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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PENÍNSULA IBÉRICA: ENERGIAS RENOVÁVEIS ESTIMULAM EXPANSÃO DE CENTROS DE DADOS

  • Os abundantes recursos solares e eólicos e as oportunidades de ligação à rede elétrica têm impulsionado um forte crescimento no desenvolvimento de centros de dados em Espanha e Portugal. A Península Ibérica representará cerca de 11,5 % da capacidade instalada de centros de dados na Europa até 2030, um aumento em relação aos 5,8 % previstos para 2025, de acordo com o grupo de investigação Rystad Energy. Prevê-se que a capacidade dos centros de dados em Espanha quadruplique nos próximos cinco anos, atingindo 3,9 GW em 2030, registando o segundo maior aumento em termos absolutos na Europa, atrás apenas do Reino Unido. Portugal crescerá mais rapidamente do que qualquer outro país, chegando a instalar mais de 1 GW de capacidade de centros de dados até ao final da década, prevê a Rystad Energy. Fonte.
  • Um grupo comunitário australiano venceu o primeiro processo relacionado com as alterações climáticas a ser apreciado pelo supremo tribunal do país, tendo os juízes confirmado a decisão de impedir a prorrogação por duas décadas da exploração de uma mina de carvão no estado de Nova Gales do Sul. A MACH Energy pretendia prolongar a vida útil da sua mina de Mount Pleasant, cuja exploração está prevista terminar em dezembro deste ano, até 2048 e duplicar a sua produção de carvão. A expansão teria permitido a extração de mais 406 milhões de toneladas de carvão. Fonte.
  • Cabul está a caminho de se tornar a primeira cidade moderna a ficar sem água, o que poderá acontecer já em 2030, de acordo com um relatório recente da organização sem fins lucrativos Prosper Global. Mas esta crise hídrica urbana em espiral que não se limita a Cabul. Cidades em todo o mundo — desde Corpus Christi, no Texas, até Teerão, a capital do Irão — estão à beira de uma escassez de água tão grave que os residentes se preparam para um «dia zero», o momento em que as torneiras secam em grande parte da cidade. Fonte.
  • Os painéis solares têm (mais um) efeito secundário surpreendente: impedem as tempestades de poeira de avançarem. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Anadolu/Getty Images
  • ”Espinho encurta ainda mais a distância entre aviso e repetição. Num processo anterior, o Tribunal recomendara ao município que os modelos de avaliação das propostas respeitassem as regras do Código e permitissem uma diferenciação efetiva entre concorrentes. No concurso seguinte, para refeições escolares durante três anos e no valor de 4,56 milhões de euros, voltou a encontrar um modelo censurável. Em Novembro de 2024, antes de decidir, o Tribunal devolveu o processo à Câmara e pediu-lhe expressamente que justificasse ‘o não acatamento das recomendações’ anteriores. O Acórdão n.º 3/2025 acabou por recusar o visto.’” Fonte.
  • Cascais compra 264 mil euros em apitos, lanternas e outras ‘bugigangas chinesas’ a empresa que lucrou milhões na pandemia. Fonte.
  • Neta de Cavaco Silva comete crime de desobediência ao recusar cumprir deliberação da ERC. Fonte.
  • “Os jornalistas portugueses do Expresso e do Público deviam ter percebido a piada mais importante antes de embarcarem: quando uma embaixada oferece a viagem para mostrar como um país respeita a liberdade de imprensa, o primeiro acto de jornalismo consiste em perguntar por que razão a embaixada quer tanto pagar ou facilitar essa demonstração. (…) Por umas centenas de euros, a diplomacia sérvia conseguiu três marcas portuguesas dentro do estúdio onde um humorista afastado da televisão demonstrava ao mundo que ainda podia falar.” Fonte.
  • Uma avaliação secreta da CIA alertou que Israel corre o risco de cair numa guerra civil ou nm colapso político, num contexto de crescentes divisões políticas, económicas e sociais, após anos de guerras em Gaza, no Líbano e no Irão. Fonte.
  • Um estudo do Exército revelou que as luvas de choque causavam «dor intensa» e aterrorizavam as vítimas — e, mesmo assim, o ICE encomendou 6 000 pares delas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O FUTEBOL PROFISSIONAL É UM VENENO?
Pedro Tadeu, DN 2Out2026


O futebol profissional fornece às televisões e às redes sociais uma sucessão interminável de conflitos, declarações, especulações e insultos. Tudo muito apaixonante, hipocritamente comercial e quase sempre irrelevante para as nossas vidas. A saída de Cristiano Ronaldo do estágio da seleção nacional confirma isso.

