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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

FECHADURAS INTELIGENTES PARA MELHORAR A GESTÃO DE RESÍDUOS?

  • Sete municípios portugueses implementam fechaduras inteligentes para melhorar a gestão de resíduos: Braga, Santo Tirso, Cinfães, Vagos, Torres Novas, Estremoz e Madalena (Pico, Açores). Fonte. A associação de um chip a um agregado familiar permite criar um registo detalhado de quem, quando e onde deposita resíduos. Este tipo de monitorização já levou à remoção de sistemas semelhantes noutros países. Em Pamplona, Espanha, a autoridade de proteção de dados considerou o sistema "demasiado controlador" e violador da privacidade, forçando a sua retirada.
  • Catarina Martins reuniu com a diretora-geral da Comissão Europeia encarregada do Fundo de Competitividade e dos projetos estratégicos e ficou a saber que a Comissão não foi informada da contestação da população ao projeto da Savannah. Fonte.

HUNGRIA: BARRAGEM ILEGAL PARA SALVAR CENTRAL NUCLEAR

Trabalhadores despejam pedras nas águas do Danúbio, junto às instalações da central nuclear de Paks (Hungria), a 19 de setembro de 2026. - © Attila Kisbenedek / AFP / Reporterre
  • A seca histórica que afetou o Danúbio este verão ameaça o funcionamento da central nuclear de Paks, na Hungria. Para evitar a sua paragem, o primeiro-ministro Péter Magyar deu início, em meados de agosto, à construção de um açude de pedra no rio, sem autorização ambiental nem consulta aos países vizinhos. Fonte.
  • O projeto de exploração mineira da Cobre San Rafael S.L. na Corunha e a mina de volfrâmio de Abenójar, em Ciudad Real, foram selecionados pela Comissão Europeia, num processo novamente marcado pela opacidade e pela falta de participação pública. Organizações ecologistas denunciam que os projetos selecionados apresentam inúmeras irregularidades e riscos ambientais e sociais, e a sua classificação como estratégicos implica trâmites acelerados que podem isentar da obrigação de não causar impactos negativos. Estes projetos juntam-se aos seis projetos mineiros estratégicos para a Comissão Europeia que já existiam em Espanha, apontando o país como uma zona de sacrifício. As organizações salientam que a Comissão continua a apostar na extração de matérias-primas, apesar dos graves impactos ambientais e sociais, quando deveria dar prioridade à redução da procura e à reciclagem de metais. Fonte.
  • Pelo menos 183 casas na costa leste de Inglaterra foram demolidas devido à erosão costeira e aos riscos de deslizamentos de terra nos últimos 16 anos. Fonte.
  • Agentes da polícia britânica poderão entrar nas casas dos condutores de veículos elétricos suspeitos de «adulteração dos contadores» para evitar o futuro imposto por milha percorrida. Fonte.

REFLEXÃO

PORTUGAL PODE VIR A SOMAR MAIS 44 CENTROS DE DADOS AOS 46 JÁ EXISTENTES: QUERCUS PEDE TRAVÃO E TRANSPARÊNCIA AO GOVERNO


A Quercus alerta que Portugal pode passar dos atuais 46 centros de dados para 90, com 44 novos projetos em análise (quatro de grande dimensão), e pede ao Governo de Luís Montenegro que trave o avanço até estarem garantidas condições de sustentabilidade. A associação critica a inversão de prioridades: primeiro foi lançado o Plano Nacional de Centros de Dados (PNCD), que promove o país como destino atrativo, e só depois se começam a preparar as bases legais de proteção.

Os principais riscos ambientais e socioeconómicos apontados são a água (elevado consumo e potencial contaminação dos recursos hídricos), a energia (consumo muito elevado que pode inflacionar as tarifas para as comunidades locais, como já aconteceu na Irlanda e nos Países Baixos), a pressão sobre solos agrícolas e florestais, a alteração da paisagem, o abate de floresta autóctone e destruição de habitats, mesmo quando alimentados por renováveis, a poluição sonora e o aumento significativo da temperatura local devido ao calor emitido pelo sistema de arrefecimento por evaporação e ainda o facto de os gases com efeito de estufa associados aos centros de dados serem 57% mais elevados do que se pensava.

A Quercus propõe a adoção imediata de medidas vinculativas, entre as quais (1) privilegiar sistemas de refrigeração sem evaporação (circuito fechado ou extração de humidade com MOFs), reutilização de águas e uso de água reciclada, e escolha de locais com maior disponibilidade hídrica e clima favorável, (2) recurso a renováveis próprias em infraestrutura já artificializada, (3) compromisso dos promotores de pagar um mínimo de capacidade de rede durante 10 a 15 anos, para que o custo de reforço não onere as famílias, (4) contribuição anual para um fundo local proporcional ao consumo de energia, (5) reforço da rede elétrica suportado pelo promotor, (6) compensações ambientais com comunidades e ONG, (7) disponibilização de capacidade de computação a universidades, startups e serviços públicos e (8) caução para desmantelamento e reposição do local.

BICO CALADO

Foto: Alastair Grant/AP
  • Israel demoliu a maioria das aldeias no sul do Líbano — na sua maioria após o cessar-fogo. O ministro da Defesa, Israel Katz, gabou-se de que Israel não estava a destruir «uma casa de cada vez», mas sim «a totalidade dessas aldeias». Fonte.
  • O bilionário de extrema-direita Elon Musk está a gastar uma fortuna sem precedentes (276 milhões de dólares) para ajudar o Partido Republicano a manter as suas maiorias no Congresso. Fonte.
  • “O Chega fez a sua primeira acção de milícias. Para o justificar socorreu-se da lógica formal, que há muito tomou conta do espaço público – se estudantes ocupam, disse o Chega, porque não invadimos também? A acção desta milícia, foi – não é de somenos! -, contra um órgão de informação e na Academia. Ou seja, a esfera pública que não controlam. (…) O Chega não é um partido, é uma milícia fascista, foi exatamente isso que foi ontem, às claras, uma milícia contra estudantes e jornalistas. Quem achar que é uma brincadeira o que se passou ontem em Coimbra não percebe nada de política. Ocupar uma praça para lutar pelo direito a habitação é ocupar um espaço público para defender a dignidade humana contra o roubo pelos fundos imobiliários, os que o Chega aprovou há duas semanas com o PSD e a IL; ocupar as terras e impedir máquinas de minas avançaram e destruirem a água potável é lutar pelo direito à vida. Tudo isto é resistir, direito inscrito em todas as Constituições modernas. Já um partido fascista como o Chega invadir um órgão de comunicação social é esmagar o direito dos jornalistas decidirem quem entrevistam, como e quando. É usar da violência para impor uma ideologia que justifica a morte e perseguição de quem consideram indigno de viver ou ter direitos. (…) Precisamos salvar Portugal do Chega. Não vai ser com o PS, já se percebeu, nem vai ser com queixinhas no Facebook. Organizemo-nos! Como dizem os bravos de Covas do Barroso o povo tem de se juntar e impor a justiça, precisamos mesmo de nos juntar, organizar, porque há um mundo novo de paz que quer nascer. Para isso, precisamos tirar da frente estas milícias, da morte e da guerra, como o Chega.” Raquel Varela, O Chega, uma milícia fascista.

LEITURAS MARGINAIS

A CARA REALIDADE DO JORNALISMO AMBIENTAL EM ÁFRICA
Adebayo Aare, Premium Times. Rev. O’Lima.


