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quinta-feira, 7 de maio de 2026

ESPINHO: PRAIA DA BAÍA QUALIDADE DE OURO?


É de louvar a iniciativa ‘Praias com Qualidade de Ouro em 2026’, que atribuiu à praia da Baía, em Espinho, o respetivo galardão.


Este prémio poderá explicar-se pelo facto de a "Qualidade de Ouro" avaliar exclusivamente a qualidade da água com critérios mais rigorosos e de longo prazo, enquanto a Bandeira Azul é um certificado mais abrangente que inclui outros requisitos como segurança, equipamentos e gestão ambiental.

A perda da Bandeira Azul pode ter ocorrido por vários motivos que não afetam a classificação "Qualidade de Ouro", por exemplo falta de equipamento de vigilância e salvamento contratado., problemas pontuais com acessos ou sanitários, incumprimento de alguma regra de gestão ambiental (por exemplo, deposição de areias ou gestão de algas), ou ter tido uma análise de água com resultado "Boa" num curto espaço de tempo (o que não afeta o histórico de vários anos da Quercus).

SUÉCIA: PORQUÊ O ATAQUE ÀS EÓLICAS?

  • Apesar de a Suécia produzir 99% da sua eletricidade a partir de fontes limpas, a energia eólica está a ser alvo de uma campanha coordenada de desinformação e informações erradas em toda a Europa. Uma análise de mais de 42 000 publicações nas redes sociais revelou que 68% continham narrativas falsas ou enganosas contra a energia eólica, gerando milhões de interações. A Suécia registou o maior volume de publicações deste tipo. Os ataques retratam falsamente a energia eólica como: uma «fraude» impulsionada por elites gananciosas e forças antidemocráticas, um desastre ambiental (por exemplo, prejudicial para a vida selvagem), apesar de estudos demonstrarem que mais de 99,8% das aves evitam as turbinas., tecnológica e economicamente inviável, associando-a falsamente a cortes de energia ou custos elevados. A desinformação já está a causar danos no mundo real, incluindo projetos eólicos atrasados ou bloqueados (por exemplo, um projeto de 1,2 mil milhões de euros na Bulgária bloqueado por alegações falsas), e até a incitar à violência física contra as infraestruturas. O relatório alerta que isto representa um «risco sistémico para a segurança da Europa», ao minar a transição para uma energia limpa e produzida internamente, prejudicando a competitividade económica e podendo ser potencialmente utilizada como arma pelos rivais. Fonte.
  • Um gigantesco centro de dados de IA de «hiperescala» denominado «Stratos», proposto pelo bilionário do programa «Shark Tank», Kevin O'Leary. Ocuparia mais de 40 000 acres no norte do Utah (2,5 vezes o tamanho de Manhattan) e prevê-se que mais do que duplique o consumo de eletricidade do estado, aumente a sua pegada de carbono em mais de 50% e corra o risco de esgotar as reservas de água do já empobrecido Great Salt Lake. Centenas de residentes locais gritaram «Vergonha! Vergonha! Vergonha!» depois de os comissários do distrito terem votado por unanimidade a favor da aprovação do projeto. Os residentes estão furiosos porque: foram avisados com muito pouca antecedência e tiveram poucas oportunidades de se pronunciarem, temem o aumento vertiginoso dos preços da energia (à semelhança do que acontece noutros estados com centros de dados) e duvidam das alegações do promotor imobiliário sobre o consumo «líquido zero» de água e a sustentabilidade, invocando a falta de análises públicas e independentes. Além disso, o projeto é alimentado por uma central a gás natural (um potente poluente climático), o que contradiz as alegações de O'Leary sobre energia solar/eólica. Fonte.
  • “Alguns governos apoiam os veículos elétricos porque querem ajudar a combater as alterações climáticas, outros por causa da inovação tecnológica e alguns, simplesmente, porque decidiram fazer as contas. Estes últimos compreendem melhor o que está em jogo. A Costa Rica e a Noruega, duas economias muito diferentes em termos de dimensão, rendimento, geografia e estrutura produtiva, chegaram à mesma conclusão: depender do petróleo é uma má ideia, e a eletrificação dos transportes é uma das formas mais diretas de deixar de depender dele.” Enrique Dans, Medium.

REFLEXÃO

ESPINHO, QUE EDUCAÇÃO AMBIENTAL?

