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domingo, 22 de março de 2026

LEITURAS MARGINAIS

COMO OS EUA E ISRAEL ESTIVERAM PRESTES A INICIAR UMA GUERRA CONTRA O IRÃO HÁ 20 ANOS
Jonathan Cook, Substack. Trad. O’Lima.

Em 2008, a Pluto Press publicou o meu livro «Israel e o Choque de Civilizações: Iraque, Irão e o Plano para Remodelar o Médio Oriente». Foi uma tentativa de explicar como Israel tinha persuadido um grupo de aliados belicistas em Washington – conhecidos como neoconservadores (ou neocons, para abreviar) – a trabalhar a partir do seio da administração de George W. Bush para apoiar uma ambição israelita de longa data de balcanizar o Médio Oriente: ou seja, usar a força para derrubar os regimes da região, especialmente aqueles que resistiam ao domínio militar de Israel sobre a região. Os neoconservadores começaram a sério com o Iraque em 2003 e, em seguida, planeavam avançar para o Líbano, a Síria e terminar no Irão.

Os benefícios para Israel eram múltiplos. Em primeiro lugar, o colapso dos regimes enfraqueceria as maiorias muçulmanas, permitindo a Israel manipular melhor as tensões existentes entre as comunidades sunitas e xiitas; forjar mais facilmente alianças com outras minorias, como os drusos, os cristãos e os curdos, que reforçariam a posição estratégica de Israel; e impedir qualquer ressurgimento de um nacionalismo árabe unificador que tinha sido tão evidente durante as décadas de 1950 e 1960.

Em segundo lugar, os Estados falhados, dilacerados por uma guerra civil permanente, deixariam Israel livre para dominar militarmente a região e garantir a sua aliança privilegiada com Washington.

Em terceiro lugar, na altura, Israel e os neoconservadores estavam empenhados em quebrar o controlo da Arábia Saudita sobre o cartel petrolífero da OPEP e, assim, minar a influência saudita em Washington, bem como a sua capacidade de financiar o extremismo islâmico e a resistência palestiniana. (Estas preocupações foram posteriormente ultrapassadas quando uma nova vassoura em Riade, na figura do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, abandonou a causa palestiniana e se aproximou cada vez mais de uma normalização formal com Israel ao abrigo dos Acordos de Abraão.)

Em quarto lugar, com a região em caos, Israel ficaria livre para concluir a expulsão do povo palestiniano do que restava da sua pátria.

Como o meu livro documenta, a invasão do Iraque em 2003 foi um desastre absoluto; o Hezbollah infligiu uma derrota humilhante a Israel quando este tentou invadir o sul do Líbano em 2006; em consequência, a expansão da guerra para a Síria teve de ser abandonada, para evidente desagrado dos neoconservadores da administração Bush; e o objetivo final de destruir o Irão teve de ser suspenso.

Dezoito anos é muito tempo em geopolítica. Mas publico abaixo um extenso excerto do segundo capítulo do meu livro, «A Longa Campanha Contra o Irão», porque oferece um registo detalhado de como Israel e os seus aliados neoconservadores na administração Bush apresentaram os mesmos argumentos para atacar o Irão que apresentam agora – e estiveram muito perto de conseguir o que queriam. Eles viam uma guerra contra o Irão como a segunda fase do ataque de 2003 ao Iraque. Acreditavam que os dois vinham como um pacote. Atacar apenas um iria fortalecer o outro. O que foi exatamente o que aconteceu depois de Israel e os neoconservadores terem orquestrado o colapso do regime no Iraque, mas não terem conseguido avançar para o Irão.

Vinte anos depois, a maior parte da cobertura da atual guerra entre os EUA e Israel contra o Irão tende a partir de dois pressupostos errados. Em primeiro lugar, que o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu foi o principal impulsionador, do lado de Israel, dos planos para atacar o Irão. Na verdade, como este capítulo e o anterior sobre o Iraque demonstram, a ideia era amplamente partilhada nos círculos militares e políticos de Israel. E, em segundo lugar, que Donald Trump foi o primeiro presidente dos EUA suficientemente tolo para cair na armadilha montada por Israel – ou, pelo menos, pelos doadores pró-Israel de Trump. Embora haja alguma verdade nisto, é também demasiado simplista. Todas as provas sugerem que a ideia de atacar o Irão – vendida como «remodelar o Médio Oriente» – ganhou terreno na imaginação dos políticos e responsáveis norte-americanos, incluindo no Pentágono, há mais de duas décadas.

