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domingo, 25 de outubro de 2026

VISEU DESCARTA FAGILDE E DEFENDE GIRABOLHOS


A construção de uma nova barragem em Fagilde, Viseu, está a gerar controvérsia. Investigadores defendem Girabolhos como solução mais sustentável e económica para o abastecimento de água na região. Situada no rio Mondego e abrangendo os concelhos de Seia, Gouveia, Mangualde e Nelas, poderia abastecer a região de Viseu sem necessidade de elevação. Se mantida nos 310 metros, permitiria resolver os desafios de abastecimento de Viseu de forma mais eficiente, evitando investimentos desnecessários em Fagilde. Fonte.

FRANÇA: MEDUSAS ENTOPEM FILTROS DE ÁGUA DO MAR NUMA CENTRAL NUCLEAR

  • Várias toneladas de medusas obstruíram os filtros de água do mar na central nuclear de Gravelines, na costa norte de França, tendo três reatores entrado em paragem automática. Fonte.
  • Poço de petróleo abandonado espalha vapores tóxicos e causa pânico num bairro de San Antonio. À medida que novos bairros são construídos no Texas, os residentes nem sempre sabem que vivem sobre antigos campos petrolíferos. Fonte.
  • Espécies do fundo do mar lutam para recuperar após o derrame da Deepwater Horizon. Os cientistas que monitorizam as profundezas do oceano perto do local do desastre constataram que as populações animais diminuíram até 80 por cento, com poucos sinais de recuperação. Fonte.

REFLEXÃO

AGÊNCIA PARA O CLIMA OU AGÊNCIA DE VIAGENS? EM 16 MESES, DESLOCAÇÕES EQUIVALEM A 11 VOLTAS À TERRA
Elisabete Tavares e Pedro Almeida Vieira, Página Um.

A Agência para o Clima (ApC), criada pelo Governo de Luís Montenegro e em funções desde Junho do ano passado para coordenar a política climática nacional e gerir os instrumentos financeiros destinados à sustentabilidade ambiental, parece ter desenvolvido, em pouco mais de um ano, uma actividade particularmente intensa no sector das viagens.

Entre Junho de 2025 e Outubro deste ano, os seus registos de contratação pública desenham um roteiro que atravessa todos os cantos do Mundo, de Bruxelas a Belém do Pará, de Nova Iorque a Maputo, de Paris à Mongólia, passando pela Arménia, pela Turquia e pela Etiópia.

Um levantamento efectuado pelo PÁGINA UM, a partir dos contratos disponibilizados no portal BASE⁠, revela a existência de 202 registos relacionados com deslocações, voos e alojamento, num montante acumulado de 320.900 euros. (…)


Nos destinos, Bruxelas destaca-se como um óbvio destino dominante, com 70 registos e 51.193 euros, aos quais acrescem três contratos que identificam apenas a Bélgica, elevando o conjunto a 53.083 euros.


A frequência das deslocações à capital europeia encontram explicação nas responsabilidades da Agência para o Clima no acompanhamento da legislação comunitária e na coordenação da representação portuguesa em matérias ambientais, mas a repetição dos contratos não permite conhecer quantas reuniões justificaram as viagens ou quantos trabalhadores participaram em cada uma.

Seguem-se, entre os destinos de maior valor, o Brasil, com 96.798 euros, a Turquia, com 29.375 euros, e países como França, Estados Unidos e Alemanha, todos com montantes superiores a dez mil euros. No conjunto, os registos identificam 27 países, incluindo Portugal, e 31 cidades sem ambiguidade geográfica.

O caso financeiramente mais expressivo encontra-se no Brasil, onde decorreu, entre 10 e 21 de Novembro do ano passado, a 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a COP30. Portugal participou com uma numerosa delegação chefiada pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, cabendo à Agência para o Clima a liderança da delegação técnica nacional, conforme informação publicada pelo Instituto Camões⁠. (...)


As conferências internacionais constituem, de resto, uma parte importante da geografia das viagens da agência. Em Agosto passado, foram contratados uma viagem e um alojamento na Mongólia, por 7.307 euros, coincidindo com a realização da COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, que decorreu em Ulan Bator entre 17 e 28 de Agosto.

Na Arménia, onde decorre entre 19 e 30 de Outubro a COP17 da Convenção sobre a Diversidade Biológica, encontram-se dois contratos de deslocação no valor conjunto de 4.508 euros, ambos datados de 16 de Outubro. (...)


A Turquia constitui outro caso expressivo, tanto pelo montante como pelo calendário. Os contratos identificados com aquele país, incluindo Antália, totalizam 29.375 euros, dos quais 22.689 euros correspondem a três adjudicações para alojamento e 5.950 euros a quatro viagens com destino expresso a Antália.

A cidade turca acolherá, entre 9 e 20 de Novembro, a COP31 das Nações Unidas sobre o Clima, pelo que a agência apresenta já uma despesa contratada significativa associada a um destino onde está marcada mais uma grande conferência climática internacional.


