Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

terça-feira, 28 de julho de 2026

MATOSINHOS: PRAIA DE ANGEIRAS SUL DESACONSELHADA PARA BANHOS

  • A Agência Portuguesa do Ambiente desaconselha a ida a banhos na praia de Angeiras Sul, em Matosinhos, no distrito do Porto, devido a contaminação microbiológica. Fonte.
  • A Quercus alertou que a localização do novo aeroporto de Lisboa coloca em risco o maior aquífero da Península Ibérica e o abastecimento de água ao distrito de Setúbal e reforçou a necessidade de uma avaliação ambiental rigorosa. Fonte.
  • Na Rua de S. José, em Riachos, Torres Novas, um estabelecimento que fuesgnciona como lar de idosos descarrega águas residuais na rede de pluviais. O abuso persiste, apesar de o executivo camarário ter sido alertado por um morador que se considera lesado. Fonte.

CAMBOJA: BLOCOS ANTI-ARRASTO REVITALIZAM RECIFE


  • No arquipélago de Koh Sdach, no Golfo da Tailândia, no Camboja, uma iniciativa liderada pelo governo e por uma ONG, visa pôr fim à pesca ilegal com redes de arrasto e revitalizar o recife através da colocação de grandes blocos de betão no fundo do mar. Fonte.
  • A Alemanha está a introduzir restrições ao consumo de água, uma vez que a seca prolongada e as ondas de calor recorrentes estão a exercer pressão sobre os recursos hídricos. Cerca de 80 municípios impuseram limites a atividades como encher piscinas, regar jardins e lavar carros. Fonte.
  • Sem selfies, sem telemóveis: por que razão os destinos de vida selvagem estão a começar a dizer «não» aos turistas. Fonte.

REFLEXÃO

TERCEIRA: CONTAMINAÇÃO DOS SOLOS PERSISTE NA BASE DAS LAJES, CONFIRMA RELATÓRIO DO LNEC
Nuno Martins Neves, Açoriano Oriental, 24 julho 2026


Segundo o mais recente relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, a contaminação dos solos da base usada pelos EUA obrigou à remoção de solos contaminados, extração de hidrocarbonetos e fecho de piezómetros mal construídos, que podiam constituir fonte de passagem de contaminantes

A mais recente campanha de monitorização levada a cabo pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil revelou que continuam a ser removidos solos contaminados da Base das Lajes, de acordo com a resposta do Governo Regional dos Açores ao requerimento apresentado pela representação parlamentar do Bloco de Esquerda Açores, intitulado "Contaminação ambiental persistente na Base das Lajes, responsabilização dos Estados Unidos da América ao abrigo do acordo de cooperação e defesa, e nova evidência de exposição humana a metais pesados".
No documento, o executivo regional detalha o relatório do LNEC, datado de 2025 e que foi apresentado na Comissão Técnica e Comissão Bilateral Permanente, a 20 de março corrente.
Nele, o LNEC informa que, no Main Gate, foram drenados e inertizados 1100 metros de pipelines inativos, com 600 metros de pipelines selados e 500 metros removidos. Foram ainda removidos cerca de 70 metros cúbicos de solos contaminados ao redor dos pipelines e extraídos cerca de 277 litros de hidrocarbonetos sobrenadantes em cinco piezómetro [n.d.r. um instrumento utilizado na
engenharia geotécnica e geologia para medir a pressão da água em solos e rochas, bem como o nível dos lençóis freáticos ]. Foram inspecionados 61 piezómetros, dos quais 11 foram fechados por má construção "podendo constituir fonte de passagem de contaminantes"; 26 foram reparados; e foram construídos três novos no aquífero basal.
No South Tank Farm, em 2025 não foram efetuadas intervenções, com o relatório a assinalar, porém, a remoção de dois grandes tanques de armazenamento e dos solos envolventes, em 2023. O LNEC recomendou a continuidade das operações de remoção de hidrocarbonetos líquidos acumulados no subsolo e a manutenção da monitorização apesar de "os resultados obtidos na área intervencionada apresentarem valores inferiores aos níveis de referência para contaminação".
No Cinder Pit, das três zonas que compõem o local, foi na Zona 2 que as análises confirmaram, em 2024, a persistência de contaminação de solos por contaminantes orgânicos "acima dos valores de referência". O que leva o LNEC a recomendar a "necessidade de promover ações destinadas à sua
reabilitação".
A resposta ao requerimento também confirma que, entre 2020 e 2021,o Governo dos EUA não
reconheceu o "impacto substancial para a segurança e saúde humana" da contaminação dos solos, razão pela qual não entendeu não se justificar qualquer intervenção.
Uma posição que o Governo Regional dos Açores diz ter sido contra desde o primeiro momento, defendendo a necessidade de se manter as ações de monitorização, mitigação e reabilitação ambiental, postura defendida "de forma clara e persistente" quer na Comissão Técnica, quer na Comissão Bilateral Permanente, quer também junto do Governo da República.
Os EUA reverteram a sua posição no final de 2022, atribuindo a resposta à atuação "perseverante" do Vice-presidente do governo açoriano.
Os trabalhos de descontaminação e reabilitação ambiental foram retomadas, apesar do Governo Regional entender que não correspondem "plenamente as expectativas" do executivo. Ainda assim, foram efetuados avanços, ao serem reclassificados locais anteriormente como contaminados.
Sobre se o Governo Regional vai ter em linha de conta a tese de doutoramento e o artigo cientifico que detectaram metais pesados em concentrações superiores em esqueletos de residentes da Praia da Vitória, o mesmo diz que acompanha a evolução da matéria científica nesta matéria, mas que as decisões e articulações entre os dois países deve continuar assente em "informação técnica e cientifica sólida, transparente e devidamente validada".
Questionado sobre se importa pedir aos EUA uma nova avaliação atualizada e independente, à luz da nova evidência científica, o Governo Regional não responde diretamente, afirmando apenas que "sempre que essa evidência justifique, o Governo Regional dos Açores continuará a defender a realização dos estudos e das avaliações científicas que se revelem necessários".

