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quarta-feira, 29 de julho de 2026

ESPINHO: BIRD VAI DE CARRINHO

Foto: DE

A Câmara de Espinho notificou a Birdempresa responsável pelo sistema de bicicletas e trotinetas elétricas de uso partilhado, para retirar todos os equipamentos existentes no concelho até 31 de julho, na sequência da caducidade do protocolo em 26 de março.


Logo em meados de maio de 2022 o blogue Ambiente Ondas3 alertava para uma série de problemas provocados pela introdução deste negócio nas ruas de Espinho. O alerta pareceu merecer a indiferença das autoridades locais, apesar do dilúvio de críticas proferidas nos cafés e praças públicas
Só em meados de outubro de 2022 é que os responsáveis eleitos pareceram ter despertado para o problema, tendo o blogue Ambiente Ondas3 disso dado conta:

Espinho: trotinetes Bird incumprem protocolo assinado com a autarquia

A presença das trotinetes Bird em Espinho está envolta em pormenores nebulosos, próprios de uma suposta negociata. Não houve transparência, não houve concurso público, a presença e operação da Fastbird Rides Portugal, Unipessoal, Lda. foi um facto consumado. Esta operadora foi isentada de taxas de ocupação de espaço público apesar de visar fins lucrativos. Assume uma atitude predadora ao impôr um euro só pelo prévio desbloqueamento da trotinete. Contrariando o previsto no protocolo assinado em março de 2022, não há parqueamentos visíveis e devidamente assinalados, nem regras visíveis e físicas de utilização. Além disso, parece não haver transparência fiscal: a empresa exige ao utente o número fiscal mas não emite fatura, apenas uma espécie de recibo com referência ao IVA aplicado, englobando tudo, não discriminando o euro exigido antes da prestação de qualquer serviço e omitindo data, hora, duração do serviço prestado, distância percorrida, preço por minuto e o nome oficial da empresa - Fastbird Rides Portugal, Unipessoal, Lda.
Por isso, o PSD aprovou, em reunião de Câmara, contra a forma como o negócio foi feito. Posteriormente, fez aprovar na reunião da Assembleia Municipal de 18 de outubro, - com a solitária abstenção do presidente da Junta de Freguesia de Paramos -, um documento recomendando à Câmara que procedesse a uma reflexão sobre os pontos negativos do serviço prestado, apontasse à operadora os incumprimentos do protocolo estabelecido, elaborasse um regulamento para melhorar a política de mobilidade em espaço urbano, criasse condições para obrigar a operadora a colocar as trotinetas nos pontos de partida e fiscalizasse adequadamente esta atividade, garantindo o cumprimento do protocolo estabelecido.

Desconhecemos se alguma vez o protocolo estabelecido foi alguma vez cumprido na íntegra. Finalmente, quatro anos depois de tanto abuso e rebaldaria, as trotinetes de aluguer são expulsas. Espinho, Braga e Gaia já puseram os pontos nos ii. Há uns anos, a ‘coisa’ correu mal para as operadoras a ponto de elas próprias terem debandado de Santarém, Almeirim, Cartaxo e Tomar.

AÇORES: PARLAMENTO APROVA CRIAÇÃO DE COMISSÃO PARA FISCALIZAR E AVALIAR DESCONTAMINAÇÃO DOS SOLOS E AQUÍFEROS JUNTO DA BASE DAS LAJES

