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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

PRAIAS INTERDITAS A BANHOS MAIS QUE DUPLICARAM

  • Registou-se um agravamento significativo da qualidade das águas balneares em Portugal continental em 2026. Com base na comparação dos dados mensais da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e da Direção-Geral da Saúde (DGS) relativos a maio, junho e julho de 2025 e 2026, verifica-se que as restrições ao banho aumentaram 65%, passando de 51 (em 2025) para 84 (em 2026), apesar de o número de águas balneares identificadas ter diminuído ligeiramente; os desaconselhamentos subiram de 34 para 45, e as interdições, decretadas pelas autoridades de saúde, registaram um umento de 129%. A contaminação microbiológica (presença de bactérias como E. coli e Enterococos) foi a principal causa, tendo por isso as interdições disparado 143% (de 14 para 34), com o mês de julho a concentrar a maioria dos casos. Esta situação revela a as crónicas deficiências na rede de saneamento, descargas agropecuárias e industriais e poluição difusa, sendo, por isso, necessário tomar medidas de prevenção e uma ação inspetiva forte e sistemática. Fonte.
  • Os banhos estão desaconselhados desde hoje nas praias de Codixeira, Lagoa e Zona Urbana Sul II , Póvoa de Varzim, devido a “valores elevados” de enterococos intestinais e/ou E. coli. Fonte.
  • Autorizado abate de veados após destruição de soutos em aldeia de Trás-os-Montes. Fonte.
  • Metade dos concelhos do Grande Porto cobra água, lixo e saneamento acima da média nacional. Em mais de metade dos municípios da Área Metropolitana do Porto (AMP), os moradores têm de desembolsar montantes acima da média nacional pelos serviços básicos de água, saneamento e resíduos urbanos, com Valongo (45,78 euros para um consumo mensal de 10 metros cúbicos, acima da média de Portugal continental de 34,65 euros) e S. João da Madeira (45,54) a liderarem a tabela. Ainda assim, é uma melhoria face ao ano passado, altura em que apenas os consumidores de quatro municípios pagavam abaixo da média (33,08 euros), com o Porto a destacar-se entre eles. Fonte.

CAMPANHAS PARA APELAR ÀS EMOÇÕES DAS PESSOAS TÊM MAIS PROBABILIDADES DE INSPIRAR AÇÕES EM PROL DO CLIMA?

  • Um estudo da UNIGE revela que, para promover a ação climática, as emoções são mais importantes do que a informação. Uma investigação da Universidade de Genebra sugere que as mensagens concebidas para despertar emoções — como um sentimento de admiração perante a beleza de uma paisagem — são mais eficazes do que a simples apresentação de factos científicos. Em contrapartida, as mensagens que realçam a responsabilidade individual e coletiva parecem ter pouco ou nenhum efeito. Publicados no Journal of Environmental Psychology, estes resultados oferecem orientações práticas às autoridades públicas e às organizações que procuram comunicar de forma mais eficaz sobre as alterações climáticas. Fonte.
  • O estado de Sarawak, na Malásia, está a planear operações de semeadura de nuvens no início deste setembro (provavelmente entre 3 e 5 de setembro) para combater o agravamento da neblina causada pelos incêndios florestais na vizinha Indonésia. A semeadura de nuvens visa também reabastecer reservatórios e barragens criticamente esvaziados após um período prolongado de seca. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Mark Passmore Photography
  • REFLEXÕES SOBRE AS REMUNERAÇÕES NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: ainda não terminou 2026 e já há trabalhadores que perderam poder de compra, o governo junta-se aos patrões para tornar Portugal um país de salários mínimos . Eugénio Rosa.
  • Uma fuga de documentos revela acordos secretos entre o Uganda e Israel relativos a drones. Enquanto o Uganda se prepara para enviar tropas para uma «força de estabilização» em Gaza, documentos internos revelam um programa israelita, que já dura há vários anos, destinado a modernizar as capacidades do país em matéria de drones. Fonte.
  • Israel recebe da Alemanha o sexto submarino Drakon para a sua marinha. Fonte.

