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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

GANA: RESÍDUOS DO PRONTO A VESTIR MUNDIAL SUFOCAM PRAIAS

  • A roupa concebida no Ocidente, produzido na Ásia e descartada pelos consumidores dos países ricos é enviado para o Gana como mercadoria em segunda mão. Uma parte significativa — estimada pela Fundação Or entre 32% e 42% do vestuário que entra no mercado de Kantamanto — é invendável e transforma-se em resíduos. Há pescadores que agora pescam «roupas» em vez de peixe. Os resíduos, que podem formar cordas enormes semelhantes a cimento, afugentaram as tartarugas marinhas e tornaram difícil o lançamento dos barcos. O sistema de gestão de resíduos de Acra não consegue dar resposta a este afluxo. A cidade gera cerca de 70 toneladas de resíduos têxteis por dia, que são frequentemente arrastados pelos esgotos e canais diretamente para o oceano durante chuvas intensas. Várias iniciativas locais, apoiadas pela organização sem fins lucrativos de justiça ambiental The Or Foundation, estão ativamente a limpar o litoral e os cursos de água. Mas estes esforços de limpeza tratam apenas o sintoma. A solução a longo prazo, segundo Solomon Noi, responsável pela gestão de resíduos de Acra, passa pela adoção de leis de Responsabilidade Alargada do Produtor — tornando as marcas globais de moda que lucram com este ciclo financeiramente responsáveis pela gestão de resíduos no Gana. Fonte.
  • Cheias no sul da Florida. O elétrico de North Beach circula pela Crespi Boulevard durante a «King Tide» em Miami Beach, na Florida, na terça-feira, 27 de outubro de 2026. Pedro Portal. Fonte.
  • Almeirim reforça intervenção em linhas de água para reduzir risco de cheias. Fonte.

BICO CALADO

  • Francisco Gomes, deputado pelo Chega, recebeu um subsídio do Governo Regional da Madeira, então liderado por Alberto João Jardim, para estudar nos EUA. Atribuída sem candidatura prévia e sem concurso público, a bolsa foi atribuída em dezembro de 1999 para Francisco Gomes frequentar a Universidade de Denison, nos EUA. A sua tese de doutoramento, intitulada "A Autonomia na Madeira (Portugal): Definição, origens, evolução e desafios", foi defendida em 2019 na Universidade de Cádis, em Espanha, sendo posteriormente alvo de fortes críticas por parte de académicos portugueses. Jorge Fernandes, investigador do Conselho Superior de Investigação Científica classificou o trabalho como algo que "parece mais um artigo de propaganda" do que uma investigação académica séria. Os principais pontos de crítica foram: (1) Falta de distância analítica: A tese demonstra uma proximidade excessiva ao seu objeto de estudo, o antigo presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim; (2) Excesso de referências a Jardim: O nome de Alberto João Jardim é mencionado mais de 300 vezes ao longo das cerca de 300 páginas, incluindo 49 citações diretas às suas memórias e (3) Fundamentação questionável: Foram apontadas insuficiências metodológicas, como a ausência de uma pergunta de investigação clara e de hipóteses testáveis, e o uso de referências bibliográficas consideradas invulgares e pouco adequadas para sustentar os argumentos.
  • Espanha prepara greve aos supermercados: consumidores são chamados a não fazer compras às quartas-feiras. Fonte.
  • Ajuste directo de meio milhão de euros ocultado durante seis anos. O negócio foi feito em 2020 entre o Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro e a UEM-Unidade de Estruturas Metálicas, com sede no Porto. A empresa tinha sido condenada por ter concertado preços em concursos públicos da Parque Escolar. Fonte.
  • Netanyahu continuará como primeiro-ministro interino até que se chegue a um acordo que o mantenha no poder. O homem que já ocupou o cargo de primeiro-ministro durante 19 anos provavelmente vai ficar mais alguns anos. É como aquele cocó que simplesmente não desce pela sanita. Council Estate Media.

