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sábado, 4 de julho de 2026

OCEANOS: CIMEIRA OMITE EXPANSÃO DA EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS OFFSHORE

  • Cimeira sobre os oceanos mantém silêncio sobre a nova onda de expansão da exploração de petróleo e gás offshore. Enquanto os governos se reuniam em junho na Conferência «Our Ocean», na cidade costeira de Mombaça, no Quénia, comprometendo-se a investir mais de 6 mil milhões de dólares na proteção marinha, na pesca sustentável e na energia eólica offshore, uma questão permaneceu praticamente ausente do palco principal: a expansão contínua da exploração de petróleo e gás offshore. Fonte.
  • A gigante petrolífera TotalEnergies foi intimada por um tribunal a publicar, no prazo de seis meses, um plano climático mais robusto de redução de emissões. Fonte.
  • Como os patrões das petrolíferas moldaram um importante estudo climático há 22 anos: A BP patrocinou um centro de investigação de elite em Princeton para abordar o problema climático sem abandonar os combustíveis fósseis, selecionando cuidadosamente cientistas alinhados com os seus interesses; os cientistas da Princeton que escreveram um artigo sobre o clima, criticado por fazer com que as soluções parecessem «fáceis», coordenaram-se com os patrões da BP mostrando-lhes várias versões preliminares, apresentando a tecnologia de captura e armazenamento subterrâneo de carbono como sendo comprovada e utilizada à escala industrial, uma caracterização que distorceu os factos. Fonte.
  • O Canadá vai construir um novo oleoduto de Alberta até à costa do Pacífico, o que daria ao quarto maior produtor mundial de petróleo uma maior capacidade de exportação para a Ásia e reduziria a sua dependência dos EUA. Fonte.
  • A onda de calor no nordeste dos EUA provoca cancelamentos no 4 de julho, dia da independência. FonteO regime de Trump a impor medo, terror. As milícias do ICE podem continuar a deter 2 mil pessoas por dia, segundo as novas ordensAté prendem freiras!

quarta-feira, 27 de maio de 2026

GRÉCIA: QUEDA DE NEVE BATE MÍNIMOS EM 40 ANOS

Uma vista aérea mostra a neve a derreter nas encostas do Monte Parnassos, no centro de esqui de Kelaria, na Grécia central, a 5 de maio de 2026. (AP Photo/Thanassis Stavrakis)
  • A Grécia perdeu mais de metade da sua cobertura de neve nas montanhas nos últimos 40 anos, a um ritmo mais rápido do que noutras grandes cadeias montanhosas, como os Andes ou os Himalaias, impulsionado principalmente pelo aumento das temperaturas devido às emissões de gases com efeito de estufa. Isto torna a vegetação mais seca, o que representa maior risco de incêndio em florestas que, anteriormente, não arderiam. As nascentes estão a secar e os reservatórios não estão a encher. Os impactos económicos são visíveis, nomeadamente no setor do esqui, cujas empresas registaram uma redução de 30% durante o Natal. O município estuda a construção de pequenas barragens para captar água e os residentes estão a tornar-se mais conscientes do desperdício de água. Fonte.
  • Nos últimos cinco anos, pelo menos 67 enfermarias, departamentos e outras instalações hospitalares do Serviço Nacional de Saúde em todo o Reino Unido foram obrigadas a encerrar temporariamente ou a mudar de local devido a inundações causadas por condições meteorológicas. Fonte.
  • Milhões de salmões de criação morreram em instalações de aquicultura escocesas e a Agência de Saúde Animal e Vegetal do Reino Unido tentou impedir a divulgação de informações sobre as causas dessas mortes. Fonte.
  • Técnicos do sistema de drenagem de Nueces, no Texas, descobriram um tubo desconhecido durante uma inspeção de rotina a uma vala de drenagem em janeiro de 2026. O tubo estava a descarregar um líquido muito escuro, quase preto, numa vala de drenagem pública. Confirmou-se que o tubo estava ligado à refinaria de lítio da Tesla. A Tesla possuía uma licença de descarga de águas residuais emitida pelo estado, que permitia a descarga de até 231 000 galões/dia de águas residuais tratadas na vala. No entanto, os responsáveis afirmam nunca terem sido notificados e que a Tesla não tinha permissão para instalar um tubo na sua servidão. Fonte.

domingo, 17 de maio de 2026

LEITURAS MARGINAIS

PÂNICO DO HANTA: MAIS UM RATO A BORDO
Ricky Lanusse, Medium. Trad. O’Lima.