O ex-comandante da NATO, o general Wesley Clark, confirmou-nos isso mesmo, quando relatou em 2007 que, durante uma visita ao Pentágono, lhe tinham falado de um plano, logo após os ataques de 11 de setembro às Torres Gémeas em Nova Iorque em 2001, para que as forças armadas dos EUA «derrubassem sete países em cinco anos, começando pelo Iraque e passando pela Síria, Líbano, Somália, Sudão e terminando no Irão».

Visto desta perspetiva, parece que os EUA e Israel têm vindo a traçar conjuntamente este rumo desde então. Após a primeira tentativa falhada, durante a administração de Bush, repensaram a sua estratégia e aguardaram até considerarem que todas as peças estavam no lugar. Um genocídio em Gaza deixou o Hamas encurralado no enclave. O Hezbollah foi amplamente derrotado e subjugado no Líbano. E o Estado sírio foi esvaziado, com a queda do regime de Bashar Assad em 2024, após anos de intrigas implacáveis – grande parte delas no âmbito da Operação Timber Sycamore – por parte dos EUA, de Israel e da Grã-Bretanha. O novo presidente sírio e antigo líder da Al-Qaeda, Ahmed al-Sharaa, que luta para manter o país unido à medida que surgem queixas sectárias e que, privado de qualquer coisa que se assemelhe a um exército nacional após repetidos ataques israelitas, é agora efetivamente um cliente dos EUA.

Numa declaração profética do início de 2005, o vice-presidente de Bush, Dick Cheney, afirmou: «Tendo em conta que o Irão tem uma política declarada cujo objetivo é a destruição de Israel, os israelitas poderão muito bem decidir agir primeiro e deixar que o resto do mundo se preocupe em resolver a confusão diplomática que se seguirá.»

É evidente que a «confusão» se estende agora muito para além dos problemas diplomáticos. (...)

BICO CALADO

Foto: Joe Giddens/PA
  • “(…) A qualidade profissional não interessa, se és comunista, estás tramado. Como André Ventura explicou, Chega e PSD voltaram ao rescaldo do Verão Quente e abriram a época de caça ao comuna - o que incluirá, como ele disse, a “limpeza” de socialistas e bloquistas.” Pedro Tadeu, UEC! UEC! Abriu a caça ao comuna?DN 20mar2026.
  • Jared Kushner, genro do presidente dos EUA Donald Trump, estará alegadamente a tentar convencer governos do Médio Oriente a investir milhares de milhões na sua empresa de capital de risco, ao mesmo tempo que desempenha as funções de «enviado especial para a paz» — um cargo que parece ter utilizado para ajdar a convencer Trump a declarar guerra ao Irão. Fonte.

sábado, 21 de março de 2026

ESPINHO: REDE DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA RENOVADA

  • A rede de abastecimento de água vai ser renovada na zona abrangida entre a Rua 20 e a Avenida 24 e entre a Rua 15 e a Rua 62. A obra implicará a substituição das condutas em fibrocimento, a criação de Zonas de Medição e Controlo e a instalação de Válvulas Redutoras de Pressão. Tudo por 567.509,48€, com uma comparticipação do Fundo de Desenvolvimento Regional de 247.948,11€, e a realizar em 6 meses pela MSA Construções e Obras Públicas – Manuel Francisco de Almeida SA. Fonte.
  • Falta de incentivos públicos compromete mosaico agroflorestal que previna fogos rurais. Apesar do aumento de apoios públicos à agricultura entre 2020 e 2023, a gestão ativa do território em Portugal diminuiu drasticamente. Desapareceram cerca de 800 mil hectares de áreas agrícolas declaradas (quase metade), enquanto o número de agricultores se manteve estável, indicando que há mais dinheiro, mas menos território gerido. A nova portaria que apoia o pastoreio extensivo (fundamental para reduzir combustível vegetal) vê-se limitada porque faltam pastores. O rácio de agricultores com mais de 65 anos por jovem (menos de 35) subiu de 14 para 1 em 2020, para 19 para 1 em 2023. Sem gestão ativa (pastoreio) e sem renovação geracional, o território torna-se acumulador de vegetação, comprometendo o mosaico agroflorestal, que é uma das principais defesas contra os incêndios rurais. A Zero crítica a natureza temporária dos apoios (limitados a 2026), defendendo que a prevenção de incêndios exige estratégias de longo prazo, não soluções avulsas dependentes de ciclos políticos. Propõe-se a criação de um rendimento equivalente a um Indexante dos Apoios Sociais para jovens agricultores em territórios vulneráveis. Fonte.

