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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

FRANÇA: LAGO SECA APÓS CALOR RECORDE

  • O pitoresco Lac des Brenets, situado entre a França e a Suíça, secou após um verão de calor recorde, levando os habitantes locais a apelarem à ajuda para salvar o lago. Fonte.
  • Agentes fronteiriços armados detêm manifestantes e derrubam uma árvore com 200 anos para construir o muro fronteiriço. Apesar de pelo menos 10 detenções e da destruição da árvore que estava no centro do protesto, o impasse continua. Fonte.
  • A descoberta e futura exploração do gigantesco campo petrolífero Sea Lion, ao largo das Falklands, reacendeu a disputa entre o Reino Unido e a Argentina: Londres apoia o projeto liderado pela britânica Rockhopper, enquanto Buenos Aires o considera ilegal por ocorrer numa área que reivindica como sua. O potencial multibilionário do petróleo aumenta as tensões históricas sobre a soberania das ilhas, ao mesmo tempo que suscita críticas ambientais e receios de que a exploração aprofunde ainda mais o conflito diplomático. Fonte.

REFLEXÃO

ÀS VEZES, ESQUECEMO-NOS DE ONDE VIEMOS.

Bairro da Minhoca, 1938.

Há cem anos, nas traseiras do Hospital do Rego e da estação de comboio, foi captada a mais antiga fotografia que conheço de um bairro clandestino que então começava a ganhar volume.

Sem regras nem dinheiro, cada um construía a sua casa no pequeno monte que hoje corresponde às traseiras da rua da Beneficência. Chamaram-lhe o Bairro da Minhoca ou das Minhocas porque em várias habitações a entrada só podia ser feita a rastejar. As imagens da colecção de O Século são eloquentes: em década e meia, boa parte da elevação já estava preenchida num bairro sem ruas, onde os esgotos corriam a céu aberto… a 500 metros dos palacetes da Avenida da República.

Os mais afortunados ocupavam as casas do novo bairro do Rego (onde Francisco Paula, o Pavel, viria a ser detido pela polícia numa tipografia clandestina).

A partir de 1937, o tema esteve sempre na agenda camarária e há várias fotos de visitas oficiais ao local e de promessas de realojamento. Em 1939, ocorreram as primeiras demolições e, em 1942, o bairro estava finalmente deitado abaixo e os habitantes realojados em Telheiras.

Há um século, Lisboa também era assim. Às vezes, esquecemo-nos.

BICO CALADO

Denver Post
  • Três anos do 7 de Outubro: "A desproporção é flagrante". Miguel Szymanski, rfi.
  • Apenas 37% dos israelitas acreditam que o seu país venceu a guerra na Faixa de Gaza, enquanto 63 por cento acreditam que um ataque semelhante ao de 7 de outubro de 2023 poderá voltar a ocorrer, de acordo com uma sondagem de opinião israelita publicada pelo Canal 13 de Israel. Fonte.
  • Um dos principais conselheiros do embaixador dos EUA em Israel tem sistematicamente ocultado, atrasado e reescrito telegramas diplomáticos internos para proteger o governo do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu do escrutínio de Washington, de acordo com uma investigação baseada em entrevistas a mais de uma dúzia de funcionários norte-americanos e na análise de registos internos do Departamento de Estado. Fonte.
  • “(…) Com esta matéria-prima, ser democrata é ser seguidor. Ser seguidor é considerar infiel quem não segue. Quem não segue não pertence e quem não pertence é inimigo. Para inimigo há uma ementa diversa: ódio, esquecimento, ridicularização, comiseração, inferioridade. Mas tudo isto é administrado com muita vaselina de piadas, testemunhos, música leve e, se possível, muita cor e muita velocidade. Pensar é parar e parar é extraviar-se do rebanho. O rebanho é o caminho que não se faz a caminhar pela simples razão de que já está feito. (…)” Boaventura Sousa Santos, As eleições no Brasil: pensar o impensável – A viagem dos argonautas.
  • Um ex-presidente, dois ex-diretores e mais sete arguidos foram acusados pelo Ministério Público por alegadamente terem delineado, entre 2015 e 2017, um plano para manipular a adjudicação de obras na Águas de Gaia, empresa municipal do universo da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. O alegado plano passava pela realização de obras por ordem verbal em vários arruamentos, acompanhadas por funcionários da empresa municipal, sendo posteriormente criados procedimentos de contratação para garantir o pagamento às empresas. O Ministério Público sustenta que esses procedimentos eram instruídos com dados genéricos, dificultando a fiscalização, e que as intervenções eram artificialmente divididas para permitir o recurso a procedimentos não concorrenciais. A acusação aponta ainda para a alegada manipulação dos preços unitários das propostas apresentadas pelas empresas, com a indicação de valores considerados irrisórios para garantir a adjudicação das empreitadas. A acusação refere também a utilização de diferentes empresas do mesmo empresário para contornar limites legais aplicáveis a procedimentos sem concorrência. Maré Viva 7Out2026.
  • Chamar os 'boys' pelos nomes. Miguel Szymanski resume a análise da conferência de imprensa da dupla Rubio&Rangel.




LEITURAS MARGINAIS

A SOMBRA DE BALFOUR: ENFRENTANDO UM SÉCULO DE MEMÓRIA SELETIVA
Dr Mustafa Fetouri, MEM. Rev. O’Lima.

