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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SERAFIM RIEM (1954-2026)

  • O ambientalista Serafim Riem, considerado um veterano da luta em defesa da natureza, morreu quarta‑feira no Porto, aos 72 anos, confirmou a direcção nacional da Íris — Associação Nacional de Ambiente, da qual fazia parte. Figura marcante do movimento associativo português, foi fundador e dirigente do Grupo Ecológico Terra Viva, esteve no Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem e co-fundou as associações Quercus e FAPAS. Mais informação aqui e aqui.
  • Alfeu Sá Marques, antigo professor da Universidade de Coimbra e ex-presidente das Águas de Coimbra, defende a barragem de Girabolhos como peça-chave para mitigar cheias. Fonte.

LÍBANO: PRESIDENTE ACUSA ISRAEL DE PULVERIZAR TERRENOS COM GLIFOSATO

Foto de Ramiz Dallah/Anadolu via Getty Images
  • O presidente libanês acusou o governo israelita de cometer «um crime contra o ambiente e a saúde» por alegadamente pulverizar o herbicida glifosato em terras agrícolas no Líbano e na Síria. Fonte.
  • Autoridades responsáveis pela vida selvagem na Flórida eliminaram mais de 5.000 iguanas não nativas no estado, depois que hordas desses répteis terem copngelado e caído das árvores durante a onda de frio desta semana. Fonte.
  • Uma avaria numa válvula de hidrante de combustível conectada a um oleoduto do sistema de combustível do aeroporto internacional Hartsfield-Jackson provocou a descarga de 5 mil litros de combustível no rio Flint. Refira-se que em 2022 o aeroporto foi multado em US$ 40.000 por um derrame semelhante de combustível no ano anterior. Fonte.

BICO CALADO

Eartha Kitt confronta Johnson num almoço na Casa Branca em 18 de janeiro de 1968. 
Duas semanas depois, Johnson anunciou que não concorreria à reeleição devido à impopularidade da Guerra do Vietnã. [Fonte: reddit.com ]
  • Lyndon B. Johnson usou a CIA para perseguir a cantora Eartha Kitt depois de ela criticar a guerra do Vietname. Fonte.
  • Documentos obtidos pelo The Grayzone através de pedidos de liberdade de informação fornece uma visão sem precedentes sobre o pouco conhecido conselho de censura militar e de inteligência da Grã-Bretanha. O conteúdo revela como o secreto Comitê Consultivo de Defesa e Segurança dos Media censura a produção dos jornalistas britânicos, ao mesmo tempo que classifica os media independentes como «extremistas» por publicar matérias «embaraçosas». O órgão impõe o que é conhecido como D-Notices, ordens de silêncio que suprimem sistematicamente as informações disponíveis ao público. Os documentos também mostram as intenções do Comitê de estender o sistema D-Notice às redes sociais, declarando o seu desejo de se envolver com os “gigantes da tecnologia” com o objetivo de suprimir a divulgação de denúncias em plataformas como Meta e Twitter/X.
  • Ricardo Araújo Pereira arrasa o mentiroso mor de Portugal. Video clip.
  • Colonos israelitas ilegais realizaram ataques coordenados em várias áreas da Cisjordânia ocupada, arrancando centenas de oliveiras, agredindo civis e pastores palestinianos e invadindo aldeias sob a proteção do exército israelita. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O IMPERIALISMO É A LÓGICA DO PEDÓFILO
BettBeat Media, Substack. Trad. O’Lima.


Contamos a nós mesmos mentiras reconfortantes sobre o poder. Imaginamos que aqueles que ascendem ao comando de impérios, nações e vastas fortunas o fazem por mérito, por visão, por alguma aptidão darwiniana que o resto de nós não possui. Dizemos a nós mesmos que os sistemas que governam as nossas vidas — capitalismo, monarquia, colonialismo, igreja — são imperfeitos, mas melhoráveis, falhos, mas não podres na raiz.

Estamos errados. O nosso mundo é governado por uma cabala de pedófilos.

Isto não é hipérbole. Não se trata da teoria da conspiração Pizzagate ou QAnon. É a conclusão óbvia de décadas de escândalos expostos, redes expostas, encobrimentos expostos — expostos e depois ignorados, expostos e depois enterrados, expostos e depois esquecidos, enquanto os predadores permanecem no poder. A Igreja Católica. Os internatos britânicos. A ilha de Epstein. As plantações coloniais. Sempre o mesmo padrão: acesso a crianças, imunidade às consequências e um sistema que fecha fileiras. O sistema não falha na filtragem dos pedófilos. Seleciona-os. Foi sempre assim.

O modelo exposto

Consideremos o culto. Cada geração produz cultos, e cada geração expressa choque quando as revelações inevitáveis emergem. Rajneesh. NXIVM. Os Filhos de Deus. Jim Jones. O padrão nunca varia: autoridade carismática, totalitarismo ideológico, exploração sexual sistemática dos seguidores — particularmente menores de idade. Chamamos aberrações a isso. Dizemos a nós mesmos que as instituições tradicionais são diferentes. Elas não são diferentes. São simplesmente maiores.

A Igreja Católica pagou milhares de milhões em acordos a sobreviventes de abuso em todo o mundo. A escala desafia a compreensão: milhares de padres, dezenas (senão centenas) de milhares de vítimas, um aparato burocrático dedicado não à justiça, mas ao encobrimento. Só o relatório do grande júri da Pensilvânia documentou mais de 300 padres predadores e mais de 1000 crianças vítimas num único estado americano. Isto não foi uma aberração. Foi uma política — a sobrevivência institucional colocada acima dos corpos das crianças.

O Império Britânico administrava internatos destinados a «civilizar» crianças indígenas no Canadá, na Austrália e em outros lugares. Sepulturas sem identificação pontilham agora os terrenos dessas instituições. Os sobreviventes descrevem abusos físicos e sexuais sistemáticos. A Comissão Canadiana da Verdade e Reconciliação chamou isso de genocídio cultural. Mas era também outra coisa: uma vasta máquina que dava aos predadores acesso ilimitado a crianças privadas de família, comunidade e proteção.

Internatos: fábricas de abuso infantil onde colonizadores europeus violavam crianças indígenas com impunidade.

O colonialismo em si era uma carta branca para pedófilos. A escravidão significava posse de corpos — todos os corpos, incluindo os das crianças. A servidão doméstica colocava menores em lares onde não tinham recursos. As «mulheres de conforto» do imperialismo japonês. As noivas infantis de todos os exércitos conquistadores. Discutimos esses horrores na linguagem higienizada da injustiça histórica, mas a verdade é visceral e específica: homens poderosos violando crianças porque podiam. E isso continua ininterruptamente até hoje.