domingo, 26 de julho de 2026

BORBA: DETIDOS POR CAÇA DE OURIÇOS-CACHEIROS

Foto: Francisco Clamote. 
  • GNR de Borba detém 5 homens por caça ilegal a ouriços-cacheiros, uma espécie em declínio. Fonte.
  • Pela primeira vez em França, um projeto de centro de dados foi suspenso por via de medida cautelar pela justiça, no departamento de Drôme. Uma vitória provisória, devida à ausência de um estudo de impacto ambiental para este projeto, cujo custo está estimado em 1,5 mil milhões de euros. Fonte.
  • O Ministério do Ambiente da Alemanha aprovou um projeto franco-russo para a produção de barras de combustível utilizadas em reatores de conceção russa na cidade de Lingen, no noroeste da Alemanha. O projeto de joint venture entre uma subsidiária da francesa Framatome e da russa Rosatom suscitou receios de espionagem, mas as autoridades alemãs afirmaram que não tinham qualquer possibilidade legal de o rejeitar. Fonte.
  • Os apicultores e ambientalistas em França reagiram com indignação depois de o parlamento ter aprovado um projeto de lei que reautoriza a utilização de dois neonicotinóides para combater doenças que destroem as culturas mas que irá matar as abelhas e reduzir as colheitas. Fonte.

BICO CALADO


A propósito de ajuste direto de 120 mil euros da Câmara para sunset party em Espinho a cargo de empresa feita à pressa e sem currículo. Via Mário Ortigão.


A Câmara Municipal de Espinho atribuiu apoio de 60.000 euros à Paróquia de Nossa Senhora d'Ajuda de Espinho para realização de obras de beneficiação e requalificação da Capela de Nossa Senhora d'Ajuda, obra orçada em 390 mil euros. E, como se trata de obras que certamente vão exigir cimento preparado por betoneira, nada como um texto adequado de tipo betoneira como o fabricado pelo executivo camarário e copicolado na íntegra pelos media locais e adjacentes. Reparem no texto dedondinho onde perdemos a contagem do número de vezes em que certas palavras são repetidas.

Sobre este tema, convirá ler e apreciar este soneto.

LEITURAS MARGINAIS

SALAZAR NÃO MORREU POBRE: E ISSO NÃO É UM PORMENOR
Paulo Marques, baseado numa reportagem da revista Sábado.


«Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves, publicado na revista “Sábado” (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026), veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que “morreu pobre”.

