Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

terça-feira, 18 de agosto de 2026

ALEMANHA: RIOS SECOS ESPOLETAM DISPUTA ENTRE A ENGENHARIA E A RESTAURAÇÃO

O leito parcialmente seco do rio Reno em Düsseldorf, no oeste da Alemanha, a 28 de julho.
  • Uma forte onda de calor fez com que os principais rios alemães, incluindo o Reno, o Danúbio e o Elba,atingissem níveis extremamente baixos, expondo bancos de areia interrompendo o transporte de carga na maior economia da Europa. Esta crise desencadeou um conflito político sobre a forma como a Alemanha deve responder. Duas estratégias opostas emergem: o Ministro dos Transportes, Steffen Bilger (CDU/CSU) propõe o aprofundamento dos canais e o desenvolvimento de navios de calado reduzido. Como solução a curto prazo, levantou a proibição do transporte de camiões aos domingos para aliviar os estrangulamentos no transporte marítimo. Por outro lado, o Ministro do Ambiente, Carsten Schneider (SPD) defende a restauração dos rios a um estado mais natural, nomeadamente através da criação de braços sinuosos nos rios, zonas húmidas e planícies de inundação que retêm água. Fonte.
Foto: AFP/Getty Images.
  • Cuba enfrenta apagões devastadores em todo o país, à medida que o bloqueio petrolífero imposto pelos EUA estrangula o abastecimento de combustível. Mas esta crise poderá também estar a acelerar uma revolução da energia limpa apoiada pela China, que tem vindo a desenrolar-se discretamente nesta nação caribenha. Cuba está atualmente a concretizar uma das revoluções solares mais rápidas do planeta, com a ajuda da China. As importações de painéis solares e baterias chineses dispararam ao longo do último ano e, com o investimento chinês, Cuba construiu dezenas de parques solares. Fonte.
  • O Tribunal Constitucional da África do Sul bloqueou a exploração offshore de petróleo e gás liderada pela Shell ao longo da Costa Selvagem do país. Fonte
  • Mais um título que nos baralha. Querem ver que os meios aéreos tornaram os fogos mais fortes?

BICO CALADO

Foto: 
Eric Gay/AP
  • “André Ventura foi apanhado a mentir. Decidiu simular que trabalhava e fez um video aldrabado, dizendo que ninguém trabalhava no Parlamento. Questionado por uma jornalista, que lhe lembrou que existem outros locais onde os deputados trabalham, decidiu agora afirmar que não estava ninguém nas lideranças parlamentares. Para vos provar que ele bateu à porta do corredor apenas para aldrabar, decidi mostrar-vos como funciona o espaço destinado as lideranças parlamentares.” José Carlos Barbosa.
  • O estudo vergonhoso da entidade reguladora (ERSE) que defende que o governo de Luís Montenegro não deve intervir para permitir à Galp e outras petrolíferas continuarem a obter lucros enormes e a distribuir dividendos milionários aos acionistas à custa da espoliação dos consumidores. Eugénio Rosa.
  • Quercus exige pagamento do IMI das barragens.
  • O jornal catalão «La Directa», enfrenta uma ação judicial movida pela Agência Espanhola de Proteção de Dados por ter publicado detalhes sobre quatro agentes da polícia à paisana que se tinham infiltrado em movimentos sociais e políticos em Valência e na Catalunha. A agência alega que a publicação violou as leis de privacidade e exige a remoção da informação, bem como uma multa que pode ir até aos 7 000 euros. A La Directa e os seus apoiantes defendem que a investigação constituiu um exercício legítimo da liberdade de imprensa e uma função democrática essencial — a responsabilização das autoridades públicas. Consideram que o processo relativo à proteção de dados é uma «ação judicial estratégica contra a participação pública» (SLAPP), destinada a intimidar e censurar os media. Fonte.
  • Quando alguns lóbis de direita de duvidosa reputação publicaram relatórios ridículos alegando que o movimento pela independência da Escócia era financiado pelo Irão, o assunto foi amplamente divulgado pelos media. O governo do Reino Unido encobre informações fidedignas dos serviços secretos franceses sobre a interferência israelita contra a independência — e ninguém diz nada. Craig Murray.
  • “Acho que deveriam ser levados a cabo assassinatos seletivos em Gaza, eliminando entre 30 e 40 pessoas todas as noites. Não apenas aqueles que representam uma ameaça imediata; há pessoas lá que não merecem viver. Não deviam viver. Nem sequer são pessoas”. Itamar Ben Gvir.
  • «Um governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos»: Quase 60 altos responsáveis da administração Trump com um património de 100 milhões de dólares ou mais. Fonte.
  • O jornalista assassinado Danny Casolaro tinha um bilhete no sapato sobre o envolvimento da CIA no tráfico de droga e no terrorismo no Médio Oriente. Jeremy Kuzmarov, CovertAction Magazine.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

