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quarta-feira, 17 de junho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

PODES SILENCIAR AS NOTIFICAÇÕES, MAS NÃO CONSEGUES ESCAPAR AO ALGORITMO
Sarah Maness, Common Dreams. Rev. O’Lima.


Podes silenciar as histórias do Instagram. Podes desativar o Snap Maps. Podes silenciar todas as notificações no teu telemóvel. Mas tenta desativar os Reels. Tenta remover a tua «página de exploração». Tenta desativar o algoritmo do TikTok.

As plataformas de redes sociais passaram anos a aperfeiçoar a arte de dar aos utilizadores controlo suficiente para se sentirem no comando, mas não o suficiente para se conseguirem afastar de verdade. O resultado é uma falsa sensação de autonomia. A revista «Psychology Today» refere que os utilizadores costumavam controlar os seus feeds escolhendo quem seguir e com que publicações interagir, mas a maioria das plataformas passou a utilizar algoritmos que priorizam o conteúdo para os utilizadores com base na probabilidade de interação. Os consumidores dispõem agora de inúmeras definições para reorganizar as funcionalidades superficiais de uma estrutura que não pode ser alterada de forma fundamental.

Estas aplicações oferecem infinitas opções de configuração para criar uma ilusão de controlo, seja através de definições de privacidade, da ocultação do número de «gostos» ou do bloqueio de determinadas páginas. Mas nenhuma destas funcionalidades é significativa. Todas funcionam como um engodo para impedir que se resolva o problema de fundo.

As funcionalidades que não se podem desativar são precisamente aquelas que o mantêm a percorrer o feed hora após hora. São o resultado de anos de engenharia comportamental, concebidas especificamente para explorar os ciclos de dopamina e o vício, de modo a manter os utilizadores num ciclo que gera uma sensação de recompensas contínuas. A capacidade de percorrer infinitamente qualquer plataforma através de vídeos e publicações sugeridas impede o fim natural que um feed finito criaria. À medida que o tempo passa, os algoritmos adaptam-se aos utilizadores que os utilizam. Compreendem o que o deixará entusiasmado, enfurecido ou cativado, tudo à custa da sua capacidade de atenção e de inúmeras horas irrecuperáveis da sua vida.

Num caso histórico ocorrido em março de 2026, a Meta e o YouTube acabaram por ser considerados culpados por criarem dependência intencional nos jovens utilizadores e por prejudicarem a sua saúde mental. Os júris consideraram as duas empresas negligentes na conceção das suas plataformas, sabendo que estas eram perigosas e não tendo alertado adequadamente para os riscos. As empresas foram condenadas a pagar 3 milhões de dólares a título de indemnização por danos, e os jurados recomendaram mais 3 milhões de dólares a título de indemnização punitiva.

Este veredicto é revolucionário porque, pela primeira vez, a lei indicou que o problema residia na conceção das aplicações, e não no conteúdo ou nos utilizadores. Muda o discurso, passando de culpar os consumidores por passarem demasiado tempo nas redes sociais para reconhecer que estas aplicações são concebidas para tornar impossível afastar-se delas. Este julgamento poderá estabelecer um precedente para os mais de 1 500 processos semelhantes que foram instaurados contra as empresas.

As conclusões deste caso não são novidade. Durante muitíssimos anos, as tabaqueiras venderam cigarros sabendo que esses produtos eram concebidos para criar dependência nos consumidores, ao mesmo tempo que negavam veementemente os malefícios em todas as fases do processo. É fácil refletir sobre esse capítulo da história com uma visão mais clara, mas foi difícil percebê-lo na altura. Agora, estamos a viver a sua versão moderna.

A diferença entre estes casos é que comprar cigarros requer um esforço explícito, mas as redes sociais seguem-nos para todo o lado. Estão no nosso bolso, estão connosco na escola, no escritório; nenhum lugar está fora do nosso alcance e nenhum momento está fora dos limites. Não existe nas redes sociais o equivalente a uma «zona de não fumadores» ou a um local demasiado inadequado para consultar o telemóvel. Trata-se de um vício facilitado pela sociedade, sem barreiras que limitem o envolvimento.

A questão não é saber como não usar as redes sociais — isso é inevitável. Trata-se de saber se se tem sequer a capacidade de não as usar. Quando todo o algoritmo está concebido para impedir que se saia da plataforma e para garantir que a aplicação continue a gerar receitas, já não se trata da autonomia pessoal, mas sim dos dispositivos que impedem que se consiga afastar-se fisicamente delas.

Os políticos também reconhecem este problema. O projeto de lei AB 2169 da Califórnia exigiria que as empresas fornecessem uma cópia dos dados pessoais dos utilizadores, incluindo perfis comportamentais e o mapa digital das interações online. Exige ainda que as plataformas criem uma ponte para permitir que os utilizadores sincronizem os seus amigos e interações com outras aplicações. O pacote de medidas «Kids Over Clicks» do Michigan (SB 757-760) vai mais longe, proibindo as plataformas de utilizarem os dados pessoais de menores para alimentar algoritmos de recomendação sem o consentimento dos pais, banindo padrões manipuladores como sequências de utilizações consecutivas e sistemas de recompensas para incentivar a utilização contínua da aplicação, e regulamentando rigorosamente os chatbots de IA que possam encorajar a automutilação ou funcionar como terapeutas não licenciados.

Embora estes projetos de lei representem um grande passo no sentido de restaurar a autonomia do utilizador, nenhum deles aborda de frente o vício nas redes sociais. Saber quais são as funcionalidades que estas aplicações utilizam para nos prender numa navegação interminável é útil, mas não impede o comportamento na sua essência. A opção de desativar estas definições de privacidade e restrições predefinidas continua a existir. O problema não é o conteúdo das aplicações, mas sim o seu design. Não podemos limitar-nos a alterar as funcionalidades e a reestruturar as definições. A questão não pode ser resolvida enquanto toda a arquitetura das plataformas não for reformulada.

Deixo-vos com esta reflexão: já sabemos como a história termina se não fizermos nada, pois já a vivemos antes. Então, o que vamos fazer hoje para escrever um final diferente?

sexta-feira, 29 de maio de 2026

BICO CALADO

Philip Jones/Alamy Live News
  • O Tribunal de Justiça da União Europeia proferiu dois acórdãos importantes que visam combater a utilização abusiva de trusts, nomeadamente no que diz respeito ao sigilo e à proteção de ativos. Fonte.
  • O pacote orçamental que o presidente dos EUA, Donald Trump, e os republicanos do Congresso aprovaram à pressa no verão passado já provocou uma redução em grande escala da assistência alimentar destinada a crianças de baixos rendimentos. Uma análise agora divulgada estima que mais de 700 000 crianças em doze estados perderam a ajuda alimentar federal desde que a lei do Partido Republicano entrou em vigor.
  • A IA está a tornar a linguagem jornalística mais repetitiva e previsível – e isso é um problema para todos nós. Xosé López-García e Cristian Augusto Gonzalez Arias, The Conversation.
  • 28 de maio de 1926: MADEIRA – 1.º CENTENÁRIO. Comemora hoje 1 século sem mudanças. Depois de 48 anos de partido único, seguiram-se 52 anos de um único partido. Carlos EsperançaAlegadamente associando-se à efeméride, o supremo Tribunal Administrativo decidiu confirmar a extinção da Fundação Berardo, o que pode significar a recuperação de 980 milhões.
  • A empresa militar responsável por um derrame químico no sul da Califórnia, que obrigou cerca de 50 000 pessoas a evacuar as suas casas durante o fim de semana, fabrica peças para caças F-35 que provavelmente se destinam a Israel. A fábrica da GKN Aerospace em Garden Grove, Califórnia, cujo tanque químico de 7.000 galões se rompeu na semana passada e ameaçou explodir, arrecadou mais de 13 milhões de dólares desde 2017 em subcontratos com a gigante da indústria militar Lockheed Martin. A Lockheed distribui subcontratos a centenas de empresas em mais de uma dúzia de países para ajudar a construir os caças. Entre elas está a GKN Aerospace Transparency Inc., a subsidiária da GKN sediada em Garden Grove, que arrecadou mais de 255 milhões de dólares em subcontratos com a Lockheed Martin. Fonte.

