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sábado, 3 de outubro de 2026

VOLTA OBRIGADO A APRESENTAR SOLUÇÕES PARA PROBLEMAS NA LIMPEZA URBANA

  • O Governo exigiu ao Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), conhecido como Volta, a apresentação de um plano de ação para responder aos problemas de limpeza urbana associados ao funcionamento do sistema. A proposta terá de ser entregue até 16 de outubro, depois de vários municípios terem manifestado preocupação com os efeitos da recolha de embalagens de bebidas nas ruas e nos equipamentos de deposição de resíduos. O plano solicitado pelo Governo deverá identificar medidas que possam avançar já, mas também apresentar uma estratégia para o curto, médio e longo prazo. Entre as exigências colocadas à SDR Portugal está a realização de um levantamento de boas práticas utilizadas noutros países europeus. Entre as medidas que terão de ser avaliadas encontram-se o reforço ou adaptação da rede de pontos de recolha, soluções especificamente concebidas para o espaço público, alterações operacionais e campanhas de sensibilização dirigidas aos consumidores. Na carta enviada à SDR Portugal, a ministra recorda ainda que a legislação e a licença atribuída à entidade gestora estabelecem deveres de cooperação entre a SDR Portugal, os municípios e as entidades responsáveis pela gestão dos sistemas de resíduos urbanos. O enquadramento existente prevê também responsabilidades de financiamento por parte da SDR Portugal relativamente aos custos de limpeza urbana associados às embalagens abrangidas pelo Sistema de Depósito e Reembolso. Segundo o Ministério do Ambiente e Energia, esses encargos incluem operações de manutenção e recolha de papeleiras, varredura, limpeza de praias, transporte e tratamento dos resíduos, nos termos previstos na legislação. Fonte.
  • Portugal soma 102 processos de infração perante Bruxelas: mais de um terço é em ambiente, energia e clima. Quercus.

REFLEXÃO

COMO O SISTEMA VOLTA TROCOU A CIDADANIA AMBIENTAL POR UM NEGÓCIO DE INTERESSES PRIVADOS


Portugal atravessa um momento paradoxal na sua política de resíduos. Por um lado, pressionado pelas ambiciosas metas comunitárias, no âmbito da Diretiva (UE) 2019/904, o país vê-se obrigado a acelerar a transição para uma economia circular. Por outro, a resposta encontrada pelo poder político revela uma rendição preocupante: em vez de aprofundar a literacia ambiental e reforçar os sistemas públicos de recolha seletiva, optou-se por um mecanismo de depósito e reembolso que apela ao mais primitivo dos instintos humanos, a ilusão do ganho monetário imediato. O sistema “Volta”, sob a gestão da entidade privada SDR Portugal, é a materialização dessa escolha.

O Decreto-Lei n.º 78/2022, de 26 de setembro, criou o regime jurídico do sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas não reutilizáveis. A gestão foi concessionada a uma entidade gestora única, a SDR Portugal, uma sociedade de direito privado, sem fins lucrativos, mas composta exclusivamente pelos agentes económicos que colocam embalagens no mercado: produtores, distribuidores e retalhistas. Entre os associados fundadores encontram-se pesos-pesados como a Coca‑Cola Europacific Partners, a Unicer (Super Bock), a Sociedade Central de Cervejas, a Nestlé Waters, bem como as grandes superfícies: Jerónimo Martins (Pingo Doce), Sonae (Continente), Auchan e Lidl.

Ora, o traço definidor de qualquer sistema de responsabilidade alargada do produtor (RAP) é a separação clara entre quem financia e quem fiscaliza. No Volta, porém, os mesmos operadores que geram as embalagens são simultaneamente os donos da entidade que define as regras de operação, o valor do depósito (10 cêntimos por embalagem), a densidade da rede de recolha e a comunicação pública. Este entrelaçamento gera um conflito estrutural: os produtores têm todo o incentivo para calibrar o sistema de modo a maximizar o retorno de imagem, minimizar os custos logísticos e capturar as embalagens de maior valor material, deixando o restante fluxo de resíduos e os seus custos, para a esfera pública.

Acresce que as embalagens sujeitas a depósito são precisamente as mais valiosas no mercado de recicláveis (PET e latas de alumínio). Ao retirá-las do circuito municipal, o sistema priva os serviços públicos de uma fonte de receita crítica, ao mesmo tempo que os mesmos acionistas da SDR Portugal beneficiam do valor material recuperado e das margens geradas pelas embalagens não devolvidas (depósitos não reclamados), que permanecem na esfera privada.

Durante décadas, a política ambiental portuguesa assentou, ainda que com insuficiências, num paradigma de cidadania responsável, educar para separar, internalizar a norma social da reciclagem e criar infraestruturas de proximidade (ecopontos, recolha porta‑a‑porta). Esse caminho, lento mas estruturante, está a ser abandonado em favor de um modelo que reduz o cidadão a um agente económico que só age perante um estímulo financeiro. A psicologia ambiental designa este fenómeno de efeito de crowding out: recompensas extrínsecas (os 10 cêntimos) podem minar a motivação intrínseca para comportamentos pró‑ambientais, sobretudo quando o incentivo é percebido como controlador e de baixo valor.

A realidade diária já confirma os receios. Multiplicam‑se as imagens de pessoas a vasculhar papeleiras em busca de garrafas com o símbolo “Volta”, numa espécie de economia informal de sobrevivência que degrada o espaço público. Ecopontos amarelos aparecem tombados, abertos à força, não por um ato de vandalismo gratuito, mas para aceder apenas às embalagens com depósito. Em termos sociológicos, o sistema está a criar uma nova categoria de “catadores urbanos”, empurrados para uma atividade que o discurso oficial disfarça de “reciclagem cidadã”, mas que não passa de uma resposta a um incentivo pecuniário desenhado para servir metas estatísticas.

É precisamente este o retrato de um país que desistiu da literacia ambiental. Em vez de aprofundar o conhecimento sobre os ciclos dos materiais, as interações ecológicas e a responsabilidade intergeracional, o Estado português sinaliza que o gesto ecológico só tem valor se for monetizado. Trocámos a cidadania por dez cêntimos. E, ao fazê‑lo, deixamos aos nossos filhos um legado de degradação do espaço público e de esvaziamento do sentido coletivo da sustentabilidade.

Um dos argumentos mais frágeis dos defensores do Volta é o de que o sistema complementará os esforços existentes, sem prejudicar a recolha seletiva tradicional. A evidência científica e a experiência comparada mostram o contrário. Vários estudos sobre sistemas de depósito em países como a Alemanha ou a Croácia revelam que a introdução de um SDR provoca um efeito de desvio, os cidadãos que antes separavam todas as embalagens no contentor amarelo passam a separar apenas as que possuem depósito, depositando as restantes (embalagens de iogurte, cuvetes e garrafões de PET, plásticos mistos) no lixo indiferenciado. Este efeito de seleção adversa diminui a qualidade e a quantidade dos materiais recolhidos nos ecopontos, comprometendo as metas de reciclagem globais e aumentando os custos de triagem.

