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terça-feira, 15 de setembro de 2026

ESPANHA: FERROVIA COM REDE RÁPIDA MAS POUCO CAPILAR

Foto: ÁLVARO MINGUITO.
  • Embora conste que a Espanha tenha a segunda rede de alta velocidade mais extensa do mundo, as ligações entre as aldeias e as cidades médias foram abandonadas durante décadas. Criou-se assim uma rede rápida, mas pouco capilar, que não serve para deslocações diárias dentro de províncias ou entre cidades médias, havendo estações encerradas e territórios internos sem alternativa ao automóvel. A rede ferroviária espanhola está quase totalmente eletrificada, sendo a energia consumida pela Renfe 100% renovável. O custo do bilhete e do quilómetro do comboio convencional é de 0,029 €, muito inferior ao automóvel (0,13 €) ou ao avião (0,081 €). O que falta para que o comboio volte a ser útil? Não faltam vias, faltam comboios. Pau Noy (Alianza Ibérica por el Ferrocarril) sugere a aquisição de mais comboios para aumentar a frequência de modo a garantir um mínimo de 4 serviços diários em cada estação até à capital provincial, e desenvolver um abono único nacional, que facilite a utilização combinada dos transportes públicos em todo o país. Fonte.
  • O Canal do Panamá vai reduzir novamente o tráfego marítimo devido ao agravamento da seca provocada pelo fenómeno climático El Niño, congestionando ainda mais uma das rotas de navegação mais importantes do mundo. O canal movimenta 5% do comércio marítimo global e cerca de 40% do tráfego de contentores dos EUA; é preferido pelos exportadores e importadores porque reduz os custos e os tempos de trânsito, especialmente para as empresas que comercializam entre a China, a Ásia e os EUA. Fonte.
  • O presidente e o diretor da Chubu Electric Power, operadora da central nuclear de Hamaoka, renunciaram aos seus cargos para assumir a responsabilidade por anos de manipulação de dados de segurança sísmica relativos aos reatores nº 3 e nº 4 daquela central. Uma investigação independente constatou que os funcionários alteraram os dados sísmicos para que os reatores parecessem cumprir os requisitos de segurança. Os principais executivos da empresa não estiveram directamente envolvidos, mas a sua forte pressão para reiniciar os reactores pode ter criado uma pressão que contribuiu para a má conduta. A central de Hamaoka é particularmente sensível por se encontrar numa área considerada vulnerável a um grande sismo na Fossa de Nankai. Isto torna a falsificação de informação sobre o risco sísmico especialmente grave. O escândalo surge numa altura em que o Japão tenta reativar mais reatores nucleares para reduzir os custos de energia e as emissões de carbono, após as paragens causadas pelo desastre de Fukushima em 2011. Atualmente, o Japão tem apenas 11 dos seus 54 reatores comerciais em funcionamento. Fonte.
  • À medida que a indignação pública contra o governo nepalês vai aumentando na sequência dos deslizamentos de terra mortíferos no Nepal, documentos revelam que o novo primeiro-ministro do país e vários dos seus colegas chegaram ao poder graças, em parte, a um programa secreto patrocinado pelo governo dos EUA. Fonte.
  • Petição contra tribunais corporativos secretos usados pelas gigantes multinacionais para processar governos em milhares de milhões por decisões que moldam o nosso futuro coletivo.

REFLEXÃO

NEGOCIATA DE ENERGIA: DEFESA DO BARREIRO METEU SEIS MUNICÍPIOS NA MIRA DO TRIBUNAL DE CONTAS
Pedro Almeida Vieira e Elisabete Tavares. Página Um.


