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terça-feira, 21 de julho de 2026

PAÍSES BAIXOS: REGRAS MAIS APERTADAS PARA FOTOVOLTAICAS PERTO DE AEROPORTOS

  • Os Países Baixos propõem regras mais rigorosas para a energia solar nas proximidades dos aeroportos. Esta medida surge na sequência de um incidente ocorrido em março de 2025, que obrigou a pista Polderbaan do aeroporto de Schiphol a ficar indisponível para aterragens durante duas horas devido ao encandeamento provocado pelos painéis solares. O incidente levou as autoridades holandesas a ordenar a remoção de cerca de 78 000 painéis nas proximidades e fez com que os responsáveis pelo projeto substituíssem todos os painéis restantes. Fonte.
  • Penafiel vai ter 2 parques eólicos (19 aerogeradores) instalados em várias freguesias. Fonte.
  • Comissão Europeia enfraquece regras para mercado de carbono e beneficia grandes poluidores. Fonte.
  • A Adbri, fabricante de cimento de Adelaide, Austrália, poderá queimar mais resíduos plásticos como combustível na sua fábrica de Birkenhead. Este período experimental de seis semanas enfrenta a oposição do presidente da câmara local, da autarquia e de um grupo de residentes. Alega-se maus cheiros e perigos para a saúde dos vizinhos. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Anadolu/Getty Images
  • A Galp fixa os preços dos combustíveis não com base nos custos que suporta, mas utilizando os do mercado internacional especulativo devido às guerras, aumentando assim os seus lucros 5,8 vezes (os lucros médios subiram de 247 milhões de euros para 1421 milhões por ano). Governo, Ense e Erse, capturados pela Galp, mantêm-se passivos, nada fazem, anunciam os aumentos de preços e dizem “tudo está conforme”. Eugénio Rosa.
  • O Pentágono está a roubar aos trabalhadores pobres para financiar a guerra e enriquecer os empreiteiros. Em 2025, foi deduzido mais de 4 000 dólares do salário médio dos contribuintes norte-americanos para financiar o Pentágono; nos próximos anos, esse montante deverá aumentar, uma vez que o Congresso está a ponderar um orçamento de guerra de 1,5 biliões de dólares para 2027. Fonte.
  • PJ detém israelita que transportava drogas sintéticas para festival em Ponte de Sor. Fonte.
Cartoon: Carlos Latuff.
  • As imobiliárias israelitas estão a promover e a vender terrenos na Cisjordânia ocupada — terrenos que pertencem aos palestinianos — a compradores judeus norte-americanos. A expansão dos colonatos que está a ser promovida é impulsionada pelas contínuas expropriações de terras palestinianas. As expropriações recentes incluem aproximadamente 700 dunams para Karnei Shomron e 2 640 dunams perto de Ma’ale Adumim. Estas fazem parte de planos mais amplos, como o «plano E1», que visa construir milhares de novas habitações e dividir efetivamente a Cisjordânia em duas partes. O Estado israelita recorre a um processo em várias etapas para confiscar terras, declarando-as frequentemente «terras do Estado» alegando que estão «insuficientemente cultivadas» ou designando-as como zona militar fechada. As terras são depois arrendadas aos compradores por um período de 99 anos renováveis, mantendo o Estado a propriedade. Os colonatos são promovidos como subúrbios pacíficos e acessíveis de Jerusalém, uma estratégia que, segundo os especialistas, encobre o projeto dos colonatos e o normaliza na consciência pública. Isto é reforçado por benefícios estatais, como isenções fiscais e infraestruturas subsidiadas para os colonos. Em última análise, trata-se de uma batalha viciada, em que os direitos dos potenciais compradores judeus de Nova Iorque têm prioridade sobre os dos palestinianos, proprietários das terras, refletindo a mesma lógica de força que expulsou os palestinianos das suas casas em 1948. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

POR QUE DEIXÁMOS DE PUBLICAR NAS REDES SOCIAIS (E O QUE ISSO SIGNIFICA PARA A NOSSA SAÚDE MENTAL)
Enrique Dans, Medium. Rev. O’Lima.


