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terça-feira, 11 de agosto de 2026

REINO UNIDO: SUBMARINOS NUCLEARES PROTEGEM POPULAÇÃO?

  • Os submarinos nucleares irão «proteger a população», afirma o primeiro-ministro britânico Andy Burnham numa visita a Barrow para anunciar um investimento de 8,4 mil milhões de libras em mais armas de destruição maciça. Fonte.
  • À medida que a IA consome grandes quantidades de água e energia, já nos vemos perante uma escolha: centros de dados ou residências? John Harris, The Guardian.

REFLEXÃO

O TELHADO CHEGAVA
Ricardo Meireles, Substack. (Resumo: O'Lima)

Academia de Ginástica de Guimarães, classe A++ no sistema LiderA e projectada para ser energeticamente independente. A avaliação do PSZAER enumera as áreas artificializadas como alternativa ao solo rústico. A alternativa já existe, e o mapa ignorou-a. Foto: Ricardo Meireles

Durante um apagão na Península Ibérica, uma casa com painéis solares ligados à rede ficou às escuras, enquanto outra, com painéis e baterias de chumbo num sistema isolado, manteve a luz acesa porque os sistemas ligados à rede desligam-se por segurança quando a rede cai. Mas há aui um truque: o sistema foi desenhado para privilegiar a rede em detrimento da família.

Em 2007, o Estado português incentivou a microprodução doméstica com tarifas bonificadas. Em 2014, esse regime foi revogado e a remuneração passou a ser definida por licitação, sempre a descer. A partir de 2022, os excedentes de autoconsumo ficaram indexados ao mercado grossista, onde o preço da energia frequentemente chega a zero nas horas de sol. Quem investiu viu o retorno fugir.

Entretanto, o Estado manteve intactas as rendas da EDP — 3,4 mil milhões de euros em indemnizações, incluindo 510 milhões consideradas "rendas excessivas". Durante a austeridade, o governo preservou essas rendas para não desvalorizar a empresa antes da sua privatização.

Agora, o Programa PSZAER designa 456 mil hectares de solo rústico para acelerar projetos de energias renováveis, dispensando avaliação ambiental individual. A área necessária para cumprir as metas do PNEC 2030 ronda 1% do território, mas o mapa identifica 7% — sete vezes mais. E, curiosamente, o mapa afasta-se das áreas artificializadas (telhados, cidades) e concentra-se em zonas rurais, muitas delas ocupadas por eucaliptais.

Vai alimentar toda esta área? Tudo aponta para os centros de dados. Só o projeto da Start Campus em Sines prevê 1,2 gigawatts, praticamente um quinto do pico de consumo nacional. Para alimentar um único cliente industrial com solar são precisos 10 a 12 mil hectares de painéis. O cabo submarino da Google anunciado para Sines e os 40 mil milhões de dólares em investimento em IA fazem de Portugal o quintal solar dos EUA.

No fundo, está a sacrificar-se solo que poderia criar húmus, reter água e resistir ao fogo para vender energia barata a compradores que podem mudar de continente. Estamos perante a velha tragédia portuguesa: vender a matéria-prima e ficar sem o valor acrescentado, como aconteceu com a celulose, o azeite, o lítio. "Que país continua a vender a terra a metro quadrado, quando é da terra, e só dela, que vai depender sobreviver ao que aí vem?"

BICO CALADO

Foto: Ronen Tivony/NurPhoto/Shutterstock
  • A Deloitte e a implosão do Ministério da Educação. António Teodoro, Público.
  • Donos do Pingo Doce registam influência nos media: 4.751 notícias valeram 165 milhões. A Fundação Francisco Manuel dos Santos construiu uma extensa presença mediática, com parcerias que alcançam praticamente todos os grandes grupos de comunicação social. O relatório da fundação contabiliza milhares de notícias e atribui-lhes um valor publicitário equivalente de 165 milhões de euros, mas omite aquilo que importa conhecer: quanto é pago aos órgãos de comunicação social no âmbito dessas relações. Página Um.
  • Entrou em vigor o Decreto-Lei n.º 160/2026, de 4 de agostoque altera o Código das Expropriações e atribui às Assembleias Municipais a competência para declarar a utilidade pública das expropriações promovidas pelas Câmaras Municipais, eliminando a necessidade de validação prévia por parte do Governo.

LEITURAS MARGINAIS

DON CORLEONE TRUMP
Chris Hedges, Substack. Rev. O’Lima.

A Casa Branca de Trump gere um esquema de extorsão ao estilo da máfia que vai levar o país à falência, tal como Trump levou os seus casinos à falência.


Visitei o Taj Mahal Casino, de Donald Trump, em Atlantic City, na véspera do seu encerramento, em outubro de 2016. O casino tinha dois enormes portões brancos ladeados por elefantes brancos de pedra moldada, de 2 toneladas cada. A sua entrada era coroada por um conjunto de 70 minaretes de fibra de vidro em tons de turquesa e azul-petróleo e por uma dúzia de cúpulas com pontas douradas. Um letreiro de néon com letras vermelhas e douradas dizia: «Trump Taj Mahal Casino and Resort». Uma fonte iluminada em frente às portas de vidro do casino estava decorada com duas filas de seis urnas brancas e douradas.


