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sexta-feira, 10 de julho de 2026

BOMBARRAL: FUGA DE GASES TÓXICOS EVACUA ARMAZÉM DE PRODUTOS AGRÍCOLAS

  • Uma avaria no doseador que mistura hipoclorito de sódio com ácido sulfúrico, numa ação de desinfeção durante a pesagem de produtos, terá estado na origem da libertação de gases tóxicos num armazém da empresa hortofrutícola O Melro, em Sanguinhal, Bombarral. A fuga provocou a evacuação de centena e meia de pessoas do interior de um armazém, tendo 12 funcionárias sido conduzidas ao hospital. Recorde-se que, em maio de 2019, na mesma empresa, 14 trabalhadores sofreram uma intoxicação devido a um incidente durante a realização de obras na cobertura do armazém. O corte de materiais no telhado provocou a libertação de produtos e fumos tóxicos para o interior das instalações, tendo os funcionários afetados necessitado de assistência médica urgente. Fonte.
  • A Estação de Água para Reutilização de Vilamoura, capacitada para a rega de jardins, campos de golfe e agricultura, e preparada para abastecimento ao consumo humano, foi inaugurada pela ministra do Ambiente. Fonte.
  • Consulta pública até 5 de agosto: Consulta Pública AAPICO Águeda S.A. (Fundição de metais ferrosos) Fonte.
  • O Ministro Federal da Segurança Alimentar Nacional e da Investigação do Paquistão, Rana Tanveer Hussain, visitou Portugal para reforçar a cooperação bilateral no setor agrícola, com especial destaque para a indústria da azeitona. O ministro incentivou ativamente os investidores e as empresas portuguesas a explorarem joint ventures e parcerias público-privadas no setor da azeitona do Paquistão. Hussain referiu que já foram plantadas mais de sete milhões de oliveiras numa área superior a 55 000 acres no Paquistão. Para atrair parceiros portugueses, destacou incentivos aliciantes, incluindo a propriedade estrangeira a 100%, arrendamentos de terrenos a longo prazo e a importação isenta de direitos aduaneiros de maquinaria agrícola. Fonte.
  • Comissão Europeia abre processo contra Portugal por falhas no controlo das pescas. Portugal deveria ter implementado, até dezembro de 2013, um sistema de cruzamento automático, análise e verificação dos dados da atividade pesqueira, incluindo uma base de dados eletrónica destinada a validar essa informação. Para o executivo comunitário, estas falhas prolongadas prejudicam a eficácia da fiscalização e podem comprometer a igualdade de condições entre operadores do setor pesqueiro nos diferentes Estados-membros. Fonte.
  • 10 de julho de 1985: os serviços secretos franceses fizeram explodir o navio Rainbow Warrior, em Aotearoa/Nova Zelândia, matando Fernando Pereira, um fotógrafo. O navio dirigia-se para protestar contra os ensaios nucleares franceses.

BÉLGICA ALVO DE QUEIXA POR VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS DEVIDO A NÍVEIS RECORDE DE POLUIÇÃO POR PFAS

  • A ClientEarth apresentou uma queixa contra a Bélgica devido à sua incapacidade de proteger os seus cidadãos dos riscos significativos para a saúde decorrentes dos «químicos eternos» (PFAS). A Bélgica apresenta os níveis mais elevados de PFAS de todos os países europeus. «Não só existe contaminação há muito tempo, como constatámos que as autoridades têm conhecimento desta contaminação há anos, se não décadas, e que muito pouco foi feito», afirma Hélène Duguy, advogada especializada em direito ambiental da ClientEarth. Fonte.
  • A companhia de águas Severn Trent foi poupada de uma multa pela entidade reguladora do setor, apesar das «violações graves e inaceitáveis» na sua gestão de águas residuais e esgotos. A Ofwat acusa a empresa de violar as suas obrigações ao não assegurar de forma eficaz a drenagem e o tratamento do conteúdo dos seus esgotos. Fonte.
  • O governo britânico concedeu à central nuclear de Sizewell B uma prorrogação da vida útil de 20 anos, o que permitirá que esta continue a produzir eletricidade até 2055. O proprietários da central irão assinar um «contrato por diferença», ao abrigo do qual receberão 70,50 libras por megawatt-hora, a preços de 2025, «indexados à inflação, durante os 20 anos entre 2035 e 2055». Fonte.
  • A ExxonMobil vai investir mil milhões de dólares no Projeto Usan Infill, na zona offshore da Nigéria, um empreendimento que se prevê que aumente a produção de petróleo em 40 000 barris por dia. Fonte.
  • A Shell decidiu vender os seus 580 postos de abastecimento na África do Sul à Abu Dhabi National Oil Company (Adnoc), alienando assim ativos com baixas margens de lucro. A presença da Shell na África do Sul remonta a 1902, quando começou a vender querosene. A empresa criou uma refinaria em Durban em 1921. Ao longo dos anos, a Shell foi criticada pelo seu papel durante o apartheid e pelas suas práticas ambientais, tendo sido de fortes protestos na década de 1980. Apesar de ter vendido o seu negócio de retalho, a Shell continuará a operar na África do Sul através da perfuração de poços de petróleo e gás ao largo da costa. Daily Telegraph.

