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sexta-feira, 1 de maio de 2026

‘PTRR PERPETUA VELHAS VISÕES PARA NOVOS PROBLEMAS’


O PTRR continua a apostar no betão, na desregulação e em algumas soluções ultrapassadas face à crise climática, diz a Zero.

A insistência na estratégia “Água que Une”, focada em novas barragens e transvases, é um erro histórico. É inaceitável que se canalizem 740 milhões de euros de recursos públicos para a construção de novas barragens e que o Governo continue a ignorar o restauro ecológico da paisagem e a necessidade de termos áreas urbanas resilientes a fenómenos climáticos extremos, como inundações e cheias, mantendo uma clara preferência por investir em coletores e betão que voltará a falhar no próximo evento extremo e continuará a incentivar o aumento do uso da água em zonas de escassez.

A ‘simplificação’ cega do regime de edificação (RJUE) poderá permitir novas construções em zonas de risco.

O setor dos resíduos surge referenciado apenas num contexto de aumento da sua resiliência e não de investimento estratégico, com investimentos focados na melhoria da infraestrutura existente e capacidade de resposta em caso de emergência. Perante o crónico subfinanciamento do setor, altamente necessitado de investimentos em novas infraestruturas para promover uma economia circular, representa uma oportunidade perdida. Resta ainda saber se os 360 milhões previstos no PTRR irão competir pelas mesmas fontes, já escassas, mas críticas para a implementação do Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU 2030).

O PTRR fala em digitalização e sensores, mas falha ao não estabelecer metas vinculativas de redução de perdas de água. Monitorizar apenas o desperdício não é resiliência, e não substitui políticas. São necessárias metas vinculativas de redução de perdas e mecanismos de regulação da procura.

A criação do portal de dados climáticos é positiva, mas o plano peca por não garantir uma avaliação independente e sistemática do impacto climático das políticas públicas.

Embora mencione soluções baseadas na natureza, o grosso do financiamento continua alocado a infraestruturas de drenagem profunda, em vez de promover a desimpermeabilização e a infiltração local.


REINO UNIDO: FOSSEIS LIDERAM FINANCIAMENTO DO PARTIDO REFORM

Foto: BBC
  • O partido Reform recebeu 24 milhões de libras de interesses ligados aos combustíveis fósseis. O partido anticlimático de Nigel Farage obteve dois terços das suas receitas de investidores do setor petrolífero. Fonte.
  • Sete bancos — Natixis, BNP Paribas, Crédit Agricole CIB, Citigroup, Intesa Sanpaolo, JPMorgan e Mediobanca — financiaram graves violações dos direitos humanos, bem como danos climáticos e ambientais, através de um empréstimo «verde» no valor de 1,25 mil milhões de dólares destinado à fábrica de aço e gás da Ternium no México. Fonte.

REFLEXÃO

SOBREIRO: COMO EXTINGUIR UMA ESPÉCIE, PROIBINDO O SEU CORTE
Ricardo Meireles, Substack.

 Sobreiro com cortiça antiga, fenda viva e marca de fogo. Uma árvore feita para resistir e permanecer. Trás-os-Montes. Foto: Ricardo Meireles

Há uns dias um vizinho parou o carro ao passar por mim na estrada e avisou-me, com a melhor das intenções, que tinha sobreiros a nascer junto ao muro. O conselho foi directo: arrancar enquanto era cedo, antes de ficarem mapeados. Antes de se tornarem um problema.

Fiquei com aquele conselho a trabalhar dentro de mim durante dias. Um país que ensina os seus proprietários a temer o crescimento de uma árvore está a proteger qualquer coisa, mas talvez não seja a árvore.

A lei de 2001 não proíbe em absoluto o corte ou arranque de sobreiros e azinheiras. Exige autorização. Na prática quotidiana, a diferença é pequena: o que o proprietário ouve é que um sobreiro mapeado complica tudo o que vier depois. A resposta racional, à escala do indivíduo, é o arranque preventivo, feito cedo, feito em silêncio, feito no estado em que ninguém repara. Protege-se assim a árvore adulta visível e elimina-se a regeneração invisível, que é a fase mais barata e mais decisiva de qualquer floresta.

O próprio preâmbulo da lei admite uma coisa que raramente entra na conversa pública: o montado é paisagem de origem antrópica e só se mantém enquanto as actividades económicas que o sustentam continuarem activas. O próprio legislador sabe que é um sistema agro-silvo-pastoril gerido à mão, todos os dias, há séculos. A lei, contudo, trata o sobreiro como peça de museu, e o efeito é o oposto do declarado: o medo de cada rebento que é calcado, arrancado, mal germina.

A questão maior, porém, está por baixo desta. E é aqui que mexe numa das vacas mais sagradas da identidade económica portuguesa.

Portugal produz cerca de metade da cortiça mundial a partir de aproximadamente 8% do seu território continental. O sobreiro ocupa cerca de 720 mil hectares, perto de um quarto da floresta nacional. O sobreiro é, até hoje, a única espécie cuja casca regenera depois de ser retirada do tronco, o que faz dele a única fonte comercial de cortiça no mundo. Esta singularidade ecológica transformou-se em singularidade económica, e a singularidade económica transformou-se em orgulho nacional. Somos os maiores. Repete-se isto como prova de competência.

Recentemente, a cortiça portuguesa voltou ao espaço. Foi notícia em todo o lado. Um compósito desenvolvido a partir da casca dos nossos sobreiros, baptizado P50, integrou o sistema de proteção térmica da cápsula Orion na missão Artemis II da NASA, depois de já ter servido na Artemis I. Funcionou como escudo: aguentou fluxos térmicos de dezenas de megawatts por metro quadrado durante o lançamento e a reentrada, e protegeu os astronautas que orbitaram a Lua. A imprensa celebrou. Estávamos a contribuir, a partir do nosso pedaço de terra, para uma nova ida ao espaço de uma potência alheia. É um orgulho conhecido: o orgulho do fornecedor de matéria-prima de luxo, vaidoso por servir um projecto que não decide nem partilha. E é este tipo de orgulho que imuniza o sector contra qualquer pergunta incómoda.

A pergunta que poucos formulam é se faz sentido manter um quarto da floresta de um país pequeno fixado num único degrau de um processo ecológico muito mais longo, em nome dessa posição no mercado mundial.


