quarta-feira, 21 de junho de 2017

EduFootprint - Cálculo da pegada ecológica das escolas do Mediterrâneo - avança a bom ritmo.

Imagem captada aqui.
  • Prosseguem as obras da ETAR de Câmara de Lobos. Cargas explosivas permitiram o desmonte de maciços rochosos subaquáticos, para posterior lançamento do emissário submarino. Esta obra foi adjudicada pela ARM - Águas e Resíduos da Madeira S.A. à TECNOVIA MADEIRA S.A., para aumento da capacidade e do nível de tratamento das águas residuais daquele concelho madeirense. AMN.
  • O EduFootprint - Cálculo da pegada ecológica das escolas do Mediterrâneo é um projecto Interreg MED que visa promover a melhoria da gestão energética e da redução da pegada ecológica em escolas públicas pertencentes à região do Mediterrâneo. O projecto tem a AREANATejo como parceiro português e, de entre as ações a desenvolver no seu âmbito, destaca-se a implementação de medidas de melhoria da eficiência energética nos 10 edifícios escolares envolvidos, pertencentes à região Alto Alentejo. O Instalador.
  • A Third Energy, empresa de gás de xisto que se prepara para usar a fraturação hidráulica em North Yorkshire, violou uma de suas licenças ambientais ao não publicar dados de emissões corretos. A empresa também foi criticada por não usar um método acordado para monitorizar a qualidade das águas subterrâneas num poço de gás próximo. Drill or Drop.
  • Quantas tartarugas terão de morrer antes de nos revoltarmos contra o lóbi dos balões? pergunta o editorialista do NJ Environment News.
  • O novo presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, anunciou o encerramento gradual das centrais nucleares do seu país. The Guardian.
  • O que significam as florestas para ti é um concurso europeu. Destinado a crianças dos 5 aos 19, O concurso convida as crianças e jovens a dar asas à sua criatividade para produzirem criações alusivas ao tema da Semana Europeia das Florestas: Florestas, o nosso bem comum. O prazo de entrega dos trabalhos é 31 de julho. FAO.

Reflexão - «Em vez de gestão pública ou associativa da floresta, convida a raposa para o galinheiro»

Imagem captada aqui.

«(…) No fim do verão passado, discutiu-se uma lei que permitisse ao Estado ocupar as terras não tratadas e obrigando-o a ocupar-se delas, dando aos proprietários 15 anos para as reclamarem. Discutiram-se formas de acelerar o cadastro das propriedade rurais, usando mapas militares, georeferenciação e o conhecimento local e agilizando a informação sobre heranças e proprietários. Um ano depois, tudo por decidir. Houve quem se opusesse, as Câmaras Municipais disseram que não têm meios e que há eleições no outono, na esquerda houve quem esgrimisse com a Constituição, tudo em marcha atrás. O governo reuniu em outubro e esperou até em março deste ano para apresentar uma proposta de lei que recua em relação ao que sugerira: em vez de obrigação pública, propõe a criação de empresas financeiras para gerir a floresta abandonada, o que significa a concentração da propriedade. Para mais, oferece novos financiamentos para a investigação nas empresas de celulose, para as compensar de qualquer inconveniente, sem criar qualquer mecanismo concreto para controlar a proibição da extensão do eucalipto. Em vez de gestão pública ou associativa da floresta, convida a raposa para o galinheiro; em vez de arrendamento compulsivo das parcelas abandonadas, aceita a regra da operação financeira. (…)» Francisco Louçã in Porra de SísifoPúblico 20jun2017.

Bico calado

Imagem captada aqui.
  • «(…) Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador. Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas. O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres (Judite Sousa parece que não foi a única) nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.” Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão. Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.(…)» António Guerreiro in As vítimas dos incêndios e da televisãoPúblico 19jun2017.
  • José Mourinho foi acusado de fraude fiscal pelas Finanças espanholas. O treinador é acusado de defraudar o estado espanhol em 3,3 milhões de euros entre 2011 e 2012. José Mourinho e Cristiano Ronaldo são ambos clientes de Jorge Mendes. Outras acusações que pendem sobre este agente de futebol incluem Ricardo Carvalho, Ángel Di Maria e Radamel Falcao. Todos são acusados de usar um sistema simelhante, pelo qual os seus direitos de imagem eram propriedade de empresas registradas nas Ilhas Virgens Britânicas ou Panamá, e que alegadamente receberam dinheiro de intermediários com sede na Irlanda. BBC.
  • Quatro ex-diretores do banco Barclays poderão ser alvo de longas penas de prisão após o Serious Fraud Office os ter acusado de fraude pela maneira como angariou biliões de libras do Qatar no auge da crise financeira de 2008. The Guardian.

Avareza 01

Imagem captada aqui.

«Franssu também é administrador delegado da sociedade Incipit e gestor da Tages capital Group do financeiro italiano Panfilo Tarantelli. Por sua vez, o filho de Franssu, Luis-Victor, foi admitido desde março de 2014, precisamente pela Promontory dos Estados Unidos, que conhece agora todos os segredos do Vaticano e do IOR. Para muita gente, o enorme poder adquirido pelos americanos no Vaticano é um paradoxo. Porque, enquanto o Papa Francisco espanca de forma implacável os poderes obscuros da finança mundial nos discursos e nas encíclicas (como a Laudato si), no Vaticano a sociedade de consultadoria americana dita as leis há dois anos. Considerada muito próxima do governo de Washington, cidade onde tem sede, a Promontory não só é a única que teve realmente acesso a todas as contas e a todos os clientes, como tem ou teve relações profissionais com todos os novos dirigentes do IOR: como Rolando Marranci, atual diretor-geral com um passado no BNL e durante um breve período consultor da Promontory no Vaticano. Von Freyberg nomeou igualmente como assessores principais Elisabeth McCaul e Raffaele Cosimo, respetivamente associada do gabinete de Nova Iorque e chefe do gabinete europeu da sociedade sob a cúpula de São Pedro. 
Mas nem todos estão felizes com a presença dos americanos. Não só porque os cardeais temem que dados sensíveis sobre as contas e os clientes acabem nas mãos de gente estrangeira, mas também porque a Promontory, paladina da transparência paga pelos bancos de todo o mundo para descobrir as operações opacas encerradas nos seus ventres, em agosto de 2015 foi abalada por um gigantesco escândalo. Que mina o mito de sujeito privado, mas capaz de fornecer juízos independentes. De facto, o Departamento para os serviços financeiros de Nova Iorque suspendeu a 5 de agosto de 2015 as atividades da empresa no Estado homónimo, por ter sido acusada de ter "dado cobertura" a atividades ilícitas efetuadas por um cliente seu com o objetivo de o proteger de eventuais sanções económicas. Precisamente isso: ao ler o relatório do New York State Department of Financial Services, descobre-se que quando era consultor do banco inglês, Standard Chartered, o grupo que devia mostrar a transparência no Vaticano teria eliminado voluntariamente de alguns relatórios a notícia de certas transações financeiras que a filial nova-iorquina Standard Chartered tinha efetuado para o Irão. Operações ilegais, dado que nesse período Teerão estava sob embargo internacional.»