O Trump Taj Mahal, o edifício mais alto de Nova Jérsia e o maior casino do mundo, custou 1,2 mil milhões de dólares a construir. As suítes opulentas, aquando da sua inauguração, receberam nomes de figuras históricas — Alexandre, o Grande, Miguel Ângelo, Napoleão e Cleópatra. As suítes custam cerca de 10 000 dólares por dia. Trump, cujo nome e imagem estavam espalhados por todo o casino, recorreu à sua habitual hipérbole para o designar como a «oitava maravilha do mundo». Os operadores do casino receberam instruções para atender as chamadas com as seguintes palavras: «Obrigado por ligar para o Trump Taj Mahal, onde as maravilhas nunca cessam.» As empregadas de mesa usavam trajes de «raparigas do harém».

O casino entrou em falência cinco vezes.

Trump está a fazer ao país o que fez ao Taj Mahal. A sua administração está a funcionar muito acima das suas possibilidades, com um orçamento de 7,4 biliões de dólares para o ano fiscal de 2026, face a receitas previstas de apenas 5,6 biliões de dólares. A idiotice de Trump envolveu os EUA numa guerra interminável e impossível de vencer contra o Irão, o que poderá afundar a economia global. Está prestes a cortar a cobertura de saúde a 15 milhões de pessoas, juntamente com a ajuda alimentar e outros programas de necessidades básicas. Desempregou milhares de funcionários públicos. Encerrou a USAID, o Instituto da Paz dos EUA e o Kennedy Center. Esvaziou a Voz da América e promete encerrar o Departamento de Educação. Retirou-se da Organização Mundial de Saúde e do Acordo de Paris sobre o Clima (duas vezes). Manteve a suspensão do financiamento à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinianos no Próximo Oriente (UNRWA), que tinha sido iniciada durante a administração Biden. Cancelou milhares de projetos de desenvolvimento internacional financiados pelos EUA. Apagou bases de dados governamentais e páginas web relacionadas com o clima. Reduziu drasticamente os orçamentos destinados a iniciativas de energias renováveis, ao mesmo tempo que revogou regulamentos federais relativos às emissões de carbono e à poluição.

As suas políticas de terra queimada, que estão a minar os alicerces da república, são acompanhadas por uma cultura de corrupção e engano sem paralelo na história dos EUA.

Trump, cujos responsáveis enfrentam acusações de abuso de informação privilegiada e cuja família lucrou mais de 1,4 mil milhões de dólares com empreendimentos relacionados com criptomoedas desde que assumiu o cargo, lucra descaradamente com a fusão entre mercados de previsão baseados em criptomoedas não regulamentados e a política, pioneira em aplicações de apostas, como a Polymarket.

A empresa de capital de risco de Donald Trump Jr., a 1789 Capital, é um dos principais investidores na Polymarket, onde ele integra o conselho consultivo. Tem um património líquido estimado em 400 milhões de dólares. Desempenha também funções de consultor estratégico na Kalshi, que lhe concedeu uma participação na empresa no valor de cerca de 300 000 dólares — cujo valor está agora estimado em milhões. A Kalshi anunciou recentemente que permitirá aos utilizadores apostar se a FDA irá aprovar medicamentos específicos como «seguros e eficazes».

A Truth Social, de Trump, está desenvolvendo um mercado de previsões chamado Truth Predict. A sua administração processou Connecticut, Arizona e Illinois na tentativa de impedir que esses estados regulem os mercados de previsões. A Truth Social também lançou um serviço de US$ 100 mil por mês que oferece acesso mais rápido às postagens manipuladoras de mercado de Trump — uma versão disfarçada de insider trading.

A Casa Branca, replicando as extorsões no estilo mafioso da cultura dos casinos de Atlantic City, exige grandes pagamentos de corporações e bilionários em troca de favores políticos e desregulamentação. O Wall Street Journal escreve que Trump acumulou um fundo secreto de US$ 800 milhões para projetos pessoais, incluindo o seu salão de baile, biblioteca presidencial, super PACs e comitês de pautas políticas.

A principal arrecadadora de fundos de Trump, Meredith O'Rourke, apelidada de "a princesa das trevas", recolhe os subornos com a proposta direta: "O chefe quer esse dinheiro." A exigência inegociável foi tirada do manual de Nicodemo "Little Nicky" Scarfo, o chefe da família criminosa Bruno-Scarfo, cujo esquema de extorsão arrecadou milhões de empresas de construção, comércios, bares, restaurantes e sindicatos de Atlantic City — que viram os seus fundos de saúde e bem-estar saqueados — além de casinos. E, assim como a máfia, uma vez nunca é suficiente para o sindicato do crime de Trump. Eles voltam sempre para pedir mais.

Trump, que como a maioria dos mafiosos é acompanhado por uma "comare" muito mais jovem — sendo a mais recente sua assistente executiva Natalie Harp — tem um longo histotial de retaliação no estilo mafioso. Ele emitiu ordens executivas visando escritórios de advocacia que anteriormente empregavam advogados que o investigavam. As firmas perderam credenciais de segurança e acesso aos tribunais federais. Tentando apaziguar Trump, elas submeteram-se covardemente às suas exigências.