A 25 de dezembro de 2025, soldados da guarda presidencial congolesa detiveram Stéphane Shisso, um operador de câmara da Nyota TV, propriedade de Moïse Katumbi, um proeminente político da oposição no país, e levaram-no para o acampamento militar de Kimbembe, na cidade de Lubumbashi, no sudeste do país.

O Shisso e o seu colega Guelord Shamba tinham elaborado um relatório sobre a degradação dos solos e a erosão causadas pela exploração mineira em Kolwezi, uma cidade da província de Lualaba conhecida como um centro mundial de exploração de cobalto e cobre neste país da África Ocidental. O vídeo, que foi transmitido pela Nyota TV e pela Mbengu TV, incluía entrevistas com residentes que criticavam as autoridades locais pela falta de ação e destacavam a falta de infraestruturas públicas.

Shisso foi inicialmente levado para o acampamento militar de Kimbembe, em Lubumbashi, onde passou vários dias incomunicável antes de ser transferido para Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, a 5 de janeiro de 2026, e detido na prisão militar de Ndolo. Em julho de 2026, Shisso já se encontrava detido há mais de seis meses sem ter sido formalmente julgado por um tribunal nem notificado das acusações que pesavam contra ele.

Temendo ser também detido depois de ter testemunhado a detenção de Shisso, Guelord Shamba passou à clandestinidade. Colegas e familiares perderam contacto com ele desde o final de janeiro. Ambos os jornalistas tinham também perdido recentemente os seus pais e não puderam comparecer aos seus funerais devido à detenção e ao exílio forçado.

Stephane Shisso

Semanas antes, outra reportagem sobre questões ambientais tornou-se perigosa para os jornalistas — desta vez no Gana.

Na zona de Obuasi, na Região de Ashanti, no Gana, mineiros de ouro ilegais, conhecidos localmente como «operadores galamsey», emboscaram cinco jornalistas e agentes ambientais. Os repórteres, que estavam a cobrir uma operação para encerrar instalações de mineração ilegal, fugiram do local numa perseguição caótica que resultou num grave acidente rodoviário. Akwasi Adomako, da JoyNews, sofreu uma fratura na perna que exigiu cirurgia, enquanto os seus colegas da Luv FM, da Adom News e da Citi FM sofreram ferimentos na cabeça e traumatismos no tórax.

Este incidente ilustra uma realidade importante, mas muitas vezes ignorada, do jornalismo ambiental. Os jornalistas que cobrem questões ambientais enfrentam regularmente riscos associados a terrenos acidentados, acidentes rodoviários, exposição a doenças, condições meteorológicas adversas e instalações industriais. No entanto, esses perigos tornam-se significativamente maiores quando a reportagem ambiental se cruza com economias ilegais e interesses políticos ou comerciais poderosos.

Essa interseção já era evidente um ano antes do incidente de Obuasi. Em outubro de 2024, quatro jornalistas e profissionais da comunicação social do Multimedia Group do Gana foram detidos e espancados por seguranças ao serviço de uma empresa mineira enquanto faziam uma reportagem sobre a alegada degradação ambiental numa mina na Região de Ashanti. Entre as vítimas contam-se o jornalista Erastus Donkor; Majid Alidu, um piloto de drones; o técnico de câmara Edward Suantah; e o motorista Edward Arko. Tinham-se deslocado ao local para documentar a nova destruição de partes da Reserva Florestal de Asenanyo, recentemente restaurada, o que estava a causar a poluição de ribeiros que desaguam no rio Ankobra, que também se encontrava poluído.

Estes incidentes fazem parte de um padrão mais alargado de ataques contra jornalistas ambientais.

Um relatório de monitorização recente do Instituto Internacional de Imprensa (IPI) registou 26 ataques e ameaças distintos contra jornalistas ambientais na África Subsariana, apenas entre outubro de 2025 e março de 2026. Os casos envolveram jornalistas que estavam a fazer reportagens sobre mineração ilegal, exploração madeireira, gestão do petróleo e gestão de terras e recursos hídricos, entre outras questões. De acordo com o relatório de monitorização do IPI, as agências de segurança do Estado foram a principal fonte de ameaças nos casos documentados, embora empresas privadas, grupos armados e atores locais também estivessem implicados.

Quando comparado com a realidade mais ampla do panorama mediático africano, o jornalismo ambiental está a emergir rapidamente como a área de cobertura mais perigosa para os jornalistas no continente.

De um modo geral, o jornalismo em África é fortemente limitado por violações da liberdade de imprensa, a par de outros desafios que a comunicação social enfrenta. De acordo com o Índice Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, publicado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o jornalismo em mais de 90 dos 180 países avaliados em todo o mundo enfrenta graves restrições, sendo classificado como estando em condições difíceis ou muito graves. Uma análise mais aprofundada indica que 34 desses países se situam em África, incluindo a Nigéria, o Níger, o Mali e o Chade.

As redações do continente enfrentam um desafio crescente de subfinanciamento, ataques digitais e uma onda crescente de legislação restritiva, como as leis estatais sobre cibercriminalidade, para além do desafio da desinformação em rápido aumento, provocada pela proliferação da inteligência artificial.

Embora a situação seja, de um modo geral, preocupante para os jornalistas de todas as áreas de cobertura, os jornalistas ambientais enfrentam, sem dúvida, um ataque significativamente mais abrangente e grave. Operam na intersecção volátil entre indústrias extrativas multimilionárias, o crime organizado transnacional e ecossistemas frágeis. Um repórter que investigue a mineração ilegal pode, simultaneamente, atrair a atenção de funcionários governamentais, agências de segurança, empresas mineiras, atores poderosos — estatais e não estatais —, redes criminosas e comunidades cuja sobrevivência económica depende da atividade que está a ser investigada. Isso torna a área do jornalismo ambiental invulgarmente complexa.

O custo oculto de seguir o dinheiro

O jornalismo ambiental é frequentemente descrito como reportagens sobre florestas, rios, alterações climáticas, vida selvagem e poluição. Em África, essa descrição está cada vez mais a revelar-se muito mais abrangente. Algumas das reportagens ambientais mais importantes do continente são, na verdade, histórias sobre dinheiro.

A exploração mineira ilegal está ligada à propriedade da terra, ao licenciamento, à tributação, ao clientelismo político e aos fluxos financeiros ilícitos. A exploração madeireira ilegal envolve frequentemente redes de tráfico transfronteiriço. O tráfico de vida selvagem liga os caçadores furtivos locais aos mercados internacionais. A poluição por petróleo pode levantar questões sobre a responsabilização das empresas, a captura regulatória e a distribuição dos recursos públicos.

Os jornalistas ambientais, portanto, não se limitam a investigar os danos ambientais; investigam o sistema económico e político que permite que esses danos continuem. Esta é uma das razões pelas quais as investigações ambientais podem tornar-se perigosas.

O fundador e diretor executivo do Centro para a Inovação e o Desenvolvimento do Jornalismo (CJID), Dapo Olurunyomi, afirmou que o jornalismo ambiental ultrapassou a simples documentação da degradação ambiental, passando a investigar fluxos financeiros ilícitos, corrupção e governação. Referiu-se às reportagens sobre a mineração na região do Congo e no delta do Níger, onde o foco está a deslocar-se cada vez mais dos danos ambientais em si para os sistemas e interesses que os sustentam.

O jornalista veterano descreveu esta evolução como uma nova etapa para o jornalismo ambiental, que exige uma maior consciencialização não só por parte dos governos e da sociedade, mas sobretudo por parte dos jornalistas, a quem descreveu como portadores de conhecimento capazes de moldar as políticas públicas e as relações comunitárias.

