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segunda-feira, 29 de junho de 2026

27 VOOS, 24 JOGOS: O IMPACTO AMBIENTAL DAS VIAGENS DO PRESIDENTE DA FIFA NO MUNDIAL

  • O presidente da FIFA, Gianni Infantino, assistiu a 24 jogos em pouco mais de duas semanas por toda a América do Norte, durante o Mundial deste verão, acumulando milhares de milhas aéreas. O Gulfstream G650ER, o avião que se acredita que Infantino esteja a utilizar, tem um consumo médio de combustível de aproximadamente 1 817 litros por hora — o que significa que as suas viagens durante a fase de grupos produziram cerca de 516 toneladas de dióxido de carbono equivalente. Por conseguinte, estima-se que as viagens de Infantino tenham gerado, em pouco mais de duas semanas, aproximadamente a mesma quantidade de CO₂e que cerca de 78 pessoas poderiam produzir ao longo de um ano civil. Os jatos particulares têm um «impacto totalmente desproporcional», afirma Denise Auclair, especialista em viagens sustentáveis da Federação Europeia para os Transportes e o Ambiente. «São de cinco a 14 vezes mais poluentes do que os aviões comerciais e 50 vezes mais do que os comboios.» A FIFA comprometeu-se a reduzir as emissões em 50 % até 2030 e a atingir o zero líquido até 2040. Para o torneio deste ano, a entidade reguladora do futebol mundial estabeleceu uma série de compromissos ambientais, incluindo: o acolhimento das equipas a nível regional, o que reduz «a dependência de viagens de longo curso para uma parte significativa dos participantes», esforços para aumentar a eficiência energética, promovendo a utilização de carros elétricos, transportes públicos e a conservação da água, e a utilização de estádios já existentes. No entanto, mesmo antes do pontapé de saída a 11 de junho, já havia cepticismo por parte de alguns cientistas climáticos, dada a dimensão do torneio. Um relatório de 2025 da Scientists for Global Responsibility estimou que a pegada de carbono global deste Mundial poderia atingir nove milhões de toneladas de CO₂e, o que equivaleria a quase o dobro da média dos últimos quatro Mundiais, tornando o torneio deste ano o mais poluente de sempre. Fonte.
  • O parlamento sueco decidiu que as minas de urânio já não precisam de ser consideradas «instalações nucleares». Isto significa que a radioatividade que libertam e os resíduos que produzem — e que, na sua maioria, deixam para trás — podem ser tratados como qualquer outro mineral. Fonte.

BICO CALADO


  • “(…) Em dois jogos com equipas bastante inferiores (Congo e Colômbia), Portugal fez três, repito, três, remates enquadrados com a baliza. 180 minutos com aquele eucalipto a atrapalhar lá na frente e noites de paz para os guarda-redes adversários. (…) Não me interessam os contratos que a FPF garante por causa do Ronaldo ou o impacto mundial que ele tem. Em jogo jogado, é penoso ver este gajo em campo e os broches que os outros jogadores têm que fazer para segurar aquela betoneira. (…) Mas esta aberração de vermos Ronaldo em campo, 90 após 90 minutos, completamente a arrastar-se ao ponto de nem sequer conseguir segurar uma bola com um central nas costas, é penoso e, pelo menos para mim, é a imagem com que ficarei. O mais extraordinário jogador português que vi jogar que nunca soube escolher o momento de sair de baixo dos holofotes. (…) Esta geração de ouro vai envelhecendo enquanto é obrigada a carregar um gajo que precisou se 6 mundiais para fazer o que o Eusébio fez num. (…)". Tiago Franco, A VIDA ETERNA DE UM EUCALIPTO.
  • O futebol europeu está a ser inundado com patrocínios de bolsas de criptomoedas, plataformas de negociação online e outros operadores financeiros de alto risco — e muitas destas empresas não estão regulamentadas, foram alvo de alertas por parte das autoridades ou estão associadas a riscos para os consumidores. A OKX (Manchester City) foi multada em mais de 500 milhões de dólares nos EUA por violações da legislação contra o branqueamento de capitais e não está registada na FCA do Reino Unido, mas continua a fazer marketing junto de utilizadores britânicos. A VT Markets (Newcastle United) não possui autorização da UE, mas faz publicidade aproveitando a sua parceria com o clube. A Gate.io (Inter de Milão) já foi advertida pelas entidades reguladoras italianas e a Ultima Markets não é regulada pela UE, mas continua acessível aos utilizadores italianos. A Hantec Markets (Atlético de Madrid) não possui licença da UE, mas os seus serviços continuam disponíveis em toda a Europa. Os adeptos podem pensar que os clubes já verificaram estas empresas — mas muitos acordos envolvem empresas de alto risco, pouco reguladas ou não reguladas. Agora, com as patrocinadors relacionadas com apostas restringidas, os clubes estão a recorrer a setores «ligados ao jogo», como as criptomoedas e a negociação. As entidades reguladoras alertam que as cláusulas de isenção de responsabilidade não isentam as empresas de responsabilidade caso promovam produtos regulados sem autorização. As plataformas de criptomoedas gastaram 565 milhões de dólares em patrocínios desportivos na última época; o futebol representou 59 % desse valor. As marcas de negociação online triplicaram os seus gastos com patrocínios desportivos desde 2019. Os especialistas financeiros descrevem as criptomoedas e a negociação online como atividades de alto risco, especulativas e, muitas vezes, mal compreendidas pelos consumidores. Lorenzo Buzzoni e Chris Matthews, Investigate Europe.