A sucessão de viagens a grandes conferências internacionais não constitui, por si, um desvio às competências da Agência para o Clima.

O Decreto-Lei n.º 122/2024⁠, que criou o instituto público, atribui-lhe a preparação das posições nacionais nas negociações internacionais sobre alterações climáticas e a coordenação da actividade do Ministério do Ambiente e Energia nas relações europeias e internacionais.

Essa avaliação ganha importância perante a dimensão financeira da instituição. O Plano de Actividades de 2026 prevê um orçamento próprio de aproximadamente 25,1 milhões de euros para a ApC, incluindo cerca de 10,6 milhões destinados a pessoal e 10,4 milhões à aquisição de bens e serviços.

A agência administra ainda instrumentos financeiros de dimensão muito superior, nomeadamente o Fundo Ambiental e o Fundo Azul, cujas verbas não devem ser confundidas com as despesas do seu funcionamento.

Na programação do Fundo Ambiental publicada em Agosto, através do Despacho n.º 10014-A/2026⁠, encontram-se previstos 10.038.181 euros para a “Comissão anual da Agência para o Clima e outros custos de gestão”. Trata-se de uma rubrica que não deve ser somada automaticamente ao orçamento próprio da agência, sem conhecer a relação entre as duas dotações.

A importância deste financiamento público contrasta com a juventude da instituição. Criada no final de 2024, a Agência para o Clima recebeu competências anteriormente distribuídas pela Agência Portuguesa do Ambiente e por outros serviços do Ministério.

Em 31 de Dezembro de 2025, segundo o relatório anual de actividades, contava com 145 trabalhadores em exercício efectivo de funções, embora o mapa de pessoal previsse um número superior de postos.

Para 2027, a estrutura já contempla 356 lugares. A agência é presidida, desde Julho de 2026, por Rosário Sequeira, que integrou anteriormente o gabinete da ministra Maria da Graça Carvalho e já desempenhava funções no conselho directivo do organismo. (…)

Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia. / Foto: Agência para o Clima

ApC afirma que privilegia a participação por meios digitais, mas considera que a natureza de algumas matérias, as condições impostas pelas entidades organizadoras e as exigências das negociações tornam necessária ou justificam a presença física. Quanto à contratação de viagens e alojamento, diz ter aderido voluntariamente ao Sistema Integrado de Agenciamento de Viagens, da Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública,, que permite solicitar propostas em simultâneo a 10 operadores, com o objectivo de comparar preços e condições, promover a concorrência e a transparência e obter condições economicamente vantajosas.

O conselho diretivo da Agência para o Clima é presidido por Maria do Rosário Sequeira e integra Duarte Rodrigues, como vice-presidente, e Luís Silva e Joana Veloso, como vogais. / Foto: ApC

Mas não está apenas em causa uma questão de custos para os contribuintes. O PÁGINA UM procurou ir mais longe e avaliar o impacto ambiental potencial associado à intensidade destas viagens. A partir da base de contratos foi construído um modelo de deslocações, considerando apenas os registos que permitiam identificar um destino concreto e evitando somar alojamentos a viagens já contabilizadas.

Foram excluídas as entradas sem destino conhecido, as que mencionavam apenas o país sem identificar a cidade, as referências geográficas ambíguas e uma duplicação detectada. O resultado foi um conjunto de 90 deslocações estimadas, das quais 88 foram consideradas viagens aéreas e duas viagens rodoviárias, sempre com a hipótese de uma única pessoa por ida e volta.

Para calcular a distância, Lisboa foi adoptada como ponto de partida e de regresso. Nas deslocações aéreas, o PÁGINA UM utilizou as distâncias geográficas aproximadas entre as cidades e acrescentou uma margem de 8% para desvios de trajecto, de acordo com uma prática de estimação utilizada nos factores internacionais de emissões. Nas duas deslocações nacionais modeladas, a Arcos de Valdevez e Guimarães, foram consideradas distâncias rodoviárias.


O resultado foi uma extensão acumulada de aproximadamente 439.973 quilómetros, o que, tendo como referência os 40.075 quilómetros de circunferência equatorial da Terra, equivale a 10,98 voltas completas ao planeta.

Dito de outro modo, as deslocações consideradas no modelo correspondem a quase 11 viagens à volta do mundo, apesar de representarem apenas uma parte dos destinos identificados nos contratos.

A estimativa da pegada de carbono foi efectuada numa segunda fase, recorrendo a coeficientes de emissão por passageiro e quilómetro, tendo como referência a metodologia e os factores de conversão publicados em 2026 pelo Governo britânico⁠.


No modelo adoptado foram aplicados 77 gramas de CO₂ por passageiro-quilómetro aéreo estimado e 165 gramas por quilómetro percorrido em automóvel com um único ocupante.

A multiplicação destes coeficientes pelos percursos considerados conduziu a cerca de 33,8 toneladas de CO₂ associadas aos voos e 0,3 toneladas às deslocações rodoviárias, perfazendo aproximadamente 34,1 toneladas de dióxido de carbono.