BICO CALADO

Foto: Narendra Shrestha/EPA
  • O grupo bracarense DST, através da sua marca especializada em construção industrializada Zethaus, vai construir um empreendimento de 339 unidades turísticas em Vila Nova de Santo André, no concelho alentejano de Santiago do Cacém. O projeto conta com um investimento de 52 milhões de euros financiado pelo grupo chinês CALB, o qual já tem planeada a instalação de uma fábrica de baterias em Sines ae com quem a DST firmou um acordo de reciclagem de baterias no início de 2025. Fonte.
  • Uma agência criativa de 14 pessoas com ligações ao PSD gere o motor informático das escolas. As falhas nos exames abriram a caixa negra de um sistema 'low cost' ainda sem explicações do Governo. Fonte.
  • A Entidade Reguladora da Saúde alertou para a falta de concorrência no setor privado e social, destacando o monopólio de um único operador no Alentejo Litoral e Baixo Alentejo. Fonte.
  • Vexames Nacionais​. Raquel Varela, Maio.
  • A plataforma cai. Os professores ficam de pé. Bruna Oliveira Lemos, Esquerda.
  • A Comissão de Regimento da Câmara dos Representantes manipula os procedimentos parlamentares para bloquear votações que restringiriam a ajuda militar dos EUA a Israel, apesar do aumento da pressão pública e política sobre esta questão. Fonte.
  • Foram incendiadas 300 barracas de um acampamento de trabalhadores migrantes em Palos de la Frontera, Huelva, durante o processo de regularização, no qual precisam de documentação que foi consumida pelo fogo. Fonte.
  • A Amnistia Internacional exigiu uma investigação por crimes de guerra sobre os ataques aéreos israelitas no sul do Líbano. Os ataques em questão ocorreram em março e causaram a morte de 24 civis, incluindo 12 crianças, em bairros das cidades de Tiro, Saida e Nabatieh. A Amnistia afirma ter reunido provas suficientes para concluir que as forças israelitas violaram o direito internacional ao não distinguirem entre alvos civis e militares durante a condução da campanha. Fonte.
  • 39.º dia de protestos em massa em Tirana, na Albânia. Milhares de pessoas exigem a demissão do primeiro-ministro Edi Rama devido à corrupção, a um Estado dominado pela máfia e à venda de terrenos, ilhas e áreas protegidas a oligarcas e bilionários, incluindo Kushner. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

DE PARAÍSO FISCAL A BANQUEIRO DE GUERRA: O PAPEL DO LUXEMBURGO NO REFORÇO MILITAR DA EUROPA
Laura Ruggeri, Substack. Rev. O’Lima.


Na cimeira da NATO em Ancara, o Luxemburgo posicionou-se como um dos defensores mais veementes da aliança no que diz respeito ao rearmamento europeu acelerado. Para um país com apenas 700 000 habitantes, situado em segurança na Europa Ocidental e praticamente sem exército permanente, esta posição não é, obviamente, motivada por necessidades de defesa. O seu raciocínio é puramente financeiro.

A adesão entusiástica do Luxemburgo à retórica bélica tem origem no seu papel desproporcionado nas finanças globais. Apesar da sua dimensão minúscula, o Grão-Ducado está entre os principais centros financeiros do mundo. Os números são exorbitantes. No final de 2025, os ativos sob gestão em fundos domiciliados no Luxemburgo atingiram 8,2 biliões de euros. O Grão-Ducado gere 58 por cento de todos os fundos transfronteiriços globais. É o segundo maior domicílio de fundos do mundo, apenas atrás dos EUA, e o maior centro de fundos da Europa. Os seus ativos financeiros externos ascendem a 13 biliões de euros. Isto não é um país. É uma máquina de extração de valor, uma vasta bomba financeira que canaliza a riqueza mundial para os cofres da elite global.

E agora essa máquina encontrou um novo produto para vender: a morte. A ministra da Defesa, Yuriko Backes, deixou escapar essa verdade antes da cimeira, quando afirmou aos jornalistas: «Em cada rubrica de despesa, temos também de considerar o retorno económico para o Luxemburgo.» A guerra é um bom negócio. E o Luxemburgo pretende ser o financiador.

A contribuição mais concreta do Luxemburgo em Ancara foi o seu apoio ao novo Banco de Defesa, Segurança e Resiliência (DSRB), uma instituição multilateral que está a ser planeada para canalizar capital privado para projetos de defesa e segurança. Com sede no Canadá, e com o Luxemburgo a desempenhar um papel-chave a nível europeu, o banco visa financiar não só tecnologias de dupla utilização, mas também capacidades letais. Até ao momento, o projeto conta com o apoio de representantes da Albânia, Bélgica, Grécia, Letónia, Roménia, Turquia e Ucrânia. A ideia foi proposta pela primeira vez em 2024 por banqueiros (surpresa, surpresa) e por um grupo de antigos conselheiros de segurança da NATO e oficiais militares. O JPMorgan, o Deutsche Bank, o Commerzbank e o ING, bem como os maiores bancos do Canadá — RBC, BMO, CIBC, Banco Nacional do Canadá, Scotiabank e TD Bank —, passaram desde então a participar no projeto.

As despesas com a defesa do próprio Luxemburgo também são bastante reveladoras. Quando o primeiro-ministro Luc Frieden assumiu o cargo, a contribuição do país para a NATO situava-se em 0,4% do Rendimento Nacional Bruto. Agora, está a caminhar a passos largos para atingir os 2,3% até 2029 — cerca de 1,66 mil milhões de euros. Ao cumprir as metas da NATO, o Luxemburgo garante-se um lugar à mesa onde os contratos são atribuídos.

Para além do banco, o Luxemburgo aderiu a novos projetos da NATO, incluindo o sistema de reconhecimento GlobalEye, a cooperação em matéria de matérias-primas essenciais para a defesa e o investimento num décimo avião de transporte e reabastecimento multifuncional.

O que torna este momento particularmente obsceno é a rapidez com que o setor financeiro abandonou as suas pretensões morais. Até recentemente, muitos gestores de fundos consideravam a produção de armamento eticamente questionável. Agora, abraçam-na com entusiasmo. Os ETFs europeus do setor da defesa registaram rendimentos entre 60 e 75 por cento entre 2025 e meados de 2026. Só nos primeiros cinco meses de 2025, os investidores injetaram mais de 2,7 mil milhões de dólares nesses fundos. Os seis maiores grupos bancários franceses aumentaram o seu financiamento a empresas do setor da defesa em 25 por cento até ao final de 2025, atingindo mais de 46,6 mil milhões de euros — um aumento de 75 por cento em comparação com 2021.

