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quarta-feira, 1 de julho de 2026

ESPANHA: BANDEIRAS PRETAS 2026

  • Após a inspeção dos mais de 8 000 quilómetros das costas espanholas, a Ecologistas en Acción apresenta o relatório «Bandeiras Negras 2026». Das 48 bandeiras negras atribuídas este ano, destacam-se: Urbanização da costa e invasão do domínio público marítimo-terrestre (8 bandeiras), despejos, deficiências nos sistemas de saneamento e graves problemas de depuração (14 bandeiras), impactos na biodiversidade (9 bandeiras), acumulação de lixo, plásticos e microplásticos na costa (2 bandeiras), obras portuárias ou de defesa costeira desnecessárias ou mal geridas (3 bandeiras), poluição química (7 bandeiras), danos ao património histórico e cultural no domínio público marítimo-terrestre (1 bandeira) e degradação ambiental resultante da turistificação e da sobrelotação (4 bandeiras). Bandeiras negras de 2026 por tipo, aqui.
  • A rápida expansão da energia solar em Espanha suscitou preocupações quanto ao excesso de capacidade, levando alguns investidores a procurar oportunidades noutros locais, nomeadamente no mercado norte-americano. Esta mudança é influenciada pela necessidade de diversificação e pelos desafios enfrentados no mercado interno. Fonte.
  • Alta velocidade Évora-Elvas pronta e parada desde janeiro. IP e IMT passam as culpas. Fonte.
  • Dois meses depois de a administração Trump ter cancelado dois grandes contratos de arrendamento para energia eólica offshore, o Departamento do Interior dos EUA anunciou um acordo com a Duke Energy. A empresa desiste do projeto de energia eólica offshore Carolina Long Bay, previsto para gerar energia para abastecer 300 mil residências e redireciona os 129 milhões para investir em centrais a gás ou tecnologias nucleares. Fonte.
  • A canadiana Reflect10 desenvolveu um projeto de módulo fotovoltaico que diz poder aumentar a produção de energia em 20 % em comparação com um módulo solar convencional. Em vez de recorrer a espelhos externos, a Reflect10 diz que o seu projeto incorpora uma geometria refletora na arquitetura do módulo, onde a luz solar é refletida várias vezes antes de ser absorvida pelas células fotovoltaicas, aumentando a captura de fotões sem alterar as próprias células. Fonte.

BICO CALADO

Cartune: Bruce MacKinnon
  • Dez anos após o Brexit, a economia britânica sofreu uma queda de 6 a 8%, o investimento e a produtividade entraram em colapso e a instabilidade política atingiu níveis históricos. Mas, para além do desastre económico, Londres assumiu uma posição muito mais beligerante em relação à Rússia, como forma de compensação pelas suas perdas políticas e económicas — uma estratégia tácita que está a conduzir o resto da Europa para uma guerra aberta. Com os EUA e outras nações a não proporcionarem acordos comerciais adequados, Londres passou a tentar ganhar a simpatia da Europa através de uma postura belicista em relação à Ucrânia. A UE continua a ser «o prémio principal» para a Grã-Bretanha — e apoiar a guerra por procuração é o preço da readmissão no seio da Europa. Fonte.
  • A alemã Allianz e a sua filial norte-americana PIMCO acumularam, pelo menos, 2,67 mil milhões de dólares em obrigações do Estado israelita desde 2024. FontePor outro lado, o Barclays e o BNP Paribas deixaram de subscrever obrigações de Israel.
  • Por que razão o valor do Brent desce mas os preços dos combustíveis se mantêm em Portugal? Fonte.
  • Um artigo intitulado «Identidade política para além da política: a preferência por Messi ou Ronaldo em 26 países» analisa os indicadores políticos da preferência de uma pessoa por estrelas do futebol, como Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo. Os investigadores inquiriram mais de 10 000 adultos em 26 países e descobriram que as pessoas que se identificavam como mais liberais tendiam a preferir Messi, enquanto as que se consideravam mais conservadoras preferiam Ronaldo, e as pessoas que consumiam frequentemente notícias em vídeos curtos preferiam Ronaldo, enquanto o consumo de meios de comunicação tradicionaisnão foi um indicador significativo de nenhuma das preferências. Via Hanaa' Tameez, Nieman Lab.
  • O músico brasileiro Sérgio Pererê foi detido no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Viajava com a cantora Badi Assad e o violinista Kevin Callahan para Berlim a convite de um festival. Ele ficou detido para interrogatório durante 4 horas enquanto os outros músicos seguiam viagem. A sua detenção só acabou com a intervenção de uma advogada e da convocação da imprensa. Com o atraso, a mala com os instrumentos chegou fora de horas e Pererê teve de improvisar no primeiro concerto. O Bloco de Esquerda questiona o Governo de Luís Montenegro, classifica a situação como uma "retenção injustificada" e exige esclarecimentos sobre o ocorrido.

