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sexta-feira, 12 de junho de 2026

REINO UNIDO: EDF ENERGY QUER MAIS DINHEIRO PARA PROLONGAR VIDA DE CENTRAL NUCLEAR DE SIZEWELL B

  • A filial britânica da EDF afirmou que a prolongação da vida útil da sua central nuclear de Sizewell B é tecnicamente viável, e que para tal estava em curso negociações com o governo do Reino Unido para viabilizar o investimento necessário. A EDF e a Centrica, que detém uma participação de 20 % nas centrais nucleares, pretendem que as suas centrais AGR restantes continuem em funcionamento, pelo menos até 2030. O investimento necessário para tal ascenderia a 1,2 mil milhões de libras nos próximos três anos. Fonte.
  • Será que o governo pretende finalmente proteger o oceano? Anunciou que três áreas marinhas protegidas – nas Terras Austrais e Antárticas Francesas, na Guadalupe e na baía de Audierne – iriam ser colocadas sob «proteção rigorosa». Mas trata-se apenas de um golpe de comunicação, considera François Chartier, da Greenpeace França. «Esta proteção forte não tem uma definição concreta e não se sabe quais as atividades que serão efetivamente proibidas nessas zonas.» Fonte

BICO CALADO

Foto: Anadolu/Getty Images
  • “Ao descalabro a que chegou a minha federação do Partido Socialista de COIMBRA . Era uma das maiores federações a nível nacional,onde o pluralismo e a discussão política eram vivíssimas e altamente enriquecedora . (…) Lá fui, apesar da minha idade, fazer 160 kms, ciente de que o Partido e a Democracia estão sobre grave ameaças tentando com os meus camaradas obriga-los a refletirem sobre as ameaças e como defronta-las. Pura desilusão,estavam presentes contando com a mesa 20 militantes do Partido. (…) Após tanta promiscuidade e descrédito a que chegou a minha Federação de que tui o principal fundador e dinamizador,resolvi denunciar esta situação insustentável ao Secretário Geral. Ele em vez de tomar medidas urgentes de repor a legalidade democrática refugiou-se,dizendo que era um assunto interno. Não é um assunto interno, é um precedente gravíssimo que até envolve um membro da direção do secretariado nacional useiro e vezeiro na promiscuidade política. São valores e princípios violados que a ética obriga a denunciar publicamente em defesa de uma Democracia responsável e transparente. Sem Partidos responsáveis não há Democracia que resista.” António Campos.
  • Enquanto Filadélfia se prepara para receber o Campeonato do Mundo de Futebol, as pessoas sem-abrigo estão a ser desalojadas em nome da embelezamento» da cidade. «Eles preferem que a gente desapareça antes que os turistas cheguem», denunciam. Fonte.
  • Os invasores estrangeiros estão a destruir a Irlanda... e não são de pele morena. Homens mascarados invadem casas, incendeiam-nas e expulsam os estrangeiros nas mesmas ruas onde, há cinquenta anos, os «Shankill Butchers» assassinavam católicos por diversão, mas parece que ninguém se lembra disso. Deaglan O'Mulrooney, Substack.
  • 88 empresas que não pagaram imposto sobre o rendimento federal nos EUA em 2025 gastaram 852 milhões de dólares em atividades recentes de lóbi e eleições. «O resultado», afirmou o autor de uma nova análise da Public Citizen, «é um ciclo vicioso em que o dinheiro das empresas compra políticas, e as políticas, por sua vez, geram lucros para as empresas.» Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

E SE ESTE MUNDIAL NUNCA TIVESSE ACONTECIDO?
Ricky Lanusse, Medium. Rev. O’Lima.


O avião proveniente de Joanesburgo aterra no Cairo nos primeiros dias de abril e, algures entre a ponte de embarque e a sala de trânsito, alguém da delegação eritreia começa a contar as pessoas. A equipa acaba de alcançar o maior feito futebolístico do país em quase duas décadas: uma vitória por 4–1 no total das duas mãos sobre Eswatini, que coloca a Eritreia nas eliminatórias de grupos da Taça das Nações Africanas pela primeira vez desde 2006. A contagem pára no número errado. Sete jogadores desapareceram. O guarda-redes Kibrom Solomon. O médio veterano Medhane Redie. Um segundo guarda-redes, três defesas, um avançado. Dos dez jogadores que jogam no país e que partiram de Asmara, apenas três regressam: o capitão, um médio e um avançado. Os restantes desapareceram durante a escala na África do Sul, trocando a maior vitória das suas carreiras por uma oportunidade de uma vida que os seus passaportes nunca lhes iriam proporcionar.

Em Asmara, o governo cancela as celebrações previstas. A comunicação social estatal não diz nada. As fotos da receção no Cairo circulam na mesma, e é possível contar as ausências nelas como se fossem dentes em falta.

O futebol eritreu já viu este filme antes. Jogadores desapareceram em Angola em 2007, no Quénia em 2009, no Botsuana em 2015, no Uganda em 2019, até que o governo simplesmente deixou de permitir que as equipas viajassem. A ONU estima que, ao longo de vinte anos, cerca de 80 jogadores, treinadores e dirigentes tenham usado um jogo como porta de saída. Por trás deste número está um país onde o serviço militar não tem data de fim e onde o presidente, no poder desde 1993, rejeita os relatórios sobre direitos humanos como fantasia.