FRANÇA: INVASÃO DE MEDUSAS ENCERRA CENTRAL NUCLEAR

  • A central francesa de Gravelines, da EDF, situada perto de Dunquerque, foi obrigada a encerrar na segunda-feira para evitar uma catástrofe, depois de ter sido invadida por milhões de medusas ( Asian Moon Jellyfish) A invasão de medusas ocorre exatamente um ano depois de outro enxame destas criaturas ter levado à paralisação da central nuclear francesa durante dois dias. Fonte.
  • A Alemanha enfrenta calor recorde, secas, incêndios e milhares de mortes relacionadas com as altas temperaturas, mas a ação climática perdeu força. Movimentos como Last Generation praticamente cessaram os protestos, e o Fridays for Future luta para mobilizar pessoas. Apesar dos impactos graves — rios quase secos, perdas agrícolas e riscos para idosos — o governo é criticado por respostas tímidas e medidas apenas paliativas. Fonte.

BICO CALADO

  • Há 3 anos que a Comissão Europeia anda a negociar secretamente um acordo de partilha de dados com a polícia e os serviços de segurança de Israel, apesar de os seus próprios juristas o terem declarado ilegal. O acordo permitiria a transferência em massa de dados pessoais sensíveis — incluindo dados biométricos, informação genética, localização e opiniões políticas — dos sistemas da UE (através da Europol) para as autoridades israelitas, incluindo o Shin Bet. Este acordo alarga um acordo de 2018 que excluía explicitamente os dados pessoais e os territórios palestinianos ocupados. Em 2022, o Serviço Jurídico do Conselho concluiu que a Comissão tinha excedido o seu mandato, violado os tratados da UE e não tinha consultado o grupo de trabalho competente. Os juristas alertaram que a aplicação do acordo aos territórios ocupados desde 1967 violaria o direito à autodeterminação palestiniana e o direito internacional. A Comissão tomou nota destas objeções e, mesmo assim, prosseguiu com as negociações. Embora formalmente suspensas no final de 2022, os responsáveis da Comissão realizaram pelo menos sete reuniões com diplomatas israelitas entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026. A Europol recebeu pelo menos cinco delegações israelitas entre agosto de 2024 e março de 2026, ao mesmo tempo que se autodescrevia como um «observador passivo». A Comissão recusou-se a comentar o estado do processo ou se tinha dado resposta às objeções jurídicas. Os críticos alertam que os dados poderão ser utilizados como informação de inteligência para apoiar ataques contra palestinianos, tendo um jurista considerado «profundamente preocupante» a partilha de dados com um Estado «acusado de forma credível de genocídio». Fonte.
  • A MEO, que em 2025 facturou cerca de 2,8 mil milhões de euros, gerou 947 milhões de EBITDA (Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização), viu as receitas crescerem e, ainda assim, conseguiu do Governo o estatuto de “empresa em reestruturação” para facilitar um programa que prevê a saída de cerca de 1.200 trabalhadores. Fonte.
  • O capitalismo ensina-nos a culpar-nos uns aos outros pelos abusos sistémicos. Caitlin Johnstone, Substack.
  • «Há 35055 bebés órfãos em Gaza. O sangue deles vai assombrar-vos.» Ayman Odeh, membro do Knesset israelita, foi retirado à força do pódio depois de ter chamado ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu «um assassino em série da paz». Fonte.
  • Mário Ferreira é o dono da TVI, da CNN Portugal e do jornal Nascer do Sol. Precisamente o grupo de comunicação que iniciou há semanas atrás uma perseguição mediática intensa, à moda da antiga PIDE, ao ministro da Administração Interna, Luís Neves. E não é por acaso… Foi precisamente Luís Neves enquanto director nacional da PJ e os seus homens que caçaram Mário Ferreira por fraude fiscal qualificada num processo relacionado com a compra e venda do navio Atlântida. O empresário comprou aos estaleiros de Viana o Atlântida por 8,5 milhões e de seguida vendeu o navio a uma empresa da Noruega por 17 milhões, numa trasacção feita através de uma off-shore registada em Malta para fugir aos impostos devidos ao Estado Português.O Ministério Público pediu a condenação do empresário a uma pena de prisão e apontou uma alegada fuga aos impostos de 1 milhão de euros na venda do navio Atlântida. O processo está em julgamento no Tribunal de São João Novo, no Porto, a aguardar decisão final da justiça. (…)” António Dias. Via Manuel Santos.
  • Todos os anos, 15 de agosto é festa rija em Água de Pau, Açores. Confunde-nos ver a imagem da padroeira local carregar ao ombro argolas de notas de dinheiro apanhadas durante o trajeto da procissão.