LEITURAS MARGINAIS

CINCO SAQUES OMITIDOS PELOS MEDIA DOMINANTES
Simon Verdiere, Mondialisation.

Cartune: José Alberto Rodríguez Avila

O artigo examina os "saques" que os grandes media tendem a ignorar. O ponto de partida é a cobertura mediática dos saques ocorridos durante os protestos estudantis no outono de 2026. O artigo defende que, embora esses atos sejam condenáveis, eles desviam a atenção de formas de "pilhagem" muito mais profundas, sistemáticas e, muitas vezes, legais, que lesam o bem comum.

O texto identifica e detalha cinco exemplos dessas pilhagens estruturais:
  1. A pilhagem do nosso modelo social: Desmantelamento dos serviços públicos, com o encerramento de mais de 17.000 escolas em 40 anos, a eliminação de 10.000 postos de professores desde 2017 e a supressão de cerca de 100.000 camas hospitalares desde 2000; aumento da idade da reforma e a redução de subsídios de desemprego e habitação.
  2. A pilhagem das riquezas pelos bilionários: 53 bilionários possuem tanta riqueza como os 32 milhões de franceses mais pobres, e o seu património duplicou desde 2017. Isto acontece perante a complacência do Estado, que não combate eficazmente a evasão fiscal (que custa cerca de 100 mil milhões de euros por ano), e a cobertura de mais de 90% dos media que lhes pertencem.
  3. A pilhagem do conhecimento: Privatização e mercantilização de conhecimento produzido com financiamento público. Investigadores formados e financiados pelo Estado geram patentes que são depois exploradas comercialmente por empresas privadas, chegando à privatização do vivente através de patentes sobre sementes.
  4. A pilhagem dos recursos naturais: Apropriação de recursos vitais como a água por parte de empresas, a destruição de florestas para lucro, a artificialização de espaços naturais, a poluição de 1.700 rios em França e os impactos destrutivos da mineração e da perda de biodiversidade.
  5. A pilhagem do dinheiro público pelas grandes empresas: Estima-se que 211 mil milhões de euros em ajudas públicas sejam atribuídos anualmente a empresas privadas sem qualquer contrapartida. Este é o maior item do orçamento francês, e as empresas podem beneficiar desse apoio mesmo quando despedem, poluem ou atuam contra o interesse comum.
Em comparação com estes "saques legais de grande envergadura", os saques de lojas noticiados pelos media, embora dramáticos, funcionam como uma cortina de fumo. A indignação seletiva da comunicação social serve para desviar a atenção da responsabilidade de uma minoria abastada na destruição dos bens comuns. Se o Estado corrigisse estas injustiças sociais, os protestos e os saques que por vezes lhes estão associados provavelmente diminuiriam.


terça-feira, 27 de outubro de 2026

BICO CALADO

Crédito: Sabur Rashid/Zuma Press Wire/Shutterstock
  • A atriz Maria João Luís juntou-se ao Movimento pela Habitação, defendendo que a discussão sobre a habitação “tem de ser mais alargada”. A atriz apelou aos jovens para que não se deixem enganar pelas forças extremistas e afirmou que a carga policial da madrugada de domingo “não teve razão de acontecer”. Veja a entrevista completa em: https://bit.ly/4yEyZp5
  • “Mostra a cara!”. Um coro das Caldas da Rainha foi para a porta da casa de António José Seguro exigir que o Presidente da República apareça a público.
  • “(…) este PSD e este PS, têm contribuído objetivamente para consolidar um modelo de sociedade injusto, em que a desigualdade cresce, e um modelo económico predatório, de acumulação galopante da riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas. Enquanto a social-democracia se propunha “reformar e humanizar a economia de mercado”, o socialismo defendia um sistema de propriedade pública de sectores estratégicos, como a banca e seguros, as redes de telecomunicações, a electricidade ou os recursos naturais. Tudo isso foi para o caixote de lixo da história. Muitos daqueles que os novos fascistas no parlamento querem “encostar à parede” (a quem chamam “extremistas de esquerda”), defendem hoje nas manifestações os ideais que há 50 anos também estavam nos programas do PSD e do PS, os mesmo ideais que estão, ainda hoje, na sua essência, na Constituição e que o PSD e PS actuais estão a ignorar. A doutrina social e económica da Igreja católica é hoje mais social-democrata do que o PSD e mais socialista do que o PS. (…) A tomada de posição inequívoca - pela igualdade, a solidariedade e a liberdade - por parte de um Presidente da República teria de levar, necessariamente, à queda dum governo que descaradamente viola o que a Constituição da República Portuguesa tem de mais valioso. Esperarei sentado (se for necessário em frente a uma tenda no Rossio, em frente à Assembleia da República ou ao Palácio de Belém).” Miguel Szymanski, Embalagens enganosas.

