CARTA AOS PROFESSORES DE TODOS OS GRAUS DE ENSINO EM PORTUGAL.
AOS ESTUDANTES E PAIS DESTE POBRE PAÍS, QUE É TAMBÉM UM PAÍS POBRE.
“(…) As detestáveis reuniões onde impera o silêncio estratégico, ou a alarvidade grunha do espírito de equipa, com professores mais velhos exercendo poder – a vários níveis – sobre os mais novos; professores que sempre se servem do tempo de serviço para jamais reconhecerem a competência científica de alguém mais novo; o compadrio universitário que põe na formação de professores, a dirigir essa formação, numa certa faculdade, quem nunca pensou sobre ensino, nada escreveu e é, como docente, uma prova cabal da ignorância e do carreirismo. Quando tudo cansa por tudo ser em Portugal uma máquina perfeita para os medíocres vencerem sempre, que fazer? Nós, os professores, nós, nós unicamente, invejando o outro, pactuando com a ignorância, cultivando-a, somos os responsáveis por esta degradação absoluta. Os estudantes, no seu português mal falado e mal escrito, na sua viciada vida refém das redes sociais, do tiktok, eles são o espelho da nossa indigência.
Pactuámos com muita coisa e não discutimos o essencial: a nossa prática didáctica, o saber que transferimos para uma geração totalmente divorciada da cultura livresca, da História, das Artes, da Literatura, das Ciências, da Matemática…
Fui ofendido na minha dignidade pessoal e profissional. A minha indignação, proporcional à minha convicção profunda de que a escola só sobreviverá se tiver professores cultos, bem pagos e livres para pensarem, isso traduz-se no meu tom de voz e postura. Não agrado nem tenho de agradar a todos. Não preciso nem quero. Porém, confesso: é triste ver tanta inveja e ódio numa classe que forma pessoas. É triste ver tanta cobardia e tanta forma insidiosa de vender a alma ao diabo. Não pactuo com e não subscrevo o servilismo, humildadezinha, esta portuguesa forma cordata de nunca chamarmos os bois pelos nomes.
Ontem, no Expresso da Meia-Noite fui, sim, duro na contenda com uma deputada da nação que não sabe conjugar verbos, que defende um ministro que mente e acusa uma classe corrompida até à medula, de tanto seguidismo e obediência nos últimos 20 anos. Uma classe que está doutrinada para facilitar, industriada para perseguir e vigiar e punir todo o professor que, culto, livre, original, corajoso, questionador, incomode o lodaçal educativo, denuncie a paz podre de escolas e universidades, de departamentos e grupos…
E não, não falo de mim, mas de muitos que, no seu quotidiano, sofreram processos de delação e perseguição por parte de colegas para os quais o professor é o classificador, o avaliador, o tutor, mas nunca o leitor, o crítico atento, o exigente que não é facilitador de aprendizagens. (…)
Hoje, em 26, pressinto que ao brutalismo e estupidez e cobardia actuais, é o medo que fará o seu caminho. A tutela dividiu-nos, fez-nos adversários uns dos outros. Funcionários pidescos e mangas de alpaca do poder. Não, não irei por aí. O chamado dever de lealdade para com a tutela fere o princípio educativo da liberdade e da consciência.
Não, nunca fui e não serei adepto do digital que, mesmo facilitando, em teoria, processos de classificação, transforma, repito, os professores em funcionários correctores de itens em catadupa, ainda por cima monitorizados. Pressinto que está em processo um sistema tenebroso, de base digital, em que todos seremos vigiados. E não posso aceitar esta classificação imposta, que estudantes e professores não pediram. Exames suspensos, uma suspeição total, a degradante imagem de escolas abertas até à meia-noite, pais e estudantes, tudo num alvoroço que, sustentado por professores, lembra o verso de Cesário “O populacho diverte-se na lama” – tudo isto merece debate profundo, profundíssimo.
Quem somos? Em que é que nos tornámos? Que gerações estamos a preparar? Não posso aceitar exames infantis, de cruzinhas e exercícios básicos e estúpidos exercícios de V/F, de espaços em branco, de correspondências.
Não posso aceitar curricula que estupidificam e, sobretudo, não posso aceitar que, na base, estes exames mintam sobre as competências reais dos estudantes de 26, os quais são brutalizados sistematicamente ao longo de toda a escolaridade obrigatória, chegando à universidade num estado de semi-analfabrutismo. Igualmente deploro o modelo concentracionário de gestão das escolas, antecâmara do regresso do poder totalitário do Reitor e da sua equipa. Isso vai gerar ínvias perseguições, declaradas formas de controlo, evidentes preferências… (…)
Não serei voz de ninguém, pois muitos o poderão fazer. Encerro aqui a minha inscrição no problema maior que temos de resolver. Nas minhas aulas, resolvê-lo-ei. E desejo que a fábrica de cretinos digitais em que a educação se está a transformar vos prove a verdade dita por Ramos Rosa no seu “Estamos nus e gramamos”. Leiam. Boa sorte, colegas.
E aos estudantes, pensem: a quem convém que não saibam escrever e pensar bem? A quem convém que nada leiam e tenham da própria vida uma visão pueril, grosseira, ou meramente sustentada pela sede de dinheiro ou pela mais nefanda incuriosidade?
E aos pais, o meu abraço solidário. Com os vossos filhos enredados nas redes sociais, esmagados por um sistema educativo que raramente os faz amadurecer felizes e conscientes, vós, pais e mães deste país, teríeis de assumir o que é mais duro: que tanto telemóvel, tiktok, digital e tanta rede social destruiu a personalidade de quem mais amam.
Sem hábitos de trabalho, reféns de jogos online, viciados no digital, sem capacidade de se concentrarem, sem nada lerem, os vossos filhos foram assassinados na sua personalidade. Todos nós estamos a pactuar para com o facilitismo, a bestialidade e a degradação dos valores humanistas…