domingo, 28 de junho de 2026

TOMAR: 94% DE PERDAS DE ÁGUA EM MENDACHA


Perdas de água na Mendacha em Tomar atingem valor insustentável de 94%. A rede de 253 quilómetros encontra-se quase totalmente obstruída pela acumulação de calcário ao longo de décadas. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Fernando Vergara/AP
  • O presidente da Câmara de Santo Tirso (Alberto Costa - PS) e dois ex-vereadores (José Pedro Machado e Tiago Araújo) vão ser julgados por uso indevido de carros da autarquia, para fins pessoais como idas a supermercados, restaurantes e viagens, nomeadamente aos fins de semana e em dias feriados. Alberto Costa foi reconduzido no cargo na sequência dos resultados das eleições autárquicas de 12 de outubro, enquanto José Pedro Machado saiu da lista para o executivo municipal e foi eleito presidente da Junta de Freguesia de Santo Tirso e Tiago Araújo não integrou as listas do PS para o atual mandato. Fonte.
  • Mais de 425 000 crianças nos EUA enfrentam audiências de deportação sem advogados. Fonte.
  • “Há duas perguntas que os alemães - da minha geração - perguntavam aos seus avós: "O que sabiam do genocídio/holocausto?" "O que é que fizeram?". E o que vamos nós, em Portugal, dizer às nossas filhas e filhos, netas e netos quando um dia nos perguntarem se sabíamos e o que fizemos? (…) NB: o panfleto a denunciar o assassinato de Ismail Bakr é de 2014, a fotografia foi tirada ontem numa rua de Faro (Junho de 2026), a notícia do Público refere-se a um entre muitos dos actuais negócios do Governo de Portugal com Israel (Junho de 2026)” Miguel Szymanski.

REFLEXÃO

COMO OS ISRAELITAS SE INFILTRARAM E DESTRUÍRAM A MAIOR ORGANIZAÇÃO DE CONSERVAÇÃO MARINHA DO MUNDO
HR NEWS. Rev. O’Lima.


Durante décadas, o capitão Paul Watson e a Sea Shepherd atuaram como os guardiões do alto mar que nenhum governo se dispunha a ser. Os seus navios abalroavam baleeiros ilegais, enredavam hélices com cordas e transmitiam os confrontos para uma audiência global ávida por heróis ambientais. A identidade da organização era indissociável da sua disposição para infringir as regras em prol do oceano. Arvoravam a bandeira Jolly Roger. Fizeram inimigos entre os governos. E deram resultado.

Porém, em julho de 2022, tudo mudou. A transformação da Sea Shepherd de um movimento radical de ação direta num serviço de patrulha «aseptizado» e sancionado pelo Estado não ocorreu gradualmente — aconteceu através de um golpe na sala de reuniões, e para compreender isso é preciso seguir o rasto do dinheiro, dos mercenários e do silêncio que se seguiu.

A Purga

O conselho de administração da Sea Shepherd Global — Alex Cornelisson, Peter Hammarstedt, Geert Vons e Jeff Hansen — demitiu Watson e a presidente da Sea Shepherd França, Lamya Essemlali, por questionarem as suas novas parcerias: com nações africanas corruptas, com a Austral Fisheries Company, com a seguradora Allianz e, mais significativamente, com a empresa de segurança israelita Yamasec.

Segundo o próprio Watson, estes homens estavam aterrorizados com a possibilidade de o seu historial intransigente afugentar os parceiros governamentais que estavam tão desesperados por conquistar. A tática de não-violência agressiva que Watson desenvolveu em 1977 foi rejeitada por ser considerada demasiado controversa, apesar de ter sido precisamente essa abordagem que fez da Sea Shepherd o movimento de sucesso em que se tornou.

