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terça-feira, 23 de junho de 2026

DESLARRRGUEM A ARRÁBIDA!

  • Centenas de pessoas participaram este domingo na caminhada “Deslarrrguem a Arrábida!”, em protesto contra a tentativa de privatização de cinco praias da serra e contra as restrições de acesso ao espaço público na região.
  • A EDIA lançou o concurso público para o projeto de execução e Estudo de Impacte Ambiental da Barragem de Terges e Cobres, entre os concelhos de Beja e Mértola, num investimento de 990 mil euros. A associação ambientalista ZERO exige a suspensão imediata dos concursos para esta e para a futura Barragem de Carreiras, também prevista para Mértola. A ZERO contesta a lógica da EDIA, considerando uma completa contradição construir barragens para captar mais água num rio onde já se capta mais do que é sustentável. A associação aponta o regadio intensivo como verdadeira causa do défice hídrico, recordando que cerca de 95% da água distribuída pelo Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva é utilizada por atividades económicas privadas, com 80% da área beneficiada ocupada por olival. O Guadiana apresenta um Índice de Escassez de 51%, com agravamento projetado de 33% até 2070. Fonte.

BICO CALADO

  • QUEM SÃO OS QUE QUEREM ROUBAR A ARRÁBIDA? Fonte.
  • “No País Basco, a polícia espanhola prendeu hoje dois jovens membros da organização de solidariedade com o Irão, que organizou no último mês sessões de debate com a presença do embaixador do dito país. Estão acusados de apologia do terrorismo e de apoiar o Hezbollah. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra as detenções e foram recebidas com bastonadas da polícia basca, os mesmos que espancaram os membros da flotilha à chegada ao aeroporto de Bilbau. Compare-se o comportamento dos países europeus com quem se solidariza com o Irão (ou com o Líbano e Palestina), agredido pelos Estados Unidos e Israel, e o comportamento com quem protestou pela Ucrânia. A hipocrisia é evidente e mostra bem que não se trata de defender valores democráticos. A Europa está do lado da barbárie.” Bruno Carvalho (jornalista).
  • "Keir Starmer saiu finalmente. O seu provável sucessor é carismático, popular e do norte, mas é também um membro dos «Amigos do Israel no Partido Trabalhista» que defende cortes na segurança social, critica o movimento BDS e apoia a Guerra do Iraque." Deaglan O'Mulrooney, Substack.
  • O regime israelita pediu à Meta que censurasse conteúdos nas redes sociais sobre a guerra em curso contra o Irão. Os registos revelam que Israel solicitou à Meta que removesse publicações no Facebook e no Instagram que expressassem apoio ao Irão, oposição a Israel e até mesmo imagens dos impactos dos mísseis iranianos. Fonte.

REFLEXÃO

QUATRO EM CADA DEZ GRANDES CIBERATAQUES AO SETOR ENERGÉTICO SÃO PERPETRADOS POR ATORES ESTATAIS
Antonio Barrero F., Energías Renovables. Rev. O’Lima.

O relatório «2026 Energy Cybersecurity Outlook» alerta que a «convergência» entre as Tecnologias da Informação e as Tecnologias Operacionais, a «inteligência artificial ofensiva» e a crescente complexidade regulamentar definem e determinam atualmente os riscos de cibersegurança do setor energético. Os autores do estudo observam que a «superfície de exposição às ciberameaças» está a aumentar devido à transformação digital do setor energético e alertam que «manter a segurança das suas tecnologias operacionais tornou-se um desafio», na medida em que o setor está a «ligar à rede sistemas que antes estavam isolados e a criar um panorama energético muito mais distribuído». Isto abrange — salientam — desde estações de recarga de veículos elétricos até instalações de energia solar.

O relatório da Fortinet destaca também certas tecnologias emergentes, como a inteligência artificial, os drones e a criptografia quântica, que, segundo o estudo, também colocam novos desafios em matéria de cibersegurança. Tudo isto, aliado às exigências regulamentares, está a configurar, segundo os autores deste estudo, um «novo cenário de risco» para os operadores do setor energético, as empresas de serviços públicos e as empresas de infraestruturas críticas.

O estudo da Fortinet destaca que o custo médio de recuperação após um incidente de cibersegurança no setor já atinge os 5,08 milhões de dólares, enquanto 39% dos grandes ciberataques registados em 2025 foram patrocinados por Estados, o valor mais elevado registado até à data.

A segurança dos ambientes OT (tecnologia operacional) constitui, assim — segundo a Fortinet —, uma das principais preocupações das organizações do setor energético: «de facto — refere o relatório —, 57% das empresas reconhecem que as suas defesas OT estão menos desenvolvidas do que as de TI [Tecnologia da Informação], e 47% das empresas dos setores da energia e da indústria transformadora afirmam estar a enfrentar desafios de cibersegurança durante os seus processos de modernização e integração tecnológica».

O relatório também destaca a irrupção da inteligência artificial como um acelerador tanto da defesa como das ameaças: «a utilização da IA permite aos atacantes criar campanhas de phishing altamente personalizadas, desenvolver malware mais adaptável e até mesmo empregar técnicas avançadas de engano para contornar os controlos de segurança».

A tudo isto — salienta o relatório — acrescenta-se a necessidade de nos prepararmos para a era pós-quântica. Segundo a Fortinet, 58% dos responsáveis pela segurança e pelas TI de infraestruturas críticas já estão a experimentar a criptografia pós-quântica, antecipando-se ao impacto que a computação quântica poderá ter nos atuais sistemas de encriptação.