Deserto verde de sobreiros. Solo pelado, espécie única, sucessão travada. Uma plantação que a lei protege como se fosse floresta. 
© Ricardo Meireles, 2006.

O sobreiro é uma espécie de ciclo secular e estrato emergente, própria dos consórcios secundários tardios e de transição. Prepara o solo, fixa carbono, dá sombra, retém humidade. Cria as condições para que se sucedam sistemas mais complexos, no caminho para o estádio de abundância, onde o ser humano poderia viver com muito mais resiliência do que vive hoje.

O montado, esse, é uma fotografia parada a meio da escadaria. Existe porque é limpo, gerido, podado, descortiçado, pastoreado. Este não é o destino do sobreiro mas sim um arranjo humano que congela o sistema num ponto que dá rendimento previsível. Eternizar esse arranjo é escolher a renda certa e adiar indefinidamente a abundância que viria depois se o sistema não fosse travado.

Há ainda um mantra que a indústria comunica com particular cuidado. Diz-se que o descortiçamento beneficia a árvore. O que as fontes técnicas descrevem é outra coisa: em cada extracção, o felogénio é destruído, e a árvore regenera-o. A operação faz-se durante o período mais stressante do ano para o sobreiro, expõe células vivas que perdem água, e nos anos seguintes a árvore fica mais vulnerável a pragas e a incêndios. Em anos de seca severa, a extracção deve ser adiada precisamente para evitar danos. Quando é mal executada, deixa feridas que dificultam a regeneração e podem levar à morte prematura da árvore. Estamos perante um processo de stress real, suportável dentro de certos limites, e a afirmação de que "faz bem" à árvore pertence ao registo do marketing, não ao da ecologia verificável. Pode não a matar. Daí a beneficiá-la vai uma distância que ninguém demonstrou.

Linha de produção de rolhas em corticeira de Santa Maria da Feira. © Ricardo Meireles, 2006.

Tudo isto seria um debate académico se não houvesse pessoas reais agarradas a este modelo. Mas há famílias inteiras cuja sobrevivência material depende, há gerações, da venda da sua força de trabalho ao sector corticeiro. Foram perdendo, ao longo do tempo, outras formas de autonomia económica e ficaram amarradas a um único circuito produtivo. Qualquer reflexão honesta sobre o futuro do montado tem de começar por reconhecer isto. Não se transforma um ecossistema sem transformar, ao mesmo tempo, as condições materiais de quem dele depende. Pensar o sobreiro para lá do montado obriga a pensar, em paralelo, que outras formas de vida, que outros rendimentos, que outras autonomias podem ser construídas para essas famílias.

A retracção, entretanto, já está em curso sem que tenhamos decidido nada. A área de montado tem vindo a diminuir há décadas, por seca, por doença, por substituição, por abandono. A dependência económica de um ecossistema que encolhe é, por si só, um argumento para repensar o modelo antes que seja a desgraça a fazê-lo por nós.

A saída passa por mudar o desenho do incentivo. O proprietário que hoje vê um rebento como ameaça não tem medo da árvore, tem medo do que ela representa no mapa: uma restrição futura à venda, à herança, à construção. O problema está no ordenamento do território, que usa o sobreiro como desculpa para travar decisões que deviam ser tratadas noutro plano. Separar uma coisa da outra é o primeiro passo. O segundo é tornar a regeneração natural num activo concreto para o proprietário, com apoio técnico e benefícios fiscais. O terceiro é dar previsibilidade ao licenciamento, porque o medo nasce sempre da incerteza. E há ainda uma questão de fundo: assumir publicamente que o montado é uma das formas possíveis do sobreiro, e que a floresta densa com Quercus suber e outras espécies do mesmo porte a partilhar o mesmo espaço também tem direito a existir.

Se este medo se mantiver, a lei que diz proteger o sobreiro será o mecanismo que o extingue. Não desaparecerá pela força da motosserra mas pela aniquilação silenciosa de cada rebento arrancado antes de ser “apanhado pelo satélite”. Perderemos com isso uma espécie que faz de ponte para sistemas mais complexos e mais abundantes. O Alentejo, que hoje associamos quase de forma automática à paisagem do montado aberto, poderia ser muito mais do que essa fotografia repetida. Poderia ser território vivo, estratificado, húmido, capaz de alimentar e abrigar muito para lá da cortiça. Estamos a recusar essa hipótese antes sequer de a discutir.

O meu vizinho continua a passar na estrada. Os sobreiros junto ao muro continuam lá, pequenos, ainda quase invisíveis. Decidi deixá-los crescer. Sem medo da fotossíntese. Na esperança de que Portugal não se torne num imenso Alentejo.

BICO CALADO

Foto: Ronen Tivony/NurPhoto/Shutterstock
  • Tribunal de Contas detetou que 16 câmaras municipais não cumpriram normas sobre os procedimentos e prazos de nomeação de dirigentes em regime de substituição. Espinho sob vigilância. Fonte.
  • “(…) Para um país que pauta a sua política externa pela dos EUA, nada melhor do que enviar o rei para aliviar as tensões criadas com a invasão do Irão, aventura em que o RU não se atreveu a embarcar, e pela ameaça de Trump mudar a posição em relação à soberania das Ilhas Malvinas. E para Starmer tentar melhorar a sua imagem, nada melhor do que a visita de pompa e circunstância do casal real a outro que gostaria de o ser, enquanto os súbditos de Sua Majestade esbatem o azedume ao PM. Trump fica embevecido a desfrutar a visita do rei do País cujo império se transferiu para os EUA, o rei justifica o custo da Coroa aos súbditos, e ainda levou um recado da UE a Trump para apoiar a guerra na Ucrânia. (…)” Carlos Esperança, Ponte Europa.
  • Centenas de homens imigrantes no Centro de Processamento de North Lake, uma instalação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), iniciaram uma greve de fome a 20 de abril, numa tentativa de fazer valer os seus direitos ao devido processo legal, a alimentos comestíveis e ao fim da privação de sono. No exterior da prisão, ativistas de todo o estado do Michigan reuniram-se para manifestar solidariedade para com os detidos e divulgar as reivindicações dos grevistas ao público em geral. Fonte.
  • A relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados descreveu a interceção por parte de Israel da frota Global Sumud, com destino a Gaza, como «apartheid sem fronteiras», «ALARME! Como é possível que Israel seja autorizado a atacar e apreender embarcações em águas internacionais ao largo da Grécia/Europa? Para além do que se possa pensar do apartheid israelita e dos seus líderes genocidas, isto deveria causar uma onda de choque por toda a Europa», afirmou Francesca Albanese. A marinha israelita interceptou embarcações da frota na noite de quarta-feira, enquanto estas se dirigiam para Gaza para quebrar um bloqueio de longa data sobre o enclave. O grupo afirmou que as forças israelitas cercaram o comboio em águas internacionais perto da ilha grega de Creta, bloquearam as comunicações e apreenderam 21 embarcações, acrescentando que 17 embarcações conseguiram escapar e entrar em águas gregas após o incidente. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

CALMA, OS PAINÉIS SOLARES NÃO CAUSAM CANCRO
Mark Gongloff, Bloomberg. Trad. O’Lima.