MARROCOS: AUTOPRODUTORES JÁ PODEM VENDER EXCEDENTE DE ENERGIA À REDE

  • Marrocos publicou o decreto de aplicação da Lei que permite aos autoprodutores consumir a sua própria energia solar e vender até 20 % do excedente de energia à rede. A medida entra em vigor a 9 de junho de 2026. Fonte.
  • Um novo estudo realizado por investigadores da Universidade de Vermont conclui que a maioria das pessoas em todo o mundo prefere a proteção do ambiente ao crescimento económico quando estes dois objetivos entram em conflito. O artigo, publicado na revista Ecological Economicsanalisou dados de dois importantes inquéritos internacionais, abrangendo respostas de residentes em 92 países. Os investigadores concluíram que quase 58 % das pessoas em todo o mundo valorizam a proteção ambiental mais do que o crescimento económico quando estes dois objetivos estão em contradição. Fonte.
  • Duas dezenas de estados norte-americanos e mais de 10 cidades interpuseram uma ação judicial contra a decisão da administração Trump de revogar a «declaração de perigo» que sustenta a regulamentação relativa aos gases com efeito de estufa. Fonte.
  • A Tesla tem estado a descarregar águas residuais tratadas da sua refinaria de lítio perto de Robstown, Texas, num vala de drenagem local. Embora a empresa possua uma licença estatal para descarregar até 231.000 galões por dia, o Distrito de Drenagem do Condado de Nueces afirma que não foi informado nem deu permissão para a Tesla utilizar o seu terreno e construir um oleoduto no local. Fonte.

BICO CALADO

Centro de dados de IA da Amazon Web Services em New Carlisle, Indiana, a 2 de outubro de 2025. 
Foto: Noah Berger/Getty Images via Amazon Web Services
  • Com as forças armadas a recorrerem cada vez mais à inteligência artificial, os centros de dados tornaram-se novos alvos para ataques. Fonte.
  • A BP suspende 900 trabalhadores do setor petrolífero no Indiana, EUA. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

“O QUE MAIS IRÁ SER ENGENDRADO NA LITERACIA FINANCEIRA?”
Carlos Ricardo Soares, comentários em De Rerum Natura.