domingo, 17 de maio de 2026

BICO CALADO

  • Estupefacção absoluta na redacção da RTP pelos argumentos usados pela direção de informação liderada por Vítor Gonçalves para justificar a censura a declarações de uma idosa no Mercado de Benfica, em Lisboa, transmitidas no Dia do Trabalhador numa reportagem corriqueira sobre inflação e custo de vida. Em causa estava uma peça da jornalista Soraia Ramos, transmitida no Telejornal das 20h00, cuja versão exibida apenas uma hora depois na Notícias 21 já surgia amputada da intervenção final. Fonte.
  • Há momentos em que a História parece escrita por um bêbedo com sentido de humor. A fina flor do capitalismo global, que passou décadas a explicar ao mundo a inevitabilidade moral e económica do mercado livre, apareceu agora disciplinadamente e humildemente em Pequim. Tesla e SpaceX (Elon Musk), Nvidia (Jensen Huang), Apple (Tim Cook), BlackRock (Larry Fink), Blackstone (Stephen Schwarzman), Boeing (Kelly Ortberg), Cargill (Brian Sikes), Citigroup (Jane Fraser), General Electric (Larry Culp), Goldman Sachs (David Solomon), Micron (Sanjay Mehrotra) e Qualcomm (Cristiano Amon), todos representados pelos seus respetivos sumos-sacerdotes corporativos acompanhados por Donald Trump, deslocaram-se até ao “Chairman” do Partido Comunista Chinês para implorar por negócios. Durante décadas disseram ao Ocidente que o comunismo era uma anomalia destinada a desaparecer. Hoje fazem fila à porta dele. No fim, o capitalismo não derrotou o comunismo. Foi pedir-lhe ajuda para o próximo semestre fiscal. RiseUp Portugal.
  • O governo dos EUA, através de agências como a USAID e a Fundação Nacional para a Democracia (NED), juntamente com a Fundação Open Society, está a financiar secretamente uma rede de meios de comunicação «independentes» em Cuba, no âmbito de uma iniciativa destinada a promover uma mudança de regime. Os media que se apresentam como imparciais, tais como o CubaNet, o ADN Cuba e o Diario de Cuba, receberam milhões de dólares em subvenções dos EUA. Por exemplo, o ADN Cuba recebeu mais de 3 milhões da USAID desde 2020, e o Diario de Cuba recebeu 1,3 milhões entre 2016 e 2020. Os jornalistas destes media apoiados pelos EUA recebem salários extremamente elevados (até dez vezes superiores aos dos jornalistas da imprensa estatal), o que os torna algumas das pessoas mais ricas da ilha. O seu conteúdo é regularmente citado pelos principais media ocidentais como reportagem «objetiva», divulgando, na prática, as narrativas do Departamento de Estado dos EUA. Fonte.
  • André Ventura alvo de cinco processos de contra-ordenação por violação da Lei das Sondagens durante as Presidenciais. Fonte.
  • Trump diz ter arrasado o Irão em todos os domínios e acusa um repórter do NYTimes de traição por contestar essa ‘verdade’. Fonte.
  • Um artigo de opinião do «New York Times», da autoria de Nicholas Kristof, analisa a violência sexual sistemática praticada por Israel contra detidos palestinianos. Istrael vai processar o jornalista e o jornal. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

PÂNICO DO HANTA: MAIS UM RATO A BORDO
Ricky Lanusse, Medium. Trad. O’Lima.


A minha mãe enviou-me uma foto tirada do seu terraço: mais um «ratón colilargo». O rato-pigmeu-de-cauda-longa, Oligoryzomys longicaudatus. Por estas bandas, as pessoas identificam-no primeiro pela versão mais simples: o rato-hanta.

Ela não está com medo. Está farta. O sacaninha andou outra vez a comer as nozes e as maçãs das árvores do seu jardim, tratando o terraço como um buffet, o pomar como uma filial da Whole Foods, a casa como um spa entre refeições.

Para alguém fora da Patagónia, a foto provavelmente pareceria uma pequena história de terror. Um rato de cauda longa em tábuas de madeira. Um transmissor. Um aviso. Algo para partilhar num grupo de chat com demasiados pontos de exclamação.

Aqui, o sentimento é mais antigo e menos cinematográfico.

Vês o animal e a tua mente abre o arquivo: galpões, pilhas de lenha, cabanas, excrementos, poeira, luvas, máscaras, lixívia, espaços fechados, bambu em flor, proliferação de roedores e a palavra «hantavírus» a repousar silenciosamente no fundo da garganta.

Está lá desde que me lembro.

A Patagónia não precisa de um navio de cruzeiro para saber que este vírus existe. Temos vivido com o risco da mesma forma que as pessoas vivem com avalanches, incêndios, pumas, árvores a cair, estradas em mau estado e mudanças climáticas repentinas. Não entras em pânico todas as manhãs. Aprendes onde colocar as mãos. Aprendes o que não varrer. Aprendes que a natureza não se torna mais segura só porque lhe deste um folheto.

Então o mundo fica em alvoroço porque três pessoas morrem num navio.

O MV Hondius partiu de Ushuaia a 1 de abril, navegando do extremo da Argentina em direção a Cabo Verde. Em pouco tempo, a história deixou de ser uma questão local sobre florestas e roedores e passou a fazer parte do discurso global sobre surtos, passageiros, portos, rastreio, testes, avaliação de riscos e aquele leve tremor de nervosismo que ainda percorre o mundo sempre que um agente patogénico surge no contexto das viagens internacionais.

De repente, o navio de cruzeiro holandês tornou-se o pano de fundo de toda a história, ativando o sistema nervoso pós-COVID.

A Patagónia foi tratada como a fonte do problema porque todas as histórias, tal como o pangolim, precisam de um vilão.

E, de um momento para o outro, todos exigiam um quadro claro do perigo: onde tinha começado, para onde se tinha espalhado, onde traçar uma fronteira para que o resto do mundo pudesse voltar a sentir-se seguro.

O rato-pigmeu-de-cauda-longa no terraço da minha mãe (fotografia tirada pela minha mãe)

O navio tornou o local global

A primeira coisa a dizer é a mais enfadonha, mas que também é a mais responsável: A COVID é o modelo mental errado. A Organização Mundial de Saúde afirmou que o risco para a população em geral é «absolutamente baixo». O hantavírus não se transmite facilmente através do contacto casual. Não se apanha a doença só porque alguém passa por nós num corredor do aeroporto ou respira perto de nós numa fila do supermercado.

A estirpe associada ao surto no navio é a estirpe Andes, encontrada principalmente em regiões da Argentina e do Chile, incluindo, claro, a minha cidade natal na Patagónia. Esta é a única estirpe de hantavírus em que se documentou a transmissão entre pessoas. Mas, mesmo assim, as condições são específicas: contacto próximo e prolongado, frequentemente em ambientes íntimos ou confinados. Uma cabine de um navio de cruzeiro pode proporcionar exatamente o tipo de proximidade em espaço fechado de que os agentes patogénicos gostam. A vida pública normal, por norma, não o faz.

Portanto, sim, compreendo o reflexo pandémico, mas o vírus e a doença são algo bastante diferente. O surto pode ser grave, cientificamente importante e emocionalmente perturbador. Ainda assim, não se comporta como o SARS-CoV-2.

O Ministério da Saúde da Argentina afirmou que não foi confirmado que a infeção tenha ocorrido na Argentina. A província da Terra do Fogo, de onde o navio partiu, não registou nenhum caso confirmado nos últimos 30 anos. O casal holandês que se acredita estar relacionado com o surto tinha viajado extensivamente pela Argentina, Chile e Uruguai antes de embarcar, incluindo regiões onde a doença é historicamente conhecida. As autoridades planeavam capturar roedores ao longo do percurso para realizar testes.

É assim que uma investigação realmente se desenrola. É um processo lento e sem espalhafato. As pessoas armam armadilhas, recolhem amostras, constroem cronologias e reconstituem o que aconteceu antes de a Internet transformar tudo numa história com um vilão bem definido e um final feliz.

Mas a forma como o mundo reage também diz muito sobre o mundo. Quando um trabalhador rural adoece na Patagónia, o mundo não atualiza a página. Quando um surto numa aldeia mata pessoas longe das rotas de cruzeiro dos viajantes abastados, torna-se uma tragédia local, talvez notícia regional, e depois memória. Quando um navio internacional que transporta passageiros de outros lugares se torna o veículo, a história é elevada a ansiedade global.

O vírus não ganhou maior importância no mar. Em vez disso, tornou-se mais visível para as pessoas que, em terra, tinham o luxo de o ignorar. Essa é a primeira verdade incómoda.

A segunda é que a Argentina conhece bem esta doença. Um surto na Patagónia em 1996 ajudou os cientistas a documentar a transmissão entre pessoas pela primeira vez. Outro surto há quase uma década, também na Patagónia, forneceu provas detalhadas da propagação entre humanos depois de um trabalhador rural infetado ter participado numa festa de aniversário numa pequena aldeia. Onze pessoas morreram.

O mundo está a descobrir um perigo pelo qual o meu povo na Patagónia já pagou com a vida.

A porta continua a alargar-se

O hantavírus não surge nas nossas vidas como uma maldição sobrenatural. Tem uma ecologia. Na Patagónia, parte dessa ecologia começa com a caña colihue, um bambu nativo que pode florescer em massa após longos ciclos. Quando floresce, produz enormes quantidades de sementes. As sementes caem. Os roedores alimentam-se. As populações aumentam. Depois, quando o banquete termina ou a densidade populacional aumenta, os animais deslocam-se. As pessoas daqui sabem como é isso. Chamamos-lhe ratada (pronuncia-se com um «arrrr» muito forte).

Ratos que aparecem em barracões, cabanas, jardins, pilhas de lenha, áreas de compostagem, debaixo de terraços, perto de galinheiros, à volta de árvores de fruto, em locais que os humanos pensavam que lhes pertenciam. E, depois de se empanturrarem, muitos afogam-se nas margens, sedentos e a desmoronar-se por dentro após o seu banquete.

Os impulsos alimentares movem os animais e os animais trazem riscos.