Ruído, falta de estética e resíduos tóxicos são apenas alguns dos mitos sobre a energia solar. Foto: David Paul Morris/Bloomberg

Vivemos numa época marcada tanto por milagres científicos como por superstições em relação à ciência, que parecem crescer mais ou menos em paralelo. Num ano, estamos a criar vacinas inovadoras que travam uma pandemia global e, quatro anos depois, temos surtos de sarampo porque as pessoas acreditam em disparates sobre as vacinas, divulgados pelo principal responsável pela saúde do país.

A energia solar é outro exemplo. Trata-se de uma tecnologia que, em vez de extrair combustíveis fósseis e queimá-los para libertar a energia solar acumulada há milhões de anos, consegue, milagrosamente, extrair essa energia diretamente do céu. Ao contrário desses combustíveis fósseis, é inofensiva, ilimitada e, em termos globais, não gera gases com efeito de estufa que aquecem o planeta.

A energia solar é também mais barata do que os combustíveis fósseis, o que ajuda a explicar o seu crescimento exponencial. A produção global de energia solar cresceu 636 terawatts-hora em 2025, um aumento de 30%, de acordo com a empresa de investigação Ember. Este foi o crescimento mais rápido num ano registado para qualquer fonte de energia, com exceção de uma recuperação temporária no uso do carvão após os confinamentos durante a pandemia de Covid-19. Só a energia solar nova satisfez três quartos da nova procura de energia mundial no ano passado. Ao longo da última década, a energia solar multiplicou-se por 10, aumentando 27% ao ano, em média.

A energia solar está em alta

A produção anual de energia solar aumentou 10 vezes na última década, ultrapassando a energia eólica e quase igualando a energia nuclear

No entanto, nem todos são adeptos da energia solar. Nos EUA, as instalações registaram, na verdade, uma queda de 14 % em 2025 em relação ao ano anterior, contrariando a tendência global, de acordo com a Associação das Indústrias de Energia Solar e a empresa de consultoria Wood Mackenzie.

A energia solar continuou a ser a maior fonte de energia nova nos EUA no ano passado, representando 54% de todas as novas instalações, em comparação com apenas 8% do gás natural. A energia solar e o armazenamento em baterias, em conjunto, representaram 79% das novas fontes de energia nos EUA em 2025. No entanto, o seu crescimento abrandou, principalmente devido ao ataque generalizado do governo do presidente Donald Trump à energia limpa.

Mas outro fator que prejudica a energia solar nos EUA é a crescente oposição local, motivada por receios quanto aos impactos dos parques solares na saúde humana, segundo noticiou recentemente a ProPublica. A publicação citou o condado de St. Clair, no Michigan, que no ano passado tornou mais difícil a construção de novas instalações solares em terrenos rurais, invocando preocupações com a poluição sonora, a «poluição visual» e o risco de resíduos tóxicos. Esta decisão baseou-se em memorandos do responsável pela saúde do condado, sugerindo que estas questões representavam «uma ameaça injustificada à saúde pública».

O ruído, a desarmonia paisagística e os resíduos tóxicos são apenas algumas das preocupações relacionadas com a saúde citadas nos últimos anos no Michigan, em Ohio e noutros locais para bloquear ou retardar o desenvolvimento da energia solar. Segue-se uma lista um pouco mais extensa, embora ainda parcial. Muitas destas preocupações são compreensíveis. Todas elas são facilmente refutáveis.

Mito: Os parques solares são demasiado ruidosos.
Realidade: Os parques solares produzem ruído, mas não o suficiente para causar danos físicos ou mentais às pessoas. Os inversores que convertem a eletricidade de corrente contínua em corrente alternada para a rede elétrica geram até 70 decibéis (ajustados à sensibilidade auditiva humana, ou dBA), de acordo com a empresa de energia solar comunitária do Colorado, PureSky Energy. Isso equivale aproximadamente ao ruído de um aparelho de ar condicionado de janela. Os sistemas de armazenamento em baterias e os transformadores produzem níveis de ruído semelhantes. Mas, a cerca de 30 metros de distância deste equipamento, os seus sons desaparecem no fundo. Um parque solar rural pode gerar 30 dBA, de acordo com o engenheiro de controlo de ruído Michael Bahtiarian, da empresa de consultoria Acentech. Isso equivale aproximadamente ao volume de um sussurro. Um trator, por sua vez, pode atingir 100 dBA ou mais.

Mito: Os parques solares são demasiado feios.
Realidade: A fealdade é subjetiva, mas é verdade. Não são bonitos. Podem até ser suficientemente feios para prejudicar a saúde mental das pessoas. Isto resolve-se facilmente instalando-os em locais remotos e rodeando-os de vegetação, o que também pode ajudar a dissipar quaisquer preocupações remanescentes em relação ao ruído. Um posicionamento adequado e o paisagismo também podem eliminar qualquer reflexo dos painéis que possa afetar os pilotos locais.

Mito: Os painéis solares libertam substâncias tóxicas.
Realidade: As quantidades de elementos perigosos, como o chumbo e o cádmio, nos painéis solares são mínimas e estão encapsuladas no vidro temperado dos painéis. O cádmio presente nos painéis é, normalmente, de um tipo cuja toxicidade é 1/100 da do cádmio comum, de acordo com um estudo da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia, de 2024. Os painéis são construídos para resistir ao sol, à neve, à chuva, ao granizo e a outras agressões naturais, o que significa que não se desintegram em pedaços. Além disso, não ardem facilmente e, caso ardam, os seus elementos ficam retidos no vidro fundido.

