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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MONDIM DE BASTO: ANTIGO QUARTEL SERÁ LABORATÓRIO VIVO

  • O antigo quartel florestal do Fojo, em Mondim de Basto, será um laboratório vivo para investigação e conservação no Parque Natural do Alvão. Este projeto-piloto, com um investimento de um milhão de euros, servirá de modelo para outros parques nacionais e internacionais. O espaço acolherá em permanência uma equipa de vigilantes da natureza do ICNF e investigadores da UTAD. Além da investigação, o LivingLab criará um museu vivo, promoverá o turismo sustentável e valorizará a cultura regional. Fonte.
  • A planeada construção da Barragem da Foupana, localizada no Nordeste algarvio, está a enfrentar uma contestação veemente por parte da Plataforma para a Sustentabilidade e Biodiversidade do Algarve e Alentejo. Os ambientalistas avisam que a iniciativa irá acelerar de forma descontrolada a agricultura intensiva no sul do país, replicando um modelo agroindustrial cujos impactos negativos já são visíveis e fortemente criticados no Alqueva e no Litoral Alentejano. Em alternativa propõe-se uma estratégia focada na eficiência hídrica que assenta na modernização urgente das redes de distribuição pública e agrícola para estancar as perdas de água, no reforço da reutilização de águas residuais tratadas em explorações agrícolas e campos de golfe, e na redução drástica dos consumos no setor agrícola, que atualmente absorve 57% de toda a água consumida no Algarve. Fonte.
  • Os maus cheiros causados pelas explorações pecuárias na freguesia da Póvoa da Isenta, no concelho de Santarém, voltaram a gerar protestos. Desta vez foi o próprio presidente da junta, Fernando Vítor, que levou o assunto à última sessão da Assembleia Municipal de Santarém para dar voz ao descontentamento da população. Fonte.
  • Em resposta à Junta de Freguesia de Benfica e à Associação de Moradores do Bairro da Boavista, a Câmara de Lisboa eliminou uma ciclovia que construiu na Estrada do Outeiro de Cima, em Monsanto. Infraestrutura não chegou a durar um mês e foi trocada por um canal de coexistência entre carros e bicicletas a 30 km/h, velocidade muitas vezes desrespeitada. Fonte.
  • Um comboio de resíduos radioativos foi interrompido na noite de 13 para 14 de outubro, perto de Dorsten, no oeste da Alemanha. Alguns ativistas desceram de rapel de uma ponte junto a um nó rodoviário, exibindo uma faixa com a mensagem «Parem com estas asneiras». Três pessoas foram detidas. Fonte.

BICO CALADO

Anadolu/Getty Images
  • A «Campaign for Accountability» solicitou formalmente à Ordem dos Advogados da Califórnia que investigue se a nova secretária de Imprensa da Casa Branca, Katie Zacharia, é de facto advogada. A denúncia do grupo refere que, embora Zacharia tenha obtido o grau de Juris Doctor em 2011 pela Faculdade de Direito da Universidade de Pepperdine, não há qualquer registo de que tenha sido admitida para exercer a advocacia em qualquer jurisdição dos EUA. Fonte.
  • A autora pró-palestiniana Sally Rooney foi impedida de vender livros no Reino Unido. Fonte.
  • A UPGALL – União dos Produtores e Proprietários Lesados pelos Lobos critica a falta de respeito dos media os entrevistaram vários criadores mas não transmitiram essas entrevistas: “É difícil compreender como existe espaço para divulgar projetos, financiamentos e iniciativas de conservação do lobo, mas quando são os próprios produtores a denunciar as consequências dessa proteção, os seus testemunhos aparentemente deixam de merecer atenção.” Fonte.

REFLEXÃO

MILHÕES GASTOS, MAS ANTIGAS MINAS DE JALES CONTINUAM UM HORROR AMBIENTAL
Pedro Almeida Vieira, Página Um.

As antigas minas de ouro de Jales, encerradas há mais de três décadas, continuam a constituir um horror ambiental e a contaminar as águas da região, apesar de investimentos públicos superiores a cinco milhões de euros na recuperação ambiental. Um estudo publicado no passado domingo numa revista científica revela concentrações de arsénio até 5,7 vezes acima do limite para água potável. Entretanto, uma nova empreitada de recuperação, abrangendo também as minas de Covas, prevê mais seis milhões de euros.

Mais de três décadas depois do encerramento das minas de ouro de Jales, no concelho transmontano de Vila Pouca de Aguiar, e cerca de 20 anos após a conclusão de obras de recuperação ambiental que absorveram milhões de euros de fundos públicos, a contaminação das águas subterrâneas e superficiais continua a constituir uma ameaça ambiental e um risco potencial para a saúde humana.


A persistência de concentrações elevadas de arsénio, ferro e manganês, apesar das intervenções realizadas, acaba de ser documentada por uma equipa internacional de investigadores, num estudo publicado no passado domingo, 11 de Outubro, na revista científica Hydrology.

A investigação, intitulada Tracing the Legacy of Gold Mining: Comparative Insights into Water Contamination and Human Health Risks in Italy and Portugal, resulta de uma colaboração entre investigadores da Universidade de Turim e da Universidade do Minho, tendo comparado a contaminação associada a antigas explorações auríferas em Itália e Portugal.

No caso português, a análise incidiu sobre a área mineira de Jales, onde a exploração industrial de ouro e prata decorreu entre 1929 e 1992, deixando escombreiras, resíduos de processamento mineral e galerias subterrâneas que continuam a influenciar a composição química das águas.

Antigas instalações das minas de ouro de Jales, em Vila Pouca de Aguiar, com a estrutura de acesso ao Poço de Santa Bárbara, que atingia 620 metros de profundidade. Encerrada em 1992, a exploração deixou um passivo ambiental cuja recuperação já consumiu milhões de euros, sem eliminar a contaminação das águas por arsénio. Foto: EDM.

Os investigadores recolheram 17 amostras de água em diferentes pontos da antiga exploração e da sua envolvente em Dezembro de 2024, das quais sete classificadas como subterrâneas e dez como superficiais. As análises revelaram que 53% das amostras apresentavam concentrações de arsénio superiores ao limite de 10 microgramas por litro estabelecido para água destinada ao consumo humano.

O valor máximo atingiu 57 microgramas por litro, correspondendo a 5,7 vezes aquele limite. Foram ainda detectadas concentrações de ferro até 1.258 microgramas por litro e de manganês até 1.866 microgramas por litro, além de episódios de contaminação por alumínio e cádmio.
Os resultados assumem particular gravidade porque os níveis mais elevados de poluição foram encontrados em pontos directamente relacionados com o sistema construído para tratamento das águas provenientes das galerias mineiras e das escombreiras, designadamente na bacia de recepção e no canal de pré-tratamento. A contaminação foi igualmente detectada no rio Peliteira, a jusante da descarga do sistema de tratamento, revelando que os elementos tóxicos continuam a atingir os cursos de água da região.

O ouro encontra-se frequentemente associado à arsenopirite, um mineral que contém arsénio. A exposição dos resíduos mineiros ao ar e à água provoca a degradação desse mineral, libertando arsénio que pode contaminar os solos, rios e águas subterrâneas. Foto: EDM.

A avaliação dos riscos para a saúde humana, efectuada através de modelos de exposição utilizados pela Agência de Protecção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos, concluiu que 57% das amostras subterrâneas apresentavam índices de risco não cancerígeno superiores aos limiares considerados aceitáveis.

No cenário de ingestão prolongada dessas águas, todas as amostras subterrâneas ultrapassaram o limiar de risco cancerígeno cumulativo adoptado pelos investigadores. O arsénio representou cerca de 78% do índice de risco não cancerígeno e mais de 99% do risco cancerígeno calculado.

Estes resultados não significam que a população local esteja a consumir as águas analisadas, nem demonstram a ocorrência de doenças provocadas pela contaminação. Contudo, evidenciam a necessidade de controlar a utilização de captações subterrâneas e de conhecer a exposição efectiva dos residentes.

As antigas instalações das minas ouro de Jales deram lugar a um centro interpretativo, dedicado à preservação da memória mineira. Mas o passivo ambiental, marcado pela persistente contaminação das águas, recorda que ainda há muito por fazer. Foto: D.R.

O arsénio inorgânico é classificado como cancerígeno para os seres humanos, estando a exposição prolongada associada, entre outras consequências, a um aumento do risco de cancros da pele, pulmão e bexiga, bem como a alterações cardiovasculares e neurológicas. A presença de manganês em concentrações elevadas também suscita preocupações, sobretudo pelos potenciais efeitos neurológicos da exposição prolongada.

A persistência da contaminação ganha outra dimensão quando confrontada com os investimentos públicos realizados desde o encerramento das minas. De acordo com documentos da Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM), responsável pela recuperação ambiental de antigas explorações mineiras, a primeira grande empreitada em Jales foi executada entre 2002 e 2003 e representou um investimento contratual de quase 5,4 milhões de euros, destinado à recuperação das escombreiras, impermeabilização de depósitos de resíduos, construção de sistemas de drenagem, estabilização dos terrenos e recuperação paisagística.

A empreitada foi adjudicada ao consórcio Jeremias de Macedo/MT3, numa altura em que a recuperação ambiental estava sob responsabilidade da EXMIN, posteriormente integrada na EDM. Em 2006, foi executada uma segunda intervenção, adjudicada à MT3, no valor de quase 357 mil euros, destinada à construção de um sistema passivo de tratamento das águas provenientes das galerias subterrâneas e dos depósitos de resíduos. No conjunto, as duas empreitadas representam quase 5,8 milhões de euros, sem contar com eventuais despesas adicionais de estudos, fiscalização, manutenção e monitorização.

