Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

domingo, 21 de junho de 2026

CUIDADO COM ALISANTES QUÍMICOS PARA CABELO

  • Uma revisão recente publicada na revista Current Environmental Health Reports revelou que dois tipos de alisantes químicos para o cabelo — os alisantes e os tratamentos de queratina — contêm, cada um, várias classes de substâncias químicas tóxicas conhecidas e que perturbam o sistema endócrino (EDCs), substâncias cancerígenas e metais pesados. O formaldeído, um carcinogéneo conhecido, foi o mais frequentemente encontrado nos tratamentos de queratina. Os ingredientes de fragrâncias foram as substâncias químicas preocupantes mais frequentemente identificadas nos alisantes capilares, juntamente com EDCs, tais como ftalatos e parabenos. Os estudos revelaram ainda que os profissionais de salões de beleza que manuseavam estes produtos apresentavam níveis mais elevados de substâncias químicas tóxicas na urina no final dos seus turnos.
  • A Rolls-Royce vai construir mini-centrais nucleares para a Videberg Kraft, uma subsidiária da gigante estatal sueca do setor energético Vattenfall. Fonte.
  • Mona Khalil, nascida em Lagos em 1949 e fundadora da Orange House, dedicou mais de vinte anos à proteção das tartarugas marinhas ao longo da costa de Mansouri. Faleceu na sequência do ataque israelita que atingiu a sua casa a 4 de junho, deixando um legado de proteção costeira e de empenho local. Fonte.

BICO CALADO

Krishan Kariyawasam/NurPhoto/Shutterstock
  • Mirpuri: quem é a família que quer privatizar as praias da Arrábida? Daniel Moura Borges, Esquerda.
  • A Unbabel, uma das empresas que ajudou a moldar e a dar vida à Unicorn Factory Lisboa criada por Carlos Moedas, beneficiou de 13,3 milhões de euros de apoios públicos. Em Março pediu falência depois de um dos investidores privados ter lançado um processo para reaver o dinheiro investido. Fonte.
  • Preço do cabaz alimentar continua a oscilar: em 2022 custava menos 70 euros. Fonte. Operação de branqueamento: oscilar = aumentar
  • Os intervalos para hidratação da FIFA têm suscitado críticas por parte de vários grupos. Mas qual é, afinal, a sua função? Fonte.
  • “(…) o actual chanceler Merz, ligado à maior gestora de fundos dos EUA e um bajulador de Trump, insiste na relação de vassalagem com Washington. Por isso, o chanceler se irritou ontem muito quando soube que António Costa tinha iniciado contactos com Moscovo para acelerar negociações que levem a um fim da guerra, com a UE sentada à mesa e não como espectadora. Merz é uma nulidade política - reconhecida na Alemanha - e parece que tem muito a aprender com Costa.” Miguel Szymanski.
  • O deputado liberal-democrata Cameron Thomas foi detido e suspenso do partido. Fonte.
  • A CIA em Swan Island antes, durante e após a invasão da Baía dos Porcos em Cuba. Ken Lawrence, CovertAction Magazine.

REFLEXÃO

A RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA DAS LINHAS ELÉTRICAS ESTÁ ASSOCIADA A PERTURBAÇÕES HORMONAIS
EHN. Rev. O’Lima.


Uma revisão recente publicada por Tojza et al. na revista Applied Sciences analisou os impactos da exposição à radiação eletromagnética de frequência extremamente baixa (ELF-EMF) — um tipo de radiação não ionizante emitida por subestações elétricas, linhas de alta tensão, eletrodomésticos e dispositivos eletrónicos — no sistema endócrino, que regula o organismo através das hormonas.

As hormonas atuam como mensageiros químicos para todos os órgãos do corpo, regulando uma série de funções corporais essenciais, tais como o metabolismo, o crescimento, o desenvolvimento, a reprodução e a resposta ao stress.

Outros desreguladores endócrinos conhecidos incluem o bisfenol A (BPA), os ftalatos, as substâncias per- e polifluoroalquílicas (PFAS) e os pesticidas, todos os quais podem interferir com o funcionamento normal das hormonas. Consequentemente, mesmo perturbações subtis no sistema endócrino podem ter efeitos significativos na saúde.

Estudos em animais associam consistentemente a exposição a campos eletromagnéticos de frequência extremamente baixa (ELF-EMF) a efeitos nos níveis de hormonas do stress, na libertação de melatonina, na atividade da tiróide e na função reprodutiva.

As evidências sugerem que estas perturbações estão provavelmente ligadas a um aumento do stress oxidativo e a um desequilíbrio nos iões de cálcio.

Embora sejam necessários mais estudos a longo prazo para compreender melhor os impactos no sistema endócrino em seres humanos, os autores salientam que a natureza generalizada da exposição a ELF-EMF justifica uma abordagem de precaução.