  • O parlamento dos Açores aprovou uma proposta subscrita por vários partidos para a criação de uma Comissão Técnica Independente com o objetivo de fiscalizar, acompanhar e avaliar o processo de descontaminação dos solos e aquíferos na ilha Terceira junto à Base das Lajes. A iniciativa, que partiu do deputado único do Bloco de Esquerda, António Lima, foi subscrita pela maioria dos partidos com assento parlamentar (PSD, PS, CDS-PP, PAN e PPM). Fonte.
  • A Câmara de Anadia rejeitou um pedido para a atribuição de uma área destinada à prospeção e pesquisa de depósitos minerais de areias siliciosas e argilas especiais nas freguesias de Vila Nova de Monsarros e da União de Freguesias de Tamengos, Aguim e Óis do Bairro. Para além dos impactos nos terrenos florestais e agrícolas adjacentes, alega-se a presença de uma bacia hidrográfica, de um reservatório e conduta em alta e de duas captações que abastecem a zona urbana da cidade, hospital, IPSS e demais entidades.
  • O maior projeto de captura de carbono da Europa, gerido pela Yara nos Países Baixos, é uma «distração perigosa» e não uma solução climática. A «amónia azul» produzida depende do gás fóssil, não resolve o problema das fugas de metano e não resolve o facto de dois terços das emissões dos fertilizantes azotados ocorrerem no campo (fora do alcance da captura de carbono). O projeto depende de milhares de milhões em subsídios dos contribuintes e condena a Europa a depender de importações de gás fóssil caras e voláteis. Aumenta a dependência da Europa do gás importado (especialmente dos EUA) e não faz nada para proteger contra picos de preços ou interrupções no abastecimento. Não aborda os enormes danos ambientais e económicos causados pela poluição por azoto resultante do uso excessivo de fertilizantes sintéticos. O Center for International Environmental Law apela à reorientação de fundos para soluções agroecológicas, como a utilização de leguminosas para fixar azoto de forma natural, o que reduziria a dependência dos combustíveis fósseis e tornaria a agricultura mais resiliente.
  • A Austrália está a gastar mais de quatro vezes mais no apoio aos combustíveis fósseis do que nas energias renováveis. Fonte.

REFLEXÃO: FOTOVOLTAICOS COM JUÍZO


A energia solar tem um papel importante a desempenhar na transição energética, mas isso não deve acontecer em detrimento das terras que alimentam o país.

Antes de instalar centrais solares em campos cultivados, a prioridade lógica reside noutro lado:

- Em primeiro lugar, os telhados de armazéns, zonas comerciais e edifícios industriais já construídos
- Em seguida, terrenos baldios, terrenos degradados e espaços sem vocação agrícola
- As terras férteis e as explorações familiares, por seu lado, continuam protegidas

Produzir eletricidade tem valor. Produzir alimentos também. Existem telhados não utilizados suficientes para não ser necessário escolher entre os dois. Fonte.

BICO CALADO

  • Chile: Detido último ex-militar condenado por assassinar Victor Jara. O ex-oficial do Exército Nelson Haase Mazzei era o que faltava apanhar dos condenados pelo sequestro e homicídio do cantor e compositor Víctor Jara, após o golpe de Estado de 1973, no Chile. Fonte.
  • Uma análise da Agência Antidroga dos EUA (DEA) concluiu que a campanha de bombardeamentos de embarcações, que muitos especialistas jurídicos e grupos de direitos humanos consideram atos de homicídio, não reduziu a quantidade de cocaína que entra no país. Os analistas da DEA concluíram que os ataques não tinham afetado a oferta nem o preço da cocaína nos EUA e tinham levado os traficantes a diversificar para além das lanchas rápidas e a evitar as águas internacionais, optando, em vez disso, por embarcações maiores e navegando junto à costa, onde é menos provável que as forças norte-americanas abram fogo. Fonte.
  • BE quer revogação da autorização do Governo para despejar repúblicas em Coimbra. Fonte.

terça-feira, 28 de julho de 2026

MATOSINHOS: PRAIA DE ANGEIRAS SUL DESACONSELHADA PARA BANHOS

  • A Agência Portuguesa do Ambiente desaconselha a ida a banhos na praia de Angeiras Sul, em Matosinhos, no distrito do Porto, devido a contaminação microbiológica. Fonte.
  • A Quercus alertou que a localização do novo aeroporto de Lisboa coloca em risco o maior aquífero da Península Ibérica e o abastecimento de água ao distrito de Setúbal e reforçou a necessidade de uma avaliação ambiental rigorosa. Fonte.
  • Na Rua de S. José, em Riachos, Torres Novas, um estabelecimento que fuesgnciona como lar de idosos descarrega águas residuais na rede de pluviais. O abuso persiste, apesar de o executivo camarário ter sido alertado por um morador que se considera lesado. Fonte.