Isto é especialmente importante à medida que a destruição ambiental se torna cada vez mais interligada com interesses económicos e políticos. Em algumas regiões do norte da Nigéria, incluindo Zamfara, Katsina e Níger, observou ele, os recursos naturais tornaram-se fontes de riqueza ilícita para os intervenientes nos conflitos. No entanto, a cobertura pode limitar-se a rótulos como «banditismo» ou «terrorismo», sem examinar os fluxos financeiros gerados pela exploração dos recursos.

«O jornalista ambiental, portanto, deve fazer perguntas que vão além do que está a acontecer à terra ou à água: Quem é o proprietário da operação? Quem beneficia? Quem emitiu as licenças? Para onde vai o dinheiro? Que responsáveis ou instituições são responsáveis pela supervisão?»

Essa mudança transforma o jornalismo ambiental em jornalismo de investigação, capaz de expor interesses poderosos.

Olorunyomi defendeu que as redações devem responder com formação especializada, recursos e áreas de cobertura dedicadas. Os jornalistas precisam de compreender os protocolos de exploração mineira, os regimes de licenciamento, os processos de adjudicação de contratos, os fluxos financeiros e os sistemas de governação subjacentes à exploração ambiental.

Ele observou que organizações como a Repórteres Sem Fronteiras e o Instituto Internacional de Imprensa já iniciaram o seu trabalho nesta área, mas afirmou que ainda há muito a fazer.

A necessidade dessa capacidade especializada torna-se mais evidente quando os jornalistas saem da redação e entram nos ambientes onde estas histórias se desenrolam.

A jornalista de investigação ambiental sul-africana Fiona Macleod, fundadora e editora do Oxpeckers Investigative Environmental Journalism Centre, observou numa entrevista à Dialogue Earth que a transição do jornalismo ambiental de uma área de cobertura «opcional» para uma essencial tem consequências para os jornalistas. «Quanto mais importantes se tornam as reportagens ambientais para as economias nacionais e as políticas públicas, mais provável é que entrem em conflito com interesses poderosos», acrescentou.

Reportando para além da redação

As exigências físicas do jornalismo ambiental também tornam esta área de cobertura particularmente difícil. As reportagens de investigação exigem frequentemente que os jornalistas saiam das grandes cidades e viajem para florestas remotas, comunidades mineiras, zonas petrolíferas, zonas húmidas, regiões fronteiriças e territórios afetados por conflitos.

Em toda a região, um jornalista que investigue a mineração ilegal pode ter de entrar em reservas florestais e comunidades mineiras onde as medidas de segurança são fracas ou, por vezes, inexistentes. Quanto mais os jornalistas se afastam da redação, menos proteção institucional imediata podem ter. Isto é especialmente significativo para freelancers e pequenas redações locais. Um repórter que trabalhe de forma independente pode ter pouco ou nenhum acesso a agentes de segurança, advogados, cobertura de seguro, um plano de evacuação de emergência ou um empregador disposto a intervir caso a missão corra mal.

Em agosto de 2023, o jornalista de investigação nigeriano Damilola Ayeni, na altura editor da Fundação para o Jornalismo de Investigação (FIJ), deslocou-se ao norte do Benim no âmbito de uma investigação transfronteiriça sobre a conservação ambiental em torno do Parque Nacional de Pendjari. Enquanto fotografava o parque para a investigação, a polícia beninesa deteve-o e acusou-o de pertencer a um grupo terrorista jihadista.

Damilola Ayeni

Ayeni ficou detido em regime de incomunicabilidade durante nove dias, período em que nem os seus colegas nem a sua família sabiam do seu paradeiro. De acordo com a FIJ, um homem que se identificou como o comissário da polícia de Parakou exigiu 800 000 francos CFA (cerca de 1 315 dólares) em troca da sua libertação. Acabou por ser libertado sem acusação, na sequência de um esforço diplomático contínuo por parte da Embaixada da Nigéria no Benim.

A experiência do Sr. Ayeni destaca uma dimensão frequentemente ignorada do jornalismo ambiental em África, onde os repórteres que investigam questões de conservação, biodiversidade e áreas protegidas operam cada vez mais em territórios onde a governação ambiental se sobrepõe a operações antiterroristas, segurança nas fronteiras e policiamento militarizado. Nesses contextos, os jornalistas estão expostos não só aos perigos representados por redes criminosas ou interesses privados, mas também ao risco de serem vistos através de uma perspetiva de segurança nacional.

O resultado é que o trabalho normal de jornalismo de investigação pode ser mal interpretado como espionagem ou atividade terrorista, colocando os jornalistas ambientais em risco de detenção arbitrária, interrogatórios prolongados e processo penal.

Os riscos não se limitam, portanto, ao que acontece quando um jornalista publica uma reportagem. Em muitos casos, o perigo começa logo no início da reportagem, quando o jornalista decide deslocar-se para o território onde a história se desenrola; e, assim que o jornalismo ambiental entra nesses espaços, as consequências podem ir muito além da segurança física imediata do jornalista.

A dimensão da ameaça

Um estudo da UNESCO de 2024 revelou que, entre 2009 e 2023, pelo menos 749 jornalistas e organizações de notícias que cobriam questões ambientais foram alvo de assassinatos, violência física, detenções e prisões, assédio online ou ataques legais.

Um inquérito da UNESCO a mais de 900 jornalistas ambientais de 129 países revelou que 70% tinham sido alvo de agressões, ameaças ou pressões relacionadas com o seu trabalho. Entre os afetados, dois em cada cinco sofreram posteriormente violência física. A organização registou também pelo menos 44 jornalistas ambientais assassinados nos últimos 15 anos, tendo apenas cinco desses casos resultado em condenações, o que se traduz numa taxa de impunidade de quase 90 por cento.

Os dados da UNESCO provêm de um inquérito realizado junto de um conjunto selecionado de jornalistas ambientais a nível global e não significam que 70% de todos os jornalistas ambientais do mundo tenham sido alvo de agressões físicas. Da mesma forma, o número de 749 representa casos documentados envolvendo jornalistas e órgãos de comunicação social, e não um recenseamento de todos os ataques ocorridos.

Apesar desta nuance, no entanto, os resultados mostram que as ameaças contra os jornalistas ambientais não se limitam à violência física ou ao assédio. Os jornalistas que cobrem a área ambiental enfrentam assédio online, processos judiciais abusivos (SLAPPs), intimidação, detenção, censura e pressão por parte de empregadores e autoridades.

A investigação da UNESCO revelou ainda que quase metade dos jornalistas ambientais inquiridos já tinha praticado autocensura devido ao receio de retaliação ou a conflitos de interesses, enquanto um terço referiu ter sido censurado pelas próprias organizações editoriais a que pertencem. Quando os jornalistas começam a evitar abordar certas matérias por receio de retaliação, as consequências são que as comunidades perdem o acesso a informações essenciais sobre poluição, degradação do solo, extração ilegal e outras atividades que afetam diretamente as suas vidas. E, em muitas comunidades africanas, o problema é ainda mais agravado pela desconexão entre o jornalismo ambiental e a compreensão do público.

O desafio da ignorância generalizada

As ameaças enfrentadas pelos jornalistas ambientais na região são ainda mais agravadas pela lacuna de conhecimento entre os problemas que os jornalistas procuram trazer à luz e as pessoas afetadas por eles. Quando existe tal desconexão, os jornalistas ambientais ficam frequentemente numa posição vulnerável, isolados tanto das comunidades que procuram dar voz como das fontes de apoio de que necessitam.

Numa entrevista ao CJID, o Ayeni salientou que a ignorância é um dos maiores desafios que o jornalismo ambiental enfrenta em África.