Uma fotografia datada de antes de 1937, durante o Mandato Britânico na Palestina, mostra árabes a manifestarem-se na Cidade Velha de Jerusalém contra a imigração judaica europeia para a Palestina [-/AFP via Getty Images]

À medida que se aproxima o aniversário, a 2 de novembro de 1917, da infame Declaração Balfour, recordamos a promessa fatídica feita pelo governo britânico que viria a definir grande parte da história da Palestina desde então. Oito anos após a emissão da infame promessa do seu governo de estabelecer um «lar nacional» judeu na Palestina — promessa que mais tarde evoluiria para o atual Estado de Israel —, Arthur Balfour visitou a Palestina pela primeira vez na primavera de 1925. Foi recebido pela população árabe, que constituía a esmagadora maioria na altura, com uma onda de protestos ferozes e greves gerais. Reconheceram com clareza que o que ele tinha posto em marcha em 1917 era o primeiro prego estrutural cravado pela Grã-Bretanha — que na altura governava a Palestina ao abrigo de um mandato imperial da Liga das Nações — no corpo da Palestina e do seu povo indígena, dando início a um processo catastrófico de deslocalização que se prolonga até aos nossos dias.

Perante a multidão, durante a cerimónia de inauguração da Universidade Hebraica de Jerusalém, Balfour proclamou, sem pestanejar, o nascimento de uma nova ordem, afirmando: «Começou uma nova época na Palestina, cuja anterior já tinha chegado ao fim há tantas centenas de anos.» Essa declaração grandiosa — que ignorava por completo a população árabe viva e real que assistia à cena — refletia uma mentalidade aristocrática e colonial totalmente alheia às realidades quotidianas de um povo que já começava a temer pela sua pátria e pela própria sobrevivência.

O próprio texto da Declaração Balfour de 1917 expõe a fragilidade de um dos mitos propagandísticos mais duradouros da história moderna: o desgastado slogan colonial de que a Palestina era simplesmente «uma terra sem povo para um povo sem terra». Se a Palestina fosse realmente um espaço vazio, o governo britânico não teria tido qualquer motivo jurídico ou diplomático para incluir a cláusula específica de que «nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina». Ao reconhecer explicitamente a maioria árabe indígena — mesmo que deliberadamente a reduzisse a «comunidades não judaicas» sem nome, para contornar os seus direitos políticos e nacionais —, a própria linguagem de Balfour refuta inadvertidamente o mito de uma terra vazia. Durante décadas, a máquina de propaganda de Israel baseou-se fortemente nesta invenção para justificar a deslocalização, embora o crescente escrutínio histórico e a consciência global moderna tenham, felizmente, tornado este argumento cada vez mais vazio de sentido.

De Jerusalém, Balfour seguiu para Damasco, onde as manifestações populares contra ele se intensificaram a tal ponto que as multidões apedrejaram o seu hotel, eclodiram confrontos com as forças de segurança e ele foi obrigado a encurtar a sua visita.

Incapaz de proferir discursos em segurança ou de cumprir o seu itinerário, teve de fugir sob forte escolta para escapar à onda avassaladora de fúria árabe que se espalhava pela Palestina, pela Síria e por todo o Levante.

Hoje, a Grã-Bretanha moderna parece estar a tentar — ainda que tardiamente e de forma inconsistente — fazer face ao legado catastrófico que desencadeou há mais de um século. Durante mais de cem anos, desde a Declaração de 1917, os sucessivos governos do Reino Unido mantiveram um duplo padrão inflexível: garantiam rigidamente a segurança, a superioridade militar e a proteção diplomática de Israel, enquanto tratavam a criação de um Estado palestiniano como uma abstração distante. Durante décadas, Londres resistiu a qualquer ideia de obrigar Israel a aceitar um verdadeiro Estado palestiniano, fechou os olhos à negação contínua do regresso dos refugiados — algo que o bom senso exigiria — e protegeu sistematicamente os líderes israelitas da responsabilização internacional pelas expropriações ilegais de terras e pelasdeslocalizações sistemáticas.

No entanto, sob a pressão pública implacável e o peso insuportável das catástrofes humanitárias que se desenrolam, essa armadura de complacência diplomática está finalmente a começar a rachar. Ninguém espera uma revolução da noite para o dia em Whitehall, mas a postura subjacente está a mudar. Embora Londres tenha, historicamente, reduzido o seu compromisso com a solução de dois Estados a meras declarações vazias, a realidade política moderna obrigou a uma reflexão mais profunda — culminando em medidas formais no sentido da criação de um Estado palestiniano e numa crescente disposição para contestar os colonatos ilegais.

Ao mesmo tempo, o panorama político interno do Reino Unido sofreu uma transformação estrutural. No seio do Partido Trabalhista, anos de intensa pressão popular tornaram os direitos palestinianos um elemento central da sua plataforma eleitoral, com inúmeros candidatos a disputarem lugares explicitamente com plataformas pró-palestinianas. Após o seu regresso ao poder e, em particular, sob a liderança do novo primeiro-ministro, Burnham, o governo tomou medidas políticas concretas — proibindo a importação de bens provenientes de colonatos ilegais na Cisjordânia, penalizando a expansão dos colonatos e aplicando sanções específicas contra colonos extremistas —, marcando uma viragem restritiva contra o empreendimento colonial que os governos seguintes terão dificuldade política em reverter.