A BlackRock lançou o seu ETF Europe Defence em maio de 2025. O BNP Paribas aumentou o financiamento à defesa em 2 mil milhões de euros e abandonou a sua política que proibia o financiamento de «armas controversas». O BPCE emitiu uma obrigação de defesa no valor de 750 milhões de euros, que foi subscrita em quase quatro vezes o valor previsto. A Warburg Pincus está a considerar angariar até 1,5 mil milhões de euros para um fundo dedicado à defesa.

Em 2025, o Financial Times noticiou que o Deutsche Bank tinha criado uma equipa dedicada aos setores da defesa e das infraestruturas, composta por cerca de 40 banqueiros de diferentes divisões, com o objetivo de tirar partido do impulso ao rearmamento europeu. O número de membros dessa equipa já aumentou desde a publicação do artigo.

O rearmamento é um negócio lucrativo, uma vasta transferência de riqueza pública para as mãos do setor privado, disfarçada sob o pretexto da segurança.

Yuriko Backes, que supervisiona três pastas desde que assumiu o cargo de ministra da Mobilidade e Obras Públicas, da Defesa e da Igualdade de Género e Diversidade (!), reconheceu isto diretamente quando afirmou: «Já não podemos dizer: “Os outros vão resolver isso por nós” e confiar exclusivamente nos americanos. Esses dias acabaram.» Ela tem razão, claro. Mas a alternativa que ela imagina não é a autonomia estratégica europeia ao serviço da paz. É uma nova arquitetura de lucro ao serviço da guerra, que beneficia tanto Washington como Wall Street.

A tragédia é que o rearmamento da Europa está a ser celebrado como uma oportunidade de crescimento, enquanto os corpos dos soldados ucranianos continuam por enterrar no Donbass, porque Kiev se recusa a recebê-los da Rússia.

A postura belicista do Luxemburgo é um modelo de negócio. E, tal como todos os modelos de negócio assentes no sofrimento alheio, acabará por consumir os seus criadores. Mas, entretanto, os lucros continuarão a fluir, os dividendos serão pagos e os banqueiros contarão o seu dinheiro, enquanto os europeus se despedem do bem-estar social e lhes é dito para se prepararem para a guerra.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CASTELO DO BODE: QUERCUS CONTESTA AMARA VILLAGE

  • A Quercus contestou o avanço do projeto turístico de luxo Amara Village, previsto para a Albufeira de Castelo de Bode, considerando “escandaloso” que o empreendimento tenha obtido autorização para avançar sem ter sido sujeito a Avaliação de Impacte Ambiental. A Quercus recorda ainda que a oposição ao projeto remonta a 2001, quando contestou uma versão anterior do empreendimento, então com outra designação, pelos potenciais impactos na qualidade da água e nos ecossistemas da albufeira. A associação critica também a posição da Agência Portuguesa do Ambiente, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo e da Câmara Municipal de Tomar, que autorizou o avanço do projeto com base no Plano de Pormenor da Área Turística de Vila Nova–Serra, aprovado em 2011. A Quercus manifesta ainda preocupação com a possibilidade de as obras arrancarem antes da revisão do Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode, atualmente em atraso, considerando que poderá existir uma tentativa de antecipar a construção antes da entrada em vigor de regras mais restritivas. A associação levanta igualmente dúvidas sobre a natureza do empreendimento, afirmando que a estratégia de promoção do projeto faz referência à criação de uma “comunidade”, incluindo uma “escola alternativa”, o que, na sua perspetiva, poderá indicar uma vocação residencial permanente e não exclusivamente turística.
  • Apesar do histerismo mediático em torno das temperaturas elevadas das últimas semanas, com mapas pintados de vermelho anunciando uma calamidade sanitária iminente, Portugal não registou até agora nenhuma anomalia digna de registo na mortalidade total. De acordo com os registos diários do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito, os valores da mortalidade mantêm-se dentro da variação normal esperável para o começo do Verão, sem qualquer excesso persistente que permita falar numa perturbação associada às temperaturas elevadas. Fonte.
  • Os centros de dados representaram quase um quarto do consumo de eletricidade na Irlanda em 2025, um aumento em relação aos 5 por cento registados em 2015. Fonte.
  • Consulta pública até 18 de agosto: Projeto BigBATT, AlenquerA EDP quer instalar um sistema de armazenamento de energia em baterias de grande escala no Carregado, junto à Central de Ciclo Combinado do Ribatejo. Principais Características: potência: 180 MW (inicialmente referido como 150 MW), capacidade de armazenamento: 360 MWh, tecnologia: baterias de iões de lítio com química de fosfato de ferro e lítio, capacidade: duas horas de autonomia e capacidade para abastecer: aproximadamente 100.000 habitações.

BICO CALADO


Apesar do histerismo mediático em torno das temperaturas elevadas das últimas semanas, com mapas pintados de vermelho anunciando uma calamidade sanitária iminente, Portugal não registou até agora nenhuma anomalia digna de registo na mortalidade total. De acordo com uma análise estatística do PÁGINA UM aos registos diários do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito, com critérios científicos bem definidos, os valores da mortalidade mantêm-se, por enquanto, dentro da variação normal esperável para o começo do Verão, sem qualquer excesso persistente que permita falar numa perturbação associada às temperaturas elevadas. Não se trata de desvalorizar os riscos das ondas de calor, sobretudo para os mais vulneráveis, mas de recordar que o jornalismo não pode confundir previsão meteorológica, ansiedade colectiva e realidade epidemiológica. Fonte.

A Sonae Sierra adquiriu ao fundo israelita MDSR nove supermercados Mercadona em Espanha (Catalunha, Aragão, Andaluzia, Astúrias, Navarra e Extremadura) através do fundo Hahn Sierra Food Retail Fonds e contou com assessoria da Savills. Fonte.

Depois de marcarem o 4-1, os jogadores belgas comemoraram com a dança do «Trump».

O Estado português terá perdido mais de 1,1 mil milhões de euros em apenas três anos devido a combustíveis não declarados. A estimativa consta de um estudo da EPCOL, que calcula perdas fiscais de 704 milhões de euros em ISP e 418 milhões em IVA entre 2023 e 2025. O valor corresponde, segundo a associação, ao custo de construção de cinco hospitais de média dimensão. Fonte.