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o quadro completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Convém, aliás, não perder de vista uma evidência que por vezes desaparece das discussões sobre a probidade pessoal de Salazar. O antigo presidente do Conselho permaneceu no poder durante trinta e seis anos, não porque fosse regularmente submetido ao veredicto de eleições livres e competitivas, mas porque dirigia um regime que controlava a vida política do país. Os partidos foram proibidos ou severamente condicionados, a União Nacional manteve o monopólio do apoio institucional ao regime, a censura limitava a liberdade de expressão e a polícia política vigiava, perseguia, prendia e, em alguns casos, esteve associada à morte de opositores. Tudo isto não serve para demonstrar que Salazar se tenha enriquecido ilicitamente. Serve apenas para recordar que a sua permanência no poder não resultou dos mecanismos normais de uma democracia liberal, mas dos instrumentos próprios de uma ditadura.

E convém lembrar que Salazar não governava sozinho nem pairava acima das fragilidades humanas que tantas vezes denunciava. Pelo contrário: rodeou-se durante décadas de uma constelação de homens cuja principal virtude era a obediência. Uns eram ambiciosos, outros bajuladores, alguns francamente comprometidos com interesses pouco recomendáveis. Salazar conhecia-os bem e sabia utilizá-los. Promovia-os, afastava-os, colocava-os em confronto ou fazia-os cair em desgraça conforme as necessidades do momento. Era um mestre da intriga, da insinuação e da pequena política de bastidores. Mantinha-se acima das fações precisamente porque estimulava a competição entre elas.

Ao mesmo tempo, apoiou-se nas grandes famílias económicas e financeiras do seu tempo, servindo-se delas e servindo-as quando isso convinha à estabilidade do regime. Curiosamente, muitas dessas famílias continuariam a ocupar posições relevantes na sociedade portuguesa muito depois do fim do Estado Novo. Por isso, a imagem do professor solitário, isolado das redes de influência e dos interesses instalados, é quase tão fantasiosa como a do asceta sem património.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que esta promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

Mais uma vez, as interpretações dividem-se. Uns consideram que esse apoio era uma obrigação para com um antigo chefe do Governo. Outros entendem que representava um privilégio incompatível com a imagem de rigor que o próprio cultivava.

Mas há uma ironia impossível de ignorar.

Durante décadas, Salazar construiu um regime baseado na exaltação da disciplina, da contenção e do sacrifício. O país foi educado para admirar a poupança e desconfiar da abundância. O chefe surgia como exemplo máximo dessa pedagogia moral.

Só que os documentos mostram que a realidade era mais complexa. O homem era poupado, sem dúvida. Era meticuloso, também. Não gostava de desperdício. Mas possuía bens, património, poupanças e uma rede de facilidades associadas ao cargo que ocupou durante quase quarenta anos.

Por outras palavras, não era o milionário corrupto imaginado pelos seus detratores mais ferozes. Mas também não era o santo laico que uma certa memória nostálgica insiste em apresentar.

E talvez seja precisamente isso que incomoda.

Porque é mais fácil lidar com caricaturas do que com seres humanos reais. A caricatura do ditador ladrão é simples. A caricatura do ditador asceta também. O problema é que os factos raramente têm a delicadeza de caber nas caricaturas.

Os documentos analisados pela investigação da “Sábado” sugerem que António de Oliveira Salazar foi aquilo que muitos mitos se recusam a admitir: um homem austero, sim; um homem frugal, frequentemente; mas também um homem que acumulou património, beneficiou das prerrogativas do poder que exerceu e morreu bastante mais confortável do que a lenda (alimentada pelos seus admiradores, mas também por ele próprio) nos habituou a acreditar. E talvez o erro mais persistente seja imaginar que esse poder foi exercido num vazio, acima dos interesses, das influências e das dependências humanas. Não foi. Como tantos governantes que permanecem tempo suficiente no topo, Salazar tornou-se o centro de uma teia de lealdades pessoais, favores, rivalidades e conveniências. É precisamente por isso que a história séria é sempre menos confortável do que a nostalgia: porque troca a lenda pelo homem real. E os homens reais, quase sem exceção, são sempre mais contraditórios do que os mitos que deixam para trás.»