Obras de recuperação não surtiram efeito. Foto: EDM.

O aspecto mais significativo, porém, é que a própria EDM reconhece, em relatórios, que os objectivos ambientais das intervenções anteriores não foram sequer alcançados. Segundo a empresa, mesmo depois da recuperação das escombreiras, continuaram a emergir águas contaminadas das antigas galerias subterrâneas, acabando por atingir a ribeira da Peliteira. A construção do sistema de tratamento, em 2006, procurou responder a essa situação, mas a persistência dos contaminantes obrigou à preparação de uma nova fase de recuperação.

Esta nova intervenção, denominada Recuperação Ambiental das Áreas Mineiras de Covas e Jales – Fase Complementar, apresenta um investimento global previsto de m,ais seis milhões de euros, embora abrangendo as minas de Covas, em Vila Nova de Cerveira. A empreitada principal foi adjudicada em Agosto de 2024 à empresa Alexandre Barbosa Borges, por um valor contratual ronda 3,79 milhões de euros. O calendário da operação prolonga-se até finais de 2027.

A documentação disponível não discrimina quanto dos seis milhões de euros se destina especificamente a Jales, nem permite determinar a totalidade das verbas já pagas. O Portal Mais Transparência identifica cerca de 4,7 milhões de euros de financiamento europeu para a operação conjunta e apresenta aproximadamente 2,3 milhões de euros de execução, valores que não podem ser confundidos com despesas exclusivamente realizadas na antiga exploração aurífera.

Ruínas da antiga lavaria das minas de ouro de Jales. As estruturas de betão e alvenaria que subsistem pertenciam às instalações industriais onde era processado o minério extraído da exploração, encerrada em 1992. Foto: EDM

Perante a persistência dos contaminantes e a sucessão de investimentos sem resultados positivos, o PÁGINA UM solicitou esclarecimentos à administração da EDM sobre os resultados ambientais das primeiras empreitadas, os custos acumulados de manutenção e monitorização, a eficácia dos sistemas de tratamento, os riscos para as populações e as garantias técnicas de que os novos investimentos permitirão alcançar objectivos que continuam por cumprir.

O jornal questionou ainda a empresa sobre a possibilidade de parte das verbas aplicadas ter financiado soluções insuficientes e sobre os encargos que poderão continuar a ser necessários nas próximas décadas. Não foi recebida qualquer resposta.

A grave situação ambiental e de saúde pública de Jales insere-se num programa mais vasto de recuperação de passivos ambientais mineiros financiado pelo Portugal 2030. Em Maio de 2025, foi anunciado um investimento superior a 19 milhões de euros em três operações no Norte do país, abrangendo as antigas áreas mineiras de Covas e Jales, Pintor e Pejão/Germunde, com uma comparticipação de cerca de 14,5 milhões de euros do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional. As intervenções destinam-se à recuperação de cerca de 36,5 hectares de terrenos altamente contaminados.

A impermeabilização das escombreiras das minas de Jales não impediu a persistência de uma grave contaminação por arsénio nas águas subterrâneas e superficiais, apesar dos milhões de euros investidos na recuperação ambiental. Foto: EDM.

O investimento de seis milhões de euros previsto para Jales e Covas integra esse pacote, não constituindo uma verba adicional. O programa pretende reduzir os riscos associados aos resíduos mineiros, melhorar a qualidade das águas e recuperar áreas degradadas, mas o exemplo de Jales demonstra que a avaliação destas políticas não pode limitar-se à contabilização das empreitadas executadas ou dos milhões de euros mobilizados. Na verdade, as empreitadas só têm beneficiado os empreiteiros – e não o ambiente e a saúde pública.

Enquanto o arsénio permanece como uma herança tóxica, as antigas instalações transformam-se em centros interpretativos, promovendo-se visitas guiadas e celebrando-se o património mineiro. A preservação da memória tem o seu mérito, mas dificilmente se compreenderá que o Estado invista milhões de euros para transformar uma antiga exploração mineira num monumento ao passado sem conseguir impedir que esse passado continue a contaminar o presente. Afinal, antes de ensinar aos visitantes como se extraía o ouro, talvez convenha explicar-lhes por que razão ainda não se conseguiu eliminar o veneno que ficou para trás.

LEITURAS MARGINAIS

OBAMA EM LISBOA: O DISCURSO DA ESPERANÇA TRANSFORMADO EM NEGÓCIO DE MILHÕES
Pedro Almeida Vieira, Página Um.

O entusiasmo mediático com a presença de Barack Obama no MEO Arena, no Sábado passado, traduziu-se em aplausos de pé e elogios à sua mensagem, num evento em que voltou a surgir como contraponto ao actual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O prestígio do antigo presidente norte-americano tem, porém, uma tradução comercial: desde que deixou a Casa Branca, em Janeiro de 2017, a participação em eventos e conferências tornou-se uma actividade meticulosamente preparada, com um figurino pré-estabelecido, treinado e ensaiado, onde nenhuma nota sai do tom.

Foto: MEO Arena

Tudo isto com honorários de centenas de milhares de euros ou dólares por cada aparição, por vezes em autênticas tournées, com entrevistadores no lugar dos músicos de acompanhamento e o “vocalista” Obama a interpretar os seus maiores êxitos perante plateias que pagam para ouvir a mensagem e aplaudir a estrela.
Um levantamento a sete dessas participações de Obama ao longo da última década coloca a média do seu cachet entre os 400 mil e 500 mil euros por “performance”, incluindo as estimativas divulgadas por órgãos de comunicação social.

Mas, em regra, o valor cobrado fica no segredo dos deuses, como sucedeu com a recente presença em Lisboa, cujo cachet continua por divulgar. Contudo, o montante estará abaixo de valores cobrados imediatamente à saída da Casa Branca, já que a procura pela presença de Obama é hoje inferior à que se registava em 2017 e 2018, por exemplo.

Foto: MEO Arena

Recorde-se que a entrada neste mercado das conferências e eventos, bastante promissor nos Estados Unidos e que se tem disseminado pela Europa, foi preparada por Obama poucas semanas depois da passagem do poder a Trump. Em Fevereiro de 2017, a Associated Press noticiou a contratação da Harry Walker Agency para representar Barack e Michelle Obama nas intervenções públicas. A agência já trabalhava com Bill e Hillary Clinton, outros protagonistas da passagem dos cargos públicos para o circuito das conferências remuneradas.

Logo em 27 de Abril desse ano, Obama participou num encontro da A&E Networks, em Nova Iorque. Segundo o New York Post, citado pela MarketWatch, recebeu 400 mil dólares por uma conversa de 90 minutos com a historiadora Doris Kearns Goodwin. O “produto” vendido era uma conversa em palco, num formato que se repetiria noutras contratações, e similar à que ocorreu agora em Lisboa.

Nesse mesmo ano, três discursos de Obama em Wall Street geraram uma forte polémica, designadamente entre os democratas. Uma investigação da Bloomberg apontou um valor de encaixe de 400 mil dólares pela presença de Obama num encontro com clientes do Northern Trust, em Agosto. Em Setembro, o ex-presidente dos Estados Unidos participou num evento do influente Carlyle Group, mas o encaixe não foi divulgado. Nesse mesmo mês, ganhou mais 400 mil euros para estar numa conferência da Cantor Fitzgerald. Só estas três presenças terão totalizado 1,2 milhões de dólares de receita.

Cerca de 10.800 pessoas deslocaram-se ao MEO Arena para ver e ouvir Obama. / Foto: MEO Arena

Estes discursos pagos foram alvo de críticas, incluindo de membros destacados do partido democrata, como Bernie Sanders e Elizabeth Warren. Esta senadora tinha pedido uma investigação formal à administração Obama por não ter avançado com a instauração de processos criminais contra responsáveis de Wall Street, na sequência da crise financeira de 2007-2008 e da queda do banco Lehman Brothers. O encaixe milionário obtido por Obama naqueles eventos em Wall Street soou a “prémio” aos olhos de alguns críticos da actuação do antigo presidente dos Estados Unidos na responsabilização do sector financeiro pela crise.

Em Outubro desse ano, uma deslocação ao Brasil trouxe outro contrato de grande dimensão. O jornal digital Poder360 apurou que os honorários cobrados por Obama ascenderam a 500 mil dólares, sem despesas, pela presença num evento promovido pelo Valor Economico, em São Paulo. Obama fez um discurso de 23 minutos, conversou cerca de 40 minutos com o director-geral da Infoglobo e participou num encontro reservado com empresários de topo. Segundo o jornal, as perguntas da conversa em palco tinham sido revistas e aprovadas previamente pela equipa de Obama. Com este evento, a soma de receitas ascendia já a 1,7 milhões de dólares.

Em declarações à AFP, publicadas pela SBS, o porta-voz do gabinete do ex-presidente, Kevin Lewis, afirmou que Obama participava em iniciativas pagas e gratuitas, coerentes com os seus valores, e que os honorários tinham ajudado a financiar um donativo de dois milhões de dólares a programas de formação e emprego para jovens de baixos rendimentos em Chicago.

Foto: MEO Arena

De resto, alguns dos montantes cobrados acabam na fundação de Obama. Foi o caso da presença na conferência dos Les Napoleons, em Paris, em Dezembro de 2017. O Le Parisien indicou que o cachet terá sido fixado em 400 mil dólares e foi encaminhado para a fundação de Obama.