LEITURAS MARGINAIS

A TORRE DA LELLO E DA AUTARQUIA TREMEU*



Erguer uma "Cidade-Livro" no coração do Porto parecia, no papel, o pináculo do esclarecimento cultural. Sob o mote de BABELL, a Fundação Livraria Lello, de braço dado com a Câmara Municipal do Porto, propôs-se a erguer uma torre contemporânea de pensamento, unindo a urbe sob a celebração da palavra.

Mas o mito de Babel não é uma fábula sobre harmonia — é uma narrativa humana, demasiado humana, escrita por homens para dar sentido à soberba dos homens. Não há punição divina em Babel: há apenas o inevitável colapso de quem tenta centralizar o mundo em torno de si. A história, caprichosa na sua ironia, repetiu-se na Invicta com precisão cirúrgica.

O primeiro abalo na estrutura desta torre cultural deu-se na própria gramática do festival. Ao assumir o inglês como língua franca que tudo unificaria, a organização mimetizou os babilónios que recusavam a dispersão. Perante a recusa do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em vergar o seu pensamento ao Globalese comercial, o Jardim do Pensamento transformou-se num palco de incompreensão e protesto. Logo ele, o pensador que tornou a filosofia acessível às massas, acabou silenciado pela ausência de tradução.

A sua presença no Porto tornou-se o espelho da sua própria obra: a denúncia da homogeneização cultural e da pressa de uma sociedade hiperconectada que já não sabe escutar o Outro.

A ironia adensa-se quando olhamos para o alinhamento dos autores do certame. Aponto alguns, o húngaro László Krasznahorkai, cujo romance Herscht 07769 traça a radiografia da decadência ocidental e da inevitabilidade de uma catástrofe que se instala quando as instituições falham; o aviso da canadiana Margaret Atwood, cujas distopias ensinam como o poder absoluto, disfarçado de missão cultural, começa sempre por purgar a dissidência e ditar quem tem direito à palavra. Os autores convidados escrevem contra a opressão e o esmagamento das minorias. Os seus nomes foram usados como tijolos para edificar uma Babel que faz precisamente aquilo que as suas obras repudiam.

Pois é sob o manto desta "missão cultural" que o grupo Lionesa (grupo com uma biografia empresarial que, ela própria, mereceria um capítulo de Atwood), proprietário da Lello, decidiu falar a língua mais clara do nosso século: a do Capital. Em fevereiro de 2025, a Lello Vitória — Livros e Turismo, Lda. adquiriu o imóvel no 19A da Travessa da Rua do Loureiro e notificou a Associação Comunidade do Bangladesh do Porto de que o seu contrato de arrendamento não seria renovado após outubro de 2025. A mesquita Hazrat Hamza, instalada naquele espaço desde 2003, recebe centenas de fiéis diariamente — e cerca de 1.500 às sextas-feiras. O objetivo declarado do grupo é transformar aquele quarteirão num "circuito criativo" higienizado e apelativo para o turismo de elite. Seria redutor, contudo, carregar toda a responsabilidade sobre a Lello. A situação foi agravada por uma sequência de decisões políticas que deixaram a comunidade sem saída. O anterior presidente da Câmara, Rui Moreira, prometera à associação a cedência do direito de superfície de um espaço alternativo na Rua da Porta do Sol — uma solução que nunca chegou a ser votada por o mandato estar a chegar ao fim e o atual presidente, Pedro Duarte, anunciou depois a intenção de colocar esses imóveis em hasta pública, declarando que "a construção de mesquitas não é prioridade". A comunidade ficou presa entre a indiferença de um executivo e a expansão imobiliária de outro.