“(…) A Economia, como disciplina científica, tem métodos de validação externa e pluralidade teórica, mas a Literacia Financeira surge como tecnologia educativa aplicada, frequentemente promovida por agentes com interesses próprios e a EMRC assume explicitamente uma função moral e formativa, ancorada numa tradição religiosa. A diferença fundamental entre estas três áreas não está apenas no conteúdo, mas na natureza da autoridade que reivindicam.
A Economia é a única que não depende de uma autoridade normativa externa, nem de uma doutrina religiosa, nem de um setor económico e, por isso, é a única que no se presta facilmente a ser transformada num catecismo. Já a Literacia Financeira e a EMRC, embora muito diferentes entre si, partilham a característica de proporem uma visão de comportamentos que se devem ter, de como se deve agir, consumir, poupar, partilhar, viver. Ambas operam no território sensível da formação de valores e comportamentos, e ambas podem, se mal enquadradas, transformar professores em catequistas e alunos em reprodutores de preceitos e de comportamentos.
A literacia financeira, tal como é frequentemente promovida, tende a apresentar uma visão financeirizada do mundo como se fosse a própria realidade. O indivíduo como gestor de si, o mercado como mecanismo natural de organização social, o risco como escolha individual, a poupança como virtude cívica, não são uma visão científica, mas ideológica, no sentido em que molda e apela a uma conceção de sociedade e de pessoa.
O problema ético surge quando esta visão é ensinada como se fosse neutra, técnica, inevitável. A literacia deixa então de ser emancipadora e passa a ser disciplinadora. Ao naturalizar estruturas económicas, desloca responsabilidades coletivas para o indivíduo e reduz a cidadania à adaptação a um sistema pré‑definido. A EMRC, por sua vez, assume a sua normatividade, mas pode igualmente tornar‑se prescritiva se não for dialogante.
As literacias apresentam-se como uma espécie de terapias alternativas, ou seja, estão para a educação como as homeopatias estão para a medicina. Lembram as terapias alternativas.
Falta-lhes uma validação epistemológica robusta. Muitas vezes não assentam em investigação sistemática, mas em consensos práticos, agendas políticas ou interesses setoriais. Entram no sistema educativo por via normativa, não científica, introduzidas porque “é importante que os alunos saibam isto”, não porque exista um corpo teórico consolidado que o justifique.
Há o risco de se tornarem doutrinas comportamentais, tal como algumas terapias alternativas prometem “harmonizar” o indivíduo, certas literacias prometem “formar” o cidadão ideal, responsável, resiliente, financeiramente prudente, digitalmente vigilante, sem discutir criticamente o modelo de cidadania subjacente.

Quando a educação se enche de literacias, corre o risco de substituir o pensamento crítico por comportamentos desejáveis, com as limitações e contra-indicações inerentes.
A questão central é que as literacias pressupõem sempre um modelo de cidadania antes de o discutirem. E quando esse modelo é invisível, o aluno não aprende a pensar, aprende a reproduzir.
Garantir que a educação para as literacias não reduz a imaginação democrática exige transparência, pluralidade, crítica e consciência dos pressupostos. Exige, sobretudo, que a escola continue a ser um espaço onde o real é discutido, não imposto, onde o possível é imaginado, não amputado, onde o cidadão é formado para pensar e não apenas para reproduzir.
A educação democrática exige literacias que preparem para imaginar o mundo como poderia/deveria ser, não apenas para viver no mundo tal como é.
Vivemos num tempo em que a escola se tornou o repositório de todas as expectativas sociais: literacias financeiras, digitais, ambientais, mediáticas, competências sócio-emocionais, educação para a cidadania, sustentabilidade, empreendedorismo, criatividade. Cada nova preocupação social gera uma nova literacia, e cada literacia traz consigo um projeto normativo.
Mas o tempo escolar é finito, e as capacidades cognitivas e emocionais dos alunos também.
Quanto mais se expande o campo daquilo que se quer ensinar, mais se torna difícil garantir a viabilidade, a prioridade e a coerência dos objetivos educativos.
A escola corre o risco de se transformar num mecanismo de normalização ideológica, em vez de ser um espaço de formação crítica.
A educação é simultaneamente instrumento económico, político e social. E quanto mais se expande o seu campo, mais ela própria se torna o mecanismo que legitima essa expansão, entrando numa circularidade que pode obscurecer os limites reais da aprendizagem humana.
Vivemos num momento em que alguns líderes políticos, ao rejeitarem mediações institucionais, direito, ciência, organismos internacionais, procuram substituir a objetividade institucional por “objetividade é o que eu quiser”. Não é apenas uma desconfiança da ciência, ou porque ela seja irrelevante, mas porque ela introduz limites, escrutínio e contestabilidade.
Neste contexto, a educação torna‑se um campo estratégico. Quem controla as literacias controla a narrativa do real.
E quando a literacia financeira, ou qualquer outra, é ensinada como se descrevesse o mundo tal como ele é, e não como uma entre várias formas possíveis de o organizar, ela pode tornar‑se um instrumento de redução da imaginação democrática.