A estimativa aumenta quando se considera o efeito climático adicional da aviação, associado, entre outros factores, à formação de rastos de condensação e às alterações atmosféricas provocadas pelas aeronaves.

Foto: Captura de imagem de vídeo promocional da ApC

Nesse cenário, o impacto climático global foi estimado em aproximadamente 58 toneladas de CO₂ equivalente, valor que não representa dióxido de carbono fisicamente libertado e que não deve ser somado às 34 toneladas anteriores. Ambas as estimativas dependem dos pressupostos utilizados, incluindo o tipo de aeronave, a classe de viagem e os trajectos.

Por ausência de informação, também não foram contabilizadas as emissões associadas à hotelaria, às refeições, aos transportes locais ou a outros serviços adquiridos durante as missões.

Saliente-se que esta estimativa considera uma única pessoa por deslocação, porque os contratos não permitem identificar quantos trabalhadores ou dirigentes utilizaram cada reserva.


Se determinadas adjudicações envolveram vários passageiros, a distância total percorrida por pessoas e as emissões correspondentes poderão ter sido superiores às calculadas. Em sentido contrário, a existência de viagens contratadas mas posteriormente anuladas, a utilização de transportes diferentes dos assumidos ou a reunião de vários registos numa mesma missão podem reduzir os valores.

Em conclusão, com mais de 320 mil euros em contratos relacionados com viagens, destinos espalhados por 27 países e uma distância potencial que permite circundar a Terra quase 11 vezes, resta saber o impacto positivo de tudo isto na melhoria do clima. Global, não no clima laboral de quem viajou…

BICO CALADO

  • Pelo Direito à Casa é um opúsculo político publicado em 1976 pela arquiteta e política Helena Roseta, lançado no contexto das eleições autárquicas para apoiar a sua candidatura à Câmara de Lisboa pelo PPD/PSD. A obra conta com uma introdução marcante de Francisco Sá Carneiro, que sublinha a ligação entre o urbanismo, o direito à habitação e a organização democrática da sociedade. O texto de Roseta reflete sobre a necessidade de garantir habitação condigna como um pilar indissociável da liberdade. Fonte.
 
  • "Como se viu esta madrugada, no Rossio e na praça D. João I, estamos entregues ao bichos, com um governo absolutamente vendido aos (poucos) mais ricos e uma larga fatia da população abraçada pelo egoísmo, e falta de solidariedade, com quem, por mais que tente, não consegue arranjar uma casa. Enquanto escrevo isto estou a ouvir a Cristas, a falar da lei Cristas, e a dizer que se sente orgulhosa da obra feita. A polícia está a usar os cassetetes nos lombos errados, diz-me aqui o vizinho no café. Errado não está." Tiago Franco, É meu, meto o preço que quiser.
  • A Procuradoria Europeia confirmou a realização de buscas nos gabinetes dos Patriotas da Europa, o grupo parlamentar que reúne partidos da extrema-direita europeia e que integra o partido Chega. As buscas decorreram esta quarta-feira, em Bruxelas e Estrasburgo, no âmbito de uma investigação por suspeitas de utilização irregular de fundos comunitários. Fonte.
  • Mais de oito em cada dez empresas e outras entidades proprietárias de órgãos de comunicação social continuam sem esclarecer quanto receberam de publicidade paga por organismos públicos nacionais ou estrangeiros, ou sequer se beneficiaram dessas receitas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

DAR NOMES DE TRIBOS INDÍGENAS AMERICANAS A MÁQUINAS DE MATAR É UMA DEGENERAÇÃO
Nate Bear, Substack. Rev, O’Lima.


“(…) A prática de dar nomes de tribos nativas americanas e das suas armas a máquinas de guerra e munições imperiais terá tido início na década de 1940 e foi discretamente codificada por um regulamento do exército na década de 1960, que determinava que todo o equipamento recém-adquirido fosse nomeado de forma a «sugerir um espírito agressivo». Isto, após consulta aos líderes tribais, levou a que novos equipamentos, principalmente helicópteros, fossem batizados com nomes de tribos. Em alguns casos, realizam-se cerimónias nas quais os líderes tribais abençoam estas monstruosidades de aço e plástico. A prática, que se mantém até aos dias de hoje, significa que uma quantidade significativa de equipamento do exército dos EUA tem nomes de tribos indígenas, desde os helicópteros Apache Longbow, passando pelo avião de asa fixa C-12 Huron, até aos navios de resgate da «classe Navajo». Em 2024, um novo navio desta classe recebeu o nome de «Narragansett». Depois, claro, temos o míssil «Tomahawk» e o míssil «Longbow Hellfire». No total, quase trinta peças de equipamento militar dos EUA ostentam os nomes de tribos nativas.

Parece-me bastante óbvio o motivo pelo qual esta prática é tão odiosa: os nomes de um povo vítima de genocídio e de assassinatos em massa foram apropriados pelos seus assassinos para cometer genocídio e assassinatos em massa contra outros povos.