Em Portugal, onde a recolha porta‑a‑porta e os sistemas de contentorização pública ainda lutam para atingir coberturas e taxas de captura satisfatórias, o Volta ameaça canibalizar exatamente o fluxo mais nobre que lhes conferia viabilidade económica. O resultado previsível será uma deterioração dos indicadores de reciclagem dos plásticos não‑depósito, precisamente aqueles que mais necessitam de redes estruturadas de recolha. A pressão para o cumprimento das metas comunitárias de reciclagem poderá, paradoxalmente, ser comprometida por uma medida que aparenta acelerá‑la.

Um dos aspetos menos discutidos na esfera pública é a dimensão financeira da transferência de competências, ou da ausência dela. A Lei n.º 75/2013 (Regime Jurídico das Autarquias Locais) atribui aos municípios a competência para a gestão dos resíduos urbanos. Contudo, os municípios portugueses, fragmentados e de reação tardia, não se coligaram a tempo de reivindicar ou de não permitir a operação do sistema de depósito como um serviço público municipal ou intermunicipal. Essa inação permitiu que a gestão fosse capturada pelo consórcio privado, privando as autarquias de receitas anuais que, nalguns casos, ascendem a milhões de euros precisamente aquelas que financiavam a recolha e o tratamento de outros fluxos, nomeadamente os resíduos indiferenciados.

A verdade incómoda é que os custos de recolha e tratamento dos resíduos urbanos não diminuirão com o Volta. As câmaras continuarão a suportar a recolha indiferenciada, as suas rotas, a sua triagem e embaçamento e o combate ao littering, agravado pelo comportamento oportunista que o sistema incentiva. Já as receitas da venda de materiais recicláveis sofrerão um colapso no segmento das embalagens de bebidas. O diferencial será pago por cada munícipe, via tarifas de resíduos, num fenómeno que os economistas ambientais descrevem como socialização de custos e privatização de benefícios.

Em suma, na minha modesta visão o sistema Volta não é um instrumento neutro de política ambiental, é uma escolha de sociedade. Ao colocar o depósito reembolsável nas mãos de um consórcio dominado pelos embaladores e pela grande distribuição, o Estado português transferiu um bem público, “a gestão de um fluxo estratégico de resíduos”, para entidades que não têm qualquer mandato democrático, mas que controlam a narrativa da “economia circular” enquanto expandem a sua influência. Ao reduzir o gesto ecológico a uma transação monetária de dez cêntimos, renunciou‑se ao projeto de formar cidadãos ambientalmente literatos, capazes de agir por dever e consciência, e não apenas por conveniência.

Sociologicamente, o que está em curso é uma regressão normativa, um recuo da interiorização de valores ambientais coletivos para um estado de heteronomia, em que o comportamento correto só ocorre perante um estímulo externo. O país que se orgulhava de ter transformado a reciclagem num hábito quotidiano arrisca‑se agora a ver as suas aldeias, vilas e cidades pontuadas por ecopontos vandalizados e por uma nova legião de “catadores” que, longe de qualquer preocupação ambiental, respondem apenas à lei do ganho imediato.

As metas europeias serão provavelmente atingidas no papel, contabilizando as toneladas que passam pelas máquinas de devolução instaladas nos hipermercados. Mas a pergunta que ninguém ousa fazer é: “a que custo social, territorial e moral?”

Quando a pressão dos grandes grupos embaladores se sobrepõe à pedagogia pública, quando o apelo ao instinto substitui a educação, e quando os municípios são remetidos ao papel de meros pagadores de um sistema que não controlam, o resultado não é um país mais sustentável. É um país que escolheu, deliberadamente, desistir de si mesmo.

BICO CALADO

  • “Enquanto a economia europeia se militariza para travar a desindustrialização e a onda de falências, enquanto os grandes fundos, bancos e petrolíferas se enchem de dinheiro fácil e fazem lucros recorde, o povo, em hipnose, é atraído para os jogos, para a especulação, para a 'roda da sorte', numa promessa de riqueza que não é mais do que uma desesperada tentativa de fuga à pobreza. São a miséria e o vazio mascarados de 'capitalismo para todos' ou de deusa Fortuna com uma cornucópia colorida e digital.” Miguel Szymanski.
  • Eis porque sabemos agora que a história da Flydubai deve ser falsa. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

RIDÍCULAS FALSAS BANDEIRAS
Craig Murray, Substack. Rev. O’Lima


É perfeitamente possível que os homens fossem, de facto, ladrões de combustível, limitando-se a roubar combustível de quintas. Parecem ter estado equipados para o roubo de combustível e tudo o que transportavam era gasolina. Vale a pena referir, numa nota de rodapé, que existe um historial muito concreto de militares norte-americanos — e também britânicos — a vender combustível militar proveniente de bases. O gasóleo vermelho roubado, destinado ao HMS Bulwark, abasteceu as atrações de feiras por toda a Inglaterra, o que acho maravilhoso. Mas se os «Cinco de Fairford» eram ladrões de combustível, é mais provável que as quintas fossem o alvo.

Devemos fazer aqui uma pausa para reconhecer que a USAF Fairford é erroneamente designada como RAF Fairford, o que constitui, por si só, uma mentira de propaganda, tal como «RAF Lakenheath» ou «RAF Mildenhall». O Reino Unido está repleto de bases militares norte-americanas, nas quais se aplica a legislação dos EUA. (A minha certidão de nascimento indica a profissão do meu pai como «funcionário da Força Aérea dos EUA». Na altura, ele trabalhava em Mildenhall).

É um exemplo clássico de propaganda estatal o facto de a gasolina descoberta nas carrinhas de Fairford ter sido descrita pela polícia antiterrorista como um potencial acelerador para uma bomba.

A gasolina serve para isso. No entanto, tem também utilizações bastante mais óbvias. A mesma técnica foi utilizada no auge da propaganda da Guerra contra o Terror, no caso do «Grande Complot de Bombas da Páscoa», que nunca existiu. A polícia detinha e prendia muitos jovens muçulmanos em toda a região de Manchester, o que foi notícia de primeira página. Todos foram posteriormente libertados sem acusação.

Mas, na altura da detenção, a polícia anunciou que tinha encontrado um ingrediente potencialmente utilizável na fabricação de bombas numa cozinha. Ora bem, e encontraram mesmo. Era um saco de açúcar. O açúcar é, de facto, um ingrediente potencial para a fabricação de bombas. No entanto, a maioria de nós tem um pacote na cozinha. Pelo menos a polícia não demorou dez dias a encontrar o pacote de açúcar na cozinha, ao contrário do que aconteceu quando revistaram o apartamento de Charlie Rowley à procura de um frasco de novichok e demoraram dez dias a «encontrar» um frasco de perfume que estava em cima da bancada da cozinha.