A exposição a campos eletromagnéticos de frequência extremamente baixa (ELF-EMF), frequentemente designada simplesmente por EMF, está a aumentar à medida que o desenvolvimento de centros de dados de IA impulsiona a construção de novas linhas de transmissão de alta tensão e subestações, enquanto a utilização crescente de dispositivos eletrónicos continua a alargar as fontes de exposição a campos eletromagnéticos em casas, escolas e locais de trabalho. (...)

Há décadas que os cientistas recomendam minimizar a exposição. A Agência Internacional para a Investigação do Cancro da Organização Mundial de Saúde classificou os campos magnéticos de frequência extremamente baixa (ELF) como um «possível» carcinogéneo humano em 2001, com base, em grande parte, em evidências que associam a exposição residencial de 3 a 4 mG à leucemia infantil. Estudos mais recentes continuam a demonstrar essa associação. Além disso, estudos da Kaiser Permanente indicam que a exposição pré-natal a campos magnéticos EMF esteve associada a um risco acrescido de aborto espontâneo, bem como à obesidade e à asma nas crianças. Um estudo nacional com a duração de 18 anos, que envolveu mais de 3,5 milhões de pessoas, constatou um risco acrescido de demência e de mortalidade por Alzheimer em habitações próximas de infraestruturas da rede elétrica, como linhas de alta tensão e subestações.

Devido às investigações sobre o risco de cancro, muitos países adotaram políticas que restringem a construção de habitações e escolas em áreas onde os campos magnéticos são elevados. (…)

A nível individual, há medidas simples que pode tomar para reduzir a sua exposição diária à radiação ELF e a outras formas de radiação eletromagnética em sua casa, incluindo:
  • Utilize tablets e computadores portáteis em mesas, e não no colo
  • Afaste as camas dos quadros elétricos
  • Carregue telemóveis e dispositivos fora do quarto, e não junto à cama
  • Não utilize o telemóvel enquanto este estiver a carregar
  • Desligue da tomada as camas de água e os cobertores elétricos antes de se deitar
  • Meça os níveis de campos eletromagnéticos (EMF) na sua casa
  • Também pode medir os níveis de campos eletromagnéticos (EMF) na sua casa com um medidor básico de miligauss, para compreender melhor a sua exposição, ou contactando a sua empresa de eletricidade local para que esta efetue as medições.
Se for proposta uma nova linha de transmissão, subestação ou outro grande projeto de infraestrutura elétrica na sua comunidade, os residentes podem solicitar os níveis de referência e os níveis previstos de campos elétricos e magnéticos em casas, escolas, parques e limites de propriedade antes do início da construção.

LEITURAS MARGINAIS

O PACOTE LABORAL CAIU. CAIU PORQUE ERA MAU.
Jacinto Furtado, Notícias Online.

Anadolu/Getty Images

Até ao último minuto, a ministra Maria do Rosário Palma Ramalho e o Governo andaram a vender a mesma banha da cobra que os sucessivos governos liberais vendem há décadas, mais “flexibilidade”, mais “modernização”, mais “competitividade”. O costume, mudam os rostos, muda a embalagem, muda o nome da operação de cosmética. A mercadoria lá dentro é sempre a mesma, menos direitos para quem trabalha e mais poder para quem manda.

O problema para Montenegro é que desta vez a coisa correu-lhe mal. O chamado “pacote laboral” foi chumbado na Assembleia da República e ainda bem. Porque aquilo que o Governo pretendia impor ao País não era uma reforma do século XXI. Era uma viagem de regresso ao século XIX, como António Garcia Pereira escreveu e demonstrou ao longo dos últimos meses nos artigos que tem publicado aqui no NotíciasOnline. Facilitar despedimentos, aumentar a precariedade, enfraquecer a contratação colectiva, limitar a capacidade de resistência dos trabalhadores e transformar o contrato individual numa espécie de lei da selva onde o mais forte dita as regras e o mais fraco agradece.

Há uma questão ainda mais grave. Onde estava isto no programa eleitoral? Em que página estava escrito que um trabalhador despedido ilegalmente poderia acabar efectivamente na rua mesmo depois de um tribunal lhe dar razão? Em que comício explicou Montenegro aos portugueses que queria abrir ainda mais portas à precariedade e à desvalorização das relações colectivas de trabalho? Em que debate eleitoral disse ao País que pretendia mexer desta forma profunda na legislação laboral?

Não disse! E não disse porque sabia perfeitamente que não tinha mandato para isso. A democracia não consiste em pedir votos para uma coisa e depois governar para outra. Chama-se fraude política. Não jurídica, que os advogados depois discutirão. Política. Da mais pura.

Montenegro chegou ao Governo sem maioria. Nada de novo. O problema começou quando decidiu que a sua sobrevivência política valia mais do que qualquer compromisso com os eleitores. A partir daí passou a governar num permanente jogo de cintura, numa dança de salão onde hoje namora um partido, amanhã outro e depois logo se vê quem aparece disponível para manter a cadeira ocupada.

A política transformada numa agência matrimonial.