IA
  • “(…) Esta União Europeia envergonha hoje qualquer europeu que antes se orgulhava de pertencer a um espaço político onde a ética e a coerência de princípios contavam. Na cimeira da NATO, a União, com a honrosa excepção da Espanha, ajoelhou-se aos pés de Trump, aceitando gastar 5% do PIB em armas — e americanas, de preferência. Fica como símbolo dessa capitulação o português Luís Montenegro tentando dar “uma palavrinha” particular a Trump, dizendo-lhe que éramos velhos amigos dos Estados Unidos e sugerindo alguma misericórdia para connosco na rajada das tarifas, e o português António Costa, presidente do Conselho Europeu, acalmando as indignações surdas com a previsão de que o que a União cedera nas armas pouparia nas tarifas. Viu-se. Na Escócia, Ursula von der Leyen começou por ser ainda mais humilhada por Trump do que o fora por Erdogan. Na Turquia, não tinha cadeira para se sentar, no clube de golfe privado de Donald Trump, na Escócia, para onde foi convocada, teve uma cadeira para se sentar enquanto esperava longamente que o Presidente americano acabasse um jogo de golfe com o filho e tivesse disponibilidade para a receber. Assim tratada como serventuária — ela e a Europa que representa —, não admira que depois tivesse sido sujeita a uma capitulação total e humilhante pelo abusador profissional americano. Von der Leyen aceitou um aumento das tarifas sobre as exportações europeias para os Estados Unidos de 15%, quase mil vezes o que vigorava e em troca de tarifas de 0% para as exportações americanas dirigidas à Europa. Desistiu de taxar as tecnológicas americanas ou de minimamente controlar os seus abusos. Aceitou comprar 750 mil milhões de dólares de energia aos Estados Unidos, assim interrompendo a estratégia de descarbonização em que a UE estava a ser pioneira e substituindo-a por uma total dependência energética de um só país — muito para lá daquilo que se criticava aos países europeus que compravam energia à Rússia. Agora, os EUA passam a determinar a política energética da Europa, aumentam livremente os preços, e Trump e os seus amigos do petróleo, negacionistas das alterações climáticas, encontram um mercado garantido à medida das suas ambições. Mas a senhora foi ainda mais longe, comprometendo-se a investir 600 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e a gastar em armas americanas o grosso do investimento a ser levado a cabo para atingir os tais 5% do PIB em armamento. Se tudo isto fosse exequível e executado, acabava a Europa que conhecemos: livre, próspera, orgulhosa do seu sistema social. Mas, mesmo sem o podermos ainda dizer, Von der Leyen, que já enxovalhara a União e os valores europeus com o seu silêncio cúmplice perante o genocídio em Gaza, rematou agora a sua prestação prostrando-se aos pé de um fora-da-lei internacional e dando-lhe tudo o que ele queria, na esperança de o conseguir apaziguar. Mas até nisso esta funesta alemã que nos calhou em sorte está errada: quando se cede uma vez perante a intimidação e a chantagem, está escrito que se terá de ceder mais vezes. Trump é um vampiro que precisa de se alimentar todos os dias do sangue dos fracos, dos indefesos, dos que se ajoelham e dos que ele inveja. Os tempos vão maus e mesmo incompreensíveis para quem gostaria de se orgulhar de ser português e europeu. Resta-nos ter vergonha: pode ser que eles reparem." Vergonha. Miguel Sousa Tavares, Expresso. Via Armando Santos.
Lajes, Terceira-Açores, março 2003 – Barroso, Blair, Bush e Aznar, na véspera da invasão do Iraque. 
Cimeira também conhecida como ‘Cimeira dos Caixões’.
  • “Os nossos governantes sofrem de uma virose grave que afecta severamente as sua capacidade de discernimento e as suas posições na política internacional. Conseguiram pôr o País na mira da Rússia e do Irão, relativizam os crimes de guerra dos chefes da banda do outro lado do Atlântico, branqueiam o genocídio em curso no nosso Mediterrâneo, minimizam as violações do direito internacional, colaboram, assistem, são cúmplices em estado terminal. A ‘estirpe viral’ que infectou o governo grassa há anos e o ‘doente número 1’ tem um nome: Durão Barroso. O actual primeiro-ministro e o actual ministro dos negócios estrangeiros limitam-se a cambalear, febris, em direcção às trincheiras atrás de quem enriqueceu a trair os mais elementares interesses de Portugal. Estas pessoas deviam ser ignoradas, socialmente, para não contagiarem e porem em perigo a população e o País com a sua doentia ambição e obediência cega a todas as ordens de Washington e Bruxelas.” Miguel Szymanski.
  • Não são os imigrantes que estão a invadir a Europa. A ignorância, a falta de solidariedade e o desconhecimento da História é que estão a pavimentar as estradas. Tiago Franco.
  • O plano para roubar o petróleo da Venezuela, um esquema vil e profundamente estúpido. Paul Krugman, Substack.

LEITURAS MARGINAIS

Festa do “Avante!” é a casa dos oprimidos
Bruno Carvalho, Abril Abril.

Gaza, 8ago2025. (Foto: Omar Ashtawy/APA Images)

“É cada vez mais evidente a interferência israelita nos assuntos internos de Portugal. Vários influencers foram acusados de receber dinheiro em troca de uma viagem a Israel com o objetivo de promoverem em Portugal a narrativa propagada pelas autoridades daquele Estado, apontado como responsável por um genocídio contra o povo palestiniano. Mas já em Julho de 2024, quando decorriam massacres a larga escala em Gaza, várias figuras públicas, entre deputados, autarcas e comentadores televisivos, tinham estado presentes na despedida do embaixador de Israel, Don Shapira. Carlos Moedas, Rodrigo Saraiva (IL), Pedro Frazão (Chega), Pedro Delgado Alves e Sérgio Sousa Pinto (PS), Liliana Reis e Alexandre Poço (PSD), Telmo Correia (CDS) e os comentadores Helena Ferro Gouveia e Nuno Rogeiro foram alguns dos convidados.

Meio ano depois, em Fevereiro de 2025, de acordo com a revista Sábado, Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, dava uma descompostura «praticamente em público» a quatro deputados do PSD, acusando-os de serem «terroristas anti-Hamas». Bruno Ventura, Carlos Reis, Liliana Reis e Regina Bastos tinham estado, pouco tempo antes, numa visita oficial a Israel, em contactos com o governo e militares, e foram também acusados de «passar informações» sobre Portugal a Israel.

Agora, numa orquestra bem afinada, assistimos a meios de comunicação social, deputados, comentadores televisivos, influencers e o embaixador de Israel a falarem no mesmo tom sobre a participação de organizações palestinianas na Festa do "Avante!". O facto de isto acontecer há tantos anos e de só estar a ser falado agora mostra bem como é um caso criado artificialmente para atacar o PCP.

Os mesmos que não estranharam a publicação de imagens de crianças ucranianas em formações de como fazer cocktails molotov nas televisões portuguesas e que nunca questionaram, e bem, a resistência armada dos polacos no Gueto de Varsóvia contra as forças nazis vêm agora questionar o direito inalianável dos povos à resistência contra o colonialismo através de todos os meios, incluindo a luta armada, consagrado pelas Nações Unidas. Já muito se disse sobre o facto de Nelson Mandela ter sido acusado de terrorismo. O histórico líder sul-africano dirigiu o Umkhonto we Sizwe, braço armado do ANC, que esteve durante décadas nas listas de organizações terroristas dos Estados Unidos e do Reino Unido.

De facto, há muito que a discussão sobre o que é ou não terrorismo é estéril. Mais do que uma designação penal, o termo é instrumentalizado politicamente. O próprio PCP foi acusado de terrorismo pela ditadura salazarista. O UÇK kosovar que foi acusado de traficar os órgãos das suas vítimas nunca foi considerado terrorista porque era aliado do Ocidente, mas era considerado terrorista pela Jugoslávia e, mais tarde, pela Sérvia. Os exemplos sucedem-se para mostrar que classificar de terrorista uma organização é uma escolha apenas política. Portanto, a decisão dos Estados Unidos ou da União Europeia de incluirem a FPLP na lista de organizações terroristas é isso mesmo: política.

«Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão». Isto não foi retirado de um panfleto comunista. Isto é o que diz ipsis verbis o ponto 3 do artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa. E também esta foi uma decisão política aprovada pelos deputados constituintes eleitos pelos portugueses.

Evidentemente, a maioria dos governos, imprensa e partidos ocidentais tem-se mostrado mais chocada com os 15 mil civis mortos na Ucrânia, segundo dados das Nações Unidas, do que com os 80 mil civis mortos em Gaza. Também é uma opção política. Fingir que apoiam a Ucrânia porque é o país agredido quando praticamente em todos os casos estiveram do lado do agressor (Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Líbano, Venezuela, Irão, etc) é também uma decisão política.

A questão dos métodos é muito abordada e discutida, mas apenas quando se fala da luta dos povos pela sua libertação. A imprensa raramente fala dos métodos do opressor e expõe dedicada atenção aos métodos do oprimido. É justo debruçarmo-nos sobre a humanidade de cada um dos actos mas não os podemos desligar da luta colectiva. Perder esse horizonte é perder tudo. Sobretudo quando silenciamos os crimes do opressor. Lembro-me do filme A Batalha de Argel. Um dos principais dirigentes da Frente de Libertação Nacional Argelina está algemado e é interrogado pelos jornalistas franceses numa conferência de imprensa. Um repórter pergunta-lhe sobre os métodos utilizados pela resistência argelina. «Não é cobarde usarem malas de mulher com explosivos que matam inocentes?». O dirigente argelino olha-o e responde: «Não é mais cobarde atacar as nossas aldeias indefesas com napalm que mata milhares de vezes mais? Obviamente que ter aviões deixaria tudo mais fácil para nós. Dêem-nos os vossos bombardeiros e nós damo-vos as nossas malas».

Para o povo palestiniano, resistir é existir. De cada vez que assinam um acordo de paz, são traídos por Israel. As leis que serviram para punir a Rússia não existem para Israel. As armas e o dinheiro dos nossos impostos que serviram para fortalecer a Ucrânia não chegam aos palestinianos. Só se pode defender quem o Ocidente decide. Os restantes são terroristas.

Portugal tem no seu território uma embaixada do Estado que massacra palestinianos em massa e ocupa o seu país, de um Estado que aprovou a pena de morte exclusivamente para palestinianos. Vários partidos apoiam Israel e recebem representantes desse regime. Essa é uma decisão política. E a decisão política do PCP foi a de receber na sua festa, uma vez mais, aqueles que lutam pela libertação da Palestina.

Nos últimos anos, várias pessoas acabaram presas ou multadas pela sua solidariedade com a Palestina. Nove juízes do Tribunal Penal Internacional e procuradores; a relatora especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese; Fergie Chambers, o principal doador para projetos humanitários em Gaza está preso em Madrid a pedido dos Estados Unidos; em toda a Europa, protestos foram proibidos e milhares de manifestantes solidários com a Palestina foram detidos, sobretudo em Inglaterra, Alemanha e França. O que está em curso é evidente. Uma campanha internacional liderada por Israel e pelos Estados Unidos, com a conivência de vários países europeus, para silenciar, amedrontar e criminalizar a solidariedade com o povo palestiniano. Não podemos permitir que no nosso país isso aconteça.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

PLANO DE RECUPERAÇÃO DA NATUREZA: MAIS DE METADE DOS PAÍSES DA UE NÃO CUMPRE PRAZO

[Arterra/Universal Images Group via Getty Images]
  • Mais de metade dos países da UE não cumpriu o para a apresentação dos seus planos nacionais de restauração da natureza, um requisito fundamental previsto na Lei da UE sobre a Restauração da Natureza. A Lei da Restauração da Natureza só foi aprovada após um intenso conflito político, marcado por uma forte oposição por parte dos lóbis do setor agrícola, resistência por parte de vários governos, e um debate altamente polarizado no Parlamento Europeu. O incumprimento do prazo compromete essa legitimidade e dá munições aos opositores para argumentarem que a lei é irrealista ou excessivamente onerosa. Fonte.
  • Numa aparente violação da sua própria política, o banco holandês ING ajudou empresas do setor dos combustíveis fósseis a angariar mais de 900 milhões de dólares à Vår Energi, à Aker BP e à NEO Energy, empresas de petróleo e gás que ainda estão a perfurar ou pretendem desenvolver novos campos petrolíferos no Mar do Norte.

REFLEXÃO

QUANDO AS EMPRESAS DO SETOR DO PLÁSTICO ELABORAM OS PLANOS DE AULA

A indústria do plástico está a oferecer às escolas programas curriculares que apresentam os plásticos como seguros, recicláveis e uma fonte de bons empregos. Os críticos afirmam que se trata de propaganda.

Joseph Winters, Grist. Rev. O’Lima.

Nic Antaya / The Washington Post via Getty Images

Este outono, 54 milhões de alunos do ensino básico e secundário regressam às salas de aula para mais um ano de aulas nas disciplinas tradicionais: matemática, inglês, história e biologia. Mas há outra disciplina que tem vindo a infiltrar-se nos programas escolares: os plásticos.

Um novo relatório da organização sem fins lucrativos Plastic Pollution Coalition documenta as várias formas como a indústria do plástico tem vindo a introduzir a sua agenda nas salas de aula norte-americanas — incluindo, através de planos de aula e fichas de trabalho, experiências científicas práticas e um programa chamado «PlastiVan», que viaja de cidade em cidade a ensinar os alunos sobre «a contribuição dos plásticos para a vida moderna».

De acordo com o relatório, os interesses da indústria disponibilizam estes recursos aos professores gratuitamente ou a preços reduzidos. Os materiais tendem a destacar a necessidade dos plásticos, ao mesmo tempo que minimizam os seus efeitos negativos significativos para a saúde humana e para o ambiente.

«Quando essa informação é transmitida às crianças, obscurece os verdadeiros impactos da poluição por plástico», afirmou Madison Dennis, gestora sénior de políticas e defesa da Plastic Pollution Coalition e uma das principais autoras do relatório. Além de prejudicar a vida marinha, os plásticos podem expor as pessoas a substâncias químicas perigosas, obstruir as redes de pluviais e contribuir para inundações, bem como libertar gases com efeito de estufa que aquecem o planeta. A organização de Dennis apela à adoção de políticas escolares mais rigorosas contra a utilização de materiais didáticos patrocinados pela indústria.