LEITURAS MARGINAIS

A GEOGRAFIA INVISÍVEL DO PODER ISRAELITA
Lorenzo Maria Pacini, Strategic Culture Foundation. Rev. O’Lima.


O mapa ocultado pelos servidores e a ilusão das fronteiras digitais

A 10 de junho de 2025, dois executivos da Microsoft França compareceram perante uma comissão de inquérito do Senado francês encarregada de analisar os contratos públicos e a soberania digital. A audiência decorreu no habitual tom tranquilizador até que surgiu uma pergunta que alterou completamente o ambiente: poderia a empresa garantir que os dados dos cidadãos franceses — mesmo que alojados em servidores localizados em França — nunca seriam transferidos para uma autoridade estrangeira sem o consentimento do governo francês? Anton Carniaux, diretor de assuntos públicos e jurídicos da filial, respondeu sob juramento com seis palavras: «Não, não posso garantir isso.»

Essa declaração desmontou anos de retórica empresarial construída em torno de expressões como «regiões de nuvem locais», «infraestrutura fiável» e «residência de dados». A França poderia alojar os servidores, os cidadãos franceses poderiam gerar os dados e as instituições francesas poderiam pagar pelo serviço — mas a autoridade final poderia ainda residir noutro local. A comissão chegou a uma conclusão clara. A Microsoft não conseguiu garantir a soberania sobre os dados que alojava. Essa troca de palavras revela uma realidade com consequências específicas, incluindo — e talvez acima de tudo — para a Ásia Ocidental: a localização física dos dados já não coincide com a sua localização política.

A geografia clássica do poder ensina que a soberania ocupa o território. O petróleo pertence ao Estado sob cujo solo se encontra; os portos estão sob a autoridade do país em cujas margens se situam; os oleodutos seguem as fronteiras que atravessam. Nesta tradição, o poder é interpretado na superfície da Terra. Os dados seguem uma geografia diferente.

Um registo médico pode ser criado em Riade, armazenado no Bahrein, processado por um algoritmo treinado nos EUA e gerido através de uma filial europeia. Que Estado o controla verdadeiramente? A resposta convencional atribui os dados ao indivíduo, à empresa ou ao governo que os gerou. Na prática, a propriedade importa menos do que o controlo. O poder real pertence a quem for capaz de aceder, processar, transferir, restringir ou obrigar legalmente à divulgação da informação.

Este princípio é afirmado de forma inequívoca pelo próprio Departamento de Justiça dos EUA. Ao abrigo da Lei CLOUD, os prestadores de serviços sujeitos à jurisdição dos EUA podem ser obrigados a entregar dados através de processos judiciais válidos, «independentemente do local onde a empresa os armazene». Washington apresenta a lei como uma ferramenta legítima para a obtenção de provas eletrónicas. A nível geopolítico, permite que a jurisdição dos EUA se estenda através do controlo corporativo, alcançando informações armazenadas muito além do território norte-americano. O novo mapa do poder é traçado não só por fronteiras, cabos e centros de dados, mas também por sedes sociais, chaves de encriptação, obrigações legais, administradores de sistemas e pelos Estados capazes de os obrigar a cooperar.