Quando a sobrevivência do Governo passa a ser o objectivo principal, tudo o resto se torna secundário, inclusive os trabalhadores. Foi precisamente por isso que se assistiu durante meses a uma tentativa quase desesperada de empurrar este pacote para a frente, não porque resolvesse os problemas estruturais da economia portuguesa. Não há um único estudo sério que demonstre que mais precariedade gera mais produtividade ou melhores salários. Aliás, décadas de experiência mostram exactamente o contrário. Havia que mostrar serviço aos interesses que há muito olham para os direitos laborais como um incómodo contabilístico.

Depois há André Ventura. Ah, André Ventura. Durante semanas, o Chega deixou arrastar a novela. Nem sim nem sopas. Nem aprovava nem rejeitava. Um pé de cada lado da porta. A especialidade da casa. Votou contra. Imediatamente surgiram as câmaras, os microfones e as declarações grandiloquentes sobre independência, coragem e verticalidade.

Não se vende, disse Ventura. Pois não. O problema é que não precisa de se vender. Oferece-se. Oferece-se quando lhe convém. Oferece-se às circunstâncias. Oferece-se às sondagens. Oferece-se ao vento dominante do dia. O que aconteceu não foi uma súbita iluminação laboral de André Ventura. Não foi uma conversão na estrada de Damasco em defesa dos trabalhadores. Não foi uma descoberta tardia de que despedir mais facilmente não é progresso. Foi apenas cálculo. Puro cálculo.

Quando Ventura percebeu que o pacote laboral se estava a transformar num problema político, fez o que faz sempre, mudou de posição sem mudar de discurso. Uma espécie de cata-vento com gel no cabelo. Ainda há poucos meses o Chega surgia associado às teses mais liberais sobre relações laborais. Agora aparece a posar como defensor dos trabalhadores. Está no seu direito. Mas também estamos no nosso de não esquecer.

Quem muda de opinião pode ser coerente. Quem muda de opinião todas as semanas está apenas a medir audiências. A verdade é que o pacote laboral caiu não por convicção do Chega, mas porque a pressão social e política tornou o seu apoio demasiado caro eleitoralmente. E Ventura faz contas melhor do que faz princípios.

Quanto ao Governo, a lição deveria ser simples. Quando se tenta impor aos portugueses aquilo que eles nunca sufragaram, corre-se o risco de ouvir um sonoro não. O problema é que suspeito que não aprenderam nada. Afinal, quando a obsessão é manter o poder, até os pactos com o diabo parecem uma excelente oportunidade de governação.

Até ao dia em que o diabo apresenta a factura.

sábado, 20 de junho de 2026

OEIRAS: PRAIA DE SANTO AMARO INTERDITA A BANHOS

  • A praia de Santo Amaro de Oeiras foi hoje temporariamente interditada, na sequência de um episódio de poluição na ribeira da Laje, provocado por uma rotura numa conduta da Tratolixo, informou a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Fonte.
  • Quercus pede chumbo a projeto de agricultura intensiva em Alcácer do Sal, que vai esgotar aquífero já em risco.
  • 8,5 toneladas de redes de pesca recolhidas em portos do Algarve. Fonte.
  • A Câmara de Vila Nova de Cerveira vai avançar com um projeto de 25.700 euros, cofinanciado por fundos europeus, para combater os impactos da espécie invasora Egeria densa no rio Minho. Fonte.
  • A chinesa Chint Solar entrouem força no Alentejo (São Gião, Tapada Grande e Monte Santos) com mais de 2,1 milhões de painéis solares. Fonte.
  • A Administração Trump vai pagar 765 milhões de dólares para rescindir mais quatro contratos de arrendamento de parques eólicos offshore. Fonte.

BICO CALADO

  • “A IA não é uma ferramenta, é um agente de manipulação (controlo processual e final) de empresas privadas, cuja função é chegar ao dinheiro dos contribuintes e formar força de trabalho para a automação (trabalhadores que só precisam de saber carregar em botões, e devem ser desprovidos de pensamento crítico e conhecimento, basta-lhes "competências" e obediência). Ferramenta é outra coisa, é a máquina de calcular ou a faca, que são extensões do corpo que eu controlo. A IA é um agente externo, que me controla. Se eu uso uma faca sou eu que decido como a uso, idem para a calculadora, se digo à IA para fazer algo perco o controlo do processo, há uma caixa negra que é um código que determina o processo (esse código por mais perguntas que se faça nunca é conhecido), há um agente, com um código, privado, que decide o processo e o resultado.” Raquel Varela.
  • "A polícia devia estar onde se cometem os crimes mais graves: nos gabinetes dos administradores dos grandes grupos económicos e financeiros, nas sedes dos partidos que se deixam comprar pelos interesses dos mais ricos e nos órgãos de comunicação social que promovem o racismo e a discriminação de classe." Bruno Carvalho.
  • "À medida que os governos iam aumentando a idade da reforma iam aumentando também as leis de pré reforma e reforma por incapacidade, ou ainda as leis de despedimento (por inadaptação do posto de trabalho), que fazem com que parte dos trabalhadores se reformem aos 55 anos ou até menos. No nosso Observatório e estudos com sindicatos chamamos a isto um palavrão em sociologuês - "obscolescência programada da força de trabalho", os governos - e as empresas que são os governos - aumentam a idade da reforma sabendo que os trabalhadores, com a intensidade do trabalho não chegam lá, por isso têm criado leis para estas pessoas quando chegam aos 55 anos irem para casa com 400 euros. (…) O que Ventura propõe é oferecer baixar um mês ou dois a idade da reforma, em troca de 150 horas de trabalho gratuito anual para a Sonae! Ventura, o cão de guarda dos patrões. Se algum burro acreditar nisto lamento, já não há nada que eu possa fazer para explicar melhor. É caso para psiquiatras, não para mim." Raquel Varela.
  • Cartão do PSD vale mais que currículo: o método de Montenegro chega à Segurança Social. Fonte.