A minha mãe enviou-me uma foto tirada do seu terraço: mais um «ratón colilargo». O rato-pigmeu-de-cauda-longa, Oligoryzomys longicaudatus. Por estas bandas, as pessoas identificam-no primeiro pela versão mais simples: o rato-hanta.

Ela não está com medo. Está farta. O sacaninha andou outra vez a comer as nozes e as maçãs das árvores do seu jardim, tratando o terraço como um buffet, o pomar como uma filial da Whole Foods, a casa como um spa entre refeições.

Para alguém fora da Patagónia, a foto provavelmente pareceria uma pequena história de terror. Um rato de cauda longa em tábuas de madeira. Um transmissor. Um aviso. Algo para partilhar num grupo de chat com demasiados pontos de exclamação.

Aqui, o sentimento é mais antigo e menos cinematográfico.

Vês o animal e a tua mente abre o arquivo: galpões, pilhas de lenha, cabanas, excrementos, poeira, luvas, máscaras, lixívia, espaços fechados, bambu em flor, proliferação de roedores e a palavra «hantavírus» a repousar silenciosamente no fundo da garganta.

Está lá desde que me lembro.

A Patagónia não precisa de um navio de cruzeiro para saber que este vírus existe. Temos vivido com o risco da mesma forma que as pessoas vivem com avalanches, incêndios, pumas, árvores a cair, estradas em mau estado e mudanças climáticas repentinas. Não entras em pânico todas as manhãs. Aprendes onde colocar as mãos. Aprendes o que não varrer. Aprendes que a natureza não se torna mais segura só porque lhe deste um folheto.

Então o mundo fica em alvoroço porque três pessoas morrem num navio.

O MV Hondius partiu de Ushuaia a 1 de abril, navegando do extremo da Argentina em direção a Cabo Verde. Em pouco tempo, a história deixou de ser uma questão local sobre florestas e roedores e passou a fazer parte do discurso global sobre surtos, passageiros, portos, rastreio, testes, avaliação de riscos e aquele leve tremor de nervosismo que ainda percorre o mundo sempre que um agente patogénico surge no contexto das viagens internacionais.

De repente, o navio de cruzeiro holandês tornou-se o pano de fundo de toda a história, ativando o sistema nervoso pós-COVID.

A Patagónia foi tratada como a fonte do problema porque todas as histórias, tal como o pangolim, precisam de um vilão.

E, de um momento para o outro, todos exigiam um quadro claro do perigo: onde tinha começado, para onde se tinha espalhado, onde traçar uma fronteira para que o resto do mundo pudesse voltar a sentir-se seguro.

O rato-pigmeu-de-cauda-longa no terraço da minha mãe (fotografia tirada pela minha mãe)

O navio tornou o local global

A primeira coisa a dizer é a mais enfadonha, mas que também é a mais responsável: A COVID é o modelo mental errado. A Organização Mundial de Saúde afirmou que o risco para a população em geral é «absolutamente baixo». O hantavírus não se transmite facilmente através do contacto casual. Não se apanha a doença só porque alguém passa por nós num corredor do aeroporto ou respira perto de nós numa fila do supermercado.