O futebol profissional exalta o culto da vedeta. A celebração dos milhões ganhos pelos grandes futebolistas normaliza a aceitação de desigualdades extraordinárias e desproporcionadas. A notícia da Forbes que estima que Ronaldo ganhou 300 milhões de dólares, só no último ano, confirma isso.

O futebol profissional ajuda a criar uma horda de milhões de viciados em apostas. Um relatório da Organização Mundial de Saúde, que associa esta questão a endividamento, pobreza e problemas familiares, confirma isso.

Em Portugal, no segundo trimestre de 2026, o futebol representou 69,9% do volume das apostas desportivas online que geraram 125,1 milhões de euros de receita bruta para os seus donos.

O futebol profissional é aproveitado por fascistas e traficantes. O facto de em 20 de janeiro de 2026 a operação Irmandade ter detido 37 suspeitos ligados aos nazis do Grupo 1143, que tem antecedentes numa fação da Juventude Leonina, por suspeitas de crimes de ódio e violência, confirma, mais uma vez, isso. Os problemas com racismo, violência organizada e tráfico de droga, que se repetem em quase todos os jogos e em todo o mundo, comprovam também essa infiltração.

O futebol profissional é cada vez mais para ricos ou especuladores e menos para pobres ou remediados; é mais para criminosos do que para gente honrada. As negociatas deste mundo à parte ilustram isso.

Em abril de 2026 a FIFA colocou à venda bilhetes da categoria mais cara para a final do Mundial a 10.990 dólares. As assinaturas para ver futebol na TV atingem valores cada vez mais elevados. Os bilhetes para jogos importantes também.

Um relatório da UEFA revela que os clubes ingleses, os mais ricos do mundo, estiveram envolvidos em 52% do valor mundial das transferências deste verão.

Segundo a FIFA, entre janeiro e o início de dezembro de 2025 os clubes pagaram 1,37 mil milhões de dólares a agentes, mais de 90% acima do ano anterior.

Há dias uma comissão independente considerou o Manchester City responsável por graves violações financeiras (o clube recorreu), incluindo contratos fictícios que alteraram receitas e custos em mais de 900 milhões de libras.

Em 9 de dezembro de 2025 a polícia argentina fez buscas na federação e em vários clubes numa investigação relacionada com a Sur Finanzas, suspeita de branqueamento e evasão fiscal.

Em junho passado uma operação conjunta da polícia e da comissão anticorrupção de Hong Kong deteve 19 pessoas, incluindo treinadores e jogadores, por suspeitas relacionadas com apostas ilegais e suborno para manipular partidas locais.

Em 2023, na operação El Dourado, feita numa academia de futebol para miúdos em Famalicão, a polícia encontrou 47 alegadas vítimas de tráfico de pessoas, incluindo 36 menores a quem tiraram os documentos de identificação.

O futebol até já deu um prémio da paz a Donald Trump! E revelou-nos a retórica brutal de André Ventura.

Tanta coisa que, todos os dias, confirma o veneno social em que o futebol profissional se transformou – e não, não aprofundo aqui mais casos portugueses porque, sinceramente, tenho amor à pele e o futebol, que já foi o desporto mais belo do mundo, agora mete medo…

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ESMORIZ: CENTENAS DE PEIXES APARECEM NO AREAL APÓS ABERTURA DA BARRINHA

  • Centenas de pequenos peixes apareceram no areal da Praia de Esmoriz, junto à Barrinha, depois da abertura da ligação da lagoa ao mar. Os peixes serão exemplares de perca-sol, uma espécie exótica invasora associada a massas de água doce e de corrente reduzida. Além dos peixes, quem percorreu a praia encontrou também numerosos exemplares de lesmas-do-mar, conhecidas localmente como “vinagreiras”, igualmente espalhados pela areia. Fonte.
  • Um trabalhador de 55 anos morreu na sequência de um acidente de trabalho na CS Wind, empresa instalada na Gafanha da Nazaré, Aveiro, dedicada à produção de torres eólicas e estruturas metálicas. O trabalhador foi prensado por uma chapa de aço utilizada no fabrico de componentes eólicos, entrando em paragem cardiorrespiratória. As equipas de socorro tentaram reanimá‑lo, mas o óbito foi declarado no local. Fonte.