Emiliano Fittipaldi, Avareza – Saída de Emergência 2016

terça-feira, 20 de junho de 2017

Centrais de biomassa avançam em Viseu e Fundão


  • O Centro de Robótica e Sistemas Autónomos do INESC TEC (CRAS/INESC TEC), sediado no Instituto Superior de Engenharia do Porto, testou nos seus laboratórios um sistema autónomo parar recolha de amostras biológicas marinhas, verificação das alterações na biodiversidade, de impactos no clima e de anomalias no ambiente. O MarinEye foi apresentado recentemente no ISEP e enfrenta o seu primeiro teste de ‘fogo’, este mês de Junho, nas águas do Atlântico. O MarinEye tem pouco mais de um metro e meio de comprimento e poderá atingir até os cem metros de profundidade. A sonda foi desenhada a pensar para missões de um ou dois meses e é flexível ao nível da sua utilização, pelo que pode ser agregada a um navio ou robô submarino, instalada no fundo do mar, ou estar amarrada numa boia. Mais pormenores aqui e aqui.
  • Duas centrais de energia a biomassa que estão a ser construídas Viseu e no Fundão, vão ser financiadas em 105 milhões de euros pelo Marguerite Fund, um fundo de investimento pan-europeu que actua como catalisador para investimentos em energias renováveis e transportes. As centrais, que terão uma potência instalada de 15 megawatts, cada uma, «vão ajudar a reduzir o risco de incêndios florestais, um problema recorrente em Portugal», devendo estar totalmente operacionais no primeiro semestre de 2019. JNegócios.
  • A França convidou 50 cientistas e empreendedores norte-americanos peritos em alterações climáticas para irem fazer investigação em França. Tudo por 60 milhões de euros e durante 5 anos. AFP/Terra Daily.
  • Os EUA investiram 1,5 milhões de dólares num programa de investigação para fortalecer as políticas ambientais em Papua Nova Guiné. A afirmação foi da embaixadora dos EUA Catherine Ebert Gray, numa cerimónia no âmbito das comemorações do Dia mundial do Ambiente na PNG University of Technology, cerimónia patrocinada pela Coca Cola Amatil. A embaixadora informou que ia ser desenvolvido um currículo para melhorar a gestão dos recursos naturais e reforçar a capacidade do PNG se adaptar às alterações climáticas. The National. Das duas uma: ou a Coca Cola está a mandar as políticas de Trump às urtigas ou então está a fazer greenwashing em grande. Que acham?
  • Os Estudos Ambientais vão ser introduzidos nos curricula das escolas da Malásia como disciplina autónoma. A nova disciplina permitirá o estudo aprofundado sobre o Ambiente, englobando mais tópicos como vida selvagem e biodiversidade. Os atuais programas incluem temas sobre Ambiente dispersos por várias disciplinas, mas de uma forma superficial e genérica. The Sun Daily.

Reflexão - «Os incêndios e a desertificação do Portugal florestal»

Imagem: RTP.

Os incêndios e a desertificação do Portugal florestal
por Jorge Paiva in Público 23 de janeiro 2006


«Antes da última glaciação, Portugal estava coberto por uma floresta sempre-verde (laurisilva). Durante essa glaciação a descida drástica da temperatura fez desaparecer quase por completo essa laurisilva, tendo sido substituída por uma cobertura florestal semelhante à actual taiga. 
Após o período glaciar, a temperatura voltou a subir, ficando o país com um clima temperado como o actual. Assim, a floresta glaciar foi substituída por florestas mistas (fagosilva) de árvores sempre-verdes (algumas delas relíquias da laurisilva) e outras caducifólias, transformando o país num imenso carvalhal caducifólio (alvarinho e negral) a norte, marcescente (cerquinho) no centro e perenifólio (azinheira e sobreiro) para sul, com uma faixa litoral de floresta dominada pelo pinheiro-manso e os cumes das montanhas mais frias com o pinheiro-da-casquinha (relíquia glaciárica). Por destruição dessas florestas, particularmente com a construção das naus (três a quatro mil carvalhos por nau) durante os Descobrimentos (cerca de duas mil naus num século) e da cobertura do país com vias férreas (travessas de madeira de negral ou de cerquinho para assentar os carris), as nossas montanhas passaram a estar predominantemente cobertas por matos de urzes ou torgas, giestas, tojos e carqueja. A partir do século XIX, após a criação dos "Serviços Florestais", foram artificialmente re-arborizadas com pinheiro-bravo, tendo-se criado a maior mancha contínua de pinhal na Europa
A partir da segunda década do século XX, apesar dos alertas ambientalistas, efectuaram-se intensas, contínuas e desordenadas arborizações com eucalipto, tendo-se criado a maior área de eucaliptal contínuo da Europa. Sendo o pinheiro resinoso e o eucalipto produtor de óleos essenciais, produtos altamente inflamáveis, com pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas.