sábado, 25 de julho de 2026

ESPANHA: ATIVISTAS GALEGOS E PORTUGUESES OCUPAN MINA ILEGAL DE SAN XOÁN

  • A organização Ecologistas en Accion e o Movimento UIVO (Portugal) realizaram uma ocupação internacional da exploração mineira ilegal de San Juan, promovida pela empresa sueca Eurobattery Minerals, logo após uma manifestação em Gudiña que reuniu mais de uma centena de pessoas. Durante a ocupação, foi desfraldado um enorme cartaz com 40 metros de comprimento, exigindo o fim da impunidade na indústria mineira. Fonte.
  • A África Ocidental aprovou o plano do Gasoduto Atlântico Nigéria-Marrocos, uma infraestrutura de 6 000 km que percorrerá a costa atlântica de 14 países africanos, transportando gás nigeriano até Marrocos, antes de se ligar à rede de gás europeia existente através de Espanha. Fonte.
  • A Arábia Saudita, apesar da sua vasta riqueza petrolífera, está a apostar na energia nuclear para reduzir o seu consumo interno de petróleo, poupar mais petróleo para exportação e diversificar a sua economia, afastando-se da dependência dos combustíveis fósseis. O país pretende reduzir a sua dependência do petróleo no âmbito do seu plano Visão 2030, uma vez que registou défices orçamentais em nove dos últimos dez anos. Atualmente, a Arábia Saudita queima grandes quantidades do seu próprio petróleo e gás para produzir eletricidade. Ao utilizar a energia nuclear para a produção de eletricidade, pode exportar mais petróleo bruto para obter receitas mais elevadas, em vez de o utilizar internamente. Além disso, pretende-se que 50% da sua eletricidade provenha de fontes limpas até 2030, mas, atualmente, menos de 1% provém da energia solar e eólica, sendo a maior parte proveniente do petróleo e do gás. Embora a Arábia Saudita afirme oficialmente que o seu programa nuclear se destina a fins civis, o príncipe herdeiro já alertou que, se o Irão desenvolver uma arma nuclear, a Arábia Saudita fará o mesmo. Os EUA assinaram recentemente um acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita, permitindo a cooperação no desenvolvimento do seu programa nuclear civil, incluindo o enriquecimento de urânio. Fonte.

REFLEXÃO

A FRAUDE DO GÁS NATURAL «LIMPO».
COMO AS GRANDES EMPRESAS DO PETRÓLEO E DO GÁS CRIARAM O MITO DE QUE O GÁS NATURAL É UMA SOLUÇÃO PARA O CLIMA.
Rebecca John, Rebecca Leber, Davis Allen – Center for Climate Integrity. Rev. O’Lima.


A indústria do gás sabia já em 1907 que o gás natural era uma fonte de problemas respiratórios quando queimado em espaços fechados e, na década de 1950, sabia que o gás causava problemas no ar exterior. A partir da década de 1960, a indústria do petróleo e do gás tomou conhecimento de outra ameaça — estudos científicos emergentes revelaram que o gás natural era um contribuinte potencialmente significativo para o metano na atmosfera. À medida que as empresas e os seus representantes acompanhavam de perto os desenvolvimentos científicos sobre o metano, o nome químico do gás natural, também descobriram que se tratava de um potente gás com efeito de estufa e prejudicial para o clima.

A indústria do gás ignorou estes avisos. Sabendo que a expansão do gás natural criaria poluição atmosférica e aumentaria os níveis atmosféricos tanto de metano como de dióxido de carbono, trabalhou para minimizar estas preocupações, posicionar o gás como a alternativa limpa e amiga do clima ao carvão e concretizar uma ambição que transformaria o gás natural de um combustível marginal numa força motriz do setor energético.

As empresas de gás conceberam a primeira campanha estratégica na década de 1970 para promover o gás natural como um combustível limpo, patrocinando e promovendo as suas próprias investigações e programas publicitários que sustentassem essa afirmação através da American Gas Association (AGA) e das suas empresas de relações públicas e publicidade. Com o passar do tempo, a campanha ganhou em ambição e alcance. Os principais produtores de petróleo e gás uniram forças com a AGA, tornando-se membros da sua principal organização de investigação e financiando novos esforços para posicionar o gás natural como uma solução tanto de energia limpa como climática.