A maioria das pessoas encarou o caso dos sete como uma notícia triste: um escândalo de um país pequeno que se lê, se abana a cabeça e se continua a percorrer a página. Eu vi outra coisa. Apenas dois meses depois, o maior Mundial de sempre está prestes a começar nos EUA, no Canadá e no México, e o desaparecimento deles começa a parecer menos um embaraço e mais um ensaio geral.

Eles encontraram o único ponto de pressão contra o qual o futebol moderno ainda não sabe como se defender: os jogadores, tal como os gladiadores no Coliseu Romano, podem simplesmente ir-se embora e deixar o César sem nada para entreter e distrair as multidões.

O torneio começa na fronteira

As autoridades norte-americanas voltaram a analisar a autorização de viagem de Breel Embolo poucas horas antes do voo da Suíça partir de Zurique, e a equipa parte para a Califórnia sem o seu avançado titular. Enquanto os seus colegas treinam em San Diego, Embolo fica na embaixada em Berna, a ver os funcionários a vasculhar os registos judiciais de uma briga ocorrida em 2018, antes de o liberarem três dias depois.

O avançado iraquiano Aymen Hussein aterra no aeroporto O’Hare, em Chicago, e desaparece para um interrogatório de cerca de sete horas, durante o qual o seu telemóvel é examinado, antes de os agentes o deixarem entrar no país onde é suposto marcar golos.

Os futebolistas do Irão passam dias a lidar com os trâmites de visto no consulado dos EUA na Turquia, onde os funcionários consulares rejeitam de imediato parte da delegação, para depois verem os anfitriões cancelarem a sua quota de bilhetes dias antes do jogo de estreia. Meses antes, a federação tinha boicotado o sorteio em Washington depois de os EUA terem recusado a entrada aos seus dirigentes. Agora, a equipa estabeleceu-se em Tijuana e irá atravessar a fronteira para os seus próprios jogos do Mundial, sendo depois obrigada a deixar o país. Uma seleção nacional tratada como mão-de-obra temporária.

Omar Abdulkadir Artan, eleito o Melhor Árbitro da CAF de 2025, prestes a tornar-se o primeiro árbitro somali na história do Mundial, voa para Miami com o seu passaporte diplomático, e os agentes fronteiriços recambiam-no, rejeitado. A FIFA confirma que ele não vai arbitrar, explica que «a FIFA não está envolvida nos processos de imigração do país anfitrião» e segue em frente. O presidente Infantino, que passa a vida diante das câmaras a repetir que a FIFA e o futebol unem o mundo, não diz absolutamente nada sobre ele.

A delegação da África do Sul chega atrasada porque alguns dos seus membros não conseguiram obter vistos, e o próprio ministro do Desporto do país afirma indignado que «estão a fazer-nos passar por tolos». Os agentes fronteiriços ordenam à equipa técnica do Senegal que tire os sapatos na pista e se submeta a revistas demoradas; os jogadores do Uzbequistão só chegam ao estádio depois de os cães farejadores de bombas terem terminado a inspeção. Mas não há imagens de agentes a tratarem as seleções europeias desta forma, e todos já sabem porquê.

Depois vêm os adeptos. Dezenas de adeptos escoceses, com direito a viajar sem visto, vêem as suas autorizações aprovadas passarem para «viagem não autorizada» a poucos dias do evento, sem qualquer explicação, com férias no valor de 8 000 libras a desmoronarem-se nos ecrãs dos seus telemóveis. Alguns deles não tinham feito nenhuma reserva até a aprovação ser concedida, o que acabou por não valer de nada. Um memorando do Departamento de Estado já tinha congelado os pedidos de visto de 75 países. A ACLU e mais de 120 grupos da sociedade civil emitiram um aviso de viagem formal para um torneio de futebol, alertando os visitantes sobre discriminação racial, revistas a dispositivos e detenções. Um aviso de viagem. Para um Mundial.

Cinco dias antes do pontapé de saída, um tiroteio fere nove pessoas a uma curta distância do acampamento base da Inglaterra em Kansas City; no mesmo fim de semana, um esfaqueamento na Penn Station fere mais seis pessoas na cidade que acolhe a final.

Há dois anos, nestes mesmos estádios, a Copa América serviu de aviso a todos. Marcelo Bielsa, o treinador do Uruguai, subiu ao palco numa conferência de imprensa e chamou aos organizadores uma «praga de mentirosos», referindo-se a campos de jogo em más condições, instalações de treino inutilizáveis e treinadores intimidados a calar-se depois de Lionel Scaloni, o treinador da Argentina, ter apresentado queixas. Em todas as conferências de imprensa desde então, Scaloni recusou-se a falar sobre os campos de jogo.

Os jogadores da Eritreia fugiram de um país que o mundo considera uma prisão. Este mês, os futebolistas de todo o mundo fazem fila, descalços, nos postos de controlo de um país que se autodenomina «o mundo livre».