“Neste momento, estão a ser reativados três campos de prisioneiros identificados, onde foram detidos nipo-americanos, e que estamos a acompanhar e a monitorizar ativamente. Estamos a usar a nossa indignação como forma de denunciar o facto de que isto é uma repetição da nossa história. Queremos dar-lhe um nome; queremos reivindicá-la e não nos deixarmos levar pela retórica que diz que temos de construir centenas de mais armazéns para alojar pessoas porque estas representam uma ameaça à segurança nacional. É exatamente a linguagem e a justificação utilizadas para o nosso encarceramento. Não houve o devido processo legal. Não havia forma de o contestar. Foi apenas uma declaração feita pelas autoridades.” Satsuki Ina, ‘Recordar é uma forma de protesto’. Satsuki Ina, sobrevivente de um campo de prisioneiros japonês, fala sobre o trauma da detenção. The Xylom.

LEITURAS MARGINAIS

IA: NOVA APLICAÇÃO OU NOVO DISPOSITIVO?
Enrique Dans, Medium. Rev. O’Lima.


A notícia de que a SpaceX mostrou aos investidores um protótipo de dispositivo de IA — mais fino do que um iPhone, com o seu próprio sistema operativo e tecnologia xAI, que o TechCrunch descreveu como «muito semelhante a um telemóvel», deve ser encarada com alguma cautela; para começar, Elon Musk negou a notícia, classificando-a como «totalmente falsa». Mas o que importa — dada a falta de credibilidade desta pessoa — não é se esse protótipo existe, mas sim que os principais intervenientes no campo da IA parecem ter chegado à mesma conclusão: a IA não vai ficar para sempre numa aba do navegador, numa aplicação móvel ou numa janela de chat. Precisa do seu próprio dispositivo.

Quando a OpenAI integrou Jony Ive na equipa, não se limitou a adquirir design: adquiriu uma hipótese. O computador era o dispositivo de secretária. O smartphone era o dispositivo omnipresente. A IA quer ser o dispositivo auxiliar: acompanhando-nos, interpretando o contexto e tudo o que fazemos.

O smartphone não mudou a sociedade por ser um telemóvel melhor; fê-lo porque reorganizou as nossas vidas em torno de um único gesto: tirar um retângulo do bolso, olhar para ele, tocar nele e esperar que tudo estivesse lá. A banca, os transportes, a fotografia, a comunicação, o comércio, a identidade e a ansiedade passaram a girar em torno desse gesto. O Pew Research Center mostra como a sua adoção passou de algo limitado a uma minoria para algo praticamente universal em muitos segmentos demográficos, e o relatório da GSMA «The Mobile Economy 2025» explica como o smartphone se tornou infraestrutura social.

A questão agora é se a IA significará que passaremos de olhar, tocar e navegar por menus para falar, ouvir, mostrar, delegar e receber respostas contextuais. Essa transição não é apenas uma atualização da interface — é uma mudança naquilo que medeia entre nós e o mundo.

É por isso que a integração vertical em torno da SpaceX é tão cativante. Se uma empresa combinar a conectividade através do Starlink, a IA através da xAI, uma base social manipulável no X, capacidades industriais e a sua própria narrativa, o dispositivo deixa de ser um mero gadget e torna-se um terminal de ecossistema. A aquisição da xAI pela SpaceX aponta para essa convergência: comunicações, modelos, identidade, dados e serviços unidos por uma única arquitetura. Não se trata de criar «um telemóvel com IA», mas sim de decidir quem controla a interface do dia a dia.

É fundamental ter cautela. A primeira vaga de dispositivos de IA revelou-se desajeitada. A Humane acabou por vender os seus ativos à HP e encerrar o AI Pin — prova de que um design visionário não compensa uma utilidade pouco clara, uma fraca autonomia da bateria ou um preço absurdo. O Rabbit R1 foi recebido como um produto inacabado, mais uma promessa do que uma ferramenta. Mas esses fracassos não invalidam a categoria — eles abrem caminho para ela. Antes do iPhone vieram o Palm, o BlackBerry, o Nokia Communicator e o Windows Mobile. A história da tecnologia está repleta de tentativas falhadas que surgiram demasiado cedo ou foram mal executadas.

Os óculos inteligentes são, por enquanto, a experiência mais séria. Eles abordam o ponto essencial: a IA precisa de contexto, e esse contexto reside no que vemos, ouvimos e fazemos. As Ray-Ban Meta registaram um crescimento das vendas superior a 200% no primeiro semestre de 2025, apesar de serem um dispositivo de vigilância ao serviço de uma das empresas mais sinistras que existem, e funcionam como o VisionClaw: agentes sempre ativos através de óculos inteligentes capazes de combinar visão, voz e execução. Ver um cartaz e criar um evento. Olhe para um documento e resuma-o. Ouça uma conversa e tome notas. Traduza em tempo real. Tudo isso, num smartphone, requer que o tire do bolso. Num dispositivo mais sensível ao contexto, pode acontecer de forma quase imperceptível.

É aqui que reside a verdadeira fronteira: a IA passará a fazer parte do quotidiano não quando responder melhor, mas quando deixar de esperar que lhe façamos perguntas. E é aí que surge o problema. Um dispositivo dedicado não é apenas um gadget — é uma testemunha. Ele vê, ouve, lembra-se, interpreta e age. Pode reduzir o atrito, melhorar a acessibilidade e libertar-nos do ecrã. Mas também pode multiplicar a vigilância, a dependência e a concentração de poder nas mãos de quem controla o modelo, o sistema operativo, a conectividade, os dados e os serviços. Pode colocar-nos completamente nas mãos das mesmas entidades perigosas e irresponsáveis que já nos exploram através das redes sociais.