O Barreiro celebrou um contrato de 6,5 milhões de euros, por 20 anos, com um consórcio formado pelas empresas Amener Eficiência Energética e HUB7 Energy Services, para instalar e explorar painéis fotovoltaicos em espaços municipais. O contrato poderia, através de renovações, chegar aos 50 anos.
A autarquia tratou o negócio essencialmente como uma cedência de espaços municipais. O Tribunal de Contas (TdC), porém, entendeu que a realidade era diferente: estava também a ser contratado um serviço de produção de energia, pelo que deveriam ter sido aplicadas regras de contratação pública mais exigentes.
Como o valor ultrapassava os limiares europeus, o TdC considerou que deveria ter existido concurso público ou concurso limitado com publicação no Jornal Oficial da União Europeia. A hasta pública realizada teve apenas uma proposta.
O Tribunal recusou, por isso, o visto prévio ao contrato. Considerou ainda particularmente problemática a duração, já que os 20 anos iniciais poderiam chegar a 50 anos.
Na sua defesa, a Câmara do Barreiro argumentou que não era um modelo inédito e que outros municípios (Figueiró dos Vinhos, Guimarães, Belmonte, Almodôvar, Moita e Lisboa) e entidades públicas já tinham celebrado contratos semelhantes.
Essa tentativa de defesa acabou por ter um efeito contrário ao pretendido: o Tribunal decidiu averiguar outros municípios que tivessem utilizado modelos semelhantes, verificando se os contratos foram gratuitos ou onerosos e se foram submetidos à fiscalização prévia.

BICO CALADO

  • Treinador da águia do Benfica traficava no aeroporto de Lisboa. Fonte.
  • A televisão francesa censura a atriz Adèle Haenel depois de esta ter condenado o genocídio perpetrado por Israel na Palestina. Fonte.
  • O governo britânico arrecada 5 mil milhões de libras por ano com as taxas de imigração, enquanto os requerentes são forçados a endividar-se. As taxas de visto e de cidadania do Ministério do Interior chegam a ser 10 vezes superiores ao custo de processamento – e aumentam todos os anos. Fonte.
 
  • O argentino Fernando Cerimedo, especialista em interferência eleitoral de extrema-direita, foi detido na Bolívia depois de ter contratado assassinos para tentar matar a sua ex-namorada grávida, Nadia Beller. Eles falharam, e ela está agora a revelar a verdade. Cerimedo tem fortes ligações com o governo norte-americano e com os principais aliados de Donald Trump, como Marco Rubio. Cerimedo trabalhou para muitos líderes de direita apoiados pelos EUA na América Latina, incluindo Javier Milei, da Argentina, Rodrigo Paz, da Bolívia, a família Bolsonaro, do Brasil, e Nasry "Tito" Asfura, das Honduras. Cerimedo está também a ser investigado por tráfico de droga. Ben Norton explica este escândalo insano, que expõe como poderosos grupos de direita apoiados pelos EUA, com financiamento de oligarcas ricos, estão a manipular as eleições e a destruir a democracia.
  • Seis organizações de solidariedade britânicas registadas estão a angariar fundos para atividades e infraestruturas em colonatos israelitas ilegais. Fonte.
  • Por que razão já não querem estar na escola? Luís Ochoa

LEITURAS MARGINAIS

O AR DO TEMPO (2) E EM PORTUGAL (1)
José Pacheco Pereira, Público, 12set2026

Cartune: IA / Ambiente Ondas3

"Em janeiro de 2022, o PS ganhava as eleições com maioria absoluta. De 2015 a 2019, com o Governo da «geringonça», a que se seguiu o XXII Governo Constitucional, que caiu com a rutura da «geringonça», o PS chegou à maioria absoluta, o que significa que não houve rejeição do eleitorado dessa experiência.

Nestes mesmos anos eleitorais, de 2015 a 2026, o PCP tornou-se um partido residual, embora mantenha uma pequena parte da sua influência social através do movimento sindical. O Bloco de Esquerda (BE) praticamente desapareceu, quer em termos eleitorais, quer em termos de influência. O Livre ocupou parcialmente o seu espaço, mas não contrariou o declínio comunista e bloquista.