O cúmplice sorridente


Se quisermos saber como o futebol chegou a este ponto, comecemos na madrugada de 27 de maio de 2015, no hotel Baur au Lac, em Zurique, onde a polícia suíça conduziu os executivos da FIFA para fora do hotel, escondidos sob lençóis. O Departamento de Justiça dos EUA divulgou nessa manhã uma acusação com 47 pontos que descrevia duas gerações de dirigentes que tinham transformado o órgão regulador do desporto mundial numa empresa de extorsão, com 150 milhões de dólares em subornos por direitos de televisão e marketing. Em dezembro, uma segunda vaga de acusações elevou o valor alegado para mais de 200 milhões de dólares. Este foi o FIFA-gate.


O país que levou a julgamento a década de máfia da FIFA é o país que a FIFA escolheu para coroar uma década mais tarde. E a FIFA tirou a lição óbvia da sua experiência de quase morte: a proximidade do poder mantém-nos a salvo, desde que se escolha o lado que detém as acusações.

Porque esta organização passou um século a aperfeiçoar a arte do aperto de mão caloroso com a mão fria. Em 1934, Mussolini transformou o segundo Campeonato do Mundo de sempre num espetáculo fascista, tendo historiadores apresentado provas num simpósio da própria FIFA de que Il Duce tinha providenciado uma arbitragem favorável aos anfitriões, e o seu telegrama à equipa antes da final de 1938 dizia, simplesmente: «vencer ou morrer».


Em 1978, a FIFA entregou o torneio à junta militar do meu país. O general Videla entregou o troféu no Monumental enquanto, a um quilómetro e meio de distância, o centro de tortura da ESMA processava os desaparecidos, perto o suficiente para que os prisioneiros nas suas celas pudessem ouvir as comemorações dos golos através das paredes. O presidente da FIFA, João Havelange, percorreu o país e elogiou o trabalho árduo dos anfitriões. A junta conseguiu o seu golpe de propaganda. As mães ficaram com a Plaza de Mayo.

Em 2014, a Rússia anexou a Crimeia quatro anos antes do seu Mundial, e a resposta completa de Sepp Blatter resumiu-se a uma frase: «Vamos avançar com o nosso trabalho.» No Catar, o Guardian contabilizou 6.500 trabalhadores migrantes do sul da Ásia mortos na década após o país ter conquistado os direitos de organização, uma média de doze por semana, e o próprio secretário-geral do torneio acabou por deixar escapar uma estimativa de 400 a 500 mortes em projetos do Mundial de Futebol, um número que a sua comissão tinha anteriormente reportado como sendo 40.


Mussolini, Videla, Putin, o emir e agora um presidente dos EUA a comandar esquadrões federais mascarados nas mesmas cidades prestes a receber os jogos. A edição de 2026 dá continuidade à linha, com uma diferença: desta vez, o disfarce caiu antes do apito inicial.

O que nos leva a 5 de dezembro de 2025, meia hora após o início do sorteio do Mundial no Kennedy Center, quando Gianni Infantino interrompe o espetáculo para entregar a Donald Trump um troféu de ouro e uma medalha: o primeiro Prémio da Paz da FIFA.

O homem passara anos a manifestar publicamente o seu desejo de receber um Prémio Nobel. Três semanas depois de o Comité do Nobel o ter preterido, o órgão regulador do futebol inventou um prémio à sua medida, do nada. A FIFA não publicou quaisquer critérios nem revelou outros candidatos, e o anúncio apanhou de surpresa o próprio Conselho da FIFA. Trump aceitou-o no palco como «uma das maiores honras da minha vida». Infantino, que tinha pessoalmente feito lóbi a favor do Nobel de Trump, defendeu mais tarde toda a situação, insistindo que «objetivamente, ele merece-o», enquanto o presidente da federação norueguesa, um advogado de direitos humanos, apoiou uma queixa ética argumentando que o prémio violava os próprios estatutos de neutralidade da FIFA.

Assim, um prémio da paz encontra-se agora no gabinete de um homem cujo governo, nos seis meses que se seguiram, raptou um presidente, ameaçou invadir a maior ilha do mundo, bombardeou o Irão, revogou autorizações de viagem a famílias escocesas, recusou o melhor árbitro de África e colocou cães farejadores de bombas entre os futebolistas do Uzbequistão e o seu balneário.

O evento mais popular do mundo começa por trás do perímetro mais militarizado da história do desporto.

O Plano da Eritreia

E se os sete jogadores eritreus tivessem dado a todas as seleções deste torneio uma amostra da única mensagem que o sistema não consegue absorver? A sua ação, reduzida à sua essência, foi simples: dar o seu melhor em campo e, depois, recusar-se a comparecer fisicamente. O Estado que os controlava não podia fazer nada, porque tudo o que controla (a federação, o estádio, a transmissão televisiva, a polícia) depende da presença física dos jogadores.

Chega a segunda jornada deste Mundial e uma equipa, qualquer equipa, joga a sua estreia e depois recusa-se a comparecer para o seu próximo jogo. Os jogadores divulgam um comunicado sobre o árbitro que os anfitriões mandaram para casa, os adeptos que perderam milhares devido a autorizações revogadas, as equipas a dormir noutro país para fugir aos agentes fronteiriços do anfitrião. Os advogados da FIFA recorrem ao manual de sanções. As emissoras ficam a olhar para um vazio de 90 minutos onde deveria estar o conteúdo. E todos os outros balneários do torneio realizam uma reunião nessa noite.

A seleção nacional da Eritreia posa antes da vitória nas eliminatórias da AFCON contra a Essuatíni — sete jogadores acabaram por não regressar a casa.