Há aqui uma camada de ironia que transcende o óbvio. A narrativa de Babel não pertence apenas à tradição cristã ocidental que a Lello parece invocar como ornamento cultural. É uma história das três religiões abraâmicas — Judaísmo, Cristianismo e Islão partilham o mesmo Deus de Abraão, e a comunidade do Bangladesh, maioritariamente muçulmana sunita, venera essa mesma origem. O festival baptizado com o nome de uma torre que simboliza a arrogância humana expulsa, precisamente, uma comunidade que lê o mesmo texto fundador pela outra face. Babel, afinal, não foi construída por infiéis: foi construída por quem acreditava ser o único centro do mundo.

Acresce que esta comunidade do Bangladesh atravessa em Portugal uma visibilidade pública carregada de ambiguidade. Os cartazes que apareceram em Lisboa a dizer "Isto não é o Bangladesh", os debates mediáticos sobre representatividade da comunidade imigrante e a associação, por vezes apressada, entre a presença bangladeshiana e tensões urbanas, criaram um clima em que estas pessoas chegam ao espaço público já marcadas. Mas seria um erro de lógica — e de justiça — confundir o estigma construído pela opinião pública com uma razão para o silêncio à volta do seu despejo. São pessoas que vivem, trabalham e rezam no Porto há mais de duas décadas e cuja única relação com o festival BABELL é a de quem foi removido para que ele pudesse acontecer com maior conforto estético.

O escrutínio público já começou a fazer o seu trabalho. A torre da Lello e da autarquia tremeu porque esqueceu a lição fundamental que o próprio mito de Babel nos ensina — não como castigo divino, mas como consequência humana previsível: a tentativa de centralizar o poder, de homogeneizar a cultura e de passar por cima do Outro em nome de um monumento próprio atrai sempre a sua própria e justa ruína. A cultura real do Porto não se decreta por contratos de despejo. Sobrevive na tradução, na tolerância e na resistência daqueles que recusam ser apagados da fotografia da cidade.

* O título é da responsabilidade do Ambiente Ondas3.

terça-feira, 30 de junho de 2026

BEJA: A QUEM SERVE EXTERNALIZAR A LIMPEZA URBANA?

  • A coligação Beja Consegue (PSD, CDS-PP e IL), com os votos do PS e do Chega, aprovou uma proposta para a abertura de um concurso público internacional para a aquisição de serviços de limpeza urbana na cidade. A CDU votou contra alegando que a externalização não garante a melhoria da qualidade da limpeza urbana e acarreta um custo financeiro superior para os cofres do município, além de dar continuidade a uma política de privatização de serviços públicos. Fonte.
  • A onda de calor está a afetar a produção de energia. A EDF desativou dois reatores nucleares, em Bugey (Ain) e em Nogent-sur-Seine (Aube), elevando para três o número de reatores paralisados em França devido ao calor intenso, após o de Golfech (Tarn-et-Garonne), enquanto uma unidade em Saint-Alban também terá de reduzir a sua produção. Fonte.
  • Investigadores do Havai estão a dar uma segunda vida a redes de pesca velhas e ao plástico reciclado, incorporando-os no asfalto das estradas. Testes iniciais revelaram que estas estradas não libertam mais partículas de plástico do que o pavimento convencional, sendo que o desgaste dos pneus supera largamente qualquer vestígio de plástico proveniente do material reciclado. Se estudos futuros confirmarem que as estradas são duráveis, esta tecnologia poderá ajudar a combater tanto a poluição marinha como o sobrelotamento dos aterros sanitários. Fonte.