Portugal entrou na agenda de eventos remunerados de Obama em 6 de Julho de 2018. O ECO, citando o Expresso, noticiou que Obama receberia cerca de 500 mil euros pela Climate Change Leadership, no Porto, aproximadamente metade do orçamento de um milhão de euros atribuído à conferência. A intervenção no Coliseu durou 56 minutos, segundo a reportagem do Jornal de Negócios. Dividindo o honorário noticiado pelo tempo em palco, obtém-se cerca de 8.929 euros por minuto. Obama aproveitou a passagem pelo Porto para criticar a política ambiental do presidente republicano.

Em 2019, a conferência EXMA, em Bogotá, acrescentou outro encaixe à lista: cerca de 600 mil dólares por uma hora. A confirmar-se, esta verba eleva a soma arrecadada em dois anos para cima dos três milhões de dólares.

Obama foi presidente dos Estados Unidos entre 2009 e 2017. Após a saída da Casa Branca começou logo a facturar como orador. 
Foto: D.R.


Em Junho de 2022, Obama já cobrava menos. Numa participação num evento em Málaga, a organização terá conseguido contratar o antigo presidente norte-americano por um valor abaixo dos habituais 500 mil dólares. Os participantes pagaram entradas de 1.990 euros e não houve direito a perguntas do público.

Em Março de 2023, a digressão por Sydney e Melbourne voltou a gerar previsões de remuneração milionária na imprensa australiana, indicando-se um cachet global por duas noites. Os preços de entrada variavam entre cerca de 200 e 900 dólares australianos.

Um ano depois, a imprensa belga apontou um montante entre 400 mil e 600 mil euros pela contratação de Obama para uma iniciativa associada ao festival Supernova. O Brussels Times publicou o intervalo de valores e acrescentou que, ainda assim, a quantia cobrada era muito inferior aos dois milhões de euros que Donald Trump pedia para participar em eventos e conferências.

Cartaz do evento “A conversation with President Barack Obama”. / Foto: Game Changers Forum

Também em Março de 2024, a presença em Paris no POwR.Earth Summit permitiu comercializar um pacote de 10 mil euros com fotografia ao lado do antigo Presidente, segundo a revista E-marketing.

Em outros eventos, o secretismo manteve-se, como aconteceu em 2025. Ao anunciar a deslocação a Tampere, a televisão pública finlandesa Yle assinalou que o cachet era desconhecido, como sucedera numa visita a Helsínquia em 2018.

Fora das conferências, a escala dos negócios cresce. Em 2017, a Reuters, citando o Financial Times, referiu que o leilão dos direitos dos livros de Barack e Michelle Obama ultrapassara os 60 milhões de dólares. Quanto à “parceria” com a Netflix, anunciada em 2018, não foram reveladas as contrapartidas financeiras do negócio que foi renovado em 2024, com rumores na imprensa a apontar para receitas de dezenas de milhões de dólares para o casal Obama.

A lista de patrocinadores replica a lista de oradores do Game Changers Forum VI. / Foto: MEO Arena

Mas, ainda assim, com valores mais “acanhados”, o negócio dos eventos e das conferências prossegue. Em Lisboa, o Game Changers Forum voltou a colocar Obama no centro de um evento empresarial que contou com uma lista de 92 patrocinadores, na maioria empresas, que tiveram assim direito a “aparecer” na conferência que tinha Obama como cabeça de cartaz. Participando como orador ou moderador, os patrocinadores puderam tirar dividendos do seu apoio ao evento. Mas também houve entidades públicas ou com capitais públicos na lista de patrocínios: Governo dos Açores; Turismo de Portugal; Câmara Municipal de Loures; e Caixa Geral de Depósitos. De resto, a Agência Tecnológica para a Reforma do Estado desembolsou 10.000 euros dos cofres públicos para pagar à organizadora do evento pelo serviço de “activação de marca Gov.pt no Game Changers Forum VI”.

Além dos patrocínios, houve a receita proveniente da venda de bilhetes, cujos preços oscilaram entre os 39 euros e os 250 euros, colocando a receita mínima em redor dos 400 mil euros.

Por detrás do evento está a empresa Fenómeno Infinito, de Miguel Pina Martins — fundador da Science4you —, que recebeu um apoio de 30 mil euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para criar a plataforma do Game Changers Forum.

Foto: MEO Arena

Contactado, Miguel Pina Martins escusou-se a comentar o preço da contratação de Obama para a sua “performance” no palco do MEO Arena, invocando regras de confidencialidade.

Mas Lisboa foi apenas uma das cidades de passagem de Obama na sua “tour” de 2026. O antigo presidente dos Estados Unidos tem mais três “espectáculos” agendados no Reino Unido: Belfast; Glasgow e Manchester.

O negócio das conferências não é, contudo, exclusivo de Barack Obama. Donald Trump também aproveitou a saída da Casa Branca, após o primeiro mandato, para transformar as aparições públicas numa fonte de receitas milionárias, com honorários ainda mais elevados.

Donald Trump facturou milhões com a presença em eventos após o seu primeiro mandato na Casa Branca. / Foto: D.R.

Segundo uma investigação do The Wall Street Journal, publicada em Julho de 2023, baseada nas declarações financeiras entregues ao organismo federal de ética governamental, Trump recebeu mais de 12 milhões de dólares por 15 participações remuneradas desde Janeiro de 2021, com pagamentos individuais entre 150 mil e 2,5 milhões de dólares.

O valor mais elevado correspondeu à participação como comentador numa transmissão do combate de boxe entre Evander Holyfield e Vitor Belfort, em Setembro de 2021, pela qual recebeu 2,5 milhões de dólares. Trump recebeu ainda dois milhões de dólares por duas intervenções em eventos da Universal Peace Federation e mais de 2,3 milhões por quatro aparições promovidas pela American Freedom Tour.

Estes valores, constantes das declarações financeiras do próprio Trump, demonstram que a comercialização de intervenções de antigos presidentes norte-americanos pode atingir valores astronómicos.

Depois de Lisboa, Obama não vai ter de se esforçar para dizer algumas palavras numa língua que conhece mal, já que as próximas três “performances” vão ser em cidades no Reino Unido. / Foto: MEO Arena

O mais curioso é que Obama questionou num seu livro a influência do dinheiro nos políticos. Esta reflexão de Obama foi citada, em 2017, num artigo no Washington Post, a propósito da presença de Obama em conferências em Wall Street : “se as opiniões destes actores influentes [doadores] não coincidirem inteiramente com aquelas que [o político] outrora defendia, aprende a justificar as mudanças como uma questão de realismo, de compromisso, de aprendizagem das regras do jogo”.

Apesar de não estar na política activa, Obama é uma voz política e um influenciador de peso, com conhecimentos e uma vasta rede de contactos e influência. A questão que se coloca, tanto para Obama como para outros ex-políticos de peso, é se as mensagens que veiculam nos eventos que os contratam são as suas ou as que os patrocinadores querem pagar para ouvir.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

REFÚGIOS CLIMÁTICOS: AÇÃO CLIMÁTICA OU MARKETING?

Madrid. Foto: Ecologistas em Acción.

Turismo de Portugal financia três refúgios climáticos com 210 mil euros em Arroios (Lisboa), Valdujo (Trancoso) e Praia de Mira. Os projetos preveem o reforço das áreas verdes, a instalação de estruturas de sombra, a criação de zonas de descanso e a disponibilização de água potável, entre outras medidas destinadas a reduzir o impacto do calor nos espaços públicos. Fonte.

Neste momento, isto parece uma mera operação de cosmética e de relações públicas, para não dizer de greenwashing. Não terá sido por acaso que o ministério do Ambiente foi mantido à margem. Será, por isso, legítimo perguntar se estes investimentos estão a ser orientados prioritariamente para as populações mais expostas ao calor ou para a valorização  de destinos turísticos.

Anunciam-se contratos assinados, montantes, espaços e soluções previstas. Tudo isso é verificável, mas não demonstra, por si só, quantas pessoas serão efetivamente protegidas durante ondas de calor, quanto baixará a temperatura ou se os espaços serão utilizados por quem mais precisa deles.

O orçamento é simbólico e serve mais para gerar narrativa pública do que para criar impacto significativo. Para avaliar se o dinheiro está bem aplicado, seria útil saber quantas pessoas, sobretudo idosos, pessoas com doenças agravadas pelo calor poderão utilizar os espaços, qual a redução de temperatura prevista, quem assegura a rega, conservação, limpeza, água potável e funcionamento dos equipamentos, como se comparam estas intervenções com alternativas como arborização de ruas, sombreamento de percursos pedonais ou abertura de edifícios públicos frescos.

Se, daqui a dois ou três verões, houver espaços gratuitos, acessíveis, bem mantidos, utilizados pelas populações vulneráveis e com benefícios térmicos demonstráveis, a iniciativa terá produzido resultados para além da comunicação. Se o sucesso continuar a ser medido sobretudo pelo número de contratos, pelo investimento anunciado e pela visibilidade da rede, a crítica de media stunt ganhará fundamento.

