entre Israel e o Hamas», é justificado como «autodefesa», parte do mantra do «direito de Israel a defender-se». Quando escolas, hospitais, clínicas, ambulâncias, mesquitas, igrejas e outros alvos civis são destruídos, são rotulados como «centros de comando do Hamas» ou tomados como alvo porque o Hamas está a «usar civis como escudos humanos» — algo que Israel faz rotineiramente, quando o exército amarra palestinianos detidos e os obriga a entrar em edifícios e túneis potencialmente armadilhados, à frente das tropas israelitas.

Quando os israelitas são detidos pelo Hamas, são «reféns», mesmo que sirvam nas forças armadas. Quando os palestinianos — incluindo crianças — são detidos sem acusação nem julgamento e desaparecem em centros de detenção israelitas, onde a tortura é «generalizada» e «sistemática», são «prisioneiros».

Os ataques com mísseis a acampamentos ou hospitais são atribuídos a grupos armados palestinianos que disparam foguetes descontrolados. Se Israel reconhecer os ataques — o que acontece muito raramente —, estes são descritos como um «erro trágico».

As instituições civis em Gaza são caracterizadas como «geridas pelo Hamas» para lançar dúvidas sobre a veracidade das suas informações. O New York Times costuma contextualizar os comunicados do Ministério da Saúde de Gaza, referindo que este «não faz distinção entre civis e combatentes», ocultando o massacre de dezenas de milhares de civis. O resultado são alguns dos textos mais confusos da história do jornalismo, incluindo a manchete do New York Times de 5 de novembro de 2023, que dizia: «Explosões que os habitantes de Gaza afirmam terem sido um ataque aéreo deixam muitas vítimas num bairro densamente povoado.»

«Quando os jornalistas do Middle East Eye, Mohamed Salama e Ahmed Abu Aziz, juntamente com o fotojornalista da Reuters, Hussam al-Masri, e os freelancers Moaz Abu Taha, e Mariam Dagga — que tinham trabalhado com vários órgãos de comunicação social, incluindo a Associated Press — foram mortos num ataque de «duplo golpe» — concebido para matar as equipas de primeiros socorros que chegavam para tratar as vítimas dos ataques iniciais — no Complexo Médico Nasser, como é que as agências noticiosas ocidentais reagiram?», perguntei na minha coluna «A Traição aos Jornalistas Palestinianos».

«As forças armadas israelitas afirmam que os ataques a um hospital em Gaza tinham como alvo o que, segundo elas, era uma câmara do Hamas», noticiou a Associated Press.

«As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmam que o ataque ao hospital teve como alvo uma câmara do Hamas», anunciou a CNN.

A câmara pertencia à Reuters, que afirmou que Israel estava «plenamente ciente» de que a agência noticiosa estava a filmar a partir do hospital.

«Quando o correspondente da Al Jazeera, Anas Al Sharif, e outros três jornalistas foram mortos a 10 de agosto na sua tenda de imprensa perto do Hospital Al Shifa, como é que isso foi noticiado na imprensa ocidental?», perguntei.

«Israel mata jornalista da Al Jazeera que, segundo afirma, era um líder do Hamas», foi o título que a Reuters deu à sua notícia, apesar de al-Sharif fazer parte de uma equipa da Reuters que ganhou um Prémio Pulitzer em 2024.

O jornal alemão Bild publicou uma notícia na primeira página com o título: «Terrorista disfarçado de jornalista morto em Gaza.»

«As acrobacias linguísticas empregadas pelos media chegaram ao ponto de redefinir palavras, tornando-as sem sentido», escreve Assal Rad em «Não digam Palestina: como os meios de comunicação fabricaram o consentimento para o genocídio»:

Os media dominantes não descreveram as repetidas quebras do cessar-fogo por parte de Israel utilizando a terminologia de «violação». Em vez disso, a cobertura seguiu os mesmos padrões de racionalização dos ataques de Israel e de repetir acriticamente as alegações de Israel para justificar as suas ações. Enquanto os palestinianos continuavam a ser mortos — durante um «cessar-fogo» — e o fluxo de ajuda não atingia o nível das necessidades nem o que tinha sido acordado, os media ocidentais enquadraram estas violações flagrantes como «testes» ou «desafios» a um «cessar-fogo instável». Enquanto organizações de direitos humanos de renome, como a Amnistia Internacional, alertavam que o genocídio, na verdade, ainda não tinha terminado, os meios de comunicação tradicionais continuaram a enquadrá-lo como uma guerra com um «cessar-fogo frágil».

As palavras importam. As palavras justificam as ações. Se não há genocídio, se Israel se está a defender numa guerra, os EUA e os aliados europeus de Israel têm o direito de fornecer dezenas de milhares de milhões de dólares em ajuda militar. Se esta é uma guerra iniciada pelo Hamas a 7 de outubro, então é possível lamentar a destruição de Gaza e o massacre em massa perpetrado por Israel como o resultado lamentável do ataque do Hamas.

Esta corrupção da linguagem destina-se, como observou Orwell, a defender o indefensável:

“Coisas como a manutenção do domínio britânico na Índia, os expurgos e deportações russos, o lançamento das bombas atómicas sobre o Japão, podem de facto ser defendidas, mas apenas com argumentos demasiado brutais para a maioria das pessoas encarar e que não se coadunam com os objetivos professados pelos partidos políticos. Assim, a linguagem política tem de consistir, em grande parte, em eufemismos, argumentos circulares e pura e simples imprecisão nebulosa. Aldeias indefesas são bombardeadas do ar, os habitantes expulsos para o campo, o gado abatido a metralhadora, as cabanas incendiadas com balas incendiárias: a isto chama-se pacificação. Milhões de camponeses são despojados das suas quintas e obrigados a caminhar penosamente pelas estradas com nada mais do que aquilo que conseguem carregar: a isto chama-se transferência de população ou retificação de fronteiras. As pessoas são presas durante anos sem julgamento, ou alvejadas na nuca, ou enviadas para morrer de escorbuto em campos de exploração florestal no Ártico: a isto chama-se «eliminação de elementos não fiáveis”.