 

A realeza, a elite, os intocáveis

A Casa de Windsor chegou a um acordo extrajudicial com Virginia Giuffre, uma sobrevivente que alegou ter sido traficada para o príncipe Andrew quando era adolescente. O valor do acordo terá sido de doze milhões de libras. Sem admissão de culpa. Sem processo criminal. Para o palácio, o assunto está encerrado.

Mas é claro que Andrew não é um caso único. As monarquias funcionaram sempre assim. O «direito do senhor» pode ser um mito histórico, mas a realidade a que se referia não era: aqueles com poder absoluto serviram-se sempre dos corpos dos seus súbditos. As amantes reais das cortes europeias eram frequentemente pré-adolescentes. As crianças escravizadas nas casas aristocráticas não tinham qualquer personalidade jurídica.

Imaginamos que isto é história. Imaginamos que a modernidade reformou estas estruturas. Imaginamos mal.

Jeffrey Epstein e a máquina da impunidade

Jeffrey Epstein não agia sozinho. Ele geria uma rede — uma operação de aquisição e chantagem que servia os poderosos. A sua lista de clientes incluía financeiros, políticos, académicos e membros da realeza. A sua primeira prisão, na Flórida, resultou num acordo judicial tão brando que o promotor que o negociou acabou por integrar o Gabinete dos Estados Unidos. Epstein morreu sob custódia federal em circunstâncias que desafiam a credibilidade. As câmaras não funcionaram. Os guardas dormiam. O réu mais famoso da América, de alguma forma, enforcou-se sem ser observado.

Os arquivos divulgados nos últimos anos contêm declarações juramentadas que deveriam ter destruído carreiras políticas. Numa dessas declarações, uma testemunha usando o pseudónimo «Tiffany Doe» testemunhou sob pena de perjúrio que testemunhou pessoalmente o abuso de menores nas mãos de Epstein e Donald Trump durante o seu emprego de 1990 a 2000 — imagine a quantidade de horrores que aconteceram apenas nesses dez anos. Ela descreveu uma queixosa — uma criança — a ser ameaçada por Trump, que lhe disse que ela «desapareceria como a menina de 12 anos» se alguma vez falasse. Ela descreveu ameaças contra a sua própria vida por ter decidido falar.


Alto. Uma declaração juramentada. Sob pena de perjúrio. Descrevendo o homem que se tornaria presidente dos EUA a ameaçar uma criança de morte.

O processo foi retirado. A queixosa alegou receios pela sua segurança. Não houve julgamento. Os media seguiram em frente.

Imagine ter doze anos. Uma criança que brinca nos parques. Agora imagine um homem poderoso — um homem cujo rosto está em toda parte, cujo nome adorna edifícios — dizendo que poderia mandar matar a sua família. Imagine a impotência. Imagine carregar isso durante décadas enquanto o mundo faz desse homem o seu líder. Isto não é teoria da conspiração. É um testemunho sob juramento que os nossos sistemas decidiram não levar adiante.

Os arquivos mais recentes de Epstein revelam uma depravação que até mesmo os filmes de terror de Hollywood evitam. Rituais de sacrifício infantil. Abortos forçados. O consumo de carne humana de vítimas assassinadas. Donald Trump teria penetrado os órgãos genitais de crianças de doze anos para testar como eram «apertados», enquanto amigos bilionários riam ao fundo. A conspiração de pedófilos poderosos quase leva alguém a tornar-se religioso — parece que estamos a enfrentar a batalha milenar profetizada entre o bem e o mal. Entre nós e uma horda demoníaca disfarçada de «mundo livre». O maior truque que o diabo já fez foi convencer o mundo de que ele não existia.

Os Países Baixos e todos os outros lugares

Cada nação tem a sua versão. Nos Países Baixos, Joris Demmink, um ex-alto funcionário do Ministério da Justiça, enfrentou anos de acusações relacionadas com abuso sexual infantil. Apresentaram-se testemunhas. As investigações fracassaram. Os processos judiciais fracassaram. O primeiro-ministro defendeu-o publicamente. O caso, oficialmente, está encerrado.

Demmink não é um caso único nos Países Baixos. Ele é o exemplo local dos Países Baixos de um fenómeno global: o predador intocável protegido pelos próprios sistemas destinados a fazer justiça.

A Bélgica teve o caso Dutroux, que expôs redes que chegavam à polícia e ao governo. A Grã-Bretanha teve Jimmy Savile, que abusou de quase mil crianças durante décadas enquanto a BBC fazia vista grossa — ah, e surpresa, surpresa, a rainha Elizabeth gostava muito dele. Portugal teve a Casa Pia. Os padrões repetem-se infinitamente.

Alguns de vocês devem lembrar-se da modelo infantil Gabriela Rico Jiménez gritando que tinha testemunhado elites «a comer seres humanos». Em 2009, a jovem modelo de Chihuahua participou numa festa de alto nível em Monterrey — supostamente ligada à agência Elite Model. Não era uma festa qualquer; dizia-se que nela estavam presentes empresários poderosos, políticos e figuras do crime organizado.

O que ela viu lá destruiu-a. Jiménez foi encontrada fora de um hotel em estado de histeria, gritando sobre canibalismo e citando nomes de pessoas poderosas. Ela foi rapidamente levada pelas autoridades. O seu caso continua sem solução. Continua desaparecida — silenciada ou destruída pelo que testemunhou.

As alegações sobre elites canibais que violavam crianças podem ter parecido loucura na época. Mas, na era pós-Epstein, muitos de nós percebemos que a descartámos com demasiada facilidade.

A lógica exposta

Recentemente, alguém resumiu isso de forma simples: “O imperialismo é a lógica do pedófilo”. A afirmação é chocante. E é para ser assim. Somos treinados para discutir o imperialismo em grandes abstrações — geopolítica, economia, ascensão e queda de civilizações. Mas, se retirarmos a linguagem académica, o que resta é isto: o imperialismo é o projeto de tirar o que se quer daqueles que não podem impedir. É a lógica da predação, em grande escala. E a predação definitiva — a expressão final do poder absoluto sobre a impotência absoluta — é a violação de uma criança.

Na verdade, o imperialismo — despojado da sua grandeza histórica — é simplesmente a fome pelo poder de violar crianças com impunidade.

Isto não é uma metáfora. É um mecanismo. O poder centralizado e sem prestação de contas atrai aqueles que desejam explorar sem consequências. Ele eleva-os porque as características que permitem a exploração — crueldade, manipulação, ausência de empatia — são precisamente as características que facilitam a ascensão em hierarquias construídas sobre a dominação. Mais uma vez, o sistema não apenas falha em filtrar os predadores, ele seleciona-os.