O relato de Watson sobre a cisão deixa claro que não se tratava de um desacordo sobre táticas. Era um desacordo sobre o que a organização era, no fundo. A nova liderança queria uma ONG de conservação convencional. Watson queria o que a Sea Shepherd sempre tinha sido: uma força de ação direta que não prestasse contas a ninguém.

Após a afastamento de Watson e Essemlali, a Sea Shepherd França, o Brasil e o Reino Unido mantiveram-se fiéis aos objetivos originais do movimento. A nova Sea Shepherd Global processou posteriormente Watson e a Sea Shepherd França, alegando que estes não tinham qualquer direito legal de utilizar o nome Sea Shepherd — nome que o próprio Watson criou — nem os logótipos que ele próprio tinha desenhado. Uma organização a processar o seu fundador por utilizar o próprio nome. O simbolismo não era subtil.

A Questão da Namíbia e a «branqueamento» de um escândalo

A viragem para as alianças governamentais em África foi apresentada, à primeira vista, como uma missão nobre para combater a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada. Na prática, a página da história da Sea Shepherd Global apresenta-se agora como um relato polido de uma organização que serve cada vez mais os interesses dos Estados que alega querer responsabilizar.

A parceria com a Namíbia foi o exemplo mais flagrante. A Sea Shepherd Global estabeleceu laços estreitos com as autoridades pesqueiras do país no auge do escândalo «Fishrot», no qual o antigo ministro das Pescas, Bernard Esau, e outros altos funcionários foram acusados de trocar quotas de pesca nacionais por subornos da empresa pesqueira islandesa Samherji. Os «Fishrot Files», divulgados por um corajoso denunciante, revelaram uma corrupção sistemática que, ao longo dos anos, esgotou os recursos marinhos da Namíbia — os mesmos recursos marinhos que a Sea Shepherd alegava proteger.

Ao manter relações estreitas e cordiais com responsáveis que atuavam sob essa sombra, a nova Sea Shepherd Global não se limitou a fazer vista grossa. Proporcionou ativamente a esses responsáveis uma aparência de legitimidade ambiental — «branqueando» um regime apanhado em flagrante a praticar sabotagem económica marinha. A aparente lealdade de Peter Hammarstedt a estas relações governamentais, acima e além de qualquer compromisso com a missão, foi um dos principais motivos de descontentamento para Watson e Essemlali antes da sua destituição.

O Problema da Yamasec: Mercenários no Mar

É aqui que a história passa de decepcionante a verdadeiramente preocupante. De acordo com uma reportagem do L’Impertinent, a empresa israelita Yamasec, sediada no Uganda, vinha a contratar pessoal de segurança para operar nos navios da Sea Shepherd Global há aproximadamente sete anos. A bordo do navio Sam Simon, da Sea Shepherd, em águas gambianas, dois seguranças israelitas contratados pela Yamasec deram formação a oficiais da Marinha gambiana em procedimentos militares de abordagem: como transportar as armas enquanto subiam escadas de corda, como revistar navios à procura de contrabando, armas ou trabalhadores escondidos e como abordar embarcações em movimento que se recusassem a parar.

Reflitam bem nisso. Uma organização fundada com base na ação direta não violenta, aclamada pelos seus navios improvisados e tripulados por civis que se interpunham entre os baleeiros e as baleias, tinha-se tornado discretamente numa plataforma para que contratados com formação militar realizassem operações de abordagem com oficiais da marinha armados.

Lamya Essemlali, da Sea Shepherd França, afirma que ela e Watson desconheciam totalmente a colaboração com a Yamasec: «Parece uma loucura, mas não, não sabíamos. Isso nunca foi discutido durante as reuniões do conselho de administração e nunca aprovámos qualquer contrato.» Segundo Essemlali, os documentos internos, incluindo os contratos com a Yamasec, foram mantidos em segredo, e foi precisamente por isso que a Sea Shepherd France intentou uma ação judicial contra a Global em Amesterdão — para ter acesso aos documentos internos que tinham sido ocultados.

Um membro da tripulação que falou com o L’Impertinent descreveu a dinâmica a bordo do navio em termos que deveriam alarmar qualquer pessoa que se lembre do que a Sea Shepherd deveria ser: «Eles estão lá para nos ajudar em caso de ataques de piratas e para gerir os soldados locais que embarcam connosco e nos conferem a legitimidade para abordar embarcações de pesca. Um dos chefes da Yamasec tem contactos privilegiados com os governos. Disseram-me que, sem a Yamasec, não poderíamos estar lá — o que me surpreendeu, uma vez que são eles que trabalham para nós, e não o contrário. Há uma ligação que considero pouco saudável entre uma empresa de segurança privada e os presidentes locais.»

