Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

quinta-feira, 23 de abril de 2026

CINCO EMPRESAS REFORÇAM CAPITAL DO FUNDO FLORESTAS DE PORTUGAL


O Fundo Florestas de Portugal, gerido pela Fidelidade SGOIC, reforçou o seu capital para cerca de 12 milhões de euros com a entrada de novos investidores, incluindo Corticeira Amorim, Fidelidade, Jerónimo Martins, Mota-Engil e REN. O fundo tem como objetivo valorizar o capital investido através da gestão ativa de recursos agroflorestais e dos serviços de ecossistema, incluindo a geração de créditos de carbono de elevada qualidade. Fonte.

Terá isto a ver com o alerta de Luís NevesMinistro da Administração Interna? - “O verão vai ser terrível, pode ser muito difícil, há fatores novos, extraordinários, negativos, e, por isso, eu peço, em nome de todos, que cada um possa fazer o seu trabalho. O tempo de preparação, de limpeza, de identificação de dificuldades é agora, este é o momento oportuno”.

REINO UNIDO: APLICAÇÃO DE GLIFOSATO PARA ELIMINAR ERVAS GERA INDIGNAÇÃO NA CORNUALHA

Dezenas de manifestantes reuniram-se na Câmara Municipal de Truro antes de uma reunião do conselho na terça-feira. 
Foto: Karen Robinson/The Guardian
  • Há uma acesa disputa na Cornualha, no Reino Unido, em torno de uma proposta da autarquia para utilizar o herbicida glifosato no controlo de ervas daninhas em passeios e bermas, após uma década de gradual eliminação do seu uso. Milhares de pessoas assinaram petições, e os manifestantes (incluindo apicultores com fatos de proteção e um residente com máscara de gás) argumentam que o glifosato representa riscos para a saúde humana, as abelhas, a vida selvagem, cursos de água e praias. Eles consideram as ervas daninhas como valiosas flores silvestres. Entretanto, os vereadores votaram a favor de uma moção para suspender o plano. O executivo camarário irá agora decidir se deve avançar, tendo um responsável pelo ambiente observado que seria moralmente errado ignorar uma mensagem tão clara. Algumas autarquias locais mais pequenas estão a organizar alternativas com voluntários ou cabras comunitárias. Fonte.
  • Steve Green: a ciclópica missão de remover barcos de fibra de vidro a apodrecer e a poluir a zona costeira da Cornualha. Fonte.
  • A Comissão Federal Reguladora de Energia multou a American Efficient, sediada em Durham, Carolina do Norte, em 722 milhões de dólares e ordenou que a empresa devolvesse mais de 410 milhões de dólares em lucros indevidos devido a alegadas fraudes no seu programa de eficiência energética. A FERC alega que a American Efficient ocultou informações essenciais aos operadores da rede elétrica, o que permitiu à empresa manipular os mercados de energia. Fonte.
  • Um juiz federal impediu a administração Trump de «aplicar uma série de políticas de licenciamento que, segundo grupos do setor da energia eólica e solar, têm entravado o desenvolvimento de novos projetos de produção de energia», informa a Reuters. De acordo com a agência noticiosa, o juiz «emitiu uma liminar, solicitada por nove grupos de defesa e associações comerciais do setor, que argumentaram que a administração tinha imposto obstáculos ilegais que paralisaram o desenvolvimento de projetos de energia eólica e solar em todo o país». Fonte.
  • «Cinco organizações ambientais estão a apresentar uma petição a um tribunal federal de recurso para que seja invalidada uma licença de qualidade da água emitida pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA para um controverso gasoduto da Transco.» Fonte.

BICO CALADO

  • Mais de mil artistas apelam a boicote da Eurovisão: "Branqueia genocídio". Fonte.
  • "(...) Lula da Silva está de visita a Portugal, uma honra para o País que moldou o seu, que lhe deixou a língua que nos une e o património histórico comum. Esperava-se dos portugueses o sentimento de regozijo por termos entre nós o presidente da maior democracia do continente americano, um homem que alia à dimensão afetiva e humanista verdadeira paixão por Portugal e uma genuína amizade pelo povo português. (...) Mas, há sempre um mas. Das sarjetas da política partidária, das alfurjas do salazarismo serôdio, saem marginais consumidos pelo ódio, movidos pelo ressentimento, tocados por um marginal, dispostos a insultar o homem que paira bem acima dos homúnculos que o 4.º Pastorinho arregimenta para aparecer nas televisões a grunhir impropérios. Os fascistas que saíram à rua, para insultar Lula da Silva, pretendem digerir a derrota de Orban na Hungria, a repugnância de Trump em todo o mundo, a náusea de Bolsonaro, o asco de Netanyahu e a memória dos regimes nazifascistas que os inspira. Há naqueles marginais uma sede de protagonismo que só a boçalidade e a coreografia lhes asseguram. Podia pensar-se que a manifestação contra a corrupção era contra o próprio Chega que pretende ocultar o nome dos financiadores, e era contra o presidente Lula, com gritos de apoio a Bolsonaro gritado em uníssono com brasileiros que o Chega quer reenviar para o Brasil. (...)" Carlos Esperança.
  • O recém-lançado relatório anual sobre a situação de direitos humanos no mundo diz que Portugal violou o direito humanitário ao permitir que os aviões F-35 vendidos pelos EUA a Israel aterrassem na Base das Lajes em abril de 2025.
  • Quem nos protege do Estado que protege o fascismo? Raquel Varela.
  • Uma empresa israelita incluída na lista negra da ONU devido às suas atividades na Cisjordânia arrecadou mais de mil milhões de dólares com o petróleo e o gás do Mar do Norte em apenas seis anos – e poderá vir a ganhar ainda mais se o campo de Rosebank for aprovado. Fonte.
  • O Mythos da Anthropic acaba de dar início a uma nova corrida ao armamento. Enrique Dans, Medium.

