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domingo, 17 de maio de 2026

EUA: ELEFANTES ESMAGAM CAÇADOR MILIONÁRIO

  • Caçador de animais de grande porte e milionário norte-americano morre após ser esmagado por manada de elefantes. Era um colecionador de troféus. Fonte.
  • Um transbordamento do sistema de esgotos mistos lançou mais de 10 milhões de galões de esgoto não tratado no porto de Boston, depois que fortes chuvas sobrecarregaram partes da antiquada rede de esgotos de Massachusetts. De acordo com a Autoridade de Recursos Hídricos de Massachusetts, a descarga ocorreu pelo emissário da Baía de North Dorchester, responsável pelo tratamento conjunto de águas pluviais e residuais. Quando as tempestades são severas, esses sistemas podem transbordar e liberar os efluentes diretamente nos corpos d'água. As autoridades emitiram alertas de saúde pública, orientando os moradores a evitar nadar nas praias e zonas costeiras afetadas por pelo menos 48 horas, devido aos altos níveis de bactérias. Grupos ambientalistas destacaram que as chuvas cada vez mais intensas estão tornando esses transbordamentos mais frequentes, reforçando a urgência de melhorias na infraestrutura. Fonte.
  • Um centro de dados consumiu 30 milhões de galões de água sem que ninguém se apercebesse, até até que os residentes se queixaram da baixa pressão da água. Os residentes de Fayetteville, na Geórgia, notaram uma baixa pressão da água no ano passado. A empresa de serviços públicos descobriu duas ligações de água não registadas num dos maiores complexos de centros de dados do país. Fonte.
  • O que Hanói aprendeu ao eliminar os gradeamentos dos seus parques e abrir as portas a todos. Fonte.
  • Uma empresa mineira do Dakota do Sul cancelou um projeto de perfuração nas Black Hills, na sequência da oposição manifestada por tribos indígenas americanas e grupos locais. Fonte.

REFLEXÃO

QUANTO VALE UM MORCEGO?
Dale Manning, Anya Nakhmurina e Eli Fenichel, The Conversation. Trad. O’Lima.

Foto: Liz Hamrick/TVA

A maioria dos americanos tende a pensar nos morcegos apenas por volta do Halloween, mas a economia dos EUA beneficia destes mamíferos voadores peludos todos os dias.

Os morcegos polinizam as plantas, incluindo muitas culturas alimentares importantes, quando se detêm nas flores para beber néctar. O seu guano é extraído das cavernas para servir de fertilizante. E comem muitos insetos – tanto os que incomodam as pessoas (como os mosquitos) como outros que destroem as culturas das quais os humanos dependem para se alimentar.

Infelizmente, as populações de morcegos estão a diminuir rapidamente na América do Norte. Um dos principais fatores é uma doença fúngica conhecida como síndrome do nariz branco, que se espalhou entre os morcegos por todos os Estados Unidos. Quando uma população de morcegos entra em colapso, há menos morcegos por perto para comer os insetos incómodos. Todos esses insetos adicionais podem causar danos graves.

Assim, quando os morcegos desaparecem, as explorações agrícolas tornam-se menos produtivas, e isso tem implicações amplas para a economia agrícola, a saúde humana, os governos rurais e até mesmo os mercados financeiros.

Os morcegos adoram comer os insetos que incomodam as pessoas

Primeiro, pense na quantidade de insetos que os morcegos comem. Uma fêmea reprodutora do morcego-castanho-grande pode comer o equivalente ao seu peso corporal em insetos todas as noites no verão, precisamente quando os agricultores estão a cultivar alimentos.

Um desses insetos é o besouro do pepino, que se desenvolve a partir do gorgulho do milho – um flagelo dos campos de milho dos EUA. O gorgulho do milho destrói enormes quantidades de milho no Centro-Oeste e no Sul dos EUA todos os anos, apesar de os agricultores gastarem mil milhões de dólares anualmente em pesticidas para controlar os surtos.

Morcegos-de-cauda-livre-mexicanos saem da Gruta Bracken Bat, perto de San Antonio, no Texas, para uma noite de caça aos insetos. No verão, a gruta abriga a maior colónia de morcegos do mundo. Foto: Ann Froschauer/Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA

Uma colónia de 150 morcegos-castanhos-grandes pode consumir 600 000 besouros-do-pepino num único ano. Se cada fêmea de besouro-do-pepino – assumindo que metade são fêmeas – comesse 110 larvas de gorgulho-da-raiz, uma colónia típica de morcegos-castanhos-grandes impediria a produção de 33 milhões de gorgulhos-da-raiz.

Os agricultores sofrem prejuízos económicos quando as concentrações de larvas de broca excedem cerca de 0,5 por planta de milho. As densidades de plantação típicas excedem as 30 000 plantas de milho por acre no Centro-Oeste. Por conseguinte, as larvas de broca que teriam eclodido poderiam causar danos em mais de 800 hectares de milho – se os morcegos não estivessem por perto para comer primeiro os besouros do pepino. Trata-se de uma contribuição significativa para o controlo de pragas por parte dos morcegos!

A síndrome do nariz branco

No inverno de 2006, o fungo causador da síndrome do nariz branco, o chamado Pseudogymnoascus destructans, foi detetado pela primeira vez nos EUA, perto de Albany, Nova Iorque. A partir daí, espalhou-se por todo o país, infetando 12 espécies de morcegos, três das quais estão listadas como ameaçadas de extinção ao abrigo da Lei das Espécies Ameaçadas. Um estudo de 2010 revelou que a síndrome do nariz branco tinha matado entre 30% e 99% dos morcegos nas colónias infetadas.


Em março de 2026, o fungo causador da síndrome do nariz branco já tinha sido detetado em 47 estados, chegando a atingir a Califórnia, Washington e Oregon. A síndrome do nariz branco propaga-se principalmente através do contacto entre morcegos, embora os seres humanos também contribuam para a propagação quando os espeleólogos transportam o fungo de uma caverna para outra.

Apesar dos esforços coordenados das agências estaduais e federais de vida selvagem para limitar o acesso às cavernas onde vivem os morcegos e retardar a transmissão, a síndrome do nariz branco continua a propagar-se rapidamente. Quando os morcegos são infetados, acordam mais cedo da hibernação e gastam mais energia durante o inverno. Isto esgota as suas reservas de gordura e leva-os a morrer de fome, resultando numa queda acentuada das populações.

O papel dos morcegos na produção alimentar

Após a chegada da síndrome do nariz branco a uma região, a diminuição da população de morcegos tem consequências significativas para os agricultores.