No entanto, a adoção de padrões de criptografia pós-quântica continua a ser baixa: apenas 9% dos milhões de sites mais visitados da Internet adotaram padrões PQC (criptografia pós-quântica), «embora a adoção — precisam os autores do relatório — seja maior entre os líderes tecnológicos, uma vez que 5 dos 10 principais já tomaram medidas nesse sentido».

Na Europa, além disso, as empresas do setor energético terão de lidar com um ambiente regulatório cada vez mais complexo, marcado por (1) a implementação da NIS2 (diretiva europeia relativa às medidas destinadas a garantir um elevado nível comum de cibersegurança em toda a União) e por (2) outras iniciativas destinadas a reforçar a resiliência das infraestruturas críticas.

«A diversidade na aplicação nacional destas normas — adverte a Fortinet — poderá acarretar novos desafios de conformidade para as organizações com operações internacionais».

Neste contexto, a Fortinet identifica cinco prioridades para os responsáveis pela cibersegurança do setor energético. São as seguintes:

• integrar a segurança em todo o ciclo de vida dos ativos de TI e TO (tecnologias da informação e tecnologias operacionais);
• reforçar a segmentação das redes;
• melhorar a deteção e a resposta a ameaças em tempo real;
• avançar na soberania dos dados e
• promover uma maior colaboração entre a indústria, os reguladores e os organismos públicos.

O relatório conclui que a resiliência das infraestruturas energéticas dependerá cada vez mais da capacidade das organizações para combinar a visibilidade dos seus ativos, a proteção dos ambientes OT, a automatização baseada em IA e a conformidade regulamentar num cenário de ameaças cada vez mais sofisticado.

Credenciais da Fortinet

Fundada na Área da Baía de São Francisco no ano 2000, a Fortinet é uma empresa multinacional que opera no setor da cibersegurança e na convergência de redes e segurança. De acordo com o seu perfil corporativo, a Fortinet detém 1 430 patentes a nível mundial (a 31 de março de 2026) e oferece uma gama de mais de 50 produtos de nível empresarial, «a maior oferta integrada disponível», com «soluções que se encontram entre as mais implementadas, patenteadas e validadas do setor». A empresa orgulha-se de ter uma carteira de «mais de 900 000 clientes».

Os principais acionistas da Iberdrola são o fundo soberano do Catar (Qatar Investment Authority), o fundo norte-americano BlackRock e o banco público Norges, da Noruega.

O principal acionista do Grupo Enel, proprietário da Endesa, é o Ministério da Economia e Finanças de Itália. O segundo maior acionista da Enel é a BlackRock.

A EDP é o principal acionista da EDPR. Os principais acionistas da EDP são o Estado chinês, através da empresa estatal China Three Gorges Corporation (20,86%), a empresa asturiano-valenciana Oppidum Capital (6,82%), o fundo de investimento norte-americano BlackRock (6,82%) e o fundo de pensões canadiano CCPIB (5,62%).

LEITURAS MARGINAIS

A PIADA É POR NOSSA CONTA
Chris Hedges, Substack. Rev. O’Lima.


Os palhaços que orquestram o fascismo, com a sua pseudociência, idiotice, propensão para a violência e hipermasculinidade grotesca, são alvos perfeitos para a sátira. É fácil, tal como fazem os comediantes dos programas noturnos — e tal como os cabarés faziam com os nazis em Berlim —, ridicularizar os capangas, os desajustados e os medíocres que detêm o poder e vomitam o seu veneno fascista. Mas esta forma de sátira cega os opositores quanto ao seu poder destrutivo e ao seu cerne assassino. Ignora os verdadeiros centros de poder. Não gera resistência. Gera desdém e cinismo. Aprofunda a divisão social e política entre nós, a elite «iluminada» e «instruída», e eles, o «bando de deploráveis» desprezados e ridicularizados.

Há duas formas de sátira. A das elites instruídas, que domina os media comerciais, ridiculariza as fraquezas e as pretensões de Trump e dos seus infelizes seguidores. Esta sátira não ataca as grandes empresas nem a indústria bélica. Ignora a decadência e a podridão no seio das nossas instituições políticas, incluindo o Partido Democrata, que criou Trump. Finge que vivemos numa democracia. Alimenta o cinismo, não a resistência. Caracteriza-se por uma repugnante superioridade moral e intelectual e por uma humilhação impiedosa das classes mais desfavorecidas. Alimenta as divisões sociais e a alienação que alimentam o fascismo.

Antonio Gramsci alertou que a sátira elitista é contraproducente. Apelou a um «sarcasmo apaixonado», que vise a maquinaria do poder. A sátira, escreveu ele, deve criticar severamente os mitos e ideologias dominantes que sustentam o capitalismo e o fascismo. Deve expor não só a falência moral e intelectual do fascismo, mas também reconhecer as queixas legítimas daqueles que se encontram sob o seu feitiço. Deve centrar-se nas instituições que perpetuam a injustiça e a desigualdade social.

«Trump também tem sido necessário para desmascarar os progressistas de fachada, os imperialistas liberais anti-Trump que, na sua oposição ao acordo de Trump com o Irão, só conseguem parecer psicopatas imperialistas belicistas», escreve Nate Bear. «Desde todos aqueles que partilham memes nas redes sociais sobre rendição, passando pelos democratas e pelos comentadores da CNN que condenam o acordo, até ao Jimmy Fallon a gozar com Trump por devolver ao Irão o dinheiro que os EUA roubaram, não há qualquer articulação de uma alternativa ao bombardeamento interminável do Irão. Não há raiva por parte dos liberais pelas mortes de iranianos, nem contra o Estado imperial, o sionismo ou a máquina de morte enraizada que tornou esta violência possível. Não, eles apenas sentem vergonha pelo império. E não querem reconhecer os limites desse império.»