“Adam Johnson, na obra «How to Sell a Genocide: The Media’s Complicity in the Destruction of Gaza» (Como vender um genocídio: a cumplicidade dos media na destruição de Gaza), analisou mais de 12 000 artigos do The New York Times, do The Washington Post, da CNN.com, do Politico, do Axios, do USA Today e da Associated Press, bem como 5 000 segmentos televisivos transmitidos pela CNN e pela MSNBC. O seu livro, fruto de uma pesquisa minuciosa, constitui uma acusação contundente à justificação do genocídio por parte dos media «liberais».”

A CNN e o The New York Times deram instruções aos seus editores e jornalistas para que os ataques só pudessem ser atribuídos a Israel após confirmação por parte das Forças de Defesa de Israel (IDF) e com base em coordenadas GPS. Johnson cita uma fonte da CNN: “Quer fosse na redacção ou no terreno, não podíamos atribuir nada a Israel a menos que cumpríssemos este critério impossivelmente elevado de ter de designar o acontecimento como uma «explosão», até geolocalizarmos o local da explosão, enviarmos as coordenadas aos israelitas e lhes pedirmos um comentário.

Pode ver aqui uma entrevista com Johnson sobre o seu livro no site The Electronic Intifada.

Os jornalistas da CNN que fazem reportagens sobre Israel e a Palestina têm de submeter os seus trabalhos à revisão do escritório da rede em Jerusalém antes da transmissão. O escritório da CNN, tal como todos os escritórios de notícias em Israel, é obrigado a cumprir as restrições impostas pela censura militar israelita.

Aos poucos palestinianos que aparecem na CNN e noutros media tradicionais é-lhes perguntado rotineiramente — normalmente antes mesmo de lhes ser permitido ir para o ar — se «condenam» o Hamas. Aos convidados que expressam até mesmo críticas moderadas a Israel é perguntado se Israel «tem o direito de existir». Nunca se pergunta a ninguém se condena o sionismo, o apartheid, a limpeza étnica, o genocídio ou a guerra de 100 anos de Israel contra a Palestina. Nem se lhes pergunta se os palestinianos têm o direito de se defender — o que, ao abrigo do direito internacional, têm, inclusive com armas. Os nossos jornalistas e media domesticados são, como Robert Fisk salientou, «prisioneiros da linguagem do poder». Repetem obedientemente o léxico oficial. Isto torna-os não só propagandistas, mas cúmplices de genocídio.

Aqueles que protestam contra o genocídio, incluindo estudantes nos campus universitários — muitos dos quais são judeus —, são difamados como «apoiantes do Hamas» e «antisemitas». Os jornalistas procuram estudantes sionistas, normalmente encontrados nas casas Hillel dos campus, que afirmam estar «com medo pela sua segurança» devido aos protestos. Os media dedicam pouca atenção ao aumento do preconceito antimuçulmano ou à repressão infligida aos estudantes manifestantes, que inclui não só a brutalidade policial e 3 000 detenções e prisões, mas também suspensões, períodos de prova, expulsões, retenção de diplomas e o despedimento de docentes solidários.

Os slogans que apelam à libertação da Palestina — incluindo «Do rio ao mar, a Palestina será livre» —, juntamente com a bandeira palestiniana, foram criminalizados. A mensagem é clara: as vidas dos judeus importam. As vidas dos palestinianos não.

«Os relatórios das agências da ONU, de observadores respeitados dos direitos humanos, de revistas médicas e de profissionais de saúde são, em geral, tratados com respeito e recebem destaque nos media dominantes», escreve o historiador Rashid Khalidi na introdução do livro de Robin Anderson, «The Complicit Lens: US Media Coverage of Israel’s Genocide in Gaza» (A Lente Cúmplice: A Cobertura Mediática dos EUA sobre o Genocídio de Israel em Gaza):

“Não nesta guerra: em vez disso, se é que essas fontes são citadas, é dado igual destaque mediático às calúnias e difamações escandalosas contra estas organizações e indivíduos, difamações produzidas em profusão pela legião de propagandistas profissionais de Israel e pela sua miríade de defensores nos EUA. Para além de difamar os críticos do genocídio de Israel como apoiantes do Hamas ou simpatizantes de terroristas, a principal arma no seu arsenal de difamação é o uso indevido, sistemático e escandaloso da acusação mortal de antissemitismo.”

A fuga em massa de leitores e espectadores dos media tradicionais para plataformas de redes sociais que não filtram as notícias através do lóbi israelita, do governo dos EUA ou das grandes empresas é um indicador claro da falência dos meios de comunicação. A resposta a estas migrações tem sido o «plataformicídio» — o uso de algoritmos, o «shadow banning», a restrição das capacidades de transmissão em direto e o encerramento de contas por parte de gigantes das redes sociais como o Facebook, o Instagram, o X, o YouTube e o TikTok, com o objetivo de reduzir drasticamente o alcance da cobertura jornalística sobre a Palestina. Esta censura faz parte de um esforço coordenado para ocultar do público o horror do genocídio.

