MISSÃO ARTEMIS-2 À LUA: UM DELÍRIO PERIGOSO DE CRIANÇAS MIMADAS
O lançamento do foguetão Space Launch System da NASA, para a missão Artemis-2, na noite de 1 para 2 de abril de 2026.
- © NASA / Joel Kowsky
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O programa Artemis da NASA, que visa construir uma base na Lua com vista à sua exploração económica, encarna na perfeição esse imaginário astrocapitalista, no que há de mais irracional e tóxico. A agência espacial norte-americana acaba de dar um passo fundamental neste programa, com o lançamento bem-sucedido da missão Artemis-2, na noite de 1 para 2 de abril, num clima de entusiasmo generalizado por parte dos media, em grande parte desprovido de espírito crítico. (…)
Conquista e busca pelo poder
Tudo isto para quê? Certamente não é pela ciência. Esta serve, com demasiada frequência, de pretexto e de desculpa para a inutilidade dos voos espaciais tripulados. A maioria das missões científicas de exploração do cosmos pode ser realizada com igual ou melhor eficácia por robôs, a um custo infinitamente menor. Foi precisamente isso que observou um dos investigadores entrevistados pela revista científica Nature em 31 de março, demonstrando o pouco entusiasmo, ou mesmo o desinteresse, de grande parte da comunidade científica pelo programa Artemis.
É importante distinguir bem duas coisas: a exploração espacial e a conquista espacial. A primeira, movida pelo espírito de curiosidade, pela fasciínio pelos mistérios do universo e pelo desejo de compreender melhor o mundo, pode estar repleta das virtudes da ciência, incluindo o lançamento de satélites de observação, hoje cruciais para estudar o clima terrestre, entre outros.
A conquista espacial, por sua vez, responde a uma ambição totalmente diferente. Trata-se de colonizar novos territórios, de despertar os nacionalismos ao hastear bandeiras e de explorar sem limites os recursos minerais dos corpos celestes. É, antes de mais nada, uma corrida pelo poder e pelos símbolos de poder.
Os bilionários Elon Musk e Jeff Bezos, como duas crianças grandes e narcisistas, disputam quem terá o foguetão maior. Proprietários, respetivamente, das empresas espaciais SpaceX e Blue Origin, ambas parceiras da NASA, travam uma corrida para ver quem terá a ilustre honra de pousar o seu módulo na Lua em primeiro lugar. Os Estados Unidos, de forma mais geral, estão obcecados com a ideia de regressar à Lua antes da China.
A grave patologia que afeta estes líderes mundiais de primeira linha deve ser interpretada literalmente. O lançador espacial Starship, de Musk, foi inicialmente batizado de «Big Fucking Rocket» (a «Porra de um foguetão enorme»). A desmesura, a vontade de poder e de conquista ultrapassam, no entanto, os seus casos pessoais: são o síndrome sistémico do capitalismo, da sua arrogância que encontra no espaço o seu local de expressão ideal.
Alimentar a negação da realidade
Nesse sentido, o aspeto mais importante da conquista espacial não é o que ela realmente consegue realizar, mas o que ela conta. A sua narrativa, a sua visão do mundo, ainda amplamente dominante, tornaram-se indispensáveis para justificar o comportamento irresponsável da classe capitalista.
Todos compreenderam bem que um crescimento infinito num planeta finito é impossível. A ciência mostra que estamos a tornar a Terra inabitável, já ultrapassamos a maioria dos limites planetários, a situação só piora e pode mesmo chegar a um ponto de ruptura muito rapidamente. Mas, uma vez que a necessidade de acumulação crescente de capital é inegociável para o sistema, ouvir a ciência não é uma opção.
É melhor continuar como antes e alimentar a negação da realidade. Começamos então a fabular: a sonhar com mundos infinitos, com a colonização espacial. Exploramos excessivamente a Terra, mas isso não é assim tão grave, prometem-nos muitos planetas de substituição! A aldeia lunar permitirá, dizem-nos, explorar metais raros na Terra, recolher hélio-3, combustível dos futuros reatores de fusão nuclear, outra fantasia capitalista de fonte de energia infinita.
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Mas a Lua é apenas uma etapa. Deve preparar a conquista de Marte, a obsessão de Elon Musk. Este último chegou mesmo a confidenciar, em fevereiro, o seu desejo de ver a humanidade «tornar-se uma civilização de tipo II na escala de Kardashev», ou seja, ser capaz de captar toda a energia da sua estrela. O seu rival, Jeff Bezos, promete, por seu lado, um futuro radiante feito de cidades-nave cilíndricas (para simular a gravidade), cada uma contendo milhares de milhões de seres humanos, prontos para se espalharem pelo espaço. Estes «cilindros de O’Neill» são um clássico da ficção científica, desde os romances de Arthur C. Clarke até ao filme Interstellar, de Christopher Nolan.
É claro que se trata de projetos totalmente irrealistas. Essas fantasias demiúrgicas de adolescentes tirânicos seriam risíveis se não estivessem a guiar o mundo. E se os defensores tecno-idolátricos destas visões do mundo não usassem de uma retórica falaciosa para silenciar as críticas: recusar estas fantasias de ópera espacial seria ser reacionário, ser anticientífico, querer regressar à Idade da Pedra e negar as potencialidades emancipadoras do génio humano.
Voltar à Terra
No entanto, é precisamente o contrário. A verdadeira lição que a astronomia nos ensina é que a Terra é insubstituível para a humanidade. Para quem realmente dá ouvidos à ciência, é claro que a prioridade absoluta deveria ser concentrarmo-nos no nosso planeta e na degradação cataclísmica da biosfera que estamos a provocar.
Longe de ser uma ambição reduzida, isso pressupõe, pelo contrário, mobilizar tesouros de engenho humano. O que há de mais complexo e fascinante do que tentar compreender a vida de milhões de organismos do solo e integrá-los num projeto titânico de revolução agroecológica mundial? Que aventura científica mais emocionante do que decifrar o canto das baleias e os poderes secretos das árvores? Que desafio para a imaginação mais ambicioso do que descobrir como desmantelar todas as multinacionais petrolíferas sem provocar uma crise financeira global?
Estas grandes questões têm apenas um defeito: não favorecem nem geram qualquer aumento dos lucros do capital. No entanto, são elas, e não as aventuras adulteradas pela propaganda astrocapitalista, que mereceriam ainda o rótulo de «progresso».
É mais do que urgente travar esta guerra dos imaginários, para que se dedique mais energia e atenção mediática a estes temas do que ao passeio cósmico de quatro astronautas. Se isso vier a acontecer um dia, talvez a humanidade tenha começado a tornar-se adulta e a aceitar a sua finitude, condição paradoxal da sua sobrevivência.