Imagens de algumas ações de limpeza de praias de Espinho e Paramos levadas a cabo pelo Clube do Ambiente da ESMGA 
em 1997, 1998, 1999 e 2000.

Longe vão os tempos em que um punhado de professores e alunos da Escola Secundária Dr Manuel Gomes de Almeida, agrupados no seu Clube do Ambiente, levavam a cabo inúmeras atividades, incluindo observações costeiras, visitas de estudo, acampamentos, caminhadas e ações de limpeza de praias. Noutras localidades, grupos semelhantes faziam o mesmo e, quiçá, melhor.

A semente germinou e cresceu. Os tempos são outros, e o modelo da educação ambiental parece ter envergado outras roupagens.
Dezenas de professores e alunos do Agrupamento de Escolas Dr. Manuel Laranjeira passaram a manhã de quarta‑feira, 6 de maio, na Praia da Baía, recolhendo resíduos ao longo do percurso até à Praia dos Pescadores. O evento integrou também uma aula ao ar livre sobre o impacto dos resíduos marinhos e contou com atuações de dança artística e ginástica acrobática.
Pese embora o empenho dos alunos, professores, autarcas e agentes de comunicação, toda a ação pareceu cuidadosamente encenada para transmitir uma imagem de dinamismo ambiental — quase uma operação de cosmética pública destinada a suavizar o impacto da recente perda da Bandeira Azul por parte da praia da Baía.
Curiosamente, o Defesa de Espinho — semanário propriedade da EMPS, detida maioritariamente pela Solverde (Sociedade de Investimentos Turísticos da Costa Verde, SA), responsável pelos casinos de Espinho, Vilamoura e Figueira da Foz — disponibilizou, na íntegra e livremente, uma reportagem sobre o evento, ilustrada por dezenas de fotografias, embora nenhuma do conjunto dos resíduos que consta terem sido recolhidos...



Isabel Faustino/DE



BICO CALADO


Israel prepara-se para gastar quase 750 milhões de dólares no seu aparelho de propaganda, num sinal do crescente alarme em Telavive face ao colapso da sua reputação internacional na sequência do genocídio em Gaza e da expansão das guerras na região. De acordo com o The Jerusalem Post, o orçamento de diplomacia pública de Israel, conhecido em hebraico como hasbara, subiu para 730 milhões de dólares, mais de quatro vezes os 150 milhões de dólares atribuídos no ano anterior. Esse montante anterior era, por si só, cerca de 20 vezes superior aos gastos de Israel com tais esforços antes de 2023. Fonte.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

PROTEJO AVANÇA PARA TRIBUNAIS EUROPEUS NA DEFESA DO RIO TEJO

  • O movimento proTEJO – Movimento pelo Tejo vai avançar para instâncias europeias, incluindo o Parlamento Europeu e o Tribunal de Justiça da União Europeia, depois de a Provedora de Justiça Europeia ter recusado abrir um inquérito sobre a ausência de caudais ecológicos cientificamente definidos no rio Tejo. Recorde-se que em março de 2024, 31 organizações portuguesas e espanholas apresentaram uma denúncia à Comissão Europeia, alegando não haver um regime de caudais ecológicos adequado, sobretudo na barragem de Cedillo, na fronteira luso-espanhola, o que viola a Diretiva-Quadro da Água. A Provedora de Justiça Europeia encerrou o processo sem investigação, defendendo que que Cedillo é uma Massa de Água Fortemente Modificada, não exigindo caudal ecológico rígido. O proTEJO considera este argumento contraditório e juridicamente incorreto. A Convenção de Albufeira (1998), que define caudais mínimos, não tem base científica e é anterior à Diretiva-Quadro da Água. Pelo princípio da primazia do direito da UE, a Comissão deveria ter avaliado esta incompatibilidade — algo que, segundo o movimento, não fez. O moviment4o pede agora ao Parlamento Europeu para obter informação detalhada sobre avaliações de compatibilidade, realizar uma audiência pública de modo a aprovar uma resolução que pressione a Comissão a rever o regime de caudais. O proTejo prepara ações judiciais em Portugal e Espanha, visando um possível reenvio prejudicial ao Tribunal de Justiça da UE, uma nova denúncia autónoma por alegado incumprimento das Diretivas Aves e Habitats, devido à degradação de habitats protegidos ao longo do Tejo. Fonte.
  • Estratégia Nacional de Educação Ambiental em consulta pública até 16 de junho. Fonte.