Sempre fomos contra o crime da eucaliptização desordenada e contínua. Fomos vilipendiados, maltratados, injuriados, fomos chamados à Judiciária, etc. Mas sabíamos que tínhamos razão. Infelizmente não vemos nenhum dos que defenderam sempre essa eucaliptização vir agora assumir as culpas destes "piroverões" que passámos a ter e que, infelizmente, vamos continuar a ter. Também sempre fomos contra o delapidar, por sucessivos Governos, dos Serviços Florestais (quase acabaram com os guardas florestais). Isso e o êxodo rural (os eucaliptos são cortados de 10 em 10 anos e o povo não fica 10 anos a olhar para as árvores em crescimento tendo, por isso, sido "forçado" a abandonar as montanhas e a ficar numa dependência económica monopolista, que "controla" o preço da madeira a seu belo prazer) tiveram como resultado a desumanização das nossas montanhas pelo que, mal um incêndio florestal eclode, não está lá ninguém para acudir de imediato e, quando se dá por ele, já vai devastador e incontrolável.

Infelizmente vamos continuar a ter "piroverões" por mais aviões "bombeiros" que comprem ou aluguem. Isto porque, entre essas medidas, não estão as duas que são fundamentais, as que poderiam travar esta onda de incêndios devastadores que nos tem assolado nas últimas décadas. Uma, é a re-humanização das montanhas, que pode ser feita com pessoal desempregado que, depois de ter frequentado curtos "cursos de formação" durante o Inverno, iria vigiar as montanhas, percorrendo áreas adequadas durante a Primavera e Verão. A outra medida fundamental seria, após os incêndios, arrancar logo a toiça dos eucaliptos e replantar a área com arborização devidamente ordenada. Isto porque os eucaliptos rebentam de toiça logo a seguir ao fogo, renovando-se a área eucaliptada em meia dúzia de anos, sem grande utilidade até porque o diâmetro da ramada de toiça não é rentável para as celuloses. Mas como tal não se faz, essa mesma área de eucaliptal torna a arder poucos anos após o primeiro incêndio e assim sucessivamente. Muitas vezes, essas mesmas áreas são também invadidas por acácias ou mimosas, bastando para tal que exista um acacial nas proximidades ou nas bermas das rodovias, pois as sementes das acácias são resistentes aos fogos e o vento ajuda a dispersá-las por serem muito leves. As acácias, como são heliófitas (plantas "amigas" do Sol), e não havendo sombra de outras árvores após os incêndios, crescem depressa aproveitando a luminosidade e ocupando aquele nicho ecológico antes das outras espécies se desenvolverem.

Mas como vivemos numa sociedade cuja preocupação predominante é produzir cada vez mais, com maior rapidez e o mais barato possível, as medidas propostas são economicamente inviáveis por duas razões: primeiro, porque é preciso pagar aos vigilantes e respectivos formadores; segundo, porque arrancar a toiça dos eucaliptos é muito dispendioso (custa o correspondente ao lucro da venda de três cortes, isto é, o lucro de 30 anos). É bom também elucidar que os eucaliptais só são lucrativos até ao terceiro corte (30 anos). Depois disso, estão a abandoná-los, o que os torna um autêntico "rastilho" ou, melhor, um terrível "barril de pólvora", áreas onde os seus óleos essenciais, por vaporização ao calor, são explosivos e, quando a madeira do eucalipto começa a arder, provocam a explosão dos troncos e respectiva ramada, lançando ramos incandescentes a grande distância. Este "fenómeno" tem sido bem visível nos nossos "piroverões".
Por outro lado, pelo menos uma destas medidas (arranque da toiça e re-arborização ordenada) não tem resultados imediatos mas a longo prazo. Por isso os governantes não estão interessados na aplicação dessas medidas, pois interessa-lhes mais resultados imediatos (as eleições são de quatro em quatro anos...) do que de longo prazo.
Assim, sem resultados imediatamente visíveis e com uma despesa tão elevada, os governos nunca vão adoptar tais medidas. Preferem gestos por vezes caricatos, como distribuir telemóveis aos pastores, mas que nunca não acabarão com os "piroverões".

Finalmente, após a referida delapidação técnica e funcional dos Serviços Florestais (antigamente, os incêndios florestais eram quase sempre apagados logo no início e apenas pelo pessoal e tecnologia dos Serviços Florestais), esqueceram-se da conveniente profissionalização e apetrechamento dos bombeiros, melhor adaptados a incêndios urbanos.
Se os nossos governantes continuarem, teimosamente, a não querer ver claramente o que está a acontecer, caminharemos rapidamente para um amplo deserto montanhoso, com a planície, os vales e o litoral transformados num imenso acacial, tal como já acontece em vastas áreas de Portugal. 

Mão pesada

A Changjiu Concrete Products Company, na ilha de Changxing, foi multada em 132 mil dólares por descarga ilegal de efluentes alcalinos e contaminação de solos e linhas de água. Shanghai Daily.

Bico calado

Imagem colhida aqui.
  • «Os grandes responsáveis devem procurar-se no primeiro governo de Cavaco Silva, era ministro da agricultura Álvaro Barreto, que vendeu a agricultura portuguesa em Bruxelas por tuta e meia. E era ministro da Energia, Mira Amaral que defendeu a “eucaptilização” do país, chegando a chamar ao eucalipto o nosso petróleo verde. Tavares chegou mesmo a desafiar Mira Amaral, dizendo-lhe, caso o estivesse a ver, que devia mudar a cor de tal petróleo de verde para vermelho, a cor do sangue das vítimas deste momento, e de todas as outras que tem perecido durante décadas.» Estátua de sal in O fogo começou em 1985Video com a intervenção de MST.
  • Jorge Luis Arzuaga, um ex banqueiro argentino que trabalhou na Suíça, admitiu ter pago milhões de dólares em subornos a Julio Grondona, (falecido em 2014) ex-executivo da Fifa, presidente do comissão mundial de finanças de futebol e presidente da associação de futebol argentino. 
  • Mais de 15 mil empresas indianas obtiveram lucros em 2015-16, mas não pagaram impostosHindustan Times. Tudo porque o governo lhes concedeu isenções fiscais