O facto de alguns líderes tribais darem a sua bênção a esta prática é extremamente deprimente, não é inspirador nem justificativo.

O míssil que se abateu sobre uma escola feminina no primeiro dia do ataque ao Irão, matando 156 pessoas, incluindo 120 crianças, chamava-se «tomahawk».

Será que os povos indígenas dos EUA querem mesmo ter nomes inspirados em armas de infanticídio? Será que é realmente uma honra para os nativos americanos que uma arma com o seu nome, operada pelas pessoas que os submeteram a genocídio e os despossuíram, caia do céu para matar 156 pessoas? Será que um míssil lançado a centenas de milhas de distância de um alvo civil honra realmente o espírito de luta dos criadores do tomahawk? Claro que não. O míssil «tomahawk» é uma arma covarde de longo alcance, utilizada para cometer assassinatos em massa a sangue frio.

Não há provas de que o míssil «Tomahawk» tenha alguma vez sido abençoado pelos líderes tribais, nem de que a Marinha dos EUA tenha consultado as tribos sobre o nome. Mas é verdade que o equipamento foi abençoado pelos líderes tribais e que as tribos parecem apoiar as práticas de atribuição de nomes (ou, pelo menos, não se opõem a elas de forma significativa). De facto, em abril passado, depois de o «Tomahawk» ter massacrado crianças iranianas, o novo avião de ataque do Exército dos EUA, o «Cheyenne», foi abençoado numa cerimónia que contou com a participação da Tribo Cheyenne do Norte e das tribos Cheyenne e Arapaho.

Este é, de facto, um aspeto muito desanimador da assimilação dos indígenas na sociedade dos seus opressores. (…) Os líderes tribais podem sentir que não têm escolha. Mas o facto de a prática continuar com qualquer tipo de consentimento indígena é desanimador e deprimente, sobretudo devido à enorme desigualdade entre as comunidades tribais e as comunidades não tribais nos EUA.

Os nativos americanos apresentam a taxa de pobreza mais elevada de todos os grupos raciais nos EUA, situando-se entre os 25% e os 30%. O Dakota do Sul, terra da Nação Sioux — que engloba os povos Nakota, Lakota e Dakota —, é o estado com a taxa de pobreza mais elevada de qualquer grupo específico nos EUA, atingindo os 45%. O helicóptero de ataque «Sioux» e o helicóptero utilitário ligeiro «Lakota» receberam esses nomes em sua suposta honra e, em 2012, os anciãos Lakota abençoaram os helicópteros numa cerimónia realizada na Reserva de Standing Rock. É difícil não chegar à conclusão de que, neste caso, os líderes tribais se contentaram com gestos simbólicos em vez de qualquer justiça verdadeira. A sociedade colonial impôs a assimilação às tribos nativas americanas, atribuindo os seus nomes a máquinas de matar, em vez de progresso, justiça ou igualdade. As taxas de pobreza nas reservas podem atingir os 50%, com taxas de desemprego a aproximarem-se dos 90%.

É claro que algumas nações nativas, e especialmente os líderes tribais, têm poucos motivos para queixa, tendo-se saído muito bem com os seus acordos com vários governos estaduais através da exploração de casinos e resorts de jogo.

E a aceitação desta apropriação parece significativa, mas não é total. O ativista das Primeiras Nações Vernon Bellecourt liderou uma campanha contra as equipas desportivas dos EUA que utilizavam apelidos relacionados com terras tribais e também se opôs à denominação do helicóptero «Black Hawk». Em 2011, o nome de código «Geronimo» para a operação que matou Osama Bin Laden foi também amplamente condenado pelos líderes tribais. Além disso, a resistência dos grupos indígenas à sociedade colonial norte-americana não está, de forma alguma, extinta, como exemplificado pelos protestos de Standing Rock, em 2017, contra o oleoduto DAPL, que viram 200 tribos mobilizarem-se para proteger uma fonte de água sagrada.

A própria sobrevivência é também resistência. Mas a verdade é que, devido ao esgotamento, à cooptação e à brutalidade da sociedade dominante, persiste um panorama verdadeiramente desigual. A prática de atribuir nomes é, portanto, uma acusação severa não aos oprimidos, mas aos opressores. E é, muito honestamente, algo tipicamente «yankee».


sábado, 24 de outubro de 2026

O BANCO MUNDIAL INVESTE 35,89 MIL MILHÕES DE DÓLARES EM FALSAS SOLUÇÕES CLIMÁTICAS, ENQUANTO AS COMUNIDADES ARCAM COM OS CUSTOS