A estirpe associada ao surto no navio é a estirpe Andes, encontrada principalmente em regiões da Argentina e do Chile, incluindo, claro, a minha cidade natal na Patagónia. Esta é a única estirpe de hantavírus em que se documentou a transmissão entre pessoas. Mas, mesmo assim, as condições são específicas: contacto próximo e prolongado, frequentemente em ambientes íntimos ou confinados. Uma cabine de um navio de cruzeiro pode proporcionar exatamente o tipo de proximidade em espaço fechado de que os agentes patogénicos gostam. A vida pública normal, por norma, não o faz.

Portanto, sim, compreendo o reflexo pandémico, mas o vírus e a doença são algo bastante diferente. O surto pode ser grave, cientificamente importante e emocionalmente perturbador. Ainda assim, não se comporta como o SARS-CoV-2.

O Ministério da Saúde da Argentina afirmou que não foi confirmado que a infeção tenha ocorrido na Argentina. A província da Terra do Fogo, de onde o navio partiu, não registou nenhum caso confirmado nos últimos 30 anos. O casal holandês que se acredita estar relacionado com o surto tinha viajado extensivamente pela Argentina, Chile e Uruguai antes de embarcar, incluindo regiões onde a doença é historicamente conhecida. As autoridades planeavam capturar roedores ao longo do percurso para realizar testes.

É assim que uma investigação realmente se desenrola. É um processo lento e sem espalhafato. As pessoas armam armadilhas, recolhem amostras, constroem cronologias e reconstituem o que aconteceu antes de a Internet transformar tudo numa história com um vilão bem definido e um final feliz.

Mas a forma como o mundo reage também diz muito sobre o mundo. Quando um trabalhador rural adoece na Patagónia, o mundo não atualiza a página. Quando um surto numa aldeia mata pessoas longe das rotas de cruzeiro dos viajantes abastados, torna-se uma tragédia local, talvez notícia regional, e depois memória. Quando um navio internacional que transporta passageiros de outros lugares se torna o veículo, a história é elevada a ansiedade global.

O vírus não ganhou maior importância no mar. Em vez disso, tornou-se mais visível para as pessoas que, em terra, tinham o luxo de o ignorar. Essa é a primeira verdade incómoda.

A segunda é que a Argentina conhece bem esta doença. Um surto na Patagónia em 1996 ajudou os cientistas a documentar a transmissão entre pessoas pela primeira vez. Outro surto há quase uma década, também na Patagónia, forneceu provas detalhadas da propagação entre humanos depois de um trabalhador rural infetado ter participado numa festa de aniversário numa pequena aldeia. Onze pessoas morreram.

O mundo está a descobrir um perigo pelo qual o meu povo na Patagónia já pagou com a vida.

A porta continua a alargar-se

O hantavírus não surge nas nossas vidas como uma maldição sobrenatural. Tem uma ecologia. Na Patagónia, parte dessa ecologia começa com a caña colihue, um bambu nativo que pode florescer em massa após longos ciclos. Quando floresce, produz enormes quantidades de sementes. As sementes caem. Os roedores alimentam-se. As populações aumentam. Depois, quando o banquete termina ou a densidade populacional aumenta, os animais deslocam-se. As pessoas daqui sabem como é isso. Chamamos-lhe ratada (pronuncia-se com um «arrrr» muito forte).

Ratos que aparecem em barracões, cabanas, jardins, pilhas de lenha, áreas de compostagem, debaixo de terraços, perto de galinheiros, à volta de árvores de fruto, em locais que os humanos pensavam que lhes pertenciam. E, depois de se empanturrarem, muitos afogam-se nas margens, sedentos e a desmoronar-se por dentro após o seu banquete.

Os impulsos alimentares movem os animais e os animais trazem riscos.

O vírus vive nessa zona de contacto, especialmente através da urina, das fezes, da saliva, do pó contaminado e em espaços fechados onde as pessoas limpam demasiado depressa e respiram muito perto umas das outras. É por isso que os conselhos antigos são de natureza física, quase doméstica.