BOTICAS: CORDÃO HUMANO PARA TRAVAR MINA DE LÍTIO

Créditos: Pedro Sarmento Costa/TSF

Dezenas de pessoas bloquearam os trabalhos para a exploração de uma mina de lítio, em Boticas. Por volta das 06h00, formou-se um cordão humano para travar progressos numa das áreas da servidão administrativa da empresa Savannah Resources. "Quando vemos, neste momento, a questão da habitação, das pessoas estarem a ser expulsas e não se poderem manifestar nos sítios públicos, nós estamos a ser expulsos daquilo que é nosso, dos nossos terrenos, dos terrenos privados", denuncia o o presidente da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, Nélson Gomes. "A terra é nossa, o baldio é nosso, a aldeia é nossa. Não vamos deixar que ninguém de fora decida o futuro da nossa gente. Savannah fora do baldio já!” Fonte.

COP31: TURQUIA QUER COMPROMISSO GLOBAL PARA REDUZIR PELA METADE O CRESCIMENTO DO VOLUME GLOBAL DE RESÍDUOS PLÁSTICOS

  • A Turquia, que sediará a COP31 em novembro, tornou-se um dos principais destinos do lixo plástico da União Europeia e do Reino Unido. Só no ano passado, o país importou quase 650 mil toneladas de resíduos plásticos, um volume que cresce ano após ano. Esses resíduos frequentemente acabam em rios e praias, inclusive em Antália, a cidade costeira que receberá a conferência, contaminando o solo e a vida marinha. O problema se intensificou a partir de 2018, quando a China — até então uma grande importadora de resíduos plásticos — deixou de processar material estrangeiro. Além disso, como a UE deve proibir a exportação de resíduos para países que não são membros da OCDE, isso provavelmente aumentará ainda mais o volume direcionado à Turquia, que é membro fundador do grupo. Para os turcos, a reciclagem gera empregos e fornece materiais baratos para setores como embalagens, papel e têxteis. No entanto, falhas no processamento e centrais inadequadas resultam em contaminação do solo e de corpos d'água. A Turquia pretende usar a conferência para buscar um compromisso global com o objetivo de reduzir pela metade o crescimento do volume global de resíduos plásticos até 2035. O ministro Murat Kurum, presidente designado da COP, afirmou que a meta é "colocar o desperdício zero e a redução do metano no centro da ação climática". Fonte.
  • A reeleição de Lula aumenta as probabilidades de o Brasil conseguir atingir um objetivo fundamental para pôr fim à perda de floresta na Amazónia e reforça a confiança num novo fundo destinado a proteger as florestas tropicais do mundo. Fonte.
  • O governo neerlandês irá contribuir com cerca de 500 milhões de dólares ao longo da próxima década para um fundo internacional destinado a ajudar a proteger as florestas tropicais. O dinheiro irá ajudar a criar o «Tropical Forest Forever Facility», um novo fundo de riqueza público-privado que visa recompensar os países pela preservação das florestas tropicais. Fonte.
  • As pessoas mais ricas do mundo não estão apenas a lucrar com as causas poluentes das alterações climáticas, como também estão, cada vez mais, a tirar proveito das consequências catastróficas. Um estudo da Oxfam constatou que os 0,1% mais ricos da população mundial têm investido fortemente na preparação para catástrofes, na recuperação e na reconstrução — um mercado que se prevê que cresça de 70 mil milhões de dólares para 92 mil milhões de dólares por ano até 2029. Isto proporciona às pessoas mais ricas e poderosas do planeta um «duplo dividendo» decorrente da crise climática e, o que é mais alarmante, um incentivo para atrasar ou impedir as medidas destinadas a resolver o problema, afirma a ONG. Além disso, agrava a desigualdade global, uma vez que aqueles que menos contribuem para o aquecimento global acabam por ter de pagar aos principais responsáveis, seja através de preços mais elevados dos alimentos, da reparação de casas danificadas por fenómenos meteorológicos extremos ou da deslocação para outras áreas. Fonte.