Quando cheguei ao casino de Trump, o terminal de autocarros turísticos com 22 vagas estava vazio. A maioria dos 12 restaurantes do casino estava fechada. A arena do casino, com capacidade para 5.500 pessoas, havia fechado as portas.

“Ao entrar no Taj Mahal, freluzentes lustres de cristal austríaco, que custam 14 milhões de dólares cada, pendiam sobre o interior suavemente iluminado”, escrevi em America: The Farewell Tour. “Muitos estavam sem colares de contas. As paredes estavam cobertas de espelhos. Olhei para fileiras de mesas de jogos, mesas de blackjack, roletas e três mil máquinas caça-níqueis que cintilavam com luzes coloridas. As máquinas emitiam bipes, zumbidos e sons de vários tons. Estendiam-se por uma área do tamanho de três campos de futebol. O salão de jogos estava quase vazio. Os crupiês estavam em frente a mesas vazias, cobertas de feltro. A maioria dos jogadores que se acomodavam nas cadeiras almofadadas em frente às máquinas caça-níqueis eram idosos e abatidos. Puxavam alavancas mecanicamente ou apertavam botões quadrados. Olhavam fixamente para as telas giratórias à sua frente. Uma única máquina caça-níqueis gera entre 200 e 300 dólares por dia para o casino. Os jogadores assíduos recebem bebidas de cortesia. As camareiras ocasionalmente entram nos quartos e encontram os cadáveres de homens ou mulheres idosos que passaram horas bebendo mais álcool do que os seus corpos conseguiram absorver. Não é incomum que os jogadores de caça-níqueis se urinem e se sujem.”

“Os dezessete balcões de check-in computadorizados perto da entrada estavam vazios”, continuei. “Um funcionário solitário estava atrás do longo balcão, de frente para cordas vazias. Os sifões das casas de banho, adornados com mármore Carrera, estavam cobertos com sacos plásticos com cartazes dizendo 'Avariado'. Caminhei ao longo do carpete sujo e gasto por corredores longos, desertos e mal iluminados nos andares superiores. Luzes de parede bege semicirculares, algumas com lâmpadas queimadas, estavam colocadas a cada poucos metros de cada lado do corredor. Estavam sujas e rachadas. O teto tinha manchas acastanhadas de água. O ar cheirava a mofo. Três quartos dos 1.250 quartos estavam desativados. O casino parecia um navio fantasma.

O jogo, assim como a universidade fraudulenta de Trump e a sua criptomoeda $TRUMP, consiste em vender fantasias escapistas. Consiste em explorar o desespero das pessoas. Os rolos giratórios das máquinas caça-níqueis, por exemplo, são uma ilusão. Eles não perdem o impulso gradualmente. São programados para parecerem assim. Chips de computador determinam o resultado no momento em que o botão é pressionado ou a alavanca é puxada. O mapeamento virtual dos rolos garante que um símbolo de jackpot apareça acima ou abaixo da linha de pagamento. O jogador tem a impressão de estar quase a ganhar, o que o incentiva a apostar mais dinheiro.

Desde os seus primeiros dias como empreendedor imobiliário, Trump esteve envolvido com a máfia, incluindo o seu advogado implacável, Roy Cohn. Cohn representava Anthony "Fat Tony" Salerno, chefe da família criminosa Genovese, e Carmine Galante, da família criminosa Bananno. Trump foi instruído por Cohn e outros na arte da extorsão, chantagem, ameaças e corrupção. Ao longo da sua carreira, ele cercou-se de mafiosos, vigaristas e bajuladores.

Joseph Weichselbaum, um criminoso reincidente que acabou preso por tráfico de maconha e cocaína, administrava a frota de helicópteros de Trump. Os helicópteros transportavam grandes apostadores de e para os casinos de Trump. Esses grandes apostadores podiam obter tudo o que desejassem, desde sexo com acompanhantes até cocaína. O fácil acesso de Weichselbaum às drogas provavelmente era uma vantagem. Quando Weichselbaum aguardava a sentença, Trump escreveu ao juiz dizendo que ele era "um exemplo para a comunidade". O traficante recebeu uma sentença de três anos, embora tenha cumprido apenas 18 meses. Os correios que entregavam fisicamente as drogas para Weichselbaum receberam penas de até 20 anos. Quando foi libertado da prisão, Weichselbaum mudou-se para a Trump Tower com a sua namorada.

O casino de Trump foi inaugurado em 1990 com um show de Michael Jackson. Era uma extravagância construída com US$ 820 milhões em dívidas insustentáveis, incluindo a emissão de US$ 675 milhões em títulos de alto risco com juros de 14%. Marvin B. Roffman, analista de casinos da empresa de investimentos Janney Montgomery Scott, de Filadélfia, disse ao The Wall Street Journal que o Taj Mahal precisaria de faturar US$ 1,3 milhão por dia para pagar os juros. Nenhum casino tinha arrecadado tanto dinheiro.