Ou seja, a esquerda, que era largamente maioritária há quatro anos, tornou-se minoritária, e o PSD prosseguiu a viragem à direita que começara com o Governo de Passos Coelho, foi interrompida por Rui Rio, mas se consolidou com Montenegro. Continuou a ser o primeiro partido desde o colapso do PS, absorveu o CDS, mas sofre de uma erosão na sua base de apoio e de uma paralisia governativa sem precedentes.

Claro que houve muitos erros cometidos, pelo PS em particular, a que se seguiu o facto de o PCP, ao apoiar a invasão russa na Ucrânia, e o BE, com os temas «fraturantes», cavarem a sua sepultura eleitoral. Mesmo assim, tudo isto não justifica a aceleração da queda, que tem também muito que ver com aquilo a que chamo o «ar do tempo» ou, para ser mais fino, o Zeitgeist. Esse ar do tempo não é apenas português, mas está cá e «nacionalizou-se».

Qual foi o principal instrumento nesta mudança? Um novo partido, o Chega, que do nada chegou a líder da oposição parlamentar, com 60 deputados na Assembleia. O crescimento parlamentar do Chega é um reflexo de um crescendo de influência com uma rapidez sem paralelo, que vai muito para além do voto.

O Chega mudou a ecologia política portuguesa, e não foi apenas pelo seu papel como partido «populista», mas pela introdução de um conjunto de temas que são de uma outra herança: a da ditadura do Estado Novo, a mais longa da Europa Ocidental, que durou de 1926 a 1974.

O Chega é hoje um partido de extrema-direita, designação que me parece mais correta do que o epíteto de «fascista», e estendeu a sua influência, radicalizando toda a direita, a começar pelo PSD. No debate que teve comigo, Ventura referiu-se pela primeira vez à Revolução do 25 de Abril como uma «revolução miserável» e, após uma prudência inicial, abriu as comportas não só à justificação da ditadura, como à assunção de uma continuidade de temas, lemas, símbolos e posições políticas salazaristas.

Resolveu, assim, um dilema da direita, que era não ter um passado apresentável, e que com o Chega começou a ter, com um papel relevante na propaganda da trilogia «Deus, Pátria e Família». O retorno à ideologia autoritária do Estado Novo, o revisionismo histórico sobre Salazar, a guerra colonial, a censura, os «feitos» do regime, acompanhado dos interpretadores económicos da escola do «Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas», passaram a servir de inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.

Este tipo de procura de história e memória molda os temas do «ar do tempo» português. Não é diferente do ar do tempo internacional, a começar por Trump purgar a história americana da escravatura e retomar os símbolos da Confederação, ou pela AfD alemã querer voltar a Bismarck para esconder Hitler, ou pelo Vox espanhol reabilitar o franquismo.

Igualmente como acontece no ar do tempo internacional, o «outro» é o inimigo próximo e imediato. O nacionalismo pseudopatriótico, traduzido na «defesa» dos portugueses e na luta contra a «invasão» estrangeira, os imigrantes, os muçulmanos, a associação do «outro» ao incremento da insegurança, pessoal e nas ruas, incorpora medos ancestrais e vive da ignorância e das falsidades. (...)"

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

INGLATERRA: DIRETOR DE COMPANHIA DE ÁGUAS JULGADO POR FRAUDE


O antigo diretor executivo da Southern Water, Matthew Wrightcompareceu em tribunal, acusado de conluio com intenção de defraudar, na sequência de alegações de que os testes de qualidade da água foram manipulados para evitar sanções. Fonte.