Tempos houve em que as redes sociais serviam um propósito tão simples como saber o que os nossos amigos e familiares andavam a fazer. Usávamo-las para retomar o contacto com antigos colegas de turma, partilhar fotos de férias, desejar um feliz aniversário a alguém ou estabelecer contacto com pessoas com quem partilhávamos interesses. A proposta de valor residia no gráfico social: escolhíamos quem seguir e a plataforma mostrava-nos o que essas pessoas publicavam.

Essa promessa desapareceu. Não por acaso, nem porque nos cansámos delas, mas porque ligar as pessoas revelou-se um negócio muito menos lucrativo do que manipular a nossa atenção. As plataformas substituíram gradualmente o gráfico social pelo algoritmo de recomendação: deixaram de nos mostrar o que pedíamos para ver e começaram a impor-nos aquilo que, segundo os seus cálculos, nos manteria a olhar para o ecrã durante mais tempo.

O resultado é que sabemos cada vez menos sobre os nossos amigos e, em vez disso, vemos cada vez mais vídeos de estranhos a fazer coisas ridículas, controvérsias inventadas e teorias da conspiração, conteúdo sem sentido gerado automaticamente e figuras totalmente banais que confundem notoriedade com relevância. As redes sociais deixaram de ser um espaço de relacionamento e tornaram-se um canal de televisão interminável, «personalizado» através da vigilância e sem botão para desligar.

Um inquérito da Incogni mostra até que ponto este modelo chegou ao fim: 55% dos norte-americanos afirmam que publicam menos do que há cinco anos, são mais seletivos quanto a quem pode ver o seu conteúdo e quase metade já eliminou uma rede social ou uma aplicação de mensagens devido ao stress ou à ansiedade que lhes causava. Para 51%, manter uma presença online já se assemelha muito a um trabalho — um valor que sobe para 60% entre os membros da Geração Z.

Considero a expressão «parece um trabalho» extraordinariamente reveladora. Publicar implica escolher uma imagem, editá-la, escrever uma legenda, antecipar reações, responder a comentários e, depois, verificar quantos «gostos» recebeu. Cada pessoa torna-se gestora de comunicação da sua própria existência, obrigada a construir uma marca pessoal e a mantê-la ativa para que o algoritmo não a condene à irrelevância.

Isto cria uma competição constante, estressante… e inútil. Já não basta apenas viver — é preciso mostrar que se está a viver. Não basta viajar, comer, ler ou fazer exercício — é preciso demonstrá-lo publicamente e fazê-lo de uma forma suficientemente fotogénica. Cada publicação é comparada às vidas cuidadosamente selecionadas dos outros, numa gigantesca feira de vaidades onde todos parecem mais felizes, mais atraentes, mais produtivos e mais interessantes do que realmente são.

No topo desse monte de lixo encontram-se os influenciadores, que se tornaram modelos a seguir numa economia baseada na simulação da autenticidade. O seu suposto valor reside em parecerem espontâneos enquanto vendem os seus fretes ao melhor licitante. Recomendam hotéis, cosméticos, restaurantes, suplementos, roupa ou destinos turísticos sem a mínima objetividade, tornando completamente impossível distinguir uma opinião genuína e acrítica de uma mera transação comercial. A amizade simulada transforma-se em publicidade; a intimidade, numa vitrine.

Mas o problema não é apenas a banalidade do conteúdo. Por baixo deste circo reside uma infraestrutura de vigilância extraordinariamente sofisticada. A Comissão Federal do Comércio dos EUA concluiu que plataformas como o TikTok, o YouTube e o Facebook recolhem enormes quantidades de informação tanto sobre utilizadores como sobre não utilizadores, podem retê-la indefinidamente, adquirir dados de intermediários e partilhá-la amplamente. O objetivo fundamental é rentabilizar esse conhecimento através de publicidade direcionada.

Cada pausa, cada deslize, cada vídeo reproduzido e cada reação servem para completar um perfil. As plataformas não precisam que publiquemos nada — basta que olhemos. Na verdade, o afastamento dos utilizadores da participação ativa não significa necessariamente que estejam a abandonar as aplicações. Muitos deixam de falar, mas continuam a percorrer passivamente o conteúdo como zombies, como se as suas vidas e felicidade dependessem disso. É o triunfo perfeito deste modelo: menos conversa, menos comunidade e mais consumo silencioso.