Um antigo membro da tripulação, escrevendo sob o seu próprio nome, corroborou isto: «Testemunhei a presença a bordo de uma equipa de segurança israelita — a quem eram pagos montantes exorbitantes — que mais tarde regressou para participar em operações contra os palestinianos.» Trata-se de um relato isolado e não verificado, e deve ser tratado como tal. Mas é o tipo de relato que exige uma resposta da Sea Shepherd Global — resposta essa que ainda não foi dada.

A Parceria com Israel

A ligação com a Yamasec não se limitou às operações em África. Em novembro de 2022, a Sea Shepherd Global anunciou o lançamento da Operação Living Sea, mobilizando o seu navio, o Bob Barker, para patrulhar o Palmahim Slide — uma área marinha protegida recém-criada ao largo da costa de Tel Aviv. A área marinha protegida Palmahim Slide, criada em setembro de 2022, foi estabelecida para proteger um importante local de reprodução de tubarões de águas profundas e uma zona de desova do atum rabilho do Mediterrâneo, cujas populações se encontram gravemente depauperadas, tendo diminuído em até 85% nas últimas décadas. Toda a pesca é proibida na área protegida.

À primeira vista, isto parece ser exatamente o que a Sea Shepherd deveria estar a fazer. O atum rabilho do Mediterrâneo está verdadeiramente em perigo, e a organização documentou violações reais: a tripulação a bordo do Bob Barker detetou seis dos dezasseis arrastões licenciados em Israel a pescar violando os regulamentos locais, entregando provas fotográficas e em vídeo às autoridades israelitas para investigação.

Mas o contexto é extremamente importante. A parceria com Israel foi lançada imediatamente após a reviravolta na liderança, com a mesma equipa de direção que tinha integrado a Yamasec na estrutura operacional da Sea Shepherd — e a Yamasec é uma empresa israelita. A presença de uma empresa de segurança israelita nos navios da Sea Shepherd pareceu politicamente incómoda até mesmo aos membros da tripulação: «Já para não falar de que a presença de uma milícia israelita parece representar um problema para muitos num grupo que é tipicamente de tendência política de esquerda.» A organização que outrora navegava sob a bandeira Jolly Roger e declarava guerra aos Estados-nação era agora, na prática, um contratante de aplicação da lei para um deles.

Os navios foram despojados da sua identidade, pintados de cinzento e obrigados a arvorar as bandeiras dos seus países de acolhimento — uma personificação visual de tudo aquilo a que a organização outrora se tinha oposto.

O que se perdeu

A secção de perguntas frequentes da Fundação Paul Watson expõe a filosofia fundadora com uma clareza impressionante: ação direta, independência operacional, ausência de parceiros governamentais e total transparência perante o público. Estes não eram meros valores a que se aspirava — eram o ADN operacional que tornava a Sea Shepherd eficaz. Os governos não abordam navios de pesca ilegais às três da manhã, no meio de uma tempestade. Civis radicais e não-violentos, que não respondem perante nenhuma bandeira, sim.

Ao escolher a legitimidade em detrimento da autonomia, a nova Sea Shepherd Global abdicou da única coisa que a tornava poderosa. Não se pode responsabilizar os governos enquanto esses mesmos governos assinam os vossos contratos e avaliam o vosso pessoal de segurança. Não se pode alegar que se protege o oceano enquanto o vosso conselho de administração suprime documentos internos para ocultar quais os contratantes militares que comandam os vossos navios. E não se pode fingir ser um movimento de base enquanto se processa o próprio fundador por usar o seu nome.

A Fundação Capitão Paul Watson dá continuidade ao mandato original, operando de forma independente, sem parcerias governamentais nem empresas de segurança privada. Se isso é suficiente — e se «trabalhar dentro do sistema» pode alcançar o que a resistência não conseguiu — é a questão a que o próprio oceano poderá, eventualmente, responder. O resto, como se costuma dizer, não passa de burocracia rebuscada para a extinção dos mares.

LEITURAS MARGINAIS

COMO O FUTEBOL FOI SUBSTITUINDO A GUERRA
Pedro Tadeu, Panfletos/Antena 1, 26 de junho de 2026

O duelo Mbappé-Messi, por © Chappatte dans Le Temps, Genève

Simon Kuper no livro “World Cup Fever”, escreve que depois de 1945 o futebol foi substituindo a guerra como fonte de orgulho nacional na Europa. As seleções passaram a personificar os países e os jogos transformaram-se em choques de culturas, nos quais cada estilo era interpretado por critérios nacionalistas e identitários. A memória da Segunda Guerra Mundial marcou adeptos e equipas, sobretudo na rivalidade entre a França e a República Federal da Alemanha.