  • Entre janeiro de 2015 e agosto de 2026, o Grupo do Banco Mundial aprovou 35,89 mil milhões de dólares em 59 projetos identificados como «falsas soluções» — iniciativas que não combatem a poluição nem as alterações climáticas, ao mesmo tempo que podem prejudicar a saúde humana ou dos ecossistemas, atrasar medidas de redução da produção ou ignorar a conservação dos recursos materiais. Destes, 40 envolveram empréstimos no valor total de 34,23 mil milhões de dólares, ou seja, 95% do montante total aprovado, agravando o peso da dívida dos países. A incineração de resíduos ocupa um lugar de destaque neste financiamento. Quarenta e dois dos 59 projetos incluem componentes de incineração de resíduos, tais como incineradores municipais de valorização energética de resíduos, pirólise ou gaseificação. Outros 10 envolvem combustível derivado de resíduos ou resíduos processados queimados em incineradores, fornos de cimento e outras instalações industriais. As conclusões revelam também lacunas na proteção das comunidades e dos trabalhadores. 18 projetos estão classificados como de alto risco, o que indica impactos ambientais e sociais adversos potencialmente significativos, sensíveis, irreversíveis ou sem precedentes. No entanto, apenas 15 projetos mencionam ou incluem planos que abordem as preocupações dos trabalhadores do setor dos resíduos, e apenas seis dispõem de um Plano de Ação de Reassentamento ou equivalente, o que levanta questões sobre os interesses subjacentes ao financiamento climático, numa altura em que milhares de milhões são canalizados para projetos que correm o risco de prejudicar as comunidades, enquanto as proteções para as pessoas afetadas continuam a ser inadequadas. Fonte.
  • Uma nova investigação da Greenpeace Canadá, intitulada «Manufacturing Petro-Populism: Exposing the secretive network of front groups shilling for Big Oil in Canada» (A criação do petro-populismo: Desvendando a rede secreta de grupos de fachada que defendem os interesses das grandes petrolíferas no Canadá), identificou uma rede coordenada de mais de 30 organizações pró-combustíveis fósseis e um grupo desconhecido de financiadores que está a influenciar a opinião pública e a política energética no Canadá, apresentando-se como vozes independentes e, em alguns casos, de base.
  • Um derrame de petróleo proveniente de um petroleiro atacado perto do Estreito de Ormuz está a alastrar-se ao longo da costa dos Emirados Árabes Unidos, obrigando ao encerramento de algumas praias e zonas costeiras. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Robin Loznak/Zuma Press Wire/Shutterstock
  • Dois antigos Presidentes de Junta de Freguesia do Marvão acusados de fraude na obtenção de subsídio através da inflação de despesas e introdução de informações falsas. Fonte.
  • André Ventura gastou 3,7 milhões na campanha das presidenciais, o triplo de António José Seguro. Fonte.
  • Uns acampam nas praças das cidades, outros acaampam nos estúdios de televisão.
  • A Meta está a ignorar uma ordem de um tribunal brasileiro para pôr fim ao favoritismo em relação a Bolsonaro, à medida que segunda volta das eleições presidenciais se aproxima, daqui a poucos dias. Funcionários da Meta admitiram em comunicações internas obtidas por jornalistas brasileiros que o Facebook censurou as contas do presidente Lula da Silva. O Supremo Tribunal Eleitoral do Brasil afirmou que irá multar a Meta em 200 000 dólares por dia até que esta consiga demonstrar que o presidente Lula e o seu adversário de extrema-direita, Flávio Bolsonaro, apoiado por Trump, recebem tratamento igual nas suas plataformas. Têm-se registado protestos em frente à sede da Meta, em São Paulo. Fonte.

REFLEXÃO

O MAIOR ESCÂNDALO DA ATUALIDADE NUM ÚNICO TÍTULO
Ken Klippenstein, Substack. Rev. O’Lima.

«As exportações de petróleo do Médio Oriente voltam aos níveis pré-guerra», noticiou o Financial Times na quarta-feira, numa manchete que deveria estar a causar um alvoroço nos meios de comunicação, se não mesmo motins.

Pensem no que esta manchete significa. A oferta voltou ao nível em que se encontrava antes da guerra, mas os preços dos combustíveis continuam a tornar a vida num inferno para milhões de pessoas. Portanto, isto nunca foi apenas uma realidade infeliz da Guerra do Irão, como nos foi dito. Trata-se de uma especulação de preços, com as grandes petrolíferas a esconderem-se atrás da ideia de escassez em tempo de guerra como pretexto para aumentar os preços.


Disseram-nos que os preços elevados eram apenas uma realidade inevitável, uma vez que o Estreito de Ormuz estava fechado. Era uma treta na altura, como tentei alertar há meses. Agora é ainda mais difícil negá-lo.

E o escândalo vai muito além dos mais de 4 dólares por galão que as pessoas estão a pagar na bomba (ou mais de 6 dólares na Califórnia). O petróleo influencia o preço de praticamente tudo devido a custos como o transporte; por isso, quando os preços dos combustíveis se mantêm elevados, o mesmo acontece com os produtos alimentares, as passagens aéreas e até mesmo as hipotecas.

A defesa preferida do setor é que não é ele quem define o preço do crude. Tudo bem. Mas define sim o preço do que produz a partir do crude (também conhecido como os seus lucros), e é aí que está o dinheiro.