É por isso que o facto de milhões de pessoas estarem a publicar menos não significa que as redes sociais estejam a recuperar a sanidade. Significa que o contrato social em que se basearam foi quebrado. Continuamos a iniciar sessão em plataformas originalmente concebidas para nos ajudar a relacionarmo-nos, mas já não encontramos lá as pessoas que procurávamos. Em vez disso, encontramos anúncios, propaganda, esquemas fraudulentos de todos os tipos, polarização, conteúdo produzido em massa e recomendações concebidas para provocar qualquer emoção suscetível de prolongar a nossa sessão.

Tal como escrevi ao descrever as redes sociais como uma experiência falhada, o problema não é que estas plataformas estejam a funcionar mal — é que funcionam exatamente como o seu modelo de negócio exige. E, no caso da Meta, pensar que alguns ajustes cosméticos, melhores controlos parentais ou novas opções de privacidade são suficientes é ignorar completamente a raiz do problema.

As redes sociais prometeram conectar-nos, mas acabaram por isolar-nos em silos, constantemente observados por máquinas que leiloam a nossa atenção. Já não resta nada de «social», apenas entretenimento sem fim, competição exaustiva e um sistema de vigilância que conhece as nossas fraquezas para nos poder vender algo no momento mais oportuno. Talvez seja por isso que já não publicamos nada: porque, finalmente, percebemos que ninguém está a prestar atenção. Apenas os algoritmos, a observar-nos em silêncio.

domingo, 19 de julho de 2026

REFLEXÃO

VAI NA VOLTA, FICA O LUCRO
Ana Inês Patrício, Sapo.

Cartoon: P eter Kuper.

“(…) A lei que criou o sistema de depósito foi aprovada pela Assembleia da República em 2018 e mandava que ele fosse obrigatório a partir de Janeiro de 2022. Arrancou em Abril de 2026. Quatro anos a empurrar com a barriga uma obrigação legal, enquanto o país continuava a deitar fora dois mil e cem milhões de embalagens por ano. E a mesma lei mandava incluir o vidro. O vidro ficou de fora, por decisão política, apesar de ser o material que está no topo da hierarquia europeia de resíduos e aquele em que Portugal mais falha as metas de reciclagem. Guardem este pormenor, que ele volta mais à frente.

Depois, a gestão. A entidade que gere o Volta é uma associação fundada pelos produtores de bebidas e pelas empresas do retalho. Dito de outra maneira: quem coloca o plástico no mercado desenha e administra o sistema que o recolhe. Não estou a insinuar ilegalidades, a entidade é sem fins lucrativos, está licenciada e é supervisionada pelo Estado. Estou apenas a fazer o que qualquer jurista aprende a fazer com o primeiro contrato que lê: seguir o dinheiro.

E o dinheiro diz o seguinte. Os depósitos que os consumidores pagam e nunca recuperam, porque a lata estava amolgada, porque a máquina estava avariada, porque não havia ponto de recolha por perto, porque a vida é curta demais para andar com lixo no carro, ficam no sistema e são reinvestidos na atividade da própria entidade gestora, desde que as metas de recolha sejam cumpridas. A imprensa já fez as contas: com a meta de 90%, o próprio modelo prevê que uma em cada dez embalagens não regresse, o que pode representar cerca de 21 milhões de euros por ano. O manual técnico da própria entidade gestora não esconde nada disto: as embalagens rejeitadas pelas máquinas devem seguir para o ecoponto amarelo, "considerando-se o depósito perdido", assim mesmo, palavra por palavra. E se uma máquina avariar, só ao fim de 72 horas de inatividade é que as embalagens podem, note-se o verbo, podem, ser recolhidas manualmente ao balcão. Repare-se na elegância do mecanismo. Cada fricção do sistema, cada máquina parada, cada rejeição, cada desistência, traduz-se em dez cêntimos que ficam do lado de lá.

Há ainda outra peça, menos visível. A lei europeia obriga a que as garrafas de plástico incorporem uma percentagem mínima de plástico reciclado: um quarto já hoje, perto de um terço em 2030. E o plástico reciclado com qualidade alimentar é escasso e caro. O Volta resolve o problema: garante à indústria matéria-prima de primeira, recolhida garrafa a garrafa, com o trabalho, a paciência e o depósito adiantado de milhões de consumidores. Nós carregamos o saco; o material com valor volta para quem o vendeu. Chama-se a isto economia circular. Às vezes, olhando bem, parece mais um circuito fechado.