REINO UNIDO: REFINARIA DE STANLOW ACUSADA DE DERRAMES SUCESSIVOS

  • Uma das maiores refinarias de petróleo do Reino Unido causou derrames poluentes nos rios locais e no estuário do Mersey em dezenas de ocasiões em 2023 e 2024. A EET Fuels, anteriormente conhecida como Essar, que gere a refinaria de Stanlow, declarou-se culpada este ano de 12 acusações de violação da legislação ambiental entre 2018 e 2020. No entanto, documentos obtidos por jornalistas de investigação da SourceMaterial descrevem outras infrações cometidas pela refinaria em Ellesmere Port, Cheshire, com derrames regulares de produtos químicos tóxicos e petróleo nos cursos de água e até mesmo nas águas subterrâneas. Fonte.
  • Com uma campanha baseada no enfraquecimento da fiscalização e da proteção da floresta, o senador Flávio Bolsonaro (PL) dominou a votação do 1º turno das eleições presidenciais no último domingo (4/10) nos municípios que mais desmataram na Amazônia Legal na última década. Um levantamento da Sumaúma mostra que Flávio foi o mais votado em oito dos dez municípios com os maiores índices de desmatamento da região desde 2016. Em alguns locais, ele recebeu mais de 80% dos votos.

REFLEXÃO

O MINISTÉRIO DO AMBIENTE NÃO EXISTE
Paulo Constantino, Movimento Pelo Tejo.


Há uma pergunta que ninguém faz em voz alta: quem defende o rio? Não o rio como recurso, não como reservatório de energia, nem como fonte de água para o regadio intensivo, nem como linha de fronteira entre dois países que negoceiam mínimos em salas fechadas, mas o rio como ecossistema, como habitat, como Vida. A resposta oficial seria o Ministério do Ambiente e Energia, mas é precisamente aí que reside a contradição que o rio Tejo carrega atualmente nas suas margens: o ministério que devia defender o rio é o mesmo que tutela a produção hidroelétrica que o impede de fluir e que supervisiona a estratégia hídrica que distribui a água do rio pela agricultura intensiva antes de a oferecer ao ecossistema. Isto tem um nome, chama-se conflito de interesses estrutural, e não é uma acusação, é uma descrição.

O Ministério que não é do Ambiente

Em Portugal, o Ministério do Ambiente e Energia tem, materialmente, um centro de gravidade deslocado para longe do ambiente: a energia é o eixo dominante das suas medidas — eletrificação, reforço de redes, armazenamento, segurança de abastecimento —, a água constitui o segundo eixo, com forte ligação a objetivos de segurança hídrica e de suporte ao regadio, e a conservação ecológica, a biodiversidade fluvial, o bom estado ecológico das massas de água exigido pela lei europeia surgem na linguagem oficial, mas raramente com instrumentos concretos de implementação: estão na retórica, não estão no orçamento.


O resultado é previsível, tendo aliás sido previsto pela própria Comissão Europeia que, em maio de 2026, admitiu por escrito que a não definição de caudais ecológicos «conduz previsivelmente ao incumprimento do Bom Potencial Ecológico» — previsivelmente, a palavra está escrita numa carta oficial, a Comissão sabe, o ministério sabe, e o incumprimento continua, porque o que isto significa em termos concretos é que a Iberdrola decide quando a água do Tejo flui e que o preço da energia no mercado ibérico é o que dita, na prática, o regime hidrológico do maior rio da Península Ibérica.

Os Números que o Rio Regista

Não é uma teoria, são dados registados pela Agência Portuguesa do Ambiente na albufeira do Fratel, o primeiro ponto de monitorização em território português a jusante da barragem de Cedillo: no ano hidrológico de 2025/2026, registaram-se cinco dias de caudal zero proveniente de Espanha, catorze dias com caudal médio diário abaixo de um hectómetro cúbico — o mínimo diário acordado na revisão de 2024 da Convenção de Albufeira — e um caudal máximo de 4.863 metros cúbicos por segundo, o mais elevado de toda a série histórica. Num único ano hidrológico: caudal zero e caudal máximo histórico, o que não é uma anomalia climática, mas o retrato fiel da gestão.