Sublinhe-se que estes ‘refúgios climáticos’ não estão articulados com o atual ordenamento do território, a gestão da água e a mobilidade. Por isso, correm o risco de se tornarem "ilhas" de conforto num mar de planeamento urbano inadequado. Esta narrativa é excessivamente otimista, podendo o projeto servir para desviar a atenção da falta de ação estrutural mais profunda. Esta media stunt pode criar expectativas que a escala do investimento não consegue satisfazer. A propósito: 108 municípios portugueses ainda não têm um Plano Municipal de Ação Climática…

ÁFRICA DO SUL: PROTESTOS CONTRA NOVAS EXPLORAÇÕES DE GÁS E PETRÓLEO

  • Ativistas climáticos realizaram um protesto em frente à conferência «African Energy Week», na Cidade do Cabo, África do Sul, apelando ao fim de novas explorações de petróleo e gás em todo o continente e acusando as empresas do setor energético de darem prioridade aos lucros em detrimento das pessoas e do ambiente. Os ativistas da Greenpeace África e da Extinction Rebellion contestaram os esforços para posicionar África como uma nova fronteira para o desenvolvimento de combustíveis fósseis, argumentando que mais investimentos agravariam as alterações climáticas e ameaçariam as comunidades que já enfrentam os seus efeitos. Fonte.
  • Colonos israelitas entraram em olivais de propriedade de palestinianos na zona de Masafer Yatta, a sul de Hebron, na Cisjordânia ocupada, e roubaram azeitonas de árvores pertencentes a agricultores palestinianos. O incidente ocorre num contexto de relatos de repetidos ataques de colonos a agricultores palestinianos durante a época da colheita da azeitona. Fonte.
  • Um cidadão ucraniano vai a tribunal em Hamburgo, acusado de ter sabotado e feito explodir os gasodutos Nord Stream em 2022. Isto levanta questões sobre o possível papel de Kiev nas explosões. Fonte.

BICO CALADO

Robin Loznak/Zuma Press Wire/Shutterstock

  • O governo de Luís Montenegro aprovou lei que beneficia ministro Pinto Luz. O novo regime jurídico da reabilitação urbana reduz o prazo para impugnar decisões das autarquias de dez para três anos, impedindo futuras impugnações dos atos de Pinto Luz na Câmara de Cascais. Fonte.
  • Um assessor sénior do embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, tem bloqueado e reescrito relatórios da embaixada destinados a Washington, com o objetivo de encobrir os crimes israelitas na Cisjordânia ocupada e na Faixa de Gaza, segundo noticiou o New York Times em 8 de outubro. Via The Craddle.

REFLEXÃO

ÍNDIA: PLANO PARA LEVAR ÁGUA A MILHÕES DE PESSOAS ESTÁ A INUNDAR ALDEIAS
Jamal J. Ghadi, Medium. Rev. O’Lima.

Foto de Ibrahim Rifath no Unsplash.

Na Índia, um plano nacional de 87 mil milhões de dólares visa ligar cerca de 30 rios para redistribuir água a regiões propensas à seca, reforçar a segurança alimentar e ajudar milhões de agricultores. A primeira fase — que liga os rios Ken e Betwa — custa cerca de 4,6 mil milhões de dólares.

Centenas de residentes tribais protestam porque a subida das águas provocada pelas obras já inundou as suas aldeias. Muitos afirmam que preferem morrer a abandonar as suas casas ancestrais sem uma compensação adequada. Enquanto o governo afirma que mais de 90% das pessoas já foram indemnizadas (pelo menos 1,25 milhões de rúpias por hectare), os residentes argumentam que os pagamentos não cobrem todas as perdas — como é o caso de um sacerdote local cujo templo ficou submerso e cujos rendimentos foram destruídos.

Os ambientalistas opõem-se ao projeto porque a barragem de Daudhan, prevista, irá inundar cerca de 9 000 hectares, incluindo uma parte significativa da Reserva de Tigres de Panna. Os críticos também questionam a base científica do projeto, argumentando que a presunção de um «excedente» na bacia do Ken e de um «défice» na bacia do Betwa nunca foi conclusivamente comprovada.

O governo reconhece que o impacto ambiental é «inevitável», mas afirma que este pode ser mitigado através da plantação de árvores e da conservação da vida selvagem. Afirma ainda que o projeto irá dar resposta à escassez crónica de água na região de Bundelkhand, proporcionando irrigação, água potável e energia hidroelétrica.

LEITURAS MARGINAIS

GEOENGENHARIA: SIMULAÇÃO PARA ESCURECER O SOL CORREU PIOR DO QUE SE POSSA IMAGINAR
Karl Mathiesen, Wired. Rev. O’Lima.


Quando se trata de decidir o destino do planeta, Colleen Golja sempre pensou que a ciência e a razão teriam uma palavra a dizer. Isso até uma manhã de setembro passado, em Londres, quando a investigadora climática participou no primeiro de uma série de jogos de simulação de guerra. O objetivo: impedir uma corrida global descontrolada para desenvolver uma tecnologia destinada a arrefecer o planeta, mas que acarreta riscos enormes e desconhecidos que poderiam transformar a vida na Terra.

«Pensei que fosse fácil. Tipo, todos podemos concordar em fazer investigação ética e garantir que é para o bem de toda a humanidade. E, caramba, como eu estava enganada.»

A simulação, intitulada «Exploring Geopolitical Tipping Points and Climate Cooling Strategies» (Explorando Pontos de Inflexão Geopolíticos e Estratégias de Arrefecimento Climático), reuniu duas dúzias de especialistas em relações internacionais, cientistas, militares e antigos responsáveis governamentais de todo o mundo numa sala de reuniões da Queen Mary University of London. Depois de se apresentarem enquanto tomavam café e comiam iogurtes, sentaram-se em mesas dispostas em quadrado, com o nome do país ou da organização que cada pessoa representava: governos nacionais, ONGs e organizações sem fins lucrativos dedicadas ao clima, grupos indígenas e empresas tecnológicas. A Golja ficou encarregada de prestar aconselhamento técnico para ajudar os participantes a tomar decisões com base em conhecimentos científicos.

O objetivo do jogo era testar a resistência da resposta mundial a um conjunto de tecnologias em fase de desenvolvimento, conhecidas como modificação da radiação solar. Estas tecnologias prometem reverter o aquecimento global ao refletir uma parte da luz solar que atinge a Terra, por exemplo, pulverizando partículas de dióxido de enxofre ou outra substância sintética na atmosfera. O efeito de arrefecimento deste tipo de geoengenharia solar é amplamente aceite. Isto imitaria os efeitos bem conhecidos das grandes erupções vulcânicas, que arrefecem temporariamente o planeta em meio grau ou mais. Mas as consequências são menos certas — e menos equitativas. Algumas regiões serão afetadas: os modelos prevêem uma seca na África Subsariana e tempestades tropicais mais intensas no Atlântico. O efeito de arrefecimento duraria também apenas enquanto a geoengenharia se mantivesse; depois disso, a temperatura global poderia voltar a subir, com efeitos imprevisíveis e de difícil previsão.

Até recentemente, a ideia da modificação da radiação solar era um nicho especulativo da ciência climática. Isso mudou rapidamente. Empresas privadas estão a explorar a geoengenharia solar como uma oportunidade comercial: em 2025, uma startup norte-americana-israelita chamada Stardust Solutions angariou 60 milhões de dólares e, em maio, divulgou detalhes de um conjunto de novas invenções que, segundo afirma, daria aos seres humanos a capacidade de reduzir a temperatura global conforme desejado. Em agosto, Elon Musk, cuja empresa SpaceX poderá ser uma candidata à implementação de intervenções de geoengenharia, manifestou o seu apoio à geoengenharia solar, escrevendo no X: «Serão necessários satélites espaciais para controlar a temperatura e geoengenharia em grande escala, ou será o fim do jogo.»

O mundo vai ter de tomar decisões sobre como regulamentar esta tecnologia muito mais cedo do que a maioria dos decisores políticos imagina, afirmou Cynthia Scharf, ex-conselheira da ONU. «Não é daqui a 15 anos; é na próxima década, sem dúvida.»

Foi neste contexto que Danielle Young, professora assistente de relações internacionais na Universidade de Leeds, organizou o jogo de simulação. O cenário consistia num comité da ONU convocado à pressa, encarregado de coordenar a resposta internacional aos desenvolvimentos na geoengenharia solar. O jogo desenrolou-se ao longo de reuniões simuladas que se passavam em três momentos diferentes: o presente, setembro de 2027 e setembro de 2028. Cada etapa aumentava os riscos, com os criadores do jogo a introduzirem novos avanços na tecnologia de reflexão da luz solar. Tal como na vida real, ninguém conhecia todos os factos, e os participantes tiveram de reagir a acontecimentos que estavam a aproximar o mundo de uma tentativa em grande escala de implementar tecnologia de geoengenharia solar, mesmo quando não tinham uma visão completa do que realmente tinha ocorrido — ou do que os outros estavam a tramar.

A primeira sessão deu o tom. A desconfiança e a desinformação dominaram o ambiente. Enquanto os participantes discutiam as regras que regem as experiências ao ar livre, numa tentativa de chegar a um acordo internacional, os jogadores que representavam tanto os EUA como a China afirmaram ao grupo que não poderiam assinar um acordo que limitasse a sua busca por investigação considerada de «interesse nacional». Nem poderiam aceitar um acordo que permitisse que a sua superpotência rival assumisse a liderança tecnológica. Jeffrey Nielsen, um major do Exército dos EUA que desempenhou o papel de adido de segurança nacional dos EUA, resumiu a posição da seguinte forma: «Pior do que nenhum acordo é qualquer acordo que favoreça a China.»