REFLEXÃO

A DESERTIFICAÇÃO NÃO SE ASSEMELHA APENAS A UM DESERTO: ASSEMELHA-SE A UMA INUNDAÇÃO
Willem Ferwerda, Gabrielle Taus e Pénélope Choussat. Common Dreams. Rev. O’Lima.

Uma rua transformou-se num rio na localidade de Grazalema, em Cádis, Espanha, após a tempestade Leonardo, a 4 de fevereiro de 2026. (Foto de Joaquín Corchero/Europa Press via Getty Images)

A chegada da chuva como uma bênção está entre as histórias mais antigas da humanidade.

No Botsuana, água e riqueza são dois nomes para a mesma bênção. Pula é o nome da moeda nacional do Botsuana, o que demonstra a relação emocional que esta terra, assolada pela seca, tem com a água.

Vemos a representação emocional da chuva nas tradições do blues afro-americano, nos rituais de invocação da chuva na África Ocidental, nas canções populares sobre a monção em todo o Sul da Ásia e nas cerimónias indígenas da dança da chuva. Ao longo de milénios e em diversas culturas, a chuva tem sido sinónimo de alívio.

Mas hoje em dia, a degradação do solo provocada pelo homem está a reescrever essa história.

Em muitas das regiões mais áridas e semiáridas do mundo, a chuva já não chega como uma bênção, mas sim como um desastre.

Para compreender porquê, temos de olhar para o solo, em vez de para o céu.

Quando a esponja endurece

Se observarmos a superfície da Terra hoje, em comparação com há 100 anos, veremos que a maior parte do território passou de ecossistemas naturais para betão, terras agrícolas e terrenos produtivos. Este é o processo de desertificação.

Pode pensar na desertificação através de imagens culturais familiares, como dunas de areia que avançam e engolam povoações, terra rachada que se estende até ao horizonte e vegetação que vai desaparecendo até à ausência total. Mas a característica definidora da desertificação não é simplesmente a falta de água. É a perda da capacidade de uma paisagem de reter água.

Um solo saudável funciona como uma esponja. Composto por matéria orgânica, redes fúngicas, raízes de plantas, insetos e milhares de milhões de microrganismos, é capaz de absorver e armazenar enormes quantidades de água. Quando chove, grande parte da água infiltra-se no solo, reabastecendo a humidade do solo e os aquíferos subterrâneos. A água move-se lentamente pela paisagem e através das camadas do solo, sustentando rios e vegetação muito tempo depois de a tempestade ter passado.

No entanto, um solo degradado comporta-se de forma diferente.

Décadas de cultivo intensivo, sobrepastoreio, perda de vegetação, lavoura repetida e utilização de fertilizantes sintéticos reduzem a matéria orgânica do solo e enfraquecem a rede alimentar do solo. À medida que a estrutura do solo se deteriora, o solo fica compactado e endurece. Os poros que antes permitiam a penetração da água colapsam. A chuva já não consegue ser absorvida. Assim, quando ocorre uma chuva forte, a água não consegue penetrar no solo e arrasta tudo o que se encontra na superfície.

Em vez de absorver a água, o solo deixa-a escorrer a jusante. Pequenos riachos transformam-se em torrentes. A camada superficial do solo é arrancada. Formam-se ravinas. Os cursos de água sobem rapidamente e os rios transbordam. A mesma chuva que outrora teria sido absorvida pela paisagem transforma-se numa inundação destrutiva.

Agricultores e comunidades na linha da frente

Na Commonland, trabalhamos com as comunidades para restaurar paisagens identificadas como degradadas — locais onde décadas de declínio ecológico reduziram a capacidade da terra para sustentar as comunidades, os meios de subsistência e a biodiversidade. O nosso objetivo é proporcionar a essas comunidades e organizações locais os meios para reverter o ciclo de degradação e contribuir para a regeneração das paisagens onde vivem e das quais dependem. No entanto, reverter os efeitos de décadas de degradação paisagística não é tarefa fácil.