REFLEXÃO

A IMPORTÂNCIA DE UMA COBERTURA MEDIÁTICA MAIS AMPLA E PRECISA SOBRE AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
James Painter, BMJ. Rev. O’Lima.


Apesar das temperaturas globais que batem recordes e da crescente preocupação da população, a cobertura mediática das alterações climáticas tem diminuído drasticamente, o que tem graves implicações para a compreensão do público e para a preparação em matéria de saúde.

2025 foi um dos anos mais quentes de que há registo, com o CO₂ atmosférico no seu nível mais elevado em milhões de anos; no entanto, a cobertura mediática global sobre as alterações climáticas diminuiu 14 % em comparação com 2024. Desde o seu pico em 2021, a cobertura na imprensa escrita e online diminuiu 38%, com um declínio adicional de 25% nos primeiros oito meses de 2026, em comparação com o ano anterior. Este declínio é generalizado, afetando os media em África, no Médio Oriente, na América do Norte e na Europa, embora seja menos acentuado na Ásia, na América Latina e na Oceânia.

Várias razões para este declínio:
  1. As redações reduziram os recursos editoriais dedicados à cobertura climática.
  2. O «espaço noticioso» diminuiu devido a outros conflitos globais prementes, como os de Gaza, do Irão e da Ucrânia.
  3. Há uma sensação de «cansaço climático» entre o público, face a uma crise de longa duração que carece de soluções fáceis.
  4. Os jornalistas seguem frequentemente as indicações dos políticos. À medida que os governos aumentam as despesas com a defesa e limitam as contribuições para o financiamento climático, a perda de prioridade política atribuída à ação climática desempenha um papel substancial na redução da cobertura. Isto pode levar a um «silenciamento climático», em que a questão é minimizada, consciente ou inconscientemente.
Os media tradicionais continuam a ser a fonte de informação sobre o clima mais popular e fiável para a maioria das pessoas. Isto confere-lhes um papel determinante na definição da agenda, moldando o que o público considera importante e a forma como compreende a emergência climática. Uma vez que a maioria das pessoas não lê revistas científicas nem conhece diretamente cientistas climáticos, depende dos meios de comunicação para interpretar a complexidade da ciência. Quando os meios de comunicação e os políticos negligenciam uma questão, é também mais provável que o público lhe atribua menor importância na sua própria hierarquia de preocupações.

Para além da quantidade de cobertura, há também problemas significativos de qualidade. No Reino Unido, por exemplo, alguns cientistas climáticos e analistas dos meios de comunicação social têm observado uma «separação» entre as alterações climáticas e as políticas de «Net Zero» em setores da imprensa que se opõem ao «Net Zero». Isto pode minimizar ou marginalizar a questão climática e, quando ocorrem ondas de calor, a ligação às alterações climáticas muitas vezes não é estabelecida de forma suficientemente explícita. Além disso, as ilustrações podem, por vezes, sugerir «diversão ao sol» em vez de salientar os impactos nocivos nas populações vulneráveis. Quatro órgãos de comunicação de direita no Reino Unido tinham, cada um, mais de 70% dos seus editoriais ou artigos de opinião sobre o «Net Zero» que continham pelo menos uma afirmação enganosa. Isto impede os leitores de formarem uma compreensão bem fundamentada dos argumentos. Numa escala mais ampla, estudos realizados nos EUA sugerem que, entre 1984 e 2025, as alterações climáticas representaram apenas 0,55% de toda a cobertura noticiosa, uma proporção ínfima quando comparada com o desporto e o entretenimento.