LEITURAS MARGINAIS

TRUMP, O DEUS
Chris Hedges, ScheerPost. Trad. O’Lima.
A forma como Trump se apresenta como Jesus, ou como alguém ungido por Jesus, é típica dos líderes de seitas.

Durante os dois anos que passei a escrever «American Fascists: The Christian Right and the War on America», deparei-me com inúmeros mini-Trumps. Estes autoproclamados pastores — muito poucos tinham qualquer formação religiosa formal — aproveitavam-se do desespero dos seus fiéis. Estavam rodeados de bajuladores e não podiam ser questionados. Misturavam factos com ficção, propagavam pensamentos mágicos e enriqueciam à custa dos seus seguidores. Afirmavam que a sua riqueza e estilo de vida ostentoso, incluindo mansões e jatos privados, eram um sinal de bênção. Insistiam que eram divinamente inspirados e ungidos por Deus. Dentro dos círculos herméticos das suas mega-igrejas, eram omnipotentes.

Estes pastores de seitas prometeram usar o seu poder absoluto para esmagar as forças demoníacas que tinham causado sofrimento na vida dos seus seguidores — desemprego e subemprego, despejos, falências, pobreza, dependência, abuso sexual e doméstico, e um desespero paralisante. Quanto mais poder os líderes das seitas possuem — segundo os seus seguidores —, mais certo é o paraíso prometido. Os líderes de seitas estão acima da lei. Aqueles que depositam desesperadamente a sua fé neles querem que eles estejam acima da lei.

Os líderes de seitas são narcisistas. Exigem adulação obsequiosa e obediência total. A afirmação do Secretário da Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., de que Donald Trump é capaz de traçar um «mapa perfeito» do Médio Oriente, ou a declaração da Secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, de que Trump é sempre a «pessoa mais culta na sala», são dois dos inúmeros exemplos da bajulação abjeta exigida por aqueles que fazem parte do círculo íntimo de um líder de culto. A lealdade cega importa mais do que a competência.

Os líderes de seitas são imunes a críticas racionais e baseadas em factos por parte daqueles que depositam esperança neles. É por isso que os seguidores mais fervorosos de Trump não o abandonaram e não o abandonarão. Toda a conversa sobre fissuras no universo MAGA interpreta mal os adeptos de Trump.

Todas as seitas são cultos de personalidade. São extensões dos preconceitos, da visão do mundo, do estilo pessoal e das ideias do líder da seita. Trump, com o seu falso «brasão Trump», deleita-se com um kitsch de mau gosto inspirado em Luís XVI, inundado de rococó dourado e lustres cintilantes. As mulheres da corte de Trump têm «rostos Mar-a-Lago» – lábios excessivamente inchados, pele esticada e sem rugas, implantes mamários cheios de gel de silicone e maçãs do rosto salientes, rematados por montes de maquilhagem. Usam saltos agulha e roupas berrantes que Trump considera atraentes. Os homens de Trump, que aos seus olhos devem ser telegénicos e saídos de um «casting central», vestem-se como executivos de publicidade dos anos 50. Calçam sapatos pretos Florsheim oferecidos por Trump, especificamente os Lexington Cap Toe Oxfords de 145 dólares.

Os cultos impõem códigos de vestuário que refletem o estilo e o gosto do líder do culto.

Os seguidores do guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh, também conhecido como Osho, vestiam túnicas vermelhas e laranjas, muitas vezes combinadas com uma camisola de gola alta e colares de contas. Os membros da Heaven’s Gate usavam ténis Nike Decade e calças de treino pretas. Os homens da Igreja da Unificação, conhecidos como Moonies, usavam camisas brancas impecáveis e calças de ganga passadas a ferro. As mulheres usavam vestidos. Pareciam estar a caminho da catequese.

Tal como Jim Jones, que convenceu ou obrigou mais de 900 dos seus seguidores — incluindo 304 crianças com 17 anos ou menos — a morrerem ao ingerirem uma bebida com cianeto, Trump está a promover agressivamente o nosso suicídio coletivo.

Trump descarta a crise climática como uma farsa. Retira-se unilateralmente de acordos e tratados sobre armas nucleares. Antagoniza potências nucleares, como a Rússia e a China. Lança guerras de forma impetuosa. Afasta e insulta os aliados dos EUA. Sonha em anexar a Gronelândia e Cuba. Abraça uma cruzada sagrada contra os muçulmanos. Ataca os seus adversários políticos como inimigos e traidores, menosprezando-os com insultos grosseiros. Corta programas sociais destinados a apoiar os mais vulneráveis. Expande um aparelho de segurança interna — capangas mascarados da Agência de Imigração e Alfândega (ICE) — para aterrorizar o público. As seitas não acolhem nem protegem. Elas subjugam, aniquilam e destroem.

