- “Tivemos, durante o Estado Novo, uma diplomacia que, à falta de melhor e pretendendo defender a justiça de um colonialismo aberrante, há muito já denunciado e descartado pela História, se dizia “orgulhosamente só”. Mas não era orgulhosamente e sim vergonhosamente, mantendo três guerras coloniais em África e uma ditadura na pátria. Tivemos depois, entre o saloio e o arrogante-subserviente, o episódio em que o primeiro-ministro Durão Barroso ofereceu a Base das Lajes e o nosso comprometimento para que um refractário à guerra do Vietname, George W. Bush, pudesse limpar o seu cadastro e declarar-se “um Presidente em guerra” — uma guerra, levada ao Iraque, ilegítima, à revelia da ONU e com pretextos inventados e provas falsificadas, que Durão Barroso declarou autênticas. Mas talvez na era contemporânea, nunca a nossa diplomacia tenha descido tão baixo como agora, em que as Lajes servem de tapete voador sobre o qual nos curvamos à passagem dos aviões e drones do louco perigoso que governa os Estados Unidos e que levou ao Irão uma guerra sem sombra de legitimidade e até de estratégia política e militar, e, por arrasto, ao mundo inteiro. Hoje, graças à diplomacia de Luís Montenegro e Paulo Rangel, tenho vergonha de ser português e só me consolo um pouco pensando que quem só faz o que sabe não é inteiramente responsável por toda a ignorância que carrega. Porém, não se trata apenas de política ou de diplomacia. Trata-se também da segurança nacional. Colocando Portugal na primeira linha de apoio à linha da frente desta demência trumpiana-israelita, o Governo coloca-nos também na posição de alvo legítimo e natural de represálias iranianas. É possível que o preclaro presidente do Governo Regional dos Açores ainda não tenha visto o assunto a esta luz e por isso declara não ter opinião sobre a legitimidade desta guerra e do apoio que lhes estamos a dar, preferindo, diz ele, confiar na justeza da decisão do Governo da República e do seu próprio partido. O homem ouve o desvairado narciso americano dizer que vai varrer uma civilização milenar numa noite, levando-a de volta à Idade da Pedra (pelo método Hiroxima-Nagasáqui, supõe-se), e não tem opinião sobre o assunto. Mas quando interrogado sobre se o nosso “aliado” americano não deveria ao menos pagar uns tostões, ou uns peanuts, pela utilização das Lajes, aí já José Manuel Bolieiro tem opinião própria e pronta. Sim, declara ele, atendendo à importância que agora se voltou a confirmar da Base das Lajes para as guerras dos Estados Unidos deste lado do mar, seria justo que, tal como sucedeu no passado, eles pagassem alguma coisa… aos Açores. Ou seja, entendamo-lo: princípios, ele não tem nem o incomodam; mas uma esmolinha nunca fez mal a ninguém.“ Miguel Sousa Tavares, Expresso, 10abr2026.
- A presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa (PS), declarou publicamente que retirava a confiança ao jornalista da Agência Lusa João Gaspar. A decisão surgiu após a publicação de uma notícia sobre a Casa do Cinema de Coimbra, onde se afirmava que o espaço poderia perder a licença devido à falta de obras da autarquia e que o município não respondeu às perguntas enviadas pela Lusa. Fonte.
- O Governo de Luís Montenegro contratou os serviços de uma empresa irlandesa para ter acesso à ferramenta Newswhip (Chicote de notícias), que promete ajudar os seus clientes a identificar não apenas os temas que estão a atrair maior interesse no debate público nas redes sociais, mas também prever o alcance que cada tema em discussão terá nos dias seguintes e adaptar a resposta a situações de crise para ganhar alcance através da análise de dados em tempo real. Esta ferramenta de inteligência artificial permite ainda identificar os jornalistas e autores cujos conteúdos são suscetíveis de gerar maior atenção e provocar o debate público em torno das suas publicações. Fonte. Algumas notas acerca desta ‘esquema’ que poderá esconder e/ou espoletar vários perigos: a vigilância governamental pode inibir a manifestação de opiniões, especialmente as críticas, gerando autocensura; monitorizar jornalistas pode expor fontes sensíveis, comprometendo a proteção legal que garante o exercício do jornalismo investigativo; o governo pode usar os dados para perseguir opositores, validar narrativas oficiais ou deslegitimar veículos independentes, fragilizando o Estado de Direito; serviços privados de vigilância operam sob sigilo contratual, dificultando o escrutínio público sobre que dados são recolhidos e como são usados; cidadãos e jornalistas podem evitar expor irregularidades (como corrupção ou abusos) por medo de represálias; experiências em outros países mostram que vigilância em massa raramente previne crises ou crimes, mas frequentemente atinge alvos incorretos; recursos públicos gastos com espionagem interna poderiam ser investidos em políticas de transparência ativa ou proteção de dados; a medida pode abrir caminho para práticas autoritárias, como monitorização de sindicatos, movimentos sociais ou minorias políticas.
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