Para o autor, a qualidade é tão importante como a quantidade. Ele sugere várias formas de melhorar a cobertura:

  1. Estabelecer ligações com a vida quotidiana: as discussões sobre o clima concentram-se fortemente na reportagem ambiental especializada, mas as questões de saúde e justiça social — onde o público sente diretamente os impactos climáticos — não recebem atenção suficiente.
  2. Explicar as ligações: seriam úteis explicações regulares e claras sobre as ligações científicas entre as alterações climáticas, o «Net Zero» e os fenómenos meteorológicos extremos.
  3. Abordagens inovadoras: embora o público continue interessado, os media têm de encontrar formas inovadoras de abordar a questão climática que forneçam a informação que as pessoas realmente querem.
Apesar do declínio na cobertura, Painter termina com uma nota de otimismo cauteloso: 74% dos inquiridos em 2025 estão preocupados com os impactos das alterações climáticas no seu país, o que representa um aumento da preocupação na maioria dos países desde 2022. Mesmo nos EUA, não há indícios de que as pessoas se tenham tornado menos preocupadas com as alterações climáticas desde abril de 2022. A preocupação do público existe — o desafio para os meios de comunicação social é responder a essa preocupação com uma cobertura precisa, relevante e envolvente.

LEITURAS MARGINAIS

O QUE A ALEMANHA PENSA DO ACORDO DE 4 MIL MILHÕES DE DÓLARES ENTRE A AUDI E TRUMP
Nik Martin, DW. Rev. O’Lima.

Imagem: Edgar Su/REUTERS

A Audi confirmou um plano de cerca de 3,6 mil milhões de euros para construir a sua primeira fábrica nos EUA, perto de Macon, na Geórgia, criando cerca de 4 500 postos de trabalho e, a longo prazo, produzindo até 200 000 SUV de gama alta por ano para o mercado americano. O presidente Trump anunciou o investimento num comício de campanha e atribuiu o mérito às suas tarifas sobre veículos fabricados na Europa, afirmando que «isto não teria acontecido sem as tarifas».

Esta fábrica ajudaria a Audi a evitar ou a reduzir essas tarifas, que, segundo a empresa, lhe custaram cerca de 1,2 mil milhões de euros no ano passado. As vendas da Audi nos EUA também caíram 16% devido à forte concorrência e à perda de subsídios para veículos elétricos no seu segundo maior mercado. O CEO da Audi enquadrou esta medida como uma decisão de crescimento, afirmando que os EUA são «um dos mercados premium mais importantes do mundo», onde a Audi ainda não atingiu todo o seu potencial.

A reação alemã é extremamente negativa. Os críticos estão a centrar-se no momento em que isto acontece — a Audi está a investir nos EUA enquanto a sua empresa-mãe, o Grupo VW, se prepara para cortar até 100 000 postos de trabalho até 2030 e a fábrica da Audi em Neckarsulm corre o risco de encerramento. Grande parte da indignação é dirigida ao CEO Gernot Döllner, por ter aparecido ao lado de Trump num comício republicano. Um porta-voz social-democrata para os transportes classificou o gesto como «apoio à campanha de um autocrata que está a travar uma guerra comercial contra a Alemanha» e uma «vergonha», enquanto o presidente do IG Metall considerou a aparição «extremamente embaraçosa, politicamente inaceitável e indigna da empresa». Um responsável do conselho de empresa da VW afirmou que Döllner tinha sido transformado «num fantoche» no «espetáculo de propaganda» de Trump, embora tenha reconhecido que a fábrica nos EUA poderia fazer sentido do ponto de vista empresarial.

Por outro lado, um porta-voz da Audi afirmou que o investimento «não é uma decisão contra a Alemanha, mas sim um passo no sentido de reforçar a nossa competitividade global», e o presidente do conselho de supervisão argumentou que a empresa precisa de coragem para investir, em vez de depender apenas da redução de custos.