Trump recorre às forças armadas dos EUA sem supervisão nem restrições. Por esta razão, preside ao que o psiquiatra Robert Jay Lifton designou como uma «seita destruidora do mundo». Lifton enumera oito características das «seitas destruidoras do mundo» que implantam o que ele denomina «ambientes totalitários».

Estas oito características são:

1. Controlo do ambiente. O controlo total da comunicação dentro do grupo.
2. Manipulação da linguagem. Utilizar a «linguagem do grupo» para censurar, editar e silenciar críticas ou ideias contrárias. Os seguidores devem repetir os clichés sem sentido aprovados por Trump e o jargão da seita.
3. Exigência de pureza. Uma visão do mundo do tipo «nós contra eles». Aqueles que se opõem ao grupo estão errados, são ignorantes e maléficos. São irremediáveis. São contaminantes. Devem ser erradicados. Qualquer ação é justificada para proteger esta pureza. O objetivo de todos os líderes de seitas é ampliar e tornar irreconciliáveis as divisões sociais.
4. Confissão: A confissão pública de erros passados. No caso dos apoiantes de Trump, isto inclui a renúncia, como fizeram o vice-presidente dos EUA JD Vance e outros, às críticas passadas a Trump, com a admissão pública do seu antigo pensamento errado.
5. Manipulação mística. A crença de que os membros do grupo foram especialmente escolhidos para um propósito superior. Quem faz parte do círculo de Trump age como se tivesse sido divinamente eleito. Convencem-se de que não são coagidos a aceitar as mentiras e vulgaridades de Trump — ou a repetir o jargão da seita —, mas que o fazem voluntariamente.
6. A doutrina acima da pessoa. A reescrita e a invenção da história pessoal para se adequar à interpretação de Trump da realidade.
7. Ciência sagrada. Os absurdos de Trump — as temperaturas globais estão a diminuir em vez de aumentar, o ruído das turbinas eólicas causa cancro e a ingestão de desinfetantes como o Lysol é um tratamento eficaz para o coronavírus — são apresentados como tendo fundamento científico. Esta patine científica significa que as ideias de Trump se aplicam a todos. Quem discorda não é científico.
8. Dispensa da existência. Os não membros são «seres inferiores ou indignos». Uma existência significativa significa fazer parte do culto de Trump. Aqueles que estão fora do culto são inúteis. Não merecem consideração moral.

Trump não difere dos líderes de seitas do passado, incluindo Marshall Herff Applewhite e Bonnie Lu Nettles — os fundadores da seita Heaven’s Gate —, o reverendo Sun Myung Moon — que liderou a Igreja da Unificação —, Credonia Mwerinde — que liderou o Movimento para a Restauração dos Dez Mandamentos de Deus no Uganda — Li Hongzhi — o fundador do Falun Gong — e David Koresh, que liderou a seita Branch Davidian em Waco, Texas.

Os líderes de seitas são profundamente inseguros, razão pela qual reagem com fúria à mais leve crítica. Eles mascaram essa insegurança com crueldade, hipermasculinidade e grandiosidade bombástica. São paranóicos, amorais, emocionalmente incapacitados e fisicamente abusivos. Aqueles que os rodeiam, incluindo crianças, são objetos a serem manipulados para o seu enriquecimento, prazer e, muitas vezes, entretenimento sádico.

As seitas caracterizam-se pela pedofilia e pelo abuso sexual. Aqueles que frequentavam o círculo do pedófilo Jeffrey Epstein, incluindo Trump, replicaram o abuso endémico nas seitas.

‘As crianças do Templo do Povo eram frequentemente vítimas de abuso sexual’, escreve Margaret Singer em ‘Cults In Our Midst: The Continuing Fight Against Their Hidden Menace’. ‘Enquanto o grupo ainda se encontrava na Califórnia, raparigas adolescentes com apenas quinze anos eram obrigadas a ter relações sexuais com pessoas influentes cortejadas por Jones. Um supervisor das crianças em Jonestown tinha antecedentes de abuso sexual infantil, e o próprio Jones agrediu algumas das crianças. Se maridos e esposas fossem apanhados a conversar em privado durante uma reunião, as suas filhas eram obrigadas a masturbar-se em público ou a ter relações sexuais com alguém de quem a família não gostava, perante toda a população de Jonestown, tanto crianças como adultos.’

As seitas, escreve Singer, são ‘um espelho do que está dentro do líder da seita’.

‘Ele não tem quaisquer restrições’, escreve ela sobre o líder da seita: ‘Ele consegue dar vida às suas fantasias e desejos no mundo que cria à sua volta. Consegue levar as pessoas a fazerem o que ele quer. Consegue tornar o mundo que o rodeia verdadeiramente o seu mundo. O que a maioria dos líderes de seitas consegue é semelhante às fantasias de uma criança a brincar, criando um mundo com brinquedos e objetos. Nesse mundo de brincadeira, a criança sente-se omnipotente e cria um reino próprio por alguns minutos ou algumas horas. Ela move as bonecas de brincar. Elas cumprem as suas ordens. Repetem as suas palavras. Ela castiga-as como bem entender. Ela é todo-poderosa e dá vida à sua fantasia. Quando vejo as mesas de areia e as coleções de brinquedos que alguns terapeutas infantis têm nos seus consultórios, penso que um líder de culto deve olhar à sua volta e colocar pessoas no mundo que criou, tal como a criança cria na mesa de areia um mundo que reflete os seus desejos e fantasias. A diferença é que o líder de culto tem seres humanos reais a cumprir as suas ordens, enquanto cria à sua volta um mundo que brota do interior da sua própria cabeça.’