O pedófilo busca acesso e impunidade. O império, a igreja e o capital fornecem ambos. O proprietário da plantação tinha acesso a crianças escravizadas e total impunidade. O padre tinha acesso a meninos do coro e à proteção do Vaticano. O bilionário tem ilhas particulares, jatos particulares e promotores que retornam as suas chamadas.

Por que nada muda

Uma verdade amarga circula entre aqueles que estudam esses padrões: no capitalismo, os capitalistas não são punidos. O sistema não se reformará porque está a funcionar como foi concebido. Ele concentra o poder. Ele isola esse poder da responsabilidade. Ele proporciona aos que estão no topo o que sempre buscaram: a liberdade de tomar o que querem.

Epstein não é uma aberração. Ele é um vislumbre por trás da cortina — um momento raro em que a maquinaria se tornou brevemente visível antes de a cortina fechar. A sua morte garantiu que a cortina permanecesse fechada.

Os arquivos serão divulgados, analisados, discutidos. Artigos de opinião serão escritos. E nada acontecerá aos homens poderosos cujos nomes aparecem nesses arquivos. Nada acontece.

O que seria necessário para mudar isso?

Para acabar com isso, seria necessário desmantelar as próprias estruturas que permitem que isso aconteça. Não uma reforma. Não comissões de supervisão. Não forças-tarefa. Desmantelamento.

Seria necessário acabar com a concentração de riqueza que coloca os indivíduos fora do alcance da lei. Seria necessário destruir as instituições que priorizam a sua própria sobrevivência em detrimento das crianças. Seria necessário um mundo em que ninguém — nem presidente, nem príncipe, nem papa — fosse intocável.

Seria necessário pararmos de contar mentiras reconfortantes a nós mesmos.

A questão é se temos estômago para essa verdade. Se conseguimos olhar para os impérios que herdámos, os sistemas em que participamos, os líderes que elegemos, e vê-los como realmente são: estruturas construídas por predadores, para predadores, mantidas pela nossa recusa coletiva em ver.

As crianças que foram ameaçadas, violadas e silenciadas não podiam recusar-se a ver. Elas viveram isso. Muitas ainda vivem. O mínimo que lhes devemos é a coragem de denunciar o que aconteceu. E o que continua a acontecer.

O imperialismo não é uma grande estratégia. Não é o destino da civilização. É a lógica de um pedófilo, vestida com bandeiras.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

ALGARVE: MAIS DUAS ÁREAS PROTEGIDAS

  • O concelho de Loulé, que detém até à data 30% das áreas protegidas locais da Rede Nacional de Áreas Protegidas, vê agora duas novas áreas protegidas de âmbito local serem reconhecidas com a publicação oficial da Reserva Natural Local da Nave do Barão e do Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro, em Diário da República. Fonte.
  • A jornada de renascimento do aço naval, algures no Paquistão. Video clip.
  • As árvores nos ensinam a educarmos nossos filhos. Rosângela Trajano, EcoDebate.

BICO CALADO

  • “D. Marcelo, presidente vitalício da Fundação Casa de Bragança, com mandato suspenso por mais 35 dias, com o país de rastos e milhares de portugueses sem telhado, água ou luz, foi a Roma ajoelhar-se e implorar bênçãos ao Papa Leão XIV. (…) foi, pela sexta vez, ao beija-mão do Pontífice. (…) O que o PR não pode fazer é lamber a mão do Papa, inclinar-se subserviente, deixar-se fotografar num ato humilhante para a República laica, que representa, e portar-se como se a CRP, que jurou, permitisse o aviltamento do seu guardião. Portugal não é protetorado do Vaticano e o PR sacristão. Ao bajular o Papa não cumpriu uma visita de Estado, levou a cabo uma promessa pia e denegriu a imagem do País. (…) O respeito que devia merecer como PR esbanjou-o em vergonhosas exibições pias, no seu incoercível proselitismo, na incapacidade de distinguir as funções de Estado das suas convicções religiosas. (…)” Carlos Esperança, Marcelo foi ontem ao Vaticano.
  • O Ministério Público apanhou um comprometedor “esquecimento” de Gouveia e Melo em plena audiência do julgamento em quo de 2021, cerca de quatro mil médicos não prioritários foram vacinados em hospitais militares a troco de 27 mil euros. Gouveia e Melo afirmou em tribunal que só teve conhecimento do uso dos hospitais militares após a vacinação, mas o procurador do MP mostrou e-mails que comprovam que coordenou o processo com o actual deputado do PSD, Miguel Guimarães. Fonte.
  • Portugal, visto de cima, é um pequeno pedaço de terra onde se torna difícil marcar distâncias. As conversas bairristas são ligeiramente irritantes e até ridículas. Mostram alguma falta de mundo, se me permitem. Tiago Franco, Lá longe, a 140 km, a profundidade da estupidez.
  • “Quando um exército é chamado a intervir em apoio às populações, não basta colocar fardas no terreno. É preciso comando, planeamento, meios técnicos e uma clara definição de tarefas. Sem isso, o que se obtém não é ajuda eficaz, mas desgaste inútil - físico e moral - de quem obedece ordens mal pensadas. Como ex-combatente, senti vergonha. Vergonha ao observar este espetáculo de improviso, 51 anos após o 25 de Abril e depois de quatro anos da minha vida como miliciano na guerra colonial. Não pelo esforço dos soldados - esses fizeram o que lhes mandaram - mas pelo retrato que ficou de uma instituição que deveria ser sinónimo de organização, disciplina e capacidade operacional. Um exército sem organização não é apenas ineficiente. É um exército sem razão. E quando assim é, não falha apenas a missão: falha o Estado que o comanda.” João Gomes.
  • As tarifas não ajudaram: 72 000 empregos na indústria transformadora — e a contagem continua — eliminados desde o Dia da Libertação de Trump. «Há muito poucos produtos no nosso portfólio que tenham beneficiado das tarifas», afirmou o CEO de uma empresa de produtos siderúrgicos sediada na Carolina do Norte. Fonte.
  • A oligarquia dos media digitais: quem é o dono das notícias online? Caitlin Scialla, Sheerpost.

LEITURAS MARGINAIS

A IA PODERÁ TRANSFORMAR A EDUCAÇÃO SE AS UNIVERSIDADES DEIXAREM DE AGIR COMO GUILDAS MEDIEVAIS.
Enrique Dans, Medium. Trad. O’Lima.