Ao referir-se constantemente a 7 de outubro, a comunicação social ocidental descontextualiza o genocídio. Ignora o cerco de 19 anos imposto por Israel a Gaza. O dia 7 de outubro é caracterizado na comunicação social ocidental como «não provocado». Os massacres de palestinianos desarmados em Gaza, perpetrados por Israel no inverno de 2008 e 2009, juntamente com os seus ataques a Gaza em 2012, 2014 e durante a Grande Marcha do Regresso em 2018 e 2019, são ignorados. A Nakba de 1948 — quando os sionistas europeus se apoderaram de mais de 78 por cento da Palestina histórica, expulsaram violentamente 750 000 palestinianos, destruíram mais de 530 aldeias palestinianas e mataram 15 000 palestinianos — raramente é mencionada. Setenta por cento das pessoas expulsas das suas casas em 1948 foram forçadas a refugiar-se em Gaza. O projeto sionista assenta na promoção da amnésia histórica.

«Assim que o Hamas foi apresentado como um grupo terrorista brutal, cujos membros torturavam, desmembravam e decapitavam bebés com alegria e sem qualquer consciência, não foram necessárias mais explicações», escreve Anderson no seu livro. «Os media limitaram-se a evitar noticiar o historial de violência de Israel e, consequentemente, os media tradicionais também ignoraram as condições de vida quotidiana dos palestinianos.»

A ficção de que existe atualmente um cessar-fogo em Gaza — Israel matou pelo menos 1 286 palestinianos e feriu 4 257 desde que este supostamente entrou em vigor — tornou-se a desculpa utilizada pelos media ocidentais para virar as costas a Gaza. Esta negação do genocídio tem caracterizado a cobertura desde o seu início. Ela encobre não só os crimes de Israel, mas também a intenção declarada de Israel de realizar uma limpeza étnica de todos os palestinianos de Gaza. E neutraliza efetivamente o direito internacional. E ridiculariza a profissão de jornalista.

Quando ocorrer o último ato de limpeza étnica, a comunicação social ocidental continuará, tenho a certeza, a bombardear-nos com propaganda israelita, eufemismos e clichés. Justificará o genocídio até ao fim.

sábado, 29 de agosto de 2026

ESPINHO: PRAIAS CONTAMINADAS INTERDITAS


Todas as praias de Espinho foram interditas devido a contaminação microbiológica, diz o JN de sexta-feira, 28 de agosto. Isto é o resultado das fortes chuvadas que caíram em Espinho na segunda-feira e na 4ª feira de manhã, tendo as águas junto da foz da ribeira do Mocho e zonas adjacentes registado alteração notória da sua cor. Outro factor a considerar será a abertura do dique fusível da barrinha de Esmoriz.

Esta manhã, a bandeira vermelha hasteada na Praia da Baía não impediu surfistas de frequentar as águas ditas contaminadas. Estariam a prestar provas para concorrer a vagas da Polícia Marítima?

OVAR: RIO CÁSTER COM ÁGUA ESCURA E MANCHAS DE ESPUMA

  • A água do rio Cáster apresentava-se muito turva e com manchas de espuma à superfície em consequência de mais uma descarga poluente. Algumas dessas massas espumosas acumulam-se junto à vegetação das margens formando camadas de sobrenadante com aspecto oleoso. Este tipo de descargas de poluentes para o rio continuam a ocorrer com alguma frequência, degradando o ecossistema e comprometendo a qualidade da água, tornando a incompatível com a vida, pelo que a associação ‘Os Amigos do Cáster’ pede investigação urgente para detetar a origem das descargas. Para além da denúncia àquela força de segurança, os Amigos do Cáster apelaram à Câmara Municipal para que se empenhe na identificação da fonte daquelas descargas poluentes, e na permanente articulação com a GNR no sentido do apuramento e atribuição de responsabilidades. Fonte.
  • O Governo aprovou o denominado “Mapa Verde” das energias renováveis depois de dois organismos públicos terem chumbado formalmente a proposta e de outros terem assinalado desconformidades legais, falhas cartográficas e riscos para a água, as florestas, os solos e o património. Foram anunciadas mais de 800 zonas, mas continua por divulgar a cartografia final e por explicar como foram ultrapassadas as objecções técnicas. P1.
  • Duas mulheres fizeram circular uma petição pedindo à sua cidade que deixasse os eleitores decidir sobre um centro de dados. Agora, a cidade está a processá-las por causa disso. O litígio centra-se num projeto de centro de dados promovido pela DAMAC Digital, com sede no Dubai, previsto para um armazém no Logistics Park Kansas City, nos arredores de Edgerton, no condado de Johnson. Kim Twente e Carrie Schmidt, juntamente com outros membros da comunidade, reuniram assinaturas suficientes para incluir uma votação sobre o centro de dados no boletim de voto de novembro, invocando preocupações com o ruído, a qualidade do ar e o impacto ambiental que estas instalações podem ter nas comunidades vizinhas. A cidade afirma na sua ação judicial que proibir centros de dados por serem considerados um «incómodo» não é legal e está agora a processar ambas as mulheres, juntamente com a organização sem fins lucrativos fundada por Twente, a Public Trust Collective. Fonte.

REFLEXÃO

DEIXEI DE COMPRAR PURA E SIMPLESMENTE
Pedro Filipe.



Por cada garrafa ou lata, tiram-te 10 cêntimos do bolso.
Faz as contas comigo:

Num simples pack de seis águas, pagas mais 60 cêntimos à cabeça.
Levas dois packs? São mais 1,20 € que ficam retidos.
Dinheiro teu.
Dizem que é pela ecologia, mas a verdade é que acabaste de ser recrutado como operário não pago das grandes superfícies.
Primeiro, vão entulhar-te a casa.
Estás proibido de esmagar as garrafas.
Vais ter sacos enormes a ocupar a cozinha, porque a máquina “inteligente” recusa plástico comprimido.
Depois, vais carregar lixo e perder tempo em filas humilhantes, só para mendigar o dinheiro que já era teu.
E o golpe de mestre?
O reembolso vem num pedaço de papel.
Tiram-te dinheiro vivo da carteira e devolvem-te um talão que te obriga a gastar o dinheiro na loja deles.
O teu dinheiro deixou de ser livre.
Agora é um vale de consumo refém do supermercado.
Milhões de euros em depósitos nunca vão ser devolvidos.
Entre talões perdidos e pessoas que desistem das filas, o sistema lucra com o teu cansaço.
Isto não é salvar o planeta.
É usar o teu esforço, o teu espaço e o teu dinheiro para financiar a logística dos outros.
Vais mesmo aceitar trabalhar de graça?