A linguagem do líder de culto baseia-se na confusão verbal. Mentiras, teorias da conspiração, ideias bizarras e declarações contraditórias, muitas vezes proferidas na mesma declaração ou com apenas alguns minutos de intervalo, paralisam aqueles que tentam analisar o líder de culto de forma racional. O absurdo é o objetivo. O líder de culto não leva a sério as suas próprias declarações. Muitas vezes, nega tê-las proferido, apesar de estarem documentadas. Mentiras e verdades são irrelevantes. O líder da seita não procura transmitir informação ou verdade. O líder da seita procura apelar às necessidades emocionais dos membros da seita.

‘Hitler manteve os seus inimigos num estado de constante confusão e agitação diplomática’, escreveu Joost A.M. Meerloo em ‘The Rape of the Mind: The Psychology of Thought Control and Menticide’. ‘Eles nunca sabiam o que este louco imprevisível iria fazer a seguir. Hitler nunca foi lógico, porque sabia que era isso que se esperava dele. A lógica pode ser combatida com lógica, enquanto a ilógica não pode — ela confunde aqueles que pensam com clareza. A Grande Mentira e o disparate repetido monotonamente têm mais apelo emocional numa guerra fria do que a lógica e a razão. Enquanto o inimigo ainda procura um contra-argumento razoável para a primeira mentira, os totalitários podem atacá-lo com outra.’

Não importa quantas mentiras proferidas por Trump sejam meticulosamente documentadas. Não importa que Trump tenha usado a presidência para enriquecer cerca de 1,4 mil milhões de dólares ao longo do último ano, segundo a Forbes. Não importa que ele seja incompetente, preguiçoso e ignorante. Não importa que ele tropece de um desastre para outro, desde as tarifas até à guerra contra o Irão.

O sistema tradicional, cuja credibilidade foi destruída devido à sua traição à classe trabalhadora e à sua subserviência à classe bilionária e às corporações, tem pouco poder sobre os apoiantes de Trump. O seu sarcasmo apenas aumenta a popularidade dele. Os cultos políticos são os filhos bastardos de um liberalismo falhado. A taxa de aprovação de Trump pode estar em cerca de 40 por cento, a 20 de abril — de acordo com uma média de várias sondagens compiladas pelo The New York Times — mas a sua base permanece inabalável.

O Partido Democrata, em vez de mudar de rumo para abordar a desigualdade social e o abandono da classe trabalhadora — que ajudou a orquestrar —, optou pelos cortes fiscais como caminho para recuperar o poder. Mais uma vez, reduzirá a nossa crise social, económica e política à personalidade de Trump. Não proporá quaisquer reformas para corrigir a nossa democracia falhada. Isto é um presente para Trump e os seus seguidores. Ao recusarem-se a reconhecer a responsabilidade pela desigualdade e ao proporem programas para amenizar o sofrimento que ela causou, os democratas envolvem-se no mesmo tipo de pensamento mágico que os seguidores de Trump.

Não há saída para esta disfunção política, a menos que surjam movimentos populares para paralisar a máquina do governo e do comércio em nome de um público traído. Mas o tempo está a esgotar-se. Trump e os seus capangas estão decididos a invalidar ou cancelar as eleições intercalares se perceberem que vão ser derrotados. Se isso acontecer, o culto a Trump será inatacável.

terça-feira, 21 de abril de 2026

PRÉMIOS GOLDMAN 2026

  • Vencedores do Prémio Ambiental Goldman de 2026: Sarah Finch e o Weald Action Group lideraram uma campanha contra a exploração petrolífera no sudeste de Inglaterra durante mais de uma década, perseverando ao longo de cinco anos de disputas judiciais cada vez mais acirradas contra um projeto de exploração petrolífera em Surrey, até que a coligação conseguiu uma decisão do Supremo Tribunal, em junho de 2024, que finalmente obrigou ao seu encerramento; Em nome de 15 nações tribais, Yup’ik Alannah Acaq Hurley liderou uma campanha que impediu a concretização do megaprojeto da mina de cobre e ouro Pebble, na região da Baía de Bristol, no Alasca; A ativista Borim Kim e a sua organização, Youth 4 Climate Action, venceram o primeiro processo judicial sobre o clima liderado por jovens na Ásia. Em agosto de 2024, o Tribunal Constitucional da Coreia do Sul considerou que a política climática do governo violava os direitos constitucionais das gerações futuras, determinando a criação de metas de redução de emissões juridicamente vinculativas para o período de 2031 a 2049, a fim de cumprir o compromisso do país de atingir emissões líquidas nulas até 2050; Yuvelis Morales Blanco ajudou a mobilizar a sua comunidade em Puerto Wilches contra dois importantes projetos de perfuração, impedindo com sucesso a introdução da fraturação hidráulica comercial na Colômbia. Em 2022, a maior empresa petrolífera do país, a Ecopetrol, suspendeu os seus contratos relativos ao projeto-piloto de fraturação hidráulica; Theonila Roka Matbob liderou uma campanha bem-sucedida que levou a Rio Tinto, a segunda maior empresa mineira do mundo, a assinar, em novembro de 2024, um memorando de entendimento histórico para fazer face à devastação ambiental e social causada pela sua mina de Panguna, há muito inativa; Depois de redescobrir o morcego-de-cauda-curta-e-orelhas-redondas, uma espécie em perigo de extinção, na Nigéria, Iroro Tanshi identificou os incêndios florestais provocados pelo homem como a principal ameaça à espécie e lançou uma campanha bem-sucedida para proteger o seu refúgio, o Santuário de Vida Selvagem da Montanha Afi. Entre o início de 2022 e maio de 2025, ela e as brigadas de incêndio da sua comunidade impediram a ocorrência de incêndios florestais graves dentro e nos arredores do santuário, patrulhando milhares de quintas e respondendo eficazmente a mais de 70 focos de incêndio, salvaguardando as comunidades, as florestas e o frágil habitat do morcego.
  • Grupos ambientalistas entraram com uma ação judicial contra a administração Trump devido à aprovação do novo e gigantesco projeto de perfuração petrolífera em águas ultraprofundas da BP no Golfo do México, 16 anos depois do dia em que o desastre da Deepwater Horizonda mesma empresa, causou o pior derrame de petróleo da história dos EUA. Fonte.
  • As grandes petrolíferas investem milhares de milhões em locais de perfuração remotos para escapar à agitação no Irão. A Exxon apresentou um plano para investir até 24 mil milhões de dólares nos campos petrolíferos em águas profundas da Nigéria, enquanto a Chevron expandiu a sua presença na Venezuela. A BP adquiriu participações em blocos petrolíferos ao largo da costa da Namíbia e a TotalEnergies assinou um acordo de exploração com a Turquia. Fonte.
  • O que a OCDE ainda não conseguiu dizer sobre os incêndios em Portugal. O relatório final chega quase ao ponto. Depois pára, e deixa de fora o eucalipto, a celulose e a monocultura que fabricou a paisagem que arde. Ricardo Meireles.