BICO CALADO

  • Vários bancos centrais europeus estão a transferir as suas reservas de ouro para fora dos EUA, motivados por duas preocupações principais: (1) Risco geopolítico e fiabilidade dos EUA – Receios de que os ativos detidos noutra jurisdição possam ficar temporariamente inacessíveis durante um cenário extremo de sanções, questões jurídicas ou geopolíticas; as preocupações com a imprevisibilidade das políticas da administração Trump e a sua crescente antipatia em relação à UE (incluindo ameaças relativas à Gronelândia) vieram agravar estas preocupações; (2) Preparação para situações de crise – A necessidade de manter o ouro mais perto de casa, ou num centro de negociação dinâmico, para que possa ser rapidamente mobilizado e aproveitado em caso de crise. O Banco Central dos Países Baixos transferiu cerca de 86 toneladas de ouro de Nova Iorque para Londres, invocando «instabilidade geopolítica» e uma melhor «preparação para situações de crise». França retirou a sua exposição remanescente em ouro do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque entre julho de 2025 e janeiro de 2026 (embora a França tenha afirmado que tal não teve motivação política). Alemanha e Itália: Os políticos de ambos os países (que detêm a segunda e a terceira maiores reservas de ouro do mundo) apelaram também para que o seu ouro fosse retirado dos EUA. Fonte.
  • A menos de dois meses da primeira edição do MEO Commedia a La Carte Fest, vários artistas nacionais cancelaram os respetivos espetáculos num gesto de contestação à presença de Jerry Seinfeld, um defensor de Israel que já afirmou que "a Palestina não existe". Fonte.
  • Israel mantém 37 jornalistas palestinianos nas suas prisões, incluindo 19 em detenção administrativa, sem acusação nem julgamento. Fonte.
  • ‘Eis a idade de consentimento para as raparigas, em 1880, em todo o mundo: 7 a 12 anos nos EUA, 10 anos na Rússia, 12 anos na Austrália, no Canadá, na Dinamarca, em Portugal, na Escócia e em Espanha, 13 anos na Bulgária, na Inglaterra e no País de Gales, em França e na Polinésia Francesa, 14 anos na Alemanha e na Áustria, 15 anos na Roménia e na Turquia.’ Quando a idade de consentimento para as meninas era de 10 anos nos Estados Unidos. Linda Caroll, Medium.

LEITURAS MARGINAIS

DE GUIMARÃES AO GENOCÍDIO



O presidente da câmara de Guimarães, município com o cognome ‘cidade berço de Portugal, recebe o embaixador de Israel, para estreitar a cooperação, entre outras áreas, na “protecção civil”.
Sim, Guimarães vai recorrer a Israel para “explorar novas possibilidades de cooperação em áreas estratégicas para o desenvolvimento do território”, e a autarquia destaca “a protecção civil” (ler texto infra).

Como o presidente da câmara é identificado com o nome “Ricardo Araújo” pensei, por um instante, que fosse mais uma boa pilhéria do nosso RAP e que faltava só o último nome dele neste número burlesco. Mas não. Trata-se mesmo do presidente da câmara de Guimarães e não do cómico homónimo.

Israel é obviamente a parceria que os municípios portugueses devem procurar para reforçar a segurança dos seus cidadãos, sobretudo se forem lusitanos da primeira hora, claro.

O governo de Netanyahu dispõe dos maiores especialistas na área da protecção civil. O seu trabalho está bem patente na Palestina (Faixa de Gaza e Cisjordânia), mas também no Líbano, na Síria e até em remotas aldeias do Iraque e Irão. Onde houver casas ainda de pé, onde houver mercados, aldeias, hospitais, escolas, onde viverem famílias com crianças, o governo de Netanyahu tem uma solução para acabar, de vez, com o problema.

Outras autarquias que queiram resolver os seus problemas urbanos, por exemplo bairros étnicos ou minorias contestatárias que exijam água e comida ou direitos cívicos, deviam, desde já, aderir a esta iniciativa do autarca de Guimarães.

Mas também noutras áreas, como “a inovação” e “a tecnologia” a câmara municipal de Guimarães e o seu autarca querem estreitar as relações com Israel. Ora sabemos que programas de reconhecimento facial, para identificar minorias e delinquentes, tal como drones guiados por Inteligência Artificial que atacam zonas residenciais, podem ser programados para reconhecer e atacar outros alvos. A imaginação será o limite para o senhor presidente da câmara Ricardo Araújo. Quanto à imaginação do embaixador de Israel, não tenho grandes dúvidas quanto aos alvos que tem na mira. A história repete-se, uma e outra vez, primeiro como tragédia, depois como número de comédia stand up dum autarca oportunista.