BICO CALADO

Cartune: Carlos Latuff
  • Israel financiou um falso centro de estudos norte-americano e uma rede de sites aparentemente independentes, concebidos para manipular sistemas de inteligência artificial e introduzir narrativas pró-Israel nas respostas dos chatbots. A operação faz parte de uma multimilionária campanha israelita destinada a manipular o ambiente informativo online, numa altura em que o Estado ocupante se debate para reverter um colapso sem precedentes no apoio internacional, na sequência do genocídio em Gaza e da expansão das guerras regionais. As revelações surgem poucos dias depois de uma figura de destaque no setor da comunicação israelita ter admitido abertamente ter inventado informações falsas no âmbito da guerra de propaganda de Israel. Eli Hazan, um responsável de longa data pela comunicação do Likud e antigo porta-voz do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, declarou: «A verdade já não importa. Os factos já não importam.» Fonte.
  • Um antigo conselheiro eleitoral das Honduras publicou gravações que provam que as eleições de 2025 no seu país foram viciadas. Os EUA ajudaram a colocar no poder o político de extrema-direita Nasry «Tito» Asfura, que está intimamente ligado ao tráfico de droga. Trump interferiu pessoalmente nas eleições de Honduras e perdoou e libertou da prisão o antigo ditador do país, apoiado pelos EUA, Juan Orlando Hernández (JOH), que estava preso por tráfico de toneladas de cocaína e metralhadoras. JOH pertence ao mesmo Partido Nacional de direita de Asfura. Os seus comparsas do cartel de droga estão agora, mais uma vez, a governar Honduras, com o total apoio de Washington. A fraude nas Honduras foi supervisionada por um especialista argentino de extrema-direita, apoiado pelos EUA, em interferência eleitoral, Fernando Cerimedo, que foi recentemente detido na Bolívia por contratar assassinos para tentar assassinar a sua ex-namorada grávida (embora tenham falhado). Este aliado próximo dos EUA também está a ser investigado por tráfico de droga. Ben Norton.
  • Os patrões de meios de comunicação extremistas e bilionários querem roubar a vossa Segurança Social para não terem de pagar impostos ligeiramente mais elevados. Que fique claro: cortar os benefícios da Segurança Social e do Medicare para reduzir o défice não é uma posição moderada. É uma posição que ataca centenas de milhões de trabalhadores comuns para evitar tributar os ricos ou reduzir o desperdício no nosso sistema de saúde. Dean Baker, Common Dreams.
  • ‘Boys’ e ‘girls’ assaltam máquina do Estado: 37 adjuntos dos Governos Montenegro passaram para cargos públicos de liderança. P1.
  • A Entidade Reguladora para a Comunicação Social continua a desfraldar uma bandeira de obscurantismo e de clara hostilidade aos jornalistas. Na resposta à intimação apresentada pelo PÁGINA UM no Tribunal Administrativo de Lisboa, a ERC sustentou que a qualidade de jornalista e a produção de notícias de interesse público não bastam para consultar actas onde constam decisões sobre remunerações, benefícios e outras regalias dos seus dirigentes e trabalhadores. O regulador constitucionalmente criado para assegurar a liberdade de imprensa e o acesso às fontes prefere, assim, discutir a legitimidade de quem pergunta em vez de mostrar aquilo que faz com dinheiro público. P1.
  • Em 2021, a Polícia Municipal de Lisboa dizia demorar, no máximo, um dia a inspeccionar uma obra denunciada; em 2024, admitia já uma espera de 18 dias. P1.

LEITURAS MARGINAIS

OS GLACIARES JÁ NÃO DERRETEM — ELES DESPRENDEM-SE
E o Nepal acabou de descobrir (mais uma vez) a que ritmo
Ricky Lanusse, Medium. Rev. O’Lima.


A câmara de vigilância no posto fronteiriço de Rasuwagadhi capta tudoAs pessoas caminham entre autocarros estacionados, com bagagem e passaportes — a cena habitual de uma fronteira terrestre —, quando, de repente, todos começam a correr na mesma direção. Atrás delas surge uma parede castanha com vários andares de altura, avançando à velocidade de uma autoestrada e devorando tudo o que encontra pelo caminho. Arrasta a fila de autocarros e camiões e empurra-os para o lado como se fossem brinquedos. Em seguida, a câmara mostra os escombros e, depois, nada.

A quarenta milhas a sul, em Catmandu, os indicadores saltaram. O Serviço Geológico dos EUA registou um sismo de magnitude 4,4 perto da fronteira na quarta-feira de manhã. Horas mais tarde, retirou o registo do sismo. O sinal sísmico, segundo o organismo, provinha de gelo glaciar e rocha que se soltaram e desceram pelo vale, tendo sido reclassificado, após revisão, como um evento de magnitude 5,2. «Não se tinha verificado qualquer sismo», corrigiram. Algo mais impactante aconteceu.

A cerca de 5 200 metros de altitude, numa crista dos Himalaias, a parte inferior de um glaciar partiu-se e caiu 1 200 metros — uma placa de gelo mais larga do que cinco campos de futebol colocados lado a lado —, arrastando rochas à medida que caía e pulverizando-se na água com a força da própria queda.