Esta mudança de paradigma atingiu o seu auge de forma dramática quando o Partido Verde do Reino Unido adotou formalmente uma posição política histórica que define o sionismo como uma forma de racismo. Aprovada por maioria na sua conferência da semana passada, a moção caracteriza explicitamente o sionismo como uma ideologia etnonacionalista que privilegia um grupo em detrimento de outro através da deslocalização, ao mesmo tempo que apoia um único Estado democrático em toda a Palestina histórica, um embargo total de armas e o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Embora tenha provocado divisões acentuadas entre os seus próprios deputados e uma condenação veemente por parte das organizações da comunidade judaica, esta medida quebra antigos tabus em Westminster, trazendo a ideologia fundadora do Estado israelita diretamente para a arena do debate político britânico dominante.

Na linguagem atual, se a Grã-Bretanha moderna está verdadeiramente empenhada em romper com o seu passado colonial, não pode continuar a aplicar seletivamente a Declaração de Balfour. A verdadeira responsabilização exige que o governo britânico implemente a declaração na sua totalidade — honrando não só o compromisso com um «lar nacional» judeu, mas cumprindo a obrigação moral e jurídica fundamental de salvaguardar a população indígena, um dever que a Grã-Bretanha tem evitado há mais de um século.

Respeitar a Declaração de Balfour implica aderir estritamente ao que o próprio documento estipulou explicitamente: que «fique bem entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas já existentes na Palestina».

Durante mais de cem anos, Londres utilizou a primeira parte do texto como arma, enquanto ignorava a segunda; a verdadeira integridade significa respeitar ambas.

Há mais de um século que a Grã-Bretanha trata a sua promessa fundamental à Palestina como uma cláusula em letras pequenas a ser ignorada. Enquanto o governo britânico não alinhar as suas mudanças retóricas com todo o peso das suas obrigações históricas — garantindo que os direitos e a autodeterminação dos palestinianos sejam finalmente concretizados —, a sombra de 1917 continuará a definir a posição moral da Grã-Bretanha no mundo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PENÍNSULA IBÉRICA: ENERGIAS RENOVÁVEIS ESTIMULAM EXPANSÃO DE CENTROS DE DADOS

  • Os abundantes recursos solares e eólicos e as oportunidades de ligação à rede elétrica têm impulsionado um forte crescimento no desenvolvimento de centros de dados em Espanha e Portugal. A Península Ibérica representará cerca de 11,5 % da capacidade instalada de centros de dados na Europa até 2030, um aumento em relação aos 5,8 % previstos para 2025, de acordo com o grupo de investigação Rystad Energy. Prevê-se que a capacidade dos centros de dados em Espanha quadruplique nos próximos cinco anos, atingindo 3,9 GW em 2030, registando o segundo maior aumento em termos absolutos na Europa, atrás apenas do Reino Unido. Portugal crescerá mais rapidamente do que qualquer outro país, chegando a instalar mais de 1 GW de capacidade de centros de dados até ao final da década, prevê a Rystad Energy. Fonte.
  • Um grupo comunitário australiano venceu o primeiro processo relacionado com as alterações climáticas a ser apreciado pelo supremo tribunal do país, tendo os juízes confirmado a decisão de impedir a prorrogação por duas décadas da exploração de uma mina de carvão no estado de Nova Gales do Sul. A MACH Energy pretendia prolongar a vida útil da sua mina de Mount Pleasant, cuja exploração está prevista terminar em dezembro deste ano, até 2048 e duplicar a sua produção de carvão. A expansão teria permitido a extração de mais 406 milhões de toneladas de carvão. Fonte.
  • Cabul está a caminho de se tornar a primeira cidade moderna a ficar sem água, o que poderá acontecer já em 2030, de acordo com um relatório recente da organização sem fins lucrativos Prosper Global. Mas esta crise hídrica urbana em espiral que não se limita a Cabul. Cidades em todo o mundo — desde Corpus Christi, no Texas, até Teerão, a capital do Irão — estão à beira de uma escassez de água tão grave que os residentes se preparam para um «dia zero», o momento em que as torneiras secam em grande parte da cidade. Fonte.
  • Os painéis solares têm (mais um) efeito secundário surpreendente: impedem as tempestades de poeira de avançarem. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Anadolu/Getty Images
  • ”Espinho encurta ainda mais a distância entre aviso e repetição. Num processo anterior, o Tribunal recomendara ao município que os modelos de avaliação das propostas respeitassem as regras do Código e permitissem uma diferenciação efetiva entre concorrentes. No concurso seguinte, para refeições escolares durante três anos e no valor de 4,56 milhões de euros, voltou a encontrar um modelo censurável. Em Novembro de 2024, antes de decidir, o Tribunal devolveu o processo à Câmara e pediu-lhe expressamente que justificasse ‘o não acatamento das recomendações’ anteriores. O Acórdão n.º 3/2025 acabou por recusar o visto.’” Fonte.
  • Cascais compra 264 mil euros em apitos, lanternas e outras ‘bugigangas chinesas’ a empresa que lucrou milhões na pandemia. Fonte.
  • Neta de Cavaco Silva comete crime de desobediência ao recusar cumprir deliberação da ERC. Fonte.
  • “Os jornalistas portugueses do Expresso e do Público deviam ter percebido a piada mais importante antes de embarcarem: quando uma embaixada oferece a viagem para mostrar como um país respeita a liberdade de imprensa, o primeiro acto de jornalismo consiste em perguntar por que razão a embaixada quer tanto pagar ou facilitar essa demonstração. (…) Por umas centenas de euros, a diplomacia sérvia conseguiu três marcas portuguesas dentro do estúdio onde um humorista afastado da televisão demonstrava ao mundo que ainda podia falar.” Fonte.
  • Uma avaliação secreta da CIA alertou que Israel corre o risco de cair numa guerra civil ou nm colapso político, num contexto de crescentes divisões políticas, económicas e sociais, após anos de guerras em Gaza, no Líbano e no Irão. Fonte.
  • Um estudo do Exército revelou que as luvas de choque causavam «dor intensa» e aterrorizavam as vítimas — e, mesmo assim, o ICE encomendou 6 000 pares delas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O FUTEBOL PROFISSIONAL É UM VENENO?
Pedro Tadeu, DN 2Out2026