Pense nos excrementos de roedores como se fossem purpurina. Se os varrer a seco, transformam-se em pó invisível que pode acabar nos seus pulmões. Por isso, primeiro abre-se tudo e deixa-se o local arejar, depois molha-se a sujidade com desinfetante, espera-se um pouco e limpa-se, em vez de a espalhar pelo ar. Tudo isto com luvas e uma boa máscara. Em termos simples, as regras são: arejar, não varrer nem aspirar, pulverizar, esperar, limpar. Essa é a rotina enfadonha que impede que um pequeno problema com animais se transforme num problema hospitalar.

É simples até deixar de o ser.

Porque as pessoas não vivem em condições de laboratório. Vivem em casas com lenha, árvores de fruto, arrecadações, cantos com infiltrações, tábuas velhas, arrumos de inverno, cabanas de turismo, trabalho rural e famílias que limpam quando têm tempo, não quando o cartaz de saúde pública assim o diz.

E agora, as condições climáticas estão a fazer com que esses contactos rotineiros se tornem mais evidentes

A Argentina registou 101 casos de hantavírus desde julho do ano passado, com 32 mortes, de acordo com dados do Ministério da Saúde citados em reportagens recentes. As épocas anteriores apresentaram números mais baixos: 64 casos e 14 mortes entre 2024 e 2025, e 82 casos com 13 mortes entre 2023 e 2024.

Esses números situam-se ainda perto da média anual histórica da Argentina, de cerca de 100 casos, mas o aumento é significativo porque as condições em torno da doença estão a mudar. O aumento pode estar relacionado com o comportamento dos roedores: a seca nos últimos três invernos, seguida de um aumento das chuvas na primavera, mais coberto vegetal e mais alimento para os roedores.

Um mundo mais quente não precisa de inventar novos agentes patogénicos todas as semanas para nos deixar mais doentes. Pode alterar o calendário das chuvas, a sobrevivência dos roedores durante os meses mais frios, a floração das plantas, a migração dos animais, a pressão sobre as florestas, a propagação dos incêndios e o número de ocasiões em que os seres humanos entram em contacto com reservatórios selvagens.

É por isso que o hantavírus é uma história climática, mesmo quando o próprio vírus é antigo.

A interação humana com ambientes selvagens, a destruição de habitats, a expansão dos assentamentos rurais e as alterações climáticas contribuem para o surgimento de casos fora das zonas historicamente endémicas. O aumento das temperaturas afeta a presença do rato de cauda longa, o principal portador na Argentina e no Chile, e faz com que estes roedores possam ser mais capazes de se adaptar às alterações climáticas.


Agora, um possível Super El Niño já se está a formar no horizonte, pronto para aumentar a volatilidade de uma situação de base que deixou de se comportar como um pano de fundo.

A minha família e os meus vizinhos não precisam de um modelo para perceber que algo está a mudar. Eles apenas vêem mais ratos a roer maçãs, o que constitui um problema no jardim. Os relatos informais não são ciência e não devem ser tratados como tal. Mas são frequentemente o ponto de partida da investigação científica.

Continuamos a alargar a porta de entrada.

Quando um velho perigo se torna um incómodo

A reação global ao surto no cruzeiro era previsível, porque o mundo ainda sofre de «PTSD da COVID».

Um agente patogénico num navio. Passageiros internacionais. Mortes. Declarações da OMS. Rotas de viagem. Testes. Isolamento. Um mapa com setas. As pessoas já conhecem esta linguagem visual, e o corpo reage antes de o cérebro ter tempo de distinguir um vírus de outro.

Isso é compreensível. Mas também é perigoso. Porque a história mais fácil é a errada. O hantavírus é grave, mas não se comporta como uma pandemia respiratória. Não se propaga rapidamente em multidões casuais. Não se espalha porque alguém espirra num estádio. A estirpe dos Andes acrescenta a possibilidade de transmissão de pessoa para pessoa, mas em condições muito mais restritas do que a COVID.