Os rendimentos diminuem à medida que as pragas consomem as culturas. Para proteger as suas culturas, os agricultores adquirem mais pesticidas químicos, pelo que as suas despesas aumentam à medida que os rendimentos diminuem. As perdas agrícolas estimadas decorrentes da síndrome do nariz branco ultrapassavam os 420 milhões de dólares por ano em 2017.

Um morcego-de-nariz-curto-pequeno (Leptonycteris curasoae) a alimentar-se de uma flor de agave no Arizona, espalhando o pólen da flor ao fazê-lo. Foto: Rolf Nussbaumer/imageBROKER

O aumento do uso de pesticidas está também associado a problemas de saúde humana que podem ser evitados se as populações de morcegos se mantiverem saudáveis.

A perda de morcegos prejudica financeiramente os governos locais

A história não se limita às explorações agrícolas. Os distritos de todos os estados dos EUA tributam os terrenos agrícolas com base no seu «valor de uso» – isto é, com base na rentabilidade desses terrenos para a agricultura. Sem populações saudáveis de morcegos, a diminuição dos lucros reduz a base tributária, deixando os governos dos condados com menos receitas.

Esses governos têm de responder reduzindo serviços, aumentando impostos ou aumentando o montante que pedem emprestado – muitas vezes a um custo de financiamento mais elevado. O efeito é especialmente pronunciado nos distritos rurais, onde a agricultura representa uma grande parte das receitas do imposto predial.

A nossa investigação recente revela que as autarquias rurais perderam quase 150 dólares por pessoa em receitas anuais após o aparecimento da síndrome do nariz branco. Para um município rural de dimensão média, isso representa quase 2,7 milhões de dólares em receitas perdidas por ano.

Como a perda de morcegos pode afetar os mercados de obrigações

A perda de receitas municipais deixa os investidores em obrigações municipais nervosos. Comprar um título municipal é um pouco como emprestar dinheiro ao município, e a taxa de juro é o que o município lhe paga por assumir esse risco.

Quando os morcegos desaparecem, o risco aumenta e o município tem de pagar cerca de 11,47 centésimos de ponto percentual a mais em juros. Isso pode parecer pouco, mas é 27% superior ao prémio de risco típico que os investidores já exigem dos governos municipais.

A taxa de juro mais elevada aumenta os custos de financiamento para os governos municipais. Por exemplo, os custos de financiamento de um título típico de 15 anos no valor de 1 milhão de dólares aumentariam em mais de 33 000 dólares.

Rendimentos mais elevados significam também preços mais baixos das obrigações para os investidores, incluindo os fundos de pensões. Por exemplo, a nossa investigação sugere que os investidores desvalorizariam uma obrigação de 1 milhão de dólares emitida por um município rural em quase 14 000 dólares se os morcegos desse município tivessem sido infetados pela síndrome do nariz branco.

Benefícios económicos da preservação dos morcegos

A boa notícia é que os benefícios decorrentes de populações saudáveis de morcegos criam oportunidades para gerar receitas através da conservação dos morcegos.


BICO CALADO

  • Estupefacção absoluta na redacção da RTP pelos argumentos usados pela direção de informação liderada por Vítor Gonçalves para justificar a censura a declarações de uma idosa no Mercado de Benfica, em Lisboa, transmitidas no Dia do Trabalhador numa reportagem corriqueira sobre inflação e custo de vida. Em causa estava uma peça da jornalista Soraia Ramos, transmitida no Telejornal das 20h00, cuja versão exibida apenas uma hora depois na Notícias 21 já surgia amputada da intervenção final. Fonte.
  • Há momentos em que a História parece escrita por um bêbedo com sentido de humor. A fina flor do capitalismo global, que passou décadas a explicar ao mundo a inevitabilidade moral e económica do mercado livre, apareceu agora disciplinadamente e humildemente em Pequim. Tesla e SpaceX (Elon Musk), Nvidia (Jensen Huang), Apple (Tim Cook), BlackRock (Larry Fink), Blackstone (Stephen Schwarzman), Boeing (Kelly Ortberg), Cargill (Brian Sikes), Citigroup (Jane Fraser), General Electric (Larry Culp), Goldman Sachs (David Solomon), Micron (Sanjay Mehrotra) e Qualcomm (Cristiano Amon), todos representados pelos seus respetivos sumos-sacerdotes corporativos acompanhados por Donald Trump, deslocaram-se até ao “Chairman” do Partido Comunista Chinês para implorar por negócios. Durante décadas disseram ao Ocidente que o comunismo era uma anomalia destinada a desaparecer. Hoje fazem fila à porta dele. No fim, o capitalismo não derrotou o comunismo. Foi pedir-lhe ajuda para o próximo semestre fiscal. RiseUp Portugal.
  • O governo dos EUA, através de agências como a USAID e a Fundação Nacional para a Democracia (NED), juntamente com a Fundação Open Society, está a financiar secretamente uma rede de meios de comunicação «independentes» em Cuba, no âmbito de uma iniciativa destinada a promover uma mudança de regime. Os media que se apresentam como imparciais, tais como o CubaNet, o ADN Cuba e o Diario de Cuba, receberam milhões de dólares em subvenções dos EUA. Por exemplo, o ADN Cuba recebeu mais de 3 milhões da USAID desde 2020, e o Diario de Cuba recebeu 1,3 milhões entre 2016 e 2020. Os jornalistas destes media apoiados pelos EUA recebem salários extremamente elevados (até dez vezes superiores aos dos jornalistas da imprensa estatal), o que os torna algumas das pessoas mais ricas da ilha. O seu conteúdo é regularmente citado pelos principais media ocidentais como reportagem «objetiva», divulgando, na prática, as narrativas do Departamento de Estado dos EUA. Fonte.
  • André Ventura alvo de cinco processos de contra-ordenação por violação da Lei das Sondagens durante as Presidenciais. Fonte.
  • Trump diz ter arrasado o Irão em todos os domínios e acusa um repórter do NYTimes de traição por contestar essa ‘verdade’. Fonte.
  • Um artigo de opinião do «New York Times», da autoria de Nicholas Kristof, analisa a violência sexual sistemática praticada por Israel contra detidos palestinianos. Istrael vai processar o jornalista e o jornal. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

PÂNICO DO HANTA: MAIS UM RATO A BORDO
Ricky Lanusse, Medium. Trad. O’Lima.


A minha mãe enviou-me uma foto tirada do seu terraço: mais um «ratón colilargo». O rato-pigmeu-de-cauda-longa, Oligoryzomys longicaudatus. Por estas bandas, as pessoas identificam-no primeiro pela versão mais simples: o rato-hanta.