A diferença entre o que um barril de crude custa a uma refinaria e o preço a que esta vende o combustível resultante é designada por «crack spread». É a margem do setor, e esta disparou. O «crack spread» do gasóleo subiu de 33 dólares por barril em fevereiro para 92 dólares em agosto, tendo depois ultrapassado os 106 dólares no início de setembro, um recorde histórico.

Basta dar uma olhadela nos lucros da indústria petrolífera.


Os executivos do setor mal conseguem conter a sua alegria. «Os lucros ajustados do setor a jusante aumentaram principalmente devido às margens de refinação mais elevadas e a efeitos temporários favoráveis», afirmou Eimear Bonner, diretora financeira da Chevron, numa teleconferência sobre os resultados realizada a 31 de julho de 2026. Esses efeitos temporários favoráveis representaram 1,4 mil milhões de dólares para a Chevron nesse trimestre!

«O que o ambiente atual proporcionou foi a perspetiva de a PBF gerar um valor significativo para os nossos investidores», afirmou Matt Lucey, diretor executivo da PBF Energy, numa teleconferência sobre resultados realizada a 30 de julho de 2026. O «ambiente atual» é o seu eufemismo para a especulação em tempos de guerra. «Valor para os nossos investidores» significa que Wall Street ganha dinheiro enquanto você mal consegue fazer face às despesas.

O setor dirá que o petróleo bruto continua caro, e isso é verdade. O Brent atingiu quase 112 dólares por barril na quinta-feira, à medida que o Irão continua a atacar petroleiros, e o transporte de um superpetroleiro do Golfo para a China custa agora mais de dez vezes o que custava antes da guerra. Mas isso explica o preço do petróleo bruto. Não explica, porém, por que razão a margem do setor por cada barril disparou para níveis recorde, nem por que razão as empresas optaram por exportar combustível enquanto os abastecimentos internos atingiam mínimos históricos.

Até Trump reparou nisso. Ele instruiu o Departamento de Justiça a investigar se as empresas de energia estavam a praticar preços abusivos, acusando-as no Truth Social de manter os preços nas bombas elevados, apesar de o petróleo bruto que estavam a comprar estar a ficar mais barato. No entanto, na mesma frase, também não consegue deixar de se gabar da bonança de lucros. «O nosso país está a ganhar mais dinheiro do que nunca devido ao facto de o petróleo estar tão caro», afirmou Trump a 14 de outubro, num comício em Bullhead City, no Arizona. Por outras palavras, o presidente vê a bonança de lucros. Só não percebe que não é o «nosso país» que está a beneficiar com isso.


Então, porque é que não há um alvoroço? Porque a especulação descarada foi disfarçada como uma questão de «segurança nacional». Toda a gente compreende o que é a especulação de preços e toda a gente fica indignada com isso. Mas basta dizer «Estreito de Ormuz» e, de repente, torna-se um assunto para os especialistas: rotas marítimas, prémios de risco de guerra, bloqueios, lanchas rápidas do IRGC. A mensagem é que isto é demasiado complicado para si, por isso pague e confie nos especialistas «estratégicos» que percebem do assunto. Entretanto, as gigantes petrolíferas escondem-se atrás da bandeira enquanto lhe esvaziam os bolsos.

Quando o Irão fechou o Estreito de Ormuz, o petróleo encontrou uma forma de contorná-lo. Agora, são as companhias petrolíferas que estão a cobrar portagens.

LEITURAS MARGINAIS

A MINHA REAÇÃO À MAIS RECENTE FARSA DO PRÉMIO NOBEL DA ECONOMIA
Michael Hudson. Rev. O’Lima.


Deixei de me considerar economista ainda na década de 1970, quando se tornou óbvio que aquilo de que falava — principalmente dívida, balança de pagamentos, imperialismo monetário e história — não era o cerne do currículo académico.

Quando Paul Samuelson recebeu o Prémio Nobel pela sua insistência irrealista de que o comércio livre beneficiava todos os países e tornava as suas relações trabalho/capital mais equitativas, escrevi um artigo na publicação católica «Commonweal» apelando a que o prémio deixasse de ser atribuído. Era óbvio que os membros do júri eram de direita, e a Suécia já estava a caminho de se tornar a economia mais desigual da Europa no que diz respeito à concentração de riqueza nas mãos de uma estreita camada superior.

Publiquei na «Commonweal» porque fazia parte do movimento da Teologia da Libertação, apoiado pelos dois bons papas (antes de os dois reacionários se terem empenhado em desmantelá-lo). Os católicos eram o único grupo a apoiar e a publicar as minhas opiniões, incluindo o meu primeiro livro, sobre «O Mito da Ajuda», que revelava que esta era uma alavanca de exploração do imperialismo norte-americano.

E eis que chega hoje o Prémio Nobel de 2026, atribuído a dois economistas ortodoxos. Já não leio as revistas económicas dominantes e não vou a congressos de economia há mais de meio século, pelo que tudo o que sei sobre os dois novos laureados é o que li no Wall Street Journal e no New York Times.