EUA: NOVA ORLEÃES TERÁ DE RECUAR

New Orleans, setembro 2005
  • O processo de realojamento da população de Nova Orleães deve começar imediatamente, uma vez que a cidade atingiu um ponto de não retorno que a levará a ficar rodeada pelo oceano dentro de algumas décadas devido à crise climática, concluiu um estudo recente.
  • Os aterros ilegais de Itália são uma bomba-relógio. Há décadas que a Máfia tem enterrado ilegalmente resíduos industriais altamente tóxicos nos arredores de Nápoles, para poder ficar com os fundos municipais destinados à eliminação de resíduos. Os observadores afirmam que o governo italiano não está a fazer o suficiente para resolver o problema. Terra dei Fuochi, perto de Nápoles, continua a ser uma das regiões mais tóxicas de Itália. Durante décadas, a organização criminosa Camorra enterrou e queimou resíduos perigosos, contaminando o solo e o ar e deixando os residentes confrontados com elevadas taxas de cancro. Voluntários como Alessandro Cannavacciuolo e Michele Pannella documentam os despejos ilegais e pressionam as autoridades a agir, mas a limpeza é lenta e carece de financiamento, apesar das decisões judiciais e dos esforços da polícia. Fonte.
  • Kits tecnológicos simples e prontos a instalar poderiam reduzir as contas e acabar com a dependência dos combustíveis fósseis. Davide Sabbadin explica por que razão este é exatamente o tipo de política orientada para as famílias de que a UE necessita em tempos de crise.

BICO CALADO

  • Solução para o conflito israelo-palestiniano: Transferir Israel para os EUA
- Os israelitas são muito queridos pelos americanos.
- Os americanos receberão os israelitas de braços abertos nas suas casas.
- Os EUA têm terreno suficiente para acolher Israel como seu 51.º estado.
- Israel poderá ter um verdadeiro estado judeu seguro, rodeado por estados amigos.
- Os Estados Unidos deixarão de ter de gastar 3 mil milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes por ano na defesa de Israel.
- O custo do transporte será inferior a 3 anos de despesas com a defesa.
- Os palestinianos recuperarão as suas terras e as suas vidas.
- O Médio Oriente voltará a ser pacífico, sem interferência estrangeira.
- Os preços do petróleo baixarão, a inflação baixará, o mundo inteiro ficará feliz.
  • Kounine e Beit Yahoun, no distrito de Bint Jbeil, no sul do Líbano, foram alvo de bombardeamentos com munições de artilharia contendo fósforo, que são proibidas a nível internacional. Fonte.
  • É oficial: a polícia não vai prender os britânicos que apoiam as Forças de Defesa de Israel (IDF) por genocídio, mas vai prender-te por protestares contra isso. CEM, Substack.

  • “Conferência de vassalos, serventuários assalariados e outros bajuladores. Recebi hoje este convite para uma conferência em Lisboa. Estão lá duas das pessoas que em 2003 apoiaram activamente a invasão do Iraque, justificada com 'provas', leia-se relatórios falsos da CIA, uma guerra que fez mais de meio milhão de mortos num ano. Durão Barroso e Aznar são as cabeças de cartaz. Os participantes são, maioritariamente, pessoas com uma longa tradição de apoio a crimes de guerra e que hoje apoiam o genocídio na Palestina, raptos e assassinatos de chefes de Estado e líderes religiosos, que apoiam a pirataria internacional dos EUA e o desmantelamento das democracias, na Europa e no resto do mundo. Falta Blair, mas participam os mini-blairs Rishi Sunak e Theresa May. Da Casa Branca aparentemente ninguém se dará ao trabalho de vir à festa dos vassalos e assalariados (mas participa o activista indiano Satyarthi, prémio nobel apaparicado pela Administração Trump, para dar uma pincelada de humanismo). Isto tudo decorrerá com um governo português, em funções, louvado esta semana por Rutte, o delegado de propaganda bélica da 'NATO' (leia-se EUA), como um apoiante exemplar da guerra na Ásia Ocidental. Claro que este evento só podia ter lugar no Ritz e ser apoiado por uma das três televisões nacionais com uma agenda de extrema-direita (também podia ter sido qualquer uma das outras duas televisões privadas de notícias, uma ligada ao grupo Italiano fundado por Berlusconi, a outra agora sob o chapéu dos bilionários norte-americanos Ellison, principais apoiantes dos massacres em curso na Palestina e no Líbano). Dia 16 de Junho farei por estar longe do Parque Eduardo VII e dos seus visitantes no hotel contíguo.” Miguel Szymanski.