O ponto mais dramático dessa tensão ocorreu na meia-final do Mundial de 1982, em Sevilha. A Alemanha chegou à final após vencer a França de Michel Platini num jogo épico. O tempo regulamentar terminou em 1-1; no prolongamento, a França colocou-se a vencer por 3-1, mas os alemães, liderados por Rummenigge, recuperaram em sete minutos e levaram a partida para os penáltis. Foi a primeira decisão por grandes penalidades da história dos Mundiais e terminou com a vitória alemã por 5-4, reforçando o mito da invencibilidade germânica nesse tipo de desempate.

Esta cultura começara a ganhar forma com o “Milagre de Berna”, em 1954, quando a RFA derrotou a Hungria, então considerada invencível, na final do Mundial. No pós-guerra, o sucesso futebolístico ajudou a Alemanha Ocidental a reconstruir uma identidade nacional, assente na disciplina e na resistência. Mas o jogo de 1982 ficou também marcado pela agressão do guarda-redes Harald Schumacher a Patrick Battiston. O avançado francês caiu inanimado, partiu dentes e costelas, mas Schumacher nem sequer recebeu um cartão. Para muitos europeus que tinham vivido a guerra, a agressividade alemã em campo reativou ressentimentos. A Alemanha era retratada como uma equipa “vilã”, capaz de vencer pela força bruta seleções associadas a uma ideia estética do jogo.

A persistência dessa memória surgiu também no Mundial de 1990. Na véspera da meia-final entre a Inglaterra e a Alemanha Ocidental, em Turim, o treinador Bobby Robson começou a palestra aos jogadores dizendo: “Nós vencemo-los na guerra.” O capitão Gary Lineker antecipara a frase e escrevera-a numa folha escondida, provocando o riso geral do balneário quando a mostrou. O episódio ilustra como a guerra continuava a estruturar o imaginário futebolístico europeu. O próprio vandalismo dos hooligans ingleses foi muitas vezes associado a uma alegada tradição guerreira que via as deslocações ao estrangeiro como actos de conquista.

Esta carga histórica alterou-se no Mundial de 2006, organizado pela Alemanha. Como anfitriã, a Alemanha procurou afastar-se da imagem de nacionalismo agressivo e apresentar-se como uma “nação normal”. Após ser eliminada na meia-final, chegou a ser descrita como “perdedora amável”. O futebol europeu perdeu assim parte da sua densidade bélica, embora esse sentimento reapareça por vezes.

Um exemplo é a Argentina e a canção conhecida como “Muchachos”, cujo título original é “En Argentina Nací”. Transformada em hino dos adeptos durante o Mundial de 2022, no Qatar, que deu à Argentina o seu terceiro título, a composição liga futebol, identidade nacional e memória histórica. A letra menciona os “rapazes das Malvinas”, referência aos soldados argentinos que combateram na guerra contra o Reino Unido em 1982. A canção une a herança de Diego Maradona e Lionel Messi à memória coletiva desse conflito.

Kuper observa que esta carga histórica e política é constante no futebol argentino. O próprio Maradona afirmou que a vitória sobre a Inglaterra no Mundial de 1986 serviu como vingança simbólica pela derrota nas Malvinas. “Muchachos” prolonga essa tradição ao associar o orgulho futebolístico a uma memória nacional de perda, resistência e desforra.

A canção sistematiza ainda a frustração acumulada da seleção argentina, ao mencionar as finais perdidas e os muitos anos de choro. Esse ciclo de desilusões é apresentado como encerrado pela vitória sobre o Brasil na Copa América de 2021, no Maracanã, antes da consagração no Mundial de 2022. Tal como aconteceu na Europa do pós-guerra, o futebol transforma derrotas históricas, traumas nacionais e vitórias desportivas numa narrativa coletiva de redenção patrioteira.

sábado, 27 de junho de 2026

AÇORES: CHUMBO EM ESQUELETOS DENUNCIA SUSPEITAS DE CONTAMINAÇÃO DE SOLOS E ÁGUAS E LIGAÇÃO A CANCROS

Expresso.

Lajes: investigação deteta chumbo em esqueletos, reforçando suspeitas de contaminação e ligação a surto de cancros. Estudo da Universidade de Coimbra* deteta metais pesados em humanos que viviam junto às zonas poluídas pela base militar das Lajes. Nova pista pode explicar número de doenças oncológicas, mas é preciso realizar mais estudos. Enfermeiros denunciam travões a uma investigação que tentaram fazer à incidência de cancros na Praia da Vitória. Fonte.

* Os estudos realizados por Féliz Rodrigues no âmbito do seu doutoramento em Antropologia Forense, desenvolvida na Universidade de Coimbra e financiada pelo Governo Regional dos Açores, podem ser acedidos aqui e aqui.