O vírus vive nessa zona de contacto, especialmente através da urina, das fezes, da saliva, do pó contaminado e em espaços fechados onde as pessoas limpam demasiado depressa e respiram muito perto umas das outras. É por isso que os conselhos antigos são de natureza física, quase doméstica.

Pense nos excrementos de roedores como se fossem purpurina. Se os varrer a seco, transformam-se em pó invisível que pode acabar nos seus pulmões. Por isso, primeiro abre-se tudo e deixa-se o local arejar, depois molha-se a sujidade com desinfetante, espera-se um pouco e limpa-se, em vez de a espalhar pelo ar. Tudo isto com luvas e uma boa máscara. Em termos simples, as regras são: arejar, não varrer nem aspirar, pulverizar, esperar, limpar. Essa é a rotina enfadonha que impede que um pequeno problema com animais se transforme num problema hospitalar.

É simples até deixar de o ser.

Porque as pessoas não vivem em condições de laboratório. Vivem em casas com lenha, árvores de fruto, arrecadações, cantos com infiltrações, tábuas velhas, arrumos de inverno, cabanas de turismo, trabalho rural e famílias que limpam quando têm tempo, não quando o cartaz de saúde pública assim o diz.

E agora, as condições climáticas estão a fazer com que esses contactos rotineiros se tornem mais evidentes

A Argentina registou 101 casos de hantavírus desde julho do ano passado, com 32 mortes, de acordo com dados do Ministério da Saúde citados em reportagens recentes. As épocas anteriores apresentaram números mais baixos: 64 casos e 14 mortes entre 2024 e 2025, e 82 casos com 13 mortes entre 2023 e 2024.

Esses números situam-se ainda perto da média anual histórica da Argentina, de cerca de 100 casos, mas o aumento é significativo porque as condições em torno da doença estão a mudar. O aumento pode estar relacionado com o comportamento dos roedores: a seca nos últimos três invernos, seguida de um aumento das chuvas na primavera, mais coberto vegetal e mais alimento para os roedores.

Um mundo mais quente não precisa de inventar novos agentes patogénicos todas as semanas para nos deixar mais doentes. Pode alterar o calendário das chuvas, a sobrevivência dos roedores durante os meses mais frios, a floração das plantas, a migração dos animais, a pressão sobre as florestas, a propagação dos incêndios e o número de ocasiões em que os seres humanos entram em contacto com reservatórios selvagens.

É por isso que o hantavírus é uma história climática, mesmo quando o próprio vírus é antigo.

A interação humana com ambientes selvagens, a destruição de habitats, a expansão dos assentamentos rurais e as alterações climáticas contribuem para o surgimento de casos fora das zonas historicamente endémicas. O aumento das temperaturas afeta a presença do rato de cauda longa, o principal portador na Argentina e no Chile, e faz com que estes roedores possam ser mais capazes de se adaptar às alterações climáticas.


Agora, um possível Super El Niño já se está a formar no horizonte, pronto para aumentar a volatilidade de uma situação de base que deixou de se comportar como um pano de fundo.

A minha família e os meus vizinhos não precisam de um modelo para perceber que algo está a mudar. Eles apenas vêem mais ratos a roer maçãs, o que constitui um problema no jardim. Os relatos informais não são ciência e não devem ser tratados como tal. Mas são frequentemente o ponto de partida da investigação científica.

Continuamos a alargar a porta de entrada.

Quando um velho perigo se torna um incómodo

A reação global ao surto no cruzeiro era previsível, porque o mundo ainda sofre de «PTSD da COVID».

Um agente patogénico num navio. Passageiros internacionais. Mortes. Declarações da OMS. Rotas de viagem. Testes. Isolamento. Um mapa com setas. As pessoas já conhecem esta linguagem visual, e o corpo reage antes de o cérebro ter tempo de distinguir um vírus de outro.

Isso é compreensível. Mas também é perigoso. Porque a história mais fácil é a errada. O hantavírus é grave, mas não se comporta como uma pandemia respiratória. Não se propaga rapidamente em multidões casuais. Não se espalha porque alguém espirra num estádio. A estirpe dos Andes acrescenta a possibilidade de transmissão de pessoa para pessoa, mas em condições muito mais restritas do que a COVID.

Portanto, o surto no MV Hondius é grave. Trata-se do primeiro surto de hantavírus a bordo de um navio documentado, e levanta questões científicas concretas sobre onde ocorreram as primeiras infeções, que tipo de contacto teve lugar a bordo e o que a sequenciação do genoma pode revelar aos investigadores sobre a cadeia de transmissão. A estirpe Andes merece atenção. A Argentina, o Chile, as autoridades europeias e a OMS devem coordenar-se sem que o teatro político interfira. Os passageiros e os contactos próximos devem ser cuidadosamente rastreados. A vigilância de roedores deve ser realizada nos locais onde possa ter ocorrido exposição.

Entretanto, o presidente argentino Milei tem tratado a ciência, a educação e os cuidados de saúde como rubricas descartáveis, como se um país pudesse dar-se ao luxo de pirotecnia ideológica, mas não das instituições que mantêm os factos mensuráveis e as pessoas vivas. Em março, formalizou a saída da Argentina da OMS, replicando o seu ídolo Trump, precisamente no momento em que a cooperação não é um slogan, mas o preço mínimo da segurança.

Uma sociedade que funciona sabe distinguir entre pânico e vigilância. Nós seríamos capazes disso, mas continuamos a entregar o poder a pessoas que vendem a ignorância como coragem, tratam a competência como traição e ensinam o público a confiar mais nos influenciadores do que nos cientistas.

O mundo continuará a perguntar onde é que os passageiros do cruzeiro foram infetados. Mas a resposta mais ampla está à nossa frente há anos, a comer frutos do jardim.

Estamos a criar as condições propícias. Estamos a cortar nas instituições. Estamos a alargar a porta. Depois, fingimos surpresa quando algo pequeno, faminto e vivo entra por ela.

A minha mãe provavelmente enviará outra foto se outro rato de cauda longa aparecer no terraço. Provavelmente ficará irritada outra vez. E algures, longe do seu jardim, alguém chamará a isso uma nova ameaça, porque um velho perigo se tornou subitamente um inconveniente para eles.

domingo, 3 de maio de 2026

BICO CALADO

  • "O senhor Döpfner é o CEO do grupo de imprensa com mais audiência em toda a União Europeia e um dos cinco homens mais poderosos da Comunicação Social na Europa e na Alemanha (Telegraph, Politico, Bild, Welt etc., etc., etc.), está nos conselhos de administração de grandes empresas como a Warner, Netflix, Insider etc., manda na televisão Welt (da qual me demiti, enquanto correspondente, por causa do branqueamento que faz dos crimes de guerra e do genocídio na Palestina). Agora, este senhor foi muito claro: ou os jornalistas em todas as empresas do grupo (televisões, portais, jornais e dezenas de revistas em 40 países) alinham com a política do governo israelita e apoiam Israel ou o CEO convida-os a demitirem-se. Fico à espera que o sr. Döpfner me agradeça por ter tomado a iniciativa de bater com a porta um ano e meio antes desta ameaça nada subtil (a carta aberta de demissão com o título "O jornalismo não pode ser cúmplice de genocídio" para a Welt e enviada jornalistas de outros jornais alemães - alguns deles colegas que conheço pessoalmente - não foi publicada em lado algum, vá se lá saber porquê)." Miguel Szymanski, Os jornalistas ou alinham ou vão para a rua.
  • Os EUA caem para a pior classificação de sempre no Índice de Liberdade de Imprensa, enquanto Trump «joga achas para a fogueira». O desprezo manifesto da administração Trump pela liberdade de imprensa levou os EUA à sua pior classificação de sempre no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa da organização «Repórteres Sem Fronteiras» (RSF), que classifica os países com base em vários indicadores, incluindo proteções legais para jornalistas, segurança dos repórteres e hostilidade política geral em relação à imprensa. Os EUA ficaram em 64.º lugar entre 180 países na última versão do índice, descendo sete posições em relação ao ano passado. Fonte.
  • PSD decide repetir eleições na concelhia de Espinho que deram vitória a candidato afastado por Luís Montenegro. Fonte.
  • Freira católica brutalmente atacada por colono Israelita em Jerusalém. Video.
  • O filho de dois proeminentes diplomatas noruegueses que estão a ser investigados devido à sua relação com Jeffrey Epstein suicidou-se, segundo o Times of London. Edward Juul Rød-Larsen, de 25 anos, foi encontrado morto em Oslo três dias depois de as polícias francesa e norueguesa terem aberto uma investigação conjunta sobre os seus pais, Mona Juul e Terje Rød-Larsen. Os dois diplomatas desempenharam um papel decisivo na mediação dos acordos de Oslo de 1993 entre Israel e a OLP. Enfrentam agora acusações de corrupção, depois de se ter revelado que Epstein os tinha ajudado a comprar um apartamento de luxo e deixado 5 milhões de dólares a cada um dos seus dois filhos no seu testamento. O seu filho, Edward, era frequentemente mencionado nas reportagens da imprensa norueguesa, que muitas vezes referiam que os pais o levavam à ilha privada de Epstein nas Caraíbas quando ele ainda era criança. Fonte.
  • O líder do Reform UK, Nigel Farage, afirmou que «o X está a tornar-se um lugar muito desagradável e muito perigoso», apesar de os seus deputados terem auferido mais de 55 000 libras através da plataforma desde as eleições gerais de julho de 2024. O próprio Farage ganhou mais de 22 700 libras através da plataforma — propriedade do empresário tecnológico de extrema-direita Elon Musk — desde que se tornou deputado por Clacton. Fonte.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