É por isso que o sistema operativo proprietário é tão importante. Possuir o nosso próprio dispositivo é uma forma de escapar ao domínio da Apple e da Google. Hoje em dia, quem quiser chegar ao bolso do utilizador tem de passar pelo iOS ou pelo Android — com as suas regras, APIs, comissões e restrições. O hardware volta a ser importante porque define quem está presente quando o utilizador formula uma intenção. A Google dominou as pesquisas; a Amazon, as compras; a Apple e a Google, as aplicações; a Meta, a intenção social. A inteligência artificial aspira a algo mais abrangente: a intenção, mesmo antes de esta se tornar ação.

Não creio que o smartphone vá desaparecer tão cedo. O ecrã continua a ser eficiente para ler, comparar, editar ou verificar. Mas poderá perder o seu papel central, tal como o computador pessoal o perdeu a favor do smartphone. A nova interface poderá ser uma constelação de óculos, auscultadores, dispositivos de bolso e dispositivos ambientais. O que será decisivo não é a forma, mas sim a camada: sensores, contexto, modelo, conectividade e capacidade de ação.

A oportunidade é enorme, mas o risco também o é. Um dispositivo de IA bem concebido poderia tornar a tecnologia menos absorvente, mais acessível e mais humana. Um dispositivo mal concebido poderia substituir o vício do ecrã por vigilância e monitorização contínuas e pela delegação opaca de funções cognitivas nas mãos de atores extremamente perigosos. Eu próprio — alguém que ensina inovação e está habituado a experimentar tudo — não uso o WhatsApp nem o Threads, nem sequer remotamente; nem sequer toquei em nenhum dos dispositivos recentes que mencionei no artigo; e qualquer pessoa que veja a usar os óculos da Meta parece-me, por definição, um idiota que merece tudo o que lhe acontecer. Há uma enorme diferença entre querer compreender a inovação e ser uma vítima da moda — com ênfase na parte de «vítima».

A próxima revolução nas interfaces não consistirá em eliminar os ecrãs, mas sim em fazer com que estes deixem de ser o centro das atenções. E, nessa altura, a questão não será que dispositivo levamos connosco, mas sim que empresa, que modelo e que arquitetura de energia levamos, literalmente, no nosso corpo.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

ALCOCHETE: CONDENADA POR PLANTAR SOBREIROS

  • Bianca Castro, ativista da Climáximo, recebeu uma pena suspensa de um ano e seis meses na sequência de uma ação simbólica realizada em maio de 2025 nos terrenos do Campo de Tiro de Alcochete, local apontado para a construção do futuro aeroporto de Lisboa. A ação consistiu na plantação de sobreiros e na colocação de uma faixa com a mensagem “Aeroporto de Alcochete p’ró cacete – Nem aqui, nem em lado nenhum!”, numa manifestação contra a expansão aeroportuária e o aumento das emissões de gases com efeito de estufa. O Ministério Público acusou Bianca Castro do crime de entrada ou permanência ilegítima, tendo o processo sido tratado como um caso de natureza militar. Na altura do protesto, a porta-voz da iniciativa justificou a ação com o impacto ambiental previsto para o projeto aeroportuário. “A construção de um novo aeroporto é o equivalente a lançar bombas de carbono na atmosfera”, afirmou Bianca Castro, defendendo que o empreendimento representa um agravamento da crise climática. Os ativistas argumentam que o projeto implica o abate de dezenas de milhares de sobreiros e explicam que a plantação das árvores teve um valor sobretudo simbólico. FonteVejamos a desproporção da nossa Justiça: ex-dirigente do Chega condenado a pena suspensa a um ano e três meses por prostituição infantiltrês e meio de cadeia, com pena suspensa para agente da PSP que matou Odair Moniz, Padre condenado a 1 ano e 8 meses suspensos por tentativa de abuso sexual de menor, Professor condenado a três anos de prisão com pena suspensa por abuso sexual de crianças.
  • Estes ‘editores’ não se entendem? Sensivelmente à mesma hora, o mesmo portal publica duas notícias com títulos referindo 13 e 15 mil hectares de floresta ardida em Vouzela. Para eles parece não haver qualquer diferença entre 13 mil e 15 mil hectares.
  • Em 2025, as emissões dos voos com partida da Europa atingiram um recorde de 195 Mt de CO₂, ultrapassando pela primeira vez os níveis pré-pandémicos. A Ryanair continua a ser a companhia aérea mais poluente da Europa, sendo agora as suas emissões globais 50 % superiores às de 2019 — o maior aumento entre as 20 companhias aéreas mais poluentes do mundo. Dois terços das emissões da aviação europeia escapam ao Sistema de Comércio de Emissões da UE, uma vez que este abrange apenas as rotas intra-europeias de curta distância, isentando os voos de longa distância. Isto cria condições de concorrência desiguais — a Ryanair paga cerca de 50 € por tonelada de carbono, enquanto a Lufthansa paga cerca de 20 € e as companhias aéreas do Golfo, como a Emirates, pagam quase nada. A T&E recomenda alargar o mercado de carbono a todos os voos de partida e canalizar as receitas para combustíveis de aviação sustentáveis e para a prevenção de rastos de condensação. Sublinhe-se que o aumento dos preços dos bilhetes é impulsionado pela dependência dos combustíveis fósseis, e não pelas políticas climáticas. Fonte.

REFLEXÃO

ENQUANTO A ÍNDIA SE APRESSA A CULTIVAR MILHO PARA A PRODUÇÃO DE ETANOL, SERÁ QUE PODE APRENDER COM OS ERROS DO PASSADO?
Niladri Giri, Medium. Rev. O’Lima.

Foto de Gavin Allanwood no Unsplash

Durante o inverno de 1989, os condutores em São Paulo viram-se a esperar em longas filas para abastecer, apesar de o seu país ter prometido que o combustível estaria sempre disponível.

Não se tratava de gasolina, mas sim de álcool. No final da década de 1980, mais de quatro milhões de automóveis no Brasil funcionavam a etanol puro, cerca de um terço de todos os veículos do país. Durante quinze anos, o Brasil tinha reestruturado a sua agricultura para apoiar esta transição. O programa Proálcool, lançado em 1975 após a primeira crise do petróleo, superou as expectativas. Em 1986, 92 por cento dos carros novos vendidos funcionavam exclusivamente a etanol. Os produtores de cana-de-açúcar tinham encontrado o cliente ideal: aquele que precisava sempre de mais.