REFLEXÃO

O MILAGRE DOS EUCALIPTOS DE MELRES
Ricardo Meireles, Substack.


A 28 de Junho, o jornal Nascer do Sol publicou uma peça com um título que vale por si: “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo”. O ponto de partida é real. Dois povoamentos de eucalipto ficaram intactos no meio de um incêndio que, em 2024, queimou cerca de quatro mil hectares em Penafiel, Paredes e Gondomar. Quem sobe ao miradouro de Melres vê hoje duas ilhas verdes numa encosta carbonizada. A imagem é forte e a pergunta que ela levanta é legítima. A resposta que o jornal lhe dá é que o problema do fogo está na gestão e não na espécie, e o título dá um salto que o resto do texto não sustenta.

A rubrica #areiaparaosolhos existe também para separar as frases que seduzem daquilo que as frases escondem. Vamos por partes.

O que o título promete e o que o próprio texto admite

O título diz “eucaliptos resistem”. Sugere que a espécie tem uma qualidade de resistência ao fogo. A explicação que o jornal apresenta aponta para o contrário. Segundo o jornalista a peça jornalística, aquele povoamento aguentou porque foi plantado em terraços, porque as máquinas conseguem entrar para controlar a vegetação, e porque beneficiou de preparação do terreno e de redução de combustível. Por outras palavras, o que ali resistiu foi um regime de gestão intensiva, assente no uso de petróleo como energia barata, com solo trabalhado e biomassa retirada à mão e à máquina.

A própria peça responde, portanto, ao seu título. Aquelas árvores não pararam o fogo por serem eucaliptos. Pararam o fogo apesar de o serem, graças a um esforço de limpeza que removeu quase tudo o que era inflamável à volta delas. Atribuir esse mérito à espécie é o primeiro grão de areia para os olhos de quem lê. O mérito é do trabalho, e o trabalho foi feito precisamente porque o eucalipto, sozinho e em quantidade, arde com violência.

A frase que viaja sem o seu contexto

O artigo cita um investigador da Universidade de Lisboa para sustentar a ideia de que a espécie não é o problema e que o que conta é a quantidade de biomassa disponível para as chamas. A frase é defensável em termos estritos de comportamento do fogo. A carga de combustível pesa, e muito, na forma como um incêndio se propaga. O investigador é uma fonte independente e o reparo que aqui se faz não é sobre ele. É sobre o uso que o artigo faz das suas palavras.

A frase chega ao leitor decapada do contexto. “A espécie não é o problema” é verdade quando se fala apenas de física da combustão num talhão específico. Deixa de ser verdade quando se usa essa meia-ideia para ilibar um modelo inteiro de ocupação do território. Já o escrevi noutro texto neste site: o que desertifica o solo não é a árvore em si, é o regime de monocultura em que é plantada e explorada. A reportagem do Nascer do Sol fica-se pela primeira metade dessa frase, a que tira o foco do eucalipto, e descarta a segunda, a que devolve o foco ao regime que o multiplica em talhões de idade igual, sem estratos, sem sombra e sem água retida no solo.

O que a montra esconde: água, solo, microclima

Ao fixar todo o problema na quantidade de combustível e na limpeza do chão, o artigo apaga a dimensão que mais importa quando se fala de paisagens que ardem. Uma floresta biodiversa e estratificada, com plantas a ocupar diferentes alturas, funciona como um condensador. A atividade fotossintética arrefece o ar à sua volta, atrai humidade da atmosfera, condensa-a e prende-a no primeiro palmo de terra. Esse solo húmido e sombreado abranda o fogo. Um eucaliptal em monocultura faz o oposto. Deixa o vento seco correr, aquece, evapora e prepara o terreno para arder.