Ela não está com medo. Está farta. O sacaninha andou outra vez a comer as nozes e as maçãs das árvores do seu jardim, tratando o terraço como um buffet, o pomar como uma filial da Whole Foods, a casa como um spa entre refeições.

Para alguém fora da Patagónia, a foto provavelmente pareceria uma pequena história de terror. Um rato de cauda longa em tábuas de madeira. Um transmissor. Um aviso. Algo para partilhar num grupo de chat com demasiados pontos de exclamação.

Aqui, o sentimento é mais antigo e menos cinematográfico.

Vês o animal e a tua mente abre o arquivo: galpões, pilhas de lenha, cabanas, excrementos, poeira, luvas, máscaras, lixívia, espaços fechados, bambu em flor, proliferação de roedores e a palavra «hantavírus» a repousar silenciosamente no fundo da garganta.

Está lá desde que me lembro.

A Patagónia não precisa de um navio de cruzeiro para saber que este vírus existe. Temos vivido com o risco da mesma forma que as pessoas vivem com avalanches, incêndios, pumas, árvores a cair, estradas em mau estado e mudanças climáticas repentinas. Não entras em pânico todas as manhãs. Aprendes onde colocar as mãos. Aprendes o que não varrer. Aprendes que a natureza não se torna mais segura só porque lhe deste um folheto.

Então o mundo fica em alvoroço porque três pessoas morrem num navio.

O MV Hondius partiu de Ushuaia a 1 de abril, navegando do extremo da Argentina em direção a Cabo Verde. Em pouco tempo, a história deixou de ser uma questão local sobre florestas e roedores e passou a fazer parte do discurso global sobre surtos, passageiros, portos, rastreio, testes, avaliação de riscos e aquele leve tremor de nervosismo que ainda percorre o mundo sempre que um agente patogénico surge no contexto das viagens internacionais.

De repente, o navio de cruzeiro holandês tornou-se o pano de fundo de toda a história, ativando o sistema nervoso pós-COVID.

A Patagónia foi tratada como a fonte do problema porque todas as histórias, tal como o pangolim, precisam de um vilão.

E, de um momento para o outro, todos exigiam um quadro claro do perigo: onde tinha começado, para onde se tinha espalhado, onde traçar uma fronteira para que o resto do mundo pudesse voltar a sentir-se seguro.

O rato-pigmeu-de-cauda-longa no terraço da minha mãe (fotografia tirada pela minha mãe)

O navio tornou o local global

A primeira coisa a dizer é a mais enfadonha, mas que também é a mais responsável: A COVID é o modelo mental errado. A Organização Mundial de Saúde afirmou que o risco para a população em geral é «absolutamente baixo». O hantavírus não se transmite facilmente através do contacto casual. Não se apanha a doença só porque alguém passa por nós num corredor do aeroporto ou respira perto de nós numa fila do supermercado.

A estirpe associada ao surto no navio é a estirpe Andes, encontrada principalmente em regiões da Argentina e do Chile, incluindo, claro, a minha cidade natal na Patagónia. Esta é a única estirpe de hantavírus em que se documentou a transmissão entre pessoas. Mas, mesmo assim, as condições são específicas: contacto próximo e prolongado, frequentemente em ambientes íntimos ou confinados. Uma cabine de um navio de cruzeiro pode proporcionar exatamente o tipo de proximidade em espaço fechado de que os agentes patogénicos gostam. A vida pública normal, por norma, não o faz.

Portanto, sim, compreendo o reflexo pandémico, mas o vírus e a doença são algo bastante diferente. O surto pode ser grave, cientificamente importante e emocionalmente perturbador. Ainda assim, não se comporta como o SARS-CoV-2.

O Ministério da Saúde da Argentina afirmou que não foi confirmado que a infeção tenha ocorrido na Argentina. A província da Terra do Fogo, de onde o navio partiu, não registou nenhum caso confirmado nos últimos 30 anos. O casal holandês que se acredita estar relacionado com o surto tinha viajado extensivamente pela Argentina, Chile e Uruguai antes de embarcar, incluindo regiões onde a doença é historicamente conhecida. As autoridades planeavam capturar roedores ao longo do percurso para realizar testes.

É assim que uma investigação realmente se desenrola. É um processo lento e sem espalhafato. As pessoas armam armadilhas, recolhem amostras, constroem cronologias e reconstituem o que aconteceu antes de a Internet transformar tudo numa história com um vilão bem definido e um final feliz.

Mas a forma como o mundo reage também diz muito sobre o mundo. Quando um trabalhador rural adoece na Patagónia, o mundo não atualiza a página. Quando um surto numa aldeia mata pessoas longe das rotas de cruzeiro dos viajantes abastados, torna-se uma tragédia local, talvez notícia regional, e depois memória. Quando um navio internacional que transporta passageiros de outros lugares se torna o veículo, a história é elevada a ansiedade global.

O vírus não ganhou maior importância no mar. Em vez disso, tornou-se mais visível para as pessoas que, em terra, tinham o luxo de o ignorar. Essa é a primeira verdade incómoda.

A segunda é que a Argentina conhece bem esta doença. Um surto na Patagónia em 1996 ajudou os cientistas a documentar a transmissão entre pessoas pela primeira vez. Outro surto há quase uma década, também na Patagónia, forneceu provas detalhadas da propagação entre humanos depois de um trabalhador rural infetado ter participado numa festa de aniversário numa pequena aldeia. Onze pessoas morreram.

O mundo está a descobrir um perigo pelo qual o meu povo na Patagónia já pagou com a vida.

A porta continua a alargar-se

O hantavírus não surge nas nossas vidas como uma maldição sobrenatural. Tem uma ecologia. Na Patagónia, parte dessa ecologia começa com a caña colihue, um bambu nativo que pode florescer em massa após longos ciclos. Quando floresce, produz enormes quantidades de sementes. As sementes caem. Os roedores alimentam-se. As populações aumentam. Depois, quando o banquete termina ou a densidade populacional aumenta, os animais deslocam-se. As pessoas daqui sabem como é isso. Chamamos-lhe ratada (pronuncia-se com um «arrrr» muito forte).

Ratos que aparecem em barracões, cabanas, jardins, pilhas de lenha, áreas de compostagem, debaixo de terraços, perto de galinheiros, à volta de árvores de fruto, em locais que os humanos pensavam que lhes pertenciam. E, depois de se empanturrarem, muitos afogam-se nas margens, sedentos e a desmoronar-se por dentro após o seu banquete.