Nos últimos 18 meses, duas dessas paisagens, situadas em lados opostos do mundo — em Espanha e na África do Sul —, transmitiram o mesmo aviso: sem ecossistemas saudáveis, os nossos sistemas sociais, económicos e financeiros entram em colapso.

Na localidade espanhola de Grazalema, onde cerca de 1 500 pessoas vivem aninhadas nas montanhas de Cádis, as chuvas de janeiro de 2026 bateram todos os recordes. A paisagem, em resultado de décadas de utilização intensiva do solo, tinha perdido grande parte da sua capacidade de absorver e regular a água. Os aquíferos encheram-se rapidamente. A água começou a emergir do próprio solo, ameaçando o antigo sistema cárstico sobre o qual a aldeia assenta. Formaram-se ravinas nas terras agrícolas, as estradas desapareceram e toda a localidade foi evacuada durante 10 dias.

Para os agricultores locais, os danos não foram apenas imediatos, mas também cumulativos. Os campos foram arrasados ou ficaram alagados, tornando impossível a sementeira. A camada superficial do solo foi arrancada, levando consigo tanto a fertilidade como o potencial de rendimento futuro. As áreas de pastagem do gado ficaram danificadas ou isoladas, os armazéns de ração foram perdidos ou tornaram-se inacessíveis e os ciclos sazonais foram perturbados de forma irreparável para o resto do ano.

« Os prejuízos económicos para todas as nossas atividades têm sido muito elevados», afirma Carmen Bueno, proprietária da quinta regenerativa Tambor del Llano. Bueno é também membro da Asociación Serranías Vivas, uma associação local que reúne agricultores, gestores de terras e partes interessadas do meio rural que trabalham para restaurar e proteger a paisagem da Serra de Cádiz através de uma utilização mais sustentável da terra e de esforços coordenados de restauração paisagística.

A mais de 8 000 quilómetros de distância, outra paisagem enfrentou uma história tristemente semelhante.

Em maio de 2026, inundações catastróficas assolaram os vales de Langkloof e Baviaanskloof, na província do Cabo Oriental, na África do Sul. Após meses de seca que secaram a terra, as inundações levaram tudo por água abaixo: desde campos a estradas asfaltadas, passando pelas zonas húmidas. Para muitas famílias, isto significou mais do que a perda de infraestruturas — significou isolamento. As comunidades locais não conseguiam sair das suas casas, muito menos dos vales; não era possível aceder aos abastecimentos de alimentos e água; os produtos agrícolas não chegavam aos mercados; e as reservas turísticas entraram em colapso da noite para o dia. Os trabalhos de reparação, sempre que possíveis, tornaram-se lentos e dispendiosos, travados por estradas destruídas pelas águas e por recursos limitados em comunidades já sobrecarregadas.

«Trata-se de comunidades que já viviam à margem», afirmou Justine Rudman-Koekemoer, codiretora e gestora financeira da Living Lands, uma organização que trabalha para restaurar paisagens e apoiar as comunidades rurais que delas dependem. «Não há vias fáceis de entrada ou saída, nem soluções rápidas. A recuperação será lenta e dispendiosa, e não acontecerá sem ajuda externa.» Atualmente, estão em curso esforços de angariação de fundos para reconstruir as infraestruturas essenciais danificadas pelas inundações.

O impacto associado a estes eventos faz-se sentir em todas as pessoas que vivem na região, desde as comunidades locais cujas casas foram inundadas — incluindo os agricultores que perderam as suas colheitas — até às infraestruturas públicas que precisam de ser reparadas e reconstruídas.

No entanto, essas perdas têm também um efeito em cadeia nos setores financeiro e privado em geral, que muitas vezes não têm em conta os riscos climáticos e ambientais a que estão expostos. Em consequência destes eventos, é provável que os empréstimos bancários sofram atrasos ou entrem em incumprimento, que sejam solicitados pagamentos de seguros e que se verifiquem perdas nos investimentos nas empresas.

Estes eventos devastadores levantam uma questão essencial: e se, em vez de esperarmos que as paisagens entrem em colapso para arcar com os custos, investíssemos na resiliência dessas mesmas paisagens?

A restauração da paisagem como mitigação de riscos

No mundo financeiro, o risco e o retorno são duas faces da mesma moeda; a taxa de retorno é determinada com base no risco de perder esse dinheiro.

Ao longo das últimas décadas, os investimentos na natureza foram frequentemente apresentados como oportunidades para os investidores obterem um retorno comercial. No entanto, isso raramente se verifica, e a maioria dos investimentos continua a fluir para as indústrias extrativas, ultrapassando o investimento em soluções baseadas na natureza numa proporção superior a 30 para 1: Em 2022, foram gastos cerca de 7,4 biliões de dólares em atividades extrativas e apenas 220 mil milhões de dólares em atividades regenerativas.

Mas e se invertêssemos a lógica do investimento na natureza e começássemos a apresentar a restauração da paisagem como uma estratégia de mitigação de risco para os investidores? Dado que todos os empréstimos, seguros e investimentos estão ligados a empresas e pessoas sediadas nessas paisagens, estão diretamente expostos ao risco relacionado com a saúde dessas mesmas paisagens.