O pânico não é uma estratégia pedagógica

Quando o ChatGPT surgiu, grande parte da academia reagiu não com curiosidade, mas com medo. Não medo do que a inteligência artificial poderia permitir que os alunos aprendessem, mas medo de perder o controlo sobre como o aprendizado era tradicionalmente supervisionado. Quase imediatamente, os professores declararam a IA generativa como «veneno», alertaram que ela destruiria o pensamento crítico e exigiram proibições total em todas as faculdades (…) Outros apressaram-se em reviver os exames orais e as avaliações manuscritas, como se voltar no tempo pudesse fazer o problema desaparecer. Isso nunca foi realmente sobre pedagogia. Era sobre autoridade.

A narrativa da integridade mascara um problema de controlo

A resposta tem sido tão caótica que os investigadores já documentaram a confusão resultante: políticas contraditórias, diretrizes vagas e mecanismos de aplicação que até mesmo os professores têm dificuldade em compreender (...)

As universidades falam incessantemente sobre integridade académica, enquanto admitem discretamente que não têm uma definição comum do que significa integridade num mundo aumentado pela IA. Enquanto isso, tudo o que realmente importa para a aprendizagem, desde a motivação até a autonomia, o ritmo, a capacidade de tentar ou falhar sem humilhação pública, mal entra na conversa.

Em vez de perguntar como a IA poderia melhorar a educação, as instituições têm-se obcecado em como preservar a vigilância.

As evidências apontam na direção oposta.

No entanto, as evidências apontam numa direção muito diferente. Os sistemas de tutoria inteligente já são capazes de adaptar conteúdos, gerar exercícios contextualizados e fornecer feedback imediato de maneiras que salas de aula grandes não conseguem, conforme resumido em pesquisas educacionais recentes. Essa desconexão revela algo desconfortável.

A IA não ameaça a essência da educação: ela ameaça a burocracia construída à sua volta. Os próprios alunos não estão a rejeitar a IA: estudos mostram consistentemente que eles veem o uso responsável da IA como uma capacidade profissional essencial e querem orientação, não punição, para usá-la bem. A desconexão é gritante: os alunos estão avançando, enquanto as instituições académicas estão-se entrincheirando.

Como é, na prática, uma abordagem «all-in»

Há mais de 35 anos que leciono na IE University, uma instituição que sempre assumiu uma postura contrária. Muito antes de a IA generativa entrar no debate público, a IE já experimentava a educação online, modelos híbridos e aprendizagem aprimorada pela tecnologia. Quando o ChatGPT chegou, a universidade não entrou em pânico. Em vez disso, publicou uma Declaração Institucional sobre Inteligência Artificial muito clara, enquadrando a IA como uma mudança tecnológica histórica, comparável ao motor a vapor ou à internet, e comprometendo-se a integrá-la de forma ética e intencional no ensino, na aprendizagem e na avaliação.

Essa posição "all-in" não tinha a ver com novidade ou branding. Baseava-se numa ideia simples: a tecnologia deve adaptar-se ao aluno, e não o contrário. A IA deve ampliar o ensino humano, não substituí-lo. Os alunos devem poder aprender ao seu próprio ritmo, receber feedback sem julgamentos constantes e experimentar sem medo. Os dados devem pertencer ao aluno, não à instituição. E os educadores devem dedicar menos tempo a fiscalizar os resultados e mais tempo a fazer o que só os humanos podem fazer: orientar, inspirar, contextualizar e exercer o julgamento. A decisão da IE de integrar as ferramentas da OpenAI em todo o seu ecossistema académico reflete essa filosofia na prática.

A uniformidade nunca foi rigor

Esta abordagem contrasta fortemente com as universidades que tratam a IA principalmente como um problema de fraude. Essas instituições defendem um modelo baseado na uniformidade, ansiedade, memorização e avaliação, em vez da compreensão. A IA expõe os limites desse modelo precisamente porque torna possível um modelo melhor: aprendizagem adaptativa e centrada no aluno em grande escala, uma ideia apoiada por décadas de investigação educacional.

Mas abraçar essa possibilidade é difícil. É preciso abandonar a ficção reconfortante de que ensinar o mesmo conteúdo a todos, ao mesmo tempo, avaliado pelos mesmos exames, é o ápice do rigor. A IA revela que esse sistema nunca teve a ver com eficiência de aprendizagem, mas sim com conveniência administrativa. Não é rigor... é rigor mortis.

As Escolas Alpha e a ilusão da disrupção

É claro que há experiências que afirmam apontar para o futuro. As Escolas Alpha, uma pequena rede de escolas privadas com foco em IA nos EUA, chamaram a atenção por reestruturar radicalmente o dia letivo em torno de tutores de IA. A proposta é atraente: os alunos concluem as disciplinas básicas em poucas horas com o apoio da IA, liberando o resto do dia para projetos, colaboração e desenvolvimento social.

Mas as Escolas Alpha também ilustram como é fácil errar na aplicação da IA na educação: o que elas implementam hoje não é um ecossistema de aprendizagem sofisticado, mas uma fina camada de conteúdo impulsionado por IA otimizado para velocidade e desempenho em testes. O modelo de IA, simplista e fraco, prioriza a aceleração em detrimento da compreensão, a eficiência em detrimento da profundidade. Os alunos podem avançar mais rapidamente através do material padronizado, mas fazem-no ao longo de percursos rígidos e predefinidos, com ciclos de feedback simplistas. O resultado parece menos uma aprendizagem aumentada e mais uma automatização disfarçada de inovação.

Quando a IA se torna um tapeterolante

Este é o principal risco enfrentado pela IA na educação: confundir personalização com otimização, autonomia com isolamento e inovação com automação. Quando a IA é tratada como um tapete rolante em vez de uma companheira, ela reproduz as mesmas falhas estruturais dos sistemas tradicionais, só que de forma mais rápida e barata.

A limitação aqui não é tecnológica: é conceitual.

A verdadeira educação impulsionada pela IA não consiste em substituir professores por chatbots ou comprimir currículos em intervalos de tempo mais curtos. Consiste em criar ambientes onde os alunos possam planear, gerir e refletir sobre processos de aprendizagem complexos; onde o esforço e a consistência se tornem visíveis; onde os erros sejam seguros; e onde o feedback seja constante, mas respeitoso. A IA deve apoiar a experimentação, não impor a conformidade.

A verdadeira ameaça não é a IA

É por isso que a reação contra a IA nas universidades é tão equivocada. Ao concentrarem-se na proibição, as instituições perdem a oportunidade de redefinir a aprendizagem em torno do crescimento humano, em vez do controlo institucional. Elas agarram-se aos exames porque são fáceis de administrar, não porque são eficazes. Temem a IA porque ela torna óbvio o que os estudantes sabem há muito tempo: que grande parte do ensino superior mede os resultados, negligenciando a compreensão.