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Municípios escoceses criticados por investirem dinheiro de pensões na fraturação hidráulica

Imagem colhida aqui.
  • Dez municípios escoceses, entre os quais Glasgow, Edinburgh, Aberdeen, Dundee e Falkirk,  investiram mais de 400 milhões de libras de pensões em 23 empresas de fraturação hidráulica, entre as quais a Shell, a BP, a Exxon,  Chevron e a Occidental. O relatório da Friends of the Earth Scotland, que denuncia a negociata, considera a fraturação hidráulica uma indústria irresponsável, acusada de constantes violações de legislação ambiental. The Herald.
  • Os moradores de Sliema, nos arredores de Triq Sant'Annin e Tigne Seafront, Malta, estão indignados porque os trabalhos de demolição e escavação de empreendimento continuarem apesar de haver uma lei que obriga a este tipo de trabalhos ser suspenso entre 15 de junho e 30 de setembro para não incomodar suas excelências os turistas e os naturais em férias. The Malta Independent.
  • A BirdLife Malta condenou a aprovação, por parte da Environment & Resources Authority e da Planning Authority da deslocalização das gaiolas de aquacultura de atum de uma zona próxima de Comino para junto de l-Aħrax tal-Mellieħa, sem o devido estudo de impacto ambiental exigido  pelasregras europeias. The Malta Independent.
  • Pela primeira vez, a produção mensal de eletricidade a partir de energia eólica e solar ultrapassou 10% da produção total de eletricidade nos Estados Unidos. EIA.

Reflexão - «Requiem por Pedrógão Grande»

Imagem: RTP.

«A culpa, dizem-nos, pode ter sido de uma “trovoada seca” associada a uma onda de calor e ao nosso clima mediterrânico.
Não foi, com certeza, da monocultura florestal, que na zona em questão é essencialmente monocultura de eucalipto.
A culpa não foi do desordenamento florestal e territorial.
A culpa não foi da destruição dos serviços florestais praticada ao longo de décadas por sucessivos governos;
A culpa não foi de quem acabou com os guardas florestais que estavam estrategicamente espalhados por todos os perímetros florestais, dando corpo a uma rede de vigilância que nada veio substituir.
A culpa não foi da desertificação do interior e da falta de medidas para a contrariar.
A culpa não foi da ignorância e compadrio dos decisores que nos tem governado.
De quem a culpa não foi, seguramente, foi de quem perdeu a vida em Pedrógão Grande, porventura no regresso de uma visita à família ou de um passeio calmo, de fim-de-semana.
Sempre tivemos “trovoadas secas”, ondas de calor e clima mediterrânico; o problema não é o que sempre tivemos, mas o que não temos: prevenção, ordenamento territorial e florestal, coragem para travar e fazer regredir as monoculturas.
Em outubro vem as eleições e pouco depois o Inverno, e os decisores só se lembrarão dos fogos florestais no próximo Verão, quando outra tragédia nos vier estragar um Domingo e pôr todos os portugueses sensíveis com as lágrimas nos olhos.»
Nuno Gomes de Oliveira in Réquiem por Pedrógão Grande, FB.

«Vidoeiros, carvalhos e castanheiros, as “árvores bombeiras” que podem travar fogos». RR.

Mão pesada

  • A NVR, Inc. foi multada em 425 mil dólares por violação de regras de qualidade da água das chuvas em equipamentos da sua responsabilidade em New Jersey e New York. EPA.
  • A United Utilities foi processada por responsabilidades na contaminação de água que privou 300 mil pessoas de consumirem água das suas torneiras durante mais de 3 semanas. O problema ocorreu em 2015, na estação de tratamento de águas de Franklaw, nos arredores de Preston. BBC.

Bico calado

Imagem colhida aqui.
  • «Temos que nos concentrar no grande objetivo. Este grande objetivo é acelerar o desenvolvimento do país para que possamos ter mais produção, mais veículos, incluindo a Mercedes», respondeu o primeiro-ministro de Moçambique Carlos Agostinho do Rosario à indignação geral por causa da aquisição de 18 carros de alta gama para alguns deputados, tudo no valor de 3,8 milhões de dólares. Africa News.
  • «No dia 10 de junho, o DN ocupou as páginas 12 e 13 com uma entrevista ao embaixador Martins da Cruz cujo interesse e conteúdo cabem ao jornal definir. A razão da minha estupefação resulta da reincidência do DN em apresentar, no perfil do diplomata, a insólita afirmação, a negrito, «António Martins da Cruz, com menos de 30 anos, foi abrir a embaixada de Portugal em Maputo», afirmação que repete da anterior entrevista do DN (11-02-2017). Não surpreende a omissão biográfica da demissão de MNE de Durão Barroso, de quem é compadre, na sequência do escândalo da portaria feita à medida da filha, Diana, para a entrada em Medicina, escândalo que tornou insustentável a sua permanência no governo e a do ministro do Ensino Superior, Pedro Lynce, autor da Portaria. (…) Sobre a personalidade que mereceu duas entrevistas ao DN, no espaço de quatro meses, talvez fosse aliciante saber que, depois de demitido de MNE, foi ele, com Mário David, que negociou, nos bastidores, a ida para presidente da CE de Durão Barroso, enquanto este, dissimulado, insistia estar empenhado na candidatura do ex-comissário europeu António Vitorino. (O eurodeputado do PSD, Mário David, notabilizou-se ao ter manifestado vergonha por Saramago ser seu compatriota, e viria a ser o mandatário da candidatura de última hora, para desesperadamente tentar impedir Guterres de ascender o secretário-geral da ONU). Esqueçamos o homem de negócios, bem relacionado nos serviços secretos europeus e defensor entusiasta da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, e voltemos ao jovem que “com menos de 30 anos, foi abrir a embaixada de Portugal em Maputo”. A embaixada, sob o ponto de vista físico, pode ser aberta pelo porteiro, mas em termos diplomáticos só por um embaixador ou, no mínimo, um ministro plenipotenciário. Reincidir em que Martins da Cruz abriu a embaixada de Maputo ofende o embaixador Albertino de Almeida, impoluto e corajoso magistrado que Melo Antunes convidou para primeiro embaixador de Portugal em Moçambique. Martins da Cruz não o refere no currículo, mas Samora Machel expulsou-o de Maputo. A estima e consideração pelo embaixador Albertino de Almeida mantiveram-se intensas e recíprocas até à morte do primeiro, por acidente aéreo, em território sul-africano.» Carlos Esperança, FB.