Mas depois as coisas mudaram. O preço do petróleo bruto caiu de uma média de 78 dólares por barril em 1981 para menos de 27 dólares em 1986, tornando a gasolina novamente barata. Ao mesmo tempo, os preços globais do açúcar subiram, pelo que as fábricas começaram a destinar mais cana à produção de açúcar em vez de combustível. Entre 1989 e 1990, os postos de abastecimento ficaram sem combustível. Milhares de carros faziam fila nas estações de serviço ou ficavam parados nas garagens, construídos para um combustível que já não estava disponível. As vendas de carros a etanol caíram drasticamente e muitos brasileiros sentiram que todo o esforço tinha sido em vão.

Há um pormenor dessa história que me chama a atenção. O produtor de cana fez tudo como deve ser. Cultivou o que o seu país precisava. A sua colheita não era o problema. A verdadeira questão residia numa série de decisões tomadas longe dali — em locais como uma bolsa de açúcar em Londres, uma reunião da OPEP ou um ministério das finanças a ajustar subsídios. O risco desceu pela cadeia e acabou por recair sobre a pessoa que menos sabia e tinha menos opções.

Há doze anos que trabalho como técnico agrícola nos distritos de Odisha, no leste da Índia. Na maioria dos dias, ajudo os agricultores a lidar com os riscos que enfrentam — chuvas tardias, pragas precoces ou a queda dos preços de mercado durante a colheita. Recentemente, porém, tenho vindo a refletir sobre um risco que não conseguimos ver a partir do terreno, à medida que a Índia repete a experiência do Brasil, mas a um ritmo muito mais acelerado.

O Segundo Acto Americano

Antes da vez da Índia, a história repetiu-se mais uma vez, desta vez no Iowa.

Os Estados Unidos criaram a sua Norma de Combustíveis Renováveis em 2005 e alargaram-na em 2007, exigindo que as companhias petrolíferas misturassem milhares de milhões de galões de biocombustível na gasolina. A região do milho reagiu da mesma forma que os agricultores de todo o mundo reagem perante um comprador garantido. Nos últimos anos, mais de 40 por cento da colheita de milho americana foi destinada à produção de etanol. Reflitamos sobre essa percentagem por um momento. Quase metade do milho cultivado pelo maior produtor mundial de milho é utilizado em motores, e apenas uma pequena parte do que resta é cultivada para ser realmente consumida pelas pessoas.

Havia muito dinheiro em jogo. Um estudo amplamente citado revelou que, entre 2006 e 2014, os preços do milho foram cerca de 30 por cento mais altos do que teriam sido sem a obrigatoriedade. Os rendimentos agrícolas aumentaram. O valor dos terrenos em todo o Midwest subiu na mesma proporção. O mesmo aconteceu com algo mais difícil de perceber num balanço financeiro: a dependência. Os sistemas de combustível e os motores americanos não conseguem absorver confortavelmente muito mais do que 10% de etanol, um limite máximo a que a indústria chama «a barreira da mistura», e a produção de etanol tem estado encostada a essa barreira há mais de uma década. De poucos em poucos anos, Washington renegocia a obrigatoriedade e, de poucos em poucos anos, a economia de distritos rurais inteiros fica com a respiração suspensa. Se o consumo de gasolina nos EUA diminuir — o que acabará por acontecer com os veículos elétricos —, mesmo uma obrigatoriedade inalterada empurrará o etanol para além desse limite máximo dispendioso. O maior cliente do agricultor do Iowa é, no fim de contas, um parágrafo de regulamentação federal. Ele aprendeu a ler documentos normativos da mesma forma que o seu avô lia as nuvens. Os produtores brasileiros ficaram à mercê de um preço. Os americanos estão vinculados a uma política. Duas das maiores nações agrícolas do mundo chegaram à mesma conclusão: o combustível é um cliente diferente de tudo o que um agricultor já conheceu.

Terceiro Ato: Em avanço rápido

Em 2018, a Índia estabeleceu a meta de misturar 20 por cento de etanol na gasolina até 2030. O país atingiu esta meta em dezembro de 2025, cinco anos antes do previsto. Desde abril, todos os postos de abastecimento na Índia vendem E20. O milho desempenhou um papel fundamental para que isto fosse possível. No ano de abastecimento de 2024–25, o milho ultrapassou a cana-de-açúcar como principal fonte de etanol da Índia, fornecendo quase metade do abastecimento nacional a um preço fixado pelo governo de ₹71,86 por litro.

O Brasil precisou de quinze anos para reorientar as suas explorações agrícolas para a produção de combustíveis. Os EUA demoraram cerca de dez anos. A Índia fez essa transição em sete. Eu próprio testemunhei uma pequena parte desta mudança. Na zona de cultivo de milho de Nabarangpur, que faz fronteira com o meu distrito, um agricultor de Umerkote mostrou-me o campo onde costumava cultivar arroz até 2023. O agente da refinaria ofereceu-lhe 3200 rúpias por quintal, contou-me ele, em comparação com o preço local de 2600 rúpias. O acordo prometia recolha garantida, pagamento no prazo de 5 dias e ausência de regateio com os comerciantes. Ele aceitou. Quando lhe perguntei o que a refinaria fazia com o seu milho, ele respondeu-me que ia «para a empresa». Não sabia qual era a empresa nem o que faziam com ele. Não insisti. Foi uma resposta honesta. Em todos os anos em que vendeu cereais, nunca precisou de saber o que lhes acontecia após a venda. O que lhes acontecia depois.