As consequências humanas deste padrão têm rosto: em maio de 2022, uma jovem de 16 anos desapareceu no rio Tejo em Abrantes depois da subida repentina do nível das águas enquanto se banhava, e em junho de 2026, um homem de 38 anos teve de ser resgatado pelos Bombeiros de Abrantes depois de adormecer num banco de areia no meio do rio com o caudal baixo e acordar rodeado de água, sem forma de regressar a terra. A ocorrência foi descrita como evidenciando os perigos dos caudais variáveis, acrescentando-se que, na zona de Abrantes, o nível da água pode sofrer alterações significativas em curtos períodos devido às descargas efetuadas pelas barragens a montante — e esta é precisamente a descrição de um fenómeno ao qual a ciência e o direito europeu deram nome e solução há vinte e seis anos.

Os dados históricos confirmam que este não é um problema novo nem episódico: desde 1998 registaram-se 650 dias com caudal abaixo de um hectómetro cúbico e 59 dias de caudal zero, numa média de 24 dias por ano em que o rio internacional simplesmente não flui, sendo que no ano hidrológico de 2025/2026, que acabou de terminar, se observa um agravamento da tendência com os dias de caudal zero e os dias abaixo do mínimo a triplicarem face ao ano anterior, respetivamente, +150% e +180%, o que demonstra que a revisão de 2024 da Convenção de Albufeira, que introduziu um caudal mínimo diário, chegou tarde e já não chega.

A Convenção que Chegou Tarde e Já Não Chega

A Convenção de Albufeira foi assinada em 1998, dois anos antes da Diretiva-Quadro da Água, e os caudais mínimos que estabeleceu foram fixados com critérios político-administrativos e não científicos — representam o resultado de uma negociação diplomática entre dois Estados que queriam minimizar as obrigações mútuas e não responder às necessidades do ecossistema —, pelo que, vinte e oito anos depois ainda está em vigor o regime transitório que deveria ter durado apenas até à implementação de caudais ecológicos. A revisão de 2024 introduziu um caudal mínimo diário — um passo que à época afirmámos que não resolvia o problema da variabilidade de caudais ao longo do dia —, sendo que esse mínimo não foi cumprido catorze vezes em menos de doze meses, mantendo-se a estrutura profunda do problema: a Convenção permite que 63% do caudal anual seja descarregado com total liberdade temporal, o que significa que a barragem pode cumprir a letra do acordo e ao mesmo tempo gerir essa água exclusivamente em função do preço da energia.

A incoerência científica está documentada e é grave: no Plano Hidrológico de Espanha de 2022/2027, os «caudais ecológicos» definidos para Cedillo são uma réplica exata dos caudais mínimos da Convenção de Albufeira de 1998 — fixados por critérios políticos, sem qualquer aplicação dos procedimentos científicos exigidos pelo Documento de Orientação n.º 37 da Comissão Europeia, que estabelece oito passos obrigatórios para a definição do Bom Potencial Ecológico em massas de água fortemente modificadas. A Comissão não verificou esta incongruência ao apreciar a denúncia, mas o proTEJO documentou-a e, ainda assim, a Comissão encerrou a denúncia, num padrão que se repete com uma regularidade que tem tanto de burocrático como de revelador.

A Estratégia «Água que Une» e a Água que Divide

Ao mesmo tempo que o rio Tejo regista dias de caudal zero e o ecossistema se degrada, o Governo português apresenta a estratégia «Água que Une» como resposta à crise hídrica — novas barragens, novos transvases ou interligações entre bacias, reforço da disponibilidade hídrica —, mas a pergunta que esta estratégia não responde é: disponibilidade para quê? A análise dos documentos técnicos é clara: para usos consumptivos e reforço do regadio. A barragem do Alvito e o projeto de açude no rio Tejo em Constância/Praia do Ribatejo propostos pelo Governo — cerca de dois mil milhões de euros — e os novos açudes de Abrantes a Lisboa pretendidos pelo “Projeto Tejo” — cinco mil milhões de euros — representam enormes verbas a serem pagas pelos contribuintes que vão ser desperdiçadas em obras para regularizar com água portuguesa os caudais que chegam de Espanha de forma irregular, isto é, milhares de milhões para compensar o que a implementação de caudais ecológicos em Cedillo resolveria sem custo adicional.