A sátira elitista — seja no «Saturday Night Live» ou noutros programas noturnos — ataca os mais fracos. Ela leva os liberais a acreditar que os bandidos e vigaristas que assumiram o poder são demasiado estúpidos e incompetentes para se manterem no poder. Há milhões de exilados políticos que compreendem como esta autoilusão, esta incapacidade de levar os fascistas a sério, é o grande facilitador do fascismo. Eles também, em tempos, descartaram como uma piada os capangas que agora governam os seus países.

A escritora turca Ece Temelkuran, forçada ao exílio pelo regime de Recep Tayyip Erdoğan, no seu livro «Nation of Strangers: Rebuilding Home in the 21st Century», expõe o padrão familiar:

“Tudo começa com um movimento que divide a sociedade em duas: o «povo verdadeiro» contra a «elite corrupta», e com um líder que insiste em que só ele representa o «povo verdadeiro». O passo seguinte é a dissolução da verdade e a priorização da lealdade em detrimento da decência. Depois, a vergonha é desmantelada. O líder rompe o consenso político e moral de longa data com uma implacabilidade sem precedentes. Quanto mais tempo permanece no poder, mais os limites do que é aceitável começam a alargar-se. O que antes parecia impensável ou desprezível torna-se gradualmente normal. À medida que as instituições que sustentam a democracia são silenciosamente esvaziadas e a própria definição de democracia é reescrita como sendo simplesmente o governo da maioria, os valores universais — a dignidade humana e o Estado de direito — são substituídos por um nacionalismo feroz, um orgulho de vitimização e uma reescrita da história. A crueldade e a impiedade são consideradas justas, não só nos mais altos escalões da política, mas também à medida que se infiltram na vida quotidiana. O círculo daqueles que contam como «nós» torna-se mais restrito, enquanto milhões de concidadãos são reclassificados como suspeitos permanentes.”

Como adverte Temelkuran, os americanos, tal como os cidadãos de outras nações que já percorreram este caminho, «... acalmam os seus receios repetindo a mesma frase ilusória: “As instituições vão aguentar-se”. Ainda não se atrevem a reconhecer o seu futuro país e, em breve, não serão reconhecidos como cidadãos, a menos que sigam as novas regras na América de Trump.»

Comediantes como Kimmel funcionam à semelhança da estrela de cabaré Fritz Grünbaum, que, durante o nazismo, certa vez brincou quando faltou a luz durante uma atuação: «Não vejo nada, absolutamente nada; devo ter tropeçado na cultura nacional-socialista.» Grünbaum acabaria por ser enviado para o campo de concentração de Dachau — juntamente com outros atores, artistas e satiristas —, onde morreu de tuberculose.

Os nazis agiram rapidamente para encerrar os cabarés — juntamente com todas as instituições que desafiavam o controlo nazi — e substituíram-nos por espetáculos de variedades sem sentido. Odiavam a ironia tanto como Trump, que, após o último programa de Stephen Colbert, se regozijou dizendo que Colbert estava «arrumado» e chamou-lhe «um idiota completo». Trump também partilhou um vídeo gerado por IA em que aparecia a atirar Colbert para um contentor do lixo, a fechar a tampa com força e a dançar. Trump escreveu que a saída de Colbert era o «começo do fim» para outros apresentadores de programas noturnos.

As piadas sobre ditadores em regimes totalitários constituem um crime. A sátira só é permitida em Estados fascistas quando utilizada para ridicularizar adversários políticos e minorias demonizadas. Não é permitida quando dirigida aos centros de poder. Como Gramsci salientou, a consolidação do poder pelos fascistas exige que estes vençam a «batalha cultural», dominando o discurso público, controlando a linguagem — incluindo a sátira — e redefinindo as normas sociais, culturais e políticas.

A sátira elitista é uma válvula de escape. Mas, ao recusar-se a confrontar as raízes da nossa degeneração política, social e cultural — que antecedeu a presidência de Trump —, acaba por consolidar o projeto fascista que pretende destruir. Reduz a catástrofe ao espetáculo de palhaços em torno de Trump: os secretários de Estado bajuladores, a «Barbie do ICE» ou a bizarra guerra de Robert F. Kennedy Jr. contra a ciência médica. Não aborda as nossas instituições democráticas falhadas — o meio académico, as eleições, os tribunais, o Congresso ou os media. Desvia a atenção dos bilionários e das empresas que reduziram drasticamente a regulamentação, impuseram austeridade e desindustrialização e distorceram o sistema económico e político para facilitar a maior transferência de riqueza para os mais ricos da história dos EUA. Não aborda a indústria bélica assassina nem o aparelho de segurança interna que faz de nós a população mais vigiada, monitorizada, espiada, rastreada e fotografada da história da humanidade.

Esta sátira elitista simplifica as complexas forças sociais, económicas e políticas que temos de desmantelar. Ignora ou presta homenagem às forças subterrâneas que criaram Trump. O «sarcasmo apaixonado» de Gramsci é demasiado revolucionário e demasiado verdadeiro para ser transmitido por conglomerados mediáticos como a CBS.

«O riso é a nossa reação às incongruências imediatas e àquelas que não nos afetam essencialmente», observou o teólogo Reinhold Niebuhr em «Humor e Fé». «A fé é a única resposta possível às incongruências últimas da existência que ameaçam o próprio sentido da nossa vida.»

«Não há riso no Santo dos Santos», continuou Niebuhr. «Ali, o riso é absorvido pela oração e o humor é preenchido pela fé.»