“O Taj estava fadado ao fracasso desde o início”, escrevi. “Trump teve logo que arcar com juros de US$ 95 milhões por ano. Ele conseguiu novos empréstimos durante algum tempo e depois faliu. Foi um breve e vertiginoso momento de excessos insanos. Mas foi bom para a sua marca gigantesca, mesmo que tenha demonstrado uma terrível falta de senso comercial. Trump pediu dinheiro emprestado a juros altos e mentiu sobre as taxas para os órgãos reguladores. Trump repassou os prejuízos para os acionistas e detentores de títulos, que foram lesados ​​em mais de US$ 1,5 bilião. Numerosos empreiteiros e fornecedores locais, nunca pagos por Trump, faliram.”

Trump teve sempre sorte. Investiu pouco do próprio dinheiro. Transferiu dívidas pessoais para o casino e recebeu milhões de dólares em salários, bônus e outros pagamentos. Os seus funcionários do casino perderam coletivamente milhões de dólares nas suas economias para a aposentação, além do seus empregos. As suas dívidas comerciais foram repassadas para os seus investidores.

Trump possuía três casinos em Atlantic City e um em Gary, Indiana. Os casinos Trump Plaza e Trump Taj Mahal foram fechados. O Trump Marina, seu terceiro casino, foi vendido para o bilionário texano Tilman Fertitta. Fertitta, atualmente embaixador de Trump na Itália, renomeou-o para The Golden Nugget. O cassino de Trump em Indiana, uma embarcação de 104 metros chamada Trump Princess, declarou falência em 2004. Todos fracassaram devido à ganância insaciável e à má administração de Trump.

Trump está fazendo com a nação o que fez com o Taj Mahal. Ele está explorando e extorquindo as organizações que supervisiona para obter lucro pessoal, enquanto o resto do país nós fica desolado no meio de ruínas.

sábado, 8 de agosto de 2026

ITÁLIA: PLATAFORMA COM 121 SENSORES MONITORIZA ESTUFAS AGRIVOLTAICAS

  • Uma equipa de investigação italiana desenvolveu um sistema de monitorização para estufas agrivoltaicas que integra 121 sensores distribuídos por três subsistemas principais: monitorização do desempenho do sistema fotovoltaico, monitorização do microclima da estufa e dos parâmetros ambientais, e gestão automatizada da irrigação: (1) Monitorização do desempenho fotovoltaico – Mede a irradiância, a temperatura dos módulos, a iluminância, a temperatura do ar, a humidade e os níveis de CO₂ para avaliar tanto a produção de energia como o impacto do sistema nas condições de cultivo. Utiliza também sensores de luz para inclinar automaticamente os módulos fotovoltaicos com seguimento solar para uma posição quase vertical quando os níveis de luz descem abaixo de um limiar definido. (2) Deteção do microclima e do ambiente – Utiliza nós de sensores distribuídos a várias alturas no interior e acima da estufa, além de uma estação meteorológica externa, para monitorizar a temperatura, a humidade, o CO₂, a radiação fotossinteticamente ativa, a iluminância e a irradiância. (3) Gestão automatizada da irrigação – Monitoriza a humidade e a temperatura do solo, o caudal de água e a pressão, e regula automaticamente a irrigação em cada setor da estufa utilizando um algoritmo de humidade do solo de limiar duplo O sistema foi testado num ambiente operacional real, numa estufa agrivoltaica piloto em Pontinia, no centro de Itália, no âmbito do projeto REGACE, financiado pela UE. Fonte.
  • A habitação social de Le Corbusier era para ser um sonho. Num verão de calor extremo, é um pesadelo. Anna Richards, The Guardian.

REFLEXÃO

A MÁSCARA DA TRANSPARÊNCIA CAIU

Foto: Mila Brigas/Universidade FM

Enquanto nos vendem a "transição verde" como a salvação do planeta, nos bastidores do poder, em Bruxelas, o jogo é outro. A recente condenação da Comissão Europeia pela Provedora de Justiça Europeia, Teresa Anjinho, expõe uma realidade sombria: o povo está a ser mantido no escuro enquanto projetos mineiros gigantescos avançam sobre as nossas terras, as nossas águas e o nosso futuro.

A Provedora de Justiça Europeia não usou meias palavras. Concluiu que a Comissão Europeia cometeu um caso de má administração. O crime? Recusar o acesso público a documentos ambientais cruciais sobre projetos de lítio classificados como "Estratégicos". Entre eles, a nossa já bem conhecida e polémica Mina do Barroso, em Boticas.

Bruxelas tentou esconder-se atrás do argumento de que as candidaturas das mineiras eram "comercialmente sensíveis". Mas Teresa Anjinho foi implacável: essa comparação é inadequada. Estes projetos não são simples concursos comerciais; são decisões de interesse público com impactos devastadores na vida das pessoas. Ao inspecionar os ficheiros, a Provedora descobriu que muito do que Bruxelas dizia ser "secreto" era, na verdade, informação genérica ou já pública. Então, porquê o secretismo? O que é que eles não querem que o povo saiba?

Mina do Barroso: O Epicentro da Revolta

A Mina do Barroso tornou-se o símbolo desta luta. Classificada como "Estratégica" por Bruxelas, o projeto da Savannah Resources tem sido empurrado goela abaixo dos portugueses. A organização ClientEarth e a União de Defesa de Covas do Barroso (UDCB) têm denunciado o que parece ser um atropelo sistemático das salvaguardas ambientais.

