AIR INVICTUS: MAIS DE 5 MILHÕES DE FACHADA TURÍSTICA PARA PROMOVER A INDÚSTRIA DE DEFESA NACIONAL
Entre 19 e 21 de junho de 2026, o Air Invictus decorreu no Porto, Gaia, Maia, Matosinhos e Espinho. Foi vendido como um grande evento aéreo aberto ao público, com entrada gratuita e promessa de um milhão de visitantes. Na realidade, tratou-se de uma operação financiada maioritariamente com dinheiro público que serviu, acima de tudo, para promover a indústria de defesa nacional e garantir acesso privilegiado a quem pode pagar.
O dinheiro que foi gasto
O evento consumiu pelo menos 5,45 milhões de euros de fundos públicos:
- Turismo de Portugal: 3,89 milhões de euros
- Câmaras municipais:
- Porto: 425 mil euros
- Gaia: 425 mil euros (além deste valor, a Câmara organizou duas áreas VIP)
- Matosinhos: 325 mil euros
- Maia: 325 mil euros
- Espinho: 50 mil euros (para o período de 12 a 19 de junho)
Estes apoios foram aprovados em grande parte antes de existir licença da Autoridade Nacional da Aviação Civil. A autorização só foi emitida na véspera do evento.
O que o evento realmente foi
Para além das corridas aéreas e acrobacias, o Air Invictus incluía a Eyes in the Sky, uma feira dedicada à indústria de defesa aérea, aeronáutica e aeroespacial. Participaram empresas com participação estatal, com exposição de drones, sistemas não tripulados e equipamentos militares.
O evento foi apresentado oficialmente como alinhado com a Estratégia 2035, que visa parcerias internacionais, incluindo com países árabes e asiáticos. Em junho de 2026, o ministro da Defesa anunciou que Portugal admitia participar em operações com drones no Estreito de Ormuz — capacidades que foram precisamente promovidas durante o festival.
Ou seja: o que foi justificado como “promoção turística” funcionou, na prática, como uma montra de capacidades de defesa e de posicionamento estratégico.
As promessas e a realidade
A organização repetiu que o evento atrairia 1 milhão de visitantes. No entanto, a transmissão em sinal aberto na TVI obteve uma audiência de 425 mil espectadores em todo o país. É difícil sustentar que mais gente tenha assistido presencialmente do que viu na televisão.
Também foi garantido que viriam 300 mil estrangeiros. Os preços dos hotéis no Porto não subiram de forma significativa em alguns casos chegaram mesmo a baixar, o que contraria a narrativa de grande afluência internacional.
O retorno económico de 100 milhões de euros foi amplamente anunciado. Até ao momento, não existe qualquer auditoria independente que confirme este valor.
Quem beneficiou realmente
- A indústria de defesa com participação estatal ganhou visibilidade e contactos num momento de crescimento das exportações e de discussão de novos programas europeus.
- O organizador ganhou projeção nacional e posicionamento para futuras edições ou negócios relacionados com aviação e defesa.
- As elites tiveram acesso a zonas VIP exclusivas — algumas delas organizadas pela própria Câmara de Gaia —, com bilhetes que chegavam aos 3.500 euros por experiência premium.
- Os autarcas envolvidos obtiveram imagem de grandes eventos internacionais.
Enquanto isso, o contribuinte comum pagou a maior parte da conta e setores locais, como os operadores turísticos do Douro, viram a sua atividade condicionada.
Falta de transparência
Não existe, até hoje, uma auditoria independente que confirme o número real de visitantes ou o impacto económico efetivo. Os custos operacionais das duas áreas VIP organizadas pela Câmara de Gaia nunca foram tornados públicos. Os 5,45 milhões de euros de dinheiro público nunca foram detalhados ao cêntimo.
A justificação de “evento turístico” serviu para canalizar verbas para um projeto com forte componente de promoção industrial e estratégica, com muito menor escrutínio do que teria se o financiamento viesse diretamente do Ministério da Defesa ou da Economia.
O Air Invictus não foi uma festa popular. Foi uma operação paga com dinheiro público que serviu, essencialmente, para promover interesses da indústria de defesa e garantir experiências exclusivas para quem pode pagar.
Com mais de 5,45 milhões de euros dos contribuintes, criou-se um evento em que as elites tiveram acesso privilegiado a zonas VIP, a indústria de defesa ganhou montra e contactos estratégicos, e os autarcas obtiveram projeção. O resto — a narrativa de grande evento popular e de forte retorno económico — não foi comprovado de forma independente.
Isto não foi apenas despesismo. Foi o uso de verbas públicas, justificadas como turismo, para servir objetivos industriais e estratégicos, enquanto se oferecia acesso premium a uma minoria. O povo pagou. Poucos beneficiaram. E as contas claras ainda não foram apresentadas..