O que saiu da base daquela queda desabou no rio Lhendeatravessou a fronteira e transformou uma manhã normal num desastre. Até ao momento, estão confirmadas pelo menos 273 mortes e mais de 1 300 desaparecidos, muitos dos quais caminhantes e peregrinos de todo o mundo a caminho do Monte Kailash, com corpos recuperados centenas de quilómetros a jusante e um lago de represamento ainda perigosamente cheio no Tibete, enquanto escrevo isto. Numa cama de hospital abaixo do nível da inundação, um sobrevivente de 68 anos chamado Keshav Prasad Baral contou aos jornalistas que, quando a água invadiu a sua casa, tentou agarrar a mão da sua esposa… mas não conseguiu. Horas mais tarde, um helicóptero evacuou-o. A sua esposa continua soterrada sob a lama.

Há anos que escrevo sobre a lentidão com que os glaciares mudam, os seus efeitos cumulativos na subida do nível do mar, gráficos que avançam lentamente em direção a 2100. O que aconteceu aqui segue um ritmo diferente: a montanha, basicamente, desabou de uma só vez. E esse contraste (a matemática climática em câmara lenta versus um desastre em tempo real) é toda a história.

Uma reação em cadeia cumulativa

A princípio, todos recorreram à explicação que o Nepal conhece tão bem: um terramoto. As autoridades apontaram para um terramoto ocorrido minutos antes da inundação, e essa reação instintiva fazia sentido: o solo tinha tremido, os instrumentos indicavam isso e, neste país, a expressão «a terra está a tremer» carrega um terror específico e bem merecido.

Um trabalhador que foi arrastado pela corrente e salvo pelos ramos de uma mangueira disse que a sensação foi «como um terramoto». O seu corpo interpretou o sinal da mesma forma que os sismógrafos. Mas ambos estavam errados na mesma direção reveladora. Nada no subsolo se tinha movido primeiro. O que os sensores detetaram foi a própria montanha a desligar-se e a descer rugindo pelo vale, anunciando-se em instrumentos concebidos para captar outra coisa.

Então, as pessoas começaram a verificar os registos vindos de cima.

As imagens de satélite não revelaram a existência de nenhum lago de grande dimensão a montante do percurso da inundação, pelo que não se tratou de um lago glaciar cuja «barragem» se rompeu repentinamente (o desastre que este mesmo vale sofreu ainda em agosto passado). Os dados meteorológicos não indicaram chuvas torrenciais na semana anterior, pelo que também não se tratou de uma chuva torrencial. E, uma vez descartadas essas hipóteses, resta a explicação mais simples e mais improvável: foi a própria geleira que se desprendeu. O gelo e as rochas que caíram chocaram contra o rio Lhende com força suficiente para represar o rio por um breve período e, quando a barragem formada pelos seus próprios detritos cedeu, toda a água acumulada jorrou de uma só vez.

Um medidor de nível no rio Trishuli indicou que o rio subiu nove metros em meia hora — o equivalente a um edifício de três andares de água acumulou-se no tempo que demora a almoçar. Este mesmo afluente já transbordou duas vezes em catorze meses, por duas razões totalmente diferentes.

Mas já vimos este mesmo filme antes, fotograma a fotograma.

Em fevereiro de 2021, em Chamoli, nos Himalaias indianos, 27 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo glaciar desprendem-se da face norte — um volume equivalente a mais de dez mil piscinas olímpicas — e transformaram-se num fluxo de detritos que destruiu duas centrais hidroelétricas e matou mais de 200 pessoas.

Quando os investigadores reconstruíram o que aconteceu, descobriram uma reação em cadeia bastante simples por trás do aquecimento global, que enfraquece estas montanhas de formas cumulativas:
  • À medida que os glaciares encolhem, deixam de «sustentar» a rocha à sua volta.
  • A água do degelo infiltra-se nas fendas e desestabiliza ainda mais o terreno.
  • E o solo que costumava permanecer congelado (o cimento da natureza) começa a descongelar, pelo que os blocos de rocha que estavam presos no lugar podem mover-se repentinamente.
É como se um congelador estivesse a avariar-se. Tudo começa a amolecer e o bloco sólido de gelo que ocupava metade do seu espaço durante anos pode, de repente, soltar-se.

O exemplo mais gritante da mesma história

A maioria de nós foi ensinada a preocupar-se com os glaciares de uma forma lenta e distante. O gelo derrete um pouco a cada ano, a linha no gráfico continua a subir lentamente em direção a 2100 e os danos manifestam-se como alguns milímetros a mais no nível do mar, algures onde nunca iremos ver. É o tipo de problema que se pode arquivar na cabeça, como a documentação da reforma. O Himalaia acabou de publicar o outro cenário, aquele em que a mesma dívida é cobrada em quarenta segundos, numa explosão brutal.

Ambas as versões estão a acontecer ao mesmo tempo e ambas estão a acelerar. Desde 2000, os glaciares mundiais perderam cerca de 5% do seu gelo. No Hindu Kush-Himalaia, a taxa de perda duplicou. Só o Nepal perdeu quase um quarto da sua área glaciar em cerca de quarenta anos, e mais de 160 pequenos glaciares desapareceram completamente. E com um aquecimento de 1,5 °C — valor em que nos encontramos atualmente e que tende a aumentar —, metade dos glaciares do mundo já está condenada a desaparecer. Essa é a versão «fundo de pensões» da crise, e já por si só é terrível.