O panorama de riscos que a desertificação cria não é abstrato. Mais de 80 % dos habitats naturais da Europa encontram-se atualmente em condições precárias ou más, deixando o continente mais vulnerável a inundações, secas e instabilidade ecológica. As zonas húmidas restauradas, os solos regenerados e as florestas resilientes não são gestos simbólicos — são infraestruturas funcionais que retardam o escoamento da água, armazenam carbono e absorvem choques antes que estes se transformem em catástrofes para as pessoas no terreno e em perdas financeiras para os investidores.

Quem trabalha em terras degradadas compreende isto sem precisar de estatísticas. Em Grazalema, no sul de Espanha, e em Baviaanskloof, na África do Sul, agricultores e gestores de terras testemunharam como chuvas extremas transformaram solos nus e empobrecidos num desastre — campos arrastados pela água, estradas cortadas, economias locais retrocedidas anos por uma única tempestade. Sabem, por experiência direta, que a terra não é apenas uma mercadoria, mas um sistema vivo do qual tudo o resto depende.

Cabe agora aos setores privado e financeiro reconhecer e valorizar esses riscos, investindo em soluções de mitigação. Na prática, podem começar por estimar os custos que as alterações climáticas e a degradação ambiental poderão acarretar nas paisagens onde investem ou de onde obtêm os seus produtos. Esta estimativa pode, então, ajudar a determinar o montante de investimento que deve ser direcionado para a prevenção da desertificação e a restauração dessas paisagens. A restauração paisagística poderá, assim, tornar-se uma estratégia de mitigação de riscos, com um orçamento atribuído para a implementação da restauração dessas paisagens.

A conta que as chuvas estão a enviar

Temos financiado a degradação dos sistemas que nos protegem, ao mesmo tempo que a chamamos de produtividade.

As chuvas estão agora a apresentar a conta.

O que enfrentamos não é uma escolha entre conservação e crescimento, mas entre pagar repetidamente pela destruição depois de esta ter ocorrido ou investir nos sistemas que a impedem desde o início.

A restauração da natureza não é um custo ambiental discricionário; é infraestrutura de resiliência na sua forma mais fundamental.

Para a reconhecer como tal, precisamos de ir além do financiamento fragmentado e de curto prazo e desbloquear o acesso a financiamento em grande escala dos setores público, privado e financeiro para as organizações e indivíduos no terreno que estão na linha da frente da restauração da paisagem.

A restauração não é um custo a minimizar. É a forma mais fiável de resiliência de que dispomos e a única que fortalece o sistema que protege.

A tarefa que temos pela frente é garantir que não deixamos que a degradação se torne a protagonista da história que contamos sobre a chuva.

Quando as chuvas chegarem, continuemos a olhar para o céu com alívio.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

ALJUSTREL LÍDER DA MINERAÇÃO?


400 milhões de euros foram investidos na mina de Aljustrel no âmbito do projeto "Feeding the Global Energy Transition" (Alimentar a Transição Energética Global). O objetivo é modernizar e expandir a mina, tornando-a uma das mais avançadas do mundo e posicionando-a "na linha da frente da mineração moderna. A principal obra foi a ampliação da lavaria industrial da mina. Com esta melhoria, a instalação passa a ter capacidade para tratar anualmente seis milhões de toneladas de minério (cobre e zinco) em simultâneo, interligando as duas linhas de produção e otimizando a recuperação dos metais com criação de mais valor. O projeto inclui a construção de uma unidade de produção de energia solar fotovoltaica para autoconsumo, o que permitirá reduzir significativamente a pegada carbónica da mina e os seus custos com energia. O projeto foi visitado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro que garantiu que Portugal "faz corar de inveja qualquer economia da União Europeia”. Fonte.


A propósito de minas... Em julho de 1998, o Clube de Ambiente da Escola Secundária do Dr Manuel Gomes de Almeida organizou um acampamento em Unhais-O-Velho. Do programa de atividades fizeram parte uma caminhada em Piódão e uma visita de estudo às minas da Panasqueira orientada por um funcionário da empresa. Tudo com o apoio logístico da Câmara Municipal de Espinho nas pessoas do saudoso Prof. Moutinho, do Sr Maduro e do Sr Virgílio. Na altura nunca imaginámos que as nossas minas e a nossa economia pudessem um dia fazer corar de inveja qualquer economia da antiga CEE.


REFLEXÃO

ZONAS DE ACELERAÇÃO DA IMPLANTAÇÃO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS
Octávio Lima


O Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) está em consulta pública até 15 de julho.

Será que vamos mesmo acelerar e desmultiplicar os famigerados PINs, com a ajuda das autarquias incumbidas de manipular as opiniões públicas locais?

Acelerar processos costuma reduzir a participação pública, o que fragiliza todo o processo e permite o licenciamento de projetos sem a devida avaliação de impacto ambiental, trazendo prejuízos para as comunidades envolvidas, em benefício dos promotores.