Os impulsos alimentares movem os animais e os animais trazem riscos.

O vírus vive nessa zona de contacto, especialmente através da urina, das fezes, da saliva, do pó contaminado e em espaços fechados onde as pessoas limpam demasiado depressa e respiram muito perto umas das outras. É por isso que os conselhos antigos são de natureza física, quase doméstica.

Pense nos excrementos de roedores como se fossem purpurina. Se os varrer a seco, transformam-se em pó invisível que pode acabar nos seus pulmões. Por isso, primeiro abre-se tudo e deixa-se o local arejar, depois molha-se a sujidade com desinfetante, espera-se um pouco e limpa-se, em vez de a espalhar pelo ar. Tudo isto com luvas e uma boa máscara. Em termos simples, as regras são: arejar, não varrer nem aspirar, pulverizar, esperar, limpar. Essa é a rotina enfadonha que impede que um pequeno problema com animais se transforme num problema hospitalar.

É simples até deixar de o ser.

Porque as pessoas não vivem em condições de laboratório. Vivem em casas com lenha, árvores de fruto, arrecadações, cantos com infiltrações, tábuas velhas, arrumos de inverno, cabanas de turismo, trabalho rural e famílias que limpam quando têm tempo, não quando o cartaz de saúde pública assim o diz.

E agora, as condições climáticas estão a fazer com que esses contactos rotineiros se tornem mais evidentes

A Argentina registou 101 casos de hantavírus desde julho do ano passado, com 32 mortes, de acordo com dados do Ministério da Saúde citados em reportagens recentes. As épocas anteriores apresentaram números mais baixos: 64 casos e 14 mortes entre 2024 e 2025, e 82 casos com 13 mortes entre 2023 e 2024.

Esses números situam-se ainda perto da média anual histórica da Argentina, de cerca de 100 casos, mas o aumento é significativo porque as condições em torno da doença estão a mudar. O aumento pode estar relacionado com o comportamento dos roedores: a seca nos últimos três invernos, seguida de um aumento das chuvas na primavera, mais coberto vegetal e mais alimento para os roedores.

Um mundo mais quente não precisa de inventar novos agentes patogénicos todas as semanas para nos deixar mais doentes. Pode alterar o calendário das chuvas, a sobrevivência dos roedores durante os meses mais frios, a floração das plantas, a migração dos animais, a pressão sobre as florestas, a propagação dos incêndios e o número de ocasiões em que os seres humanos entram em contacto com reservatórios selvagens.

É por isso que o hantavírus é uma história climática, mesmo quando o próprio vírus é antigo.

A interação humana com ambientes selvagens, a destruição de habitats, a expansão dos assentamentos rurais e as alterações climáticas contribuem para o surgimento de casos fora das zonas historicamente endémicas. O aumento das temperaturas afeta a presença do rato de cauda longa, o principal portador na Argentina e no Chile, e faz com que estes roedores possam ser mais capazes de se adaptar às alterações climáticas.


Agora, um possível Super El Niño já se está a formar no horizonte, pronto para aumentar a volatilidade de uma situação de base que deixou de se comportar como um pano de fundo.

A minha família e os meus vizinhos não precisam de um modelo para perceber que algo está a mudar. Eles apenas vêem mais ratos a roer maçãs, o que constitui um problema no jardim. Os relatos informais não são ciência e não devem ser tratados como tal. Mas são frequentemente o ponto de partida da investigação científica.

Continuamos a alargar a porta de entrada.

Quando um velho perigo se torna um incómodo

A reação global ao surto no cruzeiro era previsível, porque o mundo ainda sofre de «PTSD da COVID».

Um agente patogénico num navio. Passageiros internacionais. Mortes. Declarações da OMS. Rotas de viagem. Testes. Isolamento. Um mapa com setas. As pessoas já conhecem esta linguagem visual, e o corpo reage antes de o cérebro ter tempo de distinguir um vírus de outro.

Isso é compreensível. Mas também é perigoso. Porque a história mais fácil é a errada. O hantavírus é grave, mas não se comporta como uma pandemia respiratória. Não se propaga rapidamente em multidões casuais. Não se espalha porque alguém espirra num estádio. A estirpe dos Andes acrescenta a possibilidade de transmissão de pessoa para pessoa, mas em condições muito mais restritas do que a COVID.

Portanto, o surto no MV Hondius é grave. Trata-se do primeiro surto de hantavírus a bordo de um navio documentado, e levanta questões científicas concretas sobre onde ocorreram as primeiras infeções, que tipo de contacto teve lugar a bordo e o que a sequenciação do genoma pode revelar aos investigadores sobre a cadeia de transmissão. A estirpe Andes merece atenção. A Argentina, o Chile, as autoridades europeias e a OMS devem coordenar-se sem que o teatro político interfira. Os passageiros e os contactos próximos devem ser cuidadosamente rastreados. A vigilância de roedores deve ser realizada nos locais onde possa ter ocorrido exposição.

Entretanto, o presidente argentino Milei tem tratado a ciência, a educação e os cuidados de saúde como rubricas descartáveis, como se um país pudesse dar-se ao luxo de pirotecnia ideológica, mas não das instituições que mantêm os factos mensuráveis e as pessoas vivas. Em março, formalizou a saída da Argentina da OMS, replicando o seu ídolo Trump, precisamente no momento em que a cooperação não é um slogan, mas o preço mínimo da segurança.

Uma sociedade que funciona sabe distinguir entre pânico e vigilância. Nós seríamos capazes disso, mas continuamos a entregar o poder a pessoas que vendem a ignorância como coragem, tratam a competência como traição e ensinam o público a confiar mais nos influenciadores do que nos cientistas.

O mundo continuará a perguntar onde é que os passageiros do cruzeiro foram infetados. Mas a resposta mais ampla está à nossa frente há anos, a comer frutos do jardim.

Estamos a criar as condições propícias. Estamos a cortar nas instituições. Estamos a alargar a porta. Depois, fingimos surpresa quando algo pequeno, faminto e vivo entra por ela.