O Estado, esse, também tem as suas contas. Desde 2021, cada país da União Europeia paga a Bruxelas 80 cêntimos por cada quilo de embalagens de plástico que não recicla. Portugal, que recicla menos do que a média europeia, já entregou mais de 600 milhões de euros por essa via, cerca de 200 milhões só num ano. O Volta ajuda a baixar essa fatura no único fluxo em que é fácil baixá-la. O resto continua a pagar-se, calado, com o dinheiro de todos nós.

E é aqui que chegamos à pergunta que qualquer pessoa faz na fila do supermercado, de saco na mão. Se isto é pelo planeta, porquê só as garrafas e as latas? O supermercado está cheio de plástico. A cuvete da carne, a película do queijo, o copo do iogurte, a fruta embalada em plástico dentro de plástico, tudo isso continua sem caução, sem máquina, sem conferências de imprensa. A resposta oficial fala das contagens de lixo nas praias, onde as garrafas e as tampas aparecem sempre nos primeiros lugares. E é verdade. Mas há outra resposta, menos confessável: a garrafa de plástico e a lata de alumínio valem dinheiro no mercado da reciclagem; a película da carne, contaminada e feita de vários materiais colados, vale zero ou menos do que zero. O critério de seleção não foi o perigo. Foi o valor. O plástico que dá lucro ganhou um sistema de 150 milhões de euros. O plástico que não dá continua no ecoponto amarelo, com as taxas de sempre. Quanto à fruta embalada, o regulamento europeu só a proíbe, e apenas abaixo de quilo e meio, a partir de 2030. A garrafa de água foi promovida a inimigo público número um não por ser o pior plástico, mas por ser o único que compensa recolher.

Falta falar de quem paga sem poder devolver. Quem vive no interior paga os mesmos dez cêntimos de caução que quem vive ao lado de um hipermercado, mas pode não ter uma máquina a menos de muitos quilómetros. A associação de defesa do consumidor já avisou: para essas pessoas, a deslocação pode custar mais do que o retorno. Uma caução cega, cobrada a todos, devolvível apenas a alguns.

E há um direito de que ninguém fala, a começar por quem tinha o dever de o publicitar. O reembolso em numerário pode ser sempre exigido. A máquina despacha-nos com um talão que parece amarrar o dinheiro à loja, mas esse talão pode ser trocado por dinheiro vivo ao balcão, sem obrigação de gastar lá um cêntimo. Está no manual da entidade gestora, está no desenho legal do sistema, e a DECO confirma-o. O que não está é nos ecrãs das máquinas nem nas campanhas. Dois meses depois do arranque, a DECO avisava que os consumidores continuavam sem saber que podiam exigir o dinheiro. Um direito que não se comunica é um direito que se espera que ninguém use. E cada talão esquecido na carteira, passado o ano de validade, é mais um depósito que fica do lado de lá.

Não chamo a isto greenwashing, porque seria fazer vista grossa a uma parte da verdade: o sistema vai reciclar mais e melhor, e ainda bem. O que aqui se passa é mais subtil e, por isso, mais interessante. É a velha operação de transformar uma responsabilidade estrutural num gesto individual, agora com caução à cabeça.

A senhora da lata amolgada sai da loja a sentir que falhou qualquer coisa ao planeta. Não falhou nada. O sistema é que lhe falhou a ela, e foi desenhado por quem fica com o material que ela devolve e com o depósito que ela perde. Enquanto discutimos se a tampa está presa e o código de barras legível, ninguém faz a única pergunta que a hierarquia europeia de resíduos manda fazer primeiro: porque é que continuamos a produzir 2,1 mil milhões de embalagens descartáveis por ano, e porque é que o vidro reutilizável, que resolveria parte do problema pela raiz, ficou a ver navios? (...)”