terça-feira, 5 de maio de 2026

VOLTA RECUA DE 70% PARA 40%

Imagem: Wildpixel/GettyImages

As metas de recolha do sistema Volta para 2026 foram revistas em baixa para 40%, escassas semanas depois de o novo modelo de devolução de embalagens ter arrancado em Portugal. A redução da meta avançada de 70% para 40% sugere dificuldades de implementação num sistema que depende de rede logística nacional, adesão dos retalhistas e mudança de hábitos dos consumidores. Fonte.

O cerne da polémica está menos na meta em si e mais na falta de transparência financeira e no planeamento que gerou esta situação. Para o governo de Luís Montenegro não há qualquer problema. Para a SDR Portugal, empresa gestora do programa, o sistema só começou a 10 de abril e tem um período de transição até 9 de agosto, resultando em apenas cinco meses de pleno funcionamento em 2026. A Associação de Municípios não vai em tretas: há nítida falta de transparência e planeamento. O aditamento que reduz a meta de 70% para 40% revela que o modelo de prestações financeiras (quem paga e quanto paga) foi entregue ao regulador apenas no final de janeiro de 2026 e ainda não foi aprovado até ao início do sistema, em abril. Isto significa que, tecnicamente, não havia financiamento garantido para atingir as metas iniciais. A ANMP critica duramente o "preâmbulo omisso" do documento, afirmando que desconhece os valores de contrapartida que a SDR pagará aos municípios. Os municípios alertam que, embora as autarquias tenham um papel crucial no sistema, estão a ser tratadas como meras espectadoras do processo.

Sente-se na opinião pública ceticismo e desconfiança generalizada. O sistema é visto como "mais um imposto" ou um "negócio para as grandes empresas", com receio de que os custos aumentem sem benefício real. Muitos consumidores acreditam que o sistema beneficia apenas as grandes empresas e os supermercados. Eles têm a percepção de que há um imposto de 10 cêntimos por embalagem, um aumento de preço disfarçado, com receio de que o valor do reembolso não compense o "trabalho" de devolver as embalagens ou que as condições para o fazer sejam demasiado restritivas.

A descida da meta de 70% para 40% pode ser tecnicamente defensável, mas revela problemas de governação, calendarização e comunicação. A mudança precoce fragiliza a confiança no sistema e sugere que as metas iniciais foram definidas mais por ambição política do que por viabilidade operacional, para não falar em eventual propaganda.

ISRAEL: COLONOS ARRANCAM CENTENAS DE OLIVEIRAS

Soldados israelitas assistem enquanto retroescavadoras israelitas destroem terrenos agrícolas e arrancam oliveiras centenárias na aldeia de Karyut, a sul da cidade de Nablus, na Cisjordânia, em 8 de dezembro de 2025. [Issam Rimawi – Agência Anadolu]
  • Colonos israelitas arrancaram e vandalizaram pelo menos 1 000 oliveiras na localidade de Turmus Ayya, a nordeste de Ramallah. A região tem enfrentado uma campanha de colonização cada vez mais intensa nos últimos três anos, incluindo ataques repetidos a terras agrícolas e restrições que impedem os agricultores de aceder às suas terras. Durante os últimos três anos, foram arrancadas cerca de 25 000 oliveiras na região, sem ordens militares formais nem procedimentos de confiscação de terras. Fonte.
  • A Ecoloxistas en Acción e a Greenpeace exigem que a Altri, no Porto, retire o seu projeto de macrocelulose em A Ulloa. Fonte.
  • A Alemanha foi o maior exportador de resíduos plásticos em 2025, enviando 810 000 toneladas para o estrangeiro. O Reino Unido ficou logo atrás, exportando 675 000 toneladas, com grande parte dos resíduos enviados para a Turquia, a Malásia e a Indonésia. Fonte.
  • A Suíça transforma os carris dos comboios em centrais solares. Fonte.
  • O projeto-piloto Nexus de 1,6 MW, na Califórnia, demonstrou que os painéis solares instalados sobre canais de irrigação podem reduzir significativamente a evaporação da água e o crescimento de algas em 85 %, ao mesmo tempo que revelam eficiência operacional. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

