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quinta-feira, 11 de junho de 2026

QUARTEIRÃO DA MARISQUEIRA


Iniciaram-se, na penúltima quarta-feira, os trabalhos de demolição do «quarteirão da Marisqueira», autêntica vergonha da mossa cidade praia, estância de veraneio de 1ª classe. 
Mas alguns ocupantes das velhas casas reclamaram, e o trabalho foi suspenso porque a consignação do contrato ainda não foi feita pela Câmara. Nem os contratos de aluguer das casas da Ponte d'Anta. Efeitos do campeonato de voleibol.
Espinho Vareiro, 5 de junh ode 1987

FRANÇA: CÂMARA FAZ FRETE A PROJETO DE ZIDANE


O município de Onet‑le‑Château (Aveyron, França) aprovou a construção de um complexo privado de padel de 2,5 hectares promovido pela SCI Z5, pertencente à família de Zinédine Zidane. O problema é que a parcela destinada ao projeto era classificada como agrícola e, portanto, inconstrutível segundo o Plano Local de Urbanismo.

Para viabilizar o projeto, o presidente da Câmara Jean‑Philippe Kéroslian recorreu a uma manobra jurídica: celebrou um bail emphytéotique administratif (um arrendamento público de longa duração) com a empresa de Zidane, tipo de contrato só permitido quando há interesse público, o que é contestado, já que o complexo é privado, com restaurante e instalações comerciais.

A Câmara justifica o “interesse geral” alegando diversificação da oferta desportiva, a popularidade crescente do padel, e as ações sociais prometidas pela família Zidane (acesso para escolas, jovens de bairros prioritários, etc.).

Um empresário local que tentou criar um projeto semelhante afirma ter recebido restrições muito maiores e não teve acesso a terrenos equivalentes. Além disso, o arrendamento concedido a Zidane é extremamente vantajoso: 1 650 € por ano durante 99 anos (cerca de 137 €/mês), muito inferior ao que outras cidades propuseram para projetos de menor envergadura.

O Coletivo pela Preservação das Terras Agrícolas do Rouergue contesta o projeto por ter alterado o PLUi que reclassificou a área como zona de lazer e vai implicar a artificialização de solo agrícola, contrariando os objetivos nacionais de redução desse tipo de ocupação. Denuncia-se ainda o apoio automático de instituições como a Câmara de Agricultura e a Prefeitura, apesar da falta de interesse público evidente. Fonte.

EUA: RESIDENTES RECORRERAM A GRUPO LOCAL DEPOIS DE A VIRGÍNIA TER APROVADO UM CENTRO DE DADOS A GÁS SEM CONSULTA PÚBLICA


Em Sterling, Virgínia, os residentes descobriram, após a sua construção, que um novo centro de dados — o Vantage VA2 — funcionava com turbinas a gás natural instaladas a poucos metros das suas casas. O projeto foi aprovado pelo estado como uma «fonte menor» de emissões, o que permitiu evitar consultas públicas e deixou a comunidade sem informação prévia.

Os residentes queixam-se de dores de cabeça, insónia e enxaquecas devido ao ruído constante, irritação pulmonar e problemas respiratórios, especialmente em crianças, e agravamento dos sintomas durante testes com geradores a diesel, que chegaram a transformar o ar em algo «semelhante a um cinzeiro».

A procura de energia dos centros de dados na Virgínia é tão elevada que os futuros centros têm de esperar anos para se ligarem à rede. Por isso, várias empresas estão a recorrer a microrredes com turbinas a gás. Nos EUA, há pelo menos 46 centros de dados fora da rede em desenvolvimento. O setor é economicamente gigantesco: contribui com 9,1 mil milhões de dólares para o PIB da Virgínia e quase metade do orçamento do condado de Loudoun.

Outro projeto ainda maior, o «Digital Dulles», prevê 23 turbinas a gás, o que preocupa os residentes. A comunidade de Sterling organizou-se para exigir transparência e proteção. Os ativistas alertam outras comunidades: «Vocês são os próximos.» Fonte.