A ciência feita em Portugal já mediu estes factos. O investigador Joaquim Sande Silva ordenou, num estudo de 2009, as formações florestais por propensão para arder, e colocou o pinheiro-bravo e o eucalipto no topo, com o sobreiro, o castanheiro, a azinheira e o pinheiro-manso no fundo da lista. Vale a pena reter que o pinheiro-manso, também ele uma resinosa, fica entre os menos inflamáveis, sinal de que a etiqueta da espécie não decide tudo. Trabalho posterior da equipa de Jordi Garcia-Gonzalo, no mesmo Instituto Superior de Agronomia, mostrou que os povoamentos mistos e de folhosas reduzem o risco de fogo face ao pinheiro-bravo e ao eucalipto. O risco mora na monocultura densa e contínua de espécies inflamáveis, e a diversidade trabalha como corta-fogo.

E há uma razão económica para que estas espécies menos inflamáveis ocupem hoje tão pouco terreno. O carvalho, o castanheiro e o sobreiro são de crescimento lento, próprios das fases maduras da floresta, daquilo a que se chama o regime de abundância, e que podem levar décadas ou séculos a instalar-se. Esse tempo longo não serve o modelo da indústria da pasta de papel, que vive de cortar depressa e em grande quantidade. A própria Navigator descreve o eucalipto globulus como a espécie que está na origem dos seus papéis e valoriza-o justamente por ser de crescimento rápido, com ciclos de plantação e corte de cerca de doze anos, em povoamentos plantados exclusivamente para esse fim. Uma floresta que arde menos é, quase sempre, uma floresta que amadurece devagar, e uma floresta que amadurece devagar é tudo o que um modelo da industria da celulose não pode permitir.

A “limpeza” que a reportagem celebra é, vista por este ângulo, parte do problema e não a solução. Um chão raspado até ao osso é um chão que perde água por evaporação, que regride na sucessão ecológica e que precisa de recomeçar do zero o trabalho de se cobrir. A peça apresenta o solo exposto como virtude. Em rigor, é a assinatura de um ecossistema mantido em estado de adolescência permanente, ao serviço da extracção, sempre pronto a recomeçar e nunca autorizado a amadurecer até à fase em que a paisagem se torna húmida e pouco inflamável.

Incêndio a atravessar a A3 entre o Porto e Valença, na zona da Trofa, há cerca de vinte anos, em pleno território de monocultura de eucalipto gerido por empresas de celulose. O problema é antigo e é estrutural. Fotos: ©Ricardo Meireles 2006

A escala que falta à fotografia

A reportagem mostra dois talhões. O país tem outra dimensão. Portugal tem perto de oitocentos mil hectares de eucalipto e mais de um milhão de hectares de plantações industriais de espécies de crescimento rápido. As áreas onde o eucalipto não arde de forma explosiva são as parcelas bem geridas e protegidas pelas celuloses, uma minoria do total. A larga maioria, a que alimenta a indústria, é onde se exprimem as características mais combustíveis da espécie, a biomassa que se acumula depressa e o material incandescente que salta a quilómetros de distância e abre novas frentes.

Há ainda um problema de método na própria escolha do caso. Mostrar dois povoamentos que sobreviveram dentro de quatro mil hectares ardidos é seleccionar pelo resultado. Falta a pergunta que daria sentido ao número: quantos talhões de eucalipto, geridos ou não, arderam naquele mesmo incêndio? Sem essa conta, dois sobreviventes são uma anedota fotogénica e não uma prova.

Quem explica o “milagre”

A fonte que explica a resistência daqueles povoamentos é um engenheiro florestal da Navigator, a empresa proprietária dos eucaliptais. O perito que elogia a gestão dos talhões trabalha para a dona dos talhões. A reportagem apresenta-o entre especialistas, sem uma palavra sobre o conflito de interesse evidente. Não é preciso supor má-fé de ninguém para reconhecer o óbvio. Quem tem o ativo a defender não é uma fonte neutra sobre o valor ou risco desse ativo.