O futebol profissional fornece às televisões e às redes sociais uma sucessão interminável de conflitos, declarações, especulações e insultos. Tudo muito apaixonante, hipocritamente comercial e quase sempre irrelevante para as nossas vidas. A saída de Cristiano Ronaldo do estágio da seleção nacional confirma isso.

O futebol profissional exalta o culto da vedeta. A celebração dos milhões ganhos pelos grandes futebolistas normaliza a aceitação de desigualdades extraordinárias e desproporcionadas. A notícia da Forbes que estima que Ronaldo ganhou 300 milhões de dólares, só no último ano, confirma isso.

O futebol profissional ajuda a criar uma horda de milhões de viciados em apostas. Um relatório da Organização Mundial de Saúde, que associa esta questão a endividamento, pobreza e problemas familiares, confirma isso.

Em Portugal, no segundo trimestre de 2026, o futebol representou 69,9% do volume das apostas desportivas online que geraram 125,1 milhões de euros de receita bruta para os seus donos.

O futebol profissional é aproveitado por fascistas e traficantes. O facto de em 20 de janeiro de 2026 a operação Irmandade ter detido 37 suspeitos ligados aos nazis do Grupo 1143, que tem antecedentes numa fação da Juventude Leonina, por suspeitas de crimes de ódio e violência, confirma, mais uma vez, isso. Os problemas com racismo, violência organizada e tráfico de droga, que se repetem em quase todos os jogos e em todo o mundo, comprovam também essa infiltração.

O futebol profissional é cada vez mais para ricos ou especuladores e menos para pobres ou remediados; é mais para criminosos do que para gente honrada. As negociatas deste mundo à parte ilustram isso.

Em abril de 2026 a FIFA colocou à venda bilhetes da categoria mais cara para a final do Mundial a 10.990 dólares. As assinaturas para ver futebol na TV atingem valores cada vez mais elevados. Os bilhetes para jogos importantes também.

Um relatório da UEFA revela que os clubes ingleses, os mais ricos do mundo, estiveram envolvidos em 52% do valor mundial das transferências deste verão.

Segundo a FIFA, entre janeiro e o início de dezembro de 2025 os clubes pagaram 1,37 mil milhões de dólares a agentes, mais de 90% acima do ano anterior.

Há dias uma comissão independente considerou o Manchester City responsável por graves violações financeiras (o clube recorreu), incluindo contratos fictícios que alteraram receitas e custos em mais de 900 milhões de libras.

Em 9 de dezembro de 2025 a polícia argentina fez buscas na federação e em vários clubes numa investigação relacionada com a Sur Finanzas, suspeita de branqueamento e evasão fiscal.

Em junho passado uma operação conjunta da polícia e da comissão anticorrupção de Hong Kong deteve 19 pessoas, incluindo treinadores e jogadores, por suspeitas relacionadas com apostas ilegais e suborno para manipular partidas locais.

Em 2023, na operação El Dourado, feita numa academia de futebol para miúdos em Famalicão, a polícia encontrou 47 alegadas vítimas de tráfico de pessoas, incluindo 36 menores a quem tiraram os documentos de identificação.

O futebol até já deu um prémio da paz a Donald Trump! E revelou-nos a retórica brutal de André Ventura.

Tanta coisa que, todos os dias, confirma o veneno social em que o futebol profissional se transformou – e não, não aprofundo aqui mais casos portugueses porque, sinceramente, tenho amor à pele e o futebol, que já foi o desporto mais belo do mundo, agora mete medo…

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ESMORIZ: CENTENAS DE PEIXES APARECEM NO AREAL APÓS ABERTURA DA BARRINHA

  • Centenas de pequenos peixes apareceram no areal da Praia de Esmoriz, junto à Barrinha, depois da abertura da ligação da lagoa ao mar. Os peixes serão exemplares de perca-sol, uma espécie exótica invasora associada a massas de água doce e de corrente reduzida. Além dos peixes, quem percorreu a praia encontrou também numerosos exemplares de lesmas-do-mar, conhecidas localmente como “vinagreiras”, igualmente espalhados pela areia. Fonte.
  • Um trabalhador de 55 anos morreu na sequência de um acidente de trabalho na CS Wind, empresa instalada na Gafanha da Nazaré, Aveiro, dedicada à produção de torres eólicas e estruturas metálicas. O trabalhador foi prensado por uma chapa de aço utilizada no fabrico de componentes eólicos, entrando em paragem cardiorrespiratória. As equipas de socorro tentaram reanimá‑lo, mas o óbito foi declarado no local. Fonte.