CAMBOJA: BLOCOS ANTI-ARRASTO REVITALIZAM RECIFE


  • No arquipélago de Koh Sdach, no Golfo da Tailândia, no Camboja, uma iniciativa liderada pelo governo e por uma ONG, visa pôr fim à pesca ilegal com redes de arrasto e revitalizar o recife através da colocação de grandes blocos de betão no fundo do mar. Fonte.
  • A Alemanha está a introduzir restrições ao consumo de água, uma vez que a seca prolongada e as ondas de calor recorrentes estão a exercer pressão sobre os recursos hídricos. Cerca de 80 municípios impuseram limites a atividades como encher piscinas, regar jardins e lavar carros. Fonte.
  • Sem selfies, sem telemóveis: por que razão os destinos de vida selvagem estão a começar a dizer «não» aos turistas. Fonte.

REFLEXÃO

TERCEIRA: CONTAMINAÇÃO DOS SOLOS PERSISTE NA BASE DAS LAJES, CONFIRMA RELATÓRIO DO LNEC
Nuno Martins Neves, Açoriano Oriental, 24 julho 2026


Segundo o mais recente relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, a contaminação dos solos da base usada pelos EUA obrigou à remoção de solos contaminados, extração de hidrocarbonetos e fecho de piezómetros mal construídos, que podiam constituir fonte de passagem de contaminantes

A mais recente campanha de monitorização levada a cabo pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil revelou que continuam a ser removidos solos contaminados da Base das Lajes, de acordo com a resposta do Governo Regional dos Açores ao requerimento apresentado pela representação parlamentar do Bloco de Esquerda Açores, intitulado "Contaminação ambiental persistente na Base das Lajes, responsabilização dos Estados Unidos da América ao abrigo do acordo de cooperação e defesa, e nova evidência de exposição humana a metais pesados".
No documento, o executivo regional detalha o relatório do LNEC, datado de 2025 e que foi apresentado na Comissão Técnica e Comissão Bilateral Permanente, a 20 de março corrente.
Nele, o LNEC informa que, no Main Gate, foram drenados e inertizados 1100 metros de pipelines inativos, com 600 metros de pipelines selados e 500 metros removidos. Foram ainda removidos cerca de 70 metros cúbicos de solos contaminados ao redor dos pipelines e extraídos cerca de 277 litros de hidrocarbonetos sobrenadantes em cinco piezómetro [n.d.r. um instrumento utilizado na
engenharia geotécnica e geologia para medir a pressão da água em solos e rochas, bem como o nível dos lençóis freáticos ]. Foram inspecionados 61 piezómetros, dos quais 11 foram fechados por má construção "podendo constituir fonte de passagem de contaminantes"; 26 foram reparados; e foram construídos três novos no aquífero basal.
No South Tank Farm, em 2025 não foram efetuadas intervenções, com o relatório a assinalar, porém, a remoção de dois grandes tanques de armazenamento e dos solos envolventes, em 2023. O LNEC recomendou a continuidade das operações de remoção de hidrocarbonetos líquidos acumulados no subsolo e a manutenção da monitorização apesar de "os resultados obtidos na área intervencionada apresentarem valores inferiores aos níveis de referência para contaminação".
No Cinder Pit, das três zonas que compõem o local, foi na Zona 2 que as análises confirmaram, em 2024, a persistência de contaminação de solos por contaminantes orgânicos "acima dos valores de referência". O que leva o LNEC a recomendar a "necessidade de promover ações destinadas à sua
reabilitação".
A resposta ao requerimento também confirma que, entre 2020 e 2021,o Governo dos EUA não
reconheceu o "impacto substancial para a segurança e saúde humana" da contaminação dos solos, razão pela qual não entendeu não se justificar qualquer intervenção.
Uma posição que o Governo Regional dos Açores diz ter sido contra desde o primeiro momento, defendendo a necessidade de se manter as ações de monitorização, mitigação e reabilitação ambiental, postura defendida "de forma clara e persistente" quer na Comissão Técnica, quer na Comissão Bilateral Permanente, quer também junto do Governo da República.
Os EUA reverteram a sua posição no final de 2022, atribuindo a resposta à atuação "perseverante" do Vice-presidente do governo açoriano.
Os trabalhos de descontaminação e reabilitação ambiental foram retomadas, apesar do Governo Regional entender que não correspondem "plenamente as expectativas" do executivo. Ainda assim, foram efetuados avanços, ao serem reclassificados locais anteriormente como contaminados.
Sobre se o Governo Regional vai ter em linha de conta a tese de doutoramento e o artigo cientifico que detectaram metais pesados em concentrações superiores em esqueletos de residentes da Praia da Vitória, o mesmo diz que acompanha a evolução da matéria científica nesta matéria, mas que as decisões e articulações entre os dois países deve continuar assente em "informação técnica e cientifica sólida, transparente e devidamente validada".
Questionado sobre se importa pedir aos EUA uma nova avaliação atualizada e independente, à luz da nova evidência científica, o Governo Regional não responde diretamente, afirmando apenas que "sempre que essa evidência justifique, o Governo Regional dos Açores continuará a defender a realização dos estudos e das avaliações científicas que se revelem necessários".