As tensões intensificaram-se quando a equipa responsável pela simulação entregou aos delegados russos um «relatório dos serviços secretos» indicando que tinham encontrado um avião perto do Estreito de Bering, suspeito de estar envolvido num programa de investigação de geoengenharia dos EUA. A equipa dos EUA — que, de facto, estava a realizar missões de investigação — acusou a Rússia de desinformação.

Entretanto, os EUA ficaram convencidos de que a China também estava a realizar investigação e a desenvolver o seu próprio programa. Os representantes de Pequim tinham tentado incluir, num acordo em discussão, uma cláusula que garantisse a ausência de sanções retroativas por experiências passadas. Posteriormente, a China abordou um participante que representava a SpaceX para lançar a ideia de um programa de partilha de tecnologia. Numa discussão privada, afastado do grupo, o participante da SpaceX comunicou imediatamente a abordagem chinesa à equipa dos EUA. Os EUA exigiram uma investigação internacional. As acusações mútuas continuaram e os países abandonaram as negociações. O representante canadiano classificou o episódio como uma «derrota humilhante».

No final da sessão, Nielsen estava eufórico. Tinha desmascarado a China e frustrado qualquer possibilidade de um acordo global. No contexto do jogo, disse que fora uma «vitória gigantesca» para os americanos. Mas Young, o investigador que concebeu o cenário, afirmou que os chineses não estavam, de facto, a realizar experiências no jogo. A desconfiança mútua fez com que todas as partes saíssem da sala convencidas de que as outras estavam a agir o mais rapidamente possível para desenvolver a sua própria capacidade de geoengenharia.

O que se desenrolou na primeira sessão refletiu «a probabilidade, na minha opinião, de uma corrida ao armamento em matéria de geoengenharia», afirma Nielsen, esclarecendo que falava a título pessoal e não representava as opiniões do governo dos EUA. A maioria dos especialistas concorda que seria necessário o alcance de uma superpotência para garantir a passagem segura dos aviões necessários para transportar cargas de poeira para a estratosfera num exercício de geoengenharia. Mas nem os EUA nem a China cederiam de ânimo leve o controlo sobre o «termóstato» global, afirma Nielsen, e a desconfiança e a falta de comunicação constituem um risco significativo: «Qualquer ação relacionada com a questão por parte de um interveniente pode ser interpretada como má-intenção pelo outro.»

A ameaça de ficar atrás de um rival é «um fator muito forte para a investigação e o desenvolvimento de capacidades», afirmou um antigo diplomata britânico com experiência em segurança nacional. «Mas isso não é, de forma alguma, o mesmo que a implantação.» Existem semelhanças com a dinâmica das armas nucleares — embora a gestão da radiação solar, ao contrário das armas nucleares, tenha benefícios mais evidentes, bem como desvantagens, muitas das quais ainda são mal compreendidas. «Há aqui uma interdependência», afirma o ex-diplomata, que não esteve envolvido no jogo e falou sob condição de anonimato para preservar as relações. «Não é, por natureza, um jogo de soma zero.»

Scharf, que representou o governo dos EUA ao lado de Nielsen no jogo, considera que uma «colaboração internacional cientificamente transparente» entre a China e os EUA «pode ser o melhor que podemos fazer para evitar uma competição muito perigosa entre os dois países. Mas não consigo, de forma alguma, imaginar que isso aconteça sob a administração Trump.»

A agravar o problema está a falta de informação. A geoengenharia tem sido historicamente vista com desconfiança e frequentemente ignorada pela corrente dominante da comunidade científica. Um investigador disse ter sido ostracisado e enfrentado obstáculos à sua progressão académica devido ao seu interesse pela tecnologia; já não trabalha nessa área.

Esta falta de interesse científico frustrou profundamente Golja, que passou grande parte do jogo a assistir como espectadora enquanto as manobras políticas dominavam o debate. Dado o baixo nível de conhecimento em torno da modificação da radiação solar e dos seus efeitos secundários, ela era uma das poucas especialistas capazes de ajudar os participantes a compreender os impactos climáticos daquilo que estavam a discutir — no entanto, foi amplamente ignorada. «Fiquei verdadeiramente chocada com o desinteresse que alguém demonstrava pela ciência.”

Nas sessões seguintes, os organizadores tentaram, em vão, redirecionar as discussões para as realidades das alterações climáticas. Os participantes recebiam notificações frequentes sobre catástrofes climáticas. Estas mal eram registadas. Golja tinha preparado um «simulador», uma demonstração prática dos melhores dados científicos disponíveis sobre como a gestão da radiação solar poderia afetar os padrões meteorológicos em diferentes regiões. Foi ignorada. Se os representantes dos países lhe faziam alguma pergunta, era geralmente uma pergunta tendenciosa, à procura de dados que servissem os seus interesses ou que apresentassem a proposta de um rival como imprudente.

Depois, durante o último dia, os jogadores tentavam encontrar uma forma de responder às notícias de que tinha sido detetada uma grande nuvem de aerossóis. No jogo, isto tinha sido causado por um teste conjunto entre os EUA e a Arábia Saudita à tecnologia da Stardust, embora nem todos tivessem conhecimento disso. Finalmente, o aconselhamento científico era extremamente valioso. Os países precisavam de saber como estabelecer uma rede de monitorização composta por satélites e outras ferramentas de observação, a fim de impedir que testes como este ocorressem em segredo. Um jogador que representava uma ONG chamada Climate Futures Cooperative abordou Golja, oferecendo-lhe dinheiro para financiar esse projeto. «Ótimo. Fabuloso. Porque não haveria de o fazer?», recorda ela ter pensado.

Mas soube-se logo que a Cooperativa para o Futuro Climático (CFC) era, de facto, apoiada pela indústria dos combustíveis fósseis. Os organizadores tinham percebido que as empresas de combustíveis fósseis e os principais países produtores, como os EUA e a Arábia Saudita, teriam um claro interesse em eliminar os obstáculos ao desenvolvimento de uma tecnologia capaz de combater as alterações climáticas sem ter de parar imediatamente de queimar carvão, petróleo e gás. A ONG obscura passou o jogo a minar subtilmente o ambiente e a criticar o processo — embora, na maior parte das vezes, se limitassem a ficar de braços cruzados e a deixar as coisas seguirem o seu curso. Alguns participantes — a Rússia, os EUA, a SpaceX e a Stardust — perceberam que a CFC não era o que parecia, diz Young. «Mas consideraram que isso lhes trazia benefícios e não chamaram a atenção para o assunto.» Então, a CFC escolheu o momento certo para oferecer dinheiro a Golja, apenas para destruir a sua credibilidade, isolando e fragmentando a voz da ciência na sala. «Foi uma confusão dos diabos», diz Golja.

Essa lição final sobre a realpolitik dos combustíveis fósseis foi praticamente tudo o que Golja conseguiu suportar. No final do último dia, ela estava em lágrimas.

Em nenhum momento os países envolvidos no jogo chegaram a um acordo, apesar das múltiplas propostas apresentadas. Os países europeus e o Canadá tentaram angariar apoio para medidas de salvaguarda e investigação científica aberta, mas as negociações ficavam constantemente paralisadas por táticas de adiamento e degeneravam em confrontos tensos em torno de interesses estratégicos opostos. No seu relatório final, os investigadores responsáveis pela simulação — cujo trabalho foi patrocinado pela Agência de Investigação Avançada e Invenção, financiada pelo governo do Reino Unido — concluíram que «a concorrência estratégica e a soberania estatal impulsionaram as simulações, e não as preocupações climáticas».

Simulações como esta não se destinam a prever o futuro. Os resultados dependem da conceção do jogo e das personalidades e experiência relativas dos participantes. Muitos dos presentes na sala não possuíam experiência diplomática e de segurança nacional em primeira mão. O fórum da ONU, que os organizadores escolheram como cenário do jogo, pode também não ser tão eficaz quanto as negociações entre grupos mais pequenos de países importantes. Mas a experiência realizada em Londres teve repercussões e reflexos no mundo real, durante e após os meses em que decorreu.

Em março, dois documentos elaborados por lóbis conservadores dos EUA instaram a administração Trump a assumir a liderança na modificação da radiação solar e a fazer face à ameaça da China. Um deles invocou, de forma memorável, um novo termo com referência ao movimento MAGA: «soberania meteorológica». Este mês, o jornal The Observer, de Londres, revelou que o Ministério da Defesa do Reino Unido tinha contratado uma consultora de segurança especializada em «deep tech» para realizar investigação sobre a reflexão da luz solar. Na semana passada, o governo britânico divulgou o seu primeiro documento oficial de política nesta área, apoiando a continuação da investigação, mas afirmando firmemente que não apoiava a implementação e «não tenciona fazê-lo». A Stardust tem continuado o seu trabalho de lóbi junto dos EUA e de governos de todo o mundo; o CEO Yanai Yedvab afirmou que o seu trabalho estava a tornar-se mais fácil, pois, ao contrário do que acontecia antes, «a maioria dos decisores políticos… já está ciente desta tecnologia».

A Stardust sempre defendeu que não realizará experiências a céu aberto em grande escala, muito menos uma implementação total, antes de estar em vigor uma governança global. «Estamos a desenvolver uma ferramenta muito poderosa», afirma Yedvab. «Quando se desenvolve este tipo de tecnologia poderosa — e há muitos precedentes —, os interesses nacionais vêm à tona. Não somos ingénuos quanto a isso.»