REINO UNIDO: REFINARIA DE STANLOW ACUSADA DE DERRAMES SUCESSIVOS

  • Uma das maiores refinarias de petróleo do Reino Unido causou derrames poluentes nos rios locais e no estuário do Mersey em dezenas de ocasiões em 2023 e 2024. A EET Fuels, anteriormente conhecida como Essar, que gere a refinaria de Stanlow, declarou-se culpada este ano de 12 acusações de violação da legislação ambiental entre 2018 e 2020. No entanto, documentos obtidos por jornalistas de investigação da SourceMaterial descrevem outras infrações cometidas pela refinaria em Ellesmere Port, Cheshire, com derrames regulares de produtos químicos tóxicos e petróleo nos cursos de água e até mesmo nas águas subterrâneas. Fonte.
  • Com uma campanha baseada no enfraquecimento da fiscalização e da proteção da floresta, o senador Flávio Bolsonaro (PL) dominou a votação do 1º turno das eleições presidenciais no último domingo (4/10) nos municípios que mais desmataram na Amazônia Legal na última década. Um levantamento da Sumaúma mostra que Flávio foi o mais votado em oito dos dez municípios com os maiores índices de desmatamento da região desde 2016. Em alguns locais, ele recebeu mais de 80% dos votos.

REFLEXÃO

O MINISTÉRIO DO AMBIENTE NÃO EXISTE
Paulo Constantino, Movimento Pelo Tejo.


Há uma pergunta que ninguém faz em voz alta: quem defende o rio? Não o rio como recurso, não como reservatório de energia, nem como fonte de água para o regadio intensivo, nem como linha de fronteira entre dois países que negoceiam mínimos em salas fechadas, mas o rio como ecossistema, como habitat, como Vida. A resposta oficial seria o Ministério do Ambiente e Energia, mas é precisamente aí que reside a contradição que o rio Tejo carrega atualmente nas suas margens: o ministério que devia defender o rio é o mesmo que tutela a produção hidroelétrica que o impede de fluir e que supervisiona a estratégia hídrica que distribui a água do rio pela agricultura intensiva antes de a oferecer ao ecossistema. Isto tem um nome, chama-se conflito de interesses estrutural, e não é uma acusação, é uma descrição.

O Ministério que não é do Ambiente

Em Portugal, o Ministério do Ambiente e Energia tem, materialmente, um centro de gravidade deslocado para longe do ambiente: a energia é o eixo dominante das suas medidas — eletrificação, reforço de redes, armazenamento, segurança de abastecimento —, a água constitui o segundo eixo, com forte ligação a objetivos de segurança hídrica e de suporte ao regadio, e a conservação ecológica, a biodiversidade fluvial, o bom estado ecológico das massas de água exigido pela lei europeia surgem na linguagem oficial, mas raramente com instrumentos concretos de implementação: estão na retórica, não estão no orçamento.


O resultado é previsível, tendo aliás sido previsto pela própria Comissão Europeia que, em maio de 2026, admitiu por escrito que a não definição de caudais ecológicos «conduz previsivelmente ao incumprimento do Bom Potencial Ecológico» — previsivelmente, a palavra está escrita numa carta oficial, a Comissão sabe, o ministério sabe, e o incumprimento continua, porque o que isto significa em termos concretos é que a Iberdrola decide quando a água do Tejo flui e que o preço da energia no mercado ibérico é o que dita, na prática, o regime hidrológico do maior rio da Península Ibérica.

Os Números que o Rio Regista

Não é uma teoria, são dados registados pela Agência Portuguesa do Ambiente na albufeira do Fratel, o primeiro ponto de monitorização em território português a jusante da barragem de Cedillo: no ano hidrológico de 2025/2026, registaram-se cinco dias de caudal zero proveniente de Espanha, catorze dias com caudal médio diário abaixo de um hectómetro cúbico — o mínimo diário acordado na revisão de 2024 da Convenção de Albufeira — e um caudal máximo de 4.863 metros cúbicos por segundo, o mais elevado de toda a série histórica. Num único ano hidrológico: caudal zero e caudal máximo histórico, o que não é uma anomalia climática, mas o retrato fiel da gestão.

As consequências humanas deste padrão têm rosto: em maio de 2022, uma jovem de 16 anos desapareceu no rio Tejo em Abrantes depois da subida repentina do nível das águas enquanto se banhava, e em junho de 2026, um homem de 38 anos teve de ser resgatado pelos Bombeiros de Abrantes depois de adormecer num banco de areia no meio do rio com o caudal baixo e acordar rodeado de água, sem forma de regressar a terra. A ocorrência foi descrita como evidenciando os perigos dos caudais variáveis, acrescentando-se que, na zona de Abrantes, o nível da água pode sofrer alterações significativas em curtos períodos devido às descargas efetuadas pelas barragens a montante — e esta é precisamente a descrição de um fenómeno ao qual a ciência e o direito europeu deram nome e solução há vinte e seis anos.

