O GABINETE DE VENTURA E A TIKTOKIZAÇÃO DA AR
Pedro Candeias, Público 30Jul2026
Imagem criada com IA e da responsabilidade deste blogue.
É curioso que o bonito edifício da Assembleia da República tenha sido originalmente construido como mosteiro para a Ordem de S. Bento, cujo lema é "reza e trabalha", verbos associados à introspecção, ao silêncio, ao decoro e ao esforço. Idealmente, é exactamente isso que se espera que aconteça dentro de uma Assembleia da República, o símbolo máximo da inviolabilidade democrática, da solenidade do Estado, o lugar onde gente eleita por outra gente discute os
problemas representativos de uma vida em sociedade.
Só que esses tempos já lá vão e os dados não mentem. Os episódios de incivilidade mais do que duplicaram nos últimos cinco anos e é desonesto não traçar a linha temporal que liga a entrada do Chega no Parlamento e o aumento de casos, digamos, extracurriculares.
Há os insultos, como "aberração", "asquerosa", "assassina", "drogada". Há notícias de ameaças e de assédios morais constantes nos corredores. Também há os apartes, os gritos, as interrupções e as insinuações. Há, claro, a história do deputado com uma pulsão por furtos de malas. E, agora,
há a suprema originalidade de uma alegada invasão de um gabinete que deixou gavetas desarrumadas e papéis, e de onde terão sido roubados documentos importantes para André
Ventura.
Como a investigação decorre agora na Polícia Judiciária, dispensam-se comentários e teorias sobre o que terá acontecido, mas, a acontecer uma coisa assim, ninguêm duvida de que só
poderia ter acontecido ali.
O que é que aconteceu para que o Parlamento se transformasse nisto? Como é que chegamos ao ponto de ter comissões de transparência a fiscalizar comportamentos de deputados como se se tratassem de um funcionário num infantário? Uma teoria: a "tiktotização" da política. A degradação não é um acidente, mas uma estratégia deliberada na era do algoritmo, em que
o plenário já não serve exclusivamente para convencer os pares ou aperfeiçoar leis e sim como estúdio de gravação de conteúdos virais.
Procura-se o clique, o ódio, a confrontação e a provocação em clips de apenas 30 segundinhos,
sacrificando-se a substância da discussão, substituindo a agenda nacional por um folhetim de bizarrias. O pior é o contágio que isto provoca nos outros partidos, pois torna-se irresistível não seguir estratégias semelhantes para obter resultados rápidos. E assim nasce a propaganda.
Enquanto o país real está lá fora, o Parlamento gasta tempo de antena a
discutir gabinetes vandalizados, crucifixos invertidos e malas desaparecidas, e os eleitores
desconfiam de todos. Este cinismo colectivo destrói a confiança na democracia. É tempo de fechar a lona e guardar os adereços circenses.