Mas eis a que ele está agora ligado, quer alguém lho tenha explicado ou não. O preço do seu milho depende das compras das refinarias. As compras das refinarias dependem da obrigatoriedade de mistura. A economia dessa obrigatoriedade depende da procura de gasolina. E a procura de gasolina depende dos preços do petróleo bruto, da adoção de veículos elétricos e do número de trabalhadores de escritório em Bengaluru que optam por apanhar o metro. Um homem que nunca viu uma refinaria de petróleo encontra-se agora a jusante do petróleo bruto Brent e a montante do depósito de combustível de uma scooter.

Durante milhares de anos, os agricultores venderam as suas colheitas a pessoas que as consumiam. Quem consome é o cliente mais fiável da história. As populações crescem lentamente e, mesmo durante as secas, todos continuam a precisar de comida. Os condutores são um tipo de cliente muito diferente. Mudam de combustível, compram veículos novos e mudam-se para novas cidades. A sua procura muda com a tecnologia e os acontecimentos mundiais — duas coisas que nunca vi abordadas em nenhum guia agrícola que tenha levado a uma aldeia.

Que lições foram aprendidas?

Permitam-me ser cauteloso nesta questão, porque esta é a parte que acaba por ser reduzida a slogans. Não estou a argumentar que a mistura de etanol seja uma má política. A Índia importa a maior parte do seu petróleo bruto, e a questão da segurança energética é real. O dinheiro que chega aos agricultores também é real. Vi, de perto, o que um comprador garantido significa para uma família que passou gerações a negociar em posição de fraqueza à porta do mercado. O agricultor de que falo fez uma escolha racional. O negócio que tinha diante de si era demasiado bom para recusar.

Foto de Roger Starnes Sr. no Unsplash

A questão que os dois primeiros atos levantam é mais específica e mais complexa. O que acontece quando a procura de gasolina estabiliza? Não se trata de «se», mas de «quando». Os próprios decisores políticos da Índia estão a promover a mobilidade elétrica com a mesma convicção que demonstraram em relação ao etanol, e ambas as apostas não podem dar frutos na totalidade. Quer a transição ocorra daqui a cinco ou quinze anos, uma reserva de gasolina cada vez mais reduzida terá, um dia, de satisfazer uma percentagem fixa de mistura. A conta recai sobre a refinaria, e a conta da refinaria recai sobre um campo de milho.

O Brasil acabou por encontrar uma solução. Os carros flex-fuel, que surgiram quase três décadas após o início do Proálcool, permitem que os motores funcionem a gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois, proporcionando aos produtores de cana um mercado que pode ceder sem se partir. O que levanta uma questão que ainda não vi ser colocada na celebração atual: qual é a opção flexível para o produtor indiano, em vez de para o motor indiano? A resposta honesta hoje é que não existe nenhuma, a não ser regressar ao mercado de onde acabou de sair.

Mais um pormenor que não consigo deixar de referir. Em 2024, mesmo com as suas refinarias a comprar milho para combustível, a Índia tornou-se um importador líquido de milho, adquirindo cereais no estrangeiro para substituir os que queimava no próprio país. O avicultor e a fábrica de etanol viram-se a disputar a mesma espiga, e um navio compensou a diferença.

Algures naquele cinturão do milho, um agricultor que conheço está a decidir quanto plantar na próxima época. O agente apresentou-lhe o preço, e o preço parece bom. Parecia bom em São Paulo, em 1985, e em Des Moines, em 2010. Ninguém se sentou à frente desses agricultores para lhes explicar quem era realmente o seu cliente.

BICO CALADO

  • «Ponham os olhos nestes dois. Vocês, que torcem por esta seleção como quem vai para Aljubarrota, vocês que se excitam pela pátria com esta sombra de futebol, lembrem-se de quão destrutivo podem ser o egoísmo, o narcisismo e a falta de espinha. Para estes dois, valeu tudo para tentarem sair por cima. A causa do desastre é, em grande parte, deles. Ponto. Foram eles que roubaram dois mundiais a Gonçalo Ramos e a outros que ficam na fila de espera para dar lugar ao egoísmo sem freio, enquanto se perde uma geração. De Roberto Martinez pouco se falará, cheira-me. Daqui a nada deve andar pelas Arábias. Quanto a Cristiano Ronaldo apenas confirmo o que sempre pensei: dificilmente veremos algo deste calibre no que o futebol tem de persistência, talento e sacrifício. Fez-se a si próprio e isso tem um mérito incontestável. Na sombra, no quotidiano, pode ainda ter gestos muito cristãos, mas o seu ego, a sua falta de respeito pelo coletivo, o seu egoísmo doentio são também o seu bilhete de identidade. Por isso, CR7 acaba como mereceu. Pena ter enterrado outros com ele. Por mim, até podia ser um ET no relvado, mas quando olho para as decisões que toma e, de certo modo, impõe, não passa de um profissional de segunda. Está óptimo para uma sociedade do eu, cada vez mais atomizada, cega de individualismo. E ainda convence os garnizés de sempre que adoram homens providenciais. "Demos o nosso melhor", desabafou Diogo Costa no final. Não, não deram. Foram subservientes com a mais abjecta sociedade que a seleção de todos vós já pariu: Roberto & Cristiano, Lda. Amanhem-se.» Miguel Carvalho, A DUPLA.