domingo, 18 de junho de 2017

Índia cancela centrais a carvão


Eis que uma avestruz decide competir com ciclistas que pedalavam a cerca de 50 km/h em direção à cidade do Cabo, África do Sul.

  • A Índia cancelou os projetos de construção de centrais a carvão perante a queda acentuada dos preços da energia produzida pelas centrais solares. The Independent.
  • Topher White, colaborador da National Geographic, desenvolveu uma tecnologia capaz de combater o abate ilegal de árvores. Colocado no cimo de uma árvore, um telemóvel carragado por células solares e acoplado a um microfone, deteta o ruído de uma motosserra e envia um alerta às autoridades. Lançado em Sumatra, Indonésia, o conceito ganhou asas e já está operacional nos Camarões, no Equador, no Perú e no Brasil. NG.

Reflexão: Como enfrentar a desertificação?

Imagem recolhida aqui.

O Programa de Acção Nacional de Combate à Desertificação (PANCD) para o período 2008-2018 reconhece que 32,6% dos solos do território nacional já se encontram “em situação degradada e que esta aridez “atinge a totalidade do interior Algarvio e do Alentejo”. O problema está a progredir para as zonas do noroeste, tradicionalmente uma das mais pluviosas da Europa, e a aumentar nas zonas do litoral sul e montanhas do centro do país. (…)

A organização ambientalista Quercus lembra que, para além das condicionantes imposta pelo fenómeno da desertificação, as suas consequências observam-se igualmente nos “solos degradados que armazenam menos carbono”, o que contribui para o aquecimento global. “Sem solos saudáveis e produtivos, surge a pobreza, a fome e a necessidade de emigração”, diz a associação.

A Quercus assinala que para o aumento do índice de aridez e desertificação em Portugal, concorre a “utilização do solo com culturas agrícolas intensivas de regadio, às quais se encontram associados processos de degradação do solo, como a salinização, sobre-exploração dos aquíferos, contaminação do solo por pesticidas e fertilizantes, erosão do solo e alterações da paisagem”.

E destaca o impacto que está a provocar no ambiente a “(re)arborização de milhares de hectares com espécies exóticas e consequente perda de biodiversidade, destruição da floresta autóctone e esgotamento dos solos e dos aquíferos”. Juntam-se a este factores debilitantes, os “milhares de hectares de área ardida que resultam dos incêndios recorrentes em Portugal que provocam elevados níveis de erosão e contaminação dos solos e linhas de água”.

A Quercus pede medidas concretas e legislação específica que “protejam os últimos exemplares de bosquetes de carvalhos autóctones” e a regulamentação das áreas de implementação de ”culturas agrícolas intensivas de regadio em zonas de montados de sobro e azinho, cujo declínio urge inverter”, assim com acções de remediação em zonas de solos ameaçados ou já contaminados pelas monoculturas de espécies perenes, sobretudo de eucaliptais, olivais e amendoais.

Bico calado

Numa parada de bombeiros, a rainha de Inglaterra pergunta à primeira-ministra 
Theresa May: «E a senhora, o que faz?» Cartoon colhido aqui.
  • «O incêndio em Londres não é apenas uma daquelas tragédias que acontecem por acaso. Ela é expressão de um modo de gestão e de administração da vida colectiva e social, que se baseia como sempre e cada vez mais na "dissimulação" e na "segregação" absoluta de uns e de outros: a longa e triste história da habitação chamada social. Tanto se tem falado de terrorismo (cruel e desumano) e, paradoxalmente, os piores ataques continuam a ser aqueles praticados por nós próprios. Não por incúria, mas em nome do capital. "A guerra de todos contra todos", como escrevia Engels, assustado com a atomização e o egoísmo generalizado que observava nas suas primeiras viagens à Londres capitalista e burguesa de 1845. Não há "edifícios inocentes" nem "arquitectos inocentes". Não porque esta seja uma questão legal ou criminal, mas porque a arquitectura é ela própria assunto político por excelência, que diz respeito ao modo como vivemos e como estamos colectivamente. Fazer esquecer isso é fazer esquecer o sentido e a vocação da própria arquitectura. Talvez, por isso, seja tão difícil ou, talvez, tão supérfluo escrever, hoje, sobre arquitectura: ela é mesmo uma disciplina em extinção.» José Vítor Malheiros, FB.
  • Há cada vez mais jovens sem abrigo na Austrália. Dos cerca de 105 mil sem abrigo, 44 mil têm menos de 25 anos. Melbourne, Adelaide e Perth lideram os números. Tudo apesar de 25 anos de forte crescimento económico, que fez com que o país seja agora o mais caro em termos de habitação. NI.
  • «Assisti, nestes 43 anos de democracia, à reabilitação de velhos fascistas, à condecoração de crápulas, à eleição de salazaristas, à humilhação de antifascistas e ao esquecimento de resistentes, para não falar da ostracização dos militares de Abril. O período cavaquista, na sua indigência, deu lugar a uma contrarrevolução permanente, à subversão de valores democráticos e à recuperação do horror à política e aos políticos, para favorecer os dissimulados. Hoje, uma enorme quantidade de ‘apolíticos’ apresenta-se a eleições contra os partidos e os políticos, como se a dissimulação fosse uma virtude e a cobardia um currículo. Quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita, é, sem dúvida, de direita. É contra esses que estarei vigilante.» Carlos Esperança, FB.