O relatório apresenta quatro estudos de caso sobre a «propaganda» da indústria do plástico dirigida a crianças em idade escolar. Um deles envolve a Sociedade de Engenheiros de Plásticos (SPE). Os planos de aula da SPE incluem atividades como uma «caça ao tesouro do plástico», que visa que os alunos «compreendam que os plásticos estão em todo o lado e a sua importância para a sociedade e para a sua vida pessoal». Um vídeo intitulado «A tua garrafa significa empregos» explica como a reciclagem de plásticos contribui para o emprego local.

Outro estudo de caso destaca a Associação Americana de Professores de Química, uma iniciativa da Dow Chemical Company. Um dos planos de aula da associação ensina alunos do ensino básico e secundário a comparar a resistência de vários tipos de sacos de plástico que podem ser encontrados numa mercearia. Após uma breve experiência, a aula convida-os a «fingir que são funcionários da Dow Chemical Company» e que estão a conceber um saco de plástico para um cliente.

Eve Vitale, diretora executiva da Fundação SPE, numa sala de aula da Escola Secundária Warren Mott, no Michigan, em 2024. O programa PlastiVan da SPE percorre escolas por todo o país para ensinar às crianças a ciência por trás dos plásticos e despertar o interesse numa futura carreira neste setor. Nic Antaya / The Washington Post via Getty Images

Embora muitos desses materiais afirmem apoiar os objetivos de aprendizagem das disciplinas STEM, fazem-no ao mesmo tempo que promovem argumentos habituais da indústria, enfatizando a acessibilidade e a segurança dos plásticos. Alguns reconhecem a poluição por plásticos como um problema grave, mas atribuem a culpa a comportamentos irresponsáveis dos consumidores e, em vez de recomendarem que se produza menos plástico, propõem o aumento da reciclagem como a principal forma de o resolver.

Na realidade, apenas 9% de todos os plásticos são reciclados a nível mundial, e os cientistas têm alertado repetidamente que a reciclagem não conseguirá acompanhar o crescimento previsto na produção de plástico. Reportagens de investigação revelaram que os grupos da indústria sabiam disto há décadas, mas promoveram a reciclagem na mesma, a fim de acalmar a crescente preocupação com a poluição por plástico.

Wendy Johnson, especialista em ensino de ciências do Centro Nacional para o Ensino das Ciências, afirmou que os planos de aula e as fichas de trabalho da indústria não refletem uma boa pedagogia. Os materiais que afirmam estar alinhados com os padrões estaduais de STEM não especificam quais os padrões que apoiam, nem de que forma estão alinhados. Os planos de aula instruem os alunos a ler as notas dos professores ou enumeram termos de vocabulário específicos da indústria, como «moldagem por sopro com estiramento» ou «termoendurecimento».

«Ao utilizar todos estes termos técnicos, está-se a induzir as pessoas a pensar… que estão a fazer ciência», disse Johnson à Grist. O que os materiais realmente ensinam, afirmou ela, são «perspetivas ideológicas sobre a economia», como a conveniência de bens de consumo baratos.

«A ideia não é ensinar», acrescentou Johnson, mas sim introduzir os argumentos da indústria nas salas de aula. O relatório documenta como a propaganda da indústria do plástico tem vindo a infiltrar-se nas escolas, pelo menos desde a década de 2000. Entre 2009 e 2011, por exemplo, uma associação do setor dos plásticos exerceu pressão sobre o Departamento de Educação da Califórnia para que fosse adicionada uma secção sobre «As vantagens dos sacos de compras» aos manuais escolares do ensino secundário do estado. A iniciativa PlastiVan está em curso desde 2011, e a SPE afirma que já chegou a mais de 132 000 alunos no total.

A Plastic Pollution Coalition sugere que o problema é particularmente grave nas escolas situadas perto de instalações petroquímicas. No Condado de Beaver, na Pensilvânia, por exemplo, a Shell opera um complexo de produção de plásticos e investiu milhões de dólares no desenvolvimento de programas curriculares relacionados com os plásticos e de programas de reciclagem, tanto para alunos do ensino básico como para estudantes de faculdades. Também doou centenas de mochilas cheias de material escolar e ofereceu a uma escola um campo de basquetebol — aparentemente em troca da integração da reciclagem de plásticos no currículo.

A Shell não respondeu ao pedido de comentário da Grist. O mesmo aconteceu com a SPE, a Associação Americana de Professores de Química, e com o distrito escolar do Condado de Beaver.

O relatório sugere a existência de um problema mais vasto no ensino das disciplinas STEM nas escolas públicas dos EUA. Os professores carecem frequentemente do tempo e dos recursos financeiros necessários para conceber os seus próprios programas curriculares ou para adquirir materiais e planos de aula de alta qualidade, indispensáveis para as experiências laboratoriais em sala de aula ou para projetos científicos. Quando grupos de interesses se apresentam a oferecer apoio — quer se trate da indústria do tabaco, da indústria da comida de plástico, da indústria dos pesticidas ou da indústria dos combustíveis fósseis —, pode ser difícil recusar.

«Como professora, estou sempre à procura de materiais gratuitos», afirmou Suzie Hicks, uma educadora ambiental do ensino básico (do jardim de infância ao 8.º ano) na Califórnia, que prestou consultoria no relatório da Plastic Pollution Coalition. Hicks referiu que a sua formação e experiência permitem-lhe avaliar com facilidade se os materiais contêm «greenwashing» — mas provavelmente não é esse o caso da maioria dos professores.

Dennis recomendou que os agrupamentos escolares adotassem políticas que proibissem materiais educativos patrocinados pelas indústrias química, dos combustíveis fósseis e do plástico. Ela também sublinhou a necessidade de um melhor financiamento escolar de forma mais geral, para que os professores e os municípios não fiquem tão desesperados por materiais didáticos prontos a usar.

Uma forma de alcançar este objetivo seria eliminar os benefícios fiscais concedidos às instalações de processamento petroquímico e de produção de plásticos, que privam as comunidades de recursos financeiros tão necessários.