PAÍSES BAIXOS: PROPRIETÁRIOS DE PAINÉIS SOLARES CONVIDADOS A DESLIGAR SISTEMAS DURANTE OS PERÍODOS DE PICO PARA ALIVIAR A CRISE DE DISTRIBUIÇÃO

Foto: Eneco.
  • Os Países Baixos enfrentam um grave congestionamento na rede elétrica, e a Liander, operadora do sistema de distribuição, afirma que cerca de 7 300 clientes estão a enfrentar longos atrasos ao tentarem aumentar a potência das suas ligações à rede. Estes atrasos afetam famílias e empresas que pretendem instalar bombas de calor, carregadores de veículos elétricos ou sistemas solares de maior dimensão. A diretora de operações da Liander, Sarike van Wette, explica que muitos clientes solicitam ligações de maior potência desnecessariamente, o que agrava o congestionamento. Ela apela aos consumidores que ajustem o seu consumo de energia — por exemplo, carregando veículos elétricos à noite ou utilizando eletrodomésticos durante os picos de energia solar diurnos — para reduzir a pressão sobre a rede. Fonte.
  • Carolina do Norte processa empresa química por poluir um ribeiro nas proximidades. Desde 2023, a cidade de Durham aplicou multas no valor de 157 000 dólares à Brenntag por infrações relacionadas com a contaminação da água. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O MUNDIAL DO FUTEBOL DEIXA-TE DEPRIMIDO? EIS UMA CONTRA-HISTÓRIA DO FUTEBOL
Alexandre-Reza Kokabi, Reporterre. Rev. O’Lima.

O mundial de futebol mostra mais uma vez: o futebol profissional tornou-se uma indústria insustentável. Do Brasil à França, este desporto é também, nos estádios ou nas ruas, um belo espaço de resistência, como retratam estas obras.

O pontapé inicial será dado na quinta-feira, 11 de junho. Quarenta e oito equipas, três países anfitriões — Canadá, EUA, México —, milhares de quilómetros de voo entre os locais de competição, uma parceria da FIFA com a Aramco, gigante petrolífera saudita, e lucros que prometem ser recordes.

O mundial de 2026 é um estudo de caso: com o mundial do Catar em 2022 e os seus 6.500 trabalhadores migrantes mortos nas obras, nunca uma competição desportiva simbolizou tanto a insustentabilidade estrutural do desporto-espetáculo. O que ela reflete é aquilo em que o futebol profissional se tornou em trinta anos: uma indústria indiferente ao planeta que a sustenta.

A revolução liberal, ou como o futebol foi capturado

Para compreender como chegámos a este ponto, é preciso recuar até aos anos 90. É isso que Jérôme Latta faz em «No que o futebol se tornou — Três décadas de revolução liberal» (Divergences, 2023). Co-fundador da revista Cahiers du football e colunista do jornal Le Monde, Jérôme Latta descreve nele uma «revolução liberal que envenenou o futebol, tornando-o mortalmente sedutor»: a explosão dos direitos televisivos, que reconfigurou as competições e os seus calendários, já não para o público, mas para as emissoras; a liberalização do mercado de jogadores, reduzidos a «ativos especulativos»; a concentração de recursos numa mão-cheia de clubes, formando uma oligarquia cujo poder financeiro determina agora os resultados desportivos. Os estádios tornaram-se «centros de lucro», os espectadores «consumidores».

Um outro futebol nunca deixou de existir

O que as seguintes obras desmontam é a ideia de que o futebol popular seria um paraíso perdido. Um outro futebol coexiste, resiste, reinventa-se — por vezes nos mesmos relvados que o futebol-negócio, nas mesmas bancadas, e há muito mais tempo do que se pensa.

Uma história popular do futebol, de Mickaël Correia — publicado em 2018 pela editora La Découverte, e posteriormente adaptado para banda desenhada com JC. Deveney e Lelio Bonaccorso pela Delcourt em 2025 — dá-nos uma ideia disso. O livro acompanha a bola «a partir de baixo», e cada exemplo diz algo sobre uma época.