Mito: Os campos eletromagnéticos (CEM) dos parques solares causam doenças nas pessoas.
Realidade: Se ficar ao lado de um inversor, estará exposto aos mesmos CEM que um abre-latas elétrico, observa o estudo da Universidade de Columbia. Se se afastar cerca de 2,7 metros, esses CEM descem quase a zero. A exposição é muito maior quando se está perto do frigorífico ou do micro-ondas.

Mito: É muito difícil desativar e limpar os parques solares.
Realidade: Atualmente, a maioria dos painéis solares é reciclada. Além disso, os promotores são normalmente responsáveis pela limpeza dos antigos parques solares, uma obrigação frequentemente garantida por uma caução. A quantidade de resíduos de painéis solares é insignificante quando comparada, por exemplo, com os resíduos altamente tóxicos das cinzas de carvão, como observa um estudo de 2023 realizado por Heather Mirletz, investigadora do Laboratório Nacional de Energia Renovável.

A energia solar não é desperdiçada

Os resíduos dos painéis solares são, e provavelmente continuarão a ser, mínimos, especialmente quando comparados com as cinzas tóxicas do carvão, os resíduos eletrónicos e outros detritos

Na verdade, não se pode falar dos impactos da energia solar na saúde e no ambiente sem os comparar com as alternativas. As cinzas volantes resultantes da queima de carvão liberam muito mais chumbo, cádmio e outros materiais no solo, prejudicando a saúde humana e a agricultura. Os cerca de 2 milhões de poços de petróleo e gás desativados e não utilizados nos EUA bombeiam petróleo e outras toxinas para o solo e a água e emitem metano, que contribui para o aquecimento global, como observou uma investigação separada da ProPublica em 2024.

Entretanto, a queima de combustíveis fósseis está a aquecer o planeta, aumentando os riscos de secas, incêndios florestais, doenças e outros problemas que custarão milhões de vidas e biliões de dólares em perda de produtividade económica, se não mudarmos de rumo rapidamente.

O cérebro humano está programado para confiar no que lhe é familiar e desconfiar do que é novo. Isso não torna as pessoas ignorantes, mas torna-as vulneráveis ao alarmismo promovido pelos interesses dos combustíveis fósseis, que muitas vezes estão por trás da resistência aparentemente «popular» a tecnologias relativamente novas, como a energia solar e eólica. Nesses casos, uma maior familiaridade deveria suscitar admiração, e não desprezo.

ESPINHO PERDE BANDEIRAS AZUIS

Foto: Ambiente Ondas3

Em 2026, apenas a praia da Seca, a praia da rua 37 e a praia de Paramos foram galardoadas com bandeira azul. Ficam de fora a praia da Baía, a Frente Azul , no centro de Espinho, e Pau da Manobra, em Silvalde. Fonte.

Em maio de 2025, Espinho perdia bandeiras azuis na Frente Azul, Seca e Pau da Manobra.

Em julho de 2024, as praias Frente Azul e Seca foram temporariamente desaconselhadas para banhos devido à deteção de níveis elevados de coliformes fecais, nomeadamente a bactéria Escherichia coli (E.coli), na água. A contaminação foi atribuída a uma avaria numa das bombas de uma estação elevatória. Na altura, fonte digna de crédito admitia a existência de, pelo menos, 6 estações elevatórias inoperacionais há mais de 3 anos e que avarias em estações elevatórias tinham sido responsáveis pela interdição a banhos em algumas praias de Espinho. Por exemplo, a estação elevatória da rua 13, entre a Piscina Solário Atlântico e o Hotel PraiaGolfe, teria sido responsável pela descarga de esgoto bruto na Praia da Baía. Não seria por acaso que, nessa altura, os esgotos da Piscina Solário Atlântico eram regularmente aspirados por camião especial.

Foto: Ambiente Ondas3

Várias vezes, os problemas das estações elevatórias de Espinho, crónicos de há mais de 10 anos, foram levados ao conhecimento das autoridades competentes. E, como não se verificou qualquer tipo de melhoria, o assunto voltou a ser abordado na Assembleia Municipal de janeiro de 2025, tendo sido aprovada por unanimidade uma recomendação no sentido de o executivo camarário tomar as devidas medidas para que as estações elevatórias com avarias ou inoperacionais fossem reparadas urgentemente, de modo a garantir a sua operacionalidade a 100%, como aliás mandam as boas práticas de uma boa gestão municipal. Na altura, não funcionavam as seguintes estações elevatórias: Rua do Lameirão, Rua dos Moinhos e Rua Souto de Baixo, no lugar da Idanha, Freguesia de Anta; Rua do Gavião, Freguesia de Anta, Rua 13 (Entre o Hotel Praia Golfe e a Piscina Solário do Atlântico), Freguesia de Espinho, Rua 45, freguesia de Silvalde, e Rua Senhora da Guia, Freguesia de Paramos.

Convenhamos que esta situação é sintoma de um desnorte crónico de executivos camarários que têm priorizado ajustes diretos para pagamento de eventos efémeros, em desfavor do investimento na manutenção das infraestruturas e do património construído e na preservação do património natural.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

PTRR – 9 ANOS PARA COMBATER ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, FALHAS DE ENERGIA E CIBERATAQUES

Passageiros esperam no exterior de um terminal do Aeroporto de Lisboa durante um corte de energia, em Lisboa, Portugal, 
a 28 de abril de 2025. REUTERS/Pedro Nunes.

O Governo de Luís Montenegro 'anunciou' um programa de investimento de 22,6 mil milhões de euros a ser implementado ao longo de nove anos, com o objetivo de mitigar riscos como as alterações climáticas e as falhas de energia. A iniciativa, denominada «Transformação, Recuperação e Resiliência de Portugal», visa reforçar as infraestruturas, as instituições, as habitações e as empresas contra ameaças relacionadas com as alterações climáticas, a segurança energética, a atividade sísmica e os ciberataques. Será financiada em 37 % pelo orçamento do Estado, representando o financiamento privado 34 % do total e os fundos europeus cobrirão 19 %. O plano foi lançado na sequência das fortes tempestades que atingiram a região central do continente português em janeiro e fevereiro, causando prejuízos estimados em 5,3 mil milhões de euros, e de uma falha de energia devastadora em Espanha e Portugal há exatamente um ano. Fonte.