domingo, 13 de setembro de 2026

AZAMBUJA: EXPLORAÇÕES PECUÁRIAS AUTUADAS POR POLUÍREM RIBEIRA

Foto: Correio de Azambuja
  • Explorações pecuárias foram alvo de três acções de fiscalização relacionadas com denúncias de poluição causada por efluentes pecuários na zona de Azambuja que deram origem a autos de contra-ordenação por infracções que, nos casos mais graves, podem levar a coimas entre 24 mil e 144 mil euros. As fiscalizações surgem num contexto de queixas sobre a poluição da ribeira do Valverde, que atravessa Azambuja e que é há vários anos motivo de preocupação. Nas últimas semanas, os maus cheiros voltaram a provocar protestos, com um munícipe a denunciar em reunião pública do executivo da Câmara de Azambuja, um odor intenso associado a efluentes pecuários. Fonte.
  • “17 horas de sábado, 35 graus em Monte Córdova. Um vento quente e perigoso que se levanta. Na festa de Valinhas prepara-se mais um bombardeamento dos nossos ouvidos, que matará também passarada, deixará outros animais abalados, surdos, etc. Este ano a festa tem também o apoio da Edilages, a pedreira que vai ser responsável pelos próximos rebentamentos, bem ali perto de casas e de onde hoje o fogo de artifício vai iluminar o céu de uma noite de verão e ventania. Já não é o primeiro ano que este fogo provoca incêndio nesta zona. Boa sorte para logo. E como não há vigilância nem autoridades para suspender o fogo, até um ateu como eu não tem escolha senão confiar na nossa senhora de Valinhas.” Ricardo Meireles.

BICO CALADO

  • Entidades públicas entregam mais de 1,2 milhões de euros ao jornal britânico Financial Times. O P1 identificou pelo menos 22 operações financeiras entre entidades públicas portuguesas e o universo Financial Times, num valor nominal superior a 1,22 milhões de euros desde 2019. Só o Turismo de Portugal concentrou 766.643 euros em "acções de promoção". Entre os melhores clientes nacionais seguem-se a Nova SBE, presença assídua e quase sempre elogiosa nas páginas do jornal britânico, e a Câmara do Porto, com mais de 200 mil euros em contratos.

LEITURAS MARGINAIS

COMO A GRÃ-BRETANHA PERMITIU QUE PINOCHET ESCAPASSE À JUSTIÇA PELAS ATROCIDADES COMETIDAS
JOHN McEVOY, Declassified UK. Rev. O’Lima.


Há 25 anos, o governo do Reino Unido permitiu que o antigo ditador do Chile escapasse à extradição para Espanha. Documentos desclassificados revelam como essa decisão foi tomada. Documentos revelam que Margaret Thatcher fez um acordo secreto com Pinochet durante a década de 1980. Um conselheiro sénior de Tony Blair comentou: «Seria obviamente embaraçoso se tudo isto viesse a público»

A 2 de março de 2000, Augusto Pinochet atravessou com passos vacilantes a pista da base aérea da RAF Waddington, em Lincolnshire, e embarcou num jato da Força Aérea chilena, dando assim os seus últimos passos em solo britânico. O antigo ditador acabara de ser declarado inapto para ser julgado pelo ministro do Interior britânico, Jack Straw, e foi autorizado a regressar ao Chile com efeito imediato. Pinochet tinha passado os 16 meses anteriores em prisão domiciliária na Grã-Bretanha, aguardando o desfecho de um pedido de extradição espanhol por violações dos direitos humanos cometidas sob o seu regime.

Entre 1973 e 1988, agentes do Estado chileno foram responsáveis por mais de 3 000 mortes ou desaparecimentos e por dezenas de milhares de casos de tortura e detenções políticas. O pedido de extradição espanhol relativo a Pinochet incluía acusações de homicídio e tortura. A decisão do governo britânico de permitir que Pinochet escapasse à justiça foi, consequentemente, recebida com indignação, especialmente depois de o ditador ter dado sinais milagrosos de recuperação à chegada a Santiago. Muitos suspeitaram que tivesse sido alcançado um acordo político para permitir o regresso de Pinochet ao Chile, sob o pretexto de um relatório médico controverso que alegava que ele estava incapaz de dar instruções aos seus advogados.