Os dados históricos confirmam que este não é um problema novo nem episódico: desde 1998 registaram-se 650 dias com caudal abaixo de um hectómetro cúbico e 59 dias de caudal zero, numa média de 24 dias por ano em que o rio internacional simplesmente não flui, sendo que no ano hidrológico de 2025/2026, que acabou de terminar, se observa um agravamento da tendência com os dias de caudal zero e os dias abaixo do mínimo a triplicarem face ao ano anterior, respetivamente, +150% e +180%, o que demonstra que a revisão de 2024 da Convenção de Albufeira, que introduziu um caudal mínimo diário, chegou tarde e já não chega.

A Convenção que Chegou Tarde e Já Não Chega

A Convenção de Albufeira foi assinada em 1998, dois anos antes da Diretiva-Quadro da Água, e os caudais mínimos que estabeleceu foram fixados com critérios político-administrativos e não científicos — representam o resultado de uma negociação diplomática entre dois Estados que queriam minimizar as obrigações mútuas e não responder às necessidades do ecossistema —, pelo que, vinte e oito anos depois ainda está em vigor o regime transitório que deveria ter durado apenas até à implementação de caudais ecológicos. A revisão de 2024 introduziu um caudal mínimo diário — um passo que à época afirmámos que não resolvia o problema da variabilidade de caudais ao longo do dia —, sendo que esse mínimo não foi cumprido catorze vezes em menos de doze meses, mantendo-se a estrutura profunda do problema: a Convenção permite que 63% do caudal anual seja descarregado com total liberdade temporal, o que significa que a barragem pode cumprir a letra do acordo e ao mesmo tempo gerir essa água exclusivamente em função do preço da energia.

A incoerência científica está documentada e é grave: no Plano Hidrológico de Espanha de 2022/2027, os «caudais ecológicos» definidos para Cedillo são uma réplica exata dos caudais mínimos da Convenção de Albufeira de 1998 — fixados por critérios políticos, sem qualquer aplicação dos procedimentos científicos exigidos pelo Documento de Orientação n.º 37 da Comissão Europeia, que estabelece oito passos obrigatórios para a definição do Bom Potencial Ecológico em massas de água fortemente modificadas. A Comissão não verificou esta incongruência ao apreciar a denúncia, mas o proTEJO documentou-a e, ainda assim, a Comissão encerrou a denúncia, num padrão que se repete com uma regularidade que tem tanto de burocrático como de revelador.

A Estratégia «Água que Une» e a Água que Divide

Ao mesmo tempo que o rio Tejo regista dias de caudal zero e o ecossistema se degrada, o Governo português apresenta a estratégia «Água que Une» como resposta à crise hídrica — novas barragens, novos transvases ou interligações entre bacias, reforço da disponibilidade hídrica —, mas a pergunta que esta estratégia não responde é: disponibilidade para quê? A análise dos documentos técnicos é clara: para usos consumptivos e reforço do regadio. A barragem do Alvito e o projeto de açude no rio Tejo em Constância/Praia do Ribatejo propostos pelo Governo — cerca de dois mil milhões de euros — e os novos açudes de Abrantes a Lisboa pretendidos pelo “Projeto Tejo” — cinco mil milhões de euros — representam enormes verbas a serem pagas pelos contribuintes que vão ser desperdiçadas em obras para regularizar com água portuguesa os caudais que chegam de Espanha de forma irregular, isto é, milhares de milhões para compensar o que a implementação de caudais ecológicos em Cedillo resolveria sem custo adicional.

A lógica é perversa: em vez de implementar caudais ecológicos numa barragem já existente — medida tecnicamente viável, juridicamente obrigatória e sem significativo custo público adicional —, propõe-se gastar milhares de milhões em obras que servem a agricultura intensiva e aprofundam a fragmentação do rio que se diz querer proteger.

Quem beneficia com isto não é o rio Tejo, não são as populações ribeirinhas que perderam a lampreia e os festivais gastronómicos, não são os agricultores de Abrantes e Constância que continuam dependentes dos humores da Iberdrola, mas os grandes utilizadores agrícolas da Lezíria e do Oeste e as concessionárias hidroelétricas que continuam a gerir a água como mercadoria, ou seja, os beneficiários de curto prazo, porque no longo prazo ninguém vai ganhar com isto, pelo que a estratégia «Água que Une» é, na sua estrutura, a continuação do mesmo modelo que produziu os 59 dias de caudal zero, apenas com mais betão e mais gastos públicos.

O Conflito que Não Se Nomeia

Há uma palavra que raramente aparece no debate público sobre o rio Tejo — conflito de interesses —, não como acusação de corrupção nem como julgamento de intenções, mas como descrição rigorosa de uma arquitetura institucional: o mesmo ministério que tutela o ambiente tutela a energia, e a produção hidroelétrica paga impostos, contribui para as metas europeias de energias renováveis e tem lobbies com acesso direto ao poder, enquanto os caudais ecológicos reduzem a flexibilidade operacional das barragens e diminuem a produção nos picos de preço, pelo que, quando as duas lógicas se confrontam no mesmo despacho ministerial, o resultado tem sido sistemático e documentado ao longo de vinte e oito anos: ganha a energia.