Em toda a Ásia Ocidental, os governos estão a investir fortemente na computação em nuvem, na inteligência artificial, na identidade digital, nas cidades inteligentes e nos serviços públicos baseados em dados. A Arábia Saudita pretende tornar-se uma economia de dados líder; os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Bahrein, Omã e a Turquia estão a expandir as suas capacidades de gestão e governação da informação. A capacidade física também se concentra em alguns centros regionais: uma avaliação de 2025 do Banco Mundial contabilizou trinta e nove centros de dados nos Emirados Árabes Unidos e trinta e três na Arábia Saudita — números inferiores à média dos países de rendimento elevado (oitenta e um), mas significativamente superiores aos do resto da região.

A transição é mensurável. De acordo com a União Internacional das Telecomunicações, em 2024, 70% da população dos Estados árabes utilizava a Internet, em comparação com 68% a nível global. A média regional, no entanto, esconde uma diferença de 82% entre as economias menos conectadas e as mais conectadas, enquanto as assinaturas de banda larga fixa continuam a ser menos de metade do valor global. A expansão digital é rápida e, ao mesmo tempo, profundamente desigual.

O panorama dos fornecedores, por outro lado, é altamente concentrado. De acordo com o Synergy Research Group, no terceiro trimestre de 2025, a Amazon, a Microsoft e a Google representavam 63% dos gastos empresariais globais em infraestruturas na nuvem, num mercado trimestral que tinha crescido de 68 mil milhões de dólares para 107 mil milhões de dólares apenas dois anos antes. Os países que estão a construir rapidamente os seus próprios sistemas digitais estão a entrar num mercado já estruturado em torno da dependência. Um governo pode exigir que os dados dos cidadãos permaneçam dentro das fronteiras nacionais, ao mesmo tempo que confia a uma empresa estrangeira a gestão da plataforma, a atualização do software, o fornecimento do modelo de IA ou o controlo de camadas críticas do sistema. Isto cria a aparência de soberania sem a sua essência.

A localização de dados responde apenas a uma pergunta: onde é que a informação está armazenada? Deixa, porém, em aberto as questões cruciais. Quem controla as chaves de encriptação? Quem atualiza o software? Quem pode suspender o serviço? As leis de que país regem o prestador de serviços? Quem pode obrigar à sua divulgação e quem possui o poder computacional necessário para extrair valor estratégico da mesma? Manter os servidores dentro das fronteiras nacionais não os coloca sob controlo nacional.

A Palestina e os dados como arma

Em nenhum outro lugar as consequências desta geografia oculta são mais evidentes do que na Palestina ocupada. A guerra moderna depende cada vez mais da recolha, do cruzamento de dados e da interpretação de enormes quantidades de informação. Registos telefónicos, identificadores biométricos, comunicações interceptadas, históricos de localização e imagens aéreas podem ser transformados em informações militares através da computação em nuvem e da inteligência artificial.

A utilização combinada de produtos da Microsoft e da OpenAI pelas forças armadas israelitas, em março de 2024, tinha atingido um nível quase duzentas vezes superior ao da semana anterior a 7 de outubro de 2023. Os dados armazenados nos servidores da Microsoft mais do que duplicaram, ultrapassando os 13,6 petabytes em julho de 2024, enquanto a utilização dos servidores cresceu quase dois terços durante os primeiros dois meses da guerra. A plataforma Azure terá sido utilizada para compilar, transcrever e traduzir informações obtidas através da vigilância em massa, tendo algumas dessas informações sido cruzadas com sistemas de aquisição de alvos.

Em setembro de 2025, a Microsoft desativou determinados serviços de nuvem e IA prestados a uma unidade militar israelita, depois de uma auditoria interna ter confirmado que os seus produtos estavam a ser utilizados para a vigilância em massa de palestinianos; os dados em questão estavam armazenados nas instalações de nuvem da empresa localizadas na Europa. Esta cadeia de acontecimentos é reveladora: informação recolhida na Palestina, processada por uma unidade militar israelita, alojada na Europa e, em última instância, sujeita a uma decisão tomada por uma empresa norte-americana. A limitação desta medida é igualmente reveladora. Como observou Hossam Nasr, um antigo funcionário da Microsoft e defensor da campanha «No Azure for Apartheid», a maior parte do contrato com o aparelho militar israelita permaneceu intacta. As grandes empresas tecnológicas ocupam agora posições outrora reservadas quase exclusivamente aos Estados: fornecem capacidades utilizadas em operações secretas, decidem se um cliente mantém o acesso, investigam alegados abusos e impõem restrições além-fronteiras.