BICO CALADO

  • Mais de mil artistas apelam a boicote da Eurovisão: "Branqueia genocídio". Fonte.
  • "(...) Lula da Silva está de visita a Portugal, uma honra para o País que moldou o seu, que lhe deixou a língua que nos une e o património histórico comum. Esperava-se dos portugueses o sentimento de regozijo por termos entre nós o presidente da maior democracia do continente americano, um homem que alia à dimensão afetiva e humanista verdadeira paixão por Portugal e uma genuína amizade pelo povo português. (...) Mas, há sempre um mas. Das sarjetas da política partidária, das alfurjas do salazarismo serôdio, saem marginais consumidos pelo ódio, movidos pelo ressentimento, tocados por um marginal, dispostos a insultar o homem que paira bem acima dos homúnculos que o 4.º Pastorinho arregimenta para aparecer nas televisões a grunhir impropérios. Os fascistas que saíram à rua, para insultar Lula da Silva, pretendem digerir a derrota de Orban na Hungria, a repugnância de Trump em todo o mundo, a náusea de Bolsonaro, o asco de Netanyahu e a memória dos regimes nazifascistas que os inspira. Há naqueles marginais uma sede de protagonismo que só a boçalidade e a coreografia lhes asseguram. Podia pensar-se que a manifestação contra a corrupção era contra o próprio Chega que pretende ocultar o nome dos financiadores, e era contra o presidente Lula, com gritos de apoio a Bolsonaro gritado em uníssono com brasileiros que o Chega quer reenviar para o Brasil. (...)" Carlos Esperança.
  • O recém-lançado relatório anual sobre a situação de direitos humanos no mundo diz que Portugal violou o direito humanitário ao permitir que os aviões F-35 vendidos pelos EUA a Israel aterrassem na Base das Lajes em abril de 2025.
  • Quem nos protege do Estado que protege o fascismo? Raquel Varela.
  • Uma empresa israelita incluída na lista negra da ONU devido às suas atividades na Cisjordânia arrecadou mais de mil milhões de dólares com o petróleo e o gás do Mar do Norte em apenas seis anos – e poderá vir a ganhar ainda mais se o campo de Rosebank for aprovado. Fonte.
  • O Mythos da Anthropic acaba de dar início a uma nova corrida ao armamento. Enrique Dans, Medium.

sábado, 18 de abril de 2026

BICO CALADO

  • A TVI protege a patroa. A menina de Loures que se aguente. Jacinto Furtado.
  • Os incêndios florestais de 2025 na região de Los Angeles, que obrigaram mais de 200 000 pessoas a abandonar as suas casas, tiveram um impacto desproporcionalmente grave nas pessoas que já viviam em situação de sem-abrigo. Fonte.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

BICO CALADO

  • “Sr. Dr. José Quinaz Garcia Ferreira, se continuar a insultar-me não o bloqueio, porque não é meu hábito, mas faço um post a mostrar aos meus leitores quem é o fascista que no colégio de Almeida era salazarista e no liceu da Guarda, onde fez o 6.º e 7.º ano, ameaçava os colegas de os denunciar à Pide. Compreendo que o 25 de Abril lhe alterou o percurso, acabando médico quem desejava ser o chefe da Pide em Vilar Formoso e ficar perto de casa na Freineda. Tem menos 16 anos do que eu. Não lhe admito faltas de respeito, calúnias e mentiras.” Carlos Esperança.
  • "No Ceará, o emparedamento político de Luizianne Lins revela a força opressora dos acordos masculinos de poder. Sua trajetória insurgente foi sabotada pelo “pragmatismo eleitoral”. Como Ariadne, da mitologia grega, é a heroína descartada." Sara Goes e Paola Jochimsen, O labirinto da política devora mulheres fortesOutras Palavras.
  • “Quando o líder «interino» da Síria, Ahmed al-Sharaa, aterrou em Londres a 31 de março, recebeu uma receção muito mais calorosa do que muitos alguma vez pensaram ser possível. Como líder de longa data da filial da Al-Qaeda na Síria, os EUA tinham oferecido uma recompensa de 10 milhões de dólares por informações sobre o seu paradeiro apenas 15 meses antes. No entanto, ali estava Al-Sharaa, a posar orgulhosamente para fotos com o rei Carlos e o primeiro-ministro Keir Starmer. Os serviços secretos britânicos vinham a trabalhar para este dia há quase duas décadas. O caminho para o governo de Al-Sharaa foi aberto pelo MI6 após anos de orientação sob a tutela de Jonathan Powell, que agora desempenha as funções de conselheiro de segurança nacional de Starmer. Chegara a hora de a Grã-Bretanha consagrar formalmente o seu fantoche sírio.” Kit Klarenberg, The Grayzone.
  • "Depois de uma repórter de renome da BBC ter suscitado indignação por publicar uma citação em que exigia que o Irão fosse alvo de um ataque nuclear, ficou a saber-se que ela é uma ativista empenhada na mudança de regime, cuja carreira foi lançada por uma rede de propaganda fundada pela CIA. Permanecem sérias questões sobre o processo editorial da BBC." Wyatt Reed, The Grayzone.
  • “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.” Padre António Vieira, Sermão do bom ladrão.
  • Graças a uma lei promovida por Trump e pelo Partido Republicano, pelo menos 88 grandes empresas norte-americanas pagaram 0 dólares em imposto sobre o rendimento federal no ano passado. As empresas evitaram pagar mais de 26,7 mil milhões de dólares em impostos sobre o rendimento no ano passado, um montante suficiente para proporcionar refeições escolares gratuitas a todas as crianças dos Estados Unidos. Fonte.
  • Doadores dos partidos e campanhas passam a ser secretos. Fonte.
  • O presidente da Câmara de Mirandela lamentou que o município não tenha sido ouvido sobre a Escola Profissional de Agricultura de Carvalhais passar para a sua alçada, afirmando que não aceita a competência sem o devido financiamento. Fonte.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

BICO CALADO

  • “Não se debate com fascistas. Combate-se. O fascismo tem como premissa o irracionalismo, não mobilizam argumentos, interrompem, gritam, mentem, são cães raivosos esmagados pela concorrência, são milícias. Quando podem, matam, quando não podem mentem, e defendem abertamente assassinos e corruptos como Oliveira Salazar. Não se pede a um fascista que seja educado. O problema de Trump não é que ele é buçal e bruto ou mesmo louco. O problema é que manda matar 160 crianças numa escola; o problema de Ventura não é que ele é mal educado, rude, mentiroso e aldrabão, o problema é que ele é um fascista, que defende um regime de violência contra os opositores. Não foi um debate, foi mais uma cena sofrível, como todas as que vemos hoje diariamente nas TVs, com comentadores ao estilo Ventura, agora há vários, não sei os nomes, mas quando entro num café e há uma TV ligada há sempre um/umas que berram e gesticula barbaridades. Porque não pedir bons modos ao genocida Israelita ou doçura a sequestrar e isolar países? Não foi uma aula de história, nem um desmascarar na ignorância de Ventura. Foi apenas mais um dia normal da anormalidade das TVs portuguesas, que resolveram ser espelho das instituições, em vez da sua crítica.” Raquel Varela, Não se debate com fascistas.
  • “A Meta tem vindo a argumentar há anos, com aquela mistura de cinismo corporativo e arrogância monopolista, que as suas plataformas são simplesmente espaços neutros nos quais, de vez em quando, acontecem coisas lamentáveis. Mas quando um júri começa a dizer o que a empresa tem negado há demasiado tempo, e quando escritórios de advogados começam a anunciar na Meta, procurando representar vítimas do seu design viciante, a reação da empresa não é rever o seu modelo, assumir a responsabilidade ou corrigir o produto, é simplesmente remover esses anúncios. Nenhuma tentativa de discutir o mérito da questão. Em vez disso, mais uma vez, ignorar o problema.” Enrique Dans, Medium.
  • A Itália suspendeu a renovação automática do seu acordo de defesa com Israel. Fonte.
  • O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão acusa o YouTube de tentar «suprimir a verdade» ao banir a Explosive Media, a conta responsável por uma série de animações virais ao estilo Lego que ridicularizam a guerra entre os EUA e Israel. Fonte.