Os investigadores que estudam como as convenções sociais se quebram mediram o limiar a partir do qual uma minoria empenhada consegue virar um sistema inteiro, e esse limiar situa-se em cerca de 25 por cento, muito abaixo da maioria. Doze equipas em 48. Os jogadores são a única força de trabalho que esta máquina de biliões de dólares não consegue substituir, porque o produto são os seus corpos em movimento. Nenhuma força de trabalho na Terra detém mais poder de influência e o utiliza menos.

Não vou fingir que a comparação é perfeita e que não é utópica. Os eritreus arriscaram as suas vidas e as das suas famílias para se afastarem, e a maioria deles passará anos sem nacionalidade por causa disso. Uma estrela do Mundial que se afastasse arriscaria uma multa e um ciclo de notícias. Essa assimetria é exatamente a acusação: as pessoas com menos proteção já deram o passo, e as pessoas com mais proteção não tiveram coragem de o imitar.

Um dia antes do apito

Sou argentino. Não há nenhuma versão de mim sem este jogo. Posso falar durante horas sobre Maradona e os quartos de final de 1986 contra a Inglaterra, sobre por que razão a pausa de Riquelme foi uma forma de protesto, sobre as formações de Mundiais disputados décadas antes de eu nascer. Para mim, Messi está mais próximo da santidade do que qualquer coisa que qualquer religião alguma vez me tenha oferecido. E amanhã, quando este torneio começar, parte de mim vai desejar uma coisa com a pureza de uma criança de dez anos: a Argentina a defender o seu título na última Copa do Mundo de Messi, uma última dança antes de as luzes se apagarem sobre o melhor jogador que já existiu.

Mas também sou argentino noutro sentido. O meu país costurou a sua primeira estrela na camisola em 1978, num estádio a um quilómetro e meio de um centro de tortura, sob um regime semelhante ao que raptou o meu avô. Aprendi cedo que as pessoas mais horríveis do mundo passaram um século a acariciar a coisa mais bela do meu. E este mês, o campo de treino da Argentina fica em Kansas City, a uma curta distância de carro dos tiroteios de sábado, dentro de um país cujo governo atribui prémios da paz a si próprio.

Por isso, outra parte de mim, a parte que ama este jogo mais do que os homens que o controlam alguma vez poderiam, quer que este Mundial fracasse da forma mais estrondosa que o desporto alguma vez produziu. Quero o jogo vazio, a declaração, a reunião em todos os balneários. Ambos os desejos vêm do mesmo lugar, e deixei de tentar separá-los.

Em abril, sete homens saíram de um aeroporto e desapareceram num continente que talvez nunca lhes conceda documentos de residência. Se é que vão assistir a este Mundial, vão fazê-lo em ecrãs emprestados e sob nomes falsos.

E, no entanto, são os futebolistas mais livres do mundo.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

FRANÇA: CÂMARA FAZ FRETE A PROJETO DE ZIDANE


O município de Onet‑le‑Château (Aveyron, França) aprovou a construção de um complexo privado de padel de 2,5 hectares promovido pela SCI Z5, pertencente à família de Zinédine Zidane. O problema é que a parcela destinada ao projeto era classificada como agrícola e, portanto, inconstrutível segundo o Plano Local de Urbanismo.

Para viabilizar o projeto, o presidente da Câmara Jean‑Philippe Kéroslian recorreu a uma manobra jurídica: celebrou um bail emphytéotique administratif (um arrendamento público de longa duração) com a empresa de Zidane, tipo de contrato só permitido quando há interesse público, o que é contestado, já que o complexo é privado, com restaurante e instalações comerciais.

A Câmara justifica o “interesse geral” alegando diversificação da oferta desportiva, a popularidade crescente do padel, e as ações sociais prometidas pela família Zidane (acesso para escolas, jovens de bairros prioritários, etc.).

Um empresário local que tentou criar um projeto semelhante afirma ter recebido restrições muito maiores e não teve acesso a terrenos equivalentes. Além disso, o arrendamento concedido a Zidane é extremamente vantajoso: 1 650 € por ano durante 99 anos (cerca de 137 €/mês), muito inferior ao que outras cidades propuseram para projetos de menor envergadura.

O Coletivo pela Preservação das Terras Agrícolas do Rouergue contesta o projeto por ter alterado o PLUi que reclassificou a área como zona de lazer e vai implicar a artificialização de solo agrícola, contrariando os objetivos nacionais de redução desse tipo de ocupação. Denuncia-se ainda o apoio automático de instituições como a Câmara de Agricultura e a Prefeitura, apesar da falta de interesse público evidente. Fonte.

EUA: RESIDENTES RECORRERAM A GRUPO LOCAL DEPOIS DE A VIRGÍNIA TER APROVADO UM CENTRO DE DADOS A GÁS SEM CONSULTA PÚBLICA


Em Sterling, Virgínia, os residentes descobriram, após a sua construção, que um novo centro de dados — o Vantage VA2 — funcionava com turbinas a gás natural instaladas a poucos metros das suas casas. O projeto foi aprovado pelo estado como uma «fonte menor» de emissões, o que permitiu evitar consultas públicas e deixou a comunidade sem informação prévia.