LIBERDADE DE CIRCULAÇÃO - O GOVERNO PREPARA A GAIOLA
Ricardo Graça, Advogado

Arte: Gerry Dizon

O Expresso noticiou no passado dia 30 de Abril: o Governo vai regular cercas sanitárias e restrições de direitos em tempo de crise. E o Governo confirma — está a criar um regime jurídico de gestão de calamidades que inclui expressamente a possibilidade de impor cercas sanitárias, restringir a circulação, controlar o acesso a bens e serviços, e gerir a vida das pessoas em situação de crise.

Tudo isto através de resolução do Conselho de Ministros. Onde já vimos estes abusos constantes do uso das resoluções em conselho de ministros? Sem estado de emergência. Sem autorização do Presidente da República. Sem ratificação da Assembleia da República. Sem os travões que a Constituição instalou precisamente para que o poder executivo não possa suspender direitos fundamentais por iniciativa própria.

Isto não é gestão de crises. É a construção de uma arquitectura de poder que a Constituição proíbe — disfarçada de eficiência administrativa.

I. O QUE JÁ EXISTE — O CORGOV E A PLATAFORMA DIGITAL

Em Novembro de 2025, o Governo aprovava em silêncio a Resolução do Conselho de Ministros n.º 202/2025 — que criou o CORGOV, o Centro de Operações e Resposta do Governo. Um quartel-general de gestão de crises, activado por decisão do Primeiro-Ministro, com manual de procedimentos classificado como confidencial ao abrigo do regime do segredo de Estado.

Um centro de comando para gerir crises. Com manual secreto. Activado unilateralmente pelo chefe do governo. Sem controlo parlamentar prévio. Sem supervisão judicial. Sem transparência sobre o que o manual diz que pode ser feito quando o botão é carregado.

Agora, no programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência — o PTRR apresentado esta semana pelo Primeiro-Ministro — o quadro completa-se. Vai ser criado um regime jurídico de gestão de calamidades com cercas sanitárias. Vai ser criada uma Plataforma Digital de Gestão de Calamidades — uma infraestrutura central para monitorização, coordenação e execução de medidas em situação de emergência. E vai ser criada uma Carta dos Direitos dos Consumidores em Situação de Catástrofe.

Leia-se bem o que está a ser construído: um centro de comando, um regime jurídico que autoriza cercas e restrições de circulação, e uma plataforma digital de gestão em tempo real. Tudo activado por decisão governamental. Tudo sem passar pelo mecanismo constitucional que existe precisamente para evitar que o governo restrinja direitos fundamentais por vontade própria.

II. O QUE DIZ A CONSTITUIÇÃO — E PORQUE É QUE IMPORTA

A Constituição da República Portuguesa não é omissa sobre esta matéria. É precisamente o contrário — é explícita, rigorosa e intencional.

O artigo 18.º da Constituição estabelece que os direitos fundamentais só podem ser restringidos nos casos expressamente previstos na Constituição — e que as restrições devem limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos.

O artigo 19.º da Constituição é ainda mais específico: a suspensão do exercício de direitos, liberdades e garantias só pode ter lugar em caso de estado de sítio ou estado de emergência — declarados pelo Presidente da República, ouvido o Governo e o Conselho de Estado, e sujeitos a autorização da Assembleia da República.

O estado de emergência tem requisitos rigorosos. Tem prazo máximo de quinze dias renovável. Tem de especificar os direitos que suspende. Tem de ser proporcional à situação. E tem de ser ratificado pelo Parlamento — o órgão eleito que representa os cidadãos cujos direitos vão ser suspensos.

Este mecanismo não foi inventado por burocratas. Foi desenhado por quem conhecia a história — por quem sabia que os regimes autoritários começam sempre da mesma forma: com a invocação de uma emergência real ou fabricada, com a suspensão temporária de direitos que depois nunca voltam completamente, com a criação de instrumentos de controlo que se mantêm muito além da crise que os justificou.