Katie Allen, diretora executiva da Algalita, uma organização ambiental sem fins lucrativos sediada na Califórnia que desenvolve materiais educativos sobre a poluição por plástico, contestou a ideia de que as escolas devam proibir todo o conteúdo patrocinado pela indústria.

«Quando se começa a proibir uma coisa, onde é que isso acaba? O que eu quero é dar aos educadores o benefício da dúvida e permitir que tomem as suas próprias decisões», disse. Defendeu que se deve confiar nos professores para contextualizarem adequadamente os materiais da indústria — e que estes poderiam até utilizá-los para ensinar competências de pensamento crítico.

Dito isto, há muitos materiais educativos sobre plásticos desenvolvidos por fontes não ligadas à indústria. A Algalita, por exemplo, disponibiliza planos de aula gratuitos sobre temas como as ilhas de lixo plástico nos oceanos e a biomagnificação — o fenómeno em que os plásticos se acumulam no interior dos animais marinhos à medida que se sobe na cadeia alimentar. A The Story of Stuff, outra organização sem fins lucrativos, oferece um currículo mais abrangente para o ensino secundário, centrado nos custos e nas consequências da produção de bens de consumo — incluindo os fabricados a partir de plásticos.

Esses materiais didáticos continuam a provir de organizações com uma agenda própria. No entanto, Hicks argumentou que são mais fiáveis, uma vez que as organizações sem fins lucrativos normalmente não estão a tentar vender nada.

Outra opção é os professores simplesmente conceberem os seus próprios programas curriculares. Foi isso que Jacqueline Omania, uma professora do ensino básico recentemente aposentada em Berkeley, na Califórnia, fez em 2015. Transformou a sua sala de aula num laboratório «zero resíduos» e, todos os anos, durante 11 anos, Omania e os seus alunos desenvolveram um conjunto de acordos de «zero resíduos» para a sala de aula, comprometendo-se a minimizar o uso de plástico — por exemplo, trocando os tubos de cola individuais por um recipiente comum de cola —, ao mesmo tempo que defendiam mudanças mais sistémicas, como a campanha a favor de uma política que obrigasse os restaurantes de Berkeley a deixar de distribuir talheres de plástico descartáveis.

«Há muitos desafios no mundo, mas o plástico é algo tangível», afirmou Omania. «Está mesmo ali à frente deles, e conseguem ver a diferença que estão efetivamente a fazer através das suas ações.»

BICO CALADO

  • Pedir aos trabalhadores mais 3,43% do salário para fundos privados tem a sua graça, vindo dos mesmos sectores que passam a vida a lamentar o elevado esforço fiscal dos portugueses. Daniel Oliveira, Expresso 31ago2026.
  • Todas as escolas cristãs de Jerusalém anunciaram que irão suspender as aulas depois de Israel não ter renovado as autorizações de entrada de mais de 70 professores e funcionários, impedindo-os de se deslocarem às suas escolas. Fonte.
  • O número de pessoas sem-abrigo nos EUA atinge um nível recorde devido ao custo da habitação. Fonte.
  • 125 países estão legalmente obrigados a deter Netanyahu, à medida que o mandado do TPI paira sobre o primeiro-ministro israelita. Fonte.
  • Qualquer dia temos mais imigrante que pessoas. André Ventura, CNN.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

PENICHE: MINAS DE CAULINO E ARGILA NÃO SÃO BEM-VINDAS

AMPE ROGÉRIO/LUSA
  • A Quercus manifestou-se contra o projeto da Concessão Mineira C-185 «Royal China Clay», destinado à exploração de caulino e argilas na Serra d’El-Rei, no concelho de Peniche. A concessão é da responsabilidade da MOTAMINERAL – Minerais Industriais, S. A., e destina-se à extração, durante 20 anos, de matérias-primas para a fábrica de pasta de cerâmicas da MCS – Mota Ceramic Solutions. Para além de se criticar o período de férias escolhido para a consulta pública, que reduz a disponibilidade da população para participar no processo, alerta-se para o facto de a atividade mineira e a lavagem das areias para separação do caulino implicarão um consumo intensivo de água e poderão criar riscos de contaminação através de efluentes industriais. Além disso, a pressão extrativa poderá ultrapassar a capacidade de carga do território: a área da concessão está inserida na bacia hidrográfica do rio/ribeira de São Domingos, responsável pelo abastecimento de água ao concelho de Peniche através da Albufeira de São Domingos. A Quercus refere que já foram detetadas, na caracterização da água superficial de referência, concentrações acima dos limites legais para alguns parâmetros, incluindo ferro, alumínio, zinco, azoto amoniacal e parâmetros microbiológicos. A qualidade do ar é outra das preocupações, uma vez que não há Estudo de Impacte Ambiental, de monitorização e quantificação da sílica cristalina respirável. A Quercus levanta ainda dúvidas sobre a existência de uma caução ou garantia financeira associada ao projeto e questiona os benefícios fiscais locais do projeto, uma vez que a MOTAMINERAL tem sede em Alvarães, no distrito de Viana do Castelo, pelo que a exploração, apesar de afetar diretamente o território de Peniche, não geraria receita fiscal local nos termos apontados pela organização. Refira-se que os municípios de Peniche e Óbidos já manifestaram publicamente a sua oposição ao projeto, pelo que a Quercus considera que a Comunidade Intermunicipal do Oeste deve fazer o mesmo. Fonte.
  • Moradores voltam a queixar-se de maus cheiros de vacaria entre Alcanena e Vila Moreira. Fonte.
  • A aproximação de motas de água e outras embarcações às zonas de banho está a gerar preocupação na albufeira de Castelo do Bode. O GEOTA alerta para riscos para os banhistas e defende mais boias, sinalização e fiscalização. Fonte.