No caso de Fairford, ponderando tudo, penso que é um pouco mais provável que se trate de uma operação de bandeira falsa que correu mal do que de meros ladrões de combustível. Sabemos que os homens não tinham bombas nem armas, o que torna bastante difícil para o governo sustentar a narrativa terrorista. Mas se fossem bodes expiatórios envolvidos numa operação de bandeira falsa, já haveria na base muitos objetos explosivos que poderiam ter sido utilizados para criar o «incidente terrorista» à sua volta.

Dois pontos-chave levam-me a pensar que se tratou de uma operação de bandeira falsa. Em primeiro lugar, a agricultora que ligou para o 999 insistiu que havia mais homens além dos cinco detidos e libertados sob fiança. Os outros teriam sido os polícias infiltrados — agentes provocadores — que teriam sido discretamente retirados do local. Isso também se coaduna com a informação divulgada de que foi um dos homens que telefonou a dar um aviso sobre o «ataque».

Parece-me que tinha sido planeada uma operação espetacular de bandeira falsa, com o envolvimento dos EUA, tal como alegado por Trump, e possivelmente com o conhecimento de Israel, tal como alegado por Netanyahu. Esta operação dos serviços de segurança foi considerada demasiado complexa para a polícia local (que poderia ser inconvenientemente honesta), que não estava a par da situação. Tudo correu muito mal para o governo quando um agricultor local atento ligou para a polícia local e quando um dos participantes também deu o alarme. Pode ter sido um dos «terroristas» recrutados que se acobardou, ou um dos agentes que entrou em pânico por ter perdido o contacto com a sua linha de comando.

Compreende-se melhor agora o recurso a bodes expiatórios recrutados para levar a cabo operações de bandeira falsa. Tenho escrito sobre este tema desde antes do complot bombista de Newburgh, que constituiu um exemplo particularmente flagrante. Nos EUA tem havido uma maior consciencialização e reação face a complots incitados por agentes provocadores do que no Reino Unido.

Para quem ainda tenha dúvidas, eis um resumo do caso de Newburgh: Em maio de 2009, o FBI deteve quatro homens de baixos rendimentos de Newburgh, Nova Iorque, e anunciou que tinha frustrado um plano para bombardear duas sinagogas no Bronx e abater aviões militares na base da Guarda Nacional Aérea de Stewart. O plano, os alvos, as bombas inertes e o míssil Stinger desativado foram todos fornecidos pelo FBI. O recrutador era Shahed Hussain, um vigarista paquistanês que se tinha tornado informador para evitar a deportação após um esquema relacionado com cartas de condução. Recebendo quase 100 000 dólares, passou mais de um ano a «pescar» numa mesquita de Newburgh, fazendo-se passar por um abastado agente do Jaish-e-Mohammed, antes de se aproximar de James Cromitie, um empilhador do Walmart e pequeno traficante de droga. Hussain ofereceu uma recompensa celestial e até 250 000 dólares. Cromitie recrutou mais três pessoas: Onta Williams, David Williams e Laguerre Payen. Hussain levou-os de carro para além da fronteira estadual para inspecionar as armas falsas, o que transformou as acusações em crimes federais e implicou uma pena mínima de 25 anos. Foram condenados em 2010. A juíza responsável pela sentença, Colleen McMahon, afirmou acreditar, sem sombra de dúvida, que não teria havido qualquer crime se o governo não o tivesse instigado, planeado e levado a cabo. Em 2023, ordenou a libertação de três deles, classificando o caso como uma conspiração orquestrada pelo FBI e referindo que o verdadeiro principal conspirador eram os EUA. Libertou Cromitie em 2024 com base nos mesmos fundamentos, descrevendo-o como um vigarista de pouca peso sem antecedentes de violência e Hussain como um vilão que o tinha atraído com promessas de recompensas tanto celestiais como terrenas.

O incêndio criminoso das ambulâncias em Golders Green foi um caso clássico deste género de operações de bandeira falsa. Quatro jovens muçulmanos foram recrutados, neste caso online e não pessoalmente, por alguém que nunca tinham visto e que era, quase de certeza, um agente da Mossad. Ofereceram-lhes dinheiro para atacarem as ambulâncias, o que eles fizeram. O ataque é então atribuído ao Irão através de uma declaração num canal do Telegram em nome de uma «organização iraniana», a Harakat Ashab al-Yamin al-Islamia, que é uma invenção da Mossad. A HAYI tornou-se conhecida mundialmente através de comunicados de imprensa simultâneos, a 16 de março, emitidos por cinco órgãos do governo israelita em Israel, nos EUA e no Reino Unido e de um artigo da organização de fachada israelita «Fundação para a Defesa da Democracia». Nick Stewart, da FDD, viaja com Kushner e Witkoff como parte da equipa de negociação dos EUA para o Médio Oriente. Há inúmeras razões para duvidar da existência real da HAYI. Nenhum dos seus materiais está em farsi. Todos os seus «ataques» têm sido pequenos incêndios criminosos contra alvos insignificantes que não feriram ninguém. A gramática, a caligrafia e as imagens dos seus materiais estão todas erradas. O próprio Estado britânico desmentiu agora parte da narrativa do Mossad HAYI. A 29 de abril, quando Essa Suleiman esfaqueou três homens, toda a comunicação social omitiu a primeira vítima muçulmana e alegou que se tratava de um ataque terrorista antissemita contra os dois homens em Golders Green. O canal «iraniano» do Telegram, gerido pela Mossad e denominado «HAYI», divulgou imediatamente um comunicado reivindicando a responsabilidade pelo ataque. Mas ontem a polícia e o Ministério Público viram-se obrigados a retirar a alegação de que se tratava, de todo, de um ataque terrorista. O esfaqueamento do muçulmano é considerado tentativa de homicídio, embora continue a ser ignorado pelos media. Assim, o «HAYI» reivindicou a responsabilidade por um incidente terrorista inexistente.

Uma operação de bandeira falsa pode consistir, mas não necessariamente, no Estado a colocar uma bomba e depois a culpar outra pessoa. Pode ser mais complexo — o Estado a recrutar pessoas para colocarem bombas. Essas pessoas podem acreditar que fazem genuinamente parte de uma campanha ideológica, ou podem estar simplesmente a fazê-lo por dinheiro. (...)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

REFLEXÃO

GAIA CONTESTA SISTEMA VOLTA E RECLAMA MUDANÇAS NA GESTÃO DOS RESÍDUOS


Câmara Municipal defende o fim do sistema de depósito e reembolso de embalagens e pede uma revisão da taxa associada à gestão dos resíduos.

A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia quer alterações na atual política de gestão de resíduos e reclama o fim do sistema Volta, que permite aos consumidores recuperar o depósito pago pela devolução de embalagens de bebidas.

Luís Filipe Menezes considera que o modelo adotado para incentivar a devolução de embalagens está a criar problemas no espaço público. Pretende-se agora que esta matéria seja reavaliada, defendendo-se uma solução que tenha em conta os custos municipais e os efeitos na higiene e limpeza dos espaços públicos. A autarquia de Gaia defende, por isso, uma alteração do modelo e também uma revisão da taxa aplicada aos resíduos, colocando em causa a forma como os municípios suportam os encargos associados à gestão e recolha.