O anúncio deste negócio foi visto como programado para coincidir com as eleições intercalares nos EUA e feito no estado da Geórgia, enquadrando-se na estratégia mais ampla de Trump para pressionar os fabricantes de automóveis a expandirem a produção americana.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

MARÃO: APA REJEITA HIBRIDIZAÇÃO FOTOVOLTAICA DO PENEDO RUIVO

  • A Agência Portuguesa do Ambiente emitiu uma decisão desfavorável ao projeto de hibridização fotovoltaica do Parque Eólico de Penedo Ruivo, na Serra do Marão, alegando impactes ecológicos, paisagísticos, territoriais e cumulativos significativos. Proposto pela EnergieKontor, previa-se a produção de energia elétrica através de sistema fotovoltaico em hibridização com o parque eólico existente e uma fase de exploração de 30 anos. Fonte.
  • A Galp cancelou as negociações para a fusão dos seus negócios com a espanhola Moeve, deitando por terra a planeada reestruturação que previa transferir o controlo da refinaria de Sines para as mãos dos acionistas da congénere espanhola. Fonte.
  • Lucro da Galp aumenta 68% para 682 milhões de euros no terceiro trimestre. Fonte.
  • A Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão ordenou à Google que suspendesse os trabalhos em Muhos e em Otanmäki, depois de a empresa não ter concluído as avaliações de impacto ambiental necessárias antes de proceder ao desmatamento total do terreno. Fonte.
  • Lula vence as eleições no Brasil depois de ter reduzido a desflorestação na Amazónia para um mínimo histórico. Angela Symons, EuroNews.

BICO CALADO

  • “Se os manifestantes são donos de restaurantes de luxo, frequentados por banqueiros, ministros, deputados e assessores, as tendas podem ficar. Podem ficar uma semana inteira, o tempo que for preciso, montadas junto à Assembleia da República, noite após noite, com fogareiros portáteis na via pública a preparar iguarias e cartazes no chão. Ao sétimo dia, os gastrónomos são recebidos pelo Governo, que é bom garfo. Se a maioria dos manifestantes são jovens sem estatuto, sem carro, sem casa, que não sabem apreciar um amuse-bouche ou tornedó ou bife kobe, chama-se a PSP e as forças de intervenção e acabou-se o direito à manifestação e essa história dos direitos, liberdades e garantias. Após 24 horas, por ordem ministerial, a polícia entra à bastonada, vai tudo dentro e acabou-se a festa. Para se perceber a diferença, ajuda a distinção entre o poder e o povinho, entre o sofisticado consumo de cocaína no terraço de um apartamento com vista de rio e o popularacho cheiro a erva no meio da rua, entre o fato e gravata de quem se governa a fazer negociatas (obras em piscinas, com Israel ou com fundos de Bruxelas), e o lenço palestiniano à volta do pescoço, de quem usa calças de fato treino e luta por um mundo menos injusto.” Miguel Szymanski.
  • “A Caixa Geral apresenta lucros e é do Estado. Não os vai aplicar num casino. Que tal aplicar em habitação? (…) Fui fala com quem vendeu o terreno ao Ronaldo e disse-lhe: ‘Tenho de cortar sobreiros, é proibido’. E o homem: ‘À noite ninguém vê’”. Eduardo Souto Moura, Isto é Gozar com Quem Trabalha/Ricardo Araújo Pereira/Expresso.
  • Querem que as notícias unam as pessoas? Deixem que sejam elas a dar as notícias. Elizabeth Hewitt.