A lógica é perversa: em vez de implementar caudais ecológicos numa barragem já existente — medida tecnicamente viável, juridicamente obrigatória e sem significativo custo público adicional —, propõe-se gastar milhares de milhões em obras que servem a agricultura intensiva e aprofundam a fragmentação do rio que se diz querer proteger.

Quem beneficia com isto não é o rio Tejo, não são as populações ribeirinhas que perderam a lampreia e os festivais gastronómicos, não são os agricultores de Abrantes e Constância que continuam dependentes dos humores da Iberdrola, mas os grandes utilizadores agrícolas da Lezíria e do Oeste e as concessionárias hidroelétricas que continuam a gerir a água como mercadoria, ou seja, os beneficiários de curto prazo, porque no longo prazo ninguém vai ganhar com isto, pelo que a estratégia «Água que Une» é, na sua estrutura, a continuação do mesmo modelo que produziu os 59 dias de caudal zero, apenas com mais betão e mais gastos públicos.

O Conflito que Não Se Nomeia

Há uma palavra que raramente aparece no debate público sobre o rio Tejo — conflito de interesses —, não como acusação de corrupção nem como julgamento de intenções, mas como descrição rigorosa de uma arquitetura institucional: o mesmo ministério que tutela o ambiente tutela a energia, e a produção hidroelétrica paga impostos, contribui para as metas europeias de energias renováveis e tem lobbies com acesso direto ao poder, enquanto os caudais ecológicos reduzem a flexibilidade operacional das barragens e diminuem a produção nos picos de preço, pelo que, quando as duas lógicas se confrontam no mesmo despacho ministerial, o resultado tem sido sistemático e documentado ao longo de vinte e oito anos: ganha a energia.

«A classificação global mais robusta é a de uma tutela predominantemente orientada para energia e gestão da água, com incidência agrícola indireta, mas relevante, e com uma componente ambiental que tende a ser funcionalizada por objetivos de transição, segurança de recursos e infraestrutura.»

Esta descrição da tutela do ambiente, com uma frieza que a comunicação política nunca ousaria fazer, expressa de forma elegante que o ambiente existe para justificar outras prioridades, não como fim em si mesmo.

O Que Podia Ser Diferente

Há uma opção que não figura na agenda, não porque seja tecnicamente impossível, mas porque contraria simultaneamente os interesses da Iberdrola e os interesses do regadio intensivo: implementar caudais ecológicos na barragem de Cedillo. Não é uma proposta nova, visto que integra a Diretiva-Quadro da Água desde o ano 2000, a Convenção de Albufeira desde 1998 no regime transitório que nunca acabou e os Planos de Gestão da Região Hidrográfica do Tejo como objetivo formalmente assumido e sistematicamente adiado, sendo tecnicamente viável, os próprios planos confirmam que não existe inviabilidade técnica nem impacto socioeconómico negativo identificado, e não exigindo fundos públicos, mas apenas vontade política e a disposição de contrariar quem da ausência de caudais ecológicos retira lucro.

A implementação de caudais ecológicos evitaria milhares de milhões de euros em obras, evitaria os 650 dias de caudal insuficiente, evitaria o desaparecimento da lampreia e o cancelamento dos festivais de peixe do rio em Mação e Vila Nova da Barquinha, evitaria os blooms de cianobactérias que fecham praias fluviais e produzem toxinas prejudiciais à saúde pública e evitaria resgates de bombeiros em bancos de areia subitamente inundados pois a opção existe, a solução é conhecida e a lei europeia exige-a há vinte e seis anos, pelo que o facto de não ter sido implementada não é uma falha de conhecimento técnico, mas uma escolha política.

Uma Última Pergunta

Vinte e oito anos de Convenção de Albufeira e vinte e seis anos de Diretiva-Quadro da Água, dois ciclos completos de planos de gestão de bacia, trinta e uma organizações portuguesas e espanholas a assinar uma denúncia formal à Comissão Europeia, duzentas e cinquenta e sete notícias na comunicação social ibérica, uma resposta da Comissão que admite o problema e recusa atuar, e ainda assim: cinco dias de caudal zero em dozes meses, um máximo histórico de 4.863 metros cúbicos por segundo e um homem resgatado de um banco de areia no rio Tejo em junho de 2026 — quando as variáveis são estas e os resultados se repetem, há uma pergunta que não pode continuar sem resposta.