BICO CALADO

  • “Em março de 2019, antes da fundação do Chega, o ‘número dois’ de Ventura por Lisboa nas legislativas de 2022 e presidente da comissão de éticado partido. Foi alvo de uma ação judicial em Santarém por parte da ex-mulher. Em causa, o incumprimento das responsabilidades parentais relativas ao filho menor, com necessidades especiais. Fontes judiciais e familiares próximas da queixosa, enfermeira, alegavam que o antigo sócio de empresas tecnológicas e da sociedade agrícola Villabosque fez depender da conquista de um cargo político remunerado o pagamento integral da pensão de alimentos. Enquanto isso, tentou reduzi-la de 425 euros para 50 euros mensais. Em novembro de 2020, Rui Paulo Sousa, que já falhara pagamentos e despesas médicas, descreveu ao tribunal a sua alegada - e precária - situação laboral: falou dos prejuízos na Villabosque, disse viver em casa da mulher e depender dela para o pagamento de despesas pessoais. Garantiu ainda que não recebia ordenado no Chega: «O partido paga despesas de deslocação no âmbito das campanhas eleitorais e relativas à comitiva do presidente, da qual tenho feito parte.» No final de 2020, Rui Paulo Sousa reforçou, perante o tribunal, as suas expectativas em relação ao partido: «a longo prazo» contava conquistar um cargo político e, aí sim, obteria alguma remuneração. Porém, para que tal se concretizasse, teria de vencer as eleições autárquicas em 2021. Candidato à Câmara de Castelo Branco, o dirigente não foi sequer eleito vereador. Sem vencimento e, a dada altura, apenas a receber o subsídio de desemprego de pouco mais de 765 euros, o agora deputado propusera-se recorrer à conta bancária conjunta com o filho, para onde ele e a sua família transferem dinheiro, para o pagamento da pensão de alimentos. No final de 2020, o saldo da mesma era superior a 18 mil euros. A ex-mulher contestou: tal significaria pagar a pensão com o dinheiro do próprio filho. Vai daí, transferiu o dinheiro para outra conta em nome da criança, movimentada a crédito, como ‘forma de salvaguardar o património do menor’ e precaver-se. Acusou ainda o ex-marido de enganar o tribunal sobre a sua real situação financeira. Segundo ela, Rui Paulo Sousa vendera a quota numa empresa informática por 200 mil euros e recebera subsídios públicos superiores a 300 mil euros em nome da Villabosque, de que era sócio-gerente. O diferendo solucionou-se no final de 2022. O deputado já tinha o tal cargo político remunerado que almejava. Exercido em exclusividade, garantia mais de 4000 euros mensais ilíquidos. Apresentou-se em tribunal e aceitou devolver, com juros, o dinheiro retirado da conta do filho.” Miguel Carvalho, Por dentro do Chega – Penduin/Objectiva 2025 – pp 594-59
 
  • Investigação secreta revela que uma instituição de caridade promovia como «fantásticos» os colonatos ilegais e alegava poder beneficiar de subsídios fiscais do Reino Unido. Fonte.
  • Um soldado israelita filmou-se a destruir uma estátua de Jesus Cristo numa aldeia no sul do Líbano, num incidente que suscitou uma condenação generalizada e que foi posteriormente reconhecido pelo exército israelita. Na sequência do incidente, o exército afirmou estar a «conduzir uma investigação», mas não forneceu detalhes claros sobre as circunstâncias nem indicou quaisquer medidas concretas para a responsabilização dos envolvidos. Fonte.
  • Documentos orçamentais revelam que o Departamento de Segurança Interna está a desenvolver óculos inteligentes especializados que permitirão aos agentes federais nas ruas americanas identificar automaticamente «estrangeiros em situação irregular» à distância. Estes novos «ICE Glasses», baseados em modelos já existentes que permitem a gravação de vídeo e a exibição de dados no campo de visão, serão capazes de aceder a vastos bancos de dados biométricos federais — desde o reconhecimento facial até ao modo de andar — para identificar pessoas em tempo real. Fonte.
  • O líder do Reform UK, Nigel Farage, é o deputado mais bem pago do Parlamento. Em menos de dois anos como deputado por Clacton, Farage acumulou 2 milhões de libras em rendimentos pessoais e presentes, para além do seu salário parlamentar anual de 94 000 libras. Fonte.
  • Massacre de Lisboa de 1506. Carlos Esperança, Ponte Europa.