BICO CALADO

Foto: Thomas Kienzle/AFP/Getty Images

“Sabem o que ensinam os professores antes de um exame? Leiam atentamente as perguntas todas antes de começar a responder a cada uma delas, no fim revejam o exame todo, se há uma questão difícil passa para a próxima, e volta a esta mais tarde. Verifica os erros ortográficos. Dorme e come bem antes do exame. Quando sair a nota fazemos a correcção colectiva, na aula, e em cada exame está a correcção individual, se tens dúvidas vem falar comigo no final da aula e ficamos a ver juntos o exame e, ao teu lado, demonstro o que está mal, bem, o que podia ser melhor.

Sabem o que disse o Ministro aos professores? Classifiquem dia e noite itens de resposta múltipla e perguntas ignorantes, não podem ver o exame todo, não durmam nem comam, se não há resposta classifiquem na mesma, se não há nota dêem na mesma, classifiquem em vez de corrigir, não sublinhem nem apontem os erros, basta classificar métricas, se o aluno tem dúvidas paga 25 euros.

O buraco destes exames é de longe o momento mais baixo da história da educação deste país porque este buraco não é sobre educação. É sobre “competências” (não conhecimento, nem currículo) para o mercado de trabalho automatizado – mede a quantidade de vezes que o aluno carregou num botão e mandou o computador fazer algo, mede a quantidade de vezes que o professor carregou num botão e mandou o computador fazer algo. Que é o que se espera deles no mercado de trabalho: se forem ser cozinheiros no Carregado carregam num botão; se forem montar drones para matar na Palestina carregam num botão; se forem montar carros na Auto Europa carregam em botões. Mas – e aqui chegámos com a IA – se forem jornalistas ou professores carregam em botões. Chegámos ao pompt. (…)

É irrelevante, diz o Ministro, se a nota saiu, se há erros da IA na escolha múltipla, se faltam folhas, o que interessa é que saia, mandou ele! Que todo este teatro seja afixado, enquanto uma mão cheia de oportunistas, com o qual este Ministro se reuniu estas semanas e acenou com a cenoura, se prepara para em setembro começar a carreira de director não eleito, e com um salário mínimo de 4 mil euros. Por isso “deram o seu melhor” para dia e noite esta fraude (assim o dizem os grandes pedagogos), este escarro na cara dos professores, alunos e pais, ser realizado.

Não chegámos aqui do nada. As grelhas e os excel demenciais, os descritores de avaliação métrica; na Universidade os papers parcializados contam mais do que livros; nas crianças os jogos de vídeo, as play stations, os reels; na medicina, o médico a preencher descritores no computador em vez de nos tocar e olhar; no jornalismo a “isenção” da linguagem, padronizada, e os comunicados de imprensa; tudo isto abriu portas ao massivo número de dados da IA e à maior operação de proletarização das classes intelectuais da história do capitalismo, e do treinamento das crianças para “gostarem” de estar horas a fio de pescoço dobrado a carregar, como viciados em cocaína, em botões.

A epidemia de saúde mental que se vive no mundo é o reflexo da alienação massiva introduzida pela metrificação da vida e IA. Mas a resistência começou já – há manifestações por esse mundo fora contra a IA, os centros de dados, o tempo ao computador, a manipulação das crianças e jovens. Resistiremos. (…)” Raquel Varela, Vamos amar-nos sem parar.

LEITURAS MARGINAIS

ESTÃO A LANÇAR UM NOVO COINTELPRO PARA O SÉCULO XXI
Caitlin Johnstone, Substack. Rev. O’Lima.


O regime de Trump anunciou uma nova cruzada contra o «terrorismo de extrema-esquerda», o que pode parecer aceitável se não se souber que a palavra «terrorismo» significa sempre e apenas «comportamento que vai contra as agendas do império ocidental».

Os EUA impuseram sanções à relatora especial da ONU Francesca Albanese por chamar a atenção para as atrocidades israelitas em Gaza, alegando que a especialista em direitos humanos «manifestou apoio ao terrorismo». No Reino Unido, a polícia tem vindo a deter pessoas sob a acusação de terrorismo apenas por segurarem cartazes com a mensagem «Oponho-me ao genocídio, apoio a Palestine Action».

Em 2024, o governo dos EUA retirou a recompensa de 10 milhões de dólares sobre o antigo líder da Al-Qaeda, Ahmed al-Sharaa (também conhecido como Abu Mohammad al-Jolani), porque este ter facilitado os planos de mudança de regime de Washington na Síria, onde é agora o presidente em exercício. É possível ser, literalmente, um líder da rede terrorista mais notória do mundo e, mesmo assim, ver essa designação evaporar-se assim que se começa a apoiar as ambições geoestratégicas do império.