terça-feira, 14 de abril de 2026

BICO CALADO

  • “Tivemos, durante o Estado Novo, uma diplomacia que, à falta de melhor e pretendendo defender a justiça de um colonialismo aberrante, há muito já denunciado e descartado pela História, se dizia “orgulhosamente só”. Mas não era orgulhosamente e sim vergonhosamente, mantendo três guerras coloniais em África e uma ditadura na pátria. Tivemos depois, entre o saloio e o arrogante-subserviente, o episódio em que o primeiro-ministro Durão Barroso ofereceu a Base das Lajes e o nosso comprometimento para que um refractário à guerra do Vietname, George W. Bush, pudesse limpar o seu cadastro e declarar-se “um Presidente em guerra” — uma guerra, levada ao Iraque, ilegítima, à revelia da ONU e com pretextos inventados e provas falsificadas, que Durão Barroso declarou autênticas. Mas talvez na era contemporânea, nunca a nossa diplomacia tenha descido tão baixo como agora, em que as Lajes servem de tapete voador sobre o qual nos curvamos à passagem dos aviões e drones do louco perigoso que governa os Estados Unidos e que levou ao Irão uma guerra sem sombra de legitimidade e até de estratégia política e militar, e, por arrasto, ao mundo inteiro. Hoje, graças à diplomacia de Luís Montenegro e Paulo Rangel, tenho vergonha de ser português e só me consolo um pouco pensando que quem só faz o que sabe não é inteiramente responsável por toda a ignorância que carrega. Porém, não se trata apenas de política ou de diplomacia. Trata-se também da segurança nacional. Colocando Portugal na primeira linha de apoio à linha da frente desta demência trumpiana-israelita, o Governo coloca-nos também na posição de alvo legítimo e natural de represálias iranianas. É possível que o preclaro presidente do Governo Regional dos Açores ainda não tenha visto o assunto a esta luz e por isso declara não ter opinião sobre a legitimidade desta guerra e do apoio que lhes estamos a dar, preferindo, diz ele, confiar na justeza da decisão do Governo da República e do seu próprio partido. O homem ouve o desvairado narciso americano dizer que vai varrer uma civilização milenar numa noite, levando-a de volta à Idade da Pedra (pelo método Hiroxima-Nagasáqui, supõe-se), e não tem opinião sobre o assunto. Mas quando interrogado sobre se o nosso “aliado” americano não deveria ao menos pagar uns tostões, ou uns peanuts, pela utilização das Lajes, aí já José Manuel Bolieiro tem opinião própria e pronta. Sim, declara ele, atendendo à importância que agora se voltou a confirmar da Base das Lajes para as guerras dos Estados Unidos deste lado do mar, seria justo que, tal como sucedeu no passado, eles pagassem alguma coisa… aos Açores. Ou seja, entendamo-lo: princípios, ele não tem nem o incomodam; mas uma esmolinha nunca fez mal a ninguém.“ Miguel Sousa Tavares, Expresso, 10abr2026.
  • A presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa (PS), declarou publicamente que retirava a confiança ao jornalista da Agência Lusa João Gaspar. A decisão surgiu após a publicação de uma notícia sobre a Casa do Cinema de Coimbra, onde se afirmava que o espaço poderia perder a licença devido à falta de obras da autarquia e que o município não respondeu às perguntas enviadas pela Lusa. Fonte.
  • O Governo de Luís Montenegro contratou os serviços de uma empresa irlandesa para ter acesso à ferramenta Newswhip (Chicote de notícias), que promete ajudar os seus clientes a identificar não apenas os temas que estão a atrair maior interesse no debate público nas redes sociais, mas também prever o alcance que cada tema em discussão terá nos dias seguintes e adaptar a resposta a situações de crise para ganhar alcance através da análise de dados em tempo real. Esta ferramenta de inteligência artificial permite ainda identificar os jornalistas e autores cujos conteúdos são suscetíveis de gerar maior atenção e provocar o debate público em torno das suas publicações. FonteAlgumas notas acerca desta ‘esquema’ que poderá esconder e/ou espoletar vários perigos: a vigilância governamental pode inibir a manifestação de opiniões, especialmente as críticas, gerando autocensura; monitorizar jornalistas pode expor fontes sensíveis, comprometendo a proteção legal que garante o exercício do jornalismo investigativo; o governo pode usar os dados para perseguir opositores, validar narrativas oficiais ou deslegitimar veículos independentes, fragilizando o Estado de Direito; serviços privados de vigilância operam sob sigilo contratual, dificultando o escrutínio público sobre que dados são recolhidos e como são usados; cidadãos e jornalistas podem evitar expor irregularidades (como corrupção ou abusos) por medo de represálias; experiências em outros países mostram que vigilância em massa raramente previne crises ou crimes, mas frequentemente atinge alvos incorretos; recursos públicos gastos com espionagem interna poderiam ser investidos em políticas de transparência ativa ou proteção de dados; a medida pode abrir caminho para práticas autoritárias, como monitorização de sindicatos, movimentos sociais ou minorias políticas.

LEITURAS MARGINAIS

O CANÁRIO, O JORNALISMO E A DEMOCRACIA DEFENDIDA POR BUROCRATAS COM A RAPIDEZ DE UM BURRO
Pedro Almeida Vieira, Página Um.


A imagem é antiga, quase arcaica, mas parece-me uma das mais precisas metáforas para compreender o papel do jornalismo numa sociedade que se pretende livre. Nas minas de carvão de antanho, onde o ar podia tornar-se invisivelmente letal, os mineiros levavam consigo pequenos canários em gaiolas. Não por capricho, mas por sobrevivência. Se o ar se tornasse irrespirável, o canário sucumbia primeiro. A sua fragilidade era o sinal de alarme. Enquanto cantasse, podia avançar-se. Quando tombasse, era tempo de fugir.

O jornalismo é esse canário.

Ou seja, quando se defende que os jornalistas devem ter direitos especiais não é por serem mais importantes do que os outros cidadãos — não são —, mas porque estão, por definição, mais expostos. Aproximam-se das zonas onde o ar institucional se torna rarefeito, onde a opacidade substitui a transparência, onde o poder começa a testar os seus limites.

Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: um grupo de burocratas a proteger o jornalismo 
com a rapidez de uma manada de asininos. Foto: D.R.

Numa ditadura, essa exposição é fatal: os jornalistas são dos primeiros a cair. São silenciados, perseguidos, afastados ou instrumentalizados. O seu desaparecimento não é um efeito colateral — é um objectivo. Sem canário, o mineiro avança sem perceber que está a entrar num ambiente mortal. Ou nem sequer avança: fica parado por medo.

Numa democracia, a lógica deveria ser inversa. O canário não deve ser sacrificado — deve ser protegido. Não por privilégio corporativo, mas por necessidade sistémica. A forma como uma sociedade trata os seus jornalistas é um indicador directo da qualidade do ar que todos respiram. Quando o jornalismo funciona, com acesso às fontes, liberdade de circulação e capacidade de escrutínio, as instituições tendem a comportar-se com maior responsabilidade. Quando é limitado, condicionado ou hostilizado, algo mais profundo está em causa.

Daí a existência, em Portugal, de uma Lei de Imprensa. Daí a existência de um Estatuto do Jornalista. Não para criar uma casta, mas para garantir que alguém consegue chegar onde os outros não chegam (por dificuldade ou indiferença), perguntar o que outros não perguntam, ver o que outros não conseguem ver.

Os jornalistas não são cidadãos de primeira — são sentinelas de primeira linha. Representam, no plano concreto, a vigilância permanente sobre o exercício do poder, sobre a gestão dos recursos públicos, sobre o funcionamento das instituições.

O problema é que, em Portugal, o canário está cada vez mais debilitado — e não por falta de ar, mas por quem controla a ventilação. Aquilo que deveria ser trivial — responder a perguntas de jornalistas, facultar documentos administrativos, permitir o acesso a locais públicos — transformou-se numa luta constante. Não se trata de episódios isolados, mas de um padrão cada vez mais evidente: recusas sistemáticas, silêncios estratégicos, bloqueios administrativos, exigências absurdas e interpretações restritivas da lei. Tudo isto contribui para uma erosão contínua das condições de exercício do jornalismo.

Os exemplos acumulam-se. No acesso a documentos administrativos, a situação já ultrapassou o limiar do aceitável. Até entidades como o Conselho Superior da Magistratura ou a Procuradoria-Geral da República têm ensaiado mecanismos para evitar a divulgação de informação que deveria ser pública. Em vários casos, só a via judicial permite forçar o cumprimento da lei. Um Estado que obriga jornalistas a recorrer aos tribunais administrativos para obter documentos está, na prática, a admitir que não presta contas voluntariamente.


Os sinais mais preocupantes surgem também nos casos menores, onde se revela a normalização do abuso em situações comezinhas. Por exemplo, a recusa de entrada a fotojornalistas em dois concertos, esta semana, de uma cançonetista da moda, de seu nome Rosalía, pode parecer irrelevante. Mas não é. Pelo contrário, é reveladora de um padrão que se repete no universo da organização de espectáculos e eventos com bilhetes pagos — que são, por definição, eventos públicos, embora muitos organizadores pensem que são os ‘donos do boteco’.

Nesses contextos, multiplicam-se as restrições arbitrárias impostas por promotores ou artistas, frequentemente aceites sem contestação efectiva e, muitas vezes, com uma ignorância absurda das autoridades policiais, como ainda há dias tive oportunidade de destacar numa crónica recente.

O resultado disto é simples: o Estatuto do Jornalista é tratado hoje não como uma lei do Estado, mas como uma recomendação folclórica, facultativa na prática.


E é aqui que a actuação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), liderada por um grupo de burocratas sem sentido de serviço público, se torna particularmente inquietante. Perante estes casos, que o PÁGINA UM lhe expôs, o regulador, liderado pela ex-jornalista Helena Sousa, respondeu com um texto que, mais do que esclarecer, expõe uma preocupante ausência de sentido de missão.