Documentos recentemente desclassificados revelam agora como o processo judicial tinha sido complicado por um acordo secreto feito com Pinochet por Margaret Thatcher durante a década de 1980. Segundo os documentos, Thatcher teria prometido ao ditador assistência médica no Reino Unido em troca do apoio militar e dos serviços secretos do Chile durante a Guerra das Malvinas, em 1982. Os documentos revelam ainda como a ideia de libertar Pinochet por motivos de saúde tinha sido discutida em pormenor à porta fechada, com as autoridades chilenas a defenderem uma solução «humanitária» para a crise.

O deputado Jeremy Corbyn, um proeminente apoiante da campanha pela extradição de Pinochet, comentou: «Houve sempre pressão para permitir que Pinochet regressasse… Esta história inventada sobre a sua saúde foi elaborada e disseram-nos que ele era um homem que estava a perder a memória, que a idade estava a fazer-se sentir e que não estaria apto para ser julgado».

«Seria embaraçoso se isto viesse a público»

O mandado de detenção de Pinochet foi executado pouco antes da meia-noite de 16 de outubro de 1998 na London Clinic, um hospital privado na capital inglesa. Foi emitido tão tarde porque «os serviços secretos indicavam que Pinochet planeava deixar o hospital e o país de forma iminente», segundo uma nota informativa desclassificada da Polícia Metropolitana. Os agentes britânicos à paisana destacados no hospital estavam também «discretamente armados» para impedir a «fuga assistida de Pinochet da custódia policial» para a embaixada chilena nas proximidades.

À medida que os agentes de polícia cumpriam os seus deveres legais, as notícias da detenção de Pinochet começaram a chegar a Whitehall, desencadeando discussões internas frenéticas que antecipavam uma potencial tempestade política.

Uma das comunicações mais notáveis foi enviada ao então primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, pelo seu secretário particular principal, John Holmes, no dia da detenção de Pinochet. «Deve saber que as autoridades espanholas solicitaram a extradição do general Pinochet, que se encontra atualmente em Londres a receber tratamento médico», soube Blair. «A situação é um pouco mais complicada do que pode parecer», continuou Holmes. «Aparentemente, temos um acordo com ele, estabelecido no passado, devido à nossa cooperação com os chilenos contra a Argentina na altura da crise das Malvinas, no sentido de o ajudarmos com o tratamento médico em Londres». Holmes observou de forma ameaçadora: «Seria obviamente embaraçoso se tudo isto viesse a público».

Temendo o expansionismo argentino, o regime de Pinochet tinha prestado apoio militar e de informações à Grã-Bretanha durante a guerra das Malvinas, em troca de lucrativos negócios de armas que incluíam a venda de jatos Hawker Hunter e de aviões de reconhecimento fotográfico Canberra.

Vários documentos relativos ao apoio do regime chileno à Grã-Bretanha durante a guerra continuam classificados como confidenciais pelo Ministério da Defesa e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido.

Apesar destas complicações, Holmes manteve-se cautelosamente otimista em relação ao caso Pinochet. «Com sorte, tudo isto pode acabar por não dar em nada», disse ele a Blair. Holmes acrescentou: «O Ministério do Interior partilha a minha opinião de que é melhor que o pedido de extradição não vá para a frente», aparentemente contrariando a posição inicial de Jack Straw sobre o assunto.

Motivos humanitários

O otimismo de Holmes era infundado. Pinochet foi colocado em prisão domiciliária enquanto os tribunais britânicos deliberavam sobre como proceder relativamente ao pedido de extradição. A Câmara dos Lordes proferiu uma decisão histórica segundo a qual os antigos chefes de Estado não podiam gozar de imunidade judicial relativamente aos crimes internacionais mais graves.