A Casa Branca anunciou ter lançado «uma ofensiva global sem precedentes contra a ameaça transnacional do terrorismo da esquerda radical», no âmbito da qual «o extremismo de extrema-esquerda será tratado com a mesma seriedade e ferocidade que o mundo há muito reserva ao terrorismo jihadista».

O jornalista Ken Klippenstein relata que, de acordo com documentos divulgados do Departamento de Estado de Marco Rubio, os grupos a serem visados ao abrigo das novas ordens incluirão «redes violentas de extrema-esquerda e anarquistas e outros atores extremistas violentos», bem como «redes violentas pró-iranianas e antissemitas» e «movimentos militantes antitecnológicos e ecoterroristas».

Esta medida baseia-se num memorando da Casa Branca conhecido como NSPM-7, uma diretiva sobre a qual os críticos vêm alertando há meses devido às suas implicações perigosamente autoritárias e à falta de aprovação do Congresso. Nas palavras do conselheiro de Trump, Stephen Miller, a NSPM-7 «ordena, pela primeira vez na história dos EUA, que todas as nossas agências de aplicação da lei e de informações secretas trabalhem em conjunto para desmantelar, identificar, privar de financiamento, excluir do sistema bancário, deter e processar judicialmente estes terroristas políticos que operam no nosso país».

Esta formulação reproduz a linguagem de um memorando do FBI de 1967 que descrevia os objetivos do programa COINTELPRO, de J. Edgar Hoover, para «expor, desmantelar, desviar, desacreditar ou, de outra forma, neutralizar as atividades de organizações e agrupamentos nacionalistas negros de caráter odioso».

Entre 1956 e 1971, o FBI liderou operações secretas no âmbito do COINTELPRO para se infiltrar e minar grupos de direitos civis negros, o Partido Comunista dos EUA, organizações de protesto contra a Guerra do Vietname e grupos feministas, com o objetivo de erradicar qualquer movimento político de esquerda significativo nos EUA. É claro que as autoridades federais nunca deixaram completamente de levar a cabo tais programas — sabe-se que grupos como o Occupy Wall Street e o Black Lives Matter foram alvo de vigilância policial e infiltração. Mas é evidente que os conservadores na Casa Branca têm como objetivo algo muito mais agressivo, e o diretor do FBI, Kash Patel, parece muito entusiasmado com a oportunidade de se tornar o J. Edgar Hoover do século XXI.

«O Secretário Rubio presidiu à Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político — sob a liderança do Presidente Trump, este FBI tem tido o orgulho de apoiar este importante trabalho através do Memorando Presidencial de Segurança Nacional (NSPM) n.º 7, que concentra os esforços das forças policiais federais na investigação e desmantelamento de organizações envolvidas em violência política e terrorismo», afirmou Patel no Twitter a respeito da mais recente escalada.

Assim, parece que os EUA estão a preparar-se para um COINTELPRO revitalizado para a década de 2020, desta vez com drones policiais e vigilância em massa apoiados por IA. À medida que os americanos se tornam cada vez mais hostis em relação ao belicismo dos EUA, cada vez mais fartos do Estado de Israel, cada vez mais convencidos de que o seu governo não se preocupa com eles e cada vez mais descontentes com o que o capitalismo desenfreado está a fazer às suas contas bancárias, à sua sociedade e ao seu mundo, os seus governantes estão a responder com o punho de ferro da tirania.

E o que torna tudo isto especialmente ameaçador é que sabemos que quaisquer medidas que eles implementem enquanto os republicanos estiverem no poder permanecerão em vigor quando os democratas assumirem o poder, porque é função do Partido Democrata impedir qualquer movimento para a esquerda nos EUA. Esta será mais uma daquelas inúmeras ocasiões em que os republicanos fizeram algo perverso e os democratas simplesmente mantiveram a situação em segredo, nos bastidores, para proteger os interesses do império capitalista. Porque é essa a sua função.