«A classificação global mais robusta é a de uma tutela predominantemente orientada para energia e gestão da água, com incidência agrícola indireta, mas relevante, e com uma componente ambiental que tende a ser funcionalizada por objetivos de transição, segurança de recursos e infraestrutura.»

Esta descrição da tutela do ambiente, com uma frieza que a comunicação política nunca ousaria fazer, expressa de forma elegante que o ambiente existe para justificar outras prioridades, não como fim em si mesmo.

O Que Podia Ser Diferente

Há uma opção que não figura na agenda, não porque seja tecnicamente impossível, mas porque contraria simultaneamente os interesses da Iberdrola e os interesses do regadio intensivo: implementar caudais ecológicos na barragem de Cedillo. Não é uma proposta nova, visto que integra a Diretiva-Quadro da Água desde o ano 2000, a Convenção de Albufeira desde 1998 no regime transitório que nunca acabou e os Planos de Gestão da Região Hidrográfica do Tejo como objetivo formalmente assumido e sistematicamente adiado, sendo tecnicamente viável, os próprios planos confirmam que não existe inviabilidade técnica nem impacto socioeconómico negativo identificado, e não exigindo fundos públicos, mas apenas vontade política e a disposição de contrariar quem da ausência de caudais ecológicos retira lucro.

A implementação de caudais ecológicos evitaria milhares de milhões de euros em obras, evitaria os 650 dias de caudal insuficiente, evitaria o desaparecimento da lampreia e o cancelamento dos festivais de peixe do rio em Mação e Vila Nova da Barquinha, evitaria os blooms de cianobactérias que fecham praias fluviais e produzem toxinas prejudiciais à saúde pública e evitaria resgates de bombeiros em bancos de areia subitamente inundados pois a opção existe, a solução é conhecida e a lei europeia exige-a há vinte e seis anos, pelo que o facto de não ter sido implementada não é uma falha de conhecimento técnico, mas uma escolha política.

Uma Última Pergunta

Vinte e oito anos de Convenção de Albufeira e vinte e seis anos de Diretiva-Quadro da Água, dois ciclos completos de planos de gestão de bacia, trinta e uma organizações portuguesas e espanholas a assinar uma denúncia formal à Comissão Europeia, duzentas e cinquenta e sete notícias na comunicação social ibérica, uma resposta da Comissão que admite o problema e recusa atuar, e ainda assim: cinco dias de caudal zero em dozes meses, um máximo histórico de 4.863 metros cúbicos por segundo e um homem resgatado de um banco de areia no rio Tejo em junho de 2026 — quando as variáveis são estas e os resultados se repetem, há uma pergunta que não pode continuar sem resposta.

Quem defende o rio? Enquanto o Ministério do Ambiente continuar a ser, materialmente, o Ministério da Energia e da Agricultura, a resposta é a mesma de há vinte e oito anos: somos nós — as organizações, os cidadãos, as populações ribeirinhas, os pescadores sem lampreia, os agricultores dependentes da boa vontade da Iberdrola —, nós que temos a lei do nosso lado e estamos dispostos a usá-la até ao Tribunal de Justiça da União Europeia.

LEITURAS MARGINAIS

SERÁ QUE GEORGE ORWELL TINHA RAZÃO AO AFIRMAR QUE MUITAS CRÍTICAS LITERÁRIAS SÃO «DISPARATES REPUGNANTES»?
Janice Harayda, Medium. Rev. O’Lima.
Há noventa anos, George Orwell argumentou que as «tonterias repugnantes» escritas pelos críticos literários estavam a prejudicar os romances. Não se referia ao sexo, à violência ou às palavras obscenas presentes nas obras. Nem estava a reagir às críticas aos seus romances ainda por escrever, 1984 e Animal Farm. Orwell criticava as tolices hiperbólicas publicadas nos respeitáveis jornais da sua época. Na sua opinião, os elogios exagerados dos «críticos medíocres» estavam a desencorajar os leitores de levarem os romances a sério. Mas ele atribuía o problema menos a esses críticos demasiado generosos do que a uma economia cultural que os obrigava a exagerar os seus elogios para cumprir as suas obrigações profissionais e conseguir o trabalho de que precisavam para sobreviver financeiramente.

Os comentários de Orwell surgiram no seu ensaio de 1936, «Em Defesa do Romance», que antecedeu por uma década o seu mais conhecido «Política e a Língua Inglesa». E muitas das suas críticas continuam a ser válidas hoje em dia, numa altura em que os algoritmos e as plataformas online determinam grande parte da cobertura mediática dedicada aos livros. Hoje em dia, o entusiasmo pode provir de influenciadores, clubes de leitura de celebridades e de um número cada vez maior de prémios literários com as suas listas de pré-selecionados e finalistas — bem como de quaisquer meios de comunicação tradicionais que ainda publiquem críticas —, mas os seus malefícios permanecem.

Tomemos como exemplo a «treta» que Orwell acabara de ver no Sunday Times de Londres e citava no seu ensaio: «Se conseguires ler este livro e não gritar de alegria, a tua alma está morta.» Acrescentava que «algo semelhante está agora a ser escrito sobre praticamente todos os romances publicados.»