Israel admite a importância estratégica do controlo sobre a nuvem. O projeto Nimbus, adjudicado à Google e à Amazon Web Services, foi concebido para fornecer aos ministérios israelitas e às agências públicas relacionadas uma infraestrutura de nuvem abrangente. O contrato, no valor de 1,2 mil milhões de dólares, exigia infraestrutura local e foi apresentado como um meio de manter a informação governamental dentro das fronteiras do país. Os principais fornecedores, no entanto, continuam a ser empresas norte-americanas, integradas nos sistemas jurídicos e tecnológicos dos EUA.

O Nimbus personifica o paradoxo central da soberania dos dados: um governo pode exigir que a informação permaneça dentro do seu território, ao mesmo tempo que confia o armazenamento, a computação e a gestão da plataforma a empresas sediadas noutro local. Israel negociou arduamente para reduzir esta vulnerabilidade. A maioria dos países da Ásia Ocidental carece do poder de negociação de Israel, da sua integração tecnológica com Washington ou da sua capacidade de exercer pressão sobre as grandes empresas norte-americanas. Neste contexto, a soberania é também uma função do poder de negociação.

A disputa em torno dos dados é, em última análise, uma luta por três direitos estratégicos. O primeiro é o direito de recolher: governos, plataformas digitais, operadores de telecomunicações, bancos e serviços de segurança acumulam informações sobre identidade, deslocações, comunicações, saúde, consumo e comportamento. O segundo é o direito de processar: os dados brutos só adquirem valor estratégico se o interveniente possuir os chips, os algoritmos, as plataformas na nuvem e o pessoal qualificado necessários para os processar. O terceiro é o direito de obrigar: a autoridade, reivindicada por governos e tribunais, para obrigar os fornecedores a divulgar, reter, remover ou restringir informações.

A concentração económica subjacente a estes três direitos está a intensificar-se. A UNCTAD relata que as cinco maiores multinacionais digitais aumentaram a sua quota combinada das vendas do setor de 21% em 2017 para 48% em 2025, enquanto a sua quota de ativos subiu de 17% para 35%. O controlo sobre os dados e a computação está a acumular-se mais rapidamente do que a infraestrutura se está a expandir. Um país que controla apenas o primeiro direito é um fornecedor de matérias-primas digitais; aquele que controla a recolha de dados e a computação pode tornar-se uma potência digital; um interveniente capaz de exercer os três direitos possui algo próximo da soberania digital.

Os interesses económicos estão a aumentar rapidamente. A UNCTAD estima que o mercado global de inteligência artificial cresça de 189 mil milhões de dólares em 2023 para 4 800 mil milhões de dólares em 2033 — um aumento de vinte e cinco vezes ao longo de uma década. As regiões que fornecem dados, mas carecem da infraestrutura informática e da propriedade intelectual necessárias para os processar, correm o risco de reter apenas uma parte mínima desse valor. No século XX, o valor estratégico residia não só na extração de petróleo, mas também na sua refinação, transporte, fixação de preços e financiamento. No século XXI, a mesma distinção aplica-se aos dados: a Ásia Ocidental pode gerar a matéria-prima, mas o poder decisivo reside nas «refinarias de dados» – ou seja, nas plataformas na nuvem, nos modelos de IA e nos sistemas informáticos que convertem a informação em lucro, inteligência e influência geopolítica.

Para além do colonialismo digital

A solução não é o isolamento tecnológico. Nenhum Estado da Ásia Ocidental consegue, por si só, reproduzir todas as camadas da pilha tecnológica global, e substituir a dependência dos fornecedores norte-americanos por uma dependência total de plataformas chinesas ou de outras origens apenas deslocaria o centro de gravidade externo. O risco a evitar é que a libertação da dependência do petróleo se transforme em colonialismo digital: um cenário em que as empresas da região geram os dados, enquanto as plataformas estrangeiras detêm a infraestrutura, extraem o seu valor e mantêm o controlo sobre o acesso. O que é necessário é uma autonomia tecnológica distribuída.