sábado, 18 de abril de 2026

COIMBRA: ALTERAR O PDM PARA CONSTRUIR MAIS 30% EM ZONAS RIBEIRINHAS?

  • A Câmara Municipal de Coimbra quer aprovar uma proposta de suspensão parcial do PDM por dois anos, para responder à transformação estrutural que a cidade enfrenta, com a chegada de grandes investimentos na mobilidade, e à pressão crescente sobre o mercado da habitação. A proposta foi debatida numa sessão pública organizada pela autarquia. Fonte.
  • O governo abandona a Reserva Natural das Berlengas, acusa o Sindicato Independente dos Trabalhadores da Floresta, Ambiente e Proteção Civil (SinFAP). Os Vigilantes da Natureza não dispõem de condições mínimas para garantir a proteção eficaz desta área classificada, património natural de importância nacional e internacional. A habitação de serviço existente na ilha não reúne condições de habitabilidade dignas, comprometendo a permanência dos profissionais no território. Paralelamente, os meios operacionais essenciais encontram-se inoperacionais ou inexistentes. Fonte.
  • A GNR identificou dois homens, na Murtosa, por alegada descarga ilegal de resíduos, incluindo componentes eletrónicos, plásticos, fragmentos de placas de circuito eletrónico e vidro triturado. Fonte.
Ribeira de Silvalde, Espinho. Foto: Zé Quinta, 4mai2019
  • Consulta pública até 18 de maio: PRO~RIOS 2030 - Restauro Ecológico de Rios e RibeirasO restauro ecológico dos rios tem por objetivo recuperar a funcionalidade natural dos sistemas fluviais, travar a perda de habitats e espécies, reduzir a vulnerabilidade a cheias e secas, reforçar a adaptação climática e valorizar os territórios, contribuindo para uma gestão dos recursos hídricos mais resiliente, eficiente e inteligente, alinhada com os compromissos nacionais e europeus. Foi desenvolvido um dashboard PRO~RIOS, enquanto instrumento de monitorização e disseminação de conhecimento, disponível em https://proriosgeo.apambiente.pt .

GIGANTES TECNOLÓGICAS VEDAM ACESSO PÚBLICO A DADOS AMBIENTAIS SOBRE CENTROS DE DADOS

  • As gigantes tecnológicas Microsoft, Amazon, Google, Meta exerceram pressão com sucesso para que fosse introduzida uma cláusula de confidencialidade na legislação da UE, impedindo o acesso do público a dados ambientais essenciais relativos a centros de dados específicos. Especialistas jurídicos alertaram que a cláusula viola a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e a Convenção de Aarhus (um tratado internacional sobre o acesso à informação ambiental), considerando tratar-se de uma violação excecional e flagrante dos princípios de transparência. Apenas os dados gerais, a nível nacional, são públicos. As comunidades afetadas, os académicos e os jornalistas não têm acesso ao impacto preciso de cada instalação. Atualmente, apenas 36 % dos centros de dados elegíveis apresentaram relatórios, e apenas 80 % desses dados são considerados precisos. A UE vai triplicar a capacidade dos centros de dados com um investimento de 176 mil milhões de euros ao longo de cinco anos, o que suscita preocupações quanto ao consumo de energia, ao consumo de água, à poluição e aos impactos nas comunidades. Fonte.
  • A Petrobras realizou a sua Assembleia Geral Ordinária. Enquanto acionistas aprovavam a distribuição de R$ 41,23 biliões em dividendos e elegiam membros do conselho de administração, organizações da sociedade civil protestaram em frente ao prédio onde se realizava a reunião, no Centro do Rio de Janeiro, exigindo uma transição energética justa, Justiça Climática e o fim da exploração de petróleo na Amazônia. Os manifestantes lembraram o do vazamento de fluido ocorrido na perfuração do poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas, em janeiro. E também destacaram que, enquanto a Petrobras lucra muito com combustíveis fósseis – a empresa teve lucro líquido de mais de R$ 110 bilhões em 2025 -, a sociedade fica com o prejuízo, sofrendo os efeitos de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e intensos devido às mudanças do clima, causadas principalmente pela queima de petróleo, gás e carvão. Fonte.

REFLEXÃO

PAINÉIS SOLARES ESTÃO A PROVOCAR CHUVAS NUM DOS LOCAIS MAIS SECOS DO PLANETA
Efosa Udinmwen, TechRadar. Trad. O’Lima.


Nos Emirados Árabes Unidos, onde a água é mais valiosa do que o petróleo, uma nova investigação sugere que os grandes parques solares podem provocar as suas próprias tempestades.