A minha mãe provavelmente enviará outra foto se outro rato de cauda longa aparecer no terraço. Provavelmente ficará irritada outra vez. E algures, longe do seu jardim, alguém chamará a isso uma nova ameaça, porque um velho perigo se tornou subitamente um inconveniente para eles.

sábado, 16 de maio de 2026

OVAR: AUTARQUIAS ACUSADAS DE PRESTAREM INFORMAÇÃO INCORRETA SOBRE ABATE DE ÁRVORES

  • A associação ambiental +Pinhal acusou a Câmara de Ovar e a Junta de Cortegaça de prestarem esclarecimentos incorretos sobre o abate de árvores no Parque do Buçaquinho. O abate é injustificado porque a área (talhões 4 e 5 do Perímetro Florestal das Dunas de São Jacinto) devia ter regressado automaticamente ao Perímetro Florestal das Dunas de Ovar ao abrigo do Decreto n.º 18/2001, dado que não foi utilizada para equipamentos desportivos no prazo de 3 anos. Um plano de requalificação que implica “abate massivo” de árvores é “à partida, um mau plano” e destrói o património natural em vez de o valorizar. As autarquias defendem que o projeto de requalificação preserva a história e memórias do local, mas a associação ambiental contesta a versão oficial e critica a falta de transparência. Fonte.

REFLEXÃO

O SILÊNCIO CÚMPLICE PERANTE O ABATE DAS ÁRVORES EM OVAR
Fernando Almeida, Ovar News.


O recente abate de árvores no Parque de Merendas do Buçaquinho não pode ser tratado como uma simples operação de manutenção florestal. O que aconteceu naquele espaço representa mais um episódio de uma política ambiental marcada pela falta de transparência, pela ausência de escrutínio público e por uma inquietante banalização do corte de árvores em zonas de elevado valor ecológico e social no concelho de Ovar.

O Buçaquinho é muito mais do que um parque de lazer. É um dos poucos espaços naturais onde ainda se consegue encontrar equilíbrio entre floresta, biodiversidade e usufruto público. Durante anos foi apresentado pela própria autarquia como símbolo da valorização ambiental do concelho. Porém, quando chega o momento de justificar o desaparecimento de dezenas de árvores, instala-se o silêncio, surgem explicações vagas e os cidadãos são tratados como meros espectadores de decisões já tomadas.

A Câmara Municipal de Ovar tem obrigação de explicar, com detalhe e frontalidade, quem autorizou os abates, quais os critérios técnicos utilizados, quantas árvores foram efetivamente cortadas e que estudos sustentaram essas decisões. Mais do que isso, deve explicar porque razão a população só toma consciência da dimensão das intervenções quando os troncos já estão no chão.

Mas também o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) não pode continuar refugiado numa postura tecnocrática e distante, como se a gestão florestal pudesse ser feita apenas em gabinetes e mapas administrativos, ignorando a realidade local e a sensibilidade das populações. O ICNF existe para proteger património natural, não para se limitar a validar operações que, aos olhos de muitos cidadãos, parecem cada vez mais agressivas e desproporcionadas.

Nos últimos anos, o que se tem verificado em várias zonas florestais de Ovar é um padrão preocupante de cortes sucessivos que transformam profundamente a paisagem. Áreas densamente arborizadas dão lugar a clareiras extensas, alterando ecossistemas, destruindo habitats e empobrecendo visualmente territórios que demoraram décadas a consolidar-se.

E sempre com o mesmo discurso repetido até à exaustão: “gestão florestal”, “limpeza”, “segurança”, “prevenção”. Conceitos importantes, sem dúvida, mas que não podem servir de argumento automático para justificar qualquer intervenção sem debate público, sem transparência e sem verdadeira avaliação ambiental independente.

Porque importa dizer aquilo que muitos pensam, existe hoje uma crescente sensação de que se corta primeiro e se explica depois, quando se explica… E isso mina a confiança das populações nas instituições que deveriam proteger o património natural coletivo.

Mais grave ainda é a aparente ausência de uma estratégia coerente de reflorestação e recuperação ambiental. Cortar árvores maduras e anunciar posteriormente pequenas ações simbólicas de plantação não resolve o problema. Uma árvore centenária não é substituída por meia dúzia de mudas fotografadas para redes sociais ou cerimónias institucionais. O valor ecológico perdido leva décadas a recuperar, quando recupera.

Num contexto de alterações climáticas, aumento das temperaturas, erosão costeira, perda de biodiversidade e crescente vulnerabilidade ambiental, assistir ao desaparecimento sistemático de árvores adultas deveria preocupar seriamente qualquer entidade pública responsável. As árvores não são obstáculos administrativos nem meros elementos decorativos da paisagem. São infraestrutura ambiental essencial. Produzem oxigénio, regulam temperaturas, fixam carbono, protegem solos e contribuem diretamente para a qualidade de vida das populações.

Por isso, torna-se incompreensível que tanto a autarquia como o ICNF continuem a comunicar estas intervenções quase sempre numa lógica defensiva e minimalista, como se o incómodo estivesse na reação das pessoas e não na dimensão dos cortes realizados.

A população de Ovar merece respeito. Merece informação prévia, acesso aos pareceres técnicos, identificação clara das árvores em risco, planos de reflorestação concretos e fiscalização independente. Merece participar nas decisões sobre espaços naturais que pertencem à comunidade e não apenas assistir ao desaparecimento gradual da sua floresta.

Existe uma diferença enorme entre gerir a floresta e desfigurá-la e, infelizmente, essa fronteira parece estar cada vez mais ténue em várias zonas do concelho.

Ovar construiu parte da sua identidade em torno da natureza, da floresta e da paisagem. Destruir silenciosamente esse património enquanto se multiplicam discursos institucionais sobre sustentabilidade é um exercício de contradição política que os cidadãos começam legitimamente a questionar.

Porque chega um momento em que já não basta plantar algumas árvores para compensar aquilo que se permite destruir. E talvez esse momento tenha chegado.

Quando o som das motosserras se torna mais frequente do que o som do vento nos pinhais, não estamos apenas perante operações florestais. Estamos perante escolhas políticas. E essas escolhas têm responsáveis.

GAZA: INFESTAÇÃO DE ROEDORES CAUSADA PELA DESTRUIÇÃO POR PARTE DE ISRAEL PROVOCA CATÁSTROFE DE SAÚDE PÚBLICA

Foto: Tariq Mohammad / apa images
  • Este ano, foram registados mais de 70 000 casos de infeção em Gaza, com ratos a morderem crianças enquanto estas dormem e doenças de pele a matarem aqueles que não conseguem receber tratamento no estrangeiro. As autoridades de saúde afirmam que um surto de peste já não é uma possibilidade remota. Fonte.
  • Um tribunal federal australiano ordenou que a empresa mineira Fortescue pagasse 108 milhões de dólares ao povo Yindjibarndi pela destruição das suas terras ancestrais, na região de Pilbara, no oeste do país. Esta indemnização fica muito aquém do pedido da Yindjibarndi Ngurra Aboriginal Corporation, que reclamava mais de 580 milhões de dólares por perdas económicas e 580 milhões de dólares por danos culturais. As minas, que geraram receitas estimadas em 80 mil milhões de dólares para a Fortescue desde 2013, tinham sido autorizadas pelo governo da Austrália Ocidental sem o consentimento dos Yindjibarndi. No total, quatro minas a céu aberto, uma linha férrea, um aterro de resíduos mineiros, aterros sanitários e pilhas de materiais foram espalhados por estas terras. Devido aos riscos associados à exploração, foi vedada uma área de 135 km² para impedir o acesso. Fonte.