O vencedor mais controverso, Robert Hall, de Stanford e da Hoover Institution, foi coautor do livro The Flat Tax (O Imposto Único), publicado em 1985, no qual insistia que as pessoas ricas (principalmente os gestores financeiros do setor financeiro, os senhorios absentistas e os monopolistas cujas fortunas se baseavam em rendimentos de rendas) não deveriam ter de pagar impostos mais elevados do que os trabalhadores. Este era um tema central da «Reaganomics» na altura. Ele e o seu coautor, Alvin Rabushka, afirmaram que isto seria «menos distorcionário», de acordo com a crítica do WSJ.

Hall trabalhou durante trinta anos no NBER, cuja doutrina defende que as recessões económicas são todas auto-curativas graças aos «ajustamentos de mercado», que constituem «estabilizadores automáticos». Tal como o seu co-vencedor, Michael Woodford, escreveu sobre o conceito macroeconómico keynesiano da função de consumo (a proporção do rendimento gasta em consumo) — sem mencionar o tema tabu da dívida, cujo serviço da dívida tem aumentado de forma constante em todas as recuperações económicas desde a Segunda Guerra Mundial, reduzindo o consumo em conformidade através da deflação da dívida.

Woodford alinhou-se com a crítica de Milton Friedman a Keynes, argumentando que o rácio consumo/rendimento (C/Y para os macroeconomistas) não era uma função estável, mas refletia o rendimento esperado. No entanto, não havia qualquer expectativa em relação à dívida. O objetivo desta crítica era argumentar que a redução de impostos numa recessão era inútil, porque os beneficiários não gastariam necessariamente mais se não esperassem que o ganho afetasse o seu consumo a longo prazo.

O artigo de Woodford, de 1978, foi escrito há quase cinquenta anos, numa altura em que quase não havia discussão (à exceção dos meus próprios textos, que não eram bem-vistos nos círculos mais respeitáveis) sobre como a dívida afetaria esta questão. Quando o Presidente Trump enviou o seu cheque de 2 000 dólares aos americanos em 2020, no auge da crise da Covid, a maioria dos americanos utilizou o dinheiro para pagar os seus cartões de crédito e outras dívidas, e não para consumir mais. Assim, estatisticamente, o rácio C/Y teria, na verdade, diminuído (se considerarmos o cheque de Trump como rendimento).

Mas tudo isto é um mundo diferente do passado. Woodford afirmou ao New York Times que a «política de estabilização» do presidente Obama, baseada na ZIRP — o resgate do setor bancário do colapso das hipotecas de alto risco e das apostas em derivados — «contribuiu efetivamente para uma melhor estabilização».

Mas todos sabemos o que isso fez. Quase todo o aumento da riqueza desde 2008 foi para os 10% mais ricos, especialmente o 1%, e acima de tudo para os 0,1% — graças aos constantes cortes fiscais e isenções fiscais no setor FIRE, cujos beneficiários agora dominam o resto da economia. A sua riqueza consiste em créditos de serviço da dívida e em créditos de rendas crescentes.

“A noção de «estabilização» do Comité do Prémio Nobel está, assim, em consonância com uma desindustrialização constante e com a austeridade.”

O Prémio de Economia deve ser extinto. O seu papel consiste em popularizar um conjunto de «antolhos» para impedir o público de perceber que a economia atual, sobrecarregada pela dívida, não possui «estabilizadores automáticos» ao estilo do NBER, mas sim uma constante desestabilização exponencial causada pela deflação da dívida, à medida que as economias ocidentais substituem a dinâmica clássica do capitalismo industrial pela dinâmica predatória e polarizadora do capitalismo financeiro.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

BEJA: FERTILIZANTE A PARTIR DE BAGAÇO DE AZEITONA, CASCAS DE AMÊNDOA, ENGAÇO DE UVA E RESTOS DE PODAS

  • Um novo fertilizante orgânico desenvolvido no Alentejo a partir de subprodutos agrícolas recebeu luz verde para ser utilizado em produções de agricultura biológica. Criado pela Sociedade Agrícola do Monte Novo e Figueirinha, sediada em Beja, o produto batizado de NORG reaproveita matérias-primas que habitualmente seriam descartadas — como o bagaço de azeitona, cascas de amêndoa, engaço de uva e restos de podas — transformando-as num recurso valioso para o setor agrícola. A validação de conformidade agora obtida garante que o fertilizante cumpre todos os requisitos legais para este modo de produção sustentável, representando uma importante mais-valia para os produtores que procuram alternativas ecológicas. Fonte.
  • A Quercus Aveiro denunciou alegados danos ambientais nas margens do rio Marnel, em Valongo do Vouga, no concelho de Águeda, onde terá ocorrido o corte de vegetação e de árvores autóctones numa extensão considerável do curso do Rio Marnel. Fonte.
  • Os recentes motins nas Maurícias foram desencadeados principalmente pela escassez crónica de água e pelo aumento do custo de vida, o que levou a protestos generalizados e a atos de violência após um incidente em que a polícia abriu fogo. Fonte.