Um estudo de modelação liderado pelo cientista climático Oliver Branch, da Universidade de Hohenheim, descobriu que os painéis solares escuros absorvem mais calor do que a areia refletora do deserto circundante.

Esta diferença de temperatura gera correntes ascendentes que podem provocar chuva, fornecendo potencialmente água a dezenas de milhares de pessoas.

Os investigadores modelaram os painéis solares como superfícies quase negras que absorvem 95% da luz solar incidente.

Quando os parques solares ultrapassavam os 15 quilómetros quadrados, o aumento do calor contrastava fortemente com a areia refletora à sua volta, intensificando as correntes ascendentes que impulsionam a formação de nuvens, mas é necessária uma fonte de humidade atmosférica.

No entanto, o modelo demonstrou que os ventos húmidos de alta altitude provenientes do Golfo Pérsico seriam suficientes.

Um parque solar de 20 quilómetros quadrados aumentaria a precipitação em quase 600 000 metros cúbicos nas condições certas. Se essas tempestades ocorressem dez vezes num verão, forneceriam água suficiente para mais de 30 000 pessoas durante um ano.

«Algumas centrais solares estão a atingir a dimensão adequada neste momento… Talvez não seja ficção científica conseguirmos produzir este efeito», afirmou Branch.

Uma limitação é que os painéis solares simulados eram mais escuros do que a maioria dos fabricados atualmente, uma vez que alguns painéis solares modernos são concebidos para serem refletores, de modo a arrefecer o ambiente circundante, o que reduziria o efeito de produção de chuva.

Zhengyao Lu, cientista climático da Universidade de Lund, considerou o novo trabalho «muito estimulante», mas manifestou esta preocupação.

Branch acredita que a ideia possa ser testada no mundo real, salientando que os parques solares que estão a entrar em funcionamento na China têm dimensões quase suficientes.

Ele sugere o plantio de culturas escuras e resistentes à seca, como arbustos de jojoba, entre as linhas de painéis para potenciar o efeito.

Os Emirados Árabes Unidos financiaram a investigação de modelação de Branch, mas o país continua empenhado no seu programa de semeadura de nuvens, realizando aproximadamente 300 missões por ano.

Isto implica que as autoridades locais ainda não estão convencidas de que a precipitação induzida pela energia solar seja uma alternativa prática.

Segundo Branch e a sua equipa, este modelo poderia funcionar noutras regiões áridas, incluindo a Namíbia e a Península da Baixa Califórnia, no México.

Se futuras investigações validarem estas conclusões, o potencial de produção de chuva dos parques solares poderá proporcionar um incentivo inesperado para a expansão das energias renováveis nas regiões mais secas do mundo.

BICO CALADO

  • A TVI protege a patroa. A menina de Loures que se aguente. Jacinto Furtado.
  • Os incêndios florestais de 2025 na região de Los Angeles, que obrigaram mais de 200 000 pessoas a abandonar as suas casas, tiveram um impacto desproporcionalmente grave nas pessoas que já viviam em situação de sem-abrigo. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O QUE O SISTEMA 'VOLTA' NÃO EXPLICA SOBRE O PLÁSTICO
Ricardo Meireles, Substack.


A 10 de abril de 2026, o sistema Volta entrou em funcionamento em Portugal. As máquinas azuis instalaram-se nos supermercados, há uma caução de dez cêntimos por garrafa ou lata e o Governo apresentou a iniciativa como uma reforma estrutural da política ambiental. A SDR Portugal, um consórcio que reúne os principais produtores de bebidas e retalhistas do país e gestora do sistema, resumiu a promessa numa frase que consta tanto do comunicado oficial do Governo como dos materiais de comunicação da marca: “uma garrafa pode voltar a ser uma garrafa, uma lata pode voltar a ser uma lata.”

Será verdade para os dois materiais?

O que a frase promete

A ideia central do sistema Volta assenta num princípio de economia circular: as embalagens devolvidas seguem para centros de triagem em Lisboa e no Porto, são enviadas para recicladores, e o material resultante serve para fabricar novas embalagens. A garrafa fecha o ciclo e regressa às prateleiras. O plástico PET que hoje contém água mineral será, depois de processado, o plástico PET que amanhã voltará a conter água mineral.

Este modelo existe e tem um nome técnico: reciclagem em circuito fechado. O alumínio faz isso. O plástico, na maioria dos casos, não, e a razão está na física dos dois materiais.

Três ciclos muito diferentes

Uma nota antes de avançar: a reutilização, o modelo das garrafas de vidro lavadas e reenchidas, está fora de questão para o plástico. O vidro é um material inerte e impermeável, que suporta ciclos repetidos de lavagem a alta temperatura sem absorver contaminantes nem alterar as suas propriedades. O plástico PET é poroso a nível molecular e absorve resíduos do conteúdo anterior, odores e compostos químicos que os processos de lavagem convencional não eliminam. Por isso, o próprio FAQ da Volta classifica as garrafas abrangidas pelo sistema como "embalagens de bebidas não reutilizáveis." Uma garrafa de plástico é sempre triturada. Nunca é lavada e reenchida.

Antes de avaliar a promessa, é preciso perceber que existem três processos completamente distintos a que chamamos, de forma imprecisa, “reciclagem”.

O primeiro é a reutilização, o modelo que conhecemos das garrafas de vidro com depósito. A garrafa volta ao circuito, é lavada, desinfectada e enchida de novo. É a mesma garrafa. Não há transformação do material, não há degradação. É o ciclo mais perfeito que existe, mas não é possível para o plástico.