Quem defende o rio? Enquanto o Ministério do Ambiente continuar a ser, materialmente, o Ministério da Energia e da Agricultura, a resposta é a mesma de há vinte e oito anos: somos nós — as organizações, os cidadãos, as populações ribeirinhas, os pescadores sem lampreia, os agricultores dependentes da boa vontade da Iberdrola —, nós que temos a lei do nosso lado e estamos dispostos a usá-la até ao Tribunal de Justiça da União Europeia.

LEITURAS MARGINAIS

SERÁ QUE GEORGE ORWELL TINHA RAZÃO AO AFIRMAR QUE MUITAS CRÍTICAS LITERÁRIAS SÃO «DISPARATES REPUGNANTES»?
Janice Harayda, Medium. Rev. O’Lima.
Há noventa anos, George Orwell argumentou que as «tonterias repugnantes» escritas pelos críticos literários estavam a prejudicar os romances. Não se referia ao sexo, à violência ou às palavras obscenas presentes nas obras. Nem estava a reagir às críticas aos seus romances ainda por escrever, 1984 e Animal Farm. Orwell criticava as tolices hiperbólicas publicadas nos respeitáveis jornais da sua época. Na sua opinião, os elogios exagerados dos «críticos medíocres» estavam a desencorajar os leitores de levarem os romances a sério. Mas ele atribuía o problema menos a esses críticos demasiado generosos do que a uma economia cultural que os obrigava a exagerar os seus elogios para cumprir as suas obrigações profissionais e conseguir o trabalho de que precisavam para sobreviver financeiramente.

Os comentários de Orwell surgiram no seu ensaio de 1936, «Em Defesa do Romance», que antecedeu por uma década o seu mais conhecido «Política e a Língua Inglesa». E muitas das suas críticas continuam a ser válidas hoje em dia, numa altura em que os algoritmos e as plataformas online determinam grande parte da cobertura mediática dedicada aos livros. Hoje em dia, o entusiasmo pode provir de influenciadores, clubes de leitura de celebridades e de um número cada vez maior de prémios literários com as suas listas de pré-selecionados e finalistas — bem como de quaisquer meios de comunicação tradicionais que ainda publiquem críticas —, mas os seus malefícios permanecem.

Tomemos como exemplo a «treta» que Orwell acabara de ver no Sunday Times de Londres e citava no seu ensaio: «Se conseguires ler este livro e não gritar de alegria, a tua alma está morta.» Acrescentava que «algo semelhante está agora a ser escrito sobre praticamente todos os romances publicados.»

O romance está a «ser gritado até desaparecer»

No meio de uma torrente de exagero, o romance está a «ser gritado até desaparecer», afirmou Orwell. Se levássemos isso a sério, a nossa vida tornar-se-ia «uma longa luta para acompanhar o ritmo». Os romances lançavam-se sobre nós, «cada um deles uma obra-prima inesquecível, cuja perda colocaria a nossa alma em perigo». Isso transformava a procura por um bom romance num campo minado: «Deve ser tão difícil escolher um livro na biblioteca, e deves sentir-te tão culpado quando não consegues gritar de alegria.»

Isso também podia levar os leitores a projetar a sua aversão ao alarido publicitário nos próprios romances: «Quando todos os romances te são impostos como palavras de génio, é bastante natural presumir que todos eles são porcaria.»

No entanto, talvez o maior problema com esses elogios exagerados tenha sido o facto de terem levado os críticos a ajustar as suas escalas de avaliação e a baixar os seus padrões. Milhares de romances são publicados todos os anos. A maioria é medíocre ou pior, e alguns não merecem uma crítica, ou pelo menos o tempo que um crítico consciencioso demoraria a escrevê-la.

Esta realidade significa que «aplicar um padrão decente à maioria dos romances é como pesar uma pulga numa balança de mola destinada a elefantes», afirmou Orwell. A crítica Ruth Frankin resumiu a forma como ele via tudo isto numa entrevista à revista Prospect: «A sua opinião é que, uma vez que todos os romances publicados num determinado momento são basicamente pulgas, os críticos são obrigados a recalibrar os seus termómetros para avaliar a diferença entre uma pulga e outra, fazendo distinções que não são realmente importantes. Entretanto, quando surge um romance verdadeiramente grandioso, este faz rebentar o termómetro que estamos a usar para medir as pulgas.»

Uma «corrida para o teto retórico» com adjetivos

Tudo isto resulta no que Orwell denomina «a escada sem degraus dos adjetivos», ou «uma corrida até ao teto retórico, na qual até o romance mais medíocre é “comovente uma obra-prima”».