Quando a sátira é o ponto final, torna-se prejudicial. Ela mascara o que está para vir. Deve ser, como Niebuhr salientou, o ponto de partida. Deve impulsionar-nos, como Gramsci compreendeu, para uma análise rigorosa e para a organização de movimentos de massas, que são os únicos capazes de nos salvar da tirania. Deve deixar de fazer o jogo de uma nação polarizada, onde facções opostas se consideram mutuamente irremediáveis. Deve reconhecer que, dada a gravidade da situação que enfrentamos, o riso não basta.

domingo, 21 de junho de 2026

CUIDADO COM ALISANTES QUÍMICOS PARA CABELO

  • Uma revisão recente publicada na revista Current Environmental Health Reports revelou que dois tipos de alisantes químicos para o cabelo — os alisantes e os tratamentos de queratina — contêm, cada um, várias classes de substâncias químicas tóxicas conhecidas e que perturbam o sistema endócrino (EDCs), substâncias cancerígenas e metais pesados. O formaldeído, um carcinogéneo conhecido, foi o mais frequentemente encontrado nos tratamentos de queratina. Os ingredientes de fragrâncias foram as substâncias químicas preocupantes mais frequentemente identificadas nos alisantes capilares, juntamente com EDCs, tais como ftalatos e parabenos. Os estudos revelaram ainda que os profissionais de salões de beleza que manuseavam estes produtos apresentavam níveis mais elevados de substâncias químicas tóxicas na urina no final dos seus turnos.
  • A Rolls-Royce vai construir mini-centrais nucleares para a Videberg Kraft, uma subsidiária da gigante estatal sueca do setor energético Vattenfall. Fonte.
  • Mona Khalil, nascida em Lagos em 1949 e fundadora da Orange House, dedicou mais de vinte anos à proteção das tartarugas marinhas ao longo da costa de Mansouri. Faleceu na sequência do ataque israelita que atingiu a sua casa a 4 de junho, deixando um legado de proteção costeira e de empenho local. Fonte.

BICO CALADO

Krishan Kariyawasam/NurPhoto/Shutterstock
  • Mirpuri: quem é a família que quer privatizar as praias da Arrábida? Daniel Moura Borges, Esquerda.
  • A Unbabel, uma das empresas que ajudou a moldar e a dar vida à Unicorn Factory Lisboa criada por Carlos Moedas, beneficiou de 13,3 milhões de euros de apoios públicos. Em Março pediu falência depois de um dos investidores privados ter lançado um processo para reaver o dinheiro investido. Fonte.
  • Preço do cabaz alimentar continua a oscilar: em 2022 custava menos 70 euros. Fonte. Operação de branqueamento: oscilar = aumentar
  • Os intervalos para hidratação da FIFA têm suscitado críticas por parte de vários grupos. Mas qual é, afinal, a sua função? Fonte.
  • “(…) o actual chanceler Merz, ligado à maior gestora de fundos dos EUA e um bajulador de Trump, insiste na relação de vassalagem com Washington. Por isso, o chanceler se irritou ontem muito quando soube que António Costa tinha iniciado contactos com Moscovo para acelerar negociações que levem a um fim da guerra, com a UE sentada à mesa e não como espectadora. Merz é uma nulidade política - reconhecida na Alemanha - e parece que tem muito a aprender com Costa.” Miguel Szymanski.
  • O deputado liberal-democrata Cameron Thomas foi detido e suspenso do partido. Fonte.
  • A CIA em Swan Island antes, durante e após a invasão da Baía dos Porcos em Cuba. Ken Lawrence, CovertAction Magazine.

REFLEXÃO

A RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA DAS LINHAS ELÉTRICAS ESTÁ ASSOCIADA A PERTURBAÇÕES HORMONAIS
EHN. Rev. O’Lima.


Uma revisão recente publicada por Tojza et al. na revista Applied Sciences analisou os impactos da exposição à radiação eletromagnética de frequência extremamente baixa (ELF-EMF) — um tipo de radiação não ionizante emitida por subestações elétricas, linhas de alta tensão, eletrodomésticos e dispositivos eletrónicos — no sistema endócrino, que regula o organismo através das hormonas.

As hormonas atuam como mensageiros químicos para todos os órgãos do corpo, regulando uma série de funções corporais essenciais, tais como o metabolismo, o crescimento, o desenvolvimento, a reprodução e a resposta ao stress.

Outros desreguladores endócrinos conhecidos incluem o bisfenol A (BPA), os ftalatos, as substâncias per- e polifluoroalquílicas (PFAS) e os pesticidas, todos os quais podem interferir com o funcionamento normal das hormonas. Consequentemente, mesmo perturbações subtis no sistema endócrino podem ter efeitos significativos na saúde.

Estudos em animais associam consistentemente a exposição a campos eletromagnéticos de frequência extremamente baixa (ELF-EMF) a efeitos nos níveis de hormonas do stress, na libertação de melatonina, na atividade da tiróide e na função reprodutiva.

As evidências sugerem que estas perturbações estão provavelmente ligadas a um aumento do stress oxidativo e a um desequilíbrio nos iões de cálcio.

Embora sejam necessários mais estudos a longo prazo para compreender melhor os impactos no sistema endócrino em seres humanos, os autores salientam que a natureza generalizada da exposição a ELF-EMF justifica uma abordagem de precaução.

A exposição a campos eletromagnéticos de frequência extremamente baixa (ELF-EMF), frequentemente designada simplesmente por EMF, está a aumentar à medida que o desenvolvimento de centros de dados de IA impulsiona a construção de novas linhas de transmissão de alta tensão e subestações, enquanto a utilização crescente de dispositivos eletrónicos continua a alargar as fontes de exposição a campos eletromagnéticos em casas, escolas e locais de trabalho. (...)