A criação de zonas de aceleração pode inflacionar o preço dos terrenos, afastando as comunidades locais do processo, o que poderá estimular a concentração de megaprojetos.

Além disso, não há clareza nas regras para garantir que áreas urbanas ou degradadas tenham prioridade sobre zonas rurais ou naturais. Mais: é muito escasso o mapeamento atualizado de zonas sensíveis (como habitats de aves) e o uso insuficiente de dados científicos. Há, por isso, receio de que os critérios de exclusão (como a proximidade à rede elétrica) se sobreponham a uma avaliação ambiental rigorosa.

Em suma, a pressa pode comprometer a proteção ambiental, a justiça social e a transparência do processo, resultando num modelo energético centralizado e com pouco benefício para as comunidades locais.

BICO CALADO

Foto: David Hunter/Alamy Live News
  • “Não escrevo esta carta para disputar crédito político. Os projetos pertencem a Espinho. Escrevo porque a reescrita sistemática da história administrativa desta autarquia, feita em entrevista e com factos distorcidos, não é aceitável — e porque os espinhenses têm direito a avaliar com informação correta. Executar o que está aprovado e financiado é uma obrigação de gestão, não uma façanha. Reconhecer o que foi feito antes não diminui quem vem a seguir. Diminui, isso sim, a credibilidade de quem governa quando os factos são verificáveis e a versão não corresponde aos documentos.” Maria Manuel Cruz, em Carta Aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Espinho.
  • A Portugal Telecom não foi só um prato, foi um banquete para o Grupo Espírito Santo. Uma das melhores e maiores empresas do país, canibalizada, desmembrada e entregue à Altice. Joana Mortágua.
  • Greg Brockman está entre as pessoas mais poderosas do mundo. O cofundador da OpenAI é um dos financiadores mais ricos e generosos do presidente Trump e está a gastar dezenas de milhões de dólares para combater a regulamentação da IA. Está a utilizar a OpenAI para desenvolver sistemas militares e de vigilância futuristas e de alta tecnologia, estando Israel a utilizar essa tecnologia no seu genocídio em Gaza. Fonte.
  • «O DOGE de Trump e Musk “poupou” 15 milhões de dólares ao cortar um programa dedicado a prevenir a propagação da larva da mosca-da-carne», afirmou a deputada Pramila Jayapal. «Agora, há um surto a afetar a nossa carne de vaca e a administração está a gastar mil milhões de dólares.» Fonte.
  • Há na blogosfera um ‘menino sabichão’, tipo cuco, que copicola textos já publicados ou traduzidos e descarta os créditos. Há 20 anos que faz isto, não tem emenda. É cego, surdo e mudo para com as chamadas de atenção. É um pirata refinado. As suas recentes capturas foram esta e estaSublinhe-se que este ‘menino sabichão’ é professor de… B.

LEITURAS MARGINAIS

SE AS PLATAFORMAS DAS REDES SOCIAIS SÃO PREJUDICIAIS, POR QUE É QUE NOS LIMITAMOS A FINGIR QUE PROTEGEMOS AS CRIANÇAS DELAS?
Enrique Dans, Medium. Rev. O’Lima.


O governo do Reino Unido acaba de anunciar a proibição de redes sociais como o TikTok, o Snapchat, o Instagram, o Facebook X e o YouTube prestarem serviços a menores de 16 anos. A medida, que exclui ferramentas de mensagens como o WhatsApp ou o Signal, introduz mecanismos de verificação de idade, restrições por predefinição para utilizadores de 16 e 17 anos, possíveis limitações noturnas e medidas contra funcionalidades como a navegação infinita ou as recomendações algorítmicas.

À primeira vista, parece uma decisão ousada e corajosa. Na realidade, é a medida perfeita para líderes que precisam de uma notícia de primeira página: trata o sintoma, mas deixa a doença imune. E sabendo como sabemos que este tipo de proibição não funciona e que os jovens continuarão a utilizar as redes sociais, a proibição é uma perda de tempo.

O problema não são os adolescentes. Os adolescentes são, na melhor das hipóteses, o grupo em que a doença se manifesta da forma mais visível, mais dramática e mais incómoda para as famílias. Mas a doença é outra: um modelo industrial de extração de atenção baseado na vigilância em massa, na criação de perfis psicológicos, na publicidade hipersegmentada e num design viciante. Estas redes sociais não estão interessadas em ligar as pessoas; querem mantê-las viciadas em conteúdos idiotas, zangadas, polarizadas, ansiosas, previsíveis e, acima de tudo, rentáveis.

É por isso que proibir o acesso a menores é uma saída complicada. Permite aos políticos dizer «fizemos alguma coisa» e procurar o aplauso fácil e populista dos incautos, sem abordar o cerne do problema: estas plataformas não deveriam poder funcionar assim para ninguém, independentemente da idade. Ou será que a polarização política, a desinformação, as teorias da conspiração, a tensão social, a manipulação eleitoral ou a degradação sistemática do debate público são exclusividade dos adolescentes? Não: são sintomas sociais de uma infraestrutura concebida para maximizar o tempo de exposição e a reação emocional.