Há uma segunda contaminação nesta história: a do silêncio. Profissionais de saúde que tentaram estudar a incidência de cancros na Praia da Vitória relatam ao Expresso que foram impedidos de o fazer. “A uma investigadora, a universidade terá sugerido, ou obrigado, a mudar de tema, da incidência de cancros para o impacto das reformas antecipadas. O coordenador do estudo foi mais longe: afirma que a universidade não quis concluir a investigação por ter uma parceria com uma universidade do Massachusetts, e que estavam a pôr em causa os interesses norte-americanos. Faltou-lhes o acesso a certidões de óbito para analisar causas de morte; a Segurança Social não disponibilizou os dados de incapacidade atribuída por cancro. Há ainda relatos de ameaças veladas a quem se mobilizou, porque muitos pais trabalham na Câmara ou na base.” Fonte.

Os tempos passaram, e agora a Câmara da Praia da Vitória prodigaliza condições para uma investigação rigorosaatitude totalmente oposta à que tomou em setembro de 2018 ao processar os investigadores que alertavam para a contaminação das águas locais.

Entretanto, reveja-se o que o blogue Ambiente Ondas3 já publicou sobre este mesmo tema da contaminação de solos na Praia da Vitória e problemas de saúde daí decorrentes:

SETÚBAL: PRIMEIRO TRÓIA, AGORA ARRÁBIDA

  • Os novos donos da Herdade da Comenda declararam guerra contra a população de Setúbal e a região, com o objetivo de privatizar e restringir o acesso à Serra da Arrábida e à Península de Tróia, tudo com a cumplicidade dos autarcas locais. As ações dos novos donos incluem vedar trilhos, impedir o acesso a parques de merendas e à capela local, e destruir dunas e habitats protegidos por pura ganância. A alteração do plano “Arrábida sem carros 2026” (apoiado pela Câmara e pelo Chega) é apontada como uma jogada cirúrgica para impedir o acesso ao alto da serra e prolongar o isolamento para além do verão, promovendo uma "desabituação" do povo ao património. Fonte.
  • Cerca de 17 milhões de dólares estão a ser atribuídos às famílias afetadas pela crise de contaminação por combustível em Red Hill. Estes acordos resultam de várias ações judiciais intentadas após o derrame de combustível de aviação ocorrido em 2021 nas instalações de armazenamento de combustível a granel da Marinha em Red Hill, que contaminou o sistema de água potável que abastece milhares de famílias de militares e civis em Oʻahu. Fonte.
  • Como a corrida à exploração do metal do futuro ecoa o passado colonial dos EUA. As empresas já reivindicaram direitos sobre mais de 100 projetos de minas de lítio. As tribos estão entre as mais afetadas. Johanna Hansel, Carla Samon Ros e Wyatt Myskow, ICN.

BICO CALADO

  • Operadores da linha SNS24 perdem parte do salário quando vão à casa de banho. Simples pausas para ir à casa de banho, comer um pequeno lanche ou descansar durante alguns minutos são descontadas no salário dos operadores da linha SNS24, a maioria enfermeiros, que prestam serviço através da Altice. Fonte.
  • Receitas dos hospitais privados subiram 9,5% para máximo histórico em 2025. Fonte.
  • Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Fonte.


LEITURAS MARGINAIS

OS SERVIÇOS SECRETOS BRITÂNICOS INSTIGARAM MOTINS NA IRLANDA OCUPADA ATRAVÉS DE MANOBRAS TORTUOSAS
Kit Klarenberg, The Grayzone. Rev. O’Lima.


E-mails divulgados revelam como responsáveis militares e dos serviços secretos britânicos provocaram deliberadamente motins entre as comunidades católica e protestante da Irlanda ocupada, que depois exploraram para justificar a repressão. Em diatribes privadas, veteranos da Irlanda ocupada que mais tarde se tornaram agentes do MI6 continuam obcecados em «manter a Irlanda do Norte britânica» e ridicularizam a morte de Bobby Sands.

Os e-mails divulgados oferecem uma visão extraordinária das atividades secretas de proeminentes veteranos militares e dos serviços secretos britânicos destacados na Irlanda ocupada durante a década de 1980. Ainda dominados por um desprezo persistente pelos católicos e por um ódio visceral pelos famosos combatentes pela liberdade republicanos irlandeses, estes homens acreditam, até aos dias de hoje, que o seu dever patriótico continua a ser «manter a Irlanda do Norte britânica».

Vários veteranos britânicos do chamado «Conflito da Irlanda do Norte» encontraram emprego numa empresa privada de espionagem chamada Hakluyt, que tem sido referida como um «lar de repouso para espiões». Fundada por oficiais de longa data do MI6, incluindo o antigo espião que inspirou a personagem de James Bond, criada por Ian Fleming, a empresa tem sido acusada, com alguma credibilidade, de servir de fachada para a agência.