BICO CALADO 1

  • Os milionários e as multinacionais que operam na Europa ficam com mais 100 mil milhões de dólares americanos por ano, que, de outra forma, teriam sido pagos como impostos aos governos europeus. Um novo sistema de rastreio permite agora aos países identificar para onde vai o dinheiro ilícito que sai das suas economias – e de onde provém a riqueza e os fundos secretos que entram ilegalmente nas suas economias. Fonte.
  • As eleições presidenciais de 2026 no Brasil estão a ser afetadas por interferências externas e ao nível das plataformas. Anteriormente, o Facebook permitia anúncios políticos que contivessem desinformação relacionada com as eleições, mas agora tomou o caminho oposto, impedindo a campanha do Presidente Lula da Silva de publicar anúncios e rotulando as publicações de Lula como «propaganda eleitoral». A X baniu a conta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, associada ao crescente apoio católico a Lula. Flávio Bolsonaro, adversário de Lula, tem sido alvo de menos escrutínio, apesar de alegadamente divulgar desinformação. O regime de Trump está a tentar influenciar os eleitores brasileiros através de pressões económicas e políticas, em vez de se limitar a manifestar uma preferência. Fonte.
  • «As intervenções de Trump e Rubio, com a colaboração do clã Bolsonaro, transformaram a campanha de Flávio numa mais uma operação de mudança de regime orquestrada pelos EUA. É preciso derrotar esta situação, pelo bem do Brasil e de todo o hemisfério.» Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Investigação Económica e Política, Los Angeles Time, via Common Dreams.
  • O incidente da Flydubai terá sido mais uma operação de bandeira falsa israelita? Ou um oportunismo político descarado? CEM.

BICO CALADO 2


“Um senhor que ganha o equivalente ao orçamento de uma câmara municipal a dar pontapés numa bola, e que ultimamente falha mais do que acerta, decidiu afastar-se da seleção, ou talvez ainda não, ou talvez sim — os jornais, por hábito, nunca distinguem bem a notícia do boato. O país, esse, decidiu tratar o episódio como luto nacional. Compreenda-se a confusão de prioridades: há quem confunda o resultado de um jogo com o destino da pátria, e esse equívoco tem nome antigo. Samuel Johnson já dizia, há séculos, que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Não precisava de imaginar quanto a formulação ganharia em exatidão aplicada a um país que discute em horário nobre o estado de espírito de um avançado, enquanto ignora olimpicamente a inflação que lhe esvazia o carrinho de compras. Porque há, de facto, assuntos a merecer o tempo de antena que se gasta a especular sobre lesões, convocatórias e adeuses por confirmar. O aquecimento global não espera pela próxima Liga das Nações para continuar a desregular estações, incendiar florestas e afogar cidades. As guerras, que os noticiários despacham em três minutos antes de dedicarem vinte à crise existencial de um balneário, continuam a matar gente que não tem o privilégio de ser notícia. O futebol tem uma vantagem sobre a realidade: não exige ao espectador que pense, apenas que grite. Oferece inimigo fácil, o árbitro, o adversário, o selecionador; oferece herói disponível, o capitão; oferece drama sem consequência real, porque, perdido o jogo, amanhã há sempre outro, e a vida de quem perdeu continua exatamente igual à de quem ganhou — ao contrário do que sucede a quem perde a casa ou o salário. (…)” Jorge Rocha, O ópio dos relvados – Ventos semeados.


LEITURAS MARGINAIS

O OCIDENTE QUER QUE NETANYAHU SE VÁ EMBORA — PARA QUE OS PALESTINIANOS POSSAM VOLTAR A SER MORTOS DE FORMA MAIS DISCRETA
Jonathan Cook, MEE. Rev. O’Lima.


O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu afasta-se após ter discursado na 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova Iorque, EUA, a 24 de setembro de 2026 (Reuters)

A visita relâmpago de Benjamin Netanyahu aos EUA na semana passada, para discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi mais uma prova de que o primeiro-ministro israelita é agora um pária universal. Está a ser abandonado até pelos seus aliados mais próximos.

Talvez não tenha sido surpreendente que 77 nações, incluindo alguns Estados europeus, tenham abandonado a sala em protesto contra o facto de um suspeito procurado por crimes de guerra — um fugitivo do Tribunal Penal Internacional (TPI) — estar a ter uma plataforma para discursar no maior palco do mundo. Muito mais notável foi o que aconteceu — ou, melhor dizendo, o que não aconteceu — longe do pódio. Netanyahu passou apenas oito horas nos EUA antes de regressar a Israel. É difícil acreditar que essa tenha sido uma escolha sua. Foi-lhe negado o seu habitual momento de glória com Donald Trump na Casa Branca e nem sequer conseguiu garantir uma reunião com o secretário de Estado Marco Rubio. Não houve qualquer convite para discursar no Congresso dos EUA, nem as habituais cenas de legisladores a celebrarem entusiasticamente a sua incitação anti-palestiniana. O antigo embaixador de Israel em Washington, Michael Oren, afirmou à Reuters: «Não me lembro de nenhuma ocasião em que o primeiro-ministro tenha vindo aos Estados Unidos e não se tenha reunido com o presidente.»

A rejeição a Netanyahu contrastou fortemente com a recepção dada a Xi Jinping. O líder chinês foi recebido pessoalmente no aeroporto por Trump, com tapete vermelho e uma passagem aérea militar.

Avisos ignorados

A visita de Netanyahu à ONU foi explorada por ambas as partes — por responsáveis israelitas e por líderes ocidentais — para promover as suas agendas distintas e contraditórias. Netanyahu está a um mês de eleições gerais muito disputadas, nas quais, pela primeira vez, os seus fracassos em impedir o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023 estão a ser alvo de intenso escrutínio. De acordo com um número crescente de relatos recentes, ele foi avisado por líderes egípcios e do Golfo sobre um acontecimento de grande magnitude — um «terramoto» — proveniente de Gaza nos dias e semanas que antecederam a fuga do Hamas, mas não tomou medidas.

Netanyahu tinha agendado o seu discurso na ONU para o horário nobre israelita, a fim de atrair o maior público nacional possível. Aproveitou a oportunidade para classificar outros líderes mundiais como «covardes morais» e «hipócritas». Como observa o analista israelita Jonathan Ofir, Netanyahu também utilizou a plataforma da ONU para introduzir subrepticiamente uma frase bíblica em hebraico que se destinava, para os ouvintes no seu país, a servir como um «sinal subliminar»: um apelo para que Israel levasse a cabo o genocídio até ao fim. O objetivo de Netanyahu era demonstrar aos eleitores que continua a ser uma força a ter em conta na cena internacional e que só ele pode garantir a segurança de Israel num mundo supostamente atolado num sentimento «antisemita» e anti-Israel.