BICO CALADO

  • O NAZA não se resume apenas a Israel e à Faixa de Gaza. Trata-se do mal que se esconde em todos nós. Este novo filme premiado deixa-nos sem palavras, não por causa da monstruosidade do que Israel fez, mas porque serve como prova irrefutável da nossa própria monstruosidade. Jonathan Cook, Substack.
  • Um novo relatório da Amnistia Internacional descreve como, enquanto Israel perpetrava um genocídio em Gaza, as universidades colaboraram para responder aos protestos com medidas repressivas e de mão pesada, em contradição com o seu dever de proteger os direitos humanos e promover um diálogo significativo. O relatório identifica interferências e violações do direito à liberdade de expressão. Estudantes e académicos foram punidos por entoarem cânticos, baterem palmas e usarem keffiyehs, enfrentando suspensões, proibições de acesso ao campus, revogação de diplomas e ameaças ao seu estatuto de visto. Em vários casos, foram impostas sanções antes da conclusão das audiências, transformando medidas cautelares em punições e, assim, agravando o efeito dissuasor. Por vezes, as universidades prolongaram as investigações sem esclarecer prazos, resultados ou vias de recurso. Os estudantes que eram visivelmente muçulmanos e aqueles que exibiam símbolos da identidade palestiniana foram afetados de forma desproporcionada. A Amnistia revela que as universidades não agiam isoladamente, mas sim no âmbito de uma rede que encorajava a repressão, moldada pela pressão governamental, pelas orientações regulamentares, pelo lobbying de grupos de defesa e pelo aconselhamento de escritórios de advogados e empresas de segurança. Algumas universidades chegaram mesmo a partilhar estratégias jurídicas e planos de segurança com colegas de outras instituições e seguiram as instruções do Ministério da Educação, reprimindo aqueles que eram vistos como apoiantes das vítimas do apartheid e do genocídio perpetrados por Israel em Gaza. Entre as universidades mencionadas nos estudos de caso contam-se a Universidade de Oxford, a Universidade de Cambridge e a London School of Economics and Political Science (LSE).
  • Por que razão os bilionários estão tão interessados em controlar os nossos media, televisivos e online? Porque controlar o que os americanos podem ver e ouvir protege tudo o resto que lhes pertence. Thom Hartmann, Common Dreams.
  • O município de Ourique, Beja, está prestes a concluir a reconversão de um antigo imóvel municipal num complexo residencial com cinco novas habitações, localizadas em pleno centro da vila. O projeto exigiu um investimento aproximado de um milhão de euros, integralmente financiado pelo PRR. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

SE UMAS CENTENAS DE JOVENS


Se umas centenas de jovens insistem em montar tendas numa praça pública em protesto contra a crise na habitação estamos perante uma perturbação da ordem pública e crimes graves que exigem uma intervenção rápida e musculada das autoridades; se um alto funcionário do estado contrata uma empresa, a quem antes deu contratos públicos, para construir uma piscina e remodelar as casas de banho da sua casa de campo, trata-se, no pior dos casos, de um lamentável deslize de cavalheiro sanável com um pedido de desculpa.

Se meia dúzia de extremistas partem a montra de uma loja estamos perante uma acto de pilhagem e terror; se um fundo imobiliário compra 300 apartamentos e duplica as rendas no centro da cidade regista-se mais uma normal iniciativa económica. Se jovens grafitam a fachada de um banco é um acto hediondo de vandalismo; se o mesmo banco corre com os lojistas de bairro e os velhotes da mercearia para depois financiar lojas de sardinhas para turistas ou um coffeeshop para ex-pats é a economia de mercado a funcionar.

Quando os serviços públicos são mutilados e desmantelados por cortes de financiamento estamos num civilizado cenário de rigor orçamental, já uma argola no nariz ou cabelo pintado de vermelho são claros sinais de selvajaria. Quando a política fiscal beneficia grupos privilegiados trata-se de um saudável mecanismo para assegurar a competitividade, já o aumento de propinas e das taxas moderadoras é um imperativo incontornável que se resolve apertando o cinto à população.

Este sistema politico e económico precisa dos jovens como eleitores e consumidores, mas nega-lhes direitos, empregos dignos e meios de subsistência (quando a procissão da IA ainda vai no adro). Exige aos jovens flexibilidade, produtividade e disponibilidade total, mas nega-lhes o suficiente para uma vida independente e autónoma. Os jovens já perceberam isso.

Aos jovens é dito que se trabalharem muito, se reunirem as qualificações necessárias, irão realizar os seus sonhos. Se não os realizarem é por falta de iniciativa, de empenho e empreendorismo. Se as promessas não se cumprem é por fracasso individual. Os jovens estão fartos dessas justificações.

Mas a violência nas televisões é excelente: dá audiências e desvia a atenção das suas causas. E é eficaz: mostra que a contestação espontânea vinda debaixo é claramente um crime. Já destruição sistemática da sociedade vinda de cima é benéfica e necessária, não devendo passar nas televisões porque equilibra as contas, dá dividendos aos accionistas, financia os partidos, assegura avenças e sinecuras.