Portanto, o surto no MV Hondius é grave. Trata-se do primeiro surto de hantavírus a bordo de um navio documentado, e levanta questões científicas concretas sobre onde ocorreram as primeiras infeções, que tipo de contacto teve lugar a bordo e o que a sequenciação do genoma pode revelar aos investigadores sobre a cadeia de transmissão. A estirpe Andes merece atenção. A Argentina, o Chile, as autoridades europeias e a OMS devem coordenar-se sem que o teatro político interfira. Os passageiros e os contactos próximos devem ser cuidadosamente rastreados. A vigilância de roedores deve ser realizada nos locais onde possa ter ocorrido exposição.

Entretanto, o presidente argentino Milei tem tratado a ciência, a educação e os cuidados de saúde como rubricas descartáveis, como se um país pudesse dar-se ao luxo de pirotecnia ideológica, mas não das instituições que mantêm os factos mensuráveis e as pessoas vivas. Em março, formalizou a saída da Argentina da OMS, replicando o seu ídolo Trump, precisamente no momento em que a cooperação não é um slogan, mas o preço mínimo da segurança.

Uma sociedade que funciona sabe distinguir entre pânico e vigilância. Nós seríamos capazes disso, mas continuamos a entregar o poder a pessoas que vendem a ignorância como coragem, tratam a competência como traição e ensinam o público a confiar mais nos influenciadores do que nos cientistas.

O mundo continuará a perguntar onde é que os passageiros do cruzeiro foram infetados. Mas a resposta mais ampla está à nossa frente há anos, a comer frutos do jardim.

Estamos a criar as condições propícias. Estamos a cortar nas instituições. Estamos a alargar a porta. Depois, fingimos surpresa quando algo pequeno, faminto e vivo entra por ela.

A minha mãe provavelmente enviará outra foto se outro rato de cauda longa aparecer no terraço. Provavelmente ficará irritada outra vez. E algures, longe do seu jardim, alguém chamará a isso uma nova ameaça, porque um velho perigo se tornou subitamente um inconveniente para eles.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

REFLEXÃO

O HANTAVÍRUS É UMA QUESTÃO CLIMÁTICA
Emily Atkin, Substack. Trad. O’Lima.

Foto: João Luiz Bulcão / Hans Lucas / AFP via Getty Images

(…) Analisar o impacto climático num surto específico de uma doença é um pouco como analisar o impacto climático num furacão ou incêndio florestal específico enquanto este está a ocorrer. Sem um estudo de atribuição, é realmente difícil identificar a influência exata.

No caso deste surto específico do vírus Andes — a única estirpe de hantavírus conhecida por se transmitir de pessoa para pessoa —, ainda nem sequer sabemos exatamente onde teve origem. Uma teoria que se espalhou rapidamente é que o primeiro doente conhecido foi exposto enquanto observava aves perto de um aterro sanitário nos arredores de Ushuaia, na Argentina, mas as autoridades locais, guias de observação de aves e especialistas médicos têm contestado veementemente essa hipótese, afirmando que provavelmente teve origem mais a norte.

Mas mesmo sem essa informação, podemos falar sobre as condições que tornam os surtos de hantavírus mais prováveis. E, de um modo geral, um planeta mais quente e as doenças infecciosas são uma combinação desastrosa, pelo menos para os seres humanos. Um estudo de 2022 publicado na revista Nature Climate Change concluiu que mais de metade das doenças infecciosas conhecidas já foram, de alguma forma, agravadas pelos riscos climáticos.

Em muitos casos, isso deve-se ao facto de as alterações climáticas permitirem que animais selvagens portadores de doenças se espalhem por locais onde antes não existiam, afirmou o Dr. James Shepherd, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Yale: «À medida que o planeta aquece, à medida que o ambiente aquece, a gama de doenças também muda, porque as doenças tropicais ou subtropicais podem agora tornar-se doenças de climas temperados. Se os seus vetores e os seus hospedeiros puderem deslocar-se para norte, por exemplo — que é o que estamos a ver com as infeções transmitidas por carraças —, então podem chegar a áreas onde nunca tinham sido observadas antes.»