"A operação foi de propaganda primária (...). Montenegro apresentou como novidade aquilo que já fora anunciado tantas vezes desde os efeitos das tempestades de há dois meses. Prometeu apoios, proclamou investimentos, garantiu transformações. Tudo muito bonito em powerpoint, tudo muito convincente em slides bem desenhados, tudo muito impressionante em gráficos coloridos. E tudo completamente desligado da realidade que as pessoas vivem. Porque na realidade (...) não há nenhuns apoios efetivos às pessoas e às empresas para reerguerem as suas vidas. Os que perderam casas continuam sem saber como as reconstruir. Os que viram negócios destruídos continuam sem apoio concreto. Os que ficaram sem nada continuam com nada. E as seguradoras fazem aquilo que muito bem sabem: rápidas a cobrarem os prémios dos seguros, especialistas em encontrar cláusulas que lhes permitem escusar-se a indemnizar os clientes quando estes se veem sinistrados (...). Mas o cúmulo da desfaçatez — aquilo que transformou conferência de imprensa em farsa inqualificável — foi Montenegro recusar-se a responder a qualquer pergunta dos jornalistas. (...) Chamou os ministros. E ali, perante jornalistas atónitos e uma nação que assistia incrédula, obrigou-os a cantar em coro o hino nacional. Coisa nunca vista. Nunca. Em décadas de democracia portuguesa, em centenas de conferências de imprensa, em milhares de momentos de comunicação governamental — nunca se tinha visto tamanha instrumentalização patética de um símbolo nacional para fugir a perguntas incómodas. É a expressão de um nacionalismo serôdio que, como bem se sabe desde Samuel Johnson, costuma ser o último refúgio dos canalhas. Quando não tens argumentos, agitas a bandeira. Quando não tens respostas, cantas o hino. Quando não tens competência para governar, escondes-te atrás de símbolos pátrios como se isso compensasse a tua mediocridade. (...) quando um primeiro-ministro precisa de transformar conferência de imprensa em número de circo, quando tem de obrigar ministros a cantar o hino para evitar responder a jornalistas, quando substitui prestação de contas por teatralização patriótica — é porque já não tem nada de substancial para dizer. É patético. Mas é também perigoso. Porque este tipo de nacionalismo performativo — esse que substitui governação por símbolos, que troca políticas por folclore, que esconde incompetência atrás de pátria — é o mesmo que historicamente sempre antecedeu derivas autoritárias Não que Montenegro seja fascista. Não é. É apenas incompetente e desesperado. Mas a incompetência desesperada que recorre a nacionalismo barato para se legitimar cria condições para que verdadeiros autoritários — esses sim, como Ventura — se apresentem como alternativa credível. (...) aquilo não foi conferência de imprensa de um Governo que governa. Foi o canto do cisne de quem já sabe que está a afundar-se e tenta disfarçar o naufrágio com hinos e bandeiras. Não resultará. Nunca resulta. Mas pelo menos ficará registado para a História: o dia em que um primeiro-ministro português, incapaz de responder a jornalistas, transformou uma conferência de imprensa em sessão de karaoke patriótico."  Jorge Rocha, Ventos semeados.

REINO UNIDO: TECNOLOGIA VERDE CHINESA É PERIGOSA PARA A SEGURANÇA NACIONAL?

  • Um relatório britânico, encomendado pela Loom, alerta que a dependência da tecnologia verde chinesa está a tornar os países europeus vulneráveis a riscos de segurança nacional, incluindo ciberataques, restrições comerciais e espionagem. O relatório identificou oito riscos associados a uma dependência excessiva da tecnologia verde chinesa. Entre os principais riscos destaca-se a perturbação da cadeia de abastecimtransento, uma vez que a China poderia restringir o fornecimento de tecnologia e componentes de baixo carbono. Um risco subestimado era o de os EUA poderem exigir que a Europa retirasse a tecnologia chinesa dos seus sistemas energéticos — ou enfrentasse tarifas, sanções ou compromissos de segurança reduzidos. Recorde-se que o Reino Unido, após intensa pressão dos EUA, proibiu a Huawei de fornecer equipamento para as redes de telemóveis 5G britânicas. Outro risco inclui um ataque disruptivo em grande escala que poderia utilizar os chamados «kill switches» para desativar remotamente painéis solares, turbinas eólicas e outras tecnologias. Recorde-se que em 2023, o Centro Nacional de Cibersegurança aconselhou a National Grid do Reino Unido a remover componentes fornecidos por uma empresa apoiada pelo Estado chinês da rede de transmissão de eletricidade britânica devido a receios de cibersegurança. Em março passado, o Reino Unido rejeitou os planos para a construção de uma fábrica chinesa de turbinas eólicas na Escócia por motivos de segurança nacional. Um leilão italiano realizado em 2025 exigiu que os módulos e inversores para novos projetos solares fossem de origem não chinesa. As autoridades chinesas rejeitam as preocupações relativas à dependência da tecnologia verde do seu país, afirmando que Pequim não tem qualquer intenção de a utilizar para obter vantagens políticas e que as turbinas, os painéis solares e outros produtos de energia renovável a preços acessíveis reduzem o risco muito maior decorrente das elevadas emissões de carbono. Fonte.
  • Não há dinheiro para o comboio, mas para o avião, a história é outra. No final de 2025, o governo francês eliminou os comboios noturnos Paris-Viena sob o pretexto de «fazer poupanças». Mas, alguns meses depois, decidiu subsidiar a nova linha aérea entre Estrasburgo e Munique, inaugurada no início de abril. No entanto, estas duas cidades estavam bem ligadas pelo comboio noturno Paris-Viena. Fonte.
  • Desastre ambiental no Mar Negro após ataques ucranianos à refinaria de Tuapse. Fonte.
  • Na Carolina do Norte, dezenas de casas foram engolidas pelo mar. Algumas das casas que sobreviveram estão agora a ser transportadas sobre rodas. Fonte.

REFLEXÃO

EMIRATOS REALIZAM 300 SEMEADURAS DE NUVENS POR ANO
Ines Eisele, Cai Nebe, Emad Hassan, Alima de Graaf e Ardit Toca, Deutsche Welle
Trad. O’Lima.