BICO CALADO

Cartoon: Rodrigo de Matos
  • Os CEOs que viajaram com Trump para a China não são seus acompanhantes; são os diretores do novo sistema económico dominado por grandes empresas de tecnologia e outras multinacionais Quando BlackRock, Apple, Nvidia, Goldman Sachs e Tesla se sentam à mesa com Xi Jinping, não se trata de diplomacia, mas sim do "conselho de administração" de uma nação cujo presidente é meramente um diretor eleito e representante dos grandes negócios. Foicebook, A Oligarquia americana foi à China.
  • Na madrugada desta sexta-feira (15 maio 2026), as forças de ocupação israelitas incendiaram uma mesquita e vários veículos pertencentes a palestinianos na aldeia de Jibiya, a noroeste de Ramallah. Fonte
  • Starmer está arrumado. Para travar Farage, as esquerdas britânicas têm de se unir. David Hearst, MEE.
  • Duas semanas depois, eis que o DE fala do caso em texto assinado por jornalista diferente do da jornalista presente na reunião da assembleia de freguesia de Guetim. «O edil admitiu que o montante em causa é "significativo" para a realidade financeira da freguesia, embora tenha recusado divulgar valores concretos. (…) O autarca fez ainda questão de frisar que o protocolo existente com o SC Espinho é semelhante ao celebrado com os restantes clubes que utilizam o complexo, nomeadamente a AD Guetim e o GD Ronda. "Os três pagam o mesmo montante", assinala, acrescentando que os outros dois clubes não têm qualquer dívida à Junta. (…) deixa um aviso em relação ao futuro. "Se não for cumprido o que estava estipulado, não irá jogar em Guetim", refere. Do lado do SC Espinho, o presidente Bernardo Gomes de Almeida rejeita a ideia de incumprimento deliberado e garante que o clube continua a pagar pela utilização do recinto. (…) O presidente dos tigres assegura ainda que a situação está "muito mais do que regularizada" e mostra-se confiante numa resolução definitiva. "Tudo está e será pago até ao último tostão", garante.»


LEITURAS MARGINAIS

ENCOBRIMENTO DE CRIMES DE GUERRA EM GRANDE ESCALA: 58.º ANIVERSÁRIO DO MASSACRE DE MY LAI
Dr. Gary G. Kohls E Prof Michel Chossudovsky, Substack. Trad. O’Lima.


Esta semana, no auge do genocídio perpetrado por Israel e pelos EUA, comemoramos o 58.º aniversário do Massacre de My Lai, ocorrido a 15 de março de 1968.

Desde a Segunda Guerra Mundial, os ataques contra civis inocentes tornaram-se a marca distintiva das atrocidades cometidas pelos EUA. Lembrem-se do general Curtis LeMay: «Depois de destruir 78 cidades e milhares de aldeias da Coreia do Norte, e de matar um número incontável de civis, [o general] LeMay comentou: “Durante cerca de três anos, exterminámos — o quê? — vinte por cento da população.” Acredita-se agora que a população a norte do imposto Paralelo 38 perdeu quase um terço da sua população de 8 a 9 milhões de pessoas durante a guerra “quente” de 37 meses, de 1950 a 1953, talvez uma percentagem de mortalidade sem precedentes sofrida por uma nação devido à beligerância de outra.” (Brian Willson)

Sem exceção, todas as guerras dos EUA e da NATO têm tido como alvo civis, em violação do direito internacional. É o que se designa por «Responsabilidade de Proteger».

A criminalidade está enraizada na política externa dos Estados Unidos.

A prática de massacres de civis é invariavelmente recompensada. Colin Powell, responsável pelo encobrimento do massacre de My Lai, teve uma carreira «brilhante» nas Forças Armadas. Em 2001, foi nomeado Secretário de Estado na administração Bush. Embora nunca tenha sido indiciado, Powell também esteve profundamente implicado no caso Irão-Contras.

Vale a pena referir que Colin Powell era Presidente do Estado-Maior Conjunto na altura da Guerra do Golfo, que resultou na morte de milhares de soldados iraquianos em retirada, naquilo a que a correspondente de guerra britânica e colaboradora da Global Research, Felicity Arbuthnot, chamou «Operação Massacre do Deserto».

«Os quarenta e dois dias de bombardeamentos intensivos, apoiados por trinta e dois outros países, contra um país com apenas vinte e cinco milhões de habitantes, com um exército jovem e composto por recrutas, com cerca de metade da população com menos de dezasseis anos e sem força aérea, foram apenas o início de um cerco global liderado pelas Nações Unidas, de uma ferocidade quase medieval.»

Nas palavras do General Norman Schwartzkopf, que liderou a Operação Desert Slaughter, “‘Não restava mais ninguém para matar’…


Desde a Guerra do Vietname, ocorreram muitos casos semelhantes ao de My Lai patrocinados pelos EUA. Afeganistão, Jugoslávia, Iraque, Somália, Sudão, Síria, Líbia, Palestina. Para não falar da «Guerra Suja» e dos golpes militares na América Latina.

Numa amarga ironia, em 2018, o Vietname tornou-se um aliado militar «não oficial» dos EUA contra a China.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

REFLEXÃO

O HANTAVÍRUS É UMA QUESTÃO CLIMÁTICA
Emily Atkin, Substack. Trad. O’Lima.

Foto: João Luiz Bulcão / Hans Lucas / AFP via Getty Images

(…) Analisar o impacto climático num surto específico de uma doença é um pouco como analisar o impacto climático num furacão ou incêndio florestal específico enquanto este está a ocorrer. Sem um estudo de atribuição, é realmente difícil identificar a influência exata.

No caso deste surto específico do vírus Andes — a única estirpe de hantavírus conhecida por se transmitir de pessoa para pessoa —, ainda nem sequer sabemos exatamente onde teve origem. Uma teoria que se espalhou rapidamente é que o primeiro doente conhecido foi exposto enquanto observava aves perto de um aterro sanitário nos arredores de Ushuaia, na Argentina, mas as autoridades locais, guias de observação de aves e especialistas médicos têm contestado veementemente essa hipótese, afirmando que provavelmente teve origem mais a norte.