«Muitos ou não conhecem a importância da conservação ambiental ou, face à pobreza, simplesmente não se importam. Por isso, a vossa missão, por mais bem definida que seja, não vos poderá salvar se se tornarem vítimas deles», afirmou.

Cumplicidade do Estado e abuso das leis sobre cibercriminalidade

Os riscos tornam-se ainda mais complexos quando a reportagem ambiental entra em conflito com leis restritivas. Em toda a África, os governos recorrem a leis relacionadas com a cibersegurança, a segurança nacional, a difamação e a ordem pública, entre outras, para processar jornalistas. Disposições vagas são frequentemente utilizadas para criminalizar o jornalismo legítimo, em particular reportagens que expõem a corrupção ou as deficiências do setor público.

O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026 da RSF identificou a utilização das leis de segurança nacional e cibersegurança como arma como uma tendência regional significativa. A RSF referiu que 24 dos 48 países da África Subsariana foram classificados como apresentando condições de liberdade de imprensa «difíceis», enquanto cinco foram classificados como «muito graves».

A República Democrática do Congo, por exemplo, ocupou o 130.º lugar a nível mundial, tendo a RSF salientado as graves pressões de segurança que os jornalistas enfrentam, particularmente nas regiões orientais do país afetadas por conflitos.

O caminho a seguir

O jornalista e investigador ambiental Gustavo Faleiros salientou a importância de uma preparação minuciosa antes de entrar em ambientes de alto risco. Ao debater o jornalismo de investigação em territórios remotos, Faleiros sublinhou a necessidade de os jornalistas elaborarem um plano detalhado, realizarem pesquisas prévias e identificarem contactos locais fiáveis antes de viajarem.

O Sr. Ayeni salientou ainda a importância de planear com antecedência uma investigação ambiental.

«A minha experiência de 2023 abriu-me os olhos para os riscos deste tipo de trabalho e, hoje, planeio melhor e envolvo mais pessoas. Muitas vezes, uma reportagem ambiental leva-nos às zonas mais remotas e perigosas do país», afirmou.

Ayeni sublinhou ainda que a coordenação com uma equipa de confiança é tão importante quanto outras medidas de segurança. «Há dois meses, por exemplo, estive numa LGA do Estado de Kogi quase completamente esquecida pela civilização e pelo governo. Mas mantive algumas pessoas de confiança a par das minhas deslocações. Se não tivessem notícias minhas dentro de um prazo estipulado, sabiam que deviam comunicar a situação às instâncias competentes.»

Os riscos que os jornalistas ambientais enfrentam exigem mais do que conselhos genéricos de segurança. As redações, os grupos da sociedade civil e as organizações de defesa da liberdade de imprensa têm de repensar a forma como os repórteres são formados, apoiados e protegidos.

Para o Sr. Olorunyomi, a intervenção começa com uma formação especializada. «A formação habitual em segurança, que quase nunca está realmente disponível, deve ser complementada por formação que ajude os jornalistas a compreender os protocolos mineiros, os regimes de licenciamento, os sistemas cadastrais, os processos de adjudicação de contratos e os fluxos financeiros subjacentes à exploração dos recursos naturais», afirmou.

Defendeu ainda que os crimes ambientais exigem, cada vez mais, que os jornalistas trabalhem além-fronteiras. Uma vez que os fluxos financeiros e os crimes relacionados com os recursos operam frequentemente através de redes, as redações devem estabelecer parcerias regionais e desenvolver protocolos de segurança partilhados.

Para os próprios repórteres, a preparação deve começar antes de uma missão. Ayeni recomenda compreender quem controla o território, quem beneficia com a atividade que está a ser investigada, quais as agências envolvidas e o que fazer caso se perca a comunicação. Numa missão recente no Estado de Kogi, manteve contactos de confiança regularmente atualizados sobre os seus movimentos, para que pudessem escalar a situação caso deixassem de ter notícias dele.

No entanto, subvlinhou que a precaução individual não pode substituir o apoio institucional, referindo que as redações devem proporcionar formação em segurança e primeiros socorros, sistemas de comunicação de emergência, apoio jurídico e planos de evacuação, especialmente para freelancers e repórteres que trabalham em áreas remotas ou de alto risco.

Olorunyomi instou também as organizações da sociedade civil a recorrerem mais aos mecanismos regionais, incluindo o Relator Especial da Comissão Africana para a Liberdade de Expressão e o Acesso à Informação e o Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos. «As organizações da sociedade civil têm de ser capazes de chamar a atenção muito rapidamente», afirmou, acrescentando que os litígios estratégicos e os mecanismos regionais de direitos humanos podem proporcionar uma camada adicional de proteção quando os jornalistas são atacados ou detidos.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

ILHAS MARSHALL EXIGEM COMPENSAÇÕES POR IMPACTOS NEGATIVOS DOS 67 TESTES NUCLEARES

O ensaio termonuclear «Castle Bravo» no Atol de Bikini, em 1 de março de 1954. Foto: Departamento de Energia dos EUA / Domínio público
  • O Gabinete dos Direitos Humanos da ONU informou o Conselho dos Direitos Humanos de que as comunidades marshalesas continuam à espera de justiça relativamente aos 67 ensaios nucleares realizados pelos EUA, apelando à divulgação de documentos confidenciais, à concessão de indemnizações e ao reconhecimento por parte do órgão da ONU que permitiu que os ensaios prosseguissem. Fonte.
  • O Ministério Público brasileiro intentou uma ação judicial contra a filial da gigante petrolífera Shell no país, exigindo uma indemnização de 108 milhões de dólares pelas inundações mortíferas de 2024. Chuvas torrenciais provocaram inundações históricas no sul do Brasil em abril e maio desse ano, causando a morte de quase 200 pessoas, a deslocação de mais 500 000 e danos avultados. Fonte.
  • Dois palestinianos ficaram feridos num ataque perpetrado por colonos, enquanto várias mulheres foram detidas durante a colheita de azeitonas na Cisjordânia. Fonte.

BICO CALADO

  • “O gentleman à esquerda é, para mim, o mais inteligente, elegante e charmoso criminoso de guerra e executor da política externa dos EUA desde os anos 60. Muito mais simpático do que os actuais criminosos de guerra Trump, Putin, Nethanyau, Bin Salman etc. Se alguém quiser consultar a listagem que quantifica os milhares de ataques com drones que ordenou em cinco países, em que - entre crianças, mulheres e alegados terroristas - morreram milhares de civis, é pública. Poder-se-ia acrescentar Guantanamo, a cumplicidade com Israel ou as práticas de tortura de militares e agentes dos EUA pelo mundo fora, mas não vale a pena. É, sem dúvida, um gentleman.” Miguel Szymanski.
  • “(…) Ronaldo foi um grande atleta, nas também foi um grande narcisista, cultivador do hedonismo e da lógica superficial da aparência. Neste tempo não aprendeu a falar bom português, não se cultivou nem se lhe conheceram posições corajosas, desafiadoras, transformadoras. Apenas foi peça de uma máquina que alimentou e dele se alimentou. Foi acusado de violação, comprou filhos como quem comprou cães de raça, mascarou com opulência o vazio do seu espírito. Nunca se lhe ouviu algo de espirituoso. Inteligente, inspirado. Não fosse os pés e não seria quem foi. (…) Fazer de CR7 o que não é e o que nunca poderá ser. Fazer dele o culto idolatra da personalidade e da exceção pode honrar a sua personalidade hedonista, excêntrica e narcisista. Mas não honra o atleta nem honra o que ele poderia ter sido, como exemplo, e não este á altura de ser! Dizer que tem de ficar só por ter sido que foi, é dizer que a seleção fica dele refém até á sua retirada, seja ela quando for!” Hugo Dionisio.
  • O Partido Conservador britânico recebeu 1,3 milhões de libras em doações da JCB, uma empresa de escavadoras ligada à destruição de aldeias palestinianas, antes de se opor a novas sanções contra os colonatos israelitas no mês passado. A ONU também acusou a empresa de fornecer equipamento para a demolição de casas e bens imóveis, bem como para a destruição de explorações agrícolas, estufas, olivais e culturas. Fonte.
  • A Deloitte, gigante da contabilidade, falsificou documentos empresariais para ajudar Roman Abramovich a ocultar pelo menos 10 mil milhões de dólares em ativos e a sonegar avultados montantes de impostos. Fonte.
  • Vai nascer o primeiro Regulamento Municipal de Apoio à Cultura. Fonte. A Câmara de Espinho já tem onde se inspirar. Basta ir à da vizinha Vila da Feira, uma das cerca de 40, que se saiba, já têm regulamentos municipais de apoio à cultura. Espinho quer também a participação pública. Fica-lhe bem.