sexta-feira, 20 de março de 2026

OVAR: ATERRO SANITÁRIO JUNTO DA PRAIA DE MACEDA EM PERIGO

  • Ovar teme desastre ambiental com aterro junto à praia da Maceda. Câmara Municipal denuncia que nada foi feito para proteger o aterro situado a 550 metros do mar, na praia da Maceda, onde as tempestades comeram 20 metros de areal, o maior recuo do continente. Carlos Coelho, professor no Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro, que tem desenvolvido investigação na área da protecção costeira sublinhava que se o mar continuar a avançar à razão dos últimos anos — uma média de dez metros por ano —, ainda há que esperar cerca de 50 anos até que chegue ao aterro. O que não invalida, porém, que se façam estudos que permitam aferir se já houve Infiltrações e se os solos já estão ou não lixiviados (se já há efluentes líquidos, altamente poluentes, formados pela passagem de água através de resíduos sólidos), admitiu o especialista. FonteJá em dezembro de 2020 o BE alertara para este problema.
  • A Junta de Freguesia de Anta, Espinho, denunciou a deposição ilegal de resíduos na Travessa do Gavião, alertando para uma situação que está a afetar as condições de salubridade e o escoamento das águas pluviais naquela zona. Perante esta enorme falta de civismo, a autarquia apela à colaboração da população para identificar os responsáveis e travar este tipo de práticas. FonteEspero que a autarquia, à semelhança da Amadoranão esteja a preparar uma ‘linha bufo’. Curiosamente, esta denúncia é publicada diretamente num semanário de Espinho. Na página do 'livro das caras' da autarquia só lá são partilhadas imagens de procissões e desfiles de Carnaval. Pouco mais.
  • Como os nossos sistemas hídricos passaram da crise ao colapso. À medida que mais um Dia Mundial da Água se aproxima, a ONU já não alerta para o stress ou a escassez — mas sim para o facto de termos chegado à falência hídrica. Tim Smedley, Medium.

BICO CALADO

Lotação esgotada?
  • Agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em veículos não identificados, cercaram Mohommad Nazeer Paktyawal em frente à sua casa, no Texas, quando ele se preparava para levar os filhos à escola. O homem de 41 anos, pai de seis filhos, que tinha servido ao lado do 3.º Batalhão das Forças Especiais do Exército dos EUA no Afeganistão, morreu sob custódia do ICE no dia seguinte. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O CINEMA PORTUGUÊS DURANTE O ESTADO NOVO


O Estado Novo usou a 7ª arte como instrumento de propaganda do regime e de educação ideológica. Através dela, procurou:

- exaltar a Pátria, a figura do “bom português”, o trabalho e a família humilde, honesta e estruturada, no seio da moral cristã;
- valorizar o respeito e admiração pelo “pobre, mas honrado” e pela “mulher recatada”;
- enaltecer o culto da autoridade, do nacionalismo, da moral tradicional e da hierarquia social;
- promover e defender a tradição;
- idealizar o mundo rural e o mar como lugares puros e genuínos, opostos à industrialização e à modernidade urbana;
- incutir o respeito pela autoridade e pela hierarquia; -
- evitar conflitos políticos ou críticas sociais explícitas.

Inteligentemente usou este poderoso meio de comunicação de massas, apoiando-o sempre que serviu o regime e censurando-o quando, pelo contrário, o atacava.

As duas primeiras décadas do Estado Novo, o SPN/SNI favoreceu e apoiou um cinema popular, ligeiro, humorístico, vincando a imagem paternalista do regime. Procurou, ainda, distrair a população dos problemas políticos e sociais, evitando a difusão de ideologias consideradas “perigosas” e o “excesso de modernidade”. Entre os temas focados no cinema português desse período, sobressaem a exaltação nacionalista, com glorificação de heróis e episódios da história portuguesa, a defesa da família, do trabalho e da fé católica. Mais do que um retrato realista da sociedade portuguesa, deu dela um reflexo idealizado, artisticamente valorizado pela qualidade técnica e narrativa dos respectivos realizadores. Entre os filmes produzidos nesses anos, as comédias populares, com humor ligeiro e saboroso, foram grandes veículos dos valores sociais que combinavam bem com a ideologia do regime. Muitas delas mostravam Portugal, como um país humilde, pacífico, tradicional e estável, mostrando bairros populares harmoniosos, comunidades rurais unidas, respeito pela autoridade e pelas hierarquias e conflitos resolvidos sem pôr em causa o regime. Famílias bem estruturadas, realçando os valores tradicionais nos papeis do homem, da mulher e dos filhos, a obediência e bom comportamento.