Um piloto e um responsável dos Emirados Árabes Unidos verificam os foguetes de sal numa aeronave de semeadura de nuvens no aeroporto de Al-Ain, em 2015. Os Emirados Árabes Unidos realizam cerca de 300 missões de semeadura de nuvens por ano para combater a escassez de água. Imagem: Marwan Naamani/AFP

(...) Os Emirados Árabes Unidos têm um centro denominado Programa de Investigação para a Ciência do Aumento da Precipitação (UAEREP). (...)

O UAEREP existe desde 1990 e «está na vanguarda do avanço da investigação sobre o aumento da precipitação e da promoção de inovações que reforçam a segurança hídrica global».

Ambos financiam investigação em todo o mundo e conduzem as suas próprias operações de semeadura de nuvens.

«Estou muito familiarizado com isso», disse Armin Sorooshian, um investigador da Universidade do Arizona que estuda os efeitos das partículas de aerossóis nas nuvens. «Para quem estuda física atmosférica e interações entre aerossóis e nuvens, esta é uma oportunidade de financiamento que existe há muitos anos, na qual as pessoas apresentam propostas a este programa.»

O que é a sementeira de nuvens?

Esta tecnologia remonta a meados do século XX e é conhecida como sementeira de nuvens. Os cientistas descobriram uma técnica para estimular a chuva a partir de nuvens que já se encontram prestes a precipitar. Para tal, lançam agentes como o iodeto de prata ou o cloreto de sódio nas nuvens, utilizando aviões ou lançadores terrestres.

«O ponto-chave aqui é que isto não faz chover do nada», explicou Edward Gryspeerdt, professor de física atmosférica no Imperial College London. «Não se pode ter um céu limpo, semeá-lo de repente e ver aparecerem nuvens e chuva. É preciso que essas nuvens já estejam prestes a chover, e o que se faz é, de certa forma, empurrá-las para além desse ponto.»

Como as nuvens já têm de estar propensas à precipitação, pode ser difícil medir a eficácia da técnica. É normalmente utilizada em ambientes de pequena escala, como para aumentar a camada de neve numa pista de esqui, explicou Gryspeerdt. Nos Emirados Árabes Unidos, o objetivo é combater o stress hídrico.

Frame de video da DW.

Capacidade de semeadura de nuvens «em escala muito reduzida»

Até à data, as tecnologias de semeadura de nuvens não conseguem influenciar os padrões meteorológicos em toda uma região.

«Mesmo que funcionassem, continuariam a ser aplicadas numa escala muito reduzida», afirmou Gryspeerdt. «Não atingem uma escala que lhes permita alterar os padrões de fluxo atmosférico, por exemplo, e desviar a chuva para o outro lado do planeta.»

A literatura científica atual sugere que a semeadura de nuvens pode aumentar a precipitação em 5-20% numa microescala.

«Talvez essa precipitação possa durar mais tempo e cair noutro local, mas a escala de que estamos a falar (…) é muito maior do que aquilo que pode ser alcançado com uma instalação de semeadura», afirmou o investigador Armin Sorooshian.

BICO CALADO

O que vi hoje...
  • Ex-chefe do Mossad compara a violência dos colonos israelitas na Cisjordânia à dos nazis durante o Holocausto. «O que vi hoje fez-me sentir envergonhado de ser judeu», afirmou Tamir Pardo após visitar a Cisjordânia ocupada. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A PALANTIR JÁ NÃO VENDE APENAS «SOFTWARE»: VENDE UMA TEORIA TECNOFASCISTA DE GOVERNAÇÃO GLOBAL
Guillem Pujol, La Marea. Trad. O’Lima.

Peter Thiel, presidente da Palantir Technologies. Foto: GAGE SKIDMORE / CC BY-SA 2.0

O manifesto de 22 pontos divulgado pela Palantir representa uma exposição resumida de um programa histórico em que a guerra, a gestão algorítmica das populações e a aliança entre as grandes empresas tecnológicas e o Estado surgem como um horizonte desejável. E convém interpretá-lo assim, porque a Palantir já obtém 54% das suas receitas de clientes governamentais e transformou essa proximidade com o aparelho estatal no cerne do seu modelo de negócio.

Mas vamos por partes. Durante anos, grande parte do discurso dominante sobre Silicon Valley assentou numa fábula infantil de inovação, disrupção e criatividade individual. A garagem, o fundador visionário, a aplicação que melhora a vida quotidiana, a tecnologia entendida como uma extensão amigável do consumo e outras narrativas ilusórias que constituíam o imaginário do self-made man e que serviam para justificar, basicamente, que uns ganhassem muito e outros muito pouco.

O breve catecismo agora publicado pela Palantir tem o mérito de quebrar esse cenário. Fá-lo de forma brutal e, por isso mesmo, reveladora. Enquanto outras empresas ainda envolvem o seu poder na linguagem aséptica da eficiência, a Palantir optou por enunciar a sua ambição sem muitos rodeios.

O Vale do Silício, afirma ele, tem uma «obrigação positiva» de participar na defesa da nação. Segundo a sua perspetiva tecnofascista, o mundo caminha para um futuro apocalíptico em que os Estados já não têm capacidade para defender as suas populações; consequentemente, o papel que o setor privado deve desempenhar para garantir a «segurança» das «democracias» apresenta-se como algo inevitável. O mundo pós-Segunda Guerra Mundial acreditou na ilusão ingénua do multiculturalismo e da paz mundial, provocando um «ewnfraquecimento» da ordem ocidental do pós-guerra.

A primeira tentação consiste em ler esse texto como mais uma provocação do ecossistema Thiel-Karp, um artifício concebido para escandalizar a opinião pública liberal e ganhar protagonismo na discussão. Essa leitura capta uma parte do fenómeno, mas fica aquém: o manifesto importa menos pela sua estridência do que pela sua função. A Palantir não procura simplesmente descrever a sua cosmovisão, mas normalizar uma nova relação entre capital tecnológico, soberania e violência. Procura tornar senso comum a ideia de que o futuro das democracias depende de uma integração cada vez mais orgânica entre infraestruturas digitais, defesa, inteligência e vigilância.

O que é a Palantir: do Vale do Silício ao complexo técnico-militar

A Palantir é uma empresa fundada com o apoio inicial da In-Q-Tel, o fundo ligado à CIA, e hoje profundamente envolvida em contratos militares, policiais, migratórios e de saúde. O antigo complexo militar-industrial de inteligência, após o golpe na sua credibilidade que representou o atentado de 11 de setembro, lançou-se aos braços do setor privado.