Como pode um projeto ser "estratégico" se destrói a biodiversidade, ameaça os recursos hídricos e ignora a vontade de quem lá vive? A decisão da Provedora de Justiça é uma vitória moral para estas comunidades, mas é também um alerta: se Bruxelas reconhece um projeto como estratégico, tem a obrigação de explicar ao público como é que os impactos ambientais serão monitorizados e resolvidos. Até agora, a resposta tem sido o silêncio e as portas fechadas.

O Triângulo do Lítio em Portugal: Barroso, Romano e Argemela

Mas o escândalo não fica por aqui. Além do Barroso, o povo português enfrenta outras duas frentes de batalha: a Mina do Romano, em Montalegre, e a Mina da Argemela, no Fundão. Estes três projetos formam um triângulo de incerteza e medo.

A inclusão destes projetos em listas "estratégicas" da União Europeia, muitas vezes através de processos pouco claros e com indícios de pressão política, é um insulto à democracia. O projeto "Lift One", da Lifthium Energy, focado no processamento, também se junta a esta lista. A pressa de Bruxelas em garantir o "ouro branco" para as baterias europeias está a criar zonas de sacrifício em Portugal.

Onde Está a Proteção do nosso Povo?

A pergunta que todos fazemos é simples: por que mãos andamos a ser governados? A Comissão Europeia, que deveria ser a guardiã dos tratados e a defensora dos cidadãos, parece estar mais preocupada em satisfazer os interesses das grandes mineiras do que em proteger o ambiente e a saúde pública.

A invocação da Convenção de Aarhus, que garante aos cidadãos o acesso à informação ambiental, foi ignorada por Bruxelas sob o pretexto de que os dados eram "hipotéticos". A Provedora de Justiça discordou frontalmente: as emissões futuras são previsíveis e os dados são objetivos. Esconder estes dados é uma violação direta dos direitos dos cidadãos europeus.

Não Seremos Zonas de Sacrifício

Esta reportagem não é apenas sobre minas; é sobre governança, ética e dignidade. Não podemos aceitar que a transição energética seja feita à custa da destruição das nossas comunidades e do secretismo institucional.

O povo não pode ser tratado como um obstáculo ao progresso, mas sim como o seu principal beneficiário. Se Bruxelas quer lítio, tem de o fazer com transparência total, com respeito pelas leis ambientais e, acima de tudo, com o consentimento de quem vive na terra.

BICO CALADO

Foto: Javier Aparicio/EPA
  • "A cunha que resultou. A exceção de Salazar para os condes de Sabugosa. Um dos pilares da ponte caía sobre a propriedade dos condes de Sabugosa, que inclui um palácio e um jardim. A família, com acesso direto a Salazar, ficou alarmada e moveu influências para preservar a propriedade, conta Luís F. Rodrigues em A Ponte Inevitável. O próprio Salazar intercedeu a favor - um desvio no pilar salvou a propriedade." Fonte: Revista Sábado 5-11 agosto 2026.
  • “(…) Portugal produz, e em grande escala, comentadores. Não é uma produção qualquer. É uma produção intensiva. Quase industrial. Enquanto outras nações extraem minerais do subsolo, nós extraímos conclusões a todas as horas do dia e da noite. (…) A Suíça tem montanhas. A Arábia Saudita tem petróleo. Nós temos opiniões. E quem tem opiniões tem “opinadores”. E fazemos deste recurso a nossa melhor indústria. (…) Porque, e observando atentamente o país, percebe-se que já não existem acontecimentos. Existem apenas pretextos para interpretar. (…) Os gregos inventaram a democracia. Os romanos inventaram o direito. Portugal inventou a mesa-redonda permanente. A nossa verdadeira instituição nacional já não é o Parlamento. É o painel. (…) E o painel é uma criação genial. Reúne quatro pessoas visionárias que discordam em absoluto umas das outras para explicarem, durante uma hora, que a realidade confirma precisamente aquilo que cada uma delas pensava antes dos factos acontecerem. Isto é uma forma superior de conhecimento. Aristóteles acreditava que a observação devia preceder as conclusões. Nós ultrapassámos essa fase primitiva. As conclusões já vêm prontas de fábrica. Os acontecimentos limitam-se a confirmar a encomenda. (…) Imagine-se a perda de tempo que seria esperar pelos factos. Os factos são lentos. As convicções são imediatas. E vivemos numa época que valoriza a produtividade. (…) E nem sequer é necessário conhecer profundamente os temas abordados. Essa é práxis antiga. O comentador contemporâneo não trabalha com conhecimento. Trabalha com posicionamento. O conhecimento exige investigação, e isso cansa. O posicionamento exige apenas rapidez, e isto é produção em grande escala. É por isso que os grandes comentadores conseguem falar com igual autoridade sobre geopolítica, educação, habitação, energia, futebol, inteligência artificial, sistemas eleitorais, alterações climáticas, fertilizantes agrícolas, a sexualidade na menopausa e o comportamento reprodutivo do ornitorrinco. (…) O país gosta de ser explicado. Aliás, suspeito que gostamos mais de explicações do que de soluções. As soluções possuem um defeito irritante: exigem pensar. E o pensamento exige trabalho. (…) Se um dia desaparecer a agricultura, não tenho dúvida de que iremos sobreviver. Se desaparecer a indústria, facilmente nos iremos adaptar. Se desaparecer o turismo, reinventamo-nos. Mas se desaparecerem os comentadores, Portugal ficará perante um problema verdadeiramente existencial. (…) Não quero sequer imaginar tal cenário. Seria o caos. Milhões de cidadãos abandonados à terrível responsabilidade de pensar por conta própria. (…)” Luís Ochoa.