domingo, 26 de julho de 2026

BORBA: DETIDOS POR CAÇA DE OURIÇOS-CACHEIROS

Foto: Francisco Clamote. 
  • GNR de Borba detém 5 homens por caça ilegal a ouriços-cacheiros, uma espécie em declínio. Fonte.
  • Pela primeira vez em França, um projeto de centro de dados foi suspenso por via de medida cautelar pela justiça, no departamento de Drôme. Uma vitória provisória, devida à ausência de um estudo de impacto ambiental para este projeto, cujo custo está estimado em 1,5 mil milhões de euros. Fonte.
  • O Ministério do Ambiente da Alemanha aprovou um projeto franco-russo para a produção de barras de combustível utilizadas em reatores de conceção russa na cidade de Lingen, no noroeste da Alemanha. O projeto de joint venture entre uma subsidiária da francesa Framatome e da russa Rosatom suscitou receios de espionagem, mas as autoridades alemãs afirmaram que não tinham qualquer possibilidade legal de o rejeitar. Fonte.
  • Os apicultores e ambientalistas em França reagiram com indignação depois de o parlamento ter aprovado um projeto de lei que reautoriza a utilização de dois neonicotinóides para combater doenças que destroem as culturas mas que irá matar as abelhas e reduzir as colheitas. Fonte.

BICO CALADO


A propósito de ajuste direto de 120 mil euros da Câmara para sunset party em Espinho a cargo de empresa feita à pressa e sem currículo. Via Mário Ortigão.


A Câmara Municipal de Espinho atribuiu apoio de 60.000 euros à Paróquia de Nossa Senhora d'Ajuda de Espinho para realização de obras de beneficiação e requalificação da Capela de Nossa Senhora d'Ajuda, obra orçada em 390 mil euros. E, como se trata de obras que certamente vão exigir cimento preparado por betoneira, nada como um texto adequado de tipo betoneira como o fabricado pelo executivo camarário e copicolado na íntegra pelos media locais e adjacentes. Reparem no texto dedondinho onde perdemos a contagem do número de vezes em que certas palavras são repetidas.

Sobre este tema, convirá ler e apreciar este soneto.

LEITURAS MARGINAIS

SALAZAR NÃO MORREU POBRE: E ISSO NÃO É UM PORMENOR
Paulo Marques, baseado numa reportagem da revista Sábado.


«Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves, publicado na revista “Sábado” (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026), veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que “morreu pobre”.