Entretanto, os fatores que impulsionam a crise climática estão a intensificar-se. Durante o período em que decorreu o jogo, os esforços para reduzir o uso de combustíveis fósseis foram prejudicados pelo aumento dos custos energéticos e pela hostilidade política. Semana após semana, um verão incrível de seca e calor assolou a Europa. Na última semana de agosto, o colapso de um glaciar na fronteira entre o Tibete e o Nepal confirmou as previsões feitas há décadas pelos cientistas climáticos, causando a morte de mais de 1 450 pessoas.

Nos meses que se seguiram ao fim da simulação, Golja reavaliou muitas coisas. Num quadro de cortiça atrás da sua secretária, afixou uma nota para si própria, delineando uma visão da vida num mundo governado por interesses geopolíticos mesquinhos, em vez de pela ciência, pelas provas e pela razão. A sua resposta: planeia regressar à pequena cidade costeira onde cresceu, em Connecticut, e usar os seus conhecimentos para ajudar grupos climáticos locais a construir os diques e as barreiras contra a erosão costeira de que irão precisar para lidar com o inevitável. «Para tentar fazer a diferença onde sinto que tenho realmente influência», afirma. Depois do que viu, dedicar-se à ciência na esperança de influenciar decisões globais já não tinha o mesmo encanto. «Agora parece-me um pouco mais pessoal.»

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

FECHADURAS INTELIGENTES PARA MELHORAR A GESTÃO DE RESÍDUOS?

  • Sete municípios portugueses implementam fechaduras inteligentes para melhorar a gestão de resíduos: Braga, Santo Tirso, Cinfães, Vagos, Torres Novas, Estremoz e Madalena (Pico, Açores). Fonte. A associação de um chip a um agregado familiar permite criar um registo detalhado de quem, quando e onde deposita resíduos. Este tipo de monitorização já levou à remoção de sistemas semelhantes noutros países. Em Pamplona, Espanha, a autoridade de proteção de dados considerou o sistema "demasiado controlador" e violador da privacidade, forçando a sua retirada.
  • Catarina Martins reuniu com a diretora-geral da Comissão Europeia encarregada do Fundo de Competitividade e dos projetos estratégicos e ficou a saber que a Comissão não foi informada da contestação da população ao projeto da Savannah. Fonte.

HUNGRIA: BARRAGEM ILEGAL PARA SALVAR CENTRAL NUCLEAR

Trabalhadores despejam pedras nas águas do Danúbio, junto às instalações da central nuclear de Paks (Hungria), a 19 de setembro de 2026. - © Attila Kisbenedek / AFP / Reporterre
  • A seca histórica que afetou o Danúbio este verão ameaça o funcionamento da central nuclear de Paks, na Hungria. Para evitar a sua paragem, o primeiro-ministro Péter Magyar deu início, em meados de agosto, à construção de um açude de pedra no rio, sem autorização ambiental nem consulta aos países vizinhos. Fonte.
  • O projeto de exploração mineira da Cobre San Rafael S.L. na Corunha e a mina de volfrâmio de Abenójar, em Ciudad Real, foram selecionados pela Comissão Europeia, num processo novamente marcado pela opacidade e pela falta de participação pública. Organizações ecologistas denunciam que os projetos selecionados apresentam inúmeras irregularidades e riscos ambientais e sociais, e a sua classificação como estratégicos implica trâmites acelerados que podem isentar da obrigação de não causar impactos negativos. Estes projetos juntam-se aos seis projetos mineiros estratégicos para a Comissão Europeia que já existiam em Espanha, apontando o país como uma zona de sacrifício. As organizações salientam que a Comissão continua a apostar na extração de matérias-primas, apesar dos graves impactos ambientais e sociais, quando deveria dar prioridade à redução da procura e à reciclagem de metais. Fonte.
  • Pelo menos 183 casas na costa leste de Inglaterra foram demolidas devido à erosão costeira e aos riscos de deslizamentos de terra nos últimos 16 anos. Fonte.
  • Agentes da polícia britânica poderão entrar nas casas dos condutores de veículos elétricos suspeitos de «adulteração dos contadores» para evitar o futuro imposto por milha percorrida. Fonte.

REFLEXÃO

PORTUGAL PODE VIR A SOMAR MAIS 44 CENTROS DE DADOS AOS 46 JÁ EXISTENTES: QUERCUS PEDE TRAVÃO E TRANSPARÊNCIA AO GOVERNO


A Quercus alerta que Portugal pode passar dos atuais 46 centros de dados para 90, com 44 novos projetos em análise (quatro de grande dimensão), e pede ao Governo de Luís Montenegro que trave o avanço até estarem garantidas condições de sustentabilidade. A associação critica a inversão de prioridades: primeiro foi lançado o Plano Nacional de Centros de Dados (PNCD), que promove o país como destino atrativo, e só depois se começam a preparar as bases legais de proteção.

Os principais riscos ambientais e socioeconómicos apontados são a água (elevado consumo e potencial contaminação dos recursos hídricos), a energia (consumo muito elevado que pode inflacionar as tarifas para as comunidades locais, como já aconteceu na Irlanda e nos Países Baixos), a pressão sobre solos agrícolas e florestais, a alteração da paisagem, o abate de floresta autóctone e destruição de habitats, mesmo quando alimentados por renováveis, a poluição sonora e o aumento significativo da temperatura local devido ao calor emitido pelo sistema de arrefecimento por evaporação e ainda o facto de os gases com efeito de estufa associados aos centros de dados serem 57% mais elevados do que se pensava.

A Quercus propõe a adoção imediata de medidas vinculativas, entre as quais (1) privilegiar sistemas de refrigeração sem evaporação (circuito fechado ou extração de humidade com MOFs), reutilização de águas e uso de água reciclada, e escolha de locais com maior disponibilidade hídrica e clima favorável, (2) recurso a renováveis próprias em infraestrutura já artificializada, (3) compromisso dos promotores de pagar um mínimo de capacidade de rede durante 10 a 15 anos, para que o custo de reforço não onere as famílias, (4) contribuição anual para um fundo local proporcional ao consumo de energia, (5) reforço da rede elétrica suportado pelo promotor, (6) compensações ambientais com comunidades e ONG, (7) disponibilização de capacidade de computação a universidades, startups e serviços públicos e (8) caução para desmantelamento e reposição do local.

BICO CALADO

Foto: Alastair Grant/AP
  • Israel demoliu a maioria das aldeias no sul do Líbano — na sua maioria após o cessar-fogo. O ministro da Defesa, Israel Katz, gabou-se de que Israel não estava a destruir «uma casa de cada vez», mas sim «a totalidade dessas aldeias». Fonte.
  • O bilionário de extrema-direita Elon Musk está a gastar uma fortuna sem precedentes (276 milhões de dólares) para ajudar o Partido Republicano a manter as suas maiorias no Congresso. Fonte.
  • “O Chega fez a sua primeira acção de milícias. Para o justificar socorreu-se da lógica formal, que há muito tomou conta do espaço público – se estudantes ocupam, disse o Chega, porque não invadimos também? A acção desta milícia, foi – não é de somenos! -, contra um órgão de informação e na Academia. Ou seja, a esfera pública que não controlam. (…) O Chega não é um partido, é uma milícia fascista, foi exatamente isso que foi ontem, às claras, uma milícia contra estudantes e jornalistas. Quem achar que é uma brincadeira o que se passou ontem em Coimbra não percebe nada de política. Ocupar uma praça para lutar pelo direito a habitação é ocupar um espaço público para defender a dignidade humana contra o roubo pelos fundos imobiliários, os que o Chega aprovou há duas semanas com o PSD e a IL; ocupar as terras e impedir máquinas de minas avançaram e destruirem a água potável é lutar pelo direito à vida. Tudo isto é resistir, direito inscrito em todas as Constituições modernas. Já um partido fascista como o Chega invadir um órgão de comunicação social é esmagar o direito dos jornalistas decidirem quem entrevistam, como e quando. É usar da violência para impor uma ideologia que justifica a morte e perseguição de quem consideram indigno de viver ou ter direitos. (…) Precisamos salvar Portugal do Chega. Não vai ser com o PS, já se percebeu, nem vai ser com queixinhas no Facebook. Organizemo-nos! Como dizem os bravos de Covas do Barroso o povo tem de se juntar e impor a justiça, precisamos mesmo de nos juntar, organizar, porque há um mundo novo de paz que quer nascer. Para isso, precisamos tirar da frente estas milícias, da morte e da guerra, como o Chega.” Raquel Varela, O Chega, uma milícia fascista.

LEITURAS MARGINAIS

A CARA REALIDADE DO JORNALISMO AMBIENTAL EM ÁFRICA
Adebayo Aare, Premium Times. Rev. O’Lima.


A 25 de dezembro de 2025, soldados da guarda presidencial congolesa detiveram Stéphane Shisso, um operador de câmara da Nyota TV, propriedade de Moïse Katumbi, um proeminente político da oposição no país, e levaram-no para o acampamento militar de Kimbembe, na cidade de Lubumbashi, no sudeste do país.

O Shisso e o seu colega Guelord Shamba tinham elaborado um relatório sobre a degradação dos solos e a erosão causadas pela exploração mineira em Kolwezi, uma cidade da província de Lualaba conhecida como um centro mundial de exploração de cobalto e cobre neste país da África Ocidental. O vídeo, que foi transmitido pela Nyota TV e pela Mbengu TV, incluía entrevistas com residentes que criticavam as autoridades locais pela falta de ação e destacavam a falta de infraestruturas públicas.