LEITURAS MARGINAIS

PORQUE É QUE NÃO HÁ NENHUM FILME DE HOLLYWOOD SOBRE O BOMBARDEAMENTO DE NAGASAKI?
Walt Zlotow. Rev. O’Lima.


No filme de 1952 «Above and Beyond», o ídolo do cinema Robert Taylor interpretou o coronel Paul Tibbetts, uma figura saída diretamente da Central Casting, que pilotou o Enola Gay para lançar a primeira bomba atómica sobre Hiroshima há 81 anos. Todos nós crescemos a admirar Tibbetts, o «Enola Gay» e a missão perfeita que incinerou Hiroshima com a primeira bomba atómica lançada em ato de guerra. A minha admiração acabou por se transformar em repulsa perante um crime de guerra hediondo.

Mas quem pilotou o avião que lançou a segunda bomba atómica sobre Nagasaki apenas três dias depois? A história americana apagou em grande parte a saga da missão de Nagasaki, por uma boa razão. Foi uma falha colossal que quase levou o piloto a ser julgado em tribunal marcial; na verdade, quase detonou a bomba atómica de Nagasaki, a «Fat Man», sobre o Pacífico, durante o voo.

Os problemas começaram logo no início. Paul Tibbetts, ainda entusiasmado com o seu sucesso em Hiroshima, escolheu o seu amigo Charles Sweeney para pilotar o avião de lançamento «Bockscar», em vez do seu piloto habitual, Fred Bock. Sweeney não estava familiarizado nem com o combate nem com o avião. Ao preparar-se para a descolagem, Sweeney não conseguiu operar o depósito de reserva que continha 640 galões de combustível, necessários para que o Bockscar regressasse em segurança ao seu ponto de descolagem em Tinian. Bock talvez tivesse a familiaridade necessária com o avião para o conseguir. Os regulamentos exigiam que a missão fosse cancelada, pelo que Sweeney e a tripulação saíram do «Bockscar». Mas Tibbetts ignorou a recomendação e a missão prosseguiu com combustível insuficiente.

Três horas depois, surgiram problemas ainda piores. As luzes vermelhas de detonação da «Fat Man» começaram a piscar freneticamente. O chefe de armamento, Dick Ashworth, procurou freneticamente nas plantas e percebeu que dois interruptores tinham sido invertidos durante a montagem pré-voo. Depois de resolver esse problema, todos relaxaram até que o «Bockscar» não conseguiu encontrar-se com o segundo dos dois aviões de apoio, um para fotografia e outro para instrumentos. O avião de instrumentos, o «Big Stink», estava a 9 000 pés acima do «Bockscar». Em vez de prosseguir para o alvo original, Kokura, Sweeney desperdiçou 45 minutos de combustível precioso a tentar estabelecer contacto. O piloto do «Big Stink», Hoppy Hopkins, quebrou o silêncio de rádio, contactando freneticamente Tinian e perguntando: «O Bockscar caiu?» Os responsáveis pela missão apenas ouviram «Bockscar Down» e entraram em pânico, acreditando que o Bockscar, o «Fat Man» e a tripulação de 13 membros estavam no fundo do mar.

Ashford estava em pânico, pensando que tudo estava perdido. À medida que a tensão aumentava entre o responsável pelo armamento e o piloto, acabou por convencer Sweeney a prosseguir para o alvo principal, Kokura. Mas uma cortina de fumo lançada pelos defensores japoneses, em resposta ao ataque a Hiroshima, obrigou Sweeney a dar a volta para uma segunda e terceira passagem de bombardeamento, desperdiçando combustível. Mais problemas. O fogo antiaéreo e os Zeros japoneses que se aproximavam forçaram Sweeney a abandonar Kokura para fugir 100 milhas até ao alvo alternativo, Nagasaki.

Feito o lançamento, Sweeney fez uma descida desesperada para evitar a nuvem em forma de cogumelo que quase os engolfou. Mas os seus atrasos anteriores tornaram impossível a viagem de regresso a Tinian. Com pouco combustível, Sweeney iniciou um voo perigoso de 450 milhas, com o combustível a esgotar-se, em direção a Okinawa. Todos a bordo do Bockscar prepararam-se para uma aterragem forçada. Ao aproximar-se do aeródromo de Okinawa, sem conseguir comunicar por rádio a sua emergência à torre de controlo, o Bockscar teve de efetuar uma aterragem forçada no meio de inúmeros outros voos, sem autorização da torre de controlo. O Bockscar saltou 25 pés no ar, aterrando a 30 MPH acima da velocidade máxima de aterragem, quase colidindo com uma fila de B-24 carregados de combustível. Um motor parou durante a aproximação e outro no momento do contacto com o solo. Pensando que o «Bockscar» estava perdido, o pessoal do aeroporto perguntou que avião estranho era aquele que tinha descido do céu sem aviso prévio. «Acabámos de lançar uma bomba atómica», foi a resposta.