Ao longo deste período, as autoridades chilenas pressionaram constantemente o governo britânico para que libertasse Pinochet por motivos «humanitários», ao mesmo tempo que salientavam que as relações entre o Reino Unido e o Chile ficariam prejudicadas caso Pinochet fosse extraditado, revelam os arquivos desclassificados.

Em novembro de 1998, o ministro dos Negócios Estrangeiros chileno, José Miguel Insulza, reuniu-se com ministros britânicos em Downing Street, informando-os de que o seu governo «pretendia defender a libertação por motivos humanitários». Pinochet era «um homem doente de 83 anos» e «deveria ser libertado» por razões de saúde, declarou ele. Insulza salientou ainda que «o Chile mantinha melhores relações com o Reino Unido do que com qualquer outro país europeu há 150 anos», e que essas relações seriam prejudicadas por qualquer decisão de aprovar a extradição de Pinochet.

O presidente do Senado do Chile, Andrés Zaldívar, também exerceu pressão sobre o governo do Reino Unido para que libertasse o antigo ditador por motivos humanitários. No início de dezembro, Zaldívar disse a Blair que o Senado lhe tinha dado «apoio unânime» na pressão para a libertação de Pinochet, sublinhando que «fatores políticos e humanitários» deveriam ser utilizados para recusar a extradição.

Os argumentos das autoridades chilenas foram, em alguns aspetos, apoiados por pareceres jurídicos internos fornecidos a Blair e a Straw. A 27 de novembro de 1998, o ministro do Governo Charles Falconer informou Downing Street de que a decisão de Straw sobre a extradição deveria ter em conta questões como «a saúde de Pinochet» e «o efeito noutros países… caso estes sentissem que os seus antigos líderes poderiam estar em risco desta forma». Falconer, que é casado com a filha do antigo embaixador britânico no Chile, David Hildyard, acrescentou: «A vantagem de tratar deste assunto agora é que o regresso seria provavelmente mais fácil do que após uma longa batalha judicial em que as atrocidades fossem detalhadas e Pinochet saísse derrotado».

«Perigo nacional extremo»

Não foram apenas as autoridades chilenas que pressionaram pela libertação de Pinochet. Margaret Thatcher escreveu a Blair a 25 de novembro de 1998 para afirmar que «a decisão certa neste momento é agir rapidamente para o libertar e permitir que regresse a casa». Pinochet era «um homem idoso e doente que, apenas por razões humanitárias, deveria ser poupado ao que o futuro lhe reservaria de outra forma», declarou ela. Referindo-se à guerra das Malvinas, Thatcher acrescentou que «só poderia prejudicar a reputação deste país se se soubesse que aqueles que, tal como o senador Pinochet, foram nossos amigos íntimos em momentos de perigo nacional extremo, podem posteriormente esperar ser tratados desta forma».

Até o Vaticano se pronunciou. Poucas semanas após a detenção de Pinochet, o equivalente ao secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros da Santa Sé escreveu a Blair para sublinhar a sua convicção de que «existem todos os requisitos para um gesto humanitário a favor de um homem de 83 anos, doente e que se tinha deslocado a Londres para uma operação cirúrgica grave».

Em meados de 1999, a pressão conjunta sobre o governo britânico para libertar Pinochet parecia estar a dar frutos quando foi elaborado um acordo entre o Chile, a França, a Espanha e o Reino Unido para que Straw rejeitasse o pedido de extradição e «devolvesse Pinochet ao seu país por “razões humanitárias”». O ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Robin Cook, terá dito ao seu homólogo espanhol, Abel Matutes, que «não o deixaria [Pinochet] morrer na Grã-Bretanha», ao que Matutes respondeu: «Não o deixarei vir para Espanha».

Após o regresso de Pinochet ao Chile, este tornou-se alvo de dezenas de processos judiciais relacionados com violações dos direitos humanos e corrupção. No entanto, nunca foi condenado e faleceu em 2006.