Durante a Primeira Guerra Mundial, as «municioneiras» — as operárias das fábricas de armamento britânicas — fundaram as suas próprias equipas de futebol e jogaram perante dezenas de milhares de espectadores. Em 1920, 53 000 pessoas assistiram a um jogo das Dick, Kerr Ladies em Goodison Park. A 5 de dezembro de 1921, a Federação Inglesa proibiu os clubes de emprestarem os seus campos a equipas femininas. A proibição durou cinquenta anos. No entanto, as jogadoras continuaram, em parques improvisados, ou fundando, cinco dias depois, a sua própria liga.

Os jogos disputados pelo clube de futebol feminino «Dick, Kerr Ladies FC» atraíam até 50 000 espectadores. Museu Nacional do Futebol

Depois surgiu Matthias Sindelar, um avançado austríaco com a alcunha de «Mozart do futebol». Após a Anschluss [anexação da Áustria], em março de 1938, o regime nazi organizou um jogo que supostamente celebrava a anexação da Áustria: as duas equipas deveriam terminar o encontro num empate fraterno a 0-0. Perante 60 000 espectadores no Praterstadion de Viena, Sindelar esforçou-se por falhar as suas oportunidades… até aos 70 minutos, quando marcou. Depois, dançou ostensivamente diante da tribuna dos dignitários nazis. A Áustria venceu por 2-0. Sindelar recusou-se depois a vestir a camisola do Reich. Foi encontrado morto em circunstâncias obscuras em janeiro de 1939.

Quarenta anos depois, é no Brasil que a bola rola contra uma ditadura. Em «Lateral esquerdo — Figuras do futebol político» (Libertalia, 2026), o jornalista e historiador do desporto Nicolas Kssis-Martov relata, nomeadamente, a experiência da «democracia corinthiana»: de 1981 a 1984, o médico e médio Sócrates e os seus companheiros do Sporting Clube Corinthians Paulista inventaram uma forma de autogestão total do clube — jogadores, massagistas e motoristas de autocarro votavam em conjunto todas as decisões, em pé de igualdade. Estampam «democracia» nas costas das camisolas, engajam-se no movimento Diretas Já a favor de eleições livres e transformam o campo numa tribuna. A ditadura vai perdendo força. Os Corinthians não são alheios a isso.

Esta linha continua até aos dias de hoje. Em 2022, ainda no Brasil, as torcidas do Corinthians — entre as quais os Gaviões da Fiel declararam publicamente em 2018 que «um Gavião não vota em Bolsonaro» — quebram os bloqueios erguidos por camionistas bolsonaristas para impedir a transição democrática após a derrota do presidente cessante. Nos relvados, nas bancadas ou nas ruas, esta história popular do futebol continua a ser escrita.

Cartografar, propor, inventar

É esta efervescência que documenta o Atlas do Futebol Popular, de Yann Dey-Helle (Terres de feu, 2024), responsável pelo site Dialectik Football, um meio de comunicação com uma perspetiva decididamente anticapitalista sobre o futebol. O seu inventário é minucioso: desde os «supporters’ trusts» ingleses (essas associações de adeptos que, desde os anos 90, resistem aos proprietários, retomam os seus clubes ou criam novos) até ao Unionistas de Salamanca, clube da terceira divisão espanhola gerido por mais de 5 000 sócios sem qualquer acionista privado; desde o Clapton Community FC de Londres (clube antifascista da décima divisão, enraizado na zona popular do leste da capital, que atrai várias centenas de espectadores a cada jogo) até ao coletivo feminista La Nuestra na Argentina, cujas jogadoras reivindicam um futebol livre das lógicas do desempenho e da competição.

Dian Malal, capitão da equipa FSGT Melting Passes em 2017. © Alexandre-Reza Kokabi / Reporterre

Em França, as alternativas, ainda escassas, desenvolvem-se sobretudo à margem do futebol federativo tradicional, no âmbito da FSGT — Federação Desportiva e Ginástica do Trabalho —, que acolhe clubes como o Les Dégos, um coletivo composto maioritariamente por lésbicas e pessoas trans que lutam contra a discriminação no desporto, ou ainda o Melting Passes, nascido do encontro entre menores estrangeiros isolados e estudantes de Direito, cuja epopeia foi documentada no filme Just Kids.