A Constituição de 1976 foi escrita por pessoas que tinham vivido quarenta e oito anos de ditadura. Que sabiam exactamente como o Estado pode usar a "emergência" para comprimir a liberdade. Que instalaram travões precisamente para que isso não se repetisse.

O que está a ser feito agora é construir um sistema que contorna esses travões — usando a categoria de "calamidade" para fazer o que só o estado de emergência deveria poder fazer.

III. A PANDEMIA — O ENSAIO GERAL QUE NINGUÉM AVALIOU

Para perceber para onde isto pode ir, é necessário recordar para onde foi durante a pandemia.

Entre 2020 e 2022, Portugal viveu sob restrições de direitos fundamentais durante meses seguidos. Confinamentos. Cercas municipais. Restrições de circulação. Horários de recolher. Condicionamentos ao exercício de actividade económica. Obrigatoriedade de certificados digitais para aceder a espaços públicos.

Nenhuma destas medidas foram tomadas com respeito constitucional, nem sequer as declarações dos estados de emergência foram constitucionais. Outras foram tomadas ao abrigo da situação de calamidade — que não suspende direitos fundamentais mas que na prática produziu o mesmo efeito, com muito menos controlo constitucional.

O Tribunal Constitucional foi chamado a pronunciar-se sobre a constitucionalidade de algumas medidas pandémicas — e as suas decisões foram, em vários casos, desfavoráveis ao Governo. O que confirma que o Estado avançou para além do que a Constituição permitia.

Nenhuma avaliação independente e rigorosa do que foi feito durante a pandemia foi alguma vez concluída em Portugal. Nenhuma comissão parlamentar apurou quais as medidas que violaram direitos fundamentais, quem as decidiu, com que base científica e com que controlo jurídico. O país saiu da pandemia como entrou — sem prestação de contas, sem aprendizagem institucional, sem garantias de que não voltaria a acontecer.

E agora o Governo está a criar o regime jurídico permanente que tornaria esse tipo de actuação não apenas possível — mas legalmente regulada e tecnologicamente suportada.

IV. A VAGUEZA COMO INSTRUMENTO

O conceito de "calamidade" é o coração do problema. E é vago por intenção — não por descuido.

Uma calamidade pode ser uma pandemia. Pode ser um incêndio florestal. Pode ser uma inundação. Pode ser uma seca severa. Pode ser um apagão energético — como o que aconteceu em Abril de 2025 e que o próprio Governo cita como justificação para criar o CORGOV. Pode ser uma "emergência climática". Pode ser uma vaga de calor com mortalidade elevada. Pode ser uma greve em sector essencial com impacto na ordem pública.

A lista não tem limite porque o conceito não tem definição precisa. E quando o conceito que activa o sistema de restrições não tem definição precisa, quem define em cada caso concreto se estamos perante uma calamidade que justifica cercas sanitárias e restrições de circulação é o próprio Governo — o mesmo que tem interesse em que a resposta seja afirmativa.

É esta a arquitectura do problema desenhado de forma a tornar o abuso possível sem controlo efectivo — e que a história demonstra, em Portugal e em todo o mundo, que os instrumentos criados para situações excepcionais acabam invariavelmente por ser usados noutras situações e por vezes, até foram criados unicamente para essas situações.

V. O PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE — A DEFESA QUE O GOVERNO USARÁ

O Governo vai defender que as cercas sanitárias e as restrições de direitos previstas no novo regime respeitam o princípio da proporcionalidade — que qualquer limitação de direitos fundamentais será proporcional à situação que a justifica, necessária e transitória.

Este argumento tem uma fraqueza estrutural: a proporcionalidade é avaliada pelo próprio Governo que decretou a medida. Não há controlo judicial prévio — porque os tribunais intervêm depois, quando o dano já está feito. Não há controlo parlamentar prévio — porque o Parlamento é notificado, não consultado. Não há controlo independente em tempo real — porque a plataforma digital de gestão é operada pelo próprio Estado.

A proporcionalidade sem controlo independente não é proporcionalidade — é discricionariedade. E a discricionariedade do poder executivo em matéria de restrição de direitos fundamentais é exactamente o que a Constituição quis evitar quando desenhou o mecanismo do estado de emergência com todas as suas garantias.

O princípio da proporcionalidade é uma garantia real quando existe uma instância independente que o verifica antes de a medida produzir efeitos. Quando a verificação é feita apenas pelo mesmo órgão que tomou a decisão — é uma garantia de papel.