REFLEXÃO

NOVA IORQUE ESTÁ A FICAR SEM ESPAÇO PARA O LIXO
Lauren Dalban, ICN. Rev. O’Lima.

Seneca Meadows, na região de Finger Lakes, em Nova Iorque, é o maior aterro sanitário do estado. Crédito: Cortesia de Mark Pitifer

A cidade de Nova Iorque está a ficar sem locais para depositar o seu lixo. Na última versão preliminar do plano de gestão de resíduos sólidos da cidade — elaborado uma vez por década —, o departamento de saneamento alerta que os aterros que recebem grande parte do lixo da cidade estão a encher-se rapidamente. Mais de dois terços dos resíduos municipais da cidade são transportados para aterros a centenas de milhas de distância. No entanto, de acordo com as licenças atuais, prevê-se que o estado esgote a capacidade de aterro para esse lixo dentro de 16 a 25 anos.

À medida que as comunidades do norte do estado se opõem à criação de novos aterros e à expansão dos já existentes, a cidade poderá ter de enviar o seu lixo para locais mais distantes. Embora os esforços para desviar mais resíduos dos aterros tenham registado progressos, os especialistas afirmam que a cidade continua fortemente dependente dos aterros e da incineração de resíduos.

Quando os aterros sanitários se expandem, geram mais metano, um gás com efeito de estufa 86 vezes mais potente do que o dióxido de carbono a curto prazo. O aterro de Seneca Meadows é a maior fonte individual de emissões de metano no estado de Nova Iorque.

Outra preocupação ambiental é o lixiviado, uma mistura de água da chuva e toxinas provenientes dos resíduos do aterro. Embora deva ser bombeado para fora e tratado, alguns aterros mais antigos sofrem fugas para o solo subjacente e, eventualmente, para as águas subterrâneas, espalhando toxinas para os cursos de água locais.

Os aterros sanitários também emitem pequenas quantidades de sulfureto de hidrogénio e amoníaco, gases que podem causar odores desagradáveis e efeitos imediatos na saúde, tais como tosse e irritação ocular.

«Quem é que quer que o aterro sanitário perto de si se expanda?», perguntou Craig Benson, um engenheiro ambiental que passou grande parte da sua carreira a estudar aterros sanitários. «Mas toda a gente quer que o seu lixo seja levado embora.»

«Ninguém quer que cresça»

O maior aterro sanitário do estado, o Seneca Meadows, na região de Finger Lakes, solicitou uma licença para se expandir, mas as comunidades vizinhas opuseram-se à proposta. Trata-se da maior fonte isolada de emissões de metano no estado de Nova Iorque. (...)

O lixo da cidade de Nova Iorque representou cerca de 20 por cento dos resíduos transportados por camião para o aterro sanitário em 2024. Só o Queens enviou 221 000 toneladas de resíduos sólidos para lá.


Num projeto de declaração de impacto ambiental de 2024, a operadora do aterro, a Seneca Meadows Inc., afirmou que três condados da cidade de Nova Iorque enviam uma «quantidade significativa» dos seus resíduos para o aterro. A maior parte do lixo enviado para o aterro a partir da cidade de Nova Iorque nos últimos anos, segundo um porta-voz do Departamento de Saneamento da cidade de Nova Iorque, era «quase certamente de origem comercial», o que significa que provinha de empresas como restaurantes e supermercados. Os resíduos comerciais são geridos por empresas privadas, e não pelo departamento de saneamento da cidade.

O porta-voz do departamento de saneamento da cidade garante que o seu departamento não envia material diretamente para a Seneca Meadows, pelo menos desde 2018. No entanto, refere que alguns resíduos residenciais podem acabar por lá através de subcontratados da cidade.

No projeto de declaração de impacto ambiental, a Seneca Meadows Inc. referiu que a expansão permitiria ao aterro «continuar a fornecer a capacidade de eliminação» necessária não só na região de Finger Lakes, mas também em comunidades por todo o estado de Nova Iorque.

A cidade de Seneca, onde se situa o aterro sanitário da Seneca Meadows, aprovou uma lei em 2016 que exigia o encerramento do aterro quando a sua licença expirasse em 2025. Depois de a Seneca Meadows Inc. ter interposto uma ação judicial para contestar a lei, o Tribunal de Recurso do Estado de Nova Iorque acabou por declará-la inválida. Desde então, a empresa apresentou um pedido para expandir o aterro.

Enquanto o Departamento de Conservação Ambiental do estado analisa o pedido, o aterro pode continuar a funcionar — desde que não exceda a sua capacidade atual.

No final de 2024, o aterro tinha apenas oito meses de capacidade autorizada restantes, de acordo com o relatório mais recente apresentado às entidades reguladoras estaduais.

Mas essa estimativa não é definitiva. Benson, professor emérito da Universidade de Wisconsin, em Madison, e reitor emérito da Faculdade de Engenharia da Universidade da Virgínia, afirmou que os operadores de aterros sanitários podem, muitas vezes, aumentar a capacidade autorizada de um local através de uma maior compactação dos resíduos à medida que estes se decompõem. A vida útil restante de um aterro sanitário pode variar consoante a forma como é gerido e a quantidade de resíduos que recebe num determinado ano.

Documentos que a Seneca Meadows Inc. apresentou às entidades reguladoras estatais revelam que a empresa pretende aumentar a altura do aterro em cerca de 70 pés, elevando-a para mais de 840 pés — quase tão alto quanto o Rockefeller Center, em Nova Iorque. A expansão prolongaria a vida útil do aterro em 15 anos, segundo as estimativas da empresa.

«É uma ideia horrível», afirmou Yvonne Taylor, vice-presidente da Seneca Lake Guardian, uma organização ambiental sem fins lucrativos que se opõe à expansão do aterro. «Ninguém quer que ele cresça, exceto as pessoas que trabalham no aterro.»

Embora os registos da EPA indiquem que o aterro emite benzeno, um conhecido agente cancerígeno, uma investigação realizada em junho, promovida pela Seneca Lake Guardian, não encontrou uma ligação direta entre o aterro e as taxas elevadas de cancro.

A organização intentou uma ação judicial contra o aterro em 2024 para impedir a sua expansão, alegando que os maus cheiros que este emite constituem um incómodo e violam os direitos dos residentes locais de respirar ar puro, tal como previsto na Emenda Verde do estado. Um juiz indeferiu partes das queixas de ambas as partes e suspendeu o processo enquanto a Seneca Lake Guardian e a Seneca Meadows Inc., a empresa responsável pelo aterro, recorrem da decisão. (…)

Benson consdiera que a oposição local o principal obstáculo à construção ou expansão de aterros sanitários. A expansão é muitas vezes a melhor opção, especialmente se a empresa gestora tiver um historial sem problemas, sublinha.