Escudando-se em formalismos, afirma que não emite pronúncias abstractas, que não antecipa decisões, que não comenta práticas sem procedimento próprio e que só actua perante diferendos concretos devidamente enquadrados. Eis a democracia defendida por burocratas com a lentidão de um burro.

Traduzido: a ERC não age — reage, devagarinho, docemente, e apenas quando pressionada, dentro de um enquadramento processual rígido e tardio.


Isto não é prudência jurídica — é uma forma de abdicação da democracia. Um regulador que se recusa a identificar padrões, que evita pronunciar-se sobre práticas recorrentes e que exige formalismos para reconhecer violações evidentes está, na prática, a legitimar essas mesmas violações. A ERC não existe para assistir passivamente a conflitos depois de consumados. Existe para garantir que o quadro legal é respeitado, para prevenir abusos e para proteger o exercício do jornalismo.

O argumento de que não pode emitir pronúncias preventivas torna-se frágil quando os casos se repetem. Ignorar padrões sob pretexto de ausência de procedimento formal é fechar os olhos à realidade. Na verdade, é aceitar que a violação da lei só merece atenção quando formalizada num processo, mesmo que já seja recorrente e sistemática. E depois fazer uma deliberação meses ou anos mais tarde.

Sob a presidência de Helena Sousa, a ERC tem revelado uma postura que levanta dúvidas sérias sobre o seu papel. Em vez de se afirmar como garante da liberdade de imprensa, tem-se mostrado reverente perante os poderes instituídos e indiferente perante os obstáculos colocados ao jornalismo. Ao mesmo tempo, permanece tolerante perante práticas que confundem jornalismo com interesses comerciais, diluindo fronteiras que deveriam ser claras.

O resultado é um ambiente em que o jornalismo crítico é deixado à sua sorte, enquanto as maiores distorções passam sem escrutínio efectivo.

Volte-se, assim, ao canário. Numa democracia saudável, o canário canta, circula, observa e alerta. Quando começa a ser limitado, ignorado ou silenciado, o problema já não é do canário — é do ambiente. E, quando o ambiente se deteriora, não são apenas os jornalistas que correm risco: é toda a sociedade, porque fragilizar o jornalismo incómodo não liberta as instituições — enfraquece-as, porque sem escrutínio não há responsabilidade, e sem responsabilidade não há confiança.

quarta-feira, 25 de março de 2026

BICO CALADO

Foto: Rory Merry/Zuma Press Wire/Shutterstock
  • O Departamento de Investigação Criminal de Braga da Polícia Judiciária deteve no sábado em flagrante delito um homem de 27 anos suspeito da prática dos crimes de pornografia de menores, abuso sexual de crianças, agravado, e ainda de devassa da vida privada, sendo vítimas a sua filha e também a sua companheira. Ivo Faria foi cabeça de lista do Chega nas últimas eleições autárquicas à União de Freguesias de Antime e Silvares S. Clemente, em Fafe. Fonte.
  • “O Público (que boicota há dez anos tudo o que publico e ignora o meu trabalho mesmo quando é distinguido internacionalmente) e o Expresso (do qual ainda sou formalmente colaborador sem lhes propor nada há quinze anos) têm em comum direcções editoriais cuja principal qualidade é antecipar os desejos das respectivas administrações e accionistas. A liberdade editorial dos jornalistas de redacção só existe quando não colide com as agendas dos accionistas (ou dos bancos por trás destes). Se há pessoas que os accionistas do Público têm numa lista negra (lista essa que não precisa de existência material/formal porque qualquer director sabe cumprir os exercícios de autocensura) são as que lutam por leis do trabalho que respeitem os direitos e a dignidade dos trabalhadores.“ Miguel Szymanski, em comentário a texto de Raquel Varela.
  • O Departamento de Estado dos EUA, sob a presidência de Donald Trump, foi acusado de roubar mais de mil milhões de dólares a imigrantes e patrocinadores, no que os especialistas apelidam de «a maior fraude da história do sistema de imigração dos EUA». Um relatório publicado pelo Instituto Cato, redigido pelo diretor de estudos de imigração David J. Bier, revelou que o Departamento de Estado e o Departamento de Segurança Interna estavam a receber milhões de pedidos de imigrantes a quem Trump tornou inelegíveis para obter estatuto legal e a embolsar as taxas sem nunca processar os pedidos. «O governo dos EUA arrecadou mais de mil milhões de dólares em taxas de imigração e depois recusou-se a processar os pedidos», afirmou Austin Kocher, investigador do Immigration Lab e professor na Newhouse e na Universidade de Syracuse, numa publicação nas redes sociais em que analisava o relatório. «Sem recusas. Sem reembolsos. Apenas silêncio.» Fonte.

sábado, 14 de março de 2026

BICO CALADO


"Se os EUA saírem reforçados ou vencedores, de facto, desta guerra, se conseguirem desmembrar e destruir o Irão, não só pela supremacia militar mas também politicamente, o mundo pode preparar-se para uma nova fase, sem precedentes, de prepotência e agressividade extremas da Casa Branca, em que a força bruta é a única lei, sem Congresso, sem a ONU, sem tribunais internacionais, sem moderação e sem limites. Primeiro Trump, espezinhando os direitos humanos e o direito internacional, visou os 'maus' na Venezuela e no Irão; brevemente, os seus discursos para aí apontam, atacará em Cuba. A seguir, voltar-se-á, drogado pelas vitórias, novamente para o México, o Canadá, a Gronelândia/Dinamarca ou a Ucrânia. De uma forma ou de outra, vingar-se-á da Espanha que o criticou e cometeu o pecado de enfrentar Israel e de denunciar o genocídio em curso. A UE, essa está no topo da lista, por muitos exercícios de bajulação e humilhação que von der Leyen e companhia dediquem a Trump: a União Europeia será o alvo prioritário de uma concertada operação de desmantelamento, porque - rica, fraca e desprotegida - é a vítima perfeita para um assaltante e violador. É por isso que espero que o Irão resista: ironicamente o regime repressivo dos aiatolás, actual encarnação da milenar civilização persa, é a nossa última defesa contra a barbárie.” Miguel Szymanski.

  • "Uma investigação interna em curso do exército norte-americano concluiu, alegadamente, que os Estados Unidos são responsáveis por um ataque com mísseis Tomahawk a uma escola feminina iraniana, que matou pelo menos 175 pessoas no início da ofensiva norte-americana e israelita. Lembre-se de todos os defensores do império e apologistas que afirmaram que foi um míssil iraniano que falhou o alvo e atingiu a escola. Lembre-se de como todos eles, incluindo o presidente dos Estados Unidos, promoveram esta mentira de forma agressiva e uniforme. Então, compreenda que eles vão continuar a mentir assim durante toda a guerra. Lembre-se do secretário da Guerra, Pete Hegseth, gabando-se de como os EUA se livraram das «regras estúpidas de combate» destinadas a proteger civis, falando com dureza sobre como «isso nunca foi para ser uma luta justa, e não é uma luta justa. Estamos a atacá-los enquanto estão por baixo, que é exatamente como deve ser». Essas palavras têm um significado um pouco diferente agora que sabemos que ele estava a falar sobre o assassinato em massa de meninas. Em retrospetiva, acho que não deveria ter surpreendido ninguém que o tipo que escreveu um livro chamado «American Crusade» (Cruzada Americana) imediatamente mudou o seu título para Secretário da Guerra e iniciou uma cruzada contra o mundo muçulmano." Caitlin Johnstone, Eles mentiram sobre o bombardeamento da escola no Irão e vão continuar a mentir Substack.
  • «O complexo militar-industrial está a ganhar»: enquanto bombardeia o Irão, Trump diz aos fabricantes de armas para aumentarem a produção. Fonte.
  • Os trabalhadores da agência Lusa cumpriram uma greve parcial acompanhada de concentrações em Lisboa e Porto. Junto à sede do Governo, cerca de uma centena de trabalhadores voltaram a contestar os novos estatutos e a restruturação que o Governo está a promover desde que o Estado se tornou acionista único da empresa. Estas mudanças estão a ser vistas como uma ameaça à independência da agência de notícias face ao poder político e o caso já chegou à Comissão Europeia pela mão da eurodeputada do Bloco Catarina Martins. Um dos administradores nomeados pelo ministro Leitão Amaro trabalhava em projetos do fundo Alpac Capital, ligado a figuras próximas do regime de Viktor Orbán na Hungria. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

O GABINETE SOMBRA E OS MEDIA
Edward Curtin, Dissident Voice. Trad. O’Lima.


Quem não se sinta profundamente revoltado e indignado com o massacre de mais de 165 jovens iranianas numa escola, perpetrado pelos monstros americano-israelitas que travam uma guerra contra o Irão, é depravado e maléfico. Repugna-me ter de afirmar algo tão óbvio, mas receio que seja verdade que muitos não se sintam abalados com a notícia. Um aceno de cabeça a «que horror» e seguir em frente com a guerra é uma reação comum para aqueles que não sabem do assunto, não apenas por indiferença moral, mas devido à aceleração da cobertura noticiosa digital que desaparece hoje antes de se tornar amanhã. As meninas são esquecidas a cada dia que passa nos EUA e em Israel – mas não no Irão. Para os criminosos de guerra Trump e Netanyahu, a morte dessas crianças é uma alegria no caminho para mais massacres de inocentes.