A boa notícia é que o hantavírus não é uma doença tropical ou subtropical, pelo que não corre o risco de se deslocar para zonas temperadas. A má notícia é que já é uma doença global. Há mais de 40 tipos de hantavírus em todo o mundo, e estão presentes em roedores praticamente em todo o lado.

Assim, no que diz respeito às alterações climáticas, os especialistas em doenças infecciosas não estão tão preocupados com a migração dos hospedeiros do hantavírus (termo científico para designar roedores portadores da doença) das zonas tropicais para as zonas temperadas. Estão mais preocupados com a sua migração da natureza para locais onde os seres humanos vivem, trabalham e, de um modo geral, coexistem.

Como as alterações climáticas estão a aproximar os seres humanos dos roedores

Para ser claro: há muitas razões, para além das alterações climáticas, pelas quais os roedores estão cada vez mais a migrar da natureza para locais onde vivem os seres humanos. Em todo o mundo, estamos a abater mais florestas, a expandir mais explorações agrícolas e cidades e a avançar com mais estradas e minas para o interior dos habitats selvagens.

Mas muitos estudos mostram que, para além destes fatores, as alterações climáticas também estão a levar os roedores a um contacto mais próximo com os seres humanos.

Em 2021, o Dr. Douglas ajudou a conduzir uma revisão sistemática da literatura científica sobre o hantavírus e as alterações climáticas. O que ele descobriu foi que, em áreas onde as alterações climáticas estavam a tornar o clima mais húmido, as populações de roedores estavam a explodir. Ele disse-nos: «Quando chove muito, o que acontece? A humidade do solo aumenta, o crescimento das plantas e da vegetação intensifica-se e, consequentemente, aumenta a produção e a disponibilidade de alimentos para os roedores. Assim, verifica-se um aumento exponencial da população de roedores. E quando isso acontece, aumenta o risco de os seres humanos entrarem em contacto, quer diretamente com os roedores, quer indiretamente com o pó contaminado proveniente das excreções dos roedores infetados, sejam estas fezes ou urina. … As inundações também podem expulsar os roedores dos seus habitats, fazendo com que fiquem deslocados e, muitas vezes, acabem por se aproximar das habitações humanas.»

Os roedores e os seres humanos também correm o risco de entrar em maior contacto em locais onde as alterações climáticas estão a agravar a seca. Eis o que diz o Dr. Douglas: «As secas também têm um impacto negativo na disponibilidade de alimentos… Assim, com menos alimentos disponíveis, [os roedores] vão à procura de comida noutro lugar. E o que fazem os seres humanos durante as secas? Particularmente na região da América Latina, armazenam cereais. É aí que se encontra a maior atração para os roedores… [o que] também os coloca em contacto mais próximo com os seres humanos.

Este padrão também se manifestou nos dados relativos a doenças humanas. Um estudo de 2024 publicado na JAMA Network Open descobriu que, após inundações graves na bacia do rio Yangtze, na China, o risco de doença por hantavírus transmitida por roedores permaneceu elevado durante um período de até três anos.

É claro que os dados podem ser complexos. Um estudo realizado no Arizona, por exemplo, revelou que as inundações extremas não beneficiaram a população dominante de ratos-canguru da região — pelo contrário, quase os exterminaram por completo. Entretanto, os ratos-bolso da região sobreviveram e multiplicaram-se, alterando de forma permanente a composição das espécies de roedores que dominavam o habitat.

Assim, o quadro do impacto das alterações climáticas no clima e na população de roedores pode ser complexo. Mas não é a única forma como as alterações climáticas agravam a propagação de doenças infecciosas como o hantavírus.