Os residentes queixam-se de dores de cabeça, insónia e enxaquecas devido ao ruído constante, irritação pulmonar e problemas respiratórios, especialmente em crianças, e agravamento dos sintomas durante testes com geradores a diesel, que chegaram a transformar o ar em algo «semelhante a um cinzeiro».

A procura de energia dos centros de dados na Virgínia é tão elevada que os futuros centros têm de esperar anos para se ligarem à rede. Por isso, várias empresas estão a recorrer a microrredes com turbinas a gás. Nos EUA, há pelo menos 46 centros de dados fora da rede em desenvolvimento. O setor é economicamente gigantesco: contribui com 9,1 mil milhões de dólares para o PIB da Virgínia e quase metade do orçamento do condado de Loudoun.

Outro projeto ainda maior, o «Digital Dulles», prevê 23 turbinas a gás, o que preocupa os residentes. A comunidade de Sterling organizou-se para exigir transparência e proteção. Os ativistas alertam outras comunidades: «Vocês são os próximos.» Fonte.

PAÍSES BAIXOS: PROPRIETÁRIOS DE PAINÉIS SOLARES CONVIDADOS A DESLIGAR SISTEMAS DURANTE OS PERÍODOS DE PICO PARA ALIVIAR A CRISE DE DISTRIBUIÇÃO

Foto: Eneco.
  • Os Países Baixos enfrentam um grave congestionamento na rede elétrica, e a Liander, operadora do sistema de distribuição, afirma que cerca de 7 300 clientes estão a enfrentar longos atrasos ao tentarem aumentar a potência das suas ligações à rede. Estes atrasos afetam famílias e empresas que pretendem instalar bombas de calor, carregadores de veículos elétricos ou sistemas solares de maior dimensão. A diretora de operações da Liander, Sarike van Wette, explica que muitos clientes solicitam ligações de maior potência desnecessariamente, o que agrava o congestionamento. Ela apela aos consumidores que ajustem o seu consumo de energia — por exemplo, carregando veículos elétricos à noite ou utilizando eletrodomésticos durante os picos de energia solar diurnos — para reduzir a pressão sobre a rede. Fonte.
  • Carolina do Norte processa empresa química por poluir um ribeiro nas proximidades. Desde 2023, a cidade de Durham aplicou multas no valor de 157 000 dólares à Brenntag por infrações relacionadas com a contaminação da água. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O MUNDIAL DO FUTEBOL DEIXA-TE DEPRIMIDO? EIS UMA CONTRA-HISTÓRIA DO FUTEBOL
Alexandre-Reza Kokabi, Reporterre. Rev. O’Lima.

O mundial de futebol mostra mais uma vez: o futebol profissional tornou-se uma indústria insustentável. Do Brasil à França, este desporto é também, nos estádios ou nas ruas, um belo espaço de resistência, como retratam estas obras.

O pontapé inicial será dado na quinta-feira, 11 de junho. Quarenta e oito equipas, três países anfitriões — Canadá, EUA, México —, milhares de quilómetros de voo entre os locais de competição, uma parceria da FIFA com a Aramco, gigante petrolífera saudita, e lucros que prometem ser recordes.

O mundial de 2026 é um estudo de caso: com o mundial do Catar em 2022 e os seus 6.500 trabalhadores migrantes mortos nas obras, nunca uma competição desportiva simbolizou tanto a insustentabilidade estrutural do desporto-espetáculo. O que ela reflete é aquilo em que o futebol profissional se tornou em trinta anos: uma indústria indiferente ao planeta que a sustenta.

A revolução liberal, ou como o futebol foi capturado

Para compreender como chegámos a este ponto, é preciso recuar até aos anos 90. É isso que Jérôme Latta faz em «No que o futebol se tornou — Três décadas de revolução liberal» (Divergences, 2023). Co-fundador da revista Cahiers du football e colunista do jornal Le Monde, Jérôme Latta descreve nele uma «revolução liberal que envenenou o futebol, tornando-o mortalmente sedutor»: a explosão dos direitos televisivos, que reconfigurou as competições e os seus calendários, já não para o público, mas para as emissoras; a liberalização do mercado de jogadores, reduzidos a «ativos especulativos»; a concentração de recursos numa mão-cheia de clubes, formando uma oligarquia cujo poder financeiro determina agora os resultados desportivos. Os estádios tornaram-se «centros de lucro», os espectadores «consumidores».

Um outro futebol nunca deixou de existir

O que as seguintes obras desmontam é a ideia de que o futebol popular seria um paraíso perdido. Um outro futebol coexiste, resiste, reinventa-se — por vezes nos mesmos relvados que o futebol-negócio, nas mesmas bancadas, e há muito mais tempo do que se pensa.

Uma história popular do futebol, de Mickaël Correia — publicado em 2018 pela editora La Découverte, e posteriormente adaptado para banda desenhada com JC. Deveney e Lelio Bonaccorso pela Delcourt em 2025 — dá-nos uma ideia disso. O livro acompanha a bola «a partir de baixo», e cada exemplo diz algo sobre uma época.

Durante a Primeira Guerra Mundial, as «municioneiras» — as operárias das fábricas de armamento britânicas — fundaram as suas próprias equipas de futebol e jogaram perante dezenas de milhares de espectadores. Em 1920, 53 000 pessoas assistiram a um jogo das Dick, Kerr Ladies em Goodison Park. A 5 de dezembro de 1921, a Federação Inglesa proibiu os clubes de emprestarem os seus campos a equipas femininas. A proibição durou cinquenta anos. No entanto, as jogadoras continuaram, em parques improvisados, ou fundando, cinco dias depois, a sua própria liga.