Mas o recuo não é um encolhimento ordenado. Quando os glaciares recuam, deixam uma confusão para trásPara começar, toda essa água de degelo tem de ir para algum lado. Existem atualmente mais de 110 000 lagos de água de degelo nas cadeias montanhosas, que estão a crescer rapidamente, aumentando a sua área em cerca de 20 % a cada década. Mais de 10 milhões de pessoas vivem a jusante de locais onde um desses lagos poderá rebentar.

E não se trata apenas da água. Quando o gelo recua, deixa de funcionar como uma estrutura de suporte que mantinha as rochas íngremes no lugar. Assim, as montanhas situadas acima de estradas, barragens e aldeias começam a tornar-se mais instáveis, porque toda essa infraestrutura foi construída para a «antiga» montanha, mais fria.

É possível ver o ritmo a que isto acontece no vídeo com os momentos mais marcantes:
  • Marmolada (Itália), 2022: num dia quente, um bloco de gelo de grandes dimensões desprendeu-se do glaciar mais alta das Dolomitas e matou onze caminhantes, um acontecimento que os investigadores associam agora diretamente ao aquecimento global.
  • Blatten (Suíça), 2025: um glaciar suíço cede e soterra a maior parte de uma aldeia que existia há séculos.
  • Tracy Arm (Alasca), dez semanas após Blatten: uma parede de fiorde no Alasca, escavada por um glaciar marítimo que tinha recuado por baixo dela, lança 64 milhões de metros cúbicos de rocha para a água — o equivalente a vinte e quatro Grandes Pirâmides num único movimento —, e a onda que sobe pela falésia oposta atinge os 481 metros, mais alta do que o Empire State Building. A queda faz os sismómetros registarem uma magnitude de 5,4. Não causa vítimas mortais, porque o navio de cruzeiro com 150 passageiros que visitava aquele fiorde encontrava-se precisamente à saída da foz naquele momento. Durante 67 anos, a onda recorde deste tipo, na Baía de Lituya, teve como gatilho um terramoto ao longo de uma falha sísmica. A nova segunda classificada precisou de um glaciar que já lá não existia.
  • No mesmo vale, no Nepal, em 2025: um lago no Tibete transborda e destrói a ponte fronteiriça.
E agora o Lhende, em 2026, o mais mortífero de todos, em que o gelo não precisou de nenhum lago nem de nenhuma tempestade, apenas da gravidade e de uma semana quente que derreteu a neve do glaciar dias antes de esta ceder.

Os registos locais tornam a tendência evidente. Este recanto dos Himalaias registou agora uma inundação causada pelo transbordamento de um lago em 2025, uma avalanche de gelo e rocha em 2024 e as avalanches catastróficas que se abateram sobre Langtang durante o terramoto de 2015, cada uma por um mecanismo diferente, mas todas resultantes da mesma dinâmica de aquecimento. Em Sikkim, em 2023, a ruptura de um único lago destruiu uma barragem hidroelétrica de mil milhões de dólares construída diretamente no caminho de escoamento.

Portanto, sim, os glaciares continuam a encolher ao longo dos anos, mas, por vezes, o «preço» é pago de uma só vez, devorando um vale em poucos minutos.

Alterações na massa dos glaciares regionais e a sua evolução temporal entre 2000 e 2019.

E isto não é apenas uma crise longínqua. Consigo, literalmente, ver uma versão disso da minha janela na Patagónia. A montanha que se ergue acima do meu vale, nos Andes, chama-se Tronador, «o Trovão», nome que lhe foi dado há séculos devido ao som que os seus glaciares suspensos emitem quando pedaços se soltam e caem com estrondo pela encosta rochosa abaixo. Esse nome costumava ser apenas uma descrição pitoresca. Agora parece um aviso: sete dos seus glaciares estão em recuo, numa região onde nove em cada dez glaciares estão a encolher, a perder gelo a um ritmo tão rápido como em qualquer outro lugar da Terra.

O Himalaia é apenas o exemplo mais evidente da mesma história.

O lago suspenso do Monte Tronador, que sofreu uma inundação provocada por um colapso glaciar em 2009

O Cisne Negro Sobre as Montanhas

Planeia comigo a caminhada da tua vida.

Talvez Langtang, ou o circuito do Kailash, aquele para o qual os peregrinos faziam fila. Vê como te saís bem perante o risco. Verificas o calendário da monção e reservas o período seco. Verificas o historial sísmico e tomas nota do terramoto de 2015. Contratas o seguro com a cláusula do helicóptero, levas os medicamentos para a altitude, registas-te na tua embaixada, descarregas os mapas offline, tiras uma fotografia do teu passaporte. Cada perigo que consigas imaginar tem uma caixa, e assinalas todas elas, porque és uma pessoa cuidadosa e esta é a grande aventura.

Mas agora, há uma questão para a qual não há caixa: será que o glaciar suspenso a quatro quilómetros verticais acima do trilho ainda será um glaciar na quarta-feira em que passares por baixo dele?

Não há nenhuma aplicação para isso, nenhuma previsão, nenhuma percentagem, nenhum prémio. A monção tem uma época, os terramotos têm códigos de construção, a altitude tem um medicamento, e uma montanha que desaba não tem nada, porque todos os sistemas que criámos para avaliar o risco — desde tabelas de seguros a licenças de caminhadas, passando pela localização de centrais hidroelétricas — partem do princípio de que as montanhas se comportam estatisticamente como se comportaram no século passado e na semana passada. As pessoas em Rasuwagadhi provavelmente verificaram tudo o que era possível verificar. O que os matou não constava em nenhum formulário.

É isso que é um cisne negro: não um acontecimento inimaginável, mas sim um acontecimento sem preço. E este tem vindo a rondar há anos, em Chamoli, na Marmolada, sobre Blatten, sendo fotografado de cada vez e arquivado de cada vez como um acidente excêntrico, enquanto o congelador que sustenta o telhado do mundo continua a perder potência.