Mas o facto de isto estar a acontecer, para começar, deve inspirar esperança, não desespero. Os gestores do império não estão a intensificar o autoritarismo porque é fácil e divertido; estão a fazê-lo porque precisam. Sabem que estão a perder o controlo e sabem que são amplamente superados em número pelos seres humanos comuns que apenas querem um mundo melhor para os seus filhos. Estão com medo. E estão com medo porque estão a perder.

Continuemos a lutar.

sábado, 18 de julho de 2026

BIODIVERSIDADE: PROMESSAS VAGAS DE EMPRESAS SÃO GERALMENTE ENGANADORAS

  • Apenas 13% dos compromissos em matéria de biodiversidade assumidos por 180 grandes empresas «chave» são suficientemente detalhados para permitir uma verdadeira prestação de contas, de acordo com um estudo da Universidade de Oxford e do Stockholm Resilience Centre publicado na revista One Earth. Embora 79% destas empresas influentes tenham assumido algum tipo de compromisso em matéria de biodiversidade, a maioria das promessas é demasiado vaga, carece de metas mensuráveis ou baseia-se em evidências seletivas ou enganosas. Isto torna impossível avaliar se as empresas estão efetivamente a reduzir o seu impacto nos ecossistemas. Fonte.
  • A crescente tendência de pavimentar os jardins da frente para criar entradas de garagem está a contribuir para o aumento das temperaturas noturnas nas zonas urbanas. Superfícies duras e impermeáveis, como o asfalto e o betão, absorvem uma grande quantidade de radiação solar durante o dia (até 95 %) e libertam lentamente esse calor armazenado durante a noite, tornando as zonas urbanas significativamente mais quentes. Isto contribui para o efeito de ilha de calor urbana, levando a noites desconfortavelmente quentes que podem dificultar o sono. A solução será substituir as entradas de garagem pavimentadas por espaços verdes, como relva. O benefício é ainda maior quando se plantam árvores, o que pode duplicar o efeito de arrefecimento. Fonte.
  • A Southern Water foi multada em mais de 7 milhões de libras por ter despejado águas residuais ilegalmente ao largo da costa de Kent entre 2019 e 2021. Fonte.
  • Índia põe em funcionamento o primeiro comboio a hidrogénio. O comboio é composto por duas carruagens motoras a hidrogénio e oito carruagens rebocadas, com uma capacidade total para cerca de 2 600 passageiros. Cada carruagem motora alberga células de combustível, baterias de fosfato de ferro e lítio e cilindros de armazenamento de hidrogénio que funcionam em conjunto para fornecer potência de tração, garantindo simultaneamente um funcionamento fiável em condições operacionais variáveis. Cada vagão motor fornece 1,2 MW de potência de tração, proporcionando, em conjunto, uma potência combinada de 2,4 MW, suficiente para impulsionar todo o comboio a velocidades até 110 km/h. Fonte.

REFLEXÃO

CENTRAIS FOTOVOLTAICAS NO SOLO NÃO!

Ourique.

O governo decidiu criar um mapa de zonas de norte a sul do território continental onde se facilita o processo de instalação de “unidades de produção de energia renovável” e que pode ocupar 7% do território nacional.

A DGOT estima em 5% a área urbana e artificializada do país, alguma da qual, essa sim, sem ónus ambiental, poderia ser utilizada para o desenvolvimento da energia solar e deveria constituir prioridade para promover a transição energética! Ora o PSZAER prevê cerca de 7% do solo continental para a energia solar fotovoltaica!

De Norte a Sul aparecem projectos, e instalações, de centrais fotovoltaicas.

Em cima de telhados, armazéns, fábricas, pedreiras, minas, nos eixos rodoviários ou ferroviários, nos aeroportos, não será problema. Estou de acordo e podem ser uma boa alternativa.

O PROBLEMA está nas que ocupam vastos espaços de solos, centenas e centenas de hectares. Admite-se que possam vir a ocupar milhares e milhares de hectares!!!

Claro que as empresas deste negócio preferem sempre solos aplanados e sem pedregosidade… Sai mais barato para esse negócio.

Para a sua instalação é destruída a flora e a fauna existentes. Aquilo que é a função do solo e da vegetação, também na fixação do Carbono, é eliminada.