Os jogos disputados pelo clube de futebol feminino «Dick, Kerr Ladies FC» atraíam até 50 000 espectadores. Museu Nacional do Futebol

Depois surgiu Matthias Sindelar, um avançado austríaco com a alcunha de «Mozart do futebol». Após a Anschluss [anexação da Áustria], em março de 1938, o regime nazi organizou um jogo que supostamente celebrava a anexação da Áustria: as duas equipas deveriam terminar o encontro num empate fraterno a 0-0. Perante 60 000 espectadores no Praterstadion de Viena, Sindelar esforçou-se por falhar as suas oportunidades… até aos 70 minutos, quando marcou. Depois, dançou ostensivamente diante da tribuna dos dignitários nazis. A Áustria venceu por 2-0. Sindelar recusou-se depois a vestir a camisola do Reich. Foi encontrado morto em circunstâncias obscuras em janeiro de 1939.

Quarenta anos depois, é no Brasil que a bola rola contra uma ditadura. Em «Lateral esquerdo — Figuras do futebol político» (Libertalia, 2026), o jornalista e historiador do desporto Nicolas Kssis-Martov relata, nomeadamente, a experiência da «democracia corinthiana»: de 1981 a 1984, o médico e médio Sócrates e os seus companheiros do Sporting Clube Corinthians Paulista inventaram uma forma de autogestão total do clube — jogadores, massagistas e motoristas de autocarro votavam em conjunto todas as decisões, em pé de igualdade. Estampam «democracia» nas costas das camisolas, engajam-se no movimento Diretas Já a favor de eleições livres e transformam o campo numa tribuna. A ditadura vai perdendo força. Os Corinthians não são alheios a isso.

Esta linha continua até aos dias de hoje. Em 2022, ainda no Brasil, as torcidas do Corinthians — entre as quais os Gaviões da Fiel declararam publicamente em 2018 que «um Gavião não vota em Bolsonaro» — quebram os bloqueios erguidos por camionistas bolsonaristas para impedir a transição democrática após a derrota do presidente cessante. Nos relvados, nas bancadas ou nas ruas, esta história popular do futebol continua a ser escrita.

Cartografar, propor, inventar

É esta efervescência que documenta o Atlas do Futebol Popular, de Yann Dey-Helle (Terres de feu, 2024), responsável pelo site Dialectik Football, um meio de comunicação com uma perspetiva decididamente anticapitalista sobre o futebol. O seu inventário é minucioso: desde os «supporters’ trusts» ingleses (essas associações de adeptos que, desde os anos 90, resistem aos proprietários, retomam os seus clubes ou criam novos) até ao Unionistas de Salamanca, clube da terceira divisão espanhola gerido por mais de 5 000 sócios sem qualquer acionista privado; desde o Clapton Community FC de Londres (clube antifascista da décima divisão, enraizado na zona popular do leste da capital, que atrai várias centenas de espectadores a cada jogo) até ao coletivo feminista La Nuestra na Argentina, cujas jogadoras reivindicam um futebol livre das lógicas do desempenho e da competição.

Dian Malal, capitão da equipa FSGT Melting Passes em 2017. © Alexandre-Reza Kokabi / Reporterre

Em França, as alternativas, ainda escassas, desenvolvem-se sobretudo à margem do futebol federativo tradicional, no âmbito da FSGT — Federação Desportiva e Ginástica do Trabalho —, que acolhe clubes como o Les Dégos, um coletivo composto maioritariamente por lésbicas e pessoas trans que lutam contra a discriminação no desporto, ou ainda o Melting Passes, nascido do encontro entre menores estrangeiros isolados e estudantes de Direito, cuja epopeia foi documentada no filme Just Kids.

O Ménilmontant FC 1871, em Paris, fez a escolha oposta: evoluir no seio da FFF — no distrito de Seine-Saint-Denis — para «alcançar o maior número possível de pessoas», segundo os seus fundadores. Autogerido, autofinanciado, funcionando em assembleia aberta onde cada voz tem o mesmo peso, este clube, nascido em 2014 na esteira de ativistas antifascistas e ex-ultras parisienses, reivindica uma identidade política afirmada. O seu slogan: «Love football, hate fascism». O documentário Notre Ligue des champions dá a palavra aos seus membros.

As Dégos participaram no torneio «Futebol para todos», organizado pelas Hijabeuses em junho de 2021. © Teresa Suárez

Estas alternativas têm os seus limites, algo que Yann Dey-Helle não esconde. Atuar num sistema capitalista impõe compromissos. E o futebol popular, mesmo que prospere nas divisões amadoras e numa federação à parte, tem dificuldade em fazer com que as instâncias que regem o futebol de alto nível se mexam.