Nesta base, é possível estabelecer uma ordem concreta de prioridades. A aquisição de serviços na nuvem deve ser tratada como uma decisão de segurança nacional, e não como uma atividade rotineira de TI: os contratos devem especificar quem controla as chaves de encriptação, como serão tratados os pedidos legais estrangeiros e se os dados e as aplicações podem ser migrados para outro fornecedor. Os dados relativos à saúde, à defesa, à biometria, ao sistema judicial e ao registo civil exigem uma proteção mais rigorosa do que a informação comercial comum. Os governos devem investir em capacidades regionais de nuvem interoperáveis, em normas abertas, em auditorias independentes e na capacidade de manter serviços essenciais caso um fornecedor estrangeiro revogue o acesso. Acima de tudo, a soberania dos dados deve ir além do armazenamento para abranger toda a cadeia: recolha, classificação, processamento, acesso, partilha e eliminação.

Há mais de um século que a importância geopolítica da Ásia Ocidental tem sido definida por campos petrolíferos, oleodutos, portos, estreitos e bases militares. Essas estruturas continuam a ser fundamentais, mas outra rede estratégica espalhou-se por cima delas — uma rede composta por bases de dados, contratos de serviços na nuvem, jurisdições legais, sistemas de identificação, modelos de IA e autorizações invisíveis. O controlo sobre os dados confere aos Estados e às empresas o poder de mapear as sociedades, interpretar os seus comportamentos, antecipar as suas mudanças políticas e económicas e traduzir esse conhecimento em ação.

Os Estados da Ásia Ocidental estão a construir rapidamente a infraestrutura digital sobre a qual assentarão as suas economias e instituições públicas. Grande parte da autoridade que rege esses sistemas, no entanto, permanece fora da região. No século XXI, o controlo sobre um território dependerá cada vez mais do controlo sobre os dados que revelam a sua população, as suas instituições e os seus recursos.

A questão colocada ao Senado francês em junho de 2025 estende-se claramente muito além da França: quem não consegue garantir para onde os seus dados irão parar não governa plenamente o seu próprio território. E com esses dados, pode-se fazer literalmente tudo.

domingo, 16 de agosto de 2026

AÇORES: LAGOA LIDERA RECOLHA SELETIVA DE RESÍDUOS URBANOS POR HABITANTE


Lagoa é o município regional com maior quantidade de resíduos urbanos recolhidos seletivamente por habitante. Em 2024, foram 371 kg por habitante, um valor acima da média dos Açores (210 kg) e da nacional (122 kg). Fonte.

BICO CALADO

  • As ‘pedras da fome’ são rochas no leito de rios da Europa Central, especialmente no Elba, Danúbio e Reno, que só ficam visíveis quando o nível da água desce drasticamente durante períodos de seca extrema. Ao longo dos séculos, comunidades gravaram nelas datas e mensagens para assinalar anos de fome, dificuldades económicas e níveis historicamente baixos dos rios. Brenda Haas, DW.
  • A tentativa dos EUA de dominar a América Latina avança a todo o vapor. O presidente colombiano Abelardo de La Espriella é o mais recente líder latino-americano a aderir à coligação de extrema-direita apoiada pelos EUA que procura controlar o Hemisfério Ocidental. Arturo Dominguez, MediumE agora a besta quer declarar o Estreito de Ormuz território dos EUA.
  • As reclamações dos consumidores contra empresas financeiras dispararam nos últimos três anos, e essa tendência levou o Gabinete de Proteção Financeira do Consumidor (CFPB) do presidente Donald Trump a tomar medidas, mas não contra as empresas acusadas de cobrar comissões abusivas, de não resolverem disputas relativas a cobranças de cartões de crédito, de tentarem cobrar dívidas indevidamente e de outras infrações. Em vez disso, o CFPB anunciou que deixará de publicar as «narrativas» das queixas — a descrição escrita pelo queixoso da sua interação com a empresa financeira — ou visualizações de dados na base de dados de queixas, ocultando do público os comentários dos consumidores sobre as práticas comerciais das instituições. Cá por Portugal, o primeiro ministro Luís Montenegro afirmou: “O país tem de ter a coragem de falar mais das grandes coisas que estamos a fazer bem e falar menos das pequenas coisas que, por ventura, não corram tão bem”. 
Fotografia de Elliot Adams (Equipa pela Paz da VFP na Coreia) no exterior da base do Exército dos EUA, Camp Humphreys. Trinta autocarros cheios de polícias estão alinhados na extremidade esquerda da fotografia. 13 de agosto de 2026.
  • Na Coreia do Sul, estão a decorrer ações de protesto a nível nacional nas bases norte-americanas espalhadas por todo o país, no âmbito da campanha «US Out of Korea», organizada por uma vasta coligação de grupos pacifistas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

BOLIEIRO, CERTAMENTE UM DOS MAIS BARROCOS POLÍTICOS PORTUGUESES DA ATUALIDADE *

Imagem criada por IA

José Manuel Bolieiro, certamente um dos mais barrocos políticos portugueses da atualidade, aderiu, mais ou menos recentemente, à tendência do pequeno vídeo político.