O solo é um bem limitado. Esses espaços ocupados pelas placas fotovoltaicas deixam de ter qualquer utilização agrícola ou florestal.

Com frequência, alteram os limites da Reserva Ecológica Nacional (REN) para passarem os licenciamentos. São atribuídos PINs, projectos de interesse nacional, para ultrapassarem as condicionantes da Reserva Agrícola ou da Ecológica…

Destrói a paisagem rural que deixa de ter qualquer atractividade.

Não permite a natural infiltração da água nos solos, o abastecimento dos aquíferos. As águas da chuva deslizando sobre os painéis podem provocar mais arrastamento de solo e eventualmente inundações estranhas e prejudiciais.

Em Antuzede (Coimbra) já houve queixas pelas enxurradas. Os moradores reclamaram que a falta de escoamento das águas se agravou com a construção da central fotovoltaica (Diário de Coimbra, 16/09/3023).

Em Souselas e Brasfemes, a Cimpor quis instalar placas fotovoltaicas num espaço florestal, em vez de utilizar as suas próprias pedreiras, nomeadamente nas áreas já exploradas, ou os telhados da sua fábrica. A Junta de Freguesia de Brasfemes opôs-se, mas a Câmara Municipal de Coimbra deixou passar.

Os exemplos de destruição de espaços florestais sucedem-se de Condeixa a Sines, na Beira Baixa, em muitos, demasiados, concelhos.

Em Itália o governo proibiu por Decreto-lei, e bem, a instalação de fotovoltaicas em solos agrícolas (Portal Energia, 22/05/2024). E em Portugal?

Bem ao contrário do que agora está em cima da mesa com a “consulta pública”, é urgente legislação que impeça a utilização de solos agrícolas e/ou florestais para a instalação destas placas fotovoltaicas.

São um negócio, um mau negócio, em que mais uma vez as populações são ignoradas. No solo, são um ATENTADO AO AMBIENTE.

LEITURAS MARGINAIS

A COMPOSIÇÃO QUÍMICA DA IGNORÂNCIA

«Esqueçam o que eu disse antes! Comam mais disto! Faz-vos bem... e faz bem ao país! Espalhem-no em tudo!»

Francisco Lima brindou-nos com uma verdadeira disenteria cerebral. Primeiro, diz que falar da contaminação prejudica a imagem da ilha Terceira. Depois, incapaz de rebater os factos, refugia-se no apelido do autor, como se a composição química de um osso dependesse de árvores genealógicas ou de cartões partidários. Felizmente, a ciência não depende do estado de espírito do Chega nem do humor de Francisco Lima.

Considera agora inaceitável que o Vice-Presidente do Governo apoie uma tese sobre a contaminação apenas porque quem a desenvolve, sendo formado na área, é filho e irmão de pessoas ligadas ao CDS. Pela lógica de Francisco Lima, um investigador só merece credibilidade se tiver nascido numa qualquer tribo isolada da Amazónia, sem família, sem contactos e sem nunca ter conhecido o próprio pai.

O Chega já nos habituou à sua iliteracia cientifica. Francisco Lima voltou a confirmá-la. Ainda assim, deixo-lhe uma nota de descanso: os esqueletos estudados por Félix Rodrigues estão ao serviço da ciência. Já os esqueletos que Francisco Lima guarda no armário (é uma metáfora, não vá o visado
ter dificuldades com figuras de estilo) contam uma história bem diferente. Félix Rodrigues procurou respostas e produziu conhecimento para a sociedade. Bem pior é legislar em matérias
que podem beneficiar interesses próprios. E o mesmo Chega que se apresenta como paladino da luta contra a corrupção, onde os corruptos são sempre os outros, nunca eles, porque se julgam donos da virtude. É também o mesmo Chega que tem um deputado, Francisco Lima, a legislar sobre glifosato enquanto é proprietário de uma empresa que comercializa produtos à base de glifosato. Confesso que a sua literacia cientifica me preocupa. Ainda acaba a beber glifosato por achar que faz bem à flora intestinal.

A ciência não precisa da aprovação de Francisco Lima para existir. Precisa apenas de investigadores que procurem a verdade. Já Francisco Lima precisa que a verdade se adapte às suas conveniências. Os factos têm um defeito terrível: não votam, não militam e não se deixam intimidar pela ignorância.