Contrariar, driblar, inventar

É precisamente esse teto que o Foot Manifesto — 15 propostas para salvar o futebol, de Mickaël Correia e Sébastien Thibault (Divergences, 2026), cujo primeiro capítulo está vazio, intencionalmente — procura derrubar. Esta ausência de palavras é dedicada ao silêncio imposto a Christophe Gleizes, jornalista da So Foot e da Society, detido na primavera de 2024 enquanto investigava a Jeunesse Sportive de Kabylie — o maior clube de futebol da Argélia — e condenado a sete anos de prisão sob acusações de apologia ao terrorismo, criminalizando, na realidade, uma reportagem. A redação do Reporterre junta-se aos autores para exigir a sua libertação.

Estruturado em três fases — contrariar, driblar, inventar —, o livro reúne jornalistas, académicos, educadores e escritores em torno de quinze propostas. Algumas dizem respeito à regulamentação: abolir a Bola de Ouro, esse mecanismo de transformação em estrela que naturaliza uma ordem mundial capitalista e eurocêntrica sob o manto da meritocracia desportiva; reformar uma FIFA que o seu próprio presidente, Gianni Infantino, transformou, segundo eles, numa monarquia privada.

Outras medidas dizem respeito à democratização: instaurar a propriedade coletiva dos clubes, garantir a gratuitidade das transmissões e organizar a descarbonização das competições numa época de alterações climáticas. Outras ainda, mais inesperadas: transformar os grandes estádios — muitas vezes construídos com fundos públicos, ocupados por clubes privados e vazios três quartos do tempo — em instalações com uma missão social, abertas a associações, a estruturas de inserção social e aos habitantes dos bairros populares, que são frequentemente mantidos à margem.

«A apropriação do futebol por parte dos obcecados pela rentabilidade não é uma fatalidade», escreve Mickaël Correia no prefácio. Nesse ponto, estas obras recordam que, para acabar de vez com o negócio do futebol, é ao capitalismo que se deve atacar. O futebol, por sua vez, sobreviverá, pois «não precisa de todo esse dinheiro que se derrama sobre ele e que o corrompe», escreve Jérôme Latta. «Aqueles que o amam não o amarão menos.»

O Mundial de 2026 será o que for: quarenta e oito equipas, três países, a Aramco. Entretanto, noutro lugar, a bola rola de outra forma.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

BICO CALADO


RTP: Como deve ser um debate sério sobre a atual situação no Irão – Miguel Szymanski e Pedro Ponte e Sousa.

LEITURAS MARGINAIS

O MUNDIAL MAIS RACISTA DA HISTÓRIA
Nate Bear, Substack. Rev. O’Lima.

O Mundial de Futebol começa esta quinta-feira e o regime norte-americano já garantiu que será o mais racista da história.

Ao árbitro somali Omar Artan, nomeado pela FIFA, eleito o melhor árbitro de África no ano passado e que viajava com passaporte diplomático, foi recusada a entrada nos EUA quando aterrou em Miami, tendo sido obrigado a regressar ao seu país.

A seleção iraniana foi obrigada a transferir a sua base de treinos do Arizona para o México, e ao treinador da equipa, bem como a vários membros da equipa técnica, foram recusados vistos para os EUA. Os EUA estão também a exigir que a equipa iraniana entre e saia do país no dia dos jogos, uma condição claramente destinada a prejudicar o seu desempenho nas partidas. A atribuição de bilhetes aos adeptos iranianos também acaba de ser retirada, o que significa que não haverá adeptos do Irão nos estádios.

O vice-capitão da seleção iraquiana, Ayman Hussein, foi detido, revistado e interrogado no aeroporto O’Hare, em Chicago, durante sete horas, enquanto ao fotógrafo da seleção iraquiana foi recusada a entrada e foi mandado de volta logo após a aterragem.

A seleção do Senegal foi tratada como criminosa ao aterrar, com os seguranças a não lhes permitirem entrar no terminal e a revistá-los completamente na pista. A seleção do Uzbequistão foi revistada de forma semelhante após sair do autocarro junto ao estádio Icahn, em Nova Iorque, antes de um jogo amigável contra a Holanda.

Pelo menos 90 adeptos de dois dos principais grupos de adeptos de Marrocos viram-se também impedidos de obter vistos antes do torneio, a maioria ao abrigo de uma cláusula que invoca dúvidas quanto à sua intenção de regressar a casa, apesar dos seus históricos de viagem documentados para a Rússia 2018, o Qatar 2022 e os Jogos Olímpicos de Paris. Alguns perderam milhares de dólares em reservas de hotel não reembolsáveis.

Estas recusas surgiram na sequência da recusa inicial de concessão de visto ao jogador marroquino Zakaria El Ouahdi, que joga na Europa, depois de funcionários da embaixada dos EUA o terem assinalado como um risco, uma vez que consideraram que o seu pai tinha uma barba suspeita.

A equipa sul-africana esperou meses pela emissão dos vistos para os EUA, o que levou a uma queixa pública do ministro do Desporto do país, que afirmou que tinham sido «ridicularizados», e, até esta semana, continuavam à espera que quatro vistos fossem processados.

A Associação Internacional de Imprensa Desportiva afirma que a muitos jornalistas iranianos e africanos foram recusados os vistos necessários para entrar nos EUA e cobrir o torneio.

Tudo isto está a levar as pessoas a comparar este Mundial com os Jogos Olímpicos nazis de 1936, mas isso é injusto. Em 1936, a Alemanha nazi ainda não tinha atacado nenhum país soberano, assassinado nenhum chefe de Estado nem cometido nenhum holocausto.