RAGUSA: RESÍDUOS PLÁSTICOS SOB AS DUNAS DE MACCONI

  • Em agosto de 2020, uma inspeção realizada pela Unidade Ambiental Marítima da Guarda Costeira — ordenada pelo então ministro do Ambiente, Sérgio Costa — revelou enormes quantidades de resíduos plásticos enterrados sob as dunas costeiras, em alguns locais a uma profundidade de até cinco metros. A maior parte dos resíduos provinha da agricultura em estufas, mas também incluía eletrodomésticos, postes de cimento e peças de barcos em fibra de vidro. Em janeiro de 2022, a Guarda Costeira apreendeu cerca de 62 000 m² de litoral ao longo de sete quilómetros de costa. O Ministério Público de Ragusa abriu um inquérito sobre a catástrofe ambiental, despejo ilegal de resíduos e ocupação ilegal de terrenos marítimos públicos, mas não garantiu a limpeza. Nos anos seguintes, registaram-se poucos progressos, tendo-se sabido posteriormente que os planos de limpeza não tinham avançado devido à falta de financiamento. Recentemente, soube-se que foi adjudicado um contrato de limpeza manual para cerca de um quilómetro de praia na zona de Macconi, com a duração de 38 dias úteis e um custo de 25 000 €. No entanto, esta medida aborda apenas os resíduos à superfície e abrange apenas uma fração do litoral afetado. Os resíduos enterrados ao longo de todo o troço permanecem intocados. Fonte.
  • A Roménia é líder na UE na combinação de energia solar e baterias. Fonte.
  • A COP17 da Convenção da ONU de Combate à Desertificação (UNCCD) terminou na 6ª feira (28/8) em Ulaanbaatar (Mongólia) sem resolver o principal item de sua agenda: a criação de um regime internacional para gestão das secas. Por conta de fortes divergências entre os países, a questão foi adiada para a COP18, que acontece em 2028, no Egito. Fonte.
  • Um juiz federal do Oregon confirmou a lei estadual de reciclagem do tipo «quem polui paga», rejeitando uma contestação judicial apresentada pela Associação Nacional de Grossistas e Distribuidores, alegando que a lei sobrecarrega injustamente o comércio interestadual e delega ilegalmente poderes governamentais a um grupo industrial privado (Circular Action Alliance). O juiz indeferiu a contestação argumentando que a lei trata os produtores do estado e de fora do estado de forma igualitária, pelo que não viola a Cláusula do Comércio, e que o grupo privado desempenha apenas um papel consultivo. A lei do Oregon entrou em vigor em janeiro de 2022 , exigindo que os produtores adiram a uma organização de responsabilidade do produtor e paguem taxas para cobrir os custos de reciclagem e eliminação dos seus produtos. Fonte.
  • Os defensores da agricultura sustentável alertam que as bactérias da salmonela encontradas nas aves de capoeira estão a aumentar as estirpes mais suscetíveis de causar doença, hospitalização e morte, e que essas bactérias estão também a tornar-se cada vez mais resistentes aos antibióticos. O relatório da Farm Forward surge um ano depois de o Departamento de Agricultura dos EUA ter eliminado uma regulamentação que visava impedir que aves de capoeira contaminadas com salmonela chegassem às prateleiras dos supermercados e envenenassem as pessoas. Fonte.

REFLEXÃO

COMO RECUPERAR RIBEIRAS URBANAS ENTERRADAS
Luna Khirfan, Swati Mestri e Andrew Zinin, The Conversation. Rev. O’Lima.
Um troço do Still Creek em Burnaby, na Colúmbia Britânica. Crédito: Flying Penguin, CC BY-SA

À medida que muitas cidades se desenvolveram, os cursos de água que outrora corriam à superfície foram enterrados para dar lugar a infraestruturas em expansão. No entanto, à medida que chuvas mais intensas, fenómenos meteorológicos extremos e infraestruturas envelhecidas exercem uma pressão crescente sobre as cidades, estes cursos de água enterrados podem vir a fazer parte da solução.

A recuperação de cursos de água à superfície pode ajudar a gerir as águas pluviais, a restaurar habitats e a criar espaços públicos mais verdes e mais propícios à mobilidade pedonal. No entanto, reconhecer estes benefícios é mais fácil do que concretizar um projeto bem-sucedido.

Os municípios têm de encontrar locais viáveis, coordenar-se entre departamentos, garantir financiamento e planear a manutenção a longo prazo. Mas têm também de assegurar que as melhorias ambientais beneficiem os residentes atuais, em vez de contribuírem para a deslocalização da população.

A nossa investigação sobre a reabertura de cursos de água compara duas abordagens contrastantes em Seul, na Coreia do Sul, e em Zurique, na Suíça. Os resultados sugerem que os municípios não precisam de escolher entre um único grande projeto e muitas pequenas intervenções. Precisam de programas flexíveis que consigam identificar a abordagem certa para cada local e aplicar as lições aprendidas num projeto ao seguinte.

Duas cidades, duas abordagens

Entre 2003 e 2005, Seul restaurou o rio Cheonggyecheon através de um projeto rápido, centralizado e dispendioso ao longo de um importante corredor no centro da cidade. A cidade removeu uma autoestrada elevada e integrou o rio restaurado com transportes públicos, infraestruturas para ciclistas, pontes pedonais, passeios e espaços públicos.

Este exemplo mostra o que a reabilitação de um curso de água pode alcançar quando a liderança política, a renovação das infraestruturas e um investimento público significativo estão em sintonia. Revela também os riscos associados a grandes projetos emblemáticos. O projeto exigiu um investimento de capital substancial e continua a implicar custos de manutenção.

Os críticos têm questionado a sua integridade ecológica, uma vez que a água é fornecida ao canal por meio de bombas. A reabilitação urbana em torno do corredor também aumentou o valor dos terrenos e levou à deslocação de algumas pequenas empresas.

O «Bachkonzept» de Zurique adotou uma abordagem diferente. A cidade começou com projetos-piloto na década de 1980 e restaurou inúmeros segmentos de cursos de água de menor dimensão ao longo de várias décadas.

Zurique associou os projetos à gestão do sistema de esgotos, à renovação das infraestruturas, à restauração ecológica e ao planeamento dos bairros. Os cursos de água agora expostos à luz do dia atravessam zonas residenciais, parques e espaços públicos. Muitos deles são acompanhados por caminhos, pequenas pontes, bancos, parques infantis e áreas recreativas.

Nenhum projeto isolado em Zurique tem a visibilidade pública do Cheonggyecheon, em Seul. No entanto, em conjunto, os projetos formam uma rede distribuída que melhora o funcionamento da bacia hidrográfica, liga habitats e proporciona aos bairros um maior acesso à água.