VI. A MEMÓRIA QUE O ESTADO NÃO TEM

Em Abril de 2025, Portugal viveu um apagão que paralisou o país durante horas. Semáforos apagados. Comunicações interrompidas. Hospitais em geradores. Transportes parados. Estabelecimentos fechados.

Foi uma situação de crise real — que evidenciou fragilidades reais nas infraestruturas e na capacidade de resposta do Estado. E que justifica, em abstracto, que o Estado melhore os seus mecanismos de coordenação e resposta a crises.

Mas há uma diferença fundamental entre melhorar a capacidade de resposta do Estado em situações de crise — coordenando serviços, gerindo recursos, comunicando com a população — e criar um regime jurídico que permite ao Governo restringir a liberdade de circulação dos cidadãos, impor cercas sanitárias e limitar direitos fundamentais sem activar o mecanismo constitucional que foi criado precisamente para esse fim.

O apagão não exigiu cercas sanitárias. Os incêndios florestais não exigem restrições de circulação generalizadas. As inundações da tempestade Kristin exigiram resposta de emergência — não suspensão de direitos fundamentais.

A criação de um regime jurídico permanente de cercas sanitárias e restrições de direitos não responde às crises que Portugal tem enfrentado. Responde a crises que o Governo irá ser mandatado para enfrentar no futuro — e que podem ou não ser da natureza que justificaria tais medidas.

Criar o instrumento antes de haver necessidade dele — e criá-lo de forma permanente, tecnologicamente suportada e juridicamente blindada — não é prudência. É preparação para uma utilização nociva que a Constituição quer que seja excepcional e controlada.

VII. O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL — A ÚLTIMA LINHA DE DEFESA

A questão jurídica central é esta: pode o Governo, através de resolução do Conselho de Ministros ao abrigo de um regime de "calamidade", restringir o direito de circulação, impor cercas sanitárias e limitar outros direitos fundamentais — sem declarar estado de emergência nos termos dos artigos 19.º e 138.º da Constituição?

A resposta constitucional correcta é negativa. O artigo 27.º da Constituição garante a liberdade e segurança. O artigo 44.º garante o direito de deslocação e emigração. O artigo 18.º impede que direitos fundamentais sejam restringidos fora dos casos expressamente previstos na Constituição. E o artigo 19.º estabelece que a suspensão do exercício de direitos só pode ocorrer em estado de sítio ou estado de emergência — com todas as garantias que estes mecanismos implicam.

Um regime jurídico de "calamidade" que produza os mesmos efeitos práticos do estado de emergência — sem as mesmas garantias constitucionais — é materialmente inconstitucional. Independentemente do nome que se lhe dê.

O Tribunal Constitucional será eventualmente chamado a pronunciar-se. A questão é quando — antes de o instrumento ser usado, o que seria o ideal, ou depois, quando os direitos já foram restringidos e o dano já foi feito.

Em Portugal, os mecanismos de fiscalização preventiva da constitucionalidade — o pedido de declaração de inconstitucionalidade antes da entrada em vigor — existem mas são raramente usados com a agilidade que situações como esta exigiriam. O resultado habitual é que a lei entra em vigor, é aplicada, e o Tribunal Constitucional pronuncia-se anos depois — quando o instrumento já foi usado, quando os hábitos já foram criados, e quando a declaração de inconstitucionalidade apenas serve para impedir usos futuros de algo que já produziu efeitos.

VIII. CONCLUSÃO

Portugal está a construir uma arquitectura de controlo de crises que concentra no poder executivo a capacidade de restringir direitos fundamentais dos cidadãos — com apoio tecnológico, com base jurídica própria e com controlo constitucional insuficiente.

A história demonstra, com uma consistência que devia incomodar qualquer pessoa que pense seriamente sobre democracia, que os instrumentos de excepção criados para situações de crise excepcional acabam por ser usados em situações que os criadores nunca imaginaram — e por governos que os criadores nunca previram.

A Constituição de 1976 foi escrita por pessoas que sabiam isto. Que tinham vivido na pele o que acontece quando o Estado decide que a crise justifica suspender as regras.

Cinquenta anos depois, parece que a lição está a ser esquecida.

E desta vez não é uma ditadura que constrói a máquina. É uma democracia eleita que a monta. Qual será a diferença?