A Comissão Federal do Comércio dos EUA explicou a situação num relatório sobre as grandes plataformas sociais e de vídeo: vigilância extensiva, recolha de dados, monetização de informações pessoais e proteção insuficiente dos adolescentes. Mas o que é relevante neste relatório não é o foco nos menores, mas sim o facto de revelar a lógica geral do sistema: recolher o máximo possível, inferir o máximo possível e converter tudo em publicidade direcionada. É assim que a máquina funciona. E uma máquina como esta não se resolve colocando um cartaz a dizer «proibida a entrada a menores».

A solução, portanto, não é banir os adolescentes das redes sociais, mas sim proibir todas as redes sociais que não cumpram rigorosamente a legislação europeia em matéria de privacidade, para todos os utilizadores. Não se trata de uma versão cosmética do cumprimento, nem de uma caixa de consentimento, nem do típico álibi «consentir ou pagar». Cumprimento significa minimização de dados, finalidade legítima, transparência, consentimento real, possibilidade efetiva de revogação e ausência de tratamento abusivo. O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados da UE foi criado para limitar este tipo de exploração.

Na verdade, a Europa já deixou claro que algumas bases jurídicas utilizadas pelas plataformas para justificar a publicidade comportamental não se sustentam. O Comité Europeu para a Proteção de Dados instaurou um processo contra a Meta pelo tratamento de dados pessoais para fins de publicidade comportamental com base num contrato ou num interesse legítimo, e o seu parecer sobre a lógica do «consentimento ou pagamento» deixa pouca margem para a ficção de que um utilizador sujeito a alternativas abusivas esteja a fazer uma escolha livre. Se aplicássemos verdadeiramente esse padrão, muitas das plataformas que hoje dominam o mercado teriam de mudar radicalmente ou deixar de operar. E é precisamente essa a discussão que os políticos querem evitar, para que os seus eleitores não fiquem descontentes. Mas, hoje em dia, proibir redes sociais que são claramente prejudiciais e nocivas para a sociedade não é um ataque às nossas liberdades fundamentais. É senso comum.

A Lei dos Serviços Digitais segue a mesma linha ao identificar riscos sistémicos associados à conceção das plataformas: efeitos no discurso público, nos processos eleitorais, na saúde mental, nos menores, nos sistemas de recomendação, na publicidade e nas práticas de tratamento de dados. Fala-se em proteger os menores, mas salienta-se também que é necessário ir muito mais longe. A Comissão Europeia já identificou problemas como o «doom scrolling», a reprodução automática, as notificações persuasivas e os sistemas de recomendação personalizados no TikTok, e instaurou um processo contra a Meta devido aos efeitos de «rabbit hole». Não estamos perante uma discussão moral sobre se as crianças devem ou não ter um telemóvel. Trata-se de uma discussão sobre se aceitamos que a esfera pública seja gerida por sistemas otimizados para explorar as fraquezas humanas.

Além disso, uma das realidades amplamente ignoradas da verificação da idade é que esta exige que o utilizador se identifique. A proteção das crianças torna-se, assim, o álibi perfeito para construir uma camada permanente de identificação na Internet que pode ser incorporada na infraestrutura de vigilância. E o mais grave é que, enquanto discutimos como controlar os utilizadores, deixamos intacta a arquitetura que os manipula.

Uma rede social não precisa de saber tudo sobre nós. Não tem de criar perfis psicológicos, perseguir-nos por toda a Internet, manipular o debate público ou conceber cada botão para prolongar compulsivamente a sessão. Poderia funcionar com publicidade genérica ou contextual, dependendo do conteúdo, com assinaturas razoáveis, interoperabilidade, protocolos abertos, auditorias independentes, recomendações configuráveis e transparentes, e linhas do tempo controladas pelo utilizador. Poderia ser uma ferramenta social, e não uma fábrica de dependências.

A questão, portanto, não é se devemos expulsar os menores de plataformas tóxicas. A questão é por que continuamos a permitir que plataformas tóxicas existam para qualquer pessoa, independentemente da sua idade. Tornar os adolescentes o problema é conveniente, espetacular, populista e lucrativo em termos eleitorais. Mas uma sociedade adulta não protege as suas crianças impedindo-as de aceder a um lugar sujo e perigoso gerido por empresas sem escrúpulos. Uma sociedade adulta responsabiliza essas empresas.

Se os nossos governos estão genuinamente interessados em proteger as crianças, a única solução viável é eliminar o perigo que as ameaça, bem como a todos os demais membros da sociedade. E se uma rede social não consegue sobreviver sem violar a privacidade, manipular a atenção e transformar tudo em combustível para a publicidade, então o problema não é o facto de os adolescentes estarem expostos a ela. O problema é que permitimos que ela funcione contra os interesses de todos.