Mas mesmo sem essa informação, podemos falar sobre as condições que tornam os surtos de hantavírus mais prováveis. E, de um modo geral, um planeta mais quente e as doenças infecciosas são uma combinação desastrosa, pelo menos para os seres humanos. Um estudo de 2022 publicado na revista Nature Climate Change concluiu que mais de metade das doenças infecciosas conhecidas já foram, de alguma forma, agravadas pelos riscos climáticos.

Em muitos casos, isso deve-se ao facto de as alterações climáticas permitirem que animais selvagens portadores de doenças se espalhem por locais onde antes não existiam, afirmou o Dr. James Shepherd, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Yale: «À medida que o planeta aquece, à medida que o ambiente aquece, a gama de doenças também muda, porque as doenças tropicais ou subtropicais podem agora tornar-se doenças de climas temperados. Se os seus vetores e os seus hospedeiros puderem deslocar-se para norte, por exemplo — que é o que estamos a ver com as infeções transmitidas por carraças —, então podem chegar a áreas onde nunca tinham sido observadas antes.»

A boa notícia é que o hantavírus não é uma doença tropical ou subtropical, pelo que não corre o risco de se deslocar para zonas temperadas. A má notícia é que já é uma doença global. Há mais de 40 tipos de hantavírus em todo o mundo, e estão presentes em roedores praticamente em todo o lado.

Assim, no que diz respeito às alterações climáticas, os especialistas em doenças infecciosas não estão tão preocupados com a migração dos hospedeiros do hantavírus (termo científico para designar roedores portadores da doença) das zonas tropicais para as zonas temperadas. Estão mais preocupados com a sua migração da natureza para locais onde os seres humanos vivem, trabalham e, de um modo geral, coexistem.

Como as alterações climáticas estão a aproximar os seres humanos dos roedores

Para ser claro: há muitas razões, para além das alterações climáticas, pelas quais os roedores estão cada vez mais a migrar da natureza para locais onde vivem os seres humanos. Em todo o mundo, estamos a abater mais florestas, a expandir mais explorações agrícolas e cidades e a avançar com mais estradas e minas para o interior dos habitats selvagens.

Mas muitos estudos mostram que, para além destes fatores, as alterações climáticas também estão a levar os roedores a um contacto mais próximo com os seres humanos.

Em 2021, o Dr. Douglas ajudou a conduzir uma revisão sistemática da literatura científica sobre o hantavírus e as alterações climáticas. O que ele descobriu foi que, em áreas onde as alterações climáticas estavam a tornar o clima mais húmido, as populações de roedores estavam a explodir. Ele disse-nos: «Quando chove muito, o que acontece? A humidade do solo aumenta, o crescimento das plantas e da vegetação intensifica-se e, consequentemente, aumenta a produção e a disponibilidade de alimentos para os roedores. Assim, verifica-se um aumento exponencial da população de roedores. E quando isso acontece, aumenta o risco de os seres humanos entrarem em contacto, quer diretamente com os roedores, quer indiretamente com o pó contaminado proveniente das excreções dos roedores infetados, sejam estas fezes ou urina. … As inundações também podem expulsar os roedores dos seus habitats, fazendo com que fiquem deslocados e, muitas vezes, acabem por se aproximar das habitações humanas.»

Os roedores e os seres humanos também correm o risco de entrar em maior contacto em locais onde as alterações climáticas estão a agravar a seca. Eis o que diz o Dr. Douglas: «As secas também têm um impacto negativo na disponibilidade de alimentos… Assim, com menos alimentos disponíveis, [os roedores] vão à procura de comida noutro lugar. E o que fazem os seres humanos durante as secas? Particularmente na região da América Latina, armazenam cereais. É aí que se encontra a maior atração para os roedores… [o que] também os coloca em contacto mais próximo com os seres humanos.

Este padrão também se manifestou nos dados relativos a doenças humanas. Um estudo de 2024 publicado na JAMA Network Open descobriu que, após inundações graves na bacia do rio Yangtze, na China, o risco de doença por hantavírus transmitida por roedores permaneceu elevado durante um período de até três anos.

É claro que os dados podem ser complexos. Um estudo realizado no Arizona, por exemplo, revelou que as inundações extremas não beneficiaram a população dominante de ratos-canguru da região — pelo contrário, quase os exterminaram por completo. Entretanto, os ratos-bolso da região sobreviveram e multiplicaram-se, alterando de forma permanente a composição das espécies de roedores que dominavam o habitat.

Assim, o quadro do impacto das alterações climáticas no clima e na população de roedores pode ser complexo. Mas não é a única forma como as alterações climáticas agravam a propagação de doenças infecciosas como o hantavírus.

As alterações climáticas agravam a urbanização e a perda de biodiversidade

As alterações climáticas estão também a agravar outros problemas que contribuem para a propagação de doenças — como o aumento da urbanização ou, por outras palavras, o êxodo de pessoas das zonas rurais para as cidades, onde os roedores prosperam. Eis o que diz o Dr. Shepherd: «Um dos grandes efeitos [das alterações climáticas] sobre nós, enquanto hospedeiros de infeções, é que estamos a mudar-nos. … Mas estamos a mudar-nos porque já não conseguimos sustentar estilos de vida que nos sustentaram durante milénios, como a agricultura de subsistência, por exemplo, em África. Há regiões que estão a ficar demasiado secas, demasiado húmidas ou demasiado imprevisíveis. … Estamos, portanto, a assistir a uma urbanização em grande escala impulsionada pelas alterações climáticas, pela imprevisibilidade e pelas dificuldades em cultivar alimentos num clima extremamente imprevisível. Isto está a resultar numa expansão maciça das cidades, sobretudo nas regiões mais quentes e mais pobres do mundo. Daqui a 50 anos, as maiores cidades do mundo estarão quase todas em África. E prevê-se que algumas dessas cidades cheguem a ter cerca de 100 milhões de habitantes.»

Outro problema que as alterações climáticas estão a agravar é a perda de biodiversidade. O IPCC constatou que, com cada ligeiro aumento da temperatura, o risco de extinção aumenta: a 1,5 °C, estima-se que a percentagem média de espécies em risco muito elevado de extinção seja de 9 por cento; a 2 °C, é de 10 por cento; a 3 °C, de 12 por cento, e assim por diante. Isso não é bom para as doenças.