As alterações climáticas agravam a urbanização e a perda de biodiversidade

As alterações climáticas estão também a agravar outros problemas que contribuem para a propagação de doenças — como o aumento da urbanização ou, por outras palavras, o êxodo de pessoas das zonas rurais para as cidades, onde os roedores prosperam. Eis o que diz o Dr. Shepherd: «Um dos grandes efeitos [das alterações climáticas] sobre nós, enquanto hospedeiros de infeções, é que estamos a mudar-nos. … Mas estamos a mudar-nos porque já não conseguimos sustentar estilos de vida que nos sustentaram durante milénios, como a agricultura de subsistência, por exemplo, em África. Há regiões que estão a ficar demasiado secas, demasiado húmidas ou demasiado imprevisíveis. … Estamos, portanto, a assistir a uma urbanização em grande escala impulsionada pelas alterações climáticas, pela imprevisibilidade e pelas dificuldades em cultivar alimentos num clima extremamente imprevisível. Isto está a resultar numa expansão maciça das cidades, sobretudo nas regiões mais quentes e mais pobres do mundo. Daqui a 50 anos, as maiores cidades do mundo estarão quase todas em África. E prevê-se que algumas dessas cidades cheguem a ter cerca de 100 milhões de habitantes.»

Outro problema que as alterações climáticas estão a agravar é a perda de biodiversidade. O IPCC constatou que, com cada ligeiro aumento da temperatura, o risco de extinção aumenta: a 1,5 °C, estima-se que a percentagem média de espécies em risco muito elevado de extinção seja de 9 por cento; a 2 °C, é de 10 por cento; a 3 °C, de 12 por cento, e assim por diante. Isso não é bom para as doenças.

«À medida que a biodiversidade diminui e os ambientes são devastados, muitas vezes os agentes que transportam e transmitem infeções — hospedeiros e vetores — tendem a tornar-se mais resistentes», afirmou o Dr. Shepherd. «Eles avançam.»

Ainda assim, de um modo geral, os cientistas são claros ao afirmar que é difícil identificar a influência exata das alterações climáticas nesta estirpe específica de hantavírus. Eis o que diz a Dra. Angel Desai, médica especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em Davis: «É complicado porque, embora haja todos estes fenómenos relacionados com o clima, também há toda uma série de outros fatores no contexto do comportamento humano. Por isso, é sempre um desafio conseguir distinguir o que está especificamente relacionado com fatores climáticos e o que está relacionado com os outros fatores. Mas, na minha opinião, acho que tudo está interligado, e é isso que está a impulsionar as mudanças que estamos a observar nas doenças infecciosas.»

A importância de falar sobre a ligação com o clima

Ainda assim, todos os cientistas com quem falei sublinharam que, mesmo que não possamos identificar com exatidão a influência das alterações climáticas no surto do vírus Andes, vale a pena abordar o assunto.

Uma das razões é que, num futuro muito próximo, os meteorologistas prevêem que estamos prestes a enfrentar um dos fenómenos El Niño mais intensos da história registada — um fenómeno agravado pelas alterações climáticas. Isso poderá afetar as populações de roedores em todo o mundo, mas também especificamente na Argentina e no Chile, onde o vírus dos Andes tem origem. Eis o que diz o Dr. Shepherd: «Quando se tem o que vamos ter ainda este ano, um ano de El Niño muito intenso, que vai ser ainda mais forte porque o planeta está muito mais quente do que antes. As populações de roedores nas zonas agrícolas húmidas e chuvosas do mundo tendem a explodir e a sobrepovoar-se, registando aumentos massivos. E isso vai aumentar o número de... agentes patogénicos que transportam e introduzem no ambiente.»

Outra razão pela qual é sensato abordar as alterações climáticas em relação a este surto de hantavírus é que isso realça a necessidade de os governos investirem em modelos de investigação que tenham em conta as alterações climáticas na previsão de surtos de doenças. Eis o que diz o Dr. Douglas: «Porque é que não se consegue prever o risco de doenças infecciosas de forma a ajudar no planeamento e na preparação, tal como se faria para um furacão? Não se quer esperar até que o furacão esteja à porta para garantir que se tem reservas de alimentos e que foram tomadas todas as medidas preparatórias necessárias para minimizar o impacto. Não se trata de o impedir. Trata-se de mitigar e reduzir o risco.»