O Ménilmontant FC 1871, em Paris, fez a escolha oposta: evoluir no seio da FFF — no distrito de Seine-Saint-Denis — para «alcançar o maior número possível de pessoas», segundo os seus fundadores. Autogerido, autofinanciado, funcionando em assembleia aberta onde cada voz tem o mesmo peso, este clube, nascido em 2014 na esteira de ativistas antifascistas e ex-ultras parisienses, reivindica uma identidade política afirmada. O seu slogan: «Love football, hate fascism». O documentário Notre Ligue des champions dá a palavra aos seus membros.

As Dégos participaram no torneio «Futebol para todos», organizado pelas Hijabeuses em junho de 2021. © Teresa Suárez

Estas alternativas têm os seus limites, algo que Yann Dey-Helle não esconde. Atuar num sistema capitalista impõe compromissos. E o futebol popular, mesmo que prospere nas divisões amadoras e numa federação à parte, tem dificuldade em fazer com que as instâncias que regem o futebol de alto nível se mexam.

Contrariar, driblar, inventar

É precisamente esse teto que o Foot Manifesto — 15 propostas para salvar o futebol, de Mickaël Correia e Sébastien Thibault (Divergences, 2026), cujo primeiro capítulo está vazio, intencionalmente — procura derrubar. Esta ausência de palavras é dedicada ao silêncio imposto a Christophe Gleizes, jornalista da So Foot e da Society, detido na primavera de 2024 enquanto investigava a Jeunesse Sportive de Kabylie — o maior clube de futebol da Argélia — e condenado a sete anos de prisão sob acusações de apologia ao terrorismo, criminalizando, na realidade, uma reportagem. A redação do Reporterre junta-se aos autores para exigir a sua libertação.

Estruturado em três fases — contrariar, driblar, inventar —, o livro reúne jornalistas, académicos, educadores e escritores em torno de quinze propostas. Algumas dizem respeito à regulamentação: abolir a Bola de Ouro, esse mecanismo de transformação em estrela que naturaliza uma ordem mundial capitalista e eurocêntrica sob o manto da meritocracia desportiva; reformar uma FIFA que o seu próprio presidente, Gianni Infantino, transformou, segundo eles, numa monarquia privada.

Outras medidas dizem respeito à democratização: instaurar a propriedade coletiva dos clubes, garantir a gratuitidade das transmissões e organizar a descarbonização das competições numa época de alterações climáticas. Outras ainda, mais inesperadas: transformar os grandes estádios — muitas vezes construídos com fundos públicos, ocupados por clubes privados e vazios três quartos do tempo — em instalações com uma missão social, abertas a associações, a estruturas de inserção social e aos habitantes dos bairros populares, que são frequentemente mantidos à margem.

«A apropriação do futebol por parte dos obcecados pela rentabilidade não é uma fatalidade», escreve Mickaël Correia no prefácio. Nesse ponto, estas obras recordam que, para acabar de vez com o negócio do futebol, é ao capitalismo que se deve atacar. O futebol, por sua vez, sobreviverá, pois «não precisa de todo esse dinheiro que se derrama sobre ele e que o corrompe», escreve Jérôme Latta. «Aqueles que o amam não o amarão menos.»

O Mundial de 2026 será o que for: quarenta e oito equipas, três países, a Aramco. Entretanto, noutro lugar, a bola rola de outra forma.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

BICO CALADO


RTP: Como deve ser um debate sério sobre a atual situação no Irão – Miguel Szymanski e Pedro Ponte e Sousa.

LEITURAS MARGINAIS

O MUNDIAL MAIS RACISTA DA HISTÓRIA
Nate Bear, Substack. Rev. O’Lima.