Por outro lado, há muitos nestes EUA funcionalmente analfabetos, com o seu presidente funcionalmente analfabeto, que provavelmente nunca ouviram falar deste crime de guerra. E os crimes de guerra dos EUA e de Israel são tão comuns que surgem e desaparecem como ondulações num rio, como um feed num «smartphone». Pouco penetra na bolha da propaganda e, quando o faz, é rapidamente substituído pela ilusão de que, assim que estes «maus da fita» forem afastados do poder, estas guerras terminarão porque os nossos «bons da fita» regressarão no jogo das cadeiras musicais para pôr tudo em ordem. A paz reinará, tal como no Iraque, na Líbia, na Síria, na Ucrânia, em Gaza, etc.

Repito uma pergunta que já fiz antes, mas para que serve, não sei: por que razão os americanos pensam que os EUA têm mais de 750 bases militares em mais de 80 países, apoiadas por um consenso bipartidário? A resposta é óbvia, exceto para os idiotas e aqueles que se fazem de cegos, e há muitos de ambos. Os EUA são um Estado imperialista belicista, e estas bases existem para travar guerras em todo o mundo, tal como os EUA têm feito. Ponto final.

A divulgação dos «Jeffrey Epstein Files», além de desviar a atenção do público do Irão, da Ucrânia, etc., levou muitas pessoas a refletir sobre como certas figuras ricas e influentes conspiram nos bastidores para fins sexuais nefastos, mas também para manipular questões financeiras e políticas. Para os mais ingénuos, a menção de tantas personalidades proeminentes — reitores de universidades, políticos, banqueiros, entre outros — neste clube criminoso é muito surpreendente.

No entanto, de forma ainda mais perversa, a longa série sobre Epstein (não a realidade para as vítimas de abuso sexual) é entretenimento no sentido de Neil Postman em «Amusing Ourselves to Death», o título do seu livro profético de 1985, no qual argumentava que a televisão tinha redefinido o sentido moderno de realidade, verdade e inteligência; tinha alcançado o estatuto de mito, «uma forma de pensar tão profundamente enraizada na nossa consciência que é invisível»; que tinha transformado tudo em entretenimento. Narcotizadas pela sua obsessão tecnológica, argumentava ele, as pessoas estavam a perder-se num mundo de fantasia de diversões intermináveis, à medida que as notícias televisivas se tornavam entretenimento e tudo um espetáculo, o negócio do espetáculo. Nas palavras de Postman: «Os americanos são o povo mais entretido e, muito provavelmente, o menos bem informado do mundo ocidental.» Factos, dados e as ilusórias «notícias do dia» eram abundantes, mas tudo num contexto fragmentado e pseudo-informativo de entretenimento televisivo.

Não podemos deixar de concordar quando contemplamos a atual «sociedade do ecrã» digital da Internet, na qual mini-televisões acompanham as pessoas para todo o lado sob a forma de telemóveis, mantendo-as constantemente entretidas com «notícias» pontuais de nanossegundos, adaptadas aos seus gostos pessoais e desprovidas de qualquer contexto.

Embora o funcionamento interno da classe dominante imperial possa não envolver, normalmente, tanto abuso sexual como a Série Epstein, ou o que o jornalista Pepe Escobar denomina «o Sindicato Epstein», os seus membros conspiram há muito para controlar a sua riqueza, poder e domínio político sobre as massas. Travar guerras, globalizar o seu controlo (o que começou a sério por volta de 1985) e encher os cofres do complexo militar-industrial que possuem são os principais objetivos. Muitas destas criaturas vis, claro, na sua arrogância, pensando que têm o controlo total, caíram numa armadilha de espionagem internacional e chantagem sexual, como é evidente no caso Epstein, onde os supostos controladores são os controlados.

Apesar da sua riqueza e poder, as suas mentes infantis e a sua voracidade sexual atraíram-nos para «ilhas de prazer», onde foram expostos como idiotas a alardear a sua inocência infantil. Pensavam que Epstein e os seus superiores dos serviços secretos em Israel, na Grã-Bretanha e nos EUA lhes estavam a oferecer um acesso mais profundo ao Gabinete Restrito do Sindicato, mas não conseguiram ver as armadilhas. No entanto, agora que o «escândalo» de Epstein foi parcialmente exposto, à exceção dos poucos que têm de ser sacrificados para apaziguar o público, a maioria sai impune e lucra enormemente. É um velho jogo de propaganda como um palimpsesto.

Ainda há poucos dias, tomei café com um amigo cujos laços familiares com estes criminosos da classe dominante imperial remontam a mais de um século. Discutimos a sua vida como dissidente no seio das ligações da sua abastada família à CIA, aos Rockefellers, aos Morgans, a Harvard, aos assassinatos dos Kennedy, às corporações industriais essenciais ao estado de guerra e aos lucros colossais (G.E., General Dynamics, Lockheed, etc.), a Wall Street, aos bancos, aos media corporativos, às grandes empresas tecnológicas e assim por diante, ad infinitum. Muitos detalhes de um mundo repugnante de privilégios, traição e mentiras intermináveis, onde todos os iniciados se conhecem e se associam uns aos outros apesar dos diferentes partidos políticos; algo que, se fosses uma criança sensível com consciência, te repugnaria, tal como repugnou ao meu amigo.

Poderíamos chamá-la de «Classe Dominante WASP da Velha Guarda», só que o antigo é o novo, e os anglo-saxões brancos nunca foram apenas isso, mas estiveram ligados desde cedo ao sionismo e aos seus abastados apoiantes, dentro e fora do governo, aqui e em Israel. Ligações intermináveis das quais a maioria das pessoas vivas hoje em dia nada sabe. A hipocrisia envolvida é chocante e impressionante.

O ódio da elite abastada pelas pessoas comuns é extremo, e o uso da palavra «democracia» para encobrir os seus crimes é rotineiro. As suas tendências foram-lhes incutidas dentro da bolha irreal do lucro imundo e dos seus ornamentos culturais pelos seus pais e reforçadas por aqueles bajuladores que lhes beijam o rabo para ter acesso aos seus mundos de conforto e ostentação. O mesmo se aplica aos novos bilionários que aderiram recentemente ao clube e estão rodeados de bajuladores e aduladores.

Uma das realidades mais tristes da vida política é a forma como as pessoas são repetidamente enganadas pela propaganda que estas pessoas e os seus meios de comunicação, nos circos de entretenimento de que são donos, lhes servem, fazendo passar mentiras por notícias. O facto de ser sempre a mesma porcaria, servida incessantemente por diferentes «cozinheiros» dos meios de comunicação, não significa nada. Os media conservadores limitam-se a clamar por guerra e mais guerra, enquanto os liberais jogam dos dois lados (anti-guerra e pró-guerra) contra o centro, de forma hipócrita, para apoiar as guerras que os EUA travam incessantemente. O lixo mais insidioso é engolido por aqueles que se consideram «intelectuais» e altamente instruídos.

Quando o meu amigo mencionou um dos famosos associados dos seus pais, Walter Lippmann, que ficava na casa deles quando era jovem, lembrei-me de Edward Bernays e outros que lançaram as bases para o controlo mental de hoje. Lippmann, um proeminente jornalista apelidado de «Pai do Jornalismo Moderno», e Bernays, o chamado «Pai das Relações Públicas», foram dois pesos pesados que, a partir da década de 1920, lançaram as bases para a propaganda do governo e das empresas dos EUA tal como existem hoje. O seu trabalho estendeu-se até à década de 1970. Bernays, o paradigma do propagandista na sombra interior, e Lippmann, o modelo do jornalista astuto no exterior, trabalharam cada um no seu lado da barreira invisível.

‘A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder governante do nosso país. (…) Somos governados, as nossas mentes são moldadas, os nossos gostos formados, as nossas ideias sugeridas, em grande parte por homens de quem nunca ouvimos falar. Os nossos governantes invisíveis, em muitos casos, desconhecem a identidade dos seus colegas no gabinete sombra.’

Edward Bernays escreveu estas palavras em 1928 para abrir o seu livro, ‘Propaganda’. Elas resumem na perfeição a verdade sobre como os EUA são governados.

Bernays era sobrinho em segundo grau de Sigmund Freud (a sua mãe era irmã de Freud e o seu pai era irmão da esposa de Freud). Nasceu em Viena, na Áustria, mas a sua família mudou-se para Nova Iorque quando ele era muito jovem. Trabalhou como propagandista para o governo dos EUA durante a Primeira Guerra Mundial. Cunhou o conceito «engenharia do consentimento» e, durante muitas décadas, trabalhou nos bastidores para as grandes empresas (General Electric, American Tobacco Company, United Fruit, etc.), políticos e o governo dos EUA para manipular a mente do público – por exemplo, convencendo as mulheres a fumar ao chamar aos cigarros «tochas da liberdade [das mulheres]» e ajudando a CIA no seu golpe de 1954 na Guatemala contra o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, e muito mais. Era um mestre manipulador nas sombras e um antidemocrata que serviu os interesses da classe dominante imperial e foi altamente respeitado por ela pelas suas técnicas de propaganda e controlo mental que tornavam a realidade «virtual» ao serviço do poder.