Se duvidar que ele tivesse razão, considere o seguinte. Apenas nas últimas semanas, o New York Times Book Review classificou três romances como «obras-primas».

O alarido começou a 28 de agosto, quando elogiou Hometown, de Shaun Tan, como «uma obra-prima formal». Dois dias depois, afirmou que The Disappearers, de Marlon James, não era apenas «uma obra-prima», mas «o romance da década e, provavelmente, do século até agora». Menos de três semanas depois, tinha outra «obra-prima» para apresentar: a «obra-prima irregular» de China Miéville, The Rouse.

The Disappearers pode muito bem ser a «obra-prima» da década, mas como é possível confiar nesse elogio quando o Times atribuiu essa palavra a tantos livros durante esse período? Ela foi atribuída não só a romances de estrelas das cinco grandes editoras, mas também a um romance autoeditado sobre «o romance terno e sem grandes apostas entre uma costureira de colchas bissexual e um ourives transgénero».

É verdade que o Times não descreve nenhuma das suas mais recentes «obras-primas» como «comoventes». Mas afirma que The Disappearers «se instala nas entranhas e começa a torcê-las» e «cravou facas profundamente» no coração do seu crítico. Será isso assim tão diferente de «comovente»?

A crítica do Times a The Rouse foi, à sua maneira, ainda mais hiperbólica. Afirmou que o romance tem passagens que parecem «sem paralelo na literatura e que, de alguma forma, contornam o cérebro e abalam diretamente o sistema nervoso». Como é que um romance pode ser «sem paralelo» na literatura, que tem centenas de anos? E por que razão será bom «contornar o cérebro»? Os romances não deveriam envolver a mente? Uma passagem de The Rouse levou o crítico a afirmar que mal conseguia pensar em «retratos mais indeléveis de uma mãe e um filho na literatura». Será que Hamlet e Gertrude não contaram? Ou será que o crítico simplesmente não os conhecia?

Os romances mereciam melhor do que aquilo que os críticos lhes estavam a dar, argumentava Orwell. Na sua época, os críticos elogiavam excessivamente os livros, em parte porque as editoras puxavam os cordelinhos e retiravam a publicidade se ficassem insatisfeitas. Ninguém precisava de ser tão grosseiro ao ponto de pressionar diretamente os críticos para que fizessem críticas favoráveis — os críticos sabiam o que se esperava deles.

Nos EUA, as críticas literárias de alta qualidade desapareceram em grande parte dos jornais e revistas. Mas por que razão os elogios continuam a ser tão exagerados nas que ainda restam e nos meios de comunicação digitais que as substituíram? Por que razão continuamos a assistir a essa corrida ao exagero de adjetivos e afirmações rebuscadas sobre os livros?

Em «Em Defesa do Romance», Orwell mostrava-se pessimista — com razão, como se veio a verificar — quanto à possibilidade de este quadro sombrio poder mudar e de as críticas poderem começar a servir melhor os romances e os seus leitores. «Atualmente, se se interessa por romances e, mais ainda, se os escreve, as perspetivas são extremamente deprimentes», escreveu ele. Mas «deprimentes» é diferente de «sem esperança». E a leitura do seu ensaio poderá motivar os críticos, pelo menos, a fazer a sua parte para limitar a torrente de elogios exagerados.


terça-feira, 6 de outubro de 2026

VENDA DA REFINARIA DE SINES

  • “A fusão entre a Galp e as espanholas Moeve está a ser financiada pelo fundo de capital de risco norte-americano Carlyle Group, conhecido pelas suas atividades de «aquisição total» relacionadas com ativos estratégicos; especialmente aqueles de natureza belicosa. O Enclave Industrial de Sines corre o risco de se tornar uma «ciber-pólis» detida por poderosos investidores estrangeiros que terão pouca consideração pelas regulamentações da UE e pelas diretivas fiscais. Além disso, tem sido prestada pouca atenção à medida em que Portugal já apoiou a transição da refinaria da produção de petróleo para a de biocombustíveis e hidrogénio verde. A empresa japonesa Mitsui investiu 400 milhões de euros num projeto relacionado, mas não é claro se este foi incluído na transação da Galp ou se a unidade irá operar de forma independente. Pedro Farto, The Portugal News.
  • "No final, saberemos quanto custa e como se paga". Pinto Luz sobre o novo aeroporto de Lisboa. Fonte.
  • O custo de pagar aos parques eólicos britânicos para desligarem disparou para mais de 1,5 mil milhões de libras até agora este ano. Em dias ventosos, as turbinas podem produzir mais energia do que a rede local consegue suportar – pelo que os operadores são pagos para as desligar. Fonte.