Não houve celebrações para a tripulação do Bockscar. As autoridades ponderaram submeter Sweeney a um tribunal marcial devido aos atrasos que colocaram em risco a sua vida e a missão, mas perceberam o embaraço que isso causaria e decidiram não o fazer. Porquê manchar o primeiro bombardeamento nuclear de civis, executado na perfeição por Paul Tibbetts e o Enola Gay?

Embora nunca venhamos a ver uma adaptação hollywoodesca da missão da bomba atómica do Bockscar, seria muito mais emocionante do que «Above and Beyond». Um título apropriado? «Quase a falhar sobre Nagasaki».

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

HUNGRIA: BAIXO NÍVEL DE ÁGUA NO DANÚBIO FORÇA ENCERRAMENTO DE CENTRAL NUCLEAR


A Hungria está a preparar-se para o racionamento de eletricidade, uma vez que os níveis vertiginosamente baixos da água do rio Danúbio forçam a única central nuclear do país a encerrar completamente. A central de Paks, que fornece até 40% da eletricidade do país, depende do Danúbio para o arrefecimento e não dispõe de um fornecimento de água de reserva. «Estamos a enfrentar os cinco dias mais críticos», disse o primeiro-ministro Péter Magyar numa mensagem de vídeo no domingo. «A partir de amanhã, a central nuclear de Paks deixará de gerar eletricidade, precisamente quando chegam os dias mais quentes, com temperaturas a atingir os 40 °C. O nosso sistema elétrico, os nossos serviços públicos e todos nós estaremos sob uma enorme pressão.» Fonte.

REFLEXÃO

ENXURRADAS DE ARROGÂNCIA


Na madrugada de ontem, os Açores voltaram a sentir a omnipotência da Mãe Natureza que, interrompendo o silêncio da noite, descarregou sobre nós o clarão dos relâmpagos, o estrondo dos trovões e a força da água que caiu em enxurrada.

Estes processos, tal como os incêndios quando não têm mão humana, fazem parte dos ciclos de regeneração da natureza. Como a vida e a morte, também a destruição tem o seu lugar. Da limpeza dos solos nasce frequentemente o renascimento e da aparente devastação regressa a vida. Podemos até dizer que o único elemento verdadeiramente estranho a este ciclo somos nós. Afinal, também a nossa existência é filha de uma grande extinção. Sem o desaparecimento dos dinossauros, dificilmente estaríamos hoje aqui.

Nas últimas décadas, talvez nos últimos séculos, fomos-nos afastando lenta e perigosamente do conhecimento empírico da natureza. Num paradoxo evidente, à medida que o conhecimento científico sobre os ecossistemas se aprofundou, foi crescendo uma arrogância antrópica que nos levou a acreditar que poderíamos moldar o território às nossas conveniências, ignorando os processos naturais que o sustentam. Tornámo-nos simultaneamente vítimas e violadores da natureza, infligindo sobre nós próprios uma lenta automutilação do presente e do futuro.

Muito para lá da discussão sobre as alterações climáticas, frequentemente reduzida a um debate técnico ou ideológico, os incêndios florestais, como entre nós as enxurradas, continuam a ser sobretudo um problema de ordenamento do território e da incapacidade humana de compreender os limites da sua intervenção. A questão essencial não é dominar a natureza, mas aprender a viver com ela. Não como falsos soberanos, mas como participantes de um equilíbrio infinitamente mais antigo do que a nossa própria civilização.

As ribeiras existem para conduzir a água até ao mar. Esse transporte limpa as bacias hidrográficas, alimenta os aquíferos, leva nutrientes aos oceanos e faz parte do funcionamento saudável dos ecossistemas. O problema começa quando ocupamos os seus leitos, impermeabilizamos os solos, desflorestamos encostas, fragmentamos a paisagem ou substituímos a vegetação por usos incapazes de reter a água, como acontece em muitas áreas de pastagem intensiva, sujeitas à fertilização química e ao escorrimento dos inevitáveis xerumes. E agrava-se dramaticamente quando muitos sistemas urbanos continuam a revelar profundas fragilidades no saneamento básico, fazendo das ribeiras o primeiro escape de tudo aquilo que a cidade não consegue, ou não quer, tratar.

O único poluidor somos nós. A natureza apenas transporta aquilo que lhe entregamos.

É por isso que, depois das grandes chuvadas, o mar amanhece castanho. Não porque a natureza tenha mudado, mas porque a água faz aquilo que sempre fez: corre para jusante. Pelo caminho transporta terra e matéria orgânica, mas também plásticos, lixo, detritos, esgotos e todas as marcas da nossa negligência. O mar não produz essa sujidade. Apenas recebe e devolve aquilo que nós lhe entregámos.