Lippmann, embora considerado um jornalista e intelectual público, e que, ao contrário de Bernays — que trabalhava quase exclusivamente nos bastidores como membro do «gabinete sombra» —, atuava em prol do «gabinete sombra» principalmente de fora para dentro, através das suas colunas de jornal. Em livros que o leitor comum de jornais não lia, defendia um credo elitista semelhante ao de Bernays, defendendo que o governo utilizasse símbolos e filmes para impedir o público de ter pensamento independente e para o controlar emocionalmente. Num dos seus primeiros livros, Drift and Mastery: An Attempt to Diagnose the Current Unrest (1914), cujas palavras poderiam ter sido escritas hoje por elitistas sarcásticos, pela CIA e pelos seus agentes (e, de facto, foram escritas em termos semelhantes), escreveu: ‘A sensação de conspiração e de intrigas secretas [entre o público] que se faz sentir é quase sobrenatural. O «grande capital» e os seus tentáculos implacáveis tornaram-se o tema da fantasia febril de milhares de analfabetos, desorientados pelas tensões e pressões da vida moderna. É possível chegar a um estado em que o mundo parece uma conspiração e o nosso dia-a-dia é assombrado por uma sensação alerta e arrepiante de um mal labiríntico. Está tudo de pernas para o ar – todos os atritos da vida são prontamente atribuídos a uma inteligência maligna deliberada, e homens como Morgan e Rockefeller assumem atributos de omnipotência, que dez minutos de sanidade fria reduziriam a um mito bárbaro.

Tanto Lippmann como Bernays consideravam as pessoas comuns criaturas maliciosas que tinham de ser controladas através de mentiras e enganos. Foram pioneiros da técnica de propaganda «de dentro para fora», há muito utilizada pelo governo e pelos seus aliados nos media para confundir as pessoas comuns. Por «de dentro para fora», refiro-me ao facto de que, para a propaganda ser eficaz, aqueles que a utilizam precisam de ter muitas pessoas a trabalhar secretamente para desenvolver e aplicar técnicas de engano, como Bernays e a CIA, e figuras públicas dos media, como Lippmann, que reforçam as mentiras, mas de uma forma aparentemente «razoável» a partir do exterior. Este último grupo é empregado por grandes empresas de comunicação social que são propriedade exclusiva de pessoas muito ricas ou de enormes monopólios internacionais de comunicação social. A CIA e outras agências de inteligência americanas desenvolvem secretamente técnicas de propaganda e colocam os seus agentes em todos os departamentos do governo (ver Understanding Special Operations: 123 ff.) e em toda a comunicação social para influenciar o público a partir do exterior. É claro que, como fica evidente no genocídio israelita em Gaza e na sua guerra maligna conjunta com os EUA contra o Irão, Israel e a sua Mossad desempenham também um papel importante nisto, não só influenciando Trump e o Congresso dos EUA, mas também grande parte do governo e dos media dos EUA, onde colocaram muitos agentes.

Uma analogia simples com o basquetebol é adequada para descrever como se joga o jogo da propaganda: uma estratégia bem-sucedida no basquetebol, conhecida como «Inside-Out», consiste em fazer com que os jogadores avancem para o cesto no início do jogo, o que obriga a defesa a concentrar-se perto do cesto, abrindo assim oportunidades de pontuação a partir do exterior. É simples, mas eficaz, dependendo, claro, da capacidade dos jogadores para lançarem e marcarem alguns cestos.

Entra Trump, que parece ser e pode ser clinicamente louco ou simplesmente maléfico como o seu homólogo israelita, Netanyahu, e que, à primeira vista, parece contradizer grande parte desta abordagem «inside-out» para controlar as massas. Como um touro que escapou do curral, limita-se a proferir ameaças e a travar guerras no país e no estrangeiro, aparentemente sem se importar se convence ou não a população de que as suas ações são justas e do seu interesse. É como se estivesse a anunciar a todos os que votaram nele que foram tolos por acreditarem, por um momento, que ele não iria iniciar novas guerras e que iria pôr fim às «guerras intermináveis» da América, e àqueles que não votaram nele: «Vão-se lixar também.»

No passado, os presidentes sentiam-se obrigados a tentar justificar, através da propaganda, as guerras e os golpes de Estado que desencadeavam, desde o Vietname ao Iraque, passando pela Líbia, etc. Por mais óbvias que fossem as suas mentiras, como a de Colin Powell a mostrar um pequeno frasco para provar que o Iraque possuía armas de destruição maciça (o que mais tarde ele disse ter sido um erro e não uma mentira para encobrir a sua cumplicidade), eles contavam-nas e usavam toda a propaganda à sua disposição para as fazer parecer verdadeiras, contando com amigos e colaboradores «jornalistas» para fornecer justificações. Trump aparentemente não se importa.

Há quem diga que é porque ele é uma anomalia total e conseguiu tornar-se presidente duas vezes por alguma estranha reviravolta do destino. Se assim for, seria a primeira e a segunda vez na história moderna que isso acontecia. Um homem sem experiência política, uma piada cómica de reality shows, um palhaço gordo e bombástico com cabelo tingido de forma estranha que fala como uma versão de uma «Valley Girl» da Costa Leste, um mulherengo, um magnata imobiliário nova-iorquino, etc., consegue os votos dos americanos de classe média que estão a perder as suas quintas e empregos nas fábricas e estão zangados com o governo. Foram dadas todo o tipo de explicações para esta «anomalia», exceto que não era uma, a não ser na aparência.

Antes de Trump ter sido eleito pela primeira vez em 2016, era consensual ninguém poder ser eleito presidente dos EUA a menos que cumprisse uma série de requisitos aprovados pelos líderes dos partidos Democrata e Republicano. Candidatos independentes ou de partidos menores, como Ross Perot, Ralph Nader e Jesse Jackson, nunca tiveram uma oportunidade real, sendo vistos como meros «sabotadores». Em 2000, Trump entrou nas primárias à procura da nomeação do Partido da Reforma, mas desistiu. Não tinha qualquer hipótese, mesmo que tivesse vencido, e ele sabia disso. Seguiram-se dezasseis anos a polir as suas credenciais junto do sistema. Assim, em 2016, e novamente em 2020 e 2024, foi o candidato do Partido Republicano, claramente um membro do clube bipartidário do sistema que detinha (e detém) o controlo da presidência. Era um membro do núcleo duro.

Portanto, se esta fonte privilegiada já não segue o guião tradicional da propaganda que distingue o «interno» do «externo», é altamente provável que aqueles que controlam os partidos políticos em nome da classe dominante imperial tenham inventado uma nova técnica de controlo mental para servir os seus propósitos. Uma vez que cada vez mais pessoas começam a questionar a propaganda convencional à medida que a sociedade norte-americana se desintegra, é necessário acrescentar uma nova técnica à antiga — uma inversão das coisas, de dentro para fora e ainda mais para fora, por assim dizer. Dêem a Trump liberdade total para dizer e fazer as coisas mais bizarras, aquelas que muitos passaram a suspeitar que antes eram ditas apenas por manipuladores ocultos como Bernays e a CIA, e um lado da «imprensa/media livre» ocidental irá criticá-lo por sua boca e ações grotescamente descaradas, enquanto o outro irá elogiá-lo. Este último alegará que ele finalmente libertou o país, enquanto o primeiro o criticará como um maníaco. Ambos, no entanto, são propriedade da mesma classe dominante imperial que pode discordar sobre táticas, mas não sobre a estratégia de longo prazo dos EUA, e sabendo que Trump foi eleito porque é um membro da elite política, o que eles devem negar, ficarão satisfeitos por as massas estarem confusas, zangadas e divididas e, portanto, mais facilmente controláveis.

Chamam-lhe «transparência», e ninguém tem de responder à questão de por que razão, sob presidentes republicanos e democratas, os EUA têm mais de 750 bases militares em mais de 80 países por todo o mundo, a partir das quais travam guerras há muitas décadas, algumas das quais foram recentemente atacadas pelo Irão, depois de os EUA e Israel terem travado a atual guerra de agressão selvagem contra este país, numa continuação do Grande Jogo.

Orwell chamou-lhe «Pensamento duplo» em 1984: ‘Saber e não saber, estar consciente da verdade absoluta enquanto se contam mentiras cuidadosamente construídas, manter simultaneamente duas opiniões que se anulavam mutuamente, sabendo que eram contraditórias e acreditando em ambas, usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade enquanto se reivindicava a sua defesa, acreditar que a democracia era impossível e que o Partido era o guardião da democracia, esquecer tudo o que fosse necessário esquecer, para depois recuperá-lo na memória no momento em que fosse necessário, e depois esquecê-lo imediatamente de novo: e, acima de tudo, aplicar o mesmo processo ao próprio processo — essa era a subtileza suprema: induzir conscientemente a inconsciência e, depois, mais uma vez, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que acabara de realizar. Até compreender a palavra «duplipensar» implicava o uso do duplipensar.

Sim, estamos do outro lado do espelho, mas até a Alice acabou por acordar antes que fosse tarde demais.