sábado, 17 de junho de 2017

Grécia: ilha de Tilos com eletricidade apenas de fontes renováveis

Foto de Adrian Rowe, 30mai2017.
  • Foi inaugurado o ECOMARE – Laboratório para a Inovação e Sustentabilidade dos Recursos Biológicos  Marinhos da Universidade de Aveiro, na Gafanha da Nazaré, em Ílhavo. O ECOMARE resulta de uma parceria entre a UA, a Administração do Porto de Aveiro, a Câmara Municipal de Ílhavo, a Sociedade Portuguesa de Vida Selvagem e a Oceanário de Lisboa, SA. e engloba o Centro de Extensão e de Pesquisa em Aquacultura e Mar e o Centro de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos. JE do Mar.
  • Representantes de 20 religiões assinara uma carta onde se comprometem a inverter práticas depredatórias, promovendo um programa ecológico eficiente para proteger o planeta que é casa comum de todos. Aconteceu em Vila Nova de Gaia, durante a conferência «A Terra em Risco, o Mundo em Procura: o papel e a intervenção das religiões na Casa Comum», inserida no fórum internacional «Gaia todo um Mundo». RTP.
  • A Comissão Europeia autorizou a Alemanha a criar um fundo público para lidar com os seus resíduos nucleares. Reuters.
  • A ilha de Tilos, na Grécia, é a primeira ilha do Mediterrâneo a consumir eletricidade totalmente produzida por energias renováveis, conta o Guardian.
  • As Nações Unidas apresentam 23 novas reservas da biosfera. Pela calada, os EUA retiram 17. NG.
  • A orla costeira de Mantoloking, New Jersey, está a sofrer um profundo processo de gentrificação após a destruição provocada pelo furacão Sandy em 2012, conta o NYTimes. Entretanto, proteger dunas e instalar passadiços custa 70 milhões de dólares. Cada milha, sublinha a Climate Central.

Mão pesada

  • A cadeia de supermercados Tesco foi multada em 8 milhões de libras por derrame de combustível em Haslingden, Lancashire, que poluiu um rio, matou peixes e forçou os vizinhos a evacuar as suas casas. The Guardian.
  • Na China, sete pessoas foram condenadas a penas de prisão superiores a um ano por manipulação criminosa de equipamento de controlo da qualidade do ar e falsificação de dados. Reuters.

Reflexão: Não serão os jaquinzinhos legais a salvar a arte xávega

Foto de Manuel Adriano Martins Teixeira‎, 7jun2017.

Não serão os jaquinzinhos legais a salvar a arte xávega
por Gonçalo Calado in Público 16jun2017.

Em tempo de pouca comida, o consumo de animais juvenis era uma excepção: retiravam-se às mães os leitões, borregos ou os cabritos quando se calculava que essas mães não tinham possibilidades de os criar. E comiam-se. O cabrito estonado à moda de Oleiros é um dos muitos exemplos, e surge numa zona de muito baixa produtividade primária, onde a cabra mal tinha ervas para sobreviver. Outra hipótese para este consumo era a lógica constatação de que os juvenis ganhariam asas ou barbatanas e fugiriam. Aqui se incluem os ovos, de aves ou de répteis, e, claro está, todos os peixes que ficavam na rede, mesmo os mais pequenos, que aliás já tinham morrido.

No caso dos peixes, fomos percebendo com o tempo, os estudos e a sua escassez que seria mais lógico adaptar as artes de pesca à captura selectiva de animais que já se tivessem reproduzido, mantendo assim a capacidade de as populações se manterem. Assim surgiram, entre outras medidas, a definição de malhagens mínimas nas redes e os tamanhos mínimos de captura.

Há semanas, o Governo decidiu, com o consentimento prévio da Comissão Europeia — esse portento na defesa da sustentabilidade das pescas — tolerar a apanha de carapau abaixo do tamanho reprodutor com arte xávega (uma técnica de arrasto de fundo de que muitos temos memória nas nossas praias), mercê da sua “considerável relevância em termos socioeconómicos para algumas comunidades piscatórias da costa ocidental portuguesa, além de um valor cultural e etnográfico”. Deixámos pois de falar apenas de uma actividade económica, que se deseja sustentável a todos os níveis, e adicionámos-lhe a componente folclórica, como factor de justificação da sua insustentabilidade.

A captura legal de jaquinzinhos até pode nem pôr em causa, por agora, o estado de conservação da espécie, mas dá a toda a sociedade o sinal contrário ao caminho que tem de ser tomado. E a petinga? E o linguadinho? E o meixão? Não temos direito? São tão saborosos... A Comissão Europeia não nos dará também uma excepção?

Reconheço na arte xávega um património cultural que deve ser tido em conta na nossa relação com o mar enquanto povo. Apenas discordo que a forma de a salvar seja à custa dos recursos pesqueiros, afrouxando as regras, já de si muito difíceis de fiscalizar. Prefiro a sua ritualização e a assunção de um legado de outrora, aproveitando-o, por exemplo, para fins turísticos.

Talvez, dentro de alguns anos, a Comissão de Acompanhamento da Pesca com Arte Xávega convença um qualquer governo — com o aval da Comissão Europeia — a libertar peixes criados em cativeiro dentro do cerco da rede só para manter a tradição. Mas isso será certamente com o Ministério da Cultura.