Cada enxurrada transforma-se assim num espelho da forma como ocupámos o território. Aquilo que durante meses permanece escondido debaixo do asfalto, nas bermas das estradas, nos terrenos abandonados, nas linhas de água obstruídas, nas deficiências do saneamento urbano ou nas más práticas agrícolas e pecuárias, torna-se subitamente visível em poucas horas. A tempestade não cria o problema. Apenas o ilumina, com a mesma violência com que um relâmpago rasga a escuridão da noite.

E, no entanto, continuamos a discutir exaustivamente os impactos do turismo, multiplicando planos, estratégias e monitorizações, enquanto esquecemos que o maior impacto ambiental continua a ser aquele que produzimos diariamente sobre o nosso próprio território. A verdadeira pressão sobre os nossos mares não começa nas praias cheias de visitantes. Começa muito antes, na forma como construímos, planeamos, drenamos, limpamos (ou deixamos de limpar) as nossas vilas, cidades e paisagens.

Pegando num exemplo que me é particularmente próximo, aqui em frente, no Ilhéu de Vila Franca do Campo, andamos há quase uma década a monitorizar, a debater, a criar planos e comissões de trabalho. Chegámos mesmo a encerrar o Ilhéu durante um ano, prometendo soluções definitivas. E, no entanto, basta uma noite de chuva intensa para as imagens voltarem a falar por si. Basta um dado para percebermos a dimensão do problema: das doze análises oficiais realizadas este ano à água balnear do Ilhéu, apenas três não registaram contaminação por enterococos intestinais e E. coli. Não é o mar que está doente. É a forma como tratamos a terra que o alimenta que corrompe e destrói a saúde do mar.

A natureza não se vinga, nem castiga. Limita-se a obedecer às suas próprias leis. A água desce sempre para o mar. A diferença é que hoje já não leva apenas a fertilidade da terra. Leva também a prova da nossa incapacidade de respeitar os limites da paisagem e da nossa persistente ilusão de que podemos viver acima das regras da própria natureza. A enxurrada não fabrica a nossa negligência. Apenas torna impossível escondê-la.

BICO CALADO

HIROSHIMA, NUNCA MAIS!

  • Os EUA são o único país desenvolvido que não obriga os empregadores a concederem férias pagas aos trabalhadores. E, de acordo com um relatório divulgado na quarta-feira, o americano médio tem menos dias de férias do que o que muitos dos seus pares consideram o mínimo indispensável.
  • A Volkswagen está em negociações com a Rafael Advanced Defense Systems, empresa estatal israelita, sobre a possibilidade de reaproveitar a sua fábrica em Osnabrück após o término da produção de carros de passeio em 2027. A unidade poderia fabricar componentes para o sistema de defesa aérea israelita Domo de Ferro, incluindo lançadores, veículos de transporte e geradores de energia. Fonte.
  • Município de Espinho vai gastar € 22,8 mil em brindes institucionais. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A PONTE 25 DE ABRIL E OS SAUDOSISTAS DO FASCISMO
Carlos Esperança, Ponte Europa.


Há 60 anos, no dia de hoje, foi inaugurada e convenientemente benzida a primeira ponte que ligou Lisboa à margem sul do rio Tejo. Américo Tomás, mordomo do déspota, quis que o apelido do ditador desse o nome à ponte que inaugurou fardado de almirante.
Gonçalves Cerejeira, cardeal e amigo do ditador, com um báculo de dois metros, mitra e um vistoso vestido rendado, rodeado de clero, fascistas e pides, não poupou latim e água benta. Brandiu vigorosamente o hissope, aspergiu a ponte e exibiu o reluzente anelão.
Foi a obra grandiosa no país que então liderava a Europa no analfabetismo, mortalidade infantil e materno-fetal, na pobreza e no atraso. A partir daí, aos lavadoiros, fontanários, caminhos e escolas, o ditador juntou a glória de mandar construir a Ponte com o seu nome.
As prisões estavam cheias de opositores; a emigração clandestina era o destino de quem fugia à miséria; a censura exercia-se nos jornais, revistas, livros, rádio e televisão; em Angola, Moçambique e Guiné continuavam a morrer jovens numa guerra injusta, inútil e criminosa; os Tribunais Plenários tinham juízes com vocação de algozes e em Caxias, Peniche e na R. António Maria Cardoso a tortura era o método de investigação; o poder discricionário da ditadura ia do Minho a Timor.
Faltavam quatro dias aos dois anos que ainda separavam o ditador da queda da cadeira, uma eternidade para quem sofreu a tirania a que não faltou um precário sucessor.
Hoje, os trogloditas que sobraram, e os que nasceram depois, não deixarão de incensar o tirano e gostariam que o seu nome tivesse perdurado na ponte. O 25 de Abril é o chumbo derretido que os dilacera, e a História, embora tarde, fez justiça.
Os nomes de Franco, Hitler e Mussolini também foram banidos da toponímia, a bem da salubridade pública, mas há saudosistas em cujo devocionário se escreve a memória dos carrascos que oprimiram os seus povos.
Há sessenta anos, no dia de hoje, foi aberta ao trânsito a Ponte 25 de Abril. Era sábado.