«À medida que a biodiversidade diminui e os ambientes são devastados, muitas vezes os agentes que transportam e transmitem infeções — hospedeiros e vetores — tendem a tornar-se mais resistentes», afirmou o Dr. Shepherd. «Eles avançam.»

Ainda assim, de um modo geral, os cientistas são claros ao afirmar que é difícil identificar a influência exata das alterações climáticas nesta estirpe específica de hantavírus. Eis o que diz a Dra. Angel Desai, médica especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em Davis: «É complicado porque, embora haja todos estes fenómenos relacionados com o clima, também há toda uma série de outros fatores no contexto do comportamento humano. Por isso, é sempre um desafio conseguir distinguir o que está especificamente relacionado com fatores climáticos e o que está relacionado com os outros fatores. Mas, na minha opinião, acho que tudo está interligado, e é isso que está a impulsionar as mudanças que estamos a observar nas doenças infecciosas.»

A importância de falar sobre a ligação com o clima

Ainda assim, todos os cientistas com quem falei sublinharam que, mesmo que não possamos identificar com exatidão a influência das alterações climáticas no surto do vírus Andes, vale a pena abordar o assunto.

Uma das razões é que, num futuro muito próximo, os meteorologistas prevêem que estamos prestes a enfrentar um dos fenómenos El Niño mais intensos da história registada — um fenómeno agravado pelas alterações climáticas. Isso poderá afetar as populações de roedores em todo o mundo, mas também especificamente na Argentina e no Chile, onde o vírus dos Andes tem origem. Eis o que diz o Dr. Shepherd: «Quando se tem o que vamos ter ainda este ano, um ano de El Niño muito intenso, que vai ser ainda mais forte porque o planeta está muito mais quente do que antes. As populações de roedores nas zonas agrícolas húmidas e chuvosas do mundo tendem a explodir e a sobrepovoar-se, registando aumentos massivos. E isso vai aumentar o número de... agentes patogénicos que transportam e introduzem no ambiente.»

Outra razão pela qual é sensato abordar as alterações climáticas em relação a este surto de hantavírus é que isso realça a necessidade de os governos investirem em modelos de investigação que tenham em conta as alterações climáticas na previsão de surtos de doenças. Eis o que diz o Dr. Douglas: «Porque é que não se consegue prever o risco de doenças infecciosas de forma a ajudar no planeamento e na preparação, tal como se faria para um furacão? Não se quer esperar até que o furacão esteja à porta para garantir que se tem reservas de alimentos e que foram tomadas todas as medidas preparatórias necessárias para minimizar o impacto. Não se trata de o impedir. Trata-se de mitigar e reduzir o risco.»

De um modo geral, os cientistas com quem falei afirmaram que este surto de hantavírus põe em evidência o facto de que as condições para o surgimento de surtos de doenças infecciosas estão a mudar mais rapidamente do que os nossos sistemas de previsão e prevenção desses surtos.

E num mundo afetado pelas alterações climáticas, já não podemos considerar doenças como o hantavírus como algo a erradicar. «No que diz respeito às doenças infecciosas, elas estão aqui para ficar», afirmou Shepherd. «Fazem parte do nosso ambiente. Fazem parte da ordem natural das coisas.»

Isso não significa que os surtos sejam inevitáveis. Significa que o risco de doença é fundamentalmente moldado pela saúde do mundo natural. «Precisamos de reconhecer que não somos os donos», disse Shepherd. «Somos apenas mais um membro de um ecossistema interdependente excepcionalmente complexo.»

A destruição de habitats, a redução da biodiversidade e o rápido aquecimento do planeta não prejudicam apenas a «natureza» num sentido abstrato. Também enfraquecem algumas das barreiras que ajudam a manter os agentes patogénicos afastados das pessoas. E, em última análise, ao perturbar o ambiente de forma tão radical, Shepherd afirmou que é provável que estejamos a contribuir para o surgimento de mais pandemias.

«Temos de reconhecer que fazemos parte de um sistema planetário complexo e biodiverso», disse Shepherd, «e que o perturbamos por nossa conta e risco.»

BICO CALADO

Foto: Nuno Brites
  • “Não sei se o Peregrino Luís foi ali rezar pelo sucesso da Spinumviva, pelo fim das investigações à nebulosa imobiliária com que fintou o fisco e recebeu avenças ou por qualquer outro milagre que Amadeu Guerra não consegue obrar. O CEO da Spinumviva, a implorar a proteção do Céu no Mariódromo de Fátima, pode ter estado a pedir à Senhora que interceda junto do seu divino filho para ser servido de chamar o rival, Passos Coelho, à divina presença, mas não é crível que o Peregrino Luís se deixasse contagiar pela fé como se deixou deslumbrar pelo poder. A desfaçatez de se fotografar em Fátima, de vela na mão, com a consorte e sócia, é um ultraje à laicidade por quem não tem escrúpulos. O Luís, por milagre ou perfídia de Marcelo e insensatez de Lucília Gago, é PM de um País laico, que lhe permite ter a fé que quiser, e não lhe permite a exibição pública para as televisões. O Luís pode saber rezar, pode ser devoto do anjo que poisou no anjódromo onde ontem esteve de vela na mão, mas o que o País espera dele não é que reze, é que resolva o que prometeu, que governe como se soubesse, que substitua as ave-marias e a propaganda por decisões acertadas de governo e pela decência. Para sacristão bastou-nos o anterior PR.” Carlos Esperança, Luís Montenegro (Luís), um tartufo na Cova da Iria.
  • A Polícia Judiciária desencadeou uma operação de buscas relacionada com suspeitas de corrupção em concursos públicos para o aluguer de helicópteros destinados ao combate a incêndios. Um dos visados é Ricardo Leitão Machado, empresário e cunhado do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, proprietário da Gesticopter, empresa que venceu concursos para o fornecimento destes meios aéreos. O empresário está associado à Operação Torre de Controlo, relacionada com alegadas práticas de cartelização entre empresas concorrentes em concursos públicos para meios aéreos de combate aos incêndios. Em causa estarão suspeitas de manipulação de concursos e de aumento artificial dos custos de adjudicação em contratos avaliados em cerca de 100 milhões de euros. Fonte.
  • Restaurar o serviço militar obrigatório? Jovem de 18 anos responde a Pacheco Pereira. José Duarte, Maio.
  • Um tribunal norte-americano suspendeu as sanções impostas à Relatora Especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinianos, Francesca Albanese. O tribunal afirmou que a administração Trump terá violado o seu direito à liberdade de expressão ao impor essas medidas depois de ela ter criticado aquilo que descreveu como uma guerra de genocídio em Gaza. Fonte.