O desvio para os quatrocentos mil proprietários

No fim, a peça empurra a culpa. Diz que o problema da floresta portuguesa está nos mais de quatrocentos mil proprietários com parcelas minúsculas, sem escala para oferecerem rentabilidade. Repare o leitor neste movimento. Um problema de água, de solo e de modelo ecológico é convertido num problema de escala empresarial. E a solução implícita nesse diagnóstico é concentrar a terra em explorações grandes e geridas, ou seja, mais do mesmo modelo que produziu a paisagem inflamável e influenciou o clima seco. A pergunta que falta é simples. A floresta serve para dar rentabilidade a um sector que a quer tornar num chão de fábrica, ou serve para segurar água, sombra e comunidades? A reportagem responde à primeira e finge que é a única.

Veredito

O mais difícil de desmontar num texto destes não são as mentiras. São os factos verdadeiros postos ao serviço de uma conclusão falsa.

O facto de base é verdadeiro. Dois povoamentos de eucalipto sobreviveram ao incêndio em Melres, e sobreviveram por terem sido geridos, com terraços, acessos e remoção de combustível. Isso aconteceu e está correctamente descrito.

O título é falso. “Eucaliptos resistem onde ardeu tudo” generaliza dois talhões geridos para a espécie inteira e afirma quase o contrário do que a ciência e o próprio corpo do artigo dizem. O que resistiu foi a gestão do deserto verde.

A tese geral é descontextualizada. Constrói-se a partir de uma frase verdadeira retirada do seu contexto técnico, ilustra-se com um caso escolhido pelo resultado, sustenta-se numa fonte com interesse directo no assunto, e omite a água, o solo, a estratificação e a escala real do eucaliptal português. Cada peça, isolada, quase se defende. O conjunto conduz o leitor a uma conclusão que os factos não autorizam.

Por tudo isto esta notícia, tendo em conta a disposição dos factos e a falta de independência da fonte é #AreiaParaOsOlhos.


BICO CALADO

Novo Banco tem mil milhões de euros bloqueados da Venezuela. O Novo Banco saiu da Venezuela em 2019, e fechou contas de empresas públicas do país, deixando o dinheiro retido. Invocando suspeita de fraude eleitoral nesse ano, por não saber quem tem legitimidade para o reclamar, o dinheiro continua no banco português. Fonte.



LEITURAS MARGINAIS

ENQUANTO UNS FAZEM TUDO PARA RESGATAR VIDAS , OUTROS PROMOVEM A MORTE*

VÁRIOS EDIFÍCIOS DESABARAM EM MANDALAY, UMA DAS PRINCIPAIS CIDADES DE MYANMAR.

Há cerca de um ano, fui a uma das zonas mais pobres de La Guaira, com o jornalista argentino Sebastian Salgado, entrevistar Pedro Escobar, um jovem venezuelano que sendo emigrante nos Estados Unidos havia sido preso pelo ICE e deportado para um campo de concentração em El Salvador. Pedro Escobar está bem, assim como a sua corajosa mãe que nos contou de lágrimas nos olhos o horror que foi ter um filho sequestrado pelo ICE.

Fizemos essa viagem com a minha amiga Eadra Flores, viúva de Gustavo Rodríguez, um dos históricos revolucionários do Bairro 23 de Enero, bastião do chavismo em Caracas, que durante a minha estadia de meio ano me tratou como um filho. Desde que ocorreram os terramotos tratei de contactar a Eadra sem sucesso, suspeitando que ela estivesse na sua aldeia junto ao mar, La Sabana, no estado de La Guaira. Sem electricidade e sem cobertura móvel, só com muita dificuldade soube que estava tudo bem com ela e com a sua filha. Agora, desesperadamente, calcorreia as listas dos hospitais de Caracas e La Guaira à procura de Orelsy, Ilse e Rousse, os nomes da sua prima, da filha desta e da neta de quatro anos, que estavam em Caraballeda, no edifício Vargas, um dos epicentros do dantesco cenário que se vive em La Guaira.