Há décadas que os cientistas recomendam minimizar a exposição. A Agência Internacional para a Investigação do Cancro da Organização Mundial de Saúde classificou os campos magnéticos de frequência extremamente baixa (ELF) como um «possível» carcinogéneo humano em 2001, com base, em grande parte, em evidências que associam a exposição residencial de 3 a 4 mG à leucemia infantil. Estudos mais recentes continuam a demonstrar essa associação. Além disso, estudos da Kaiser Permanente indicam que a exposição pré-natal a campos magnéticos EMF esteve associada a um risco acrescido de aborto espontâneo, bem como à obesidade e à asma nas crianças. Um estudo nacional com a duração de 18 anos, que envolveu mais de 3,5 milhões de pessoas, constatou um risco acrescido de demência e de mortalidade por Alzheimer em habitações próximas de infraestruturas da rede elétrica, como linhas de alta tensão e subestações.

Devido às investigações sobre o risco de cancro, muitos países adotaram políticas que restringem a construção de habitações e escolas em áreas onde os campos magnéticos são elevados. (…)

A nível individual, há medidas simples que pode tomar para reduzir a sua exposição diária à radiação ELF e a outras formas de radiação eletromagnética em sua casa, incluindo:
  • Utilize tablets e computadores portáteis em mesas, e não no colo
  • Afaste as camas dos quadros elétricos
  • Carregue telemóveis e dispositivos fora do quarto, e não junto à cama
  • Não utilize o telemóvel enquanto este estiver a carregar
  • Desligue da tomada as camas de água e os cobertores elétricos antes de se deitar
  • Meça os níveis de campos eletromagnéticos (EMF) na sua casa
  • Também pode medir os níveis de campos eletromagnéticos (EMF) na sua casa com um medidor básico de miligauss, para compreender melhor a sua exposição, ou contactando a sua empresa de eletricidade local para que esta efetue as medições.
Se for proposta uma nova linha de transmissão, subestação ou outro grande projeto de infraestrutura elétrica na sua comunidade, os residentes podem solicitar os níveis de referência e os níveis previstos de campos elétricos e magnéticos em casas, escolas, parques e limites de propriedade antes do início da construção.

LEITURAS MARGINAIS

O PACOTE LABORAL CAIU. CAIU PORQUE ERA MAU.
Jacinto Furtado, Notícias Online.

Anadolu/Getty Images

Até ao último minuto, a ministra Maria do Rosário Palma Ramalho e o Governo andaram a vender a mesma banha da cobra que os sucessivos governos liberais vendem há décadas, mais “flexibilidade”, mais “modernização”, mais “competitividade”. O costume, mudam os rostos, muda a embalagem, muda o nome da operação de cosmética. A mercadoria lá dentro é sempre a mesma, menos direitos para quem trabalha e mais poder para quem manda.

O problema para Montenegro é que desta vez a coisa correu-lhe mal. O chamado “pacote laboral” foi chumbado na Assembleia da República e ainda bem. Porque aquilo que o Governo pretendia impor ao País não era uma reforma do século XXI. Era uma viagem de regresso ao século XIX, como António Garcia Pereira escreveu e demonstrou ao longo dos últimos meses nos artigos que tem publicado aqui no NotíciasOnline. Facilitar despedimentos, aumentar a precariedade, enfraquecer a contratação colectiva, limitar a capacidade de resistência dos trabalhadores e transformar o contrato individual numa espécie de lei da selva onde o mais forte dita as regras e o mais fraco agradece.

Há uma questão ainda mais grave. Onde estava isto no programa eleitoral? Em que página estava escrito que um trabalhador despedido ilegalmente poderia acabar efectivamente na rua mesmo depois de um tribunal lhe dar razão? Em que comício explicou Montenegro aos portugueses que queria abrir ainda mais portas à precariedade e à desvalorização das relações colectivas de trabalho? Em que debate eleitoral disse ao País que pretendia mexer desta forma profunda na legislação laboral?

Não disse! E não disse porque sabia perfeitamente que não tinha mandato para isso. A democracia não consiste em pedir votos para uma coisa e depois governar para outra. Chama-se fraude política. Não jurídica, que os advogados depois discutirão. Política. Da mais pura.

Montenegro chegou ao Governo sem maioria. Nada de novo. O problema começou quando decidiu que a sua sobrevivência política valia mais do que qualquer compromisso com os eleitores. A partir daí passou a governar num permanente jogo de cintura, numa dança de salão onde hoje namora um partido, amanhã outro e depois logo se vê quem aparece disponível para manter a cadeira ocupada.

A política transformada numa agência matrimonial.

Quando a sobrevivência do Governo passa a ser o objectivo principal, tudo o resto se torna secundário, inclusive os trabalhadores. Foi precisamente por isso que se assistiu durante meses a uma tentativa quase desesperada de empurrar este pacote para a frente, não porque resolvesse os problemas estruturais da economia portuguesa. Não há um único estudo sério que demonstre que mais precariedade gera mais produtividade ou melhores salários. Aliás, décadas de experiência mostram exactamente o contrário. Havia que mostrar serviço aos interesses que há muito olham para os direitos laborais como um incómodo contabilístico.

Depois há André Ventura. Ah, André Ventura. Durante semanas, o Chega deixou arrastar a novela. Nem sim nem sopas. Nem aprovava nem rejeitava. Um pé de cada lado da porta. A especialidade da casa. Votou contra. Imediatamente surgiram as câmaras, os microfones e as declarações grandiloquentes sobre independência, coragem e verticalidade.