Inaugura-se uma estrada? Lá temos o videozinho singelo do modesto governante a calcorrear o alcatrão ainda fumegante, como se tivesse acabado de descobrir a engenharia do pavimento.

Entrega-se um apartamento? Surge o político engravatado, qual agente da Remax, a abrir portas, mostrar assoalhadas e explicar, com a solenidade de quem apresenta uma penthouse em Manhattan, as virtudes da nova habitação.

Lança-se um navio? Temos o político em pose de almirante, ao comando da nave, rodeado da mais alta tecnologia, provavelmente a imaginar que está a preparar a próxima expedição de Vasco da Gama à Índia.

E, finalmente, chegamos ao peripatético aperto de mão ao robô chinês da mais alta tecnologia, numa espécie de encontro entre o futuro da humanidade e o passado da comunicação política.

A arte do spot político é antiga e não tem, evidentemente, nada de novo. Desde o alvor da televisão nos Estados Unidos que políticos de todas as gamas e feitios perceberam que, para além de governar, era preciso saber aparecer. Obama, aliás, fez disso uma arte. De Trump a Bolsonaro, de Macron a Zelensky, muitos foram os políticos que transformaram a presença online numa extensão quase permanente da sua atividade política.

O problema, portanto, não está no meio. Está no conteúdo.

Porque a câmara é inclemente. E reveladora. Amplifica tiques, expõe maneirismos, denuncia hesitações, torna visíveis pequenas fragilidades que, no discurso escrito ou num palco preparado, poderiam passar despercebidas. A linguagem, o ritmo, o tom de voz, o sotaque, a pose e até a maneira de caminhar e de gesticular acabam por construir uma personagem que talvez o próprio político não tivesse intenção de revelar.

Assistir a alguns destes vídeos é, assim, um pouco como assistir a uma telenovela portuguesa dos anos oitenta, em que os atores pareciam todos amadores e os diálogos saíam lentos e atabalhoados, como crianças com pânico de palco, numa sucessão de momentos de involuntária vergonha alheia.

E talvez seja esse o problema maior desta nova política de proximidade digital. A política deixou progressivamente de ser a arte de convencer alguém de que se tem uma ideia para governar para se transformar numa espécie de concurso permanente de popularidade, em que os candidatos a políticos se submetem voluntariamente ao ridículo público em troca de um punhado de likes, e uma mão cheia partilhas e comentários, mesmo que de ódio.

O problema não é a tecnologia, mas uma questão de escala e, sobretudo, de substância.

Que um candidato à presidência de uma grande nação recorra às redes sociais para chegar a milhões de eleitores que jamais poderia cumprimentar pessoalmente é perfeitamente compreensível. Que os populistas demagogos se alimentem do vazio viral dos cinco segundos de atenção do ecrã digital é natural. Mas que um político regional, responsável por governar uma comunidade onde, literalmente, conhece ou pode encontrar muitos dos seus eleitores, transforme o pequeno vídeo de propaganda numa metodologia recorrente de comunicação política é outra coisa. É a substituição da política pela representação da política. É travestir a razão e a natureza da política. Talvez fosse isso que Bolieiro se estava a referir quando apelidou o seu governo de transformista.

E esse é o paradoxo maior. Quanto mais a política tenta parecer próxima, espontânea e humana através destas encenações digitais, mais artificial se torna.

Governar não é inaugurar estradas diante de uma câmara, abrir portas de apartamentos ou apertar a mão de robôs em bem iluminados vídeos de tik-tok. Governar é tomar decisões, resolver problemas, assumir responsabilidades e, sobretudo, ter alguma coisa para dizer.

E quando não se tem nada para dizer, talvez a melhor comunicação política continue a ser a mais antiga de todas: ficar calado.

Caros políticos dos Açores deixem-se de versões b do homem da Regisconta e trabalhem. O povo agradece e vão ver que tem melhor resultado nas urnas…

*O título é da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3