Shisso foi inicialmente levado para o acampamento militar de Kimbembe, em Lubumbashi, onde passou vários dias incomunicável antes de ser transferido para Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, a 5 de janeiro de 2026, e detido na prisão militar de Ndolo. Em julho de 2026, Shisso já se encontrava detido há mais de seis meses sem ter sido formalmente julgado por um tribunal nem notificado das acusações que pesavam contra ele.

Temendo ser também detido depois de ter testemunhado a detenção de Shisso, Guelord Shamba passou à clandestinidade. Colegas e familiares perderam contacto com ele desde o final de janeiro. Ambos os jornalistas tinham também perdido recentemente os seus pais e não puderam comparecer aos seus funerais devido à detenção e ao exílio forçado.

Stephane Shisso

Semanas antes, outra reportagem sobre questões ambientais tornou-se perigosa para os jornalistas — desta vez no Gana.

Na zona de Obuasi, na Região de Ashanti, no Gana, mineiros de ouro ilegais, conhecidos localmente como «operadores galamsey», emboscaram cinco jornalistas e agentes ambientais. Os repórteres, que estavam a cobrir uma operação para encerrar instalações de mineração ilegal, fugiram do local numa perseguição caótica que resultou num grave acidente rodoviário. Akwasi Adomako, da JoyNews, sofreu uma fratura na perna que exigiu cirurgia, enquanto os seus colegas da Luv FM, da Adom News e da Citi FM sofreram ferimentos na cabeça e traumatismos no tórax.

Este incidente ilustra uma realidade importante, mas muitas vezes ignorada, do jornalismo ambiental. Os jornalistas que cobrem questões ambientais enfrentam regularmente riscos associados a terrenos acidentados, acidentes rodoviários, exposição a doenças, condições meteorológicas adversas e instalações industriais. No entanto, esses perigos tornam-se significativamente maiores quando a reportagem ambiental se cruza com economias ilegais e interesses políticos ou comerciais poderosos.

Essa interseção já era evidente um ano antes do incidente de Obuasi. Em outubro de 2024, quatro jornalistas e profissionais da comunicação social do Multimedia Group do Gana foram detidos e espancados por seguranças ao serviço de uma empresa mineira enquanto faziam uma reportagem sobre a alegada degradação ambiental numa mina na Região de Ashanti. Entre as vítimas contam-se o jornalista Erastus Donkor; Majid Alidu, um piloto de drones; o técnico de câmara Edward Suantah; e o motorista Edward Arko. Tinham-se deslocado ao local para documentar a nova destruição de partes da Reserva Florestal de Asenanyo, recentemente restaurada, o que estava a causar a poluição de ribeiros que desaguam no rio Ankobra, que também se encontrava poluído.

Estes incidentes fazem parte de um padrão mais alargado de ataques contra jornalistas ambientais.

Um relatório de monitorização recente do Instituto Internacional de Imprensa (IPI) registou 26 ataques e ameaças distintos contra jornalistas ambientais na África Subsariana, apenas entre outubro de 2025 e março de 2026. Os casos envolveram jornalistas que estavam a fazer reportagens sobre mineração ilegal, exploração madeireira, gestão do petróleo e gestão de terras e recursos hídricos, entre outras questões. De acordo com o relatório de monitorização do IPI, as agências de segurança do Estado foram a principal fonte de ameaças nos casos documentados, embora empresas privadas, grupos armados e atores locais também estivessem implicados.

Quando comparado com a realidade mais ampla do panorama mediático africano, o jornalismo ambiental está a emergir rapidamente como a área de cobertura mais perigosa para os jornalistas no continente.

De um modo geral, o jornalismo em África é fortemente limitado por violações da liberdade de imprensa, a par de outros desafios que a comunicação social enfrenta. De acordo com o Índice Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, publicado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o jornalismo em mais de 90 dos 180 países avaliados em todo o mundo enfrenta graves restrições, sendo classificado como estando em condições difíceis ou muito graves. Uma análise mais aprofundada indica que 34 desses países se situam em África, incluindo a Nigéria, o Níger, o Mali e o Chade.

As redações do continente enfrentam um desafio crescente de subfinanciamento, ataques digitais e uma onda crescente de legislação restritiva, como as leis estatais sobre cibercriminalidade, para além do desafio da desinformação em rápido aumento, provocada pela proliferação da inteligência artificial.

Embora a situação seja, de um modo geral, preocupante para os jornalistas de todas as áreas de cobertura, os jornalistas ambientais enfrentam, sem dúvida, um ataque significativamente mais abrangente e grave. Operam na intersecção volátil entre indústrias extrativas multimilionárias, o crime organizado transnacional e ecossistemas frágeis. Um repórter que investigue a mineração ilegal pode, simultaneamente, atrair a atenção de funcionários governamentais, agências de segurança, empresas mineiras, atores poderosos — estatais e não estatais —, redes criminosas e comunidades cuja sobrevivência económica depende da atividade que está a ser investigada. Isso torna a área do jornalismo ambiental invulgarmente complexa.

O custo oculto de seguir o dinheiro

O jornalismo ambiental é frequentemente descrito como reportagens sobre florestas, rios, alterações climáticas, vida selvagem e poluição. Em África, essa descrição está cada vez mais a revelar-se muito mais abrangente. Algumas das reportagens ambientais mais importantes do continente são, na verdade, histórias sobre dinheiro.

A exploração mineira ilegal está ligada à propriedade da terra, ao licenciamento, à tributação, ao clientelismo político e aos fluxos financeiros ilícitos. A exploração madeireira ilegal envolve frequentemente redes de tráfico transfronteiriço. O tráfico de vida selvagem liga os caçadores furtivos locais aos mercados internacionais. A poluição por petróleo pode levantar questões sobre a responsabilização das empresas, a captura regulatória e a distribuição dos recursos públicos.

Os jornalistas ambientais, portanto, não se limitam a investigar os danos ambientais; investigam o sistema económico e político que permite que esses danos continuem. Esta é uma das razões pelas quais as investigações ambientais podem tornar-se perigosas.

O fundador e diretor executivo do Centro para a Inovação e o Desenvolvimento do Jornalismo (CJID), Dapo Olurunyomi, afirmou que o jornalismo ambiental ultrapassou a simples documentação da degradação ambiental, passando a investigar fluxos financeiros ilícitos, corrupção e governação. Referiu-se às reportagens sobre a mineração na região do Congo e no delta do Níger, onde o foco está a deslocar-se cada vez mais dos danos ambientais em si para os sistemas e interesses que os sustentam.

O jornalista veterano descreveu esta evolução como uma nova etapa para o jornalismo ambiental, que exige uma maior consciencialização não só por parte dos governos e da sociedade, mas sobretudo por parte dos jornalistas, a quem descreveu como portadores de conhecimento capazes de moldar as políticas públicas e as relações comunitárias.

Isto é especialmente importante à medida que a destruição ambiental se torna cada vez mais interligada com interesses económicos e políticos. Em algumas regiões do norte da Nigéria, incluindo Zamfara, Katsina e Níger, observou ele, os recursos naturais tornaram-se fontes de riqueza ilícita para os intervenientes nos conflitos. No entanto, a cobertura pode limitar-se a rótulos como «banditismo» ou «terrorismo», sem examinar os fluxos financeiros gerados pela exploração dos recursos.

«O jornalista ambiental, portanto, deve fazer perguntas que vão além do que está a acontecer à terra ou à água: Quem é o proprietário da operação? Quem beneficia? Quem emitiu as licenças? Para onde vai o dinheiro? Que responsáveis ou instituições são responsáveis pela supervisão?»

Essa mudança transforma o jornalismo ambiental em jornalismo de investigação, capaz de expor interesses poderosos.

Olorunyomi defendeu que as redações devem responder com formação especializada, recursos e áreas de cobertura dedicadas. Os jornalistas precisam de compreender os protocolos de exploração mineira, os regimes de licenciamento, os processos de adjudicação de contratos, os fluxos financeiros e os sistemas de governação subjacentes à exploração ambiental.

Ele observou que organizações como a Repórteres Sem Fronteiras e o Instituto Internacional de Imprensa já iniciaram o seu trabalho nesta área, mas afirmou que ainda há muito a fazer.

A necessidade dessa capacidade especializada torna-se mais evidente quando os jornalistas saem da redação e entram nos ambientes onde estas histórias se desenrolam.

A jornalista de investigação ambiental sul-africana Fiona Macleod, fundadora e editora do Oxpeckers Investigative Environmental Journalism Centre, observou numa entrevista à Dialogue Earth que a transição do jornalismo ambiental de uma área de cobertura «opcional» para uma essencial tem consequências para os jornalistas. «Quanto mais importantes se tornam as reportagens ambientais para as economias nacionais e as políticas públicas, mais provável é que entrem em conflito com interesses poderosos», acrescentou.

Reportando para além da redação

As exigências físicas do jornalismo ambiental também tornam esta área de cobertura particularmente difícil. As reportagens de investigação exigem frequentemente que os jornalistas saiam das grandes cidades e viajem para florestas remotas, comunidades mineiras, zonas petrolíferas, zonas húmidas, regiões fronteiriças e territórios afetados por conflitos.

Em toda a região, um jornalista que investigue a mineração ilegal pode ter de entrar em reservas florestais e comunidades mineiras onde as medidas de segurança são fracas ou, por vezes, inexistentes. Quanto mais os jornalistas se afastam da redação, menos proteção institucional imediata podem ter. Isto é especialmente significativo para freelancers e pequenas redações locais. Um repórter que trabalhe de forma independente pode ter pouco ou nenhum acesso a agentes de segurança, advogados, cobertura de seguro, um plano de evacuação de emergência ou um empregador disposto a intervir caso a missão corra mal.