O Aterro Sanitário do Condado de Ontário, que em 2019 recebeu 144 000 toneladas de resíduos sólidos urbanos provenientes de Queens, recebeu apenas 2 100 toneladas de entulho de construção da cidade em 2024, de acordo com relatórios apresentados ao Departamento de Conservação Ambiental do estado.

Em 2024, a Câmara Municipal votou a favor do encerramento do aterro sanitário quando a sua licença expirar em 2028. Uma análise encomendada pelos líderes do condado concluiu que o encerramento obrigaria a região a enviar os seus resíduos para outros aterros, aumentando os custos devido ao transporte de longo curso.

O potencial encerramento de Seneca Meadows poderá constituir um problema significativo não só para o estado, mas para toda a região.

«Se esta capacidade for perdida em Seneca Meadows, estas toneladas serão desviadas para os aterros e instalações [de valorização energética de resíduos] restantes, o que poderá provocar uma redução drástica da capacidade de eliminação disponível na região», concluiu a análise encomendada pelo Condado de Ontário.

O encerramento de aterros tem implicações significativas em todo o Nordeste, onde a capacidade dos aterros já é limitada. Metade dos resíduos geridos pelo departamento de saneamento da cidade de Nova Iorque acaba em aterros na Virgínia e na Carolina do Sul.

«Temos assistido a um aumento drástico do transporte ferroviário de resíduos para fora do Nordeste, em parte devido à limitação do espaço disponível», afirmou Bryan Staley, presidente da Environmental Research & Education Foundation, que tem vindo a investigar aterros em todo o país.


A obtenção de licenças para um novo aterro pode demorar entre cinco e dez anos, afirmou Benson, pelo que a expansão de um aterro já existente pode parecer uma alternativa atraente para as empresas privadas — embora isso também possa demorar anos devido às regulamentações estatais.

Staley afirmou que isto levou à «regionalização» da gestão de resíduos. Os resíduos não são eliminados localmente num «depósito de lixo» próximo, mas sim num aterro de grandes dimensões que recebe lixo de toda a região.

«É muito difícil obter licenças para o que chamamos de instalação greenfield — em que se vai para um terreno novo e se desenvolve um novo aterro», afirmou Benson. «É simplesmente difícil porque, honestamente, ninguém quer um novo aterro perto de onde vive.»

Vincent Gragnani, porta-voz do Departamento de Saneamento da cidade de Nova Iorque, afirmou que, embora a cidade envie resíduos para aterros no norte do estado e noutros locais em todo o estado, essas instalações tratam de uma «parte relativamente pequena» dos resíduos que a cidade gere.

«À medida que a capacidade continua a diminuir na região, é provável que venhamos a exportar lixo para locais mais distantes», escreveu Gragnani. (...)

O problema do lixo

O problema crescente do lixo na cidade de Nova Iorque também tem consequências para os seus residentes. Os camiões a gasóleo que transportam o lixo das instalações de transferência de resíduos — onde o lixo local é separado — para os aterros expõem os residentes a partículas finas, o que pode contribuir para a asma infantil, o cancro e doenças cardiovasculares e respiratórias.

Outra preocupação ambiental é o lixiviado, uma mistura de água da chuva e toxinas provenientes do lixo dos aterros. Embora deva ser bombeado para fora e tratado, alguns aterros mais antigos apresentam fugas para o solo subjacente e, eventualmente, para as águas subterrâneas, espalhando toxinas para os cursos de água locais.

Estas preocupações levaram os legisladores e as autoridades municipais a promover políticas destinadas a reduzir a quantidade de lixo que chega aos aterros.

O estudo mais recente sobre a caracterização dos resíduos da cidade revelou que 73% dos resíduos da cidade poderiam ser desviados dos aterros sanitários através da reciclagem ou da compostagem. No entanto, no ano fiscal de 2023, apenas cerca de 20 por cento dos resíduos da cidade foram desviados. Os nova-iorquinos deitaram fora dois terços dos materiais de plástico, metal e vidro que poderiam ter sido reciclados.

Grupos ambientalistas têm apoiado legislação para resolver o problema. No ano passado, um projeto de lei destinado a reduzir as embalagens de plástico esteve prestes a ser aprovado pela Assembleia Legislativa estadual, apesar da forte oposição por parte de grupos industriais. Esse projeto teria reduzido as embalagens não recicláveis no estado em 30% ao longo dos próximos 12 anos e obrigado os produtores de embalagens a contribuir financeiramente para os custos de reciclagem e eliminação de resíduos.

Sacos de reciclagem e de lixo estão alinhados junto ao passeio em Brooklyn, na cidade de Nova Iorque. 
Crédito: Lauren Dalban/Inside Climate News

No início de 2026, o presidente da câmara Zohran Mamdani relançou o programa obrigatório de compostagem da cidade — o mais recente capítulo na abordagem intermitente de Nova Iorque em relação à compostagem. Gragnani, porta-voz da cidade, afirmou que o departamento de saneamento tem registado um «aumento constante da participação» no programa.

Cerca de um terço dos resíduos da cidade é compostável. O programa poderá reduzir significativamente a quantidade de resíduos enviados para aterros, ao desviar os restos alimentares, afirmou Ana Baptista, professora associada de justiça ambiental e climática na Parsons School of Design da The New School.

Políticas como estas podem beneficiar as comunidades de justiça ambiental localizadas perto de infraestruturas de resíduos, incluindo aterros. Para os residentes que vivem perto de Seneca Meadows, as mudanças na forma como os nova-iorquinos eliminam os seus resíduos não podem chegar depressa o suficiente.

«Não queremos que esses resíduos se tornem mais um fardo para outra comunidade», afirmou Taylor. «Podemos mudar o rumo deste navio...»

LEITURAS MARGINAIS

OS MAGNATAS DO AÇÚCAR QUE FINANCIARAM O LÓBI ANTICUBANO E A CARREIRA DE MARCO RUBIO ESTIVERAM ENVOLVIDOS EM OPERAÇÕES SECRETAS DA CIA NA DÉCADA DE 1960
Jeremy Kuzmarov, CovertAction. Rev. O’Lima.


Alfonso Jr. e José «Pepe» Fanjul [Fonte: arielsheen.com]

No dia 3 de agosto, Alfonso Fanjul, Jr., faleceu aos 89 anos. Um obituário do New York Times referiu-se ao Sr. Fanjul (também conhecido como «Alfy») como o «patriarca de uma família que perdeu um dos maiores negócios açucareiros de Cuba na revolução de 1959 e fugiu para os EUA, onde, graças à determinação e aos apoios governamentais aos preços, construiu um império ainda mais vasto».

Referindo que os ambientalistas acusavam a empresa de Alfy, a Florida Crystals, de destruir os Everglades com o escoamento de produtos químicos provenientes dos seus 180 000 acres de cana-de-açúcar em torno do Lago Okeechobee, o obituário referia ainda que Alfy e o seu irmão José «Pepe» eram grandes doadores tanto dos republicanos como dos democratas, tendo Alfy desempenhado o cargo de copresidente da campanha presidencial de Bill Clinton na Flórida em 1992 e doado mais de 2,5 milhões de dólares às campanhas de Donald Trump.