Os glaciares já não derretem. Esse é o verbo antigo, do relógio antigo.

Agora, eles soltam-se.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

SANTARÉM E BAIXO ALENTEJO: GRAVE CONTAMINAÇÃO DA ÁGUA DOCE

  • Contaminação por sal da água doce do Baixo Alentejo e Santarém é grave, alerta estudo europeuO Baixo Alentejo e o distrito de Santarém concentram os casos mais graves de salinização dos rios em Portugal, segundo o primeiro mapa europeu dedicado a este fenómeno, publicado na prestigiada revista Nature Communications.
  • Dois mega centros de dados em Abrantes poderão ultrapassar em quase 30 vezes o consumo energético anual do concelho. Promovido pelo grupo Hyperion, este mega data center ocupará cerca de 151.000 m² de área de implantação e 287.000 m² de área de construção, junto à rotunda de Alvega, e uma ligação elétrica anunciada de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego. O empreendimento foi classificado como Projeto de Interesse Nacional, um estatuto que permite acelerar prazos processuais. Trata-se de um empreendimento excessivo para o território que pretende ocupar, com potenciais impactes ambientais, hídricos e territoriais. Esta preocupação ganha ainda mais relevância à luz do diagnóstico mais recente da própria APA sobre o estado da Bacia Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste para o 4.º ciclo (2028-2033), onde se revela um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo. É precisamente neste contexto de recursos hídricos já sob pressão, que se pretende instalar mais uma infraestrutura industrial de consumo intensivo de água. Por isso, a Quercus exige a realização de um Estudo de Impacte Ambiental como condição prévia para um eventual licenciamento. Fonte.
As «quintas» de dados NÃO estão «na nuvem». Estão a ocupar terrenos valiosos. Os dados, o mundo digital, a IA estão a consumir energia e água em excesso. A Inteligência Artificial precisa de ENERGIA ILIMITADA.
  • O aumento do consumo de eletricidade por parte dos insaciáveis centros de dados da Irlanda levou o governo a tomar uma medida que há décadas era impensável: reacender o debate sobre a energia nuclear. Fonte.
  • A Rússia constrói 15 pequenos reatores nucleares marítimos com uma capacidade de 175 MWt para quebra-gelos. Fonte.
  • Colapso de glaciar pode ter causado inundações que mataram centenas no Nepal. Fonte.
  • Diante do avanço do bolsonarismo, Lula abraça destruidores da Amazônia em busca da reeleição. Alianças do PT no Norte incluem uma intervenção em Rondônia, que sacrifica a candidatura da ativista Neidinha Suruí, e o apoio a candidatos que colaboraram para arruinar o licenciamento ambiental. Rafael Moro Martins, Sumaúma.

REFLEXÃO

UMA TEMPESTADE REVELA COMO O MERCADO ENERGÉTICO DO TEXAS É MANIPULADO PARA GERAR LUCRO
Robin Berghaus, PHW. Rev. O’Lima.

Foto: ERCOT

O Texas opera a sua própria rede elétrica, gerida pelo Conselho de Fiabilidade Elétrica do Texas (ERCOT). Por estar em grande parte isolado da rede nacional, o ERCOT evita a supervisão federal. O estado gere um mercado «exclusivamente de energia», o que significa que os produtores de energia só são pagos pela eletricidade que efetivamente produzem, ao contrário de outros estados que pagam às empresas para se manterem em estado de prontidão. Este sistema foi concebido para recompensar a escassez, e não a fiabilidade, o que pode conduzir a lucros mais elevados quando a oferta é baixa e a procura é elevada.

Durante a tempestade de inverno Uri, em fevereiro de 2021, o frio extremo congelou as infraestruturas nas centrais elétricas e nas cabeças de poço de gás natural. Com o corte no abastecimento de combustível, muitos geradores não conseguiram produzir eletricidade, o que obrigou a ERCOT a impor cortes de energia em todo o estado. Milhões de texanos ficaram sem eletricidade durante dias e centenas de pessoas morreram.

Enquanto os texanos sofriam, os fornecedores de gás natural viram a tempestade como uma oportunidade de negócio. Algumas empresas aumentaram o custo do gás natural em mais de 700%. Uma empresa de serviços públicos, a CPS Energy, teve de pagar cerca de 850 milhões de dólares por gás durante uma única semana — aproximadamente o que gasta em combustível num ano inteiro. Quando a CPS Energy tentou negociar uma tarifa mais baixa, foi-lhe basicamente dito «azar».

Aconteceu algo semelhante ao escândalo da Enron, em que os operadores criaram uma falsa escassez de energia para aumentar os lucros. O mesmo padrão foi observado durante a tempestade Uri: quedas suspeitas no abastecimento de gás e o encerramento das reservas antes da tempestade. Por exemplo, a Energy Transfer cancelou contratos com centrais elétricas de Houston que tinham garantido uma tarifa de 2,50 dólares por unidade de gás, invocando uma cláusula de «força maior». No mesmo dia, venderam gás a outra cooperativa por 950 dólares por unidade — quase 400 vezes a tarifa original.

As consequências foram inevitáveis: os legisladores aprovaram um resgate financeiro de 6,5 mil milhões de dólares para ajudar as empresas de energia em dificuldades a saldar as suas enormes dívidas, mas o custo foi repercutido nos consumidores do Texas através de contas de eletricidade mais elevadas que se prolongarão por décadas. Além disso, a Comissão de Serviços Públicos aumentou o limite máximo do preço grossista da eletricidade para 9 000 dólares por megawatt-hora — cerca de 400 vezes a média do ano anterior, de 22 dólares — numa tentativa falhada de incentivar uma maior produção de energia.