Os líderes ocidentais, pelo contrário, pretendem demonstrar exatamente o oposto, na esperança de afastar Netanyahu do cargo, sugerindo aos israelitas que o seu líder é uma força esgotada, que foi longe demais. Está na hora de nos livrarmos dele. Isto pode revelar-se uma tarefa nada simples. Netanyahu é o grande sobrevivente político, tendo ocupado o cargo de primeiro-ministro do seu país durante um período recorde de quase duas décadas — mais tempo ainda do que o pai fundador de Israel, David Ben Gurion. Aproveitou esse tempo para incitar grande parte da sociedade israelita a um fervor cada vez maior, ultranacionalista e genocida.

Um fardo político

A atual antipatia das capitais ocidentais em relação a Netanyahu não se baseia, certamente, em qualquer tipo de avaliação ética das recentes ações de Israel: uma onda genocida de três anos em Gaza; a expansão violenta dos colonatos judeus e a limpeza étnica na Cisjordânia ocupada; o bombardeamento e a limpeza étnica do sul do Líbano; e o papel de destaque do líder israelita, ao lado dos EUA, no lançamento de uma guerra catastrófica contra o Irão, cujas consequências desestabilizaram a economia global.

Washington — apoiada pelos seus Estados clientes europeus — tem sido uma parceira fervorosa destes crimes, fornecendo munições, informações e influência diplomática para ajudar Israel a levá-los a cabo. Mas Netanyahu parece agora ser um fardo político, mesmo para Trump. O presidente dos EUA, em queda livre nas sondagens, precisa de um bode expiatório – e o primeiro-ministro israelita parece ser o único adequado para o papel. O antagonismo é, em parte, pessoal.

Várias notícias recentes indicam que Netanyahu fez tudo o que estava ao seu alcance para convencer Trump, contra o conselho dos seus generais, a lançar uma guerra ilegal e não provocada contra o Irão. A promessa de uma vitória decisiva convenceu Trump de que poderia garantir o seu lugar nos livros de história como o presidente que «refez o Médio Oriente». Assim que o Irão fosse eliminado do cenário, os EUA desfrutariam de um controlo incontestável sobre o petróleo da região. E tudo isto iria, supostamente, acontecer semanas depois de Trump ter consolidado o seu domínio sobre o petróleo da Venezuela, na sequência de uma operação ilegal no início do ano para raptar o presidente Nicolás Maduro.

Com a derrota do Irão e a Venezuela subjugada, a China, rival económico, ver-se-ia totalmente dependente dos EUA para ter acesso ao principal lubrificante da economia global. Trump poderia evitar um confronto militar direto com Pequim, subjugando-a simplesmente com a ameaça de fechar a torneira do petróleo. Mas, claro, nada disso aconteceu.

Washington encontra-se agora numa guerra impossível de vencer contra o Irão, que deixou claro a Teerão a extensão do seu poder sobre o Estreito de Ormuz — e do poder paralelo do Ansar Allah, os seus aliados no Iémen, sobre o Estreito de Bab al-Mandab. Juntos, podem infligir danos irreparáveis à economia mundial.

A subida vertiginosa dos preços da gasolina nos postos de abastecimento dos EUA deverá ser um fator crítico no colapso dos votos republicanos nas eleições intercalares de novembro e na provável perda de ambas as Câmaras para os democratas, transformando Trump num presidente em fim de mandato.

Entretanto, a guerra ensinou aos Estados clientes de Washington no Golfo que são extremamente vulneráveis a qualquer retaliação por parte de Teerão e do Iémen — um facto que lhes é recordado sempre que Trump ordena mais uma ronda imprudente de ataques contra o Irão. Apesar de todo o seu poderio militar, Washington demonstrou ser incapaz de defender os seus aliados do Golfo.

Perante um momento de verdade

Mas Netanyahu não está perante um momento de verdade apenas devido ao seu papel na orquestração de uma guerra desastrosa contra o Irão. Apesar dos melhores esforços das classes políticas e mediáticas ocidentais ao longo dos últimos três anos, a realidade da destruição de Gaza por parte de Israel — e do assassinato e mutilação de muitas dezenas de milhares de crianças palestinianas — tornou-se cada vez mais difícil de esconder ou justificar. Mesmo entre os setores do público pouco interessados nos assuntos internacionais, a verdade está gradualmente a fazer-se sentir, impulsionada por disputas nos principais espaços culturais que se inclinaram de forma conclusiva contra Israel.

NAZA, um novo documentário sobre Gaza realizado por cineastas israelitas, recebeu uma ovação de pé recorde de 25 minutos no Festival de Cinema de Veneza do mês passado. Nele, soldados e agentes dos serviços secretos israelitas, cujas identidades foram ocultadas, documentam em pormenor como arquitetaram um genocídio naquele pequeno enclave. Está previsto que esteja disponível para visualização gratuita em novembro.

A seleção da Irlanda, obrigada a defrontar Israel na Liga das Nações da UEFA no fim de semana, não escondeu os seus sentimentos. Os jogadores usaram braçadeiras pretas em sinal de solidariedade com as vítimas de Israel em Gaza e recusaram-se a apertar a mão aos adversários. O capitão irlandês, Dara O’Shea, comprometeu-se a doar os seus ganhos do jogo a causas humanitárias em Gaza.

O superastro da música Ed Sheeran viu-se inesperadamente retratado como o vilão por não ter apoiado o seu artista de abertura, o rapper Macklemore, devido aos comentários deste último contra o genocídio em Gaza.

Como era de esperar, quando confrontado com proprietários de estádios pró-Israel que ameaçavam cancelar a digressão, Sheeran cedeu e retirou Macklemore do alinhamento. Mas Sheeran está a sofrer as consequências de uma reação negativa generalizada que o apanhou claramente de surpresa.

E políticos britânicos de destaque, como o ex-primeiro-ministro Keir Starmer e os ministros dos Negócios Estrangeiros David Cameron e David Lammy, enfrentam pela primeira vez um sério escrutínio crítico na comunicação social dominante devido à sua conduta em relação a Gaza.

Na semana passada, um documentário do Channel 4, intitulado «Britain’s Gaza Secrets Exposed», revelou que as autoridades britânicas tinham imposto uma metodologia profundamente falha, aparentemente para poderem ignorar as provas crescentes de crimes de guerra sistemáticos cometidos por Israel em Gaza. Como resultado, conseguiram esquivar-se às suas obrigações legais de tomar medidas contra Israel, incluindo o fim da venda de armas.

Onda de repulsa

As capitais ocidentais estão finalmente a perceber que esta crescente onda de repulsa perante o genocídio em Gaza não pode ser contida.

Nos EUA, onde os laços com Israel são invariavelmente descritos pelos políticos como «inquebráveis», 62 por cento dos inquiridos afirmaram ao Pew, em julho, ter uma opinião negativa do governo de Netanyahu.

Entretanto, uma sondagem realizada no mês passado revelou que 60 por cento dos judeus americanos querem que o primeiro-ministro israelita seja destituído nas próximas eleições.