Bico calado

  • Nas Maldivas, a MediaNet foi multada em 35 mil dólares por retransmitir um documentário da Al-Jazeera intitulado Stealing Paradise que, segundo as autoridades, representava um perigo de segurança nacional. O documentário denuncia um esquema de lavagem de 1,5 biliões de dólares que envolve o presidente e o vice-presidente do país. Raajje. Mais pormenores em Transparency International.
  • A Câmara de Santa Maria da Feira isentou do pagamento de impostos empresa que nem sequer chegou a existir. Trata-se da EarthLife – Novas Tecnologias para as Energias Renováveis. Tudo aconteceu em 2008, altura em que Ludgero Marques, como principal acionista, se propunha a instalar uma empresa de painéis fotovoltaicos no concelho. A Câmara Municipal propôs isenção de IMI e IMT a esta empresa, assegurando que ela criaria muitos empregos. Afinal esta empresa não criou nenhum emprego, nem sequer chegou a existir. O BE pediu, por isso, explicações à autarquia acerca do montante dos benefícios concedidos à EarthLife – Novas Tecnologias para as Energias Renováveis, nomeadamente em imposto municipal sobre imóveis e imposto municipal sobre a transmissão onerosa de imóveis. O BE quer ainda saber  se a autarquia foi ressarcida, uma vez que esta empresa nunca existiu e nunca criou um único posto de trabalho.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Sintra: agredida por fotografar aplicação de herbicida na berma de estrada

  • A Tiantónio, suinicultura de António Gameiro, é acusada de estar a contaminar os lençõis freáticos de Torres Novas. Tudo porque as 6 lagoas que recolhem os efluentes de 8 mil porcos, não estão impermeabilizadas. A acusação salienta ainda a concorrência desleal que tal situação provoca, uma vez que, com menos investimentos e despesas, António Gameiro poderá vender os seus produtos mais baratos. A associação Almonda Limpo questiona-se: «Como conseguiu esta exploração licenciamento da Câmara Municipal de Torres Novas? Será que o técnico responsável da CMTN, João Bracons, não tem conhecimento que as lagoas do Ti António não estão impermeabilizadas? O que impede as autoridades de atuar para fazer parar esta gravíssima fonte de poluição das águas subterrâneas?» Refira-se que António Gameiro é vice-presidente da Associação Nacional de Suinicultores.
  • Quarta-feira, 14 de junho, Fernanda Botelho foi agredida com jatos de herbicida quando fotografava a sua aplicação ao longo da berma da Estrada do Sacário a São João das Lampas, Sintra. Tudo aconteceu por volta das 10 horas da manhã, quando a cidadã circulava na zona e decidiu registar o episódio de aplicação de um produto fitossanitário cuja substância ativa provável seria o glifosato, produto potencialmente cancerígeno, segundo a ONU e outros organismos internacionais. O presidente da junta, subitamente presente no local, ameaçou processá-la caso ela divulgasse as fotos que ela acabava de tirar. «Cheia de comichão nos olhos e nariz fui ao centro de saúde fazer uma lavagem ocular e depois, em vez de ir ao hospital como aconselhou a médica, fui ao mar lavar-me de tanta coisa ruim», desabafa Fernanda Botelho. «Insultos e herbicidas e presidentes que infelizmente é nisto que gastam o meu dinheiro e ainda por cima se acham no direito de nos ameaçar e de mais tarde mentir na nossa cara dizendo que não tinham visto nada», lamenta.
  • O governo português acaba de criar um regime extraordinário para a instalação, pelos municípios, de centrais de valorização de biomassa, que usam matéria orgânica - como resíduos florestais - para produzir energia. Público.
  • Está dada licença para construir no litoral alentejano. Os critérios utilizados na delimitação da Reserva Ecológica Nacional nos concelhos de Alcácer do Sal e Grândola reduziram a área demarcada aos leitos e margens dos cursos de água e a uma faixa muito restrita da zona litoral, deixando lacunas graves nas zonas de recarga de aquíferos. Público.

Controlo e combate à poluição: governo britânico alija responsabilidades para os municípios

Vejam como um picapau defende o trabalho que fez. O esquilo é muito bonito, muito simpático, mas o picapau não gosta de concorrentes que considera oportunistas e parasitas. A Natureza no seu melhor. Em harmonia.
  • O governo britânico acaba de sacudir as suas responsabilidades no controlo e combate à poluição para as autarquias. A Chartered Institute of Environmental Health considera que se trata se uma enorme injustiça, uma vez que os recursos das autarquias já se encontram exaustos. A Friendss of the Earth corrobora: se a medida for concretizada, 58 municípios continuarão, em 2019, a violar as leias da qualidade do ar. Pior: Birmingham e Leeds terão mau ar em 2026, e Londres em 2030. A RAC considera que seria essencial substituir a frota de transportes públicos por veículos menos poluentes e estabelecer zonas onde seria proibido um veículo estar parado com o motor a trabalhar. BBC.
  • A Bulgária atribuiu 1,3 bilião de euros de subsídios ilegais a centrais a carvão e outras centrais de energia elétrica, denuncia a britânica ClientEarth. Reuters.
  • Resíduos não tratados estão a ser lançados diretamente ao largo da costa do Líbano, denuncia o Lebanon Eco Movement. A vida marinha está em perigo. Idem para a saúde das pessoas, especialmente na época balnear. A crise do lixo é antiga e grave neste país. Tudo por causa da corrupção, dizem ambientalistas locais. Como explicar que um negócio que representa entre 270 e 360 milhões de euros, que até contou com subsídios europeus para a implantação de duas centrais de separação e tratamento de resíduos, não se desenvolva corretamente? DW.
  • A tribo Sioux Standing Rock conseguiu uma importante vitória na sua luta para proteger a água potável da Tribo e terras ancestrais do oleoduto Dakota Access. O juiz federal James Boasberg decidiu que as licenças federais que autorizavam o oleoduto a atravessar o rio Missouri, apenas a montante da reserva dos Standing Rock, que tinham sido emitidas pela administração Trump poucos dias após a sua tomada de posse, violaram a lei em alguns pontos. Em causa estão os impactos de um derrame sobre direitos de pesca, de caça, em suma, a justiça ambiental tinha sido violada.

Reflexão – Deve a indústria petrolífera orientar os curricula das escolas?

Imagem apanhada aqui.

Uma rede bem urdida de organizações intimamente relacionadas com a indústria de petróleo e gás disponibiliza materiais de sala de aula que pintam uma imagem dourada dos combustíveis fósseis. Os paladinos deste tipo de programas alegam que eles ajudam a indústria a rejuvenescer a força de trabalho ao despertar o interesse precoce em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Mas alguns especialistas questionam o valor educacional e a ética de lições que promovem uma indústria que desempenha um papel central nas alterações climáticas e na poluição do ar.