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o quadro completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Convém, aliás, não perder de vista uma evidência que por vezes desaparece das discussões sobre a probidade pessoal de Salazar. O antigo presidente do Conselho permaneceu no poder durante trinta e seis anos, não porque fosse regularmente submetido ao veredicto de eleições livres e competitivas, mas porque dirigia um regime que controlava a vida política do país. Os partidos foram proibidos ou severamente condicionados, a União Nacional manteve o monopólio do apoio institucional ao regime, a censura limitava a liberdade de expressão e a polícia política vigiava, perseguia, prendia e, em alguns casos, esteve associada à morte de opositores. Tudo isto não serve para demonstrar que Salazar se tenha enriquecido ilicitamente. Serve apenas para recordar que a sua permanência no poder não resultou dos mecanismos normais de uma democracia liberal, mas dos instrumentos próprios de uma ditadura.

E convém lembrar que Salazar não governava sozinho nem pairava acima das fragilidades humanas que tantas vezes denunciava. Pelo contrário: rodeou-se durante décadas de uma constelação de homens cuja principal virtude era a obediência. Uns eram ambiciosos, outros bajuladores, alguns francamente comprometidos com interesses pouco recomendáveis. Salazar conhecia-os bem e sabia utilizá-los. Promovia-os, afastava-os, colocava-os em confronto ou fazia-os cair em desgraça conforme as necessidades do momento. Era um mestre da intriga, da insinuação e da pequena política de bastidores. Mantinha-se acima das fações precisamente porque estimulava a competição entre elas.

Ao mesmo tempo, apoiou-se nas grandes famílias económicas e financeiras do seu tempo, servindo-se delas e servindo-as quando isso convinha à estabilidade do regime. Curiosamente, muitas dessas famílias continuariam a ocupar posições relevantes na sociedade portuguesa muito depois do fim do Estado Novo. Por isso, a imagem do professor solitário, isolado das redes de influência e dos interesses instalados, é quase tão fantasiosa como a do asceta sem património.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que esta promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

Mais uma vez, as interpretações dividem-se. Uns consideram que esse apoio era uma obrigação para com um antigo chefe do Governo. Outros entendem que representava um privilégio incompatível com a imagem de rigor que o próprio cultivava.

Mas há uma ironia impossível de ignorar.

Durante décadas, Salazar construiu um regime baseado na exaltação da disciplina, da contenção e do sacrifício. O país foi educado para admirar a poupança e desconfiar da abundância. O chefe surgia como exemplo máximo dessa pedagogia moral.

Só que os documentos mostram que a realidade era mais complexa. O homem era poupado, sem dúvida. Era meticuloso, também. Não gostava de desperdício. Mas possuía bens, património, poupanças e uma rede de facilidades associadas ao cargo que ocupou durante quase quarenta anos.

Por outras palavras, não era o milionário corrupto imaginado pelos seus detratores mais ferozes. Mas também não era o santo laico que uma certa memória nostálgica insiste em apresentar.

E talvez seja precisamente isso que incomoda.

Porque é mais fácil lidar com caricaturas do que com seres humanos reais. A caricatura do ditador ladrão é simples. A caricatura do ditador asceta também. O problema é que os factos raramente têm a delicadeza de caber nas caricaturas.

Os documentos analisados pela investigação da “Sábado” sugerem que António de Oliveira Salazar foi aquilo que muitos mitos se recusam a admitir: um homem austero, sim; um homem frugal, frequentemente; mas também um homem que acumulou património, beneficiou das prerrogativas do poder que exerceu e morreu bastante mais confortável do que a lenda (alimentada pelos seus admiradores, mas também por ele próprio) nos habituou a acreditar. E talvez o erro mais persistente seja imaginar que esse poder foi exercido num vazio, acima dos interesses, das influências e das dependências humanas. Não foi. Como tantos governantes que permanecem tempo suficiente no topo, Salazar tornou-se o centro de uma teia de lealdades pessoais, favores, rivalidades e conveniências. É precisamente por isso que a história séria é sempre menos confortável do que a nostalgia: porque troca a lenda pelo homem real. E os homens reais, quase sem exceção, são sempre mais contraditórios do que os mitos que deixam para trás.»