Como observou o jornal israelita Haaretz: «Trump está bem ciente do declínio constante e vertiginoso do apoio a Israel entre os americanos.»

É por isso que ele e outros políticos ocidentais estão desesperados para redirecionar o debate. Isolar Netanyahu pelas atrocidades israelitas em Gaza não os isenta de responsabilidade, uma vez que, de forma tão óbvia, se aliaram a ele em todas as etapas do processo.

Em vez disso, os líderes ocidentais querem desviar a atenção para a Cisjordânia, onde o seu papel é mais facilmente ocultado e as violações da lei por parte de Netanyahu são inegáveis. Desde outubro de 2023, ele, juntamente com o seu ministro das Finanças, Bezalel Smotrich — que se autodenomina fascista —, tem concedido tanto às milícias violentas de colonos judeus como às forças armadas israelitas maior liberdade para aterrorizar famílias palestinianas e expulsá-las das suas terras, em preparação para a anexação da Cisjordânia.

Na nova narrativa do Ocidente, que serve apenas os seus próprios interesses, Netanyahu não é um pária por ser procurado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade, ao submeter o povo de Gaza à fome. Nem porque o Tribunal Internacional de Justiça está atualmente a investigar o seu governo devido a alegações «plausíveis» de que este está a cometer um genocídio no enclave. Nem porque o seu governo supervisionou o assassinato de mais de 21 000 crianças naquele local — e, muito provavelmente, de um número muito superior. Nem porque ele continua a violar um falso «cessar-fogo», durante o qual Israel matou mais de 1 400 palestinianos confinados nas ruínas do seu enclave desde que os combates supostamente terminaram. Outros 4 900 residentes de Gaza ficaram mutilados durante o mesmo período.

Não, Netanyahu não é um pária aos olhos dos líderes ocidentais por causa de nenhum destes crimes bárbaros — crimes nos quais eles têm sido plenamente cúmplices. A sua ofensa — aquela em que agora estão determinados a centrar a atenção — é o papel de Netanyahu, desde outubro de 2023, na intensificação da construção e expansão de colonatos ilegais na Cisjordânia, com o objetivo de expulsar os palestinianos das suas terras.

Mas esta narrativa só funciona se os políticos e os media ocidentais ignorarem deliberadamente o contexto: que, durante mais de meio século, todos os governos israelitas apoiaram a expansão dos colonatos, com o objetivo de levar a cabo uma limpeza étnica da população palestiniana. Netanyahu não é uma exceção ao fazer isto. Simplesmente aproveitou a oportunidade para acelerar as expulsões da Cisjordânia, aproveitando-se da simpatia mundial após o ataque de um dia levado a cabo pelo Hamas em outubro de 2023.

«Limpeza étnica»

A explicação mais provável para o facto de a Grã-Bretanha e outros 11 países ocidentais, incluindo a França e o Canadá, terem declarado no mês passado a sua intenção de impor sanções aos colonatos da Cisjordânia é que receberam, pela primeira vez, sinais da administração Trump de que tal medida não teria repercussões graves.

O novo governo britânico, liderado por Andy Burnham, também se atreveu a descrever o que Israel tem feito aos palestinianos da Cisjordânia como «limpeza étnica». Notavelmente, e de forma paradoxal, o Reino Unido tem evitado utilizar o termo para descrever a limpeza étnica ainda mais descarada levada a cabo por Israel em Gaza — uma campanha de expulsões que, de forma demasiado evidente, tem sido apoiada por bombas e logística ocidentais.

Funcionários sob o comando de Mike Huckabee, o embaixador dos EUA em Israel, conhecido pelo seu fervor partidário, terão redigido uma repreensão contundente em antecipação ao anúncio britânico das sanções. Nela, acusavam Londres de replicar o «manual do movimento antissemita de boicote, desinvestimento e sanções [BDS]». Essa linha de ataque esperada, defendida pelos grupos de pressão pró-Israel, foi provavelmente a razão pela qual Ed Miliband, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, chegou a tal extremo para distanciar publicamente a sua nova política do BDS.

Mas, na verdade, não se concretizou qualquer ataque por parte da administração Trump. Em vez disso, Marco Rubio, o homólogo norte-americano de Miliband, afirmou de forma inofensiva: «Não tenho qualquer comentário a fazer sobre isso [a política de sanções] neste momento.» No dia seguinte, Trump pareceu ganhar tempo com uma resposta invulgarmente evasiva: «Quero descobrir por que razão, de repente, isso [o anúncio das sanções do Reino Unido] aconteceu.» Trump e Rubio não disseram mais nada de substancial sobre o assunto.

Depois, há a recente enxurrada de notícias na comunicação social que sugerem que Netanyahu, pessoalmente, não deu ouvidos a vários avisos do Egito e dos Emirados Árabes Unidos de que se avizinhava um ataque sem precedentes proveniente de Gaza nos dias que antecederam a ofensiva do Hamas, a 7 de outubro de 2023. Netanyahu apelou a Abu Dhabi para que desmentisse as fugas de informação. Mas, até ao momento, Abu Dhabi não o ajudou a fazê-lo. Os dois países, que se contam entre os Estados mais próximos de Washington na região, sempre pareceram ansiosos por evitar desafiar abertamente um Trump notoriamente vingativo.

Teatro de distração

No seu discurso na ONU, Burnham salientou o dilema que os governos ocidentais enfrentam: «Vivemos numa época de pouca confiança na política. Se continuarmos a falar da solução de dois Estados, mas não apoiarmos essas palavras com ações, essa confiança cairá ainda mais – e os nossos inimigos procurarão explorar a alienação que daí advirá.» Burnham parece ignorar a realidade: parte da razão pela qual a confiança é tão baixa deve-se ao facto de uma sucessão de governos britânicos não só terem sido cúmplices no genocídio em Gaza, como também terem detido críticos desse genocídio, acusando-os de apoiar o terrorismo. Miliband demonstrou precisamente o tipo de hipocrisia que Burnham tinha alertado estar a afastar o público quando afirmou na conferência do Partido Trabalhista esta semana — sob grandes aplausos — que «milhões de pessoas neste país», opositores do genocídio, «tinham razão».

No dia anterior, dezenas de manifestantes tinham sido detidos à porta do local da conferência por exibirem silenciosamente cartazes com as seguintes mensagens: «Oponho-me ao genocídio. Apoio a Palestina Action.»

Burnham e Miliband querem ter o bolo e comê-lo. Nenhum deles indicou que haja qualquer intenção de revogar a decisão do governo anterior de recorrer às leis antiterroristas contra quem quer que exiba um cartaz desse tipo — ou esteja «certo», como Miliband agora admite. O que os líderes ocidentais estão a fazer aqui é um teatro cínico de distração. As declarações do tipo «Vocês tinham razão» e «Compreendemos a vossa dor», as promessas de sanções e os apelos urgentes a uma solução de dois Estados não passam de uma demonstração de virtude. Têm como objetivo desviar a indignação pública face às atrocidades de Israel da cumplicidade das capitais ocidentais e direcioná-la exclusivamente para Netanyahu.