BICO CALADO

O xeque Mansour liderou a transação de aquisição do City pelos Emirados Árabes Unidos há quase 20 anos. 
Imagem: Martin Rickett/PA Images/picture alliance
  • Desde que foi adquirido pelos Emirados Árabes Unidos em 2008, o Manchester City tornou-se um dos clubes de futebol mais bem-sucedidos do mundo. Uma série de graves acusações financeiras ameaça comprometer esse sucesso e provocar o caos na Premier League. Uma comissão independente concluiu que o City tinha elaborado «contratos fictícios», além de «recorrer a acordos fictícios para inflar artificialmente as receitas do clube e reduzir os seus custos». Estes contratos, patrocínios duvidosos e uma série de outros métodos foram, de acordo com o relatório da comissão, utilizados para inflar as receitas do clube num montante de cerca de 900 milhões de libras (1,05 mil milhões de euros) durante o período compreendido entre as épocas de 2009-10 e 2017-18. Fonte.
  • ERC descobriu um maná no ‘caso das gémeas’: com segunda coima, encaixe já vai nos 57.000 euros. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

QUANDO O DONO DO JOGO COMPRA O ESTÁDIO: A LIBERDADE DE IMPRENSA EM PORTUGAL ESTÁ À VENDA?


Enquadramento e Cenário:

Em dezembro de 2023, a Cofina Media — dona de títulos como CMTV, Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios e Sábado — foi vendida por cerca de 70 milhões de euros a um consórcio liderado por antigos quadros da empresa e... Cristiano Ronaldo. CR7 detém 30% da holding Expressão Livre (agora Medialivre), sendo o acionista individual com maior participação.

A questão que se coloca é simples: quem controla um império mediático pode continuar a ser escrutinado por ele?

O cenário atual sugere que não. Vários sinais têm sido apontados como evidência de que a liberdade editorial do grupo está comprometida:

1. O "abrandamento" das críticas — Durante anos, a CMTV foi um dos órgãos que mais criticava Cristiano Ronaldo e a sua família. Após a aquisição, analistas e antigos colaboradores notaram um "súbito abrandamento das perseguições a ele". O apresentador Flávio Furtado comentou publicamente que, antes da compra, Ronaldo e a família eram "muito arrasados" na CMTV.

2. Demissões e despedimentos — Em abril de 2025, a Medialivre anunciou um despedimento coletivo de 10 fotojornalistas, afetando meios como o Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios e Sábado. O Sindicato dos Jornalistas classificou a decisão como "inqualificável", especialmente por ter sido comunicada na véspera do Dia do Trabalhador, e questionou como um grupo com resultados positivos podia despedir. Fontes ligadas ao meio jornalístico referem ainda o afastamento de comentadores que criticaram Ronaldo, como Otávio Lopes.

3. Declarações reveladoras — Em visita às instalações da Medialivre, em março de 2025, Cristiano Ronaldo declarou: "Espero que nesta casa a crítica seja quase nula". A frase, que pode ser lida como uma piada, ganha outro peso quando o autor é o maior acionista individual do grupo.

4. O silêncio ensurdecedor — O comentador Luís Vilar, da CNN Portugal, afirmou recentemente que Ronaldo tem "os seus próprios pivôs de comunicação dentro do seu canal", sugerindo que a linha editorial da Medialivre está alinhada com os interesses do acionista.

O contexto português:

Portugal tem hoje três grandes grupos privados de media: Medialivre (de Ronaldo), Media Capital (TVI/CNN) e Impresa (SIC/Expresso). A concentração da propriedade mediática nas mãos de grandes empresários — e agora de uma superestrela do futebol — levanta questões sérias sobre pluralismo, independência editorial e o direito à informação.

A pergunta que fica:

Se um jornalista da CMTV ou do Correio da Manhã quiser investigar ou criticar Cristiano Ronaldo, fá-lo-á com a mesma liberdade com que criticava antes? E se o fizer, sobreviverá na empresa?

O dinheiro não compra apenas ações. Compra silêncios.