Os filmes bem ao gosto do regime, uns encomendados, outros apoiados, reforçavam valores caros a Salazar, como a família bem estruturada, romances ligeiros, tendo o casamento como destino final. Promoviam a ideia de um Portugal essencialmente rural e virtuoso. Mostravam folclore, fado e música tradicional, festas populares, touradas, varinas, marchas de Lisboa. A pobreza estrutural era suavizada e a censura garantia que temas incómodos fossem omitidos. Assim, o cinema ajudava a manter uma imagem de normalidade.

O regime não controlava só pela censura, também financiava, premiava e orientava. O SNP e, depois, o SNI apoiavam filmes que mostrassem tradições regionais, harmonia social, patriotismo e ruralidade. O Fundo do Cinema Nacional apoiava preferencialmente os projetos considerados “seguros”, na óptica do regime. Temas sociais ou outros tidos por “inseguros”, na dita óptica, tinham mais obstáculos. Isto condicionava, à partida, os argumentos que se escreviam.


Comédias urbanas, como O “Pátio das Cantigas”, “O Costa do Castelo” ou “A Canção de Lisboa”, transmitiam uma imagem simpática da população, valorizavam a família, tinham um final conciliador e ignoravam quaisquer aproximações à política. Eram as mais aconselhadas para manter o público longe dos problemas sociais e políticos e para divulgar, lá fora, a imagem de Portugal pretendida pelo regime.

Dramas rurais, como “Ribatejo” ou “Nazaré” mostram o ruralismo, tido por central na ideologia do regime. Mesmo com dureza, exaltam trabalho, tradição, comunidade. O realismo em “Nazaré” era aceitável porque não atacava o Estado directamente.

Filmes socialmente críticos, como “Saltimbancos”, “Vidas sem Rumo” ou “Belarmino” que focam marginalidade urbana, quebrando a imagem de harmonia, sofreram cortes, fraca promoção e circulação limitada

Nesses anos, o cinema era sujeito a dois níveis de censura, um antes da filmagem, em que o respectivo guião era submetido a aprovação por parte do SPN/SNI e de uma Comissão de Censura, e outro, após a filmagem, em que a cópia final (o filme) era analisada e aqui, por decisão dos censores, podia sofrer cortes ou, simplesmente, ser proibida. O interessado (autor, produtor) submetia, para escrutínio prévio, argumentos, sinopses ou diálogos, o que, muitas vezes, levava os autores a fazerem autocensura, precaução que desvirtuava a criatividade e explica por que não foram, sequer, abordados, tantos temas. Numa outra situação o importador ou exibidor faziam chegar, os filmes à dita Comissão, a fim de poderem ser visionados e, ou eram aprovados, segundo os princípios morais e políticos do regime, e autorizadas as respectivas exibições, com ou sem cortes censórios, ou reprovados e, portanto, de exibição proibida. Outro tanto acontecia com o cinema estrangeiro, nomeadamente, o soviético, o neorrealismo italiano, e o da Nouvelle[RU1.1] Vague francesa. Mesmo depois do filme aprovado, a publicidade também era controlada. Cartazes e material promocional só podiam ser afixados após aprovação. O incumprimento desta norma podia dar lugar a suspensão ou, mesmo, a proibição de exibição.

Os censores vigiavam, especialmente, críticas ao regime, pobreza estrutural atribuída ao sistema, greves, organização operária, sexualidade fora da moral oficial, ataques à Igreja e desordem social. Pelo contrário, apoiava as obras consideradas ideologicamente favoráveis ao ideário oficial, que promovessem valores como, nacionalismo, ruralismo, família tradicional, respeito pela religião católica, entre outros. Houve cineastas que tentaram e conseguiram contornar a censura, explorando temas sociais de forma metafórica.