A nova versão sugere que os fanáticos religiosos armados nos colonatos da Cisjordânia, que se têm tornado cada vez mais violentos e politicamente poderosos ao longo de mais de meio século — sob sucessivos governos israelitas —, são exclusivamente uma criação de Netanyahu. A nova versão argumenta que a crescente confiança destes perpetradores de pogroms, que há muito trabalham em conluio com as forças armadas israelitas, não tem qualquer relação com o apoio incondicional do Ocidente a Israel ao longo de muitas décadas.

Tudo como de costume

Ao isentarem-se de responsabilidade, no entanto, os líderes ocidentais estão, necessariamente, a inventar uma nova mentira para enganar as suas opiniões públicas: uma que sugere que os «colonos terroristas» são uma espécie de milícia pessoal de Netanyahu, cujo destino está ligado ao seu mandato como primeiro-ministro. A implicação desta nova narrativa é que, caso Netanyahu fosse afastado do poder, surgiria uma liderança mais empática, que poderia ser cultivada pelas potências ocidentais para estabelecer a paz com os palestinianos.

Tudo isto é um disparate evidente. Tal como a opinião pública israelita, os líderes de todo o estreito espectro político sionista e supremacista étnico de Israel partilharam a lógica genocida que impulsionou o esvaziamento de Gaza nos últimos três anos. Ninguém discordou. Todos se envolveram na incitação ao genocídio. Não há qualquer esperança de que consigam fazer as pazes com os palestinianos que vivem sob ocupação ilegal, quando os líderes israelitas nem sequer permitem que os seus próprios «cidadãos» palestinianos — uma minoria fortemente oprimida que representa um quinto da população de Israel — tenham uma voz significativa nas eleições gerais do próximo mês.

A comissão eleitoral central, um órgão político cujos membros provêm dos principais partidos de Israel, votou a favor da proibição da candidatura das quatro facções que representam a minoria palestiniana. Quem quer que vença as eleições do próximo mês, seja Netanyahu novamente ou um dos seus rivais, manterá o país no mesmo caminho de supremacia étnica que Israel tem seguido há décadas. Trump, Burnham, Macron e outros líderes ocidentais compreendem isto.

Querem tirar Netanyahu do caminho, não para que haja uma mudança real, mas simplesmente para poderem regressar ao que constituía o «status quo» antes do genocídio de Gaza: um ritmo mais lento e gradual na erradicação do povo palestiniano. Querem poder reclassificar o genocídio de Gaza como a loucura histórica de um único homem, uma catástrofe trágica que não pode ser revertida, mas que pode ser mitigada se ele desaparecer. Querem que olhemos resolutamente para a frente, para negócios imobiliários e para uma distante solução de dois Estados, e não para trás: para o seu papel ativo na demolição das casas de mais de dois milhões de pessoas – com munições, na sua maioria norte-americanas, que libertaram oito vezes a força explosiva das bombas atómicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki.

O regime de Trump já autorizou o envio de um grande número destas megabombas para reabastecer os stocks israelitas, mesmo antes de se conhecer o resultado das eleições israelitas. Sublinhe-se que o mesmo regime que permitiu que Netanyahu, suspeito de crimes de guerra, viajasse para a ONU em Nova Iorque, impediu o suposto líder dos palestinianos, Mahmoud Abbas, de fazer o mesmo.

Ao anunciar a sua nova política de sanções dirigida aos colonatos ilegais de Israel, Miliband fez questão de salientar que tal não afetaria de forma alguma a partilha de informações com Israel — o tipo de coordenação de informações que levou aviões britânicos a realizar operações de vigilância sobre Gaza durante todo o genocídio. E embora Miliband tenha prometido um «duplo bloqueio às exportações de armas» para Israel como parte do pacote de sanções do Reino Unido, na prática, nenhuma licença de exportação de armas existente foi revogada ou suspensa desde então.

Credibilidade em queda

A luta atual não é contra um Estado israelita genocida nem por um Estado palestiniano ilusório — muito menos pela justiça para o povo palestiniano, vítimas de abusos incessantes. Trata-se de orquestrar uma reestruturação em que o Ocidente volte a colocar a velha guarda de Israel no poder.

Os líderes ocidentais têm-se sentido constrangidos com os discursos furiosos e delirantes do governo de Netanyahu. Esta semana, Smotrich apelou a que Israel aplicasse na Cisjordânia as suas políticas genocidas de Gaza — presumivelmente utilizando as mesmas bombas que Trump está prestes a enviar-lhes. Ele afirmou à comunicação social israelita: «Devemos fazer lá o que fizemos em Gaza.» Os líderes ocidentais temem o impacto que isso teria na sua credibilidade já em declínio. E têm aliados em Israel, entre a oposição, cuja visão — pelo menos por enquanto — não é a de Smotrich de uma erradicação da Cisjordânia ao estilo de Gaza. Em vez disso, prevêem continuar a trajetória atual de transformar gradualmente os pequenos guetos palestinianos sobreviventes da Cisjordânia, encurralados num mar de colonatos judeus ilegais, em mini-campos de concentração — pequenas réplicas de Gaza antes de esta ter sido destruída.

Essas são as visões concorrentes entre os israelitas para a Cisjordânia: o confinamento absoluto dos palestinianos numa série de jaulas versus o seu extermínio. É isso que está realmente em jogo — nada mais — na luta do Ocidente para destituir Netanyahu e defender a sua lendária solução de dois Estados.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

INGLATERRA: SOUTH WEST WATER MULTADA POR DERRAMES DE ESGOTOS

  • A South West Water foi multada em 8 milhões de libras por centenas de derrames de águas residuais na Cornualha e em Devon. Fonte.
  • Uma nova ferramenta chamada «Carbon Impacts Tracer» pode ser utilizada para estimar o impacto climático das emissões com base em oito indicadores, incluindo a perda de produção alimentar. Fonte.