Dentro de algumas horas, fecha-se o ciclo de 72 horas em que há maior probabilidade de encontrar sobreviventes entre os escombros. As equipas portuguesas de emergência estão, finalmente, na zona para receberem diferentes missões por parte das autoridades locais. A comunidade portuguesa na Venezuela é enorme e está presente em todas as partes, infelizmente também entre as vítimas.

Enquanto uns fazem tudo para resgatar vidas, outros promovem a morte. É o caso de Donald Trump que preferiu fazer ontem um comentário divertido dizendo que os venezuelanos "estão felizes e dançando nas ruasapesar da tragédia, mostrando-se depois mais focado em falar da quantidade de petróleo que extrai do país sul-americano. Simultaneamente a oposição venezuelana procura aproveitar-se da tragédia e criticar as autoridades por terem impedido o acesso generalizado da população a La Guaira.

Durante o dia de ontem, ficou evidente que o voluntarismo é bonito mas é um problema quando não há organização. Milhares de pessoas viajaram de carro e mota para fazer chegar material de resgate e mantimentos a La Guaira e com isso provocaram um engarramento tal que as ambulâncias e escavadoras demoraram horas a chegar aonde era precisas. A partir de agora, as pessoas devem deixar esse apoio em centros preparados para tal em Caracas e só depois de um registo obrigatório e autorização é que pode servir de voluntários em La Guaira. A isto a oposição e alguns jornalistas ocidentais chamam autoritarismo do "regime venezuelano". São os mesmos que nunca disseram uma palavra contra as sanções norte-americanas e europeias que depauperaram a economia e e destruíram o sistema venezuelano de saúde pública, assim como tudo o que diga respeito a emergências médicas e resgate. A melhor prova disso é o facto de os Estados Unidos terem anunciado uma suspensão de parte destas sanções para "facilitar" a entrada de ajuda na Venezuela.

Sim, as consequências das sanções não eram propaganda chavista. Haverá seguramente um tempo para o balanço sobre as falhas e os acertos da resposta do Estado venezuelano e esperemos que seja mais proveitoso do que os balanços inúteis que fazemos, ano após ano, sempre que acontece uma tragédia em Portugal, seja com incêndios, seja com tempestades.

*Título da responsabilidade do Ambiente Ondas3.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

27 VOOS, 24 JOGOS: O IMPACTO AMBIENTAL DAS VIAGENS DO PRESIDENTE DA FIFA NO MUNDIAL

  • O presidente da FIFA, Gianni Infantino, assistiu a 24 jogos em pouco mais de duas semanas por toda a América do Norte, durante o Mundial deste verão, acumulando milhares de milhas aéreas. O Gulfstream G650ER, o avião que se acredita que Infantino esteja a utilizar, tem um consumo médio de combustível de aproximadamente 1 817 litros por hora — o que significa que as suas viagens durante a fase de grupos produziram cerca de 516 toneladas de dióxido de carbono equivalente. Por conseguinte, estima-se que as viagens de Infantino tenham gerado, em pouco mais de duas semanas, aproximadamente a mesma quantidade de CO₂e que cerca de 78 pessoas poderiam produzir ao longo de um ano civil. Os jatos particulares têm um «impacto totalmente desproporcional», afirma Denise Auclair, especialista em viagens sustentáveis da Federação Europeia para os Transportes e o Ambiente. «São de cinco a 14 vezes mais poluentes do que os aviões comerciais e 50 vezes mais do que os comboios.» A FIFA comprometeu-se a reduzir as emissões em 50 % até 2030 e a atingir o zero líquido até 2040. Para o torneio deste ano, a entidade reguladora do futebol mundial estabeleceu uma série de compromissos ambientais, incluindo: o acolhimento das equipas a nível regional, o que reduz «a dependência de viagens de longo curso para uma parte significativa dos participantes», esforços para aumentar a eficiência energética, promovendo a utilização de carros elétricos, transportes públicos e a conservação da água, e a utilização de estádios já existentes. No entanto, mesmo antes do pontapé de saída a 11 de junho, já havia cepticismo por parte de alguns cientistas climáticos, dada a dimensão do torneio. Um relatório de 2025 da Scientists for Global Responsibility estimou que a pegada de carbono global deste Mundial poderia atingir nove milhões de toneladas de CO₂e, o que equivaleria a quase o dobro da média dos últimos quatro Mundiais, tornando o torneio deste ano o mais poluente de sempre. Fonte.
  • O parlamento sueco decidiu que as minas de urânio já não precisam de ser consideradas «instalações nucleares». Isto significa que a radioatividade que libertam e os resíduos que produzem — e que, na sua maioria, deixam para trás — podem ser tratados como qualquer outro mineral. Fonte.