O romance está a «ser gritado até desaparecer»

No meio de uma torrente de exagero, o romance está a «ser gritado até desaparecer», afirmou Orwell. Se levássemos isso a sério, a nossa vida tornar-se-ia «uma longa luta para acompanhar o ritmo». Os romances lançavam-se sobre nós, «cada um deles uma obra-prima inesquecível, cuja perda colocaria a nossa alma em perigo». Isso transformava a procura por um bom romance num campo minado: «Deve ser tão difícil escolher um livro na biblioteca, e deves sentir-te tão culpado quando não consegues gritar de alegria.»

Isso também podia levar os leitores a projetar a sua aversão ao alarido publicitário nos próprios romances: «Quando todos os romances te são impostos como palavras de génio, é bastante natural presumir que todos eles são porcaria.»

No entanto, talvez o maior problema com esses elogios exagerados tenha sido o facto de terem levado os críticos a ajustar as suas escalas de avaliação e a baixar os seus padrões. Milhares de romances são publicados todos os anos. A maioria é medíocre ou pior, e alguns não merecem uma crítica, ou pelo menos o tempo que um crítico consciencioso demoraria a escrevê-la.

Esta realidade significa que «aplicar um padrão decente à maioria dos romances é como pesar uma pulga numa balança de mola destinada a elefantes», afirmou Orwell. A crítica Ruth Frankin resumiu a forma como ele via tudo isto numa entrevista à revista Prospect: «A sua opinião é que, uma vez que todos os romances publicados num determinado momento são basicamente pulgas, os críticos são obrigados a recalibrar os seus termómetros para avaliar a diferença entre uma pulga e outra, fazendo distinções que não são realmente importantes. Entretanto, quando surge um romance verdadeiramente grandioso, este faz rebentar o termómetro que estamos a usar para medir as pulgas.»

Uma «corrida para o teto retórico» com adjetivos

Tudo isto resulta no que Orwell denomina «a escada sem degraus dos adjetivos», ou «uma corrida até ao teto retórico, na qual até o romance mais medíocre é “comovente uma obra-prima”».

Se duvidar que ele tivesse razão, considere o seguinte. Apenas nas últimas semanas, o New York Times Book Review classificou três romances como «obras-primas».

O alarido começou a 28 de agosto, quando elogiou Hometown, de Shaun Tan, como «uma obra-prima formal». Dois dias depois, afirmou que The Disappearers, de Marlon James, não era apenas «uma obra-prima», mas «o romance da década e, provavelmente, do século até agora». Menos de três semanas depois, tinha outra «obra-prima» para apresentar: a «obra-prima irregular» de China Miéville, The Rouse.

The Disappearers pode muito bem ser a «obra-prima» da década, mas como é possível confiar nesse elogio quando o Times atribuiu essa palavra a tantos livros durante esse período? Ela foi atribuída não só a romances de estrelas das cinco grandes editoras, mas também a um romance autoeditado sobre «o romance terno e sem grandes apostas entre uma costureira de colchas bissexual e um ourives transgénero».

É verdade que o Times não descreve nenhuma das suas mais recentes «obras-primas» como «comoventes». Mas afirma que The Disappearers «se instala nas entranhas e começa a torcê-las» e «cravou facas profundamente» no coração do seu crítico. Será isso assim tão diferente de «comovente»?

A crítica do Times a The Rouse foi, à sua maneira, ainda mais hiperbólica. Afirmou que o romance tem passagens que parecem «sem paralelo na literatura e que, de alguma forma, contornam o cérebro e abalam diretamente o sistema nervoso». Como é que um romance pode ser «sem paralelo» na literatura, que tem centenas de anos? E por que razão será bom «contornar o cérebro»? Os romances não deveriam envolver a mente? Uma passagem de The Rouse levou o crítico a afirmar que mal conseguia pensar em «retratos mais indeléveis de uma mãe e um filho na literatura». Será que Hamlet e Gertrude não contaram? Ou será que o crítico simplesmente não os conhecia?

Os romances mereciam melhor do que aquilo que os críticos lhes estavam a dar, argumentava Orwell. Na sua época, os críticos elogiavam excessivamente os livros, em parte porque as editoras puxavam os cordelinhos e retiravam a publicidade se ficassem insatisfeitas. Ninguém precisava de ser tão grosseiro ao ponto de pressionar diretamente os críticos para que fizessem críticas favoráveis — os críticos sabiam o que se esperava deles.

Nos EUA, as críticas literárias de alta qualidade desapareceram em grande parte dos jornais e revistas. Mas por que razão os elogios continuam a ser tão exagerados nas que ainda restam e nos meios de comunicação digitais que as substituíram? Por que razão continuamos a assistir a essa corrida ao exagero de adjetivos e afirmações rebuscadas sobre os livros?

Em «Em Defesa do Romance», Orwell mostrava-se pessimista — com razão, como se veio a verificar — quanto à possibilidade de este quadro sombrio poder mudar e de as críticas poderem começar a servir melhor os romances e os seus leitores. «Atualmente, se se interessa por romances e, mais ainda, se os escreve, as perspetivas são extremamente deprimentes», escreveu ele. Mas «deprimentes» é diferente de «sem esperança». E a leitura do seu ensaio poderá motivar os críticos, pelo menos, a fazer a sua parte para limitar a torrente de elogios exagerados.