As universidades que prosperarão não são aquelas que proíbem ferramentas ou ressuscitam rituais de avaliação do século XIX. Serão aquelas que tratam a IA como infraestrutura educacional essencial — algo a ser moldado, governado e aprimorado, não temido. Elas reconhecerão que o objetivo não é automatizar o ensino, mas reduzir a desigualdade educacional, expandir o acesso ao conhecimento e libertar tempo e atenção para os aspetos profundamente humanos da aprendizagem.

A IA não ameaça a educação: ela ameaça os sistemas que se esqueceram para quem é a educação.

Se as universidades continuarem a responder defensivamente, não será porque a IA as substituiu. Será porque, quando confrontadas com a primeira tecnologia capaz de permitir uma aprendizagem genuinamente centrada no aluno em grande escala, elas optaram por proteger os seus rituais em vez dos seus alunos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

ESPINHO: FORTE ONDULAÇÃO PROVOCA ROMBO NO ENROCAMENTO DE SILVALDE

Foto: JN

A forte ondulação registada na madrugada desta terça-feira provocou um rombo de grandes dimensões no enrocamento no bairro piscatório de Silvalde, tendo o mar galgado e atingido áreas muito próximas das habitações, gerando apreensão entre a população local. Fonte.

O litoral de Espinho é frequentemente alvo de galgamentos que provocam grandes estragos. É o preço que pagamos por querermos usufruir dele. Seguem-se registos dos impactos de alguns galgamentos passados:

LINHA DO SADO PRIVATIZADA?

  • A proposta do Governo para subconcessionar a linha do Sado da CP a grupos privados é “uma transferência inaceitável de recursos dos contribuintes para o lucro privado”, afirma a distrital de Setúbal do BE. Fonte.
  • Barragens libertam água equivalente a três anos de consumo de Lisboa. Fonte.







ESPANHA: REPSOL MULTADA POR PREJUDICAR GALOSINEIRAS INDEPENDENTES

  • A Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência impôs uma sanção de 20,5 milhões de euros ao Grupo Repsol. O regulador espanhol considera provado que a empresa energética abusou da sua posição dominante no mercado grossista de combustíveis durante o ano de 2022, levando a cabo uma estratégia de «redução das margens» destinada a obstaculizar a atividade dos seus concorrentes, principalmente as estações de serviço independentes e de baixo custo. A resolução inclui a proibição de participar em concursos públicos para o fornecimento de combustíveis durante seis meses. Fonte.
  • A Espanha aproxima-se dos 100 milhões de turistas enquanto tenta liderar a descarbonização. Dois objetivos do país que hoje colidem frontalmente. Pode a Espanha turística ser também uma Espanha climaticamente responsável? Reflexão interessante de Andrés Actis, na Climática.
  • Até metade dos sedimentos grosseiros de algumas praias britânicas são compostos por materiais artificiais, como tijolos, betão, vidro e resíduos industriais, conclui um estudo recente.
  • Reino Unido é o pior país do mundo por permitir que empresas de combustíveis fósseis perfurem em reservas naturais. Uma investigação recente revela vasta sobreposição global entre licenças de perfuração e locais protegidos cruciais para a natureza. Fonte.
  • Organizações de ambiente lançam maior petição europeia contra a simplificação das leis ambientais, alegando que, com essa “simplificação” e “redução de burocracia”, a Comissão Europeia se prepara para implementar um novo pacote legislativo – o chamado “omnibus” de desregulamentação – que poderá enfraquecer várias leis ambientais fundamentais, incluindo leis da água, resíduos, químicos, poluição industrial e proteção da natureza. Entre as medidas em discussão estão menos monitorização (mais poluição não detetada, com impactos irreversíveis na saúde e na natureza), padrões mais fracos (pior qualidade da água, do ar e dos solos), fiscalização mais lenta (maior risco para a saúde pública), mais autoavaliação por parte da indústria (menos responsabilização e mais oportunidades para contornar regras), e limites mais elevados para as empresas (menos poluidores obrigados a cumprir a lei). E leis mais fracas significam menos responsabilidades para quem polui e maior risco para a saúde e segurança das pessoas. Fonte.
  • A administração Trump isenta novos reatores nucleares da avaliação ambiental. O anúncio da exclusão surge poucos dias depois de se saber que funcionários do Departamento de Energia tinham secretamente reescrito as regras ambientais e de segurança para facilitar a construção dos reatores. Fonte.
  • Como tornar as políticas climáticas mais justas? Henrique Cortez, EcoDebate.
  • O exército israelita usarou escavadoras para arrasar terras agrícolas na cidade de al-Khader, a sul de Belém, arrancando cerca de 200 videiras maduras. Fonte.

REFLEXÃO

‘PERDA GLOBAL DE BIODIVERSIDADE, COLAPSO DOS ECOSSISTEMAS E SEGURANÇA NACIONAL: UMA AVALIAÇÃO DA SEGURANÇA NACIONAL’
Relatório compilado pelo Comité Conjunto de Inteligência (que inclui os chefes do MI5, MI6 e GCHQ)
Tim Smedley, Medium. Trad. O’Lima.


O que diz este relatório para ter sido retido e só agora ter vindo a público?
Os riscos à segurança nacional identificados pelo relatório do Comité Conjunto de Inteligência com um nível de confiança «alto» são:
  • «A degradação e o colapso do ecossistema global ameaçam a segurança nacional e a prosperidade do Reino Unido. O mundo já está a sofrer impactos, incluindo quebras nas colheitas, intensificação de desastres naturais e surtos de doenças infecciosas. As ameaças aumentarão com a degradação e intensificar-se-ão com o colapso. Sem uma intervenção significativa para reverter a tendência atual, é altamente provável que isso continue até 2050 e depois.»
  • «Os ecossistemas críticos que sustentam as principais áreas de produção alimentar global e afetam o clima global, os ciclos hídricos e meteorológicos são os mais importantes para a segurança nacional do Reino Unido. A degradação grave ou o colapso desses ecossistemas provavelmente resultariam em insegurança hídrica, redução severa na produtividade agrícola, redução global das terras aráveis, colapso da pesca, alterações nos padrões climáticos globais, libertação de carbono retido, agravando as alterações climáticas, novas doenças zoonóticas e perda de recursos farmacêuticos. A floresta amazónica, a floresta do Congo, as florestas boreais, os Himalaias e os recifes de coral e mangais do Sudeste Asiático são particularmente significativos para o Reino Unido».
  • «Está a ocorrer uma elevada degradação dos ecossistemas em todas as regiões. Todos os ecossistemas críticos estão a caminho do colapso (perda irreversível de função, sem possibilidade de reparação).»
Vamos ler novamente a última frase. As ameaças na avaliação de segurança nacional são classificadas em baixo, médio e alto nível de confiança. O facto de «todos os ecossistemas críticos estarem a caminho do colapso (perda irreversível de função sem possibilidade de reparação)» ser classificado como alto pelos serviços secretos britânicos deve abalar-nos profundamente. Mais adiante, o relatório explica: «Há uma possibilidade realista de alguns ecossistemas começarem a entrar em colapso até 2030 ou antes, como resultado da perda de biodiversidade devido à alteração do uso do solo, poluição, alterações climáticas e outros fatores.»