O truque começou no início dos anos 40s, conta o Center for Public IntegrityO objetivo era nitidamente o de marketing, conceito que se desenvolveu até ao presente, sendo agora muito difícil a linha que separa o patrocínio da promoção.

Escolas e bibliotecas de Oklahoma receberam mais de 9 mil exemplares de Petro Pete’s Big Bad Dream, e 14 mil professores deste estado foram convocados para participar em ações de formação acerca da aplicação do currículo de ciência e energia sugerido por aquele programa.
Entretanto, os professores são fortemente pressionados para omitirem qualquer referência às alterações climáticas e aos impactos dos combustíveis fósseis sobre o Ambiente e a saúde das pessoas, apesar do Oklahoma se confrontar com terramotos comprovadamente provocados pela tecnologia da fraturação hidráulica utilizada na extração de gás e petróleo na região.
O Oklahoma não é original nesta invasão dos curricula pelas petrolíferas. Montana, Arkansas, North Dakota, Wyoming e Texas seguem-lhes o exemplo.

Bico calado

Imagem apanhada aqui.
  • «(…) Pouco tempo depois de a notícia sair já estava Lobo Xavier a dar uma entrevista em defesa de Ronaldo, não se percebendo bem se trabalhava pró bono, se estava no seu horário de voluntariado ou se veio em defesa de uma causa nacional. O conhecido defensor de boas causa não só defendeu Ronaldo, como ainda achou que devia gozar com o fisco espanhol. Que Ronaldo queria saber como cumprir e ninguém saberia e que não faria sentido pagar em Espanha um imposto relativo a um anúncio no Japão. (…) O que ninguém explicou foi para que serviam as transferências de dinheiro entre off shores para depois ser depositado em contas secretas na Suíça. Não, no caso de Ronaldo as contas secretas na Suíça e as off shores são coisa de gente séria e cumpridoraO Jumento
  • O inferno da Torre Grenfell, a verdadepor Laura Tierman, in TruePublica: (1) Esta torre servia de habitação social a largas dezenas de famílias carenciadas; (2) O município de Kensington-Chelsea fez ouvidos de mercador aos sucessivos alertas de falhas graves de segurança no prédio; (3) Recentemente, a área metropolitana de Londres despediu 500 bombeiros, abateu 27 meios e encerrou 10 quarteis de bombeiros, e, até 2019, haverá um corte de 23,5 milhões de libras no orçamento deste setor; (4) As obras levadas a cabo na torre em 2016 introduziram elementos plásticos que, nesta tragédia, favoreceram a propagação vertiginosa do fogo; (5) A autarquia local terá deliberadamente minimizado as questões de segurança com a finalidade de fomentar a saída de famílias da torre, sendo o objetivo final demolir a torre e gentrificar toda a zona. Esta tragédia evidencia as recentes políticas neoliberais dos conservadores britânicos na resregularização dos controlos na construção. A primeira-ministra Theresa May foi coerente: de visita ao local da tragédia, recusou encontrar-se com sobreviventes.
  • Trump vende armas ao Qatar no valor de 12 biliões de dólares, conta a CBS. O negócio já tinha sido aprovado em novembro de 2016, com Obama.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Castro Verde Reserva da Biosfera da UNESCO

Castro Verde. Imagem captada aqui.
  • O concelho de Castro Verde, "um ecossistema humanizado de alto valor natural" situado no Alentejo, foi classificado como Reserva da Biosfera da UNESCO. RTP.
  • Espanha enfrenta o verão com o menor nível de água retida desde 1995, admite o El País.
  • O futuro do rio Teifi é muito sombrio após o último episódio de poluição, desta vez causada por uma central de digestão anaeróbica situada na quinta de Gelligarneddau. Uma avaria, que está a ser investigada, provocou a fuga de efluentes para o Afon Dulas, afluente do Teifi em Lampeter. Wales Online.
  • Várias praias escocesas premiadas pela ONG Keep Scotland Beautiful pela sua limpeza exemplar, afinal tinham sido condenadas pelo ministério do Ambiente devido à má qualidade das suas águas balneares. Evening Times.

Mão pesada

A Thames Water foi multada em 8,5 milhões de libras por não conseguir atingir o seu objetivo de reduzir as fugas de água. As fugas de água nas redes ao cuidado da Thames Water aumentaram 5% em 2016, o que é muito grave tendo em conta a tendência, nos últimos anos, para a ocorrência de prolongados períodos de seca o que, obviamente, exige a poupança de água. The Guardian.

Reflexão – O preço real da comida barata

Macho Arouquês , Mizarela. Foto de Carlos Poças.

Os preços da alimentação terão que aumentar substancialmente para refletirem o custo ambiental da agricultura industrial, sugere uma investigação de cientistas alemães citada pela Detsche Welle.

Cientistas da Universidade de Augsberg advertem que se os custos reais associados à moderna agricultura industrial fossem tidos em consideração, os preços finais ao consumidor seriam, pelo menos, 10% mais caros.

Há muito nitrogênio tanto do lado dos fertilizantes minerais como do estrume na agricultura alemã, o que causa problemas para o ecossistema e a saúde humana, considera Tobias Gaugler. O problema é que a agricultura industrial acaba por produzir muito mais nitrogénio, uma vez que os métodos agrícolas utilizados são muito mais intensivos em termos de recursos, descobriu o estudo. Para não falar na poluição do ar, na degradação do solo e nos impactos da aplicação de antibióticos no gado.

Há, por isso, enorme pressão junto do governo alemão para garantir que os custos escondidos, como o da filtragem dos nitratos para purificar a água de consumo humano. São de facto incluídos no preço final.

Bico calado

Cerca de metade dos peritos da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar tem conflitos de interesse financeiros com a indústria alimentar e agroalimentar, denuncia um relatório do CEO.