Alguns utilizadores do Twitter não perceberam isto, mas espero que os meus leitores entendam esta observação como uma piada absurda destinada a transmitir uma mensagem extremamente séria sobre a barbárie do império norte-americano.

A verdade é que o regime dos EUA cometeu todos estes atos criminosos apenas nos últimos meses, desde o rapto de um chefe de Estado, passando pelo assassinato de um chefe de Estado (e da sua família), até um ataque a uma nação soberana por esta se ter recusado a submeter-se ao império. E o holocausto de Gaza, patrocinado pelos EUA e cometido pelo seu representante colonial utilizando armas e tecnologia do regime, continua em curso.

Portanto, sim, o argumento é válido. O Mundial está a ser organizado por um regime supremacista branco, um regime que impõe proibições absolutas aos cidadãos de vários países do Sul Global cujas seleções se qualificaram para o Mundial, incluindo o Irão, o Haiti, o Senegal e a Costa do Marfim. Um regime que possui instalações semelhantes a campos de concentração, onde as pessoas desaparecem ou morrem rotineiramente. Um regime que fala constantemente em termos abertamente racistas sobre a necessidade de salvar a civilização ocidental das pessoas não brancas e que, por isso, não é claramente adequado para acolher um dos eventos desportivos globais mais proeminentes e multiculturais do mundo.

No entanto, apesar de tudo isto, compare-se a cobertura mediática dos crimes cometidos pelos EUA no contexto da organização do Mundial com a atenção dedicada ao Catar, à Rússia ou ao Brasil. Onde estão as reportagens sobre as violações dos direitos humanos cometidas pelos EUA? Onde estão os programas especiais de notícias na televisão sobre a repressão e as políticas de extermínio em massa dos EUA? Onde estão os artigos de opinião angustiados sobre a violência armada nos bairros desfavorecidos? Onde estão os protestos das seleções nacionais contra as políticas do país anfitrião?

A seleção alemã tapa a boca em protesto contra a restrição à liberdade de expressão no Catar

A hipocrisia evidente que se manifesta é apenas mais uma acusação contra os liberais sem princípios e demonstra como os súbditos do império, sejam eles jornalistas ou atletas, fecham os olhos aos crimes do império. É fácil falar abertamente a partir do coração do núcleo imperial contra quem está de fora, quando se sabe que não haverá consequências por fazê-lo. É muito mais difícil possuir princípios genuínos que nos coloquem em conflito com os nossos governantes e financiadores.

Mas, em muitos casos, é provavelmente muito mais simples e mais horrível do que isto. É provável que muitos no centro imperial simplesmente concordem com a violência imperial e a apoiem. Para muitas pessoas, o facto de o Catar e a Rússia terem políticas draconianas contra os homossexuais é pior do que um holocausto quando as vítimas são palestinianos, os miseráveis da Terra, uma população essencialmente sub-humana aos olhos dos imperialistas.

O Mundial de Futebol é uma síntese perfeita da impunidade com que os imperialistas conseguem cometer os seus crimes.

Em 2017, quando surgiram preocupações sobre os EUA como potencial anfitrião, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirmou: «Qualquer equipa, incluindo os adeptos e os dirigentes dessa equipa, que se qualifique para um Mundial precisa de ter acesso ao país; caso contrário, não há Mundial. É óbvio. Os requisitos serão claros.» Mas agora, com os árbitros acreditados pela FIFA e o pessoal das equipas a serem proibidos de comparecer, o covarde Infantino diz que estas questões são da exclusiva responsabilidade do país anfitrião.

Sem consequências nem condenação. Apenas a pura impunidade do império.

A FIFA exigiu que os países anfitriões de edições anteriores do Campeonato do Mundo aprovassem leis especiais para contornar todo o tipo de regulamentação, a fim de garantir o bom desenrolar dos eventos anteriores. A África do Sul aprovou uma Lei de Medidas Especiais exigida pela FIFA, enquanto o parlamento brasileiro, em 2013, aprovou e codificou uma Lei Geral da Copa do Mundo de 900 páginas, abrangendo tudo, desde disposições penais a processos de visto e liberdade de imprensa. Mas tais exigências não foram feitas aos EUA, cujo regime pode banir quem quiser, incluindo árbitros da FIFA e equipas técnicas.

O império goza de impunidade pelas suas ações por parte de outros imperialistas como Infantino, que possuem essencialmente a mesma política. Na sua mente, não há necessidade de o império branco aprovar leis especiais para o Mundial, porque a governação não só já é adequada ao fim a que se destina, como é infinitamente superior. Quando o império exerce poder e autoridade, esse poder e autoridade, ao contrário dos exercidos pela periferia, são, por definição, legítimos.

Talvez tudo isto sirva de alerta para o desporto, mas é improvável, porque não se trata apenas da FIFA ou do futebol. O que estamos a ver nesta Copa do Mundo vai ao cerne do império e do sistema de valores que o sustenta.

O que estamos a ver é o racismo, a hipocrisia e os dois pesos e duas medidas que sempre vêm à tona quando os princípios liberais professados colidem com as realidades imperiais.

Não, este fiasco não vai mudar a FIFA, mas deve servir-nos de lembrete de que o império é uma construção ilegítima e um projeto falido que, quando chegar ao fim, acabará por levar também à FIFA.