BICO CALADO

  • O incidente de Fairford — inicialmente tratado como uma potencial ameaça terrorista — parece hoje incompatível com qualquer cenário de terrorismo. A libertação sob fiança dos cinco detidos indica que a polícia não encontrou provas de um ataque iminente. Tudo aponta para um roubo de gasóleo que correu mal ou, alternativamente, para uma narrativa de “bandeira falsa” que terá sido abandonada antes de ser plenamente executada. A hipótese terrorista perde força porque não foram encontrados materiais de fabrico de explosivos nas carrinhas. Os dispositivos eletrónicos e os registos de inteligência terão sido analisados, e nada parece ter justificado uma detenção prolongada. No Reino Unido, suspeitos de um plano terrorista podem ser mantidos sob custódia até 14 dias — mas estes homens foram libertados rapidamente. Por outro lado, o roubo de combustível parece plausível: há relatos de logótipos falsos de empresas de gasóleo nas viaturas, foram encontrados barris no interior, e alguns testemunhos afirmam ter visto homens a extrair combustível. Ainda assim, a história permanece estranha. Dias antes do incidente, a segurança na RAF Fairford terá sido reforçada: aeronaves dispersas, portas de emergência bloqueadas, residentes aconselhados a permanecer em casa, e rumores de que a base estava no nível máximo de alerta. Apesar disso, nenhuma patrulha de rotina avistou os suspeitos, e uma linha telefónica do Ministério da Defesa terá ficado sem resposta quando habitantes tentaram reportar atividade suspeita. A principal testemunha, uma agricultora, disse ter visto entre oito e dez homens, mas a polícia deteve apenas cinco. Ela descreveu-os como tendo “aparência do Médio Oriente”, apesar das balaclavas, da escuridão e da distância — um detalhe difícil de conciliar. O comportamento dos suspeitos também levanta dúvidas: bloquearam uma estrada, chamando atenção desnecessária; abandonaram os veículos, mas permaneceram nas proximidades durante 35 a 40 minutos; e encontravam-se muito perto da entrada de uma base militar — algo improvável para simples ladrões de combustível. As autoridades, por sua vez, agiram de forma igualmente desconcertante: as detenções foram feitas ao abrigo da Lei dos Explosivos, apesar de não existir qualquer dispositivo; as casas próximas das carrinhas só foram evacuadas cinco ou seis horas depois, o que não condiz com uma ameaça terrorista ativa; e os detidos acabaram libertados sob fiança, apesar da gravidade das suspeitas iniciais. Para complicar ainda mais, Donald Trump afirmou que os homens estavam “sob vigilância há muito tempo” e “pretendiam causar grandes danos”, mostrando surpresa pela libertação. Marco Rubio sugeriu que “as mãos de um agente estrangeiro” poderiam estar envolvidas. Entretanto, helicópteros dos media foram autorizados a filmar rapidamente áreas sensíveis, e muitos comentadores não hesitaram em enquadrar o episódio em termos de Irão e guerra. Fonte. Outra visão tem Jonathan Cook, que defende que a cobertura mediática britânica das detenções na base da RAF em Fairford ignorou deliberadamente o contexto político. Segundo ele, os ativistas pela paz tentaram interromper operações militares dos EUA que, alegadamente, apoiavam o ataque de Israel a Gaza, mas os principais media apresentaram o caso como um simples incidente de segurança. Cook afirma que a imprensa evitou mencionar Gaza, Israel ou o envolvimento dos EUA, transformando uma ação antigerra numa notícia despolitizada sobre uma «invasão de propriedade privada». Para ele, isto reflete um padrão mais amplo: os media britânicos ignoram sistematicamente a dissidência contra as ações militares ocidentais e israelitas, contribuindo para impedir que o público compreenda o papel do Reino Unido e marginalizando a solidariedade para com os palestinianos.
  • Aumentam os apelos à destituição, com os democratas a afirmarem que foram utilizados cerca de 20 milhões de dólares de fundos dos contribuintes em anúncios «ilegais» a favor de Trump. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

CONTROLAR A OPINIÃO PÚBLICA: É ASSIM QUE SE FAZ
Carlos Narciso, Duas Linhas


No Facebook, um vídeo difundido por canais oficiais da República Islâmica do Irão pode aparecer acompanhado, durante toda a sua duração, de uma indicação de que aquele conteúdo é «controlado pelo Irão». Foi o que aconteceu, por exemplo, com imagens da intervenção do Presidente iraniano na recente Assembleia Geral das Nações Unidas. O “aviso” funciona como um alerta: “cuidado, não acreditem nisto”.

Na mesma Assembleia Geral, o Presidente francês publicou um vídeo cuidadosamente produzido em Nova Iorque: Macron aparece sorridente, cumprimenta efusivamente Donald Trump e outros líderes, tudo montado ao ritmo de música, com imagem, som e edição profissional. É, evidentemente, comunicação política. Não há ali nada ao acaso. Há uma equipa de comunicação a produzir uma narrativa sobre o Presidente da República e a sua presença no mundo. Nenhum “aviso”, podemos acreditar em tudo.

Donald Trump fez o mesmo. Entre os vários vídeos publicados naqueles dias, encontramos excertos do seu discurso nas Nações Unidas, cuidadosamente escolhidos para amplificar frases como «America is back» ou «we are stronger than ever before». Não estamos perante jornalismo independente. Estamos perante comunicação política produzida e distribuída pelo próprio protagonista. Também nenhum “aviso” para termos cautela.

Todos estes conteúdos têm uma característica comum: são produzidos ou difundidos por estruturas de comunicação ligadas ao poder político e destinam-se a construir uma determinada imagem desse poder. Uns mostram um Presidente confiante, sorridente a cumprimentar outros chefes de Estado; outros seleccionam as frases mais favoráveis de um discurso; outros apresentam a versão de Teerão sobre a agressão que estão a sofrer com bombardeamentos americanos e israelitas. Mas só o vídeo do Irão tem o “aviso” de alerta.

Se a regra das redes sociais, neste caso o Facebook, fosse informar o utilizador de que está perante comunicação sob influência ou controlo de um Estado, então a regra deveria ser aplicada segundo critérios universais. Washington, Paris, Londres, Moscovo ou Teerão não podem ser tratados como categorias diferentes apenas porque as suas políticas externas são diferentes.

Por que razão um vídeo de comunicação política difundido pelo Estado iraniano precisa de um aviso permanente sobre a sua origem, enquanto uma sofisticada peça promocional do Eliseu ou um excerto cuidadosamente seleccionado por Trump não suscitam idêntico alerta?

Não se trata de defender a credibilidade do Governo iraniano. Nem de pedir que se retirem rótulos a conteúdos provenientes de meios controlados por Estados. Trata-se precisamente do contrário: de saber se o critério é realmente sobre a natureza do conteúdo ou se acaba por funcionar também como uma classificação política dos emissores.

Porque um aviso como «controlado pelo Irão» não é uma informação neutra no sentido mais elementar da comunicação. Embora não diga «não acredite», coloca essa suspeita no ecrã antes, durante e depois da mensagem. A propaganda não deixa de ser propaganda quando é produzida a ocidente. Se o Facebook decidisse identificar da mesma maneira um vídeo da Casa Branca como «conteúdo controlado pelos Estados Unidos», um vídeo do Eliseu como «conteúdo controlado pela França» e uma comunicação de Downing Street como «conteúdo controlado pelo Reino Unido», a regra tornar-se-ia banal. Poderíamos concordar ou discordar dela, mas perceberíamos o critério.

Explicando com exemplos em vídeo:

 

Quando o aviso aparece sistematicamente associado a determinados países e não a outros, a questão deixa de ser apenas quem produziu o conteúdo. Passa a ser quem merece ser assinalado como alguém de quem devemos desconfiar. É uma diferença pequena no ecrã. Mas não é uma diferença pequena na cabeça de quem vê.