BICO CALADO


  • “(…) Em dois jogos com equipas bastante inferiores (Congo e Colômbia), Portugal fez três, repito, três, remates enquadrados com a baliza. 180 minutos com aquele eucalipto a atrapalhar lá na frente e noites de paz para os guarda-redes adversários. (…) Não me interessam os contratos que a FPF garante por causa do Ronaldo ou o impacto mundial que ele tem. Em jogo jogado, é penoso ver este gajo em campo e os broches que os outros jogadores têm que fazer para segurar aquela betoneira. (…) Mas esta aberração de vermos Ronaldo em campo, 90 após 90 minutos, completamente a arrastar-se ao ponto de nem sequer conseguir segurar uma bola com um central nas costas, é penoso e, pelo menos para mim, é a imagem com que ficarei. O mais extraordinário jogador português que vi jogar que nunca soube escolher o momento de sair de baixo dos holofotes. (…) Esta geração de ouro vai envelhecendo enquanto é obrigada a carregar um gajo que precisou se 6 mundiais para fazer o que o Eusébio fez num. (…)". Tiago Franco, A VIDA ETERNA DE UM EUCALIPTO.
  • O futebol europeu está a ser inundado com patrocínios de bolsas de criptomoedas, plataformas de negociação online e outros operadores financeiros de alto risco — e muitas destas empresas não estão regulamentadas, foram alvo de alertas por parte das autoridades ou estão associadas a riscos para os consumidores. A OKX (Manchester City) foi multada em mais de 500 milhões de dólares nos EUA por violações da legislação contra o branqueamento de capitais e não está registada na FCA do Reino Unido, mas continua a fazer marketing junto de utilizadores britânicos. A VT Markets (Newcastle United) não possui autorização da UE, mas faz publicidade aproveitando a sua parceria com o clube. A Gate.io (Inter de Milão) já foi advertida pelas entidades reguladoras italianas e a Ultima Markets não é regulada pela UE, mas continua acessível aos utilizadores italianos. A Hantec Markets (Atlético de Madrid) não possui licença da UE, mas os seus serviços continuam disponíveis em toda a Europa. Os adeptos podem pensar que os clubes já verificaram estas empresas — mas muitos acordos envolvem empresas de alto risco, pouco reguladas ou não reguladas. Agora, com as patrocinadors relacionadas com apostas restringidas, os clubes estão a recorrer a setores «ligados ao jogo», como as criptomoedas e a negociação. As entidades reguladoras alertam que as cláusulas de isenção de responsabilidade não isentam as empresas de responsabilidade caso promovam produtos regulados sem autorização. As plataformas de criptomoedas gastaram 565 milhões de dólares em patrocínios desportivos na última época; o futebol representou 59 % desse valor. As marcas de negociação online triplicaram os seus gastos com patrocínios desportivos desde 2019. Os especialistas financeiros descrevem as criptomoedas e a negociação online como atividades de alto risco, especulativas e, muitas vezes, mal compreendidas pelos consumidores. Lorenzo Buzzoni e Chris Matthews, Investigate Europe.