Embora o limite máximo do preço da eletricidade tenha sido ajustado para 5000 dólares, a Comissão Ferroviária nunca impôs um limite aos preços do gás natural durante uma situação de emergência, deixando uma grande lacuna para futura especulação.

BICO CALADO

Foto: Khames Alrefi – Anadolu Agency
  • A fome em Gaza, um ano depois: será que o mundo aprendeu alguma coisa? Mfetouri, MEM.
  • Um tribunal israelita absolveu um colono que tinha sido filmado a agredir uma freira francesa em Jerusalém, após ter aceitado um relatório médico que indicava que se encontrava num estado psicótico na altura do incidente e que não era criminalmente responsável pelos seus atos. Fonte.
  • Desde Taylor Swift e Kim Kardashian até Jennifer Aniston e Lionel Messi, celebridades de todo o mundo estão a contratar equipas de guarda-costas israelitas compostas por ex-agentes do Shin Bet, do Mossad e das forças especiais israelitas. Fonte.
  • A privatização silenciosa da Segurança Social começa pelo discurso do medo. Ana Mendes Godinho.
  • André Ventura disse ontem que “quase de certeza foi fogo posto” na sede do Chega em Évora. Hoje deu-se o 3º incêndio no mesmo edifício. Fonte.
  • Uma coligação bipartidária dos EUA, composta por 51 procuradores-gerais estaduais e territoriais, anunciou uma proposta de acordo com a Meta, segundo a qual a gigante tecnológica pagará até 17,1 mil milhões de dólares em multas e implementará mudanças radicais nas suas políticas, a fim de resolver as alegações de que as suas plataformas de redes sociais foram concebidas para criar dependência nas crianças. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

DISCERNIMENTO MENTAL


A minha passagem pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, como cadete do Curso de Oficiais Milicianos, não foi brilhante. Longe disso. Terminei o dito curso, em Fevereiro ou Março de 1953, em oitavo lugar…a contar do fim, num total de cento e vinte cadetes. Tive por comandante um coronel, que ficou célebre por ter silenciado, pelas armas, cerca de um milhar de trabalhadores das roças da então nossa ilha de São Tomé, de que era governador. Como consequência deste massacre, que a censura do Estado Novo procurou ocultar, os mais altos responsáveis militares transferiram-no para Vendas Novas como comandante da dita Escola Prática de Artilharia.

Concluída a fase de cadete, situação em que, por natureza, não me empenhei o suficiente, fui colocado em Évora, como aspirante miliciano, no Regimento de Artilharia 3. Corria tudo normalmente e sem sobressaltos, até ao dia em que o primeiro-sargento Araújo me chamou de parte e me conduziu a uma sala no 1.º andar, onde se situavam as dependências do comando, vazias de gente àquela hora do fim da tarde.

O primeiro Araújo era casado com uma modista que aprendera, com a minha mãe, a arte da costura. E a minha mãe fora madrinha desse casamento. Com uma vintena de anos a mais do que eu, este sargento e amigo tratava-me por tu, enquanto eu, como mandava a boa educação, lhe dava senhoria. No quartel, na presença de terceiros, ele tratava-me por “meu aspirante” e eu a ele, como era regra, por “nosso primeiro”.

Chegados a uma sala que ele abriu com chave, retirou, de dentro de uma gaveta, uma pasta e, depois de me pedir absoluto segredo, deu-me a ler um documento chegado de Vendas Novas, timbrado de confidencial, a vermelho, ao alto, do lado direito, no qual se fazia o meu registo biográfico. O texto, pouco ou nada abonatório das minhas capacidades, falava do meu pouco aprumo militar e terminava dizendo (sic):

“…não lhe devendo nunca, ser confiadas missões que exijam discernimento mental.”

- Agora não me lixes. - Disse este meu amigo, ao guardar o papel na pasta de onde o tinha tirado.

- Ninguém pode saber que te mostrei isto. Fazes de conta que não sabes de nada. É como se não existisse. – Concluiu, encaminhando-me para a saída.

De facto, eu tinha notado algo de estranho da parte do comandante do regimento, quando, no dia da minha chegada, fui ao seu gabinete apresentar-me. Aí, o coronel falou comigo, demoradamente, num estilo que mais parecia um exame oral. Eu estranhei, mas não suspeitei que este cabo-de-guerra estava a procurar avaliar o meu cociente intelectual. Não sei que conclusão tirou desta tentativa de aferição das minhas capacidades. Só sei que, na distribuição de serviço que a todos obrigava, para além da instrução aos recrutas, me coube a regular inspecção das limpezas, nas cavalariças, nas cozinhas, nas latrinas, na parada. Tudo o que exigisse cuidados de asseio e higiene tinha de ser vistoriado e essa era, com efeito, uma missão que não exigia grande discernimento mental. A coadjuvar-me nesta incumbência tinha um segundo-sargento, particularmente eficaz e exigente, a quem alguns faxinas chamavam o “cheira-merda”, e que, antes de mim, vasculhava e farejava tudo o que era sítio e buraco. Assim, quando chegava a minha hora de inspecionar, estava tudo impecável.

Os meses foram passando, o comandante, terminado o seu tempo, deu lugar a outro vindo de fora e a minha debilidade mental acabou esquecida.

Este juízo a meu respeito não o interpreto como menoridade intelectual dos militares que, em Vendas Novas, me avaliaram. Reflecte, sim, a minha não integração no seu mundo. Um mundo fardado, com botas esmeradamente engraxadas, amarelos brilhantes de solarine, continências aprumadas e sonoras batidas de tacão, um mundo que, manifestamente, não era o meu e com o qual só fiz as pazes por gratidão e respeito pelos capitães de Abril.