Novos lóbis e laboratórios de ideias juntaram-se então ao complexo industrial-militar, o monstro que corrói por dentro a «democracia mais antiga do mundo» e que o presidente Eisenhower já em 1957, no seu discurso de despedida, qualificou como «o principal inimigo» dos EUA.

Ao contrário dos fornecedores tradicionais, a Palantir não se limita a fornecer ferramentas. As suas plataformas — Gotham, Foundry, Apollo — não só integram dados, como os reorganizam segundo uma lógica operacional que traduz a complexidade social em padrões passíveis de ação. O mundo surge como uma superfície legível, passível de intervenção em tempo real. Algo que é muito bem descrito no livro coordenado por Júlia Nueno, Genocídios. Uma leitura forense (Galaxia Gutenberg, 2025).

Esta mudança tem implicações profundas: onde antes havia conflito, interpretação ou disputa, surge uma arquitetura de decisão baseada em correlações, probabilidades e alertas automatizados. A política reconfigura-se como gestão de riscos. O governo como otimização contínua. E nesse processo, quem concebe a infraestrutura não só executa decisões, como delimita de antemão o que pode ser visto, pensado e decidido.

A doutrina Palantir

A primeira consiste numa redefinição do papel da tecnologia. A Palantir rejeita explicitamente a tendência consumista de Silicon Valley e defende um regresso à «missão»: identifica-se sem ambiguidades com a defesa nacional, com a capacidade de exercer poder e com a produção de superioridade estratégica. A tecnologia deixa de ser um espaço de inovação aberta para se tornar infraestrutura de soberania.

A segunda operação é mais subtil. Consiste numa releitura da ordem internacional pós-1945. Aí onde o consenso liberal tinha situado valores como a cooperação, o multilateralismo ou os direitos humanos, o manifesto introduz uma narrativa de decadência. O problema já não seria o excesso de poder, mas sim a sua ausência. O «enfraquecimento» do Ocidente surge como uma anomalia histórica que deve ser corrigida. Desta forma, a militarização não se apresenta como uma ruptura, mas sim como uma restauração.

A terceira operação é talvez a mais relevante. Trata-se de uma naturalização da integração entre o Estado e as empresas tecnológicas. O manifesto não discute se essa aliança deve existir, mas parte do princípio de que sim: Silicon Valley não só pode colaborar com o aparelho de segurança, como deve fazê-lo. Trata-se de um imperativo moral em que a externalização de funções estratégicas deixa de ser um problema democrático para se tornar um imperativo político.

Nesta lógica, e lido no seu conjunto, o texto não propõe simplesmente uma agenda, mas sim uma mudança de paradigma: a democracia deixa de ser concebida em termos de deliberação, conflito ou representação, e passa a ser entendida como capacidade de antecipação, cálculo e implementação técnica. Não se trata apenas de governar melhor, mas sim de governar a partir de outro lugar. O seu, nem mais nem menos.

Contribuição da Palantir para o genocídio em Gaza

Nos últimos anos, a Palantir reforçou a sua colaboração com o aparelho militar e de inteligência de Israel, oferecendo capacidades de análise de dados, integração de fontes e modelização de alvos em contextos de guerra. No âmbito da ofensiva sobre Gaza, vários relatórios e denúncias de organizações de direitos humanos têm apontado que sistemas deste tipo participam na seleção e priorização de alvos.

É aqui que o manifesto deixa de ser um texto ideológico para se tornar uma chave de leitura concreta. O apelo ao hard power, a defesa da superioridade tecnológica como condição da democracia e a naturalização do uso da inteligência artificial em contextos bélicos encontram uma tradução direta em práticas concretas.

Falar de «crimes de guerra» neste contexto não se refere apenas à ação direta de um Estado, mas à configuração de um ecossistema técnico que facilita, acelera e legitima determinadas formas de violência. A automatização parcial da seleção de alvos, o alargamento do raio de danos aceitáveis sob parâmetros probabilísticos e a opacidade dos sistemas utilizados introduzem uma camada adicional de irresponsabilidade distribuída. A aliança da Palantir com Israel deve ser interpretada neste contexto: não como mais um contrato na sua carteira, mas como uma articulação estratégica entre a empresa e o Estado num cenário em que a guerra funciona como laboratório. E o manifesto publicado procura simplesmente preparar o terreno cultural para aceitar como inevitáveis processos que já estão a ocorrer.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

ESPANHA: ELÉTRICAS E PP PROPAGAM NOTÍCIAS FALSAS CULPANDO AS RENOVÁVEIS PELO APAGÃO


A Greenpeace denunciou quatro notícias falsas que estão sendo propagadas por empresas elétricas e pelo Partido Popular (PP), com o objetivo de culpar as energias renováveis pelo apagão e justificar a manutenção de centrais nucleares e de gás:

1: “Havia energia renovável em excesso”
Realidade: O apagão foi causado por falhas no controle de tensão atribuíveis a centrais de gás e nucleares (que não forneceram os serviços de segurança pelos quais foram pagas). Países com maior participação renovável (Alemanha, Grécia) não sofreram apagão.

2: “Não podemos prescindir da energia nuclear para evitar novos apagões”
Realidade: A nuclear foi um peso durante a crise. Mais de metade do parque nuclear estava operacional, mas não ajudou a estabilizar o sistema (inclusive há processos contra centrais como Almaraz, Ascó e Vandellós II). Além disso, centrais nucleares são lentas para religar (levam dias), ao contrário de outras tecnologias.

3: “Sem gás não podemos viver”
Realidade: Embora as cantrais de gás tenham ajudado na recuperação pós-apagão, 16 centrais de gás também falharam em controlar a tensão para evitar o colapso (e estão sendo sancionadas).

4: “Só com renováveis não podemos funcionar”
Realidade: Um estudo da Greenpeace (Energia para viver melhor) conclui que Espanha e Portugal podem abandonar completamente os combustíveis fósseis e a energia nuclear até 2040, com redução de 39% da procura energética total e abastecimento 100% renovável (eólica, solar, hidráulica, armazenamento e gestão da procura).