Keith Craig é outro veterano do MI6 que se juntou à Hakluyt, tendo ocupado o cargo de diretor executivo durante dez anos. Embora sejam escassos os detalhes públicos sobre o período em que Craig serviu no Exército britânico, as comunicações da Hakluyt que vazaram colocam-no na linha da frente do Conflito da Irlanda do Norte, como membro da unidade de elite militar Black Watch.

As fugas de informação contêm várias trocas de mensagens reveladoras entre Craig e Pablo Miller, um agente veterano do MI6 suspeito de ter sido o contacto do traidor russo Sergei Skripal, agora desaparecido. Na altura do caso do envenenamento de Skripal, Miller residia em Salisbury, no Reino Unido, não muito longe da casa dos Skripal, e trabalhava para a Orbis Business Intelligence, a empresa privada fundada por Christopher Steele, seu antigo colega do MI6 e autor do «Dossiê Steele», repleto de invenções. (O governo britânico colocou o nome de Miller sob uma «D Notice» imediatamente após o alegado envenenamento de Skripal, impedindo a imprensa do país de o mencionar diretamente).

Em e-mails que divulgaram, Miller e os seus colegas da Hakluyt unem-se em torno do seu ressentimento virulento contra os católicos irlandeses e deleitam-se em relembrar os esquemas que arquitetaram para empurrar a população republicana local para a violência durante o Conflito da Irlanda do Norte. Estas maquinações perversas incluíram colocar uma sanduíche na lápide do mártir Bobby Sands, que morreu em greve de fome.

Uma sanduíche no túmulo de Bobby Sands teve «o efeito desejado»

Em e-mails enviados a amigos e colaboradores de longa data das forças armadas e dos serviços secretos, o veterano do MI6 e líder da Hakluyt, Keith Craig, recordou com saudade uma intriga mórbida que ocorreu enquanto esteve destacado no coração católico de West Belfast, em março de 1983, por altura do aniversário da greve de fome de 1981.

Liderados por Bobby Sands, os prisioneiros republicanos irlandeses submeteram-se a longos períodos de jejum em protesto contra as condições desumanas e a tortura persistente. Craig relatou como os combatentes do Black Watch «aguardavam ansiosamente» motins católicos em apoio aos grevistas de fome, mas ficaram desapontados quando estes não se concretizaram.

«Os habitantes locais comportaram-se, na verdade, de forma notavelmente correta», lamentou Craig.

A confirmação que veio a público de que os ocupantes britânicos instigaram deliberadamente os motins levanta novas questões sobre o homicídio de Thomas «Kidso» Reilly, ocorrido em 9 de agosto de 1983, em Belfast, às mãos de um soldado britânico que abriu fogo contra o jovem de 22 anos, aparentemente inocente. «Ele não fez nada», comentou uma testemunha ocular. «Estava a subir aquela rua e foi alvejado.»

O assassinato de Reilly, gestor de digressões de várias bandas famosas, levou multidões de católicos enfurecidos às ruas. À medida que os protestos cresciam, os soldados britânicos abriram fogo contra eles com balas de plástico, exacerbando ainda mais a sua raiva. Parece agora claro que as forças armadas britânicas tinham toda a intenção de provocar violência para justificar a sua ocupação.

Em 1984, o assassino de Reilly, Ian Thain, tornou-se o primeiro soldado britânico a ser condenado por homicídio na Irlanda ocupada durante o conflito. Apesar de ter recebido uma pena de prisão perpétua, foi rapidamente libertado e regressou ao serviço militar na linha da frente.

Numa tentativa cínica de levar a raiva local ao ponto de ebulição, uma patrulha noturna do Black Watch provocou a população republicana colocando uma sanduíche de bacon no túmulo de Bobby Sands. Isto «teve o efeito desejado e ficámos de serviço para conter motins durante uma semana», recordou ele.

Veteranos do MI6 «organizaram uma festa» para celebrar a morte de Bobby Sands

Desde 1968, agentes dos serviços secretos militares britânicos mataram centenas de civis católicos com impunidade quase total. Keith Craig e os seus colegas da Hakluyt, no entanto, orgulham-se do tempo que passaram no Ulster e, até hoje, reservam um ódio assassino a Bobby Sands.

Em março de 2020, Craig enviou por e-mail a colegas do Exército Britânico e do MI6 uma fotografia de uma placa bem conhecida em homenagem a Sands em Rosslea, uma aldeia católica no Ulster, na fronteira com a República da Irlanda. Um anúncio de uma empresa de emagrecimento estava estampado por cima da placa. Entre os destinatários da fotografia irónica estava Pablo Miller.