Não se vende, disse Ventura. Pois não. O problema é que não precisa de se vender. Oferece-se. Oferece-se quando lhe convém. Oferece-se às circunstâncias. Oferece-se às sondagens. Oferece-se ao vento dominante do dia. O que aconteceu não foi uma súbita iluminação laboral de André Ventura. Não foi uma conversão na estrada de Damasco em defesa dos trabalhadores. Não foi uma descoberta tardia de que despedir mais facilmente não é progresso. Foi apenas cálculo. Puro cálculo.

Quando Ventura percebeu que o pacote laboral se estava a transformar num problema político, fez o que faz sempre, mudou de posição sem mudar de discurso. Uma espécie de cata-vento com gel no cabelo. Ainda há poucos meses o Chega surgia associado às teses mais liberais sobre relações laborais. Agora aparece a posar como defensor dos trabalhadores. Está no seu direito. Mas também estamos no nosso de não esquecer.

Quem muda de opinião pode ser coerente. Quem muda de opinião todas as semanas está apenas a medir audiências. A verdade é que o pacote laboral caiu não por convicção do Chega, mas porque a pressão social e política tornou o seu apoio demasiado caro eleitoralmente. E Ventura faz contas melhor do que faz princípios.

Quanto ao Governo, a lição deveria ser simples. Quando se tenta impor aos portugueses aquilo que eles nunca sufragaram, corre-se o risco de ouvir um sonoro não. O problema é que suspeito que não aprenderam nada. Afinal, quando a obsessão é manter o poder, até os pactos com o diabo parecem uma excelente oportunidade de governação.

Até ao dia em que o diabo apresenta a factura.

sábado, 20 de junho de 2026

OEIRAS: PRAIA DE SANTO AMARO INTERDITA A BANHOS

  • A praia de Santo Amaro de Oeiras foi hoje temporariamente interditada, na sequência de um episódio de poluição na ribeira da Laje, provocado por uma rotura numa conduta da Tratolixo, informou a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Fonte.
  • Quercus pede chumbo a projeto de agricultura intensiva em Alcácer do Sal, que vai esgotar aquífero já em risco.
  • 8,5 toneladas de redes de pesca recolhidas em portos do Algarve. Fonte.
  • A Câmara de Vila Nova de Cerveira vai avançar com um projeto de 25.700 euros, cofinanciado por fundos europeus, para combater os impactos da espécie invasora Egeria densa no rio Minho. Fonte.
  • A chinesa Chint Solar entrouem força no Alentejo (São Gião, Tapada Grande e Monte Santos) com mais de 2,1 milhões de painéis solares. Fonte.
  • A Administração Trump vai pagar 765 milhões de dólares para rescindir mais quatro contratos de arrendamento de parques eólicos offshore. Fonte.

BICO CALADO

  • “A IA não é uma ferramenta, é um agente de manipulação (controlo processual e final) de empresas privadas, cuja função é chegar ao dinheiro dos contribuintes e formar força de trabalho para a automação (trabalhadores que só precisam de saber carregar em botões, e devem ser desprovidos de pensamento crítico e conhecimento, basta-lhes "competências" e obediência). Ferramenta é outra coisa, é a máquina de calcular ou a faca, que são extensões do corpo que eu controlo. A IA é um agente externo, que me controla. Se eu uso uma faca sou eu que decido como a uso, idem para a calculadora, se digo à IA para fazer algo perco o controlo do processo, há uma caixa negra que é um código que determina o processo (esse código por mais perguntas que se faça nunca é conhecido), há um agente, com um código, privado, que decide o processo e o resultado.” Raquel Varela.
  • "A polícia devia estar onde se cometem os crimes mais graves: nos gabinetes dos administradores dos grandes grupos económicos e financeiros, nas sedes dos partidos que se deixam comprar pelos interesses dos mais ricos e nos órgãos de comunicação social que promovem o racismo e a discriminação de classe." Bruno Carvalho.
  • "À medida que os governos iam aumentando a idade da reforma iam aumentando também as leis de pré reforma e reforma por incapacidade, ou ainda as leis de despedimento (por inadaptação do posto de trabalho), que fazem com que parte dos trabalhadores se reformem aos 55 anos ou até menos. No nosso Observatório e estudos com sindicatos chamamos a isto um palavrão em sociologuês - "obscolescência programada da força de trabalho", os governos - e as empresas que são os governos - aumentam a idade da reforma sabendo que os trabalhadores, com a intensidade do trabalho não chegam lá, por isso têm criado leis para estas pessoas quando chegam aos 55 anos irem para casa com 400 euros. (…) O que Ventura propõe é oferecer baixar um mês ou dois a idade da reforma, em troca de 150 horas de trabalho gratuito anual para a Sonae! Ventura, o cão de guarda dos patrões. Se algum burro acreditar nisto lamento, já não há nada que eu possa fazer para explicar melhor. É caso para psiquiatras, não para mim." Raquel Varela.
  • Cartão do PSD vale mais que currículo: o método de Montenegro chega à Segurança Social. Fonte.

REFLEXÃO

A DESERTIFICAÇÃO NÃO SE ASSEMELHA APENAS A UM DESERTO: ASSEMELHA-SE A UMA INUNDAÇÃO
Willem Ferwerda, Gabrielle Taus e Pénélope Choussat. Common Dreams. Rev. O’Lima.

Uma rua transformou-se num rio na localidade de Grazalema, em Cádis, Espanha, após a tempestade Leonardo, a 4 de fevereiro de 2026. (Foto de Joaquín Corchero/Europa Press via Getty Images)

A chegada da chuva como uma bênção está entre as histórias mais antigas da humanidade.