Esta abordagem gradual pode revelar-se mais prática para muitos municípios de menor dimensão. As cidades podem começar por locais de dimensão mais reduzida, monitorizar o seu desempenho e avançar com novos projetos à medida que a renovação das infraestruturas ou a reabilitação urbana criam oportunidades.

Descobrir oportunidades antes que desapareçam

O primeiro passo não é a construção. É o mapeamento. Os municípios podem combinar inventários de bueiros e mapas históricos de cursos de água com dados sobre riscos de inundações e ondas de calor, vulnerabilidade social, terrenos públicos, parques, projetos de infraestruturas planeados e grandes áreas de reabilitação urbana. O mapeamento não implica que todos os cursos de água enterrados devam voltar à superfície. Proporciona aos municípios uma forma coerente de identificar locais que merecem um estudo técnico antes que outras decisões relativas ao uso do solo e às infraestruturas tornem a reabertura desses cursos de água difícil ou impossível.

Toronto ilustra este desafio. A cidade reconhece os cursos de água históricos e apoia a sua restauração sempre que possível. No entanto, esse apoio não identifica quais os locais que devem ter prioridade, quem deve avaliá-los ou como um projeto seria financiado e mantido.

Estudos sobre os riscos de inundações em Toronto identificam Black Creek e Flemingdon Park entre os bairros onde a exposição a inundações se cruza com a vulnerabilidade social e a capacidade limitada de adaptação. Combinar estes dados com o mapeamento de cursos de água desaparecidos, a propriedade de terrenos públicos e os planos de investimento poderia ajudar a cidade a identificar oportunidades-piloto equitativas.

Escolher a via de implementação adequada

A reabertura de cursos de água à luz do dia é geralmente incorporada nas práticas municipais através de uma de duas vias.

A primeira consiste em obras públicas de infraestruturas. A substituição de condutas, a separação de esgotos, a reconstrução de estradas, a renovação de parques, a recuperação de ravinas e os projetos de controlo de cheias oferecem aos municípios oportunidades para avaliar se um curso de água deve permanecer subterrâneo. Esta via é especialmente promissora em terrenos públicos, onde o município tem maior controlo sobre o projeto, o acesso público e a manutenção.

A segunda via é a reabilitação privada. Grandes terrenos industriais, comerciais, terrenos abandonados ou em zonas de trânsito podem proporcionar espaço suficiente para restaurar o leito de um curso de água, acomodar águas de cheia e estabelecer vegetação.

O momento certo é fundamental. Uma vez consolidados os edifícios, as estradas e as densidades de desenvolvimento, torna-se muito mais difícil a recuperação de um curso de água. Os municípios devem analisar atempadamente os grandes terrenos e tornar transparentes as decisões relativas à afetação de terrenos, aos direitos de desenvolvimento, ao acesso público, aos custos de construção e à manutenção.

O Still Creek, em Vancouver, mostra como o investimento municipal, as oportunidades de reabilitação urbana, o planeamento da bacia hidrográfica e a gestão comunitária podem apoiar uma restauração gradual, em vez de um único projeto determinante.

Ao longo de mais de duas décadas, a cidade e os seus parceiros concretizaram projetos específicos para cada local, envolvendo a restauração de habitats, a gestão das águas pluviais e o acesso público, incluindo um projeto de recuperação do curso de água financiado por um promotor imobiliário, concluído em 2009.

Os planos atualizados associam agora a futura restauração à reabilitação urbana e à gestão das cheias, enquanto as organizações comunitárias contribuem através da gestão responsável e da monitorização do salmão.

Criar um programa que aprenda

Um projeto de renaturalização de um curso de água não termina quando a construção fica concluída. A vegetação vai-se estabelecendo, as condições da água mudam e as comunidades utilizam os novos espaços públicos de formas inesperadas. Os municípios devem, por isso, seguir um ciclo adaptativo: mapear, avaliar, conceber em conjunto, implementar, monitorizar, aprender, ajustar e expandir.

A monitorização deve abranger o desempenho em caso de cheias, a qualidade da água, o habitat, a utilização pública, a acessibilidade, os custos de manutenção e a equidade. Os municípios devem, em seguida, utilizar as conclusões para gerir os locais concluídos e melhorar a seleção e a conceção de projetos futuros.

A equidade também requer uma atenção contínua. Espaços públicos atraentes podem aumentar a atratividade do bairro e a pressão de desenvolvimento. Medidas de habitação a preços acessíveis, benefícios para a comunidade e monitorização contínua podem ajudar a garantir que os residentes partilhem dos ganhos.

Ampliar um programa de recuperação de cursos de água à superfície não significa necessariamente construir um projeto de maior dimensão. Pode significar criar um conjunto interligado de intervenções de menor escala que restaurem gradualmente a função da bacia hidrográfica.

A recuperação de cursos de água à superfície não será viável em todos os locais. No entanto, sem um programa claro, os municípios nunca poderão identificar onde tal seria possível.

A principal lição de Seul e Zurique é que as cidades devem tratar os cursos de água enterrados não apenas como elementos naturais esquecidos. Trata-se de sistemas ecológicos, infraestruturas climáticas e, se desenvolvidos com cuidado, espaços públicos de que todos os residentes podem desfrutar.

BICO CALADO

  • Jornalista finlandês detido após questionar o presidente finlandês Stubb sobre negócios de armas com Israel. (Video acima)
  • Diretor nacional da Polícia Judiciária denunciado por mentir em tribunal e por ter ordenado uma escuta proibida pelo Ministério Público. Carlos Cabreiro é acusado por um coordenador da PJ de negar existência de escutas que, afinal, terão sido feitas no caso Rui Pinto. PGR confirma receção da denúncia e diretor da PJ diz que “desconhece”. Expresso.

LEITURAS MARGINAIS


RONALDO, O PATRÃO DA NARRATIVA DESPORTIVA E DO POPULISMO DA EXTREMA-DIREITA*

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A entrada formal de Ronaldo, em finais de 2023, como detentor de 30% do grupo Medialivre, através da holding CR7, S.A., colocou o atleta mais célebre do país no centro da engrenagem que dita a agenda política e acelera a ascensão do populismo em Portugal. Sob o teto financeiro garantido pelo consórcio de Ronaldo operam marcas como o Correio da Manhã, a CMTV e o canal NOW, órgãos que se transformaram nos motores principais da atual campanha de desgaste contra o Ministro da Administração Interna, Luís Neves.