Num outro e-mail divulgado, Miller recordou como o seu esquadrão do Regimento Real de Tanques «organizou uma festa» para celebrar a morte de Sands. Foi pendurada uma faixa por cima do bar do esquadrão, onde se lia «Bobby Sands DIY». Miller gabou-se de que «os nossos fenianos participaram com entusiasmo», utilizando um termo depreciativo para se referir aos católicos de ascendência irlandesa da unidade. A celebração macabra terá sido, alegadamente, «nada sectária».

Noutro e-mail, Miller referia-se ao seu hábito de cantar canções protestantes, «provocando os fenianos, com tanta veemência, na minha juventude desperdiçada».

Numa conversa à parte, Keith Craig afirmava que o lema do Black Watch era «nae [nenhuns] poofs [homossexuais], nae negros, nae fenianos». Descreveu com nostalgia a unidade de forças especiais de elite como «apenas uns tipos esclarecidos das ruelas de Dundee».

O Black Watch constituiu uma parte essencial do envolvimento militar ativo da Grã-Bretanha na Irlanda ocupada entre 1969 e 2007, o mais longo da história de Londres. A unidade era odiada pelos católicos e um alvo frequente de grupos republicanos irlandeses armados.

O racismo anti-irlandês de Miller é ainda mais chocante, tendo em conta que ele próprio é um católico praticante. Num relato de autoria própria sobre o seu serviço, que veio a público, Miller descreve de forma romântica a vida no RTR na Irlanda ocupada, durante o final da década de 1980. Na qualidade de gestor de operações, coordenava as ações com a Polícia Real do Ulster (RUC) e o Regimento de Defesa do Ulster (UDR), garantindo simultaneamente que as forças britânicas em patrulha permanecessem a salvo de ataques. Considerava o «terrorismo» republicano como «a maior ameaça à Constituição britânica na segunda metade do século XX».

Miller sentia que tinha «conquistado o respeito profissional» dos seus homólogos da RUC e da UDR e estabelecido relações pessoais «próximas» com alguns deles. Não se sabe ao certo quantos agentes «a tempo parcial» da UDR que conheceu eram também membros da Associação de Defesa do Ulster (UDA).

A UDA atuou como um esquadrão da morte anticatólico ao longo do Conflito, em estreita coordenação com o Exército Britânico e o MI5. Muitas das suas armas provinham dos quartéis da UDR, e os soldados do Regimento trabalhavam requentemente em paralelo na UDA, cometendo «atos terroristas».

Entre 1970 e 1997, a UDA matou pelo menos 400 pessoas, a maioria das quais civis católicos. A verdadeira dimensão dos seus crimes e a real extensão da sua conivência com o Exército Britânico e os serviços secretos nunca serão conhecidas. Terroristas da UDA condenados participaram em operações da UDR ao longo deste período, e vice-versa.


Entre as vítimas mais notórias da UDA encontrava-se Pat Finucane, um advogado de Belfast executado na sua casa, perante a sua família, em fevereiro de 1989, pelo crime de representar em tribunal grevistas de fome republicanos irlandeses. O primeiro-ministro David Cameron admitiu a existência de «níveis chocantes de conivência» na execução de Finucane, em 2011; no entanto, rejeitou os pedidos da família da vítima para que fosse realizado um inquérito exaustivo. «Há pessoas nos edifícios à volta daqui que não vão permitir que isso aconteça», explicou Cameron em privado, referindo-se à proximidade do seu gabinete à sede do Ministério da Defesa, do MI5 e do MI6. É por esta razão que tantos crimes chocantes perpetrados por grupos paramilitares protestantes, em colaboração com os serviços secretos britânicos, continuam por resolver.

Miller recorda com nostalgia a luta para «manter a Irlanda do Norte britânica»

Em relatos privados sobre o seu envolvimento no Conflito da Irlanda do Norte, Pablo Miller defendeu a guerra suja da Grã-Bretanha contra os católicos irlandeses. «Nenhum Estado — muito menos uma democracia liberal — pode dar-se ao luxo de tolerar com serenidade uma ameaça existencial à sua ordem constitucional», afirmou. Miller prosseguiu, manifestando orgulho pelo seu «pequeno papel na derrota do terrorismo republicano, na manutenção da Irlanda do Norte sob domínio britânico e na proteção da integridade da Constituição britânica».

«Pode parecer um pouco pomposo ou grandiloquente, mas a Irlanda do Norte, como parte do Reino Unido, continua a ser muito importante para mim pessoalmente», continuou ele. «O Exército britânico perdeu muitos homens — e, claro, isso custou ainda mais vidas na Irlanda do Norte — a defender a nossa ordem constitucional. Por isso, ficaria um pouco incomodado, para dizer o mínimo, se alguma vez voltássemos a esses tempos.»