No Botsuana, água e riqueza são dois nomes para a mesma bênção. Pula é o nome da moeda nacional do Botsuana, o que demonstra a relação emocional que esta terra, assolada pela seca, tem com a água.

Vemos a representação emocional da chuva nas tradições do blues afro-americano, nos rituais de invocação da chuva na África Ocidental, nas canções populares sobre a monção em todo o Sul da Ásia e nas cerimónias indígenas da dança da chuva. Ao longo de milénios e em diversas culturas, a chuva tem sido sinónimo de alívio.

Mas hoje em dia, a degradação do solo provocada pelo homem está a reescrever essa história.

Em muitas das regiões mais áridas e semiáridas do mundo, a chuva já não chega como uma bênção, mas sim como um desastre.

Para compreender porquê, temos de olhar para o solo, em vez de para o céu.

Quando a esponja endurece

Se observarmos a superfície da Terra hoje, em comparação com há 100 anos, veremos que a maior parte do território passou de ecossistemas naturais para betão, terras agrícolas e terrenos produtivos. Este é o processo de desertificação.

Pode pensar na desertificação através de imagens culturais familiares, como dunas de areia que avançam e engolam povoações, terra rachada que se estende até ao horizonte e vegetação que vai desaparecendo até à ausência total. Mas a característica definidora da desertificação não é simplesmente a falta de água. É a perda da capacidade de uma paisagem de reter água.

Um solo saudável funciona como uma esponja. Composto por matéria orgânica, redes fúngicas, raízes de plantas, insetos e milhares de milhões de microrganismos, é capaz de absorver e armazenar enormes quantidades de água. Quando chove, grande parte da água infiltra-se no solo, reabastecendo a humidade do solo e os aquíferos subterrâneos. A água move-se lentamente pela paisagem e através das camadas do solo, sustentando rios e vegetação muito tempo depois de a tempestade ter passado.

No entanto, um solo degradado comporta-se de forma diferente.

Décadas de cultivo intensivo, sobrepastoreio, perda de vegetação, lavoura repetida e utilização de fertilizantes sintéticos reduzem a matéria orgânica do solo e enfraquecem a rede alimentar do solo. À medida que a estrutura do solo se deteriora, o solo fica compactado e endurece. Os poros que antes permitiam a penetração da água colapsam. A chuva já não consegue ser absorvida. Assim, quando ocorre uma chuva forte, a água não consegue penetrar no solo e arrasta tudo o que se encontra na superfície.

Em vez de absorver a água, o solo deixa-a escorrer a jusante. Pequenos riachos transformam-se em torrentes. A camada superficial do solo é arrancada. Formam-se ravinas. Os cursos de água sobem rapidamente e os rios transbordam. A mesma chuva que outrora teria sido absorvida pela paisagem transforma-se numa inundação destrutiva.

Agricultores e comunidades na linha da frente

Na Commonland, trabalhamos com as comunidades para restaurar paisagens identificadas como degradadas — locais onde décadas de declínio ecológico reduziram a capacidade da terra para sustentar as comunidades, os meios de subsistência e a biodiversidade. O nosso objetivo é proporcionar a essas comunidades e organizações locais os meios para reverter o ciclo de degradação e contribuir para a regeneração das paisagens onde vivem e das quais dependem. No entanto, reverter os efeitos de décadas de degradação paisagística não é tarefa fácil.

Nos últimos 18 meses, duas dessas paisagens, situadas em lados opostos do mundo — em Espanha e na África do Sul —, transmitiram o mesmo aviso: sem ecossistemas saudáveis, os nossos sistemas sociais, económicos e financeiros entram em colapso.

Na localidade espanhola de Grazalema, onde cerca de 1 500 pessoas vivem aninhadas nas montanhas de Cádis, as chuvas de janeiro de 2026 bateram todos os recordes. A paisagem, em resultado de décadas de utilização intensiva do solo, tinha perdido grande parte da sua capacidade de absorver e regular a água. Os aquíferos encheram-se rapidamente. A água começou a emergir do próprio solo, ameaçando o antigo sistema cárstico sobre o qual a aldeia assenta. Formaram-se ravinas nas terras agrícolas, as estradas desapareceram e toda a localidade foi evacuada durante 10 dias.

Para os agricultores locais, os danos não foram apenas imediatos, mas também cumulativos. Os campos foram arrasados ou ficaram alagados, tornando impossível a sementeira. A camada superficial do solo foi arrancada, levando consigo tanto a fertilidade como o potencial de rendimento futuro. As áreas de pastagem do gado ficaram danificadas ou isoladas, os armazéns de ração foram perdidos ou tornaram-se inacessíveis e os ciclos sazonais foram perturbados de forma irreparável para o resto do ano.

« Os prejuízos económicos para todas as nossas atividades têm sido muito elevados», afirma Carmen Bueno, proprietária da quinta regenerativa Tambor del Llano. Bueno é também membro da Asociación Serranías Vivas, uma associação local que reúne agricultores, gestores de terras e partes interessadas do meio rural que trabalham para restaurar e proteger a paisagem da Serra de Cádiz através de uma utilização mais sustentável da terra e de esforços coordenados de restauração paisagística.

A mais de 8 000 quilómetros de distância, outra paisagem enfrentou uma história tristemente semelhante.