Esta influência estendeu-se diretamente ao desporto em maio de 2026, data em que Ronaldo adquiriu uma participação relevante na plataforma digital de streaming LiveModeTV. A empresa gerou enorme polémica durante o Mundial de 2026 ao transmitir dezenas de jogos gratuitamente no YouTube, subvertendo o modelo de direitos de transmissão tradicional. Esta jogada empresarial revela que Ronaldo transportou para o mundo corporativo a mesma apetência predatória que o tornou único nos relvados: tal como na grande área ele não precisa de construir a jogada, bastando-lhe antecipar-se aos defesas para encostar a bola à rede, no mundo dos negócios Ronaldo atua como o finalizador implacável que aproveita as falhas estruturais do mercado para monopolizar o espaço público. Longe de ser um mero investimento passivo, este ecossistema serve um duplo propósito comercial e de blindagem de imagem: ao controlar os canais de distribuição digitais que transmitem o futebol, o próprio Ronaldo passa a deter as plataformas que avaliam, narram e geram o conteúdo sobre o seu desempenho como jogador. É o controlo absoluto da narrativa desportiva em proveito próprio, numa estratégia que visa ditar quem é criticado e quem é protegido.

Analisar o império de Ronaldo exige decifrar as suas motivações. Seria ingénuo procurar na sua conduta uma agenda ideológica clássica, uma filiação partidária oculta ou o desejo de se tornar um líder político tradicional. As suas motivações são estritamente pragmáticas e corporativas: a expansão do poder pessoal e a maximização do lucro através da economia da atenção. O desígnio de Ronaldo é a construção de uma soberania privada que flutua acima das leis dos Estados e do escrutínio dos parlamentos. A sua aliança indireta com as forças que fraturam o sistema não nasce de uma simpatia pelo extremismo, mas sim da perceção de que o ruído, a polarização e o escândalo são os ativos mais rentáveis do século XXI. Ao financiar as ferramentas do populismo, Ronaldo não procura governar; procura garantir que nenhum governo, seja de que quadrante for, tenha a força institucional necessária para questionar os seus negócios, o seu património ou a sua imunidade.

Esta blindagem torna-se ainda mais evidente quando se traça um paralelo factual entre os percursos de Cristiano Ronaldo e de Luís Neves no que toca ao cumprimento da lei. Ambos partilham o facto de terem estado sob o foco da justiça por irregularidades financeiras. Luís Neves enfrenta um escrutínio severo por falhas administrativas e omissões na sua declaração pública de património validadas pelo Tribunal de Contas. Por sua vez, Cristiano Ronaldo foi formalmente condenado pela Justiça e pelo Fisco de Espanha devido a uma fraude fiscal maciça associada à ocultação de rendimentos dos seus direitos de imagem. O futebolista aceitou uma pena suspensa de 23 meses de prisão e o pagamento de uma multa de 18,8 milhões de euros para encerrar o processo-crime. No entanto, enquanto os erros de Luís Neves são expostos em horário nobre de forma implacável pelos órgãos da Medialivre, o passado criminal financeiro de Ronaldo é protegido pelo esquecimento mediático, criando dois pesos e duas medidas na praça pública.

É neste duplo padrão que a ligação à figura de Donald Trump se revela despida de qualquer inocência. O decreto assinado pelo presidente norte-americano para classificar o movimento descentralizado "Antifa" como uma organização terrorista doméstica não foi uma medida de segurança, mas sim um guião político. Trump inaugurou a era em que o topo do Estado utiliza o rótulo de "terrorista" para criminalizar a oposição, criar um inimigo interno e desviar as atenções dos seus próprios escândalos judiciais. Em Portugal, a engrenagem mimetiza o método: o canal NOW alimenta o horário nobre com e-mails privados de Neves e, minutos depois, o Chega utiliza essas mesmas peças televisivas para exigir comissões de inquérito, ameaçar com moções de censura e tentar forçar a demissão do governante. A importação da cartilha de Trump serve para cobrar a fatura histórica a Luís Neves que, enquanto Diretor da Polícia Judiciária, desmantelou as narrativas que associavam a imigração ao crime e investigou as células radicais nacionalistas. Usa-se a falha administrativa legítima do ministro para validar a agenda populista americana em solo nacional.

Diante deste cenário, o cidadão é obrigado a tomar uma posição e responder a um dilema ético profundo: o que pesa mais na balança da sobrevivência democrática? As falhas administrativas de Luís Neves ou o império mediático de Cristiano Ronaldo? As falhas de Neves, por mais graves e repreensíveis que sejam do ponto de vista ético e republicano, esgotam-se na sua pessoa e no seu mandato político, são os erros contidos de um homem num cargo público. Por outro lado, o impacto dos investimentos de Cristiano Ronaldo é estrutural, sistémico e de longo prazo. Ao colocar a sua fortuna ao serviço de um ecossistema mediático que vive de degradar o debate público, de asfixiar as figuras do Estado e de controlar a narrativa sobre si próprio para gerar cliques e audiências, Ronaldo financia a erosão dos alicerces democráticos do país. O dinheiro de CR7 dá oxigénio e viabilidade económica às plataformas que a extrema-direita utiliza para crescer.

Entre o governante que falha na gestão dos bens do Estado e o investidor global condenado por fraude que financia a máquina que deforma a perceção da realidade de um povo, o peso do segundo é infinitamente mais destrutivo. Luís Neves deve ser escrutinado e responsabilizado pelos seus atos materiais. Mas a complacência nacional perante os negócios de Cristiano Ronaldo é um sintoma de cegueira coletiva. A gratidão desportiva não pode continuar a servir de salvo-conduto para que o homem mais influente do país lucre com a engenharia que fratura a sociedade. Quando os golos terminarem, o que restará de Portugal será o estado das suas instituições e, nesse campeonato, o capital desregulado está a vencer a democracia por goleada.

* O título é da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3.