O segundo é a reciclagem mecânica simples do PET. A garrafa é triturada em flocos, lavada, fundida e reprocessada em pellets. O problema é químico: o PET é um polímero que absorve humidade, e a cada ciclo de fusão a reacção com a água degrada as cadeias moleculares do polímero. A qualidade diminui. Com este processo, uma garrafa aguenta dois a três ciclos antes de já não ter qualidade suficiente para voltar a ser garrafa. A maioria acaba em fibra têxtil ou tapete, entre outros. É o downcycling, em português uma espécie de reciclagem descendente. O material não desaparece, mas desce progressivamente na escala de qualidade.

William McDonough e Michael Braungart, autores de Cradle to Cradle, a obra de referência da economia circular, são directos a explicar: “a maior parte da reciclagem é na verdade downcycling, porque reduz a qualidade ao longo do tempo.” A afirmação foi publicada num estudo científico da revista MDPI sobre reciclagem de PET garrafa-para-garrafa precisamente para ser posta à prova.

O terceiro processo, mais sofisticado, adiciona uma etapa chamada Solid State Polycondensation, que reconstrói as cadeias moleculares após a fusão e restaura a qualidade do material para valores próximos do PET virgem. É tecnicamente reciclagem garrafa-para-garrafa, e é o processo que permite produzir rPET (plástico PET reciclado) de grau alimentar, apto para voltar a ser embalagem de contacto com alimentos.

A SDR Portugal afirma que o material produzido pelo sistema Volta será “adequado para contacto alimentar”, o que aponta para este terceiro processo. Mas no FAQ oficial da Volta, à pergunta directa sobre o que acontece às embalagens depois de devolvidas, a resposta é: “são enviadas para recicladores para se transformarem em novos materiais.” Sem referência ao processo técnico, sem identificação dos recicladores, sem menção ao tipo de reciclagem utilizado. E mesmo que o processo mais avançado seja efectivamente utilizado, exige mistura com PET virgem e não é comparável à reciclagem contínua do alumínio ou do vidro.

O que diz quem conhece o setor

Fonte ligada à industria do plástico granulado em Portugal, consultada para este artigo, confirma à Estação Agroflorestal que existe no país capacidade instalada para fazer reciclagem mecânica de PET com grau alimentar. O modelo é garrafa-para-garrafa: a embalagem entra, é triturada, lavada, descontaminada e sai como granulado rPET apto para voltar a ser embalagem de contacto alimentar. A mesma fonte refere que este material vale no mercado o dobro do rPET comum, o que torna este processo o mais interessante economicamente para os operadores.

A promessa da Volta é, portanto, tecnicamente possível, pelo menos nos primeiros ciclos. A cada vez que o plástico é fundido e reprocessado, as cadeias moleculares encurtam e o material perde qualidade. Ao fim de poucos ciclos, o PET já não reúne as propriedades necessárias para voltar a ser garrafa e segue para aplicações de menor valor: fibra têxtil, tapete, enchimento, ou incorporação em alcatrão para pavimento de estradas, onde o PET reciclado é usado como substituto parcial do betume.

A literatura científica documenta que estes pavimentos libertam microplásticos por desgaste mecânico, que as águas pluviais arrastam para os sistemas de drenagem, depois para os rios e finalmente para os oceanos, onde contaminam as cadeias alimentares e os ecossistemas. O plástico não desaparece. Muda de forma até deixar de ser visível.

Para a lata de alumínio, a promessa da Volta é legítima. O alumínio é um metal, e os metais têm uma propriedade que os plásticos não têm: a sua estrutura atómica permite que sejam fundidos e reformados repetidamente sem alteração das suas propriedades fundamentais. Não há degradação química. Não há downcycling. Uma lata pode efectivamente tornar-se outra lata, que pode tornar-se outra lata ainda, indefinidamente.

Uma frase, dois materiais, duas realidades

A SDR Portugal e o Governo português repetem, em comunicados e apresentações públicas, que o sistema Volta permite que uma garrafa volte a ser uma garrafa e uma lata volte a ser uma lata. A frase trata dois materiais como equivalentes. Não são.

Para o alumínio, a frase descreve um processo que existe e funciona. Para o plástico PET, descreve uma aspiração que depende de tecnologia específica que o sistema Volta não confirma utilizar, e que mesmo no melhor cenário não é infinita depende sempre de uma parte de matéria-prima virgem.

Uma nota sobre o modelo económico do sistema: Segundo a mesma fonte consultada, o rPET de grau alimentar vale no mercado o dobro do rPET comum. É plausível que a valorização deste material seja uma das alavancas que torna financeiramente sustentável pagar dez cêntimos por cada garrafa devolvida. Não há documentos públicos da SDR que confirmem este mecanismo, mas a lógica económica parece apontar nesse sentido.

O sistema Volta pode aumentar significativamente a recolha de embalagens de plástico, o que já seria um avanço real. Mas recolher mais plástico não é o mesmo que fechar o ciclo.

Apresentar garrafa de plástico PET e lata de alumínio como um ciclo único e simétrico, unidos na mesma frase pelo sistema Volta e pelo Governo português, ignora o que a ciência da reciclagem documenta sobre o comportamento destes dois materiais. É #AreiaParaOsOlhos.

Valerá a pena confrontar com esta perspetiva diferente.