O relatório identifica «6 ecossistemas globais críticos» em risco de colapso — ver mapa abaixo). Metade deles tem uma «possibilidade realista de colapso a partir de 2030». Faltam quatro anos para isso. Este é um relatório recente.

1. Floresta Amazónica, América Latina. Escala temporal de transição: 50–100 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2050; 2. Bacia do Congo, África. Escala temporal de transição: incerta. Possibilidade realista de colapso a partir de 2050. 3. Sudeste Asiático. Recifes de coral, escala temporal de transição: 10 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030. Manguezais. Prazo de transição: incerto. Possibilidade realista de colapso a partir de 2050. 4. Himalaia, Ásia. Escala temporal de transição: 50–1000 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030. 5. Florestas boreais, Rússia. Escala temporal de transição: 40–100 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030. 6. Florestas boreais, Canadá. Escala temporal de transição: 40–100 anos. Possibilidade realista de colapso a partir de 2030.

Como uma ameaça à segurança nacional do Reino Unido, tudo isso pode parecer geograficamente distante, mas não para os chefes dos serviços secretos. Essas «regiões ecossistémicas são críticas para a segurança nacional do Reino Unido, dada a probabilidade e o impacto do seu colapso. Uma degradação grave ou colapso provocaria a deslocalização de milhões de pessoas, alteraria os padrões climáticos globais, aumentaria a escassez global de alimentos e água e impulsionaria a competição geopolítica pelos recursos restantes».

O relatório sublinha que o Reino Unido importa 40% dos seus alimentos do exterior, com apenas 25% provenientes da Europa. O Reino Unido depende fortemente das importações de frutas frescas, vegetais e açúcar. A pecuária nos níveis atuais é insustentável sem importações — a soja da América do Sul representa 18% da ração animal produzida. Quase 50% dos produtos embalados contêm óleo de palma importado. O Reino Unido não é autossuficiente em fertilizantes — tanto o azoto como o fósforo dependem, pelo menos parcialmente, das importações.

O Reino Unido (…) tem enfrentado uma crise após outra no custo de vida desde, pelo menos, a crise financeira de 2008, agravada pelo Brexit, a partir de 2016. Os salários estão estagnados desde 2008, há quase duas décadas. Muitas vezes, a única coisa que mantém os britânicos à tona é um setor de supermercados muito competitivo, que mantém os custos dos alimentos baixos. Essa tábua de salvação, alerta o relatório das secretas, não sobreviverá aos próximos pontos de inflexão climáticos: «O Reino Unido é incapaz de ser autossuficiente em alimentos no momento, com base nas dietas e preços atuais. A autossuficiência total exigiria aumentos de preços muito substanciais para os consumidores, bem como melhorias na eficiência, redução de resíduos e resiliência em todo o sistema alimentar, incluindo produção agrícola, processamento, distribuição e consumo de alimentos. O Reino Unido não tem terra suficiente para alimentar sua população e criar gado».

E para dissipar quaisquer pensamentos românticos de regressar à autossuficiência dos tempos de guerra e ao «esforço coletivo pela Grã-Bretanha», o relatório deixa dolorosamente claro: «A produção alimentar do Reino Unido é vulnerável à degradação e ao colapso do ecossistema. A perda de biodiversidade, juntamente com as alterações climáticas, está entre as maiores ameaças a médio e longo prazo para a produção alimentar doméstica — através da degradação dos solos, perda de polinizadores, secas e inundações.»

Mas este relatório é apenas o mais recente de uma longa série de alertas. Ele não revela nada de novo. Trata-se, na verdade, de uma mera consolidação de relatórios já existentes — a lista de referências inclui a meta-análise de Mahon, M.B., et al. (2024) sobre os fatores que impulsionam as mudanças globais e o risco de doenças infecciosas; o IPBES. (2019) Resumo para decisores políticos do relatório de avaliação global sobre biodiversidade e serviços ecossistémicos; o Relatório Planeta Vivo 2024 da WWFo próprio Relatório de Segurança Alimentar do Reino Unido 2021 do Governo Britânico; o Relatório Global Tipping Points 2023. (...)

A previsão é catastrófica. Estamos a seguir um caminho que nós mesmos criámos, rumo à destruição mútua. No entanto, um caminho alternativo de conservação generalizada, consumo e produção sustentáveis não só interrompe o declínio, como nos leva de volta a níveis superiores aos atuais de biodiversidade e ecossistemas, nos quais podemos prosperar. Esse caminho continua disponível para nós.

Ruth Chambers, que apresentou o pedido de acesso à informação, concorda: «A sua publicação neste momento sugere que aqueles dentro do governo e da comunidade de segurança, que compreendem os riscos sistémicos da degradação climática e do declínio da biodiversidade, convenceram os seus colegas de que esta informação não deveria, com razão, ser escondida do público. Esta é uma vitória importante para a transparência.» Ao contrário de outros documentos governamentais que «acabam num canto empoeirado de Whitehall», este, diz ela, dada a sua crescente notoriedade e urgência, «deve ser agendado como um item importante na agenda do Conselho de Ministros, com base no parecer do comité COBR [Emergência Nacional]».

Talvez ironicamente, um relatório bloqueado pelo governo receba mais atenção dos media do que um que é publicado abertamente. Por isso, e somente por isso, temos que agradecer ao governo desta vez.