No final da década de 1980, a indústria do gás e as principais empresas petrolíferas começaram a promover o gás como um «combustível de transição» — um combustível de combustão limpa para a transição para um futuro de energias renováveis. Na realidade, planearam um futuro a longo prazo para o gás natural, ao mesmo tempo que minavam as energias renováveis, obstruindo o destino para o qual a «ponte» do gás era suposto conduzir. Ao longo dos 20 anos seguintes, a

indústria consolidou efetivamente o mito do combustível de transição ao cooptar a ciência e a supervisão originalmente destinadas a manter as emissões de carbono e metano sob controlo.

Trabalhando em conjunto numa coligação em expansão que incluía as grandes petrolíferas e, por fim, vários importantes grupos ambientalistas, a indústria conseguiu atenuar as preocupações relativas ao metano, recorrendo a estratégias elaboradas pelas mesmas empresas que, durante décadas, minaram o consenso científico sobre os malefícios do tabaco. A AGA e os grupos aliados contestaram agressivamente os dados científicos relativos ao metano através de estudos financiados pela indústria e da criação do Gas Research Institute, cujo nome soa a objetividade.

Mas a sua abordagem foi multidimensional. Enquanto criava confusão em torno do problema do metano da indústria, a indústria do gás teve o cuidado de não negar abertamente a questão das alterações climáticas, concentrando, em vez disso, a atenção no dióxido de carbono. Acompanhou isto com a promoção incansável do conceito de que o gás é limpo — certamente mais limpo do que o carvão ou o petróleo — e posicionou o gás como um combustível de transição e uma solução climática. Nesse processo, a indústria do gás consolidou parcerias com a EPA com o objetivo explícito de afastar regulamentações em favor de uma gestão voluntária das emissões, ao mesmo tempo que recrutava organizações ambientais que conferissem legitimidade aos seus argumentos.

A estratégia foi um sucesso estrondoso. Fundamental para esse sucesso foi um estudo conjunto realizado em 1996 pela indústria e pela EPA sobre as emissões de metano do sistema de gás natural. Documentos recentemente divulgados revelam que a EPA dispensou a sua revisão técnica do estudo, que, segundo o gestor do projeto, a agência não possuía «os conhecimentos especializados» para realizar, cedendo, na prática, o controlo da análise à indústria do petróleo e do gás. O estudo publicado baseou-se numa avaliação altamente seletiva das emissões de metano, e concluiu que as emissões eram tão baixas que as preocupações relativas à contribuição do gás natural para as alterações climáticas eram injustificadas. A indústria do gás sabia que o estudo não representava a totalidade das emissões de metano provenientes do sistema de gás natural, mas utilizou-o para neutralizar as preocupações do público relativamente ao metano, consolidar a reputação do gás como um «combustível de transição» amigo do clima e abrir caminho para a expansão maciça da indústria na década de 2000.

Esta imagem do gás como uma fonte de energia limpa é uma fraude que vem sendo construída há pelo menos 50 anos. É fácil encontrá-la nas comunicações do setor ao longo das últimas cinco décadas, incluindo a publicidade dirigida aos consumidores e o lóbi político. A fraude do gás natural «limpo» tem sido essencial para o sucesso da indústria no mercado, e a ideia de que o gás é amigo do clima tem estado no cerne da rápida expansão das infraestruturas de gás nas últimas duas décadas, incluindo a explosão da fraturação hidráulica, a construção de gasodutos interestaduais e terminais de exportação de gás, e a absurda classificação do gás como energia renovável em vários estados, condenando os EUA a décadas de utilização adicional de combustíveis fósseis e de emissões prejudiciais ao clima.

Grande parte desta investigação centra-se em acontecimentos históricos, em que as emissões de metano surgiram como uma ameaça clara, e no legado do sucesso da indústria. Este relatório baseia-se em documentos recentemente descobertos, pedidos de acesso a registos públicos, comunicações internas da indústria, relatórios confidenciais, artigos científicos e entrevistas com cientistas climáticos, consultores da indústria e representantes de grupos ambientalistas. Embora inúmeros relatórios e investigações tenham demonstrado a forma como a indústria do petróleo e do gás respondeu ao problema do carbono com atrasos e negação, este é o primeiro a traçar a história da resposta da indústria do gás ao seu problema do metano e a situá-la no contexto de décadas de engano.

BICO CALADO

Pedro Páscoa/Maio

Guerra: os que lucram e os que pagam. Michael Roberts, Maio.