Trump foi descrito como um «amigo de longa data cujas tarifas protecionistas beneficiaram os Fanjuls». No ano passado, Trump levantou uma proibição imposta pela administração Biden ao açúcar importado da Central Romana, uma empresa açucareira na República Dominicana na qual os Fanjuls detinham uma participação significativa, devido a acusações de que esta recorria ao trabalho forçado.

Alfy Fanjul com o ex-presidente Bill Clinton em 2021. [Fonte: nytimes.com]

Embora o The New York Times tenha apresentado uma análise crítica da carreira de Alfy, omitiu algo muito importante: que ele, o seu irmão e o seu pai, Alfonso Sr., colaboraram com a CIA na década de 1960, quando estiveram envolvidos em operações secretas para derrubar o governo revolucionário de Cuba liderado por Fidel Castro.

A história oculta do envolvimento dos Fanjul com a CIA é detalhada no livro de Joan Mellen, The Great Game in Cuba: How the CIA Sabotaged Its Own Plot to Unseat Fidel Castro.

Alfonso Fanjul, Sr. foi consultor do ditador cubano Fulgencio Batista (1940-1944 e 1952-1959), conhecido por impor regimes de trabalho brutais nas plantações de açúcar que herdara do próprio pai. Era amigo dos irmãos Dulles, cujo escritório de advogados Sullivan & Cromwell teve as empresas Fanjul como clientes durante mais de meio século.

Depois de a revolução ter levado à nacionalização das suas plantações, Alfonso Sr. juntou-se a uma equipa secreta liderada por David Sánchez Morales, um assassino da CIA que trabalhou infiltrado no consulado dos EUA em Havana entre 1958 e 1960 e esteve envolvido em operações anticastristas coordenadas a partir de Miami no âmbito da Operação JM-WAVE.

Segundo Mellen, Alfonso Sr. permitiu que a corretora da família Fanjul, a Czarnikow-Rionda, fosse utilizada como canal de financiamento da CIA e que um executivo da empresa, Jack Malone — amigo íntimo do agente da CIA David Atlee Phillips —, atuasse quase a tempo inteiro como informador da CIA.


Os fundos provenientes da Czarnikow-Rionda foram utilizados para adquirir um caça-submarinos da Marinha, que foi utilizado por Alberto Fernández de Hechavarría — um agente da CIA que dirigiu a indústria açucareira cubana após a revolução, antes de se virar contra Castro e tentar derrubá-lo durante a Invasão da Baía dos Porcos e no período que se seguiu — para transportar armas para Cuba.

Alfy e José Pepe aderiram à AMFAST, um grupo secreto de 100 empresários e advogados selecionados pela CIA para ajudar a formar uma nova agência de informações cubana após a «libertação» de Cuba, juntamente com a AMCHEER, outro grupo secreto de empresários recrutados para um projeto semelhante.

O sócio de Alfy e Pepe, Alberto Recio, administrador de uma dúzia de entidades empresariais da família Fanjul constituídas nas décadas de 1960 e 1970, trabalhava a tempo inteiro como agente secreto para a JM-WAVE, nomeadamente num «Projeto Brasil» para o qual a agência lhe transferiu 1 500 libras esterlinas, de acordo com um telegrama de outubro de 1961 que ele enviou à JM-WAVE.

Durante o verão de 1963, Jack Malone escreveu a Alfonso Fanjul, Sr., dizendo: «Continuo a acreditar que as nuvens vão dissipar-se antes de o Little Boy Blue se recandidatar.» Little Boy Blue era um codinome para John F. Kennedy, a quem os Fanjul odiavam e queriam ver assassinado, em parte porque ele não ordenou uma invasão militar total de Cuba para derrubar Castro.


Durante o verão de 1963, Jack Malone escreveu a Alfonso Fanjul, Sr., dizendo: «Continuo a acreditar que as nuvens vão dissipar-se antes de o Little Boy Blue se recandidatar.» Little Boy Blue era um codinome para John F. Kennedy, que os Fanjul odiavam e queriam ver assassinado, em parte porque ele não ordenou uma invasão militar total de Cuba para derrubar Castro.

Sede da estação JM-WAVE de Miami, no campus da Universidade de Miami. [Fonte: spotterup.com]

Alfonso Fanjul, Sr., era sócio de Robert Kleberg III, um magnata da pecuária do Texas que financiou operações terroristas de exilados cubanos em colaboração com a CIA, depois de as suas propriedades pecuárias terem sido nacionalizadas pelo regime de Castro.

No início da década de 1960, Alfonso Fanjul, Sr., tentou garantir a libertação de uma prisão cubana de mais um agente da CIA, Gustavo de los Reyes, cuja rebelião mal sucedida contra Castro foi traída por Allen Dulles e que veio a publicar um artigo na Reader’s Digest a pedido da CIA, que dava a entender que ele tinha sido um prisioneiro político perseguido num gulag comunista.

Alfy casou-se com a filha de de los Reyes, Tina.


Para além da sua atividade secreta para a CIA, os empresários açucareiros da família Fanjul organizavam almoços regulares para a AREC, um grupo de empresários de direita anticastristas que angariava fundos para financiar e fomentar a solidariedade entre outros grupos de exilados.

De acordo com um memorando da CIA, Alfonso Fanjul Jr. e outros membros da AREC doaram fundos a um grupo liderado pelo terrorista Orlando Bosch, que coordenou o atentado bombista de 1976 contra um avião de passageiros cubano, no qual morreram 73 civis.

Numa reunião referida num memorando da CIA, a AREC anunciou uma meta de angariação de fundos de 200 milhões de dólares, estimando que esse montante correspondesse a apenas um décimo do património líquido dos seus membros.

Lobby anticubano e organizações de fachada para mais operações secretas

O facto de o New York Times não ter abordado a ligação dos Fanjuls às secretas coincide com a sua omissão em relatar o financiamento que estes concedem a grupos de pressão anticubanos sediados na Flórida, tais como a Fundação Nacional Cubano-Americana (CANF), que também foi financiada por organizações de fachada dos serviços de inteligência dos EUA, como a Fundação Nacional para a Democracia (NED).

A CANF foi fundada em 1981 por Jorge Mas Canosa, um abastado proprietário de uma empresa de construção civil e veterano da operação da Baía dos Porcos. A NED concedeu 390 000 dólares à CANF entre 1983 e 1988. Com uma estrutura semelhante à do Comité Americano-Israelita de Assuntos Públicos (AIPAC), a CANF possuía ramos separados dedicados à investigação, ao lobbying, à propaganda e à angariação de fundos. Um dos seus principais projetos consistiu em ajudar a financiar a Rádio Martí, que transmitia mensagens anticastristas e anticomunistas para Cuba. Entre 1981 e 1997, a CANF canalizou 3 milhões de dólares para campanhas políticas. Um dos seus políticos preferidos era Robert Torricelli (D-NJ), que representava uma grande comunidade cubano-americana no seu círculo eleitoral.


A CANF também foi utilizada como canal para financiar a subversão contínua da CIA e as atividades terroristas de extrema-direita em Cuba. Luis Posada Carilles, responsável, juntamente com Orlando Bosch, pelo atentado à bomba de 1976 contra um avião de passageiros cubano, admitiu ao The New York Times que pessoas afiliadas à CANF financiaram secretamente os atentados bombistas contra hotéis em Havana, um dos quais causou a morte de um turista italiano.

Margaret Katherine Henn salientou numa tese do Boston College que o financiamento da CANF pela NED refletia o engano dos contribuintes americanos, uma vez que estava a subcontratar operações secretas a uma organização privada e, assim, a garantir uma negação plausível.

Além disso, o financiamento da CANF pelos Fanjuls reflete a continuidade do seu papel ao permitirem que a sua corretora servisse de canal para as operações secretas da CIA na década de 1960, com o objetivo de derrubar o regime de Castro em Cuba.