O Mundial de Futebol começa esta quinta-feira e o regime norte-americano já garantiu que será o mais racista da história.

Ao árbitro somali Omar Artan, nomeado pela FIFA, eleito o melhor árbitro de África no ano passado e que viajava com passaporte diplomático, foi recusada a entrada nos EUA quando aterrou em Miami, tendo sido obrigado a regressar ao seu país.

A seleção iraniana foi obrigada a transferir a sua base de treinos do Arizona para o México, e ao treinador da equipa, bem como a vários membros da equipa técnica, foram recusados vistos para os EUA. Os EUA estão também a exigir que a equipa iraniana entre e saia do país no dia dos jogos, uma condição claramente destinada a prejudicar o seu desempenho nas partidas. A atribuição de bilhetes aos adeptos iranianos também acaba de ser retirada, o que significa que não haverá adeptos do Irão nos estádios.

O vice-capitão da seleção iraquiana, Ayman Hussein, foi detido, revistado e interrogado no aeroporto O’Hare, em Chicago, durante sete horas, enquanto ao fotógrafo da seleção iraquiana foi recusada a entrada e foi mandado de volta logo após a aterragem.

A seleção do Senegal foi tratada como criminosa ao aterrar, com os seguranças a não lhes permitirem entrar no terminal e a revistá-los completamente na pista. A seleção do Uzbequistão foi revistada de forma semelhante após sair do autocarro junto ao estádio Icahn, em Nova Iorque, antes de um jogo amigável contra a Holanda.

Pelo menos 90 adeptos de dois dos principais grupos de adeptos de Marrocos viram-se também impedidos de obter vistos antes do torneio, a maioria ao abrigo de uma cláusula que invoca dúvidas quanto à sua intenção de regressar a casa, apesar dos seus históricos de viagem documentados para a Rússia 2018, o Qatar 2022 e os Jogos Olímpicos de Paris. Alguns perderam milhares de dólares em reservas de hotel não reembolsáveis.

Estas recusas surgiram na sequência da recusa inicial de concessão de visto ao jogador marroquino Zakaria El Ouahdi, que joga na Europa, depois de funcionários da embaixada dos EUA o terem assinalado como um risco, uma vez que consideraram que o seu pai tinha uma barba suspeita.

A equipa sul-africana esperou meses pela emissão dos vistos para os EUA, o que levou a uma queixa pública do ministro do Desporto do país, que afirmou que tinham sido «ridicularizados», e, até esta semana, continuavam à espera que quatro vistos fossem processados.

A Associação Internacional de Imprensa Desportiva afirma que a muitos jornalistas iranianos e africanos foram recusados os vistos necessários para entrar nos EUA e cobrir o torneio.

Tudo isto está a levar as pessoas a comparar este Mundial com os Jogos Olímpicos nazis de 1936, mas isso é injusto. Em 1936, a Alemanha nazi ainda não tinha atacado nenhum país soberano, assassinado nenhum chefe de Estado nem cometido nenhum holocausto.

Alguns utilizadores do Twitter não perceberam isto, mas espero que os meus leitores entendam esta observação como uma piada absurda destinada a transmitir uma mensagem extremamente séria sobre a barbárie do império norte-americano.

A verdade é que o regime dos EUA cometeu todos estes atos criminosos apenas nos últimos meses, desde o rapto de um chefe de Estado, passando pelo assassinato de um chefe de Estado (e da sua família), até um ataque a uma nação soberana por esta se ter recusado a submeter-se ao império. E o holocausto de Gaza, patrocinado pelos EUA e cometido pelo seu representante colonial utilizando armas e tecnologia do regime, continua em curso.

Portanto, sim, o argumento é válido. O Mundial está a ser organizado por um regime supremacista branco, um regime que impõe proibições absolutas aos cidadãos de vários países do Sul Global cujas seleções se qualificaram para o Mundial, incluindo o Irão, o Haiti, o Senegal e a Costa do Marfim. Um regime que possui instalações semelhantes a campos de concentração, onde as pessoas desaparecem ou morrem rotineiramente. Um regime que fala constantemente em termos abertamente racistas sobre a necessidade de salvar a civilização ocidental das pessoas não brancas e que, por isso, não é claramente adequado para acolher um dos eventos desportivos globais mais proeminentes e multiculturais do mundo.