Em maio de 2026, inundações catastróficas assolaram os vales de Langkloof e Baviaanskloof, na província do Cabo Oriental, na África do Sul. Após meses de seca que secaram a terra, as inundações levaram tudo por água abaixo: desde campos a estradas asfaltadas, passando pelas zonas húmidas. Para muitas famílias, isto significou mais do que a perda de infraestruturas — significou isolamento. As comunidades locais não conseguiam sair das suas casas, muito menos dos vales; não era possível aceder aos abastecimentos de alimentos e água; os produtos agrícolas não chegavam aos mercados; e as reservas turísticas entraram em colapso da noite para o dia. Os trabalhos de reparação, sempre que possíveis, tornaram-se lentos e dispendiosos, travados por estradas destruídas pelas águas e por recursos limitados em comunidades já sobrecarregadas.

«Trata-se de comunidades que já viviam à margem», afirmou Justine Rudman-Koekemoer, codiretora e gestora financeira da Living Lands, uma organização que trabalha para restaurar paisagens e apoiar as comunidades rurais que delas dependem. «Não há vias fáceis de entrada ou saída, nem soluções rápidas. A recuperação será lenta e dispendiosa, e não acontecerá sem ajuda externa.» Atualmente, estão em curso esforços de angariação de fundos para reconstruir as infraestruturas essenciais danificadas pelas inundações.

O impacto associado a estes eventos faz-se sentir em todas as pessoas que vivem na região, desde as comunidades locais cujas casas foram inundadas — incluindo os agricultores que perderam as suas colheitas — até às infraestruturas públicas que precisam de ser reparadas e reconstruídas.

No entanto, essas perdas têm também um efeito em cadeia nos setores financeiro e privado em geral, que muitas vezes não têm em conta os riscos climáticos e ambientais a que estão expostos. Em consequência destes eventos, é provável que os empréstimos bancários sofram atrasos ou entrem em incumprimento, que sejam solicitados pagamentos de seguros e que se verifiquem perdas nos investimentos nas empresas.

Estes eventos devastadores levantam uma questão essencial: e se, em vez de esperarmos que as paisagens entrem em colapso para arcar com os custos, investíssemos na resiliência dessas mesmas paisagens?

A restauração da paisagem como mitigação de riscos

No mundo financeiro, o risco e o retorno são duas faces da mesma moeda; a taxa de retorno é determinada com base no risco de perder esse dinheiro.

Ao longo das últimas décadas, os investimentos na natureza foram frequentemente apresentados como oportunidades para os investidores obterem um retorno comercial. No entanto, isso raramente se verifica, e a maioria dos investimentos continua a fluir para as indústrias extrativas, ultrapassando o investimento em soluções baseadas na natureza numa proporção superior a 30 para 1: Em 2022, foram gastos cerca de 7,4 biliões de dólares em atividades extrativas e apenas 220 mil milhões de dólares em atividades regenerativas.

Mas e se invertêssemos a lógica do investimento na natureza e começássemos a apresentar a restauração da paisagem como uma estratégia de mitigação de risco para os investidores? Dado que todos os empréstimos, seguros e investimentos estão ligados a empresas e pessoas sediadas nessas paisagens, estão diretamente expostos ao risco relacionado com a saúde dessas mesmas paisagens.

O panorama de riscos que a desertificação cria não é abstrato. Mais de 80 % dos habitats naturais da Europa encontram-se atualmente em condições precárias ou más, deixando o continente mais vulnerável a inundações, secas e instabilidade ecológica. As zonas húmidas restauradas, os solos regenerados e as florestas resilientes não são gestos simbólicos — são infraestruturas funcionais que retardam o escoamento da água, armazenam carbono e absorvem choques antes que estes se transformem em catástrofes para as pessoas no terreno e em perdas financeiras para os investidores.

Quem trabalha em terras degradadas compreende isto sem precisar de estatísticas. Em Grazalema, no sul de Espanha, e em Baviaanskloof, na África do Sul, agricultores e gestores de terras testemunharam como chuvas extremas transformaram solos nus e empobrecidos num desastre — campos arrastados pela água, estradas cortadas, economias locais retrocedidas anos por uma única tempestade. Sabem, por experiência direta, que a terra não é apenas uma mercadoria, mas um sistema vivo do qual tudo o resto depende.

Cabe agora aos setores privado e financeiro reconhecer e valorizar esses riscos, investindo em soluções de mitigação. Na prática, podem começar por estimar os custos que as alterações climáticas e a degradação ambiental poderão acarretar nas paisagens onde investem ou de onde obtêm os seus produtos. Esta estimativa pode, então, ajudar a determinar o montante de investimento que deve ser direcionado para a prevenção da desertificação e a restauração dessas paisagens. A restauração paisagística poderá, assim, tornar-se uma estratégia de mitigação de riscos, com um orçamento atribuído para a implementação da restauração dessas paisagens.

A conta que as chuvas estão a enviar

Temos financiado a degradação dos sistemas que nos protegem, ao mesmo tempo que a chamamos de produtividade.

As chuvas estão agora a apresentar a conta.

O que enfrentamos não é uma escolha entre conservação e crescimento, mas entre pagar repetidamente pela destruição depois de esta ter ocorrido ou investir nos sistemas que a impedem desde o início.

A restauração da natureza não é um custo ambiental discricionário; é infraestrutura de resiliência na sua forma mais fundamental.

Para a reconhecer como tal, precisamos de ir além do financiamento fragmentado e de curto prazo e desbloquear o acesso a financiamento em grande escala dos setores público, privado e financeiro para as organizações e indivíduos no terreno que estão na linha da frente da restauração da paisagem.

A restauração não é um custo a minimizar. É a forma mais fiável de resiliência de que dispomos e a única que fortalece o sistema que protege.

A tarefa que temos pela frente é garantir que não deixamos que a degradação se torne a protagonista da história que contamos sobre a chuva.

Quando as chuvas chegarem, continuemos a olhar para o céu com alívio.