Francisco José «Pepe» Hernandez na sede da Fundação Nacional Cubano-Americana, em Miami ( 27 de julho de 2009) [Fonte: sandiegouniontribune.com]

Strip Tease

Em 1993, Carl Hiaasen escreveu um romance, Strip Tease, uma sátira mal disfarçada sobre os Fanjuls e os políticos que lhes faziam o jogo. Uma das personagens da história observou que «o mais perto que a maioria deles chegou da verdadeira colheita [de açúcar] foram os cubos que deitavam no café no clube dos banqueiros. Os herdeiros dos produtores de açúcar nem por acaso se deixariam ver num campo de cana escaldante.»

Na vida real, entre os políticos que cumpriam as ordens dos Fanjul contava-se George H. W. Bush, o antigo diretor da CIA que também tinha utilizado as suas empresas como canal para a Operação Baía dos Porcos.

Durante a campanha presidencial de 1988, José «Pepe» foi um dos principais doadores da campanha de Bush e, posteriormente, desempenhou as funções de vice-presidente do comité financeiro de Bush.

Alfy angariou 100 000 dólares para Bill Clinton num jantar de angariação de fundos em Miami, enquanto presidia à campanha presidencial de Clinton de 1992 na Flórida. Clinton correspondeu às expectativas dos Fanjuls quando promulgou a Lei Helms-Burton de 1996, que impôs novas sanções punitivas contra empresas estrangeiras que operassem em Cuba e proibiu qualquer levantamento do embargo dos EUA. A administração Clinton promoveu ainda mais as políticas de comércio livre e visou a esquerda na América Latina, mantendo direitos aduaneiros, apoios aos preços e programas federais que garantiam a importação de cortadores de cana das Índias Ocidentais, aos quais podiam ser pagos salários baixos, entre outras leis que beneficiavam os lucros dos Fanjuls.

A mansão de Alfy Fanjul em Palm Beach — construída com dinheiro sujo e trabalho escravo. [Fonte: superyachtfan.com]

O «padrinho» de Marco Rubio

Para além dos Bush e dos Clinton, os Fanjul investiram parte da sua fortuna estimada em 8,5 mil milhões de dólares na promoção da carreira de Marco Rubio, a quem têm apoiado desde que este foi eleito pela primeira vez para a Assembleia da Flórida, em 2000. No total, estima-se que os Fanjul tenham doado diretamente a Rubio mais de 500 000 dólares e tenham organizado dezenas de eventos de angariação de fundos a seu favor.

Quando Rubio se candidatou ao Senado dos EUA em 2010, os Fanjuls ofereceram-lhe o montante máximo de doação permitido. Rubio mal conseguia atingir dois dígitos nas sondagens contra o governador Charlie Crist, antes de a doação dos Fanjuls o ter ajudado a impulsionar imensamente a sua campanha. Além disso, os Fanjuls começaram a organizar eventos de angariação de fundos para Rubio e apresentaram-no a figuras poderosas como Rudy Giuliani.

Os Fanjuls têm obtido um retorno significativo do seu investimento em Rubio, uma vez que este tem sido um defensor ferrenho de subsídios generosos à indústria açucareira, de medidas de apoio aos preços do açúcar e de restrições às importações, o que inflaciona artificialmente os preços do açúcar e enriquece os Fanjuls.

Rubio também tem sido, há muito, um firme opositor das regulamentações ambientais que teriam impedido os Fanjuls de poluir os Everglades, na Flórida. Além disso, Rubio está agora a promover as políticas externas agressivas na América Latina que os Fanjuls há muito desejavam, incluindo a intensificação dos esforços para uma mudança de regime em Cuba.

O jovem Marco Rubio. Ascendeu rapidamente graças aos seus poderosos patrocinadores ligados à CIA. [Fonte: washingtonpost.com]

A um passo de Dachau

Quando, na década de 1980, a empresa enviou um advogado para inspecionar as condições dos campos de trabalho na República Dominicana, numa plantação propriedade dos Fanjuls, este descreveu-as à revista Vanity Fair como «a um passo de Dachau». [Os Fanjuls eram os principais acionistas da empresa proprietária da plantação, a Central Romana].

Décadas mais tarde, um artigo publicado na revista The American Prospect sublinhava que «praticamente nada tinha mudado». Os trabalhadores da plantação da Central Romana recebiam apenas 3 dólares por dia por um trabalho árduo e extenuante e continuavam a ser obrigados a viver em casas sem eletricidade, água potável ou sequer colchões para dormir.

Um grupo de Irmãs de Maryknoll que lá viajou na década de 1980 constatou que as latrinas nas casas eram de condição deplorável e que as doenças e a desnutrição eram endémicas.

O Departamento do Trabalho dos EUA, durante a presidência de Reagan, investigou a empresa dos Fanjuls, a Flo-Sun, depois de os trabalhadores que tentaram entrar em greve terem sido deportados. A investigação concluiu que os Fanjuls pagavam menos do que o devido aos trabalhadores de forma regular, pagavam os salários mais baixos de todas as explorações açucareiras e participavam numa «falsificação sistemática dos registos de folha de pagamentos para encobrir esta situação».

Um artigo publicado em agosto de 2026 no The New York Times, da autoria de Ana Swanson, salientou que a maioria dos trabalhadores das plantações que trabalhavam em condições horríveis na Central Romana, na República Dominicana, eram migrantes haitianos sujeitos a intimidações e ameaças por parte dos seus supervisores e a práticas de trabalho forçado que faziam lembrar a escravatura. O artigo de Swanson sublinhou ainda que os Fanjuls tinham investido mais de um milhão de dólares em atividades de lóbi entre 2023 e 2025 e doado milhões de dólares à campanha de Trump, com o objetivo de garantir a revogação da proibição de importação imposta pela administração Biden.


Como mais uma recompensa pelo apoio financeiro dos Fanjul, Trump convidou José Pepe para um jantar de Estado na Casa Branca com o rei Carlos III e a rainha Camilla e agradeceu a Pepe pelas suas contribuições durante um jantar na Casa Branca, afirmando que «Pepe, foste fantástico, ele tem um pequeno negócio de açúcar. Tem o monopólio do açúcar mundial — diria que é um bom negócio.»

José Pepe Fanjul com Jeffrey Epstein. [Fonte: x.com]

Monstros Bilionários

É importante contar a história dos Fanjul porque lança luz sobre a grave injustiça que resulta do sistema político norte-americano, saturado de dinheiro, incluindo a prática de exploração laboral flagrante e a degradação ambiental.

As ligações secretas dos Fanjuls aos serviços secretos e o seu envolvimento de longa data em operações secretas refletem a forma como a CIA e as suas filiais servem os interesses de uma elite financeira predatória, desprovida de qualquer compaixão humana ou consciência.

Embora muitos americanos estejam hoje, com razão, revoltados com o comportamento de políticos como Donald Trump, as pessoas não devem perder de vista o facto de que Trump e os seus contemporâneos estão nas mãos de oligarcas como os Fanjuls, que são, em última análise, aqueles que detêm o verdadeiro poder.

Os movimentos sociais devem centrar o seu ativismo neles e exigir uma redistribuição justa da riqueza na sociedade através de políticas socialistas (ou seja, leis antitrust para desmantelar os monopólios empresariais, redistribuição de terras, nacionalização da indústria, tributação elevada sobre os ricos), a par de alterações nas leis de financiamento eleitoral e de lobbying, o que ajudaria a minar a influência política de monstros bilionários como os Fanjuls.