No entanto, apesar de tudo isto, compare-se a cobertura mediática dos crimes cometidos pelos EUA no contexto da organização do Mundial com a atenção dedicada ao Catar, à Rússia ou ao Brasil. Onde estão as reportagens sobre as violações dos direitos humanos cometidas pelos EUA? Onde estão os programas especiais de notícias na televisão sobre a repressão e as políticas de extermínio em massa dos EUA? Onde estão os artigos de opinião angustiados sobre a violência armada nos bairros desfavorecidos? Onde estão os protestos das seleções nacionais contra as políticas do país anfitrião?

A seleção alemã tapa a boca em protesto contra a restrição à liberdade de expressão no Catar

A hipocrisia evidente que se manifesta é apenas mais uma acusação contra os liberais sem princípios e demonstra como os súbditos do império, sejam eles jornalistas ou atletas, fecham os olhos aos crimes do império. É fácil falar abertamente a partir do coração do núcleo imperial contra quem está de fora, quando se sabe que não haverá consequências por fazê-lo. É muito mais difícil possuir princípios genuínos que nos coloquem em conflito com os nossos governantes e financiadores.

Mas, em muitos casos, é provavelmente muito mais simples e mais horrível do que isto. É provável que muitos no centro imperial simplesmente concordem com a violência imperial e a apoiem. Para muitas pessoas, o facto de o Catar e a Rússia terem políticas draconianas contra os homossexuais é pior do que um holocausto quando as vítimas são palestinianos, os miseráveis da Terra, uma população essencialmente sub-humana aos olhos dos imperialistas.

O Mundial de Futebol é uma síntese perfeita da impunidade com que os imperialistas conseguem cometer os seus crimes.

Em 2017, quando surgiram preocupações sobre os EUA como potencial anfitrião, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirmou: «Qualquer equipa, incluindo os adeptos e os dirigentes dessa equipa, que se qualifique para um Mundial precisa de ter acesso ao país; caso contrário, não há Mundial. É óbvio. Os requisitos serão claros.» Mas agora, com os árbitros acreditados pela FIFA e o pessoal das equipas a serem proibidos de comparecer, o covarde Infantino diz que estas questões são da exclusiva responsabilidade do país anfitrião.

Sem consequências nem condenação. Apenas a pura impunidade do império.

A FIFA exigiu que os países anfitriões de edições anteriores do Campeonato do Mundo aprovassem leis especiais para contornar todo o tipo de regulamentação, a fim de garantir o bom desenrolar dos eventos anteriores. A África do Sul aprovou uma Lei de Medidas Especiais exigida pela FIFA, enquanto o parlamento brasileiro, em 2013, aprovou e codificou uma Lei Geral da Copa do Mundo de 900 páginas, abrangendo tudo, desde disposições penais a processos de visto e liberdade de imprensa. Mas tais exigências não foram feitas aos EUA, cujo regime pode banir quem quiser, incluindo árbitros da FIFA e equipas técnicas.

O império goza de impunidade pelas suas ações por parte de outros imperialistas como Infantino, que possuem essencialmente a mesma política. Na sua mente, não há necessidade de o império branco aprovar leis especiais para o Mundial, porque a governação não só já é adequada ao fim a que se destina, como é infinitamente superior. Quando o império exerce poder e autoridade, esse poder e autoridade, ao contrário dos exercidos pela periferia, são, por definição, legítimos.

Talvez tudo isto sirva de alerta para o desporto, mas é improvável, porque não se trata apenas da FIFA ou do futebol. O que estamos a ver nesta Copa do Mundo vai ao cerne do império e do sistema de valores que o sustenta.

O que estamos a ver é o racismo, a hipocrisia e os dois pesos e duas medidas que sempre vêm à tona quando os princípios liberais professados colidem com as realidades imperiais.