BICO CALADO

  • O Departamento de Segurança Interna dos EUA está a usar um contrato da Marinha no valor de 55 mil milhões de dólares para converter armazéns em prisões improvisadas e planear extensas cidades de tendas em áreas remotas. O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) já utilizou parte dos 45 mil milhões de dólares para adquirir armazéns em quase duas dezenas de comunidades remotas, cada um deles destinado a albergar milhares de detidos. Fonte.
  • As centenas de cr7 que tratam de refazer a vida e recuperar os bens danificados esperam que uma quantia semelhante à que se enviou para os nazis de kiev roubarem seja disponibilizada para a cobertura dos prejuízos que a tempestado causou por todo o país. E com celeridade. A não ser assim fica comprovado que os políticos que hoje governam não fazem mais que tratar, de forma mesquinha, da própria VIDINHA. Veremos se é diferente. oxisdaquestao.
  • A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, decidiu retirar um projeto de lei tecnológica da UE após reunião com o vice-presidente dos EUA, JD Vance. Essa regulamentação poderia ter poupado às empresas da UE milhares de milhões de euros em taxas de patentes pagas a empresas tecnológicas americanas. Von der Leyen retirou a lei pouco depois de uma, disse Wölken. Entretanto, o pedido do eurodeputado alemão Tiemo Wölken para obter documentos que detalhassem a decisão de retirar a lei chegou a um beco sem saída. Agora, o seu processo judicial — atualmente pendente no tribunal — visa obter acesso a e-mails e mensagens de texto trocadas por von der Leyen e a sua equipa que possam revelar o que realmente aconteceu à porta fechada. Fonte.
  • As autoridades policiais francesas realizaram uma operação nos escritórios da empresa de redes sociais X, propriedade de Elon Musk, com base em alegações de «abuso ilegal de algoritmos e extração fraudulenta de dados» por parte de executivos da empresa. Fonte.
  • O município de Thurrock, Inglaterra, investiu 1 bilião de libras numa série de empreendimentos comerciais secretos e ruinosos entre 2016 e 2020. Muitos dos negócios envolveram Liam Kavanagh, que embolsou dezenas de milhões e gastou tudo numa vida de luxo. O colapso subsequente de muitos desses negócios deixou o município numa situação financeira desesperada e sob ordens do governo para abandonar os seus investimentos, a fim de recuperar o máximo de dinheiro possível. Fonte.
  • No Reino Unido, uma empresa que recebeu milhões de libras em dinheiro público para administrar lares infantis ilegais foi apanhada a alojar uma criança vulnerável numa residência degradada, onde dormia num colchão no chão. A Great Minds Together foi suspensa pela Ofsted por falhas graves na proteção das crianças, após inspetores visitarem a propriedade em Oldham no ano passado. Mas, desde então, ela ressurgiu com outro nome e continua a lucrar com colocações ilegais. Sob as suas duas identidades, a GMT arrecadou mais de £ 12 milhões das autarquias locais nos últimos três anos, quase todo esse valor proveniente do fornecimento de acomodações ilegais para crianças sob cuidados institucionais. Os lares em questão são ilegais porque não estão registados na Ofsted. Isso significa que eles não precisam passar por inspeções de rotina e, portanto, não há garantias de qualidade ou segurança. Fonte.
  • Empresa de relações públicas de Londres reescreve a Wikipédia para governos e bilionários. Fundada pelo diretor de comunicação do primeiro ministro britânico e Keir Starmer, a Portland Communications ajuda clientes ricos a «proteger a sua reputação» – com um serviço obscuro e não oficial. Fonte.
  • A UE está a perder 5 vezes o PIB da Gronelândia devido à conquista fiscal de Trump. Sem qualquer debate público, os países da UE concordaram em isentar as multinacionais norte-americanas da maioria dos elementos do imposto mínimo global – quando a evasão fiscal dessas mesmas multinacionais norte-americanas custa ao bloco 14 mil milhões de euros em receitas perdidas todos os anos. A perda representa um enfraquecimento significativo da soberania fiscal da UE, alimentado pela Lei de Redução de Impostos e Emprego da primeira administração Trump, que permitiu às empresas norte-americanas duplicar a transferência de lucros, e sustentado pela segunda administração Trump, que conseguiu intimidar os países da UE a isentar as empresas americanas do imposto mínimo global proposto. As perdas fiscais equivalem à UE ceder 4,6 vezes por ano o PIB da Gronelândia aos EUA, ou entregar anualmente 30 euros por cada pessoa que vive na UE às multinacionais americanas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A AGENDA SECRETA DO APARTRHEID NO VALE DO SILÍCIO
Enrique Dans, Medium. Trad. O’Lima.


(…) O sistema de apartheid da África do Sul não era apenas um regime político injusto, era uma visão de mundo totalizante que normalizava situações que, de qualquer perspectiva humana razoável, não faziam sentido. Refiro-me ­a alguns indivíduos cuja influência no ecossistema tecnológico global é difícil de subestimar.

Elon Musk cresceu na África do Sul do apartheid, num ambiente de privilégios para os brancos que normalizava completamente a desigualdade extrema: o seu desprezo pela regulamentação, a sua concepção instrumental do trabalho e a sua deriva política estão cada vez mais próximos de posições autoritárias e não surgiram do nada.

Roelof Botha, neto de Pik Botha, o ministro dos Negócios Estrangeiros mais antigo do país, cresceu no centro do poder sul-africano e é hoje uma das figuras mais influentes no capital de risco, promovendo modelos de negócios orientados para o crescimento, extração e sem responsabilidade social.

David Sacks, que também cresceu na África do Sul antes de emigrar, é um defensor declarado do autoritarismo «eficiente» e, particularmente, do trumpismo.

Peter Thiel, embora tenha nascido na Alemanha, passou vários dos seus anos de formação na África do Sul e é talvez o ideólogo mais coerente deste grupo: um inimigo declarado da democracia, um defensor do elitismo intelectual e o fundador de empresas como a Palantir, que incorpora uma visão das pessoas como objeto de vigilância e controlo constantes.

Crescer na África do Sul do apartheid, mesmo sem apoiá-lo explicitamente, implicava normalizar e interiorizar uma série de pressupostos: que a assimetria de direitos pode ser racional, que a exclusão é funcional, que a concentração de poder é necessária para o funcionamento do sistema. A socialização opera no que é implícito, no que é inquestionável.

Décadas depois, não é difícil ver essa estrutura mental refletida em grande parte do discurso tecno-libertário, cada vez mais dominante. A desconfiança na democracia, apresentada como um sistema lento e ineficiente, o fascínio por figuras providenciais capazes de resolver problemas complexos a partir de cima, a aversão quase patológica a qualquer forma de regulamentação coletiva. Tudo isso configura uma visão de mundo em que o poder não precisa ser legitimado, apenas eficaz, geralmente acompanhada por uma simplificação grosseira. Não é por acaso que esse imaginário se conecta com as crenças reacionárias e abertamente fascistas de alguns líderes tecnológicos.