  • O regime de Trump confiscou pelo menos 8 mil milhões de dólares da riqueza petrolífera da Venezuela desde que derrubou e capturou o presidente Nicolás Maduro em janeiro. Agora, enquanto a Venezuela luta para lidar com dois sismos catastróficos ocorridos no final do mês passado, que mataram pelo menos 3 300 pessoas e deixaram dezenas de milhares de feridos e desalojados, com 41 000 a 50 000 pessoas dadas como desaparecidas, os EUA estão a fornecer apenas 300 milhões de dólares em ajuda humanitária, uma pequena fração do dinheiro que roubaram. Fonte.
  • Os trabalhadores alemães deixarão de poder faltar ao trabalho por motivo de doença sem um atestado médico no primeiro dia de doença. A reforma visa combater o número «extraordinariamente elevado» de dias de baixa por doença entre a população ativa do país. Atualmente, os alemães têm direito a três dias de baixa por doença sem atestado médico, embora os patrões possam solicitar um atestado mais cedo. Fonte.
  • "Há vídeos de robôs quadrúpedes a disparar armas com precisão e recuo mínimo. Sei que temos vindo a chamar a estas coisas «cães-robô» este tempo todo, mas é um nome um pouco inadequado, uma vez que sabemos desde o início que foram concebidos apenas como um sistema de transporte todo-o-terreno para armas autónomas destinadas a reprimir revoluções." Caitlin Johnstone.
  • Marine Le Pen condenada a 15 meses de inelegibilidade . Fonte.
  • A UE autorizou a instauração de processos penais contra qualquer pessoa que partilhe vídeos da RT na Internet, devido às sanções impostas à Rússia na sequência da invasão da Ucrânia. Com esta nova medidaos cidadãos europeus podem agora vir a cumprir pena de prisão efetiva se partilharem vídeos da RT nos seus próprios sites pessoais.
Cartune de Angel Boligan

LEITURAS MARGINAIS

OS ESTÁDIOS E OS ESTÚDIOS COMO NOVOS BRINQUEDOS POLÍTICOS


“(…) A sinédoque fatal “Portugal perdeu?!” terá ecoado longamente pela noite fora -imagino- e não parará de acontecer até que alguma coisa menor se torne em assunto do dia. Podemos escolher: gente que perdeu a casa, crianças na miséria com as suas famílias, gente a dormir nas ruas, gente a nascer nos passeios, gente pouco "resiliente" a morrer antes da cirurgia cardíaca, os entrefolhos do país a arder, os combustíveis a subir e o crudea descer, as falências em série de PMEs, os despedimentos coletivos, os exames liceais esvoaçando pelos céus ministeriais como as Pombinhas da Catrina, que hão-de ser de quem as apanhar,

O arroubo “patriótico” vira-se contra o espanhol, claro. Por menos, foi morto o Conde Andeiro, em 1383. E algum traidor nas fileiras poderá ser defenestrado qual Miguel de Vasconcelos, em 1640. Que se passou, desta vez, entre o oito e o oitenta?

Virão os analistas, os jornalistas, os treinadores, os ex- e os jogadores, políticos, empresários, especialistas de marketing desportivo, doutores da ciência da previsão e da revisão, economistas, tarólogos, tudólogos, toda a opinião publicada… daqui não sairemos sem gente crucificada. Nós em questões de bola somos uma fera, sabemo-lo.

A imensa ficção lúdica do jogo transformada em questão pátria, com Primeiro-Ministro e respetivo séquito transatlantizados “entre Braga e Nova Iorque”, para citar Variações, não fica assim. Um horoscópico deputado “orgânico”, Hugo Soares, situou bem a questão: - com um “amuleto” como o Primeiro-Ministro a “seleção” nada tem a temer. Falava depois da vitória sobre a Croácia, de onde chegaram imagens do Luís a trabalhar no balneário, agarrando-se a Ronaldo, com o presidente da Federação de Futebol, Pedro Proença, agarrando-se ao Luís, tudo de cachecol ao pescoço e a demagogia a subir a níveis mais elevados que o esplendor na relva.

Assim foi sempre. Com o poder político a sanguessugar o desporto. Os primeiros campeões mundiais portugueses de alguma coisa, os hoquistas dos anos 1940, ou os Eusébios de 1966 bem o sabiam. Agora que o desporto se agarre às abas do poder político, para se transformar em mais poder ainda, isso é coisa mais elaborada.

A seleção de futebol tem-se constituído numa metáfora da dominação política do negócio do nosso tempo: o homem-marca -no caso, Cristiano Ronaldo-, que para além do que ganha e dá a ganhar à Federação em metálico, entenda-se, pode, a troco disso declarar, à revelia dos treinadores e responsáveis, que só sai da seleção quando ele quiser, e não quando “vocês” quiserem.

A reprodução autoritarista pelo desporto do poder cada vez mais violentamente oligocrático da política, é um modelar canal aberto para as condutas de uma sociedade barbarizada como a que temos hoje. Que mistura grunhidos quando ganha com vagidos quando perde. Que assobia para o lado e sai de fininho quando a coisa corre mal deixando os demais a naufragar por sua conta e risco, e dá entrevistas tonitruantes quando ganha, a bater no peito de todos tarzans de t-shirt "de Portugal”, salário de miséria e cabelo rapado em baixo com tufo em cima, que pululam pelas ruas e ecrãs.

É esse o modelo que o Primeiro-Ministro recomenda que cada português siga. É esta a subjetividade que o poder deseja produzir sob a marca “portugueses”. Contudo, enquanto o ar nesta latrina se vai tornando cada vez mais irrespirável, como dizia o título de um belo disco dos Mão Morta, o “ambiente amigo dos negócios” prosperará. ¿Verdad?"

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Adendas:

 
  • «"Burros" e "vendidos", foi desta forma que Sandra Marisa Prata dos Santos, de 58 anos, secretária pessoal do primeiro-ministro desde novembro de 2025, classificou os jornalistas do Público que, na sua opinião, se 'atreveram' a questionar a viagem de Montenegro aos Estados Unidos, a terceira em apenas duas semanas, para assistir ao jogo da seleção portuguesa no Mundial de futebol, hoje frente a Espanha. Visivelmente incomodada com o título do post publicado na conta do Público no Instagram, Sandra Prata, que no passado foi secretária durante 12 anos de Joaquim Pinto Moreira, o antigo presidente da Câmara de Espinho que está a contas com a justiça no chamado 'caso Vortex', certamente esquecendo-se das funções oficiais que desempenha no gabinete de Luís Montenegro em S. Bento, não encontrou melhor maneira de comentar a notícia do que escrever na caixa de comentários: "Que título parvo, PM não é bombeiro, e para tratar dos incêndios temos o MAI". E rematou, aqui confundindo o diário Público com o semanário Expresso: "No Expresso ou são burros ou vendidos". Assim, tal e qual…» Fonte.