Não, este fiasco não vai mudar a FIFA, mas deve servir-nos de lembrete de que o império é uma construção ilegítima e um projeto falido que, quando chegar ao fim, acabará por levar também à FIFA.

terça-feira, 9 de junho de 2026

ALBÂNIA: RESORT DE LUXO APOIADO POR KUSHNER GERA PROTESTOS

  • O projeto de um resort de luxo apoiado por Jared Kushner, genro de Donald Trump, está a desencadear uma onda de protestos em Tirana, na Albânia. A Affinity Partners, empresa de investimento liderada por Kushner, pretende desenvolver empreendimentos turísticos na ilha de Sazan e na zona de Zvernec, perto de Vlora, uma das áreas costeiras mais sensíveis do país. Os manifestantes contestam sobretudo a escolha do local: trata‑se de uma zona húmida protegida, habitat de flamingos e de várias espécies de aves migratórias. A indignação é agravada pela falta de transparência do governo albanês, que tem mantido sigilo sobre as negociações com a Affinity Partners, iniciadas em 2024. O primeiro‑ministro, Edi Rama, rejeita as críticas. Garante que o projeto trará benefícios económicos significativos e descreve as preocupações ambientais como «desinformadas». Vai ainda mais longe ao sugerir que os protestos fazem parte de uma «guerra híbrida» promovida por rivais regionais, incluindo a Grécia. Esta controvérsia soma‑se a outras envolvendo Kushner nos Balcãs. Há poucas semanas, o empresário abandonou um plano para construir um hotel Trump em Belgrado, depois de forte oposição pública e da detenção de um ministro sérvio ligado ao projeto. Fonte.
  • 4 000 pessoas reuniram-se em Rennes no domingo para defender a água, convocadas por um coletivo de associações e ONG ambientais. Numa região onde os recursos hídricos são frágeis – 75% da água potável dos bretões provém de águas superficiais, devido à falta de aquíferos –, a tensão em torno deste recurso é intensa. Tanto mais que a qualidade da água está muito degradada por décadas de agricultura intensiva: atualmente, apenas 8% das massas de água encontram-se em bom estado ecológico em Ille-et-Vilaine. Fonte.
  • As autoridades do Arizona encerraram indefinidamente um lago popular aos visitantes, após a morte recente de toda a sua população de peixes. O departamento de recreação e vida selvagem responsável pela manutenção do Lago San Carlos afirmou que as condições de seca, bem como a água libertada de uma barragem na zona, resultaram numa mortandade em massa que afetou aproximadamente 100 % da população de peixes. Fonte.
  • Embora alguns países pareçam estar a alcançar um crescimento verde — crescimento económico acompanhado de uma redução no uso de materiais —, os dados são muito menos animadores quando analisados ao longo de períodos de tempo mais extensos e com dados mais completos. Há um grande problema nas atuais alegações de sucesso na dissociação: o seu uso de recursos continua muito acima dos níveis sustentáveis. O crescimento verde não é impossível, mas os dados atuais exageram os progressos alcançados. Para permanecer dentro dos limites planetários, os países de elevado consumo devem reduzir o uso absoluto de materiais, e não apenas abrandar o seu crescimento. Alguns países (como Cuba e a Somália) demonstram que isso é possível, mas os seus percursos são diversos e não são facilmente replicáveis. Fonte.
  • Os maiores bancos do mundo comprometeram-se a conceder 906 mil milhões de dólares em financiamento à indústria dos combustíveis fósseis em 2025, um aumento «incompreensível» do investimento que garante mais anos de produção de carvão, petróleo e gás, numa altura em que o mundo continua a aquecer. O aumento dos novos empréstimos para combustíveis fósseis, que subiram 64 mil milhões de dólares ou quase 8% em relação a 2024, mostra que os 65 maiores bancos do mundo estão a tomar decisões incompatíveis com os acordos internacionais para conter o aumento das temperaturas globais, de acordo com a coligação de grupos ambientais responsável pela nova análiseFonte.