A Greenpeace sugere a aplicação de um imposto específico sobre as grandes empresas elétricas (que aumentaram lucros pós-apagão) para financiar o combate à pobreza energética e uma transição energética justa.

DENGUE: MOSQUITO DETETADO EM 28 CONCELHOS

  • O mosquito Aedes albopictus, transmissor de doenças como dengue, chikungunya, febre-amarela e Zika, foi detetado em 2025 em 28 concelhos de Portugal, informa o mais recente Relatório REVIVE, divulgado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que confirma a expansão da espécie no território nacional. O número representa um aumento face a 2024, quando a espécie invasora estava identificada em 18 concelhos, refletindo uma tendência de crescimento contínuo da sua presença em Portugal. Fonte.
  • Cientistas britânicos da Universidade de Manchester estão a investigar uma técnica de geoengenharia denominada «clareamento de nuvens marinhas». Pretendem lançar uma névoa fina de água salgada a grande altura no céu para tornar as nuvens mais claras, de modo a que estas reflitam mais luz solar de volta para o espaço e ajudem a arrefecer o planeta. O projeto REFLECT é financiado pela Agência de Investigação Avançada e Inovação (ARIA) do Reino Unido, que atribuiu 57 milhões de libras a 22 projetos de geoengenharia. Os investigadores e a ARIA salientam que a descarbonização continua a ser a única solução sustentável para a crise climática e que esta investigação apenas tem como objetivo criar uma base de dados objetivos que sirva de suporte para a tomada de decisões seguras. Tudo isto porque há empresas privadas, apoiadas por capital de risco, que já estão a entrar neste setor sem qualquer quadro regulamentar, o que cria uma necessidade urgente de investigação independente financiada com fundos públicos. Quaisquer ensaios futuros exigirão avaliações de segurança independentes e uma conceção conjunta com a comunidade. Ainda não foi escolhido nenhum local, e as experiências ao ar livre não terão lugar antes de 2028. Fonte.
  • A administração Trump anunciou mais dois pagamentos a empresas do setor energético para que abandonem projetos eólicos offshore em desenvolvimento nos EUA. A Bluepoint Wind e a Golden State Wind concordaram em rescindir os seus contratos de arrendamento eólico offshore em troca de reembolsos que totalizam quase 900 milhões de dólares. Fonte.
  • O ministro do Ambiente do Líbano acusou as forças armadas de Israel de cometerem «um ato de ecocídio» no prefácio de um relatório que detalha os danos causados aos recursos naturais do país durante a invasão de 2023 a 2024.
  • A tribo Stillaguamish, a norte de Seattle, está a devolver terras agrícolas ao mar para salvar o salmão e ajudar a proteger contra inundações uma comunidade que tem enfrentado dificuldades devido à subida do nível do mar causado pelas alterações climáticas. Fonte.

BICO CALADO

DINNER FOR ONE by Marian Kamensky, Courtesy CagleCartoons.com
  • Trump aproveita o tiroteio no Jantar dos Correspondentes para justificar o alargamento dos poderes de vigilância à medida que o prazo se aproxima. Julia Conley, Common Dreams.
  • O governo do Reino Unido anunciou planos para alargar a utilização do reconhecimento facial em tempo real (LFR) a todo o país, na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal que confirmou a legalidade da utilização do sistema pela Polícia Metropolitana. A ministra da Polícia, Sarah Jones, saudou a decisão, afirmando: «Os cidadãos cumpridores da lei não têm nada a temer.» Pior ainda, classificou quem se opõe à tecnologia como «incivilizado» e insinuou que essas pessoas estão do lado de assassinos e violadores. Aparentemente, é errado querer privacidade. (…) Os agentes da polícia estão a arrastar pessoas da rua e a exigir os seus dados se estas se recusarem a ter o rosto digitalizado. Apenas um pequeno número de verdadeiros criminosos está a ser apanhado, com um julgamento a resultar em zero detenções, mas a vigilância em massa está a ser vendida como o «maior avanço desde o ADN» para apanhar criminosos violentos. A solução deles para o crime é fazer com que o seu rosto se torne o seu cartão de identificação. CEM, Substack.
  • Peter Magyar derrotou Victor Orban nas eleições realizadas na Hungria no início desta semana, o que provocou uma onda de júbilo por parte dos meios de comunicação liberais e da classe política. Muitos seguiram a linha de Obama, saudando o resultado como uma vitória para a democracia e o Estado de direito. De facto, Magyar está tão empenhado no Estado de direito que convidou Netanyahu para visitar a Hungria em outubro. Nate Bear, Numa Época de Monstros, Os Piores HeróisSubstack.
  • A gigante tecnológica americana responsável pelo software de declaração de impostos mais popular dos EUA permite que os seus funcionários usem os uniformes das Forças de Defesa de Israel no trabalho e também lhes concede licenças de vários meses para combater nas guerras de Israel. No mês passado, Tom Yacobi, analista de dados da gigante de tecnologia financeira Intuit — cujos produtos incluem o TurboTax, um programa de declaração de impostos amplamente utilizado —, participou numa videoconferência da empresa no Zoom, com todos os funcionários, vestindo o uniforme completo das Forças de Defesa de Israel. Nate Bear, Substack.
  • Paris vai quase duplicar o imposto sobre os apartamentos devolutos em 2027. O imposto sobre o valor cadastral de arrendamento passará de 17 % para 30 % durante o primeiro ano de desocupação de um imóvel. Uma percentagem que subirá até 60 % após dois anos de desocupação. Fonte.
  • A BP duplicou os seus lucros para 3,2 mil milhões de dólares. Fonte.
  • O Reino Unido foi apontado como o maior violador do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares no «Nuclear Weapons Ban Monitor 2026», um relatório elaborado pela Norwegian People’s Aid (NPA). Esta classificação deve-se, em parte, ao facto de o Reino Unido possuir as suas próprias armas nucleares, bem como ao facto de se entender que começou a acolher armas nucleares dos EUA de Trump. Fonte.
  • O endurecimento do embargo de 65 anos imposto pelos EUA a Cuba pelo presidente Donald Trump ao longo dos seus dois mandatos é provavelmente a principal causa de um aumento sem precedentes da taxa de mortalidade infantil em Cuba, que disparou 148 % entre 2018 e 2025, conclui um relatório do Centro de Investigação Económica e Políticasediado em Washington, DC.