A substituição da hierarquia racial por uma hierarquia tecnológica ou meritocrática é apenas uma mudança de narrativa. Onde antes falávamos de raça, hoje falamos de talento, QI, disrupção ou superioridade técnica. O resultado, porém, é semelhante: poucos decidem, muitos obedecem. Poucos beneficiam, muitos absorvem os custos. A desigualdade deixa de ser um problema político e passa a ser um fator de custo no progresso.

As grandes plataformas digitais são laboratórios desta lógica. Um pequeno grupo de executivos e acionistas define arquiteturas de poder que condicionam o acesso à informação, a visibilidade pública, as relações sociais e, cada vez mais, os processos democráticos. Milhares de milhões de pessoas estão sujeitas a sistemas opacos e não negociáveis, explicitamente concebidos para maximizar a mineração de dados e a rentabilidade. A transformação da X, anteriormente Twitter, sob o controlo de Elon Musk, é um exemplo particularmente revelador: uma plataforma deliberadamente transformada numa placa de Petri para a radicalização política, onde os algoritmos são utilizados para espalhar conflitos e assediar pessoas, onde a desinformação não é uma falha do sistema, mas uma estratégia consciente apresentada como uma «defesa da liberdade de expressão». A responsabilidade é diluída, os danos são uma «externalidade» e a desumanização é normalizada como uma forma de eficiência operacional.

O caso da Palantir leva essa concepção à sua expressão mais crua. O seu modelo baseia-se numa visão instrumental das pessoas como dados a serem processados, correlacionados e explorados. Tornamo-nos variáveis, parte de mapas de risco, com o nosso comportamento a ser previsto. A empresa não esconde as suas ligações aos aparelhos militares e policiais, nem o seu desprezo por qualquer debate ético que interfira na expansão dos seus sistemas. É a lógica do controlo total envolta na linguagem asséptica da engenharia.

Este ecossistema não se limita à esfera empresarial: está cada vez mais interligado com um complexo militar-digital onde convergem vigilância, armamento, IA e plataformas privadas, no qual podemos enquadrar, por exemplo, a expansão vertiginosa do ICE por Donald Trump durante o seu segundo mandato. A promessa de segurança serve para justificar uma expansão paramilitar sem precedentes de tecnologias intrusivas, enquanto a fronteira entre o público e o privado é deliberadamente esbatida. O resultado é uma infraestrutura de poder difícil de conciliar com sociedades abertas.

O libertarianismo tecnológico desempenha aqui um papel fundamental como mecanismo de branqueamento moral. Ao apresentar decisões profundamente políticas como simples resultados de mercado ou inevitabilidades técnicas, permite que o poder seja exercido sem assumir responsabilidade democrática. «O algoritmo decide», «o mercado corrige», «a tecnologia é neutra»: fórmulas que lembram assustadoramente as antigas justificações para a desigualdade, quando esta era apresentada como uma suposta «ordem natural». A diferença é que agora a hierarquia não se baseia na raça, mas em dados, capital e controlo da infraestrutura. Assim como o apartheid justificou a sua violência estrutural em nome da eficiência e estabilidade económicas, a eficiência algorítmica contemporânea é usada para legitimar a exclusão, a vigilância e a amplificação dos danos sociais: o que otimiza as métricas não precisa justificar as suas consequências humanas.

Vale a pena acrescentar um elemento que reforça a relevância da análise: a influência extraordinária e desproporcional que este pequeno grupo de pessoas com origens ou formação na África do Sul do apartheid e que caracterizam em grande parte a diáspora sul-africana e a Mafia do PayPal exerce no Vale do Silício. Não se trata apenas de histórias de sucesso individuais, mas de uma densa rede de capital, ideologia e capacidade executiva que definiu a cultura tecnológica dominante. Essas pessoas definem que empresas recebem financiamento, além de normalizar discursos abertamente antidemocráticos, moldando um ecossistema onde a concentração de poder, a tolerância ao dano social e o desprezo pelos freios e contrapesos institucionais são celebrados como evidência de confiança e visão.

Obviamente, não estamos a falar do único fator. Focar numa constelação específica, a órbita sul-africana da Mafia do PayPal, para esclarecer um aspeto pouco discutido do atual ecossistema tecnológico, não nega que haja, naturalmente, várias outras genealogias igualmente válidas (como a financeirização, o capitalismo de vigilância e as soluções tecnológicas) que poderiam e deveriam ser analisadas para completar adequadamente o panorama. Não pretendo explicar ou atribuir todos os males do Vale do Silício ao facto de algumas das suas figuras proeminentes terem crescido na África do Sul do apartheid, mas situo claramente uma de suas origens.

Vale a pena enfatizar algo essencial: o contexto não é automaticamente o fator determinante. Milhões de pessoas cresceram sob o apartheid e não desenvolveram visões de mundo autoritárias. No entanto, quando vários atores com poder desproporcional compartilham contextos formativos marcados pela normalização da desigualdade e acabam promovendo sistemas tecnológicos que concentram o poder, corroem a democracia e desumanizam a sociedade, a questão torna-se essencial. Obviamente, o risco é transformar a biografia sul-africana de Musk, Thiel, Sacks ou Botha numa «explicação total» determinista, mas, em vez de provar uma causalidade linear, estou apenas a destacar a ressonância entre uma cultura política aprendida num ambiente de hierarquia extrema e certas formas atuais de exercer o poder tecnológico, apontando para um padrão sugestivo que merece uma investigação mais aprofundada.

Não se trata de fazer julgamentos morais individuais ou construir teorias da conspiração, mas de identificar padrões estruturais. Entender por que a tecnologia que nos é apresentada como emancipatória acaba, com frequência alarmante, reforçando dinâmicas de dominação, vigilância e exclusão. Se continuarmos a tratar estes resultados como desvios acidentais, continuaremos a ser surpreendidos (e parecer desarmados) por eles.

Talvez tenha chegado o momento de aceitar que muitos dos problemas do ecossistema tecnológico não são falhas de implementação, mas sim consequências lógicas de uma visão do mundo que desconfia da igualdade, que despreza a deliberação democrática e que concebe as pessoas como meios e não como fins. Somente questionando essas raízes ideológicas podemos aspirar a uma tecnologia que seja verdadeiramente compatível com sociedades livres, pluralistas e humanas. E se esse modelo nos deixa desconfortáveis quando olhamos para o passado do apartheid na África do Sul ou seus descendentes diretos, ele deve deixar-nos ainda mais desconfortáveis quando vemos que, infelizmente, é ele que governa as nossas atuais infraestruturas digitais.