Em agosto de 2023, o jornalista de investigação nigeriano Damilola Ayeni, na altura editor da Fundação para o Jornalismo de Investigação (FIJ), deslocou-se ao norte do Benim no âmbito de uma investigação transfronteiriça sobre a conservação ambiental em torno do Parque Nacional de Pendjari. Enquanto fotografava o parque para a investigação, a polícia beninesa deteve-o e acusou-o de pertencer a um grupo terrorista jihadista.

Damilola Ayeni

Ayeni ficou detido em regime de incomunicabilidade durante nove dias, período em que nem os seus colegas nem a sua família sabiam do seu paradeiro. De acordo com a FIJ, um homem que se identificou como o comissário da polícia de Parakou exigiu 800 000 francos CFA (cerca de 1 315 dólares) em troca da sua libertação. Acabou por ser libertado sem acusação, na sequência de um esforço diplomático contínuo por parte da Embaixada da Nigéria no Benim.

A experiência do Sr. Ayeni destaca uma dimensão frequentemente ignorada do jornalismo ambiental em África, onde os repórteres que investigam questões de conservação, biodiversidade e áreas protegidas operam cada vez mais em territórios onde a governação ambiental se sobrepõe a operações antiterroristas, segurança nas fronteiras e policiamento militarizado. Nesses contextos, os jornalistas estão expostos não só aos perigos representados por redes criminosas ou interesses privados, mas também ao risco de serem vistos através de uma perspetiva de segurança nacional.

O resultado é que o trabalho normal de jornalismo de investigação pode ser mal interpretado como espionagem ou atividade terrorista, colocando os jornalistas ambientais em risco de detenção arbitrária, interrogatórios prolongados e processo penal.

Os riscos não se limitam, portanto, ao que acontece quando um jornalista publica uma reportagem. Em muitos casos, o perigo começa logo no início da reportagem, quando o jornalista decide deslocar-se para o território onde a história se desenrola; e, assim que o jornalismo ambiental entra nesses espaços, as consequências podem ir muito além da segurança física imediata do jornalista.

A dimensão da ameaça

Um estudo da UNESCO de 2024 revelou que, entre 2009 e 2023, pelo menos 749 jornalistas e organizações de notícias que cobriam questões ambientais foram alvo de assassinatos, violência física, detenções e prisões, assédio online ou ataques legais.

Um inquérito da UNESCO a mais de 900 jornalistas ambientais de 129 países revelou que 70% tinham sido alvo de agressões, ameaças ou pressões relacionadas com o seu trabalho. Entre os afetados, dois em cada cinco sofreram posteriormente violência física. A organização registou também pelo menos 44 jornalistas ambientais assassinados nos últimos 15 anos, tendo apenas cinco desses casos resultado em condenações, o que se traduz numa taxa de impunidade de quase 90 por cento.

Os dados da UNESCO provêm de um inquérito realizado junto de um conjunto selecionado de jornalistas ambientais a nível global e não significam que 70% de todos os jornalistas ambientais do mundo tenham sido alvo de agressões físicas. Da mesma forma, o número de 749 representa casos documentados envolvendo jornalistas e órgãos de comunicação social, e não um recenseamento de todos os ataques ocorridos.

Apesar desta nuance, no entanto, os resultados mostram que as ameaças contra os jornalistas ambientais não se limitam à violência física ou ao assédio. Os jornalistas que cobrem a área ambiental enfrentam assédio online, processos judiciais abusivos (SLAPPs), intimidação, detenção, censura e pressão por parte de empregadores e autoridades.

A investigação da UNESCO revelou ainda que quase metade dos jornalistas ambientais inquiridos já tinha praticado autocensura devido ao receio de retaliação ou a conflitos de interesses, enquanto um terço referiu ter sido censurado pelas próprias organizações editoriais a que pertencem. Quando os jornalistas começam a evitar abordar certas matérias por receio de retaliação, as consequências são que as comunidades perdem o acesso a informações essenciais sobre poluição, degradação do solo, extração ilegal e outras atividades que afetam diretamente as suas vidas. E, em muitas comunidades africanas, o problema é ainda mais agravado pela desconexão entre o jornalismo ambiental e a compreensão do público.

O desafio da ignorância generalizada

As ameaças enfrentadas pelos jornalistas ambientais na região são ainda mais agravadas pela lacuna de conhecimento entre os problemas que os jornalistas procuram trazer à luz e as pessoas afetadas por eles. Quando existe tal desconexão, os jornalistas ambientais ficam frequentemente numa posição vulnerável, isolados tanto das comunidades que procuram dar voz como das fontes de apoio de que necessitam.

Numa entrevista ao CJID, o Ayeni salientou que a ignorância é um dos maiores desafios que o jornalismo ambiental enfrenta em África.

«Muitos ou não conhecem a importância da conservação ambiental ou, face à pobreza, simplesmente não se importam. Por isso, a vossa missão, por mais bem definida que seja, não vos poderá salvar se se tornarem vítimas deles», afirmou.

Cumplicidade do Estado e abuso das leis sobre cibercriminalidade

Os riscos tornam-se ainda mais complexos quando a reportagem ambiental entra em conflito com leis restritivas. Em toda a África, os governos recorrem a leis relacionadas com a cibersegurança, a segurança nacional, a difamação e a ordem pública, entre outras, para processar jornalistas. Disposições vagas são frequentemente utilizadas para criminalizar o jornalismo legítimo, em particular reportagens que expõem a corrupção ou as deficiências do setor público.

O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026 da RSF identificou a utilização das leis de segurança nacional e cibersegurança como arma como uma tendência regional significativa. A RSF referiu que 24 dos 48 países da África Subsariana foram classificados como apresentando condições de liberdade de imprensa «difíceis», enquanto cinco foram classificados como «muito graves».

A República Democrática do Congo, por exemplo, ocupou o 130.º lugar a nível mundial, tendo a RSF salientado as graves pressões de segurança que os jornalistas enfrentam, particularmente nas regiões orientais do país afetadas por conflitos.

O caminho a seguir

O jornalista e investigador ambiental Gustavo Faleiros salientou a importância de uma preparação minuciosa antes de entrar em ambientes de alto risco. Ao debater o jornalismo de investigação em territórios remotos, Faleiros sublinhou a necessidade de os jornalistas elaborarem um plano detalhado, realizarem pesquisas prévias e identificarem contactos locais fiáveis antes de viajarem.

O Sr. Ayeni salientou ainda a importância de planear com antecedência uma investigação ambiental.

«A minha experiência de 2023 abriu-me os olhos para os riscos deste tipo de trabalho e, hoje, planeio melhor e envolvo mais pessoas. Muitas vezes, uma reportagem ambiental leva-nos às zonas mais remotas e perigosas do país», afirmou.

Ayeni sublinhou ainda que a coordenação com uma equipa de confiança é tão importante quanto outras medidas de segurança. «Há dois meses, por exemplo, estive numa LGA do Estado de Kogi quase completamente esquecida pela civilização e pelo governo. Mas mantive algumas pessoas de confiança a par das minhas deslocações. Se não tivessem notícias minhas dentro de um prazo estipulado, sabiam que deviam comunicar a situação às instâncias competentes.»

Os riscos que os jornalistas ambientais enfrentam exigem mais do que conselhos genéricos de segurança. As redações, os grupos da sociedade civil e as organizações de defesa da liberdade de imprensa têm de repensar a forma como os repórteres são formados, apoiados e protegidos.

Para o Sr. Olorunyomi, a intervenção começa com uma formação especializada. «A formação habitual em segurança, que quase nunca está realmente disponível, deve ser complementada por formação que ajude os jornalistas a compreender os protocolos mineiros, os regimes de licenciamento, os sistemas cadastrais, os processos de adjudicação de contratos e os fluxos financeiros subjacentes à exploração dos recursos naturais», afirmou.

Defendeu ainda que os crimes ambientais exigem, cada vez mais, que os jornalistas trabalhem além-fronteiras. Uma vez que os fluxos financeiros e os crimes relacionados com os recursos operam frequentemente através de redes, as redações devem estabelecer parcerias regionais e desenvolver protocolos de segurança partilhados.

Para os próprios repórteres, a preparação deve começar antes de uma missão. Ayeni recomenda compreender quem controla o território, quem beneficia com a atividade que está a ser investigada, quais as agências envolvidas e o que fazer caso se perca a comunicação. Numa missão recente no Estado de Kogi, manteve contactos de confiança regularmente atualizados sobre os seus movimentos, para que pudessem escalar a situação caso deixassem de ter notícias dele.

No entanto, subvlinhou que a precaução individual não pode substituir o apoio institucional, referindo que as redações devem proporcionar formação em segurança e primeiros socorros, sistemas de comunicação de emergência, apoio jurídico e planos de evacuação, especialmente para freelancers e repórteres que trabalham em áreas remotas ou de alto risco.

Olorunyomi instou também as organizações da sociedade civil a recorrerem mais aos mecanismos regionais, incluindo o Relator Especial da Comissão Africana para a Liberdade de Expressão e o Acesso à Informação e o Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos. «As organizações da sociedade civil têm de ser capazes de chamar a atenção muito rapidamente», afirmou, acrescentando que os litígios estratégicos e os mecanismos regionais de direitos humanos podem proporcionar uma camada adicional de proteção quando os jornalistas são atacados ou detidos.