LEITURAS MARGINAIS

O GÉNIO OCULTO DE VANESSA REDGRAVE*


Vanessa Redgrave chegou a receber um Óscar, chamou metade da sala de «delinquentes sionistas», foi vaiada em direto na televisão e saiu do palco tão calma como uma santa — porque acreditava em cada palavra que disse. Era 1978. O filme «Julia» tinha-a tornado a sensação de Hollywood — uma interpretação marcante no papel de uma combatente da resistência antinazi que os críticos classificaram de «transcendente». Mas, embora a indústria celebrasse o seu talento artístico, detestava as suas posições políticas. Redgrave tinha financiado publicamente um documentário pró-palestiniano, The Palestinian, filmado no Líbano devastado pela guerra. Apenas alguns dias antes dos Óscares, manifestantes armados tinham marchado à porta da cerimónia, agitando cartazes com a inscrição «Vanessa, a terrorista». Apesar de tudo, ela ganhou. E depois explodiu.

Segurando a estatueta dourada, ela agradeceu ao seu realizador — e depois, com uma serenidade gélida, disse: «Agradeço-lhe por se ter mantido firme contra aquele pequeno grupo de rufiões sionistas, cujo comportamento é um insulto à dignidade dos judeus em todo o mundo.»

Suspiros. Vaias. Caos.

Os produtores tentaram passar para o intervalo publicitário. Diz-se que Bob Hope escondeu o rosto entre as mãos. Mais tarde, nessa mesma noite, o argumentista Paddy Chayefsky subiu furioso ao palco para a repreender: «Um simples “obrigada” teria bastado.»

Redgrave não vacilou. Ela já tinha vencido — não o Óscar, mas a guerra pela sua própria consciência.

Aquele momento transformou-a de estrela de cinema em exilada política. Foi dispensada pelos estúdios, rejeitada pelos produtores e rotulada como «incontratável». Os agentes avisaram-na de que ninguém voltaria a trabalhar com ela. A sua resposta? «Então, vou criar o meu próprio trabalho.» E foi o que fez — encenando peças em armazéns, financiando companhias de teatro radicais e interpretando Shakespeare em zonas de guerra.

Este era o génio oculto de Vanessa Redgrave: ela não precisava da aprovação de Hollywood, porque já tinha vivido vidas mais grandiosas do que a ficção. Ela marchou ao lado de refugiados. Foi alvo de gás lacrimogéneo em manifestações. Foi investigada pelo MI5 por «atividade subversiva». E quando os jornalistas lhe perguntaram se se preocupava em ser colocada na lista negra, ela respondeu: «Não se pode colocar na lista negra alguém que não pertence à vossa lista.»

Poderia ter-se contentado em viver na segurança. A sua linhagem era ilustre — os Redgrave eram a realeza da representação britânica. A sua beleza era intemporal, o seu talento inquestionável. Mas recusou-se a ser meramente decorativa. Os seus colegas tentaram rotulá-la como a «grande dama». Ela continuava a aparecer descalça nas manifestações.

O preço foi brutal. Perdeu trabalhos. Perdeu amigos. Décadas mais tarde, perdeu a sua filha, Natasha Richardson, num acidente de esqui — uma agonia que poderia tê-la destruído. Mas regressou ao palco semanas depois. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu suavemente: «Porque se não representar, deixo de respirar.»

Por trás da sua ferocidade escondia-se uma espécie de luto sagrado. Cada papel que interpretou — desde «Isadora» até «The Bostonians» — carregava esse peso: rebelião envolta em ternura, coragem entrelaçada com a perda.

Meryl Streep disse uma vez: «A Vanessa não representa; ela testemunha.»

E nunca deixou de testemunhar — sobre refugiados, crimes de guerra, hipocrisia política, o custo do silêncio. Mesmo com mais de oitenta anos, continuava a participar em manifestações, continuava a arriscar-se a ser detida, continuava a exigir que a arte tivesse significado.

Quando um jornalista lhe perguntou uma vez se se arrependia do seu discurso nos Óscares, ela sorriu — aquele mesmo sorriso sereno, quase perigoso, de 1978 — e disse: «Se disseres a verdade e as pessoas te vaiarem, estás a fazer algo certo.»

Vanessa Redgrave não se limitou a interpretar revolucionárias. Ela era uma — daquelas raras que sabiam que o verdadeiro poder não está nos aplausos, mas em recusar-se a calar-se quando a sala exige silêncio.

* O título é da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3.