De um modo geral, os cientistas com quem falei afirmaram que este surto de hantavírus põe em evidência o facto de que as condições para o surgimento de surtos de doenças infecciosas estão a mudar mais rapidamente do que os nossos sistemas de previsão e prevenção desses surtos.

E num mundo afetado pelas alterações climáticas, já não podemos considerar doenças como o hantavírus como algo a erradicar. «No que diz respeito às doenças infecciosas, elas estão aqui para ficar», afirmou Shepherd. «Fazem parte do nosso ambiente. Fazem parte da ordem natural das coisas.»

Isso não significa que os surtos sejam inevitáveis. Significa que o risco de doença é fundamentalmente moldado pela saúde do mundo natural. «Precisamos de reconhecer que não somos os donos», disse Shepherd. «Somos apenas mais um membro de um ecossistema interdependente excepcionalmente complexo.»

A destruição de habitats, a redução da biodiversidade e o rápido aquecimento do planeta não prejudicam apenas a «natureza» num sentido abstrato. Também enfraquecem algumas das barreiras que ajudam a manter os agentes patogénicos afastados das pessoas. E, em última análise, ao perturbar o ambiente de forma tão radical, Shepherd afirmou que é provável que estejamos a contribuir para o surgimento de mais pandemias.

«Temos de reconhecer que fazemos parte de um sistema planetário complexo e biodiverso», disse Shepherd, «e que o perturbamos por nossa conta e risco.»

quarta-feira, 6 de maio de 2026

EUA: NOVA ORLEÃES TERÁ DE RECUAR

New Orleans, setembro 2005
  • O processo de realojamento da população de Nova Orleães deve começar imediatamente, uma vez que a cidade atingiu um ponto de não retorno que a levará a ficar rodeada pelo oceano dentro de algumas décadas devido à crise climática, concluiu um estudo recente.
  • Os aterros ilegais de Itália são uma bomba-relógio. Há décadas que a Máfia tem enterrado ilegalmente resíduos industriais altamente tóxicos nos arredores de Nápoles, para poder ficar com os fundos municipais destinados à eliminação de resíduos. Os observadores afirmam que o governo italiano não está a fazer o suficiente para resolver o problema. Terra dei Fuochi, perto de Nápoles, continua a ser uma das regiões mais tóxicas de Itália. Durante décadas, a organização criminosa Camorra enterrou e queimou resíduos perigosos, contaminando o solo e o ar e deixando os residentes confrontados com elevadas taxas de cancro. Voluntários como Alessandro Cannavacciuolo e Michele Pannella documentam os despejos ilegais e pressionam as autoridades a agir, mas a limpeza é lenta e carece de financiamento, apesar das decisões judiciais e dos esforços da polícia. Fonte.
  • Kits tecnológicos simples e prontos a instalar poderiam reduzir as contas e acabar com a dependência dos combustíveis fósseis. Davide Sabbadin explica por que razão este é exatamente o tipo de política orientada para as famílias de que a UE necessita em tempos de crise.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

LEITURAS MARGINAIS

A FALSA AGENDA CLIMÁTICA EM QUE OS ADULTOS SE REUNIRAM SEM O MAUZÃO
Martina H, Medium. Trad. O’Lima.

O medo é uma sombra. Existe apenas quando te concentras nele. É uma projeção da mente moldada por desejos e interpretações.

Na semana passada, ministros, cientistas e ativistas de quase sessenta países reuniram-se em Santa Marta, na Colômbia, para a primeira Conferência sobre a Transição para Abandonar os Combustíveis Fósseis — tudo isto enquanto o Estreito de Ormuz permanecia fechado, o preço do petróleo atingia o seu nível mais alto dos últimos quatro anos nos EUA e o carvão continuava a regressar gradualmente às redes elétricas asiáticas, mesmo quando a transição estava finalmente a começar.

O país que ajudou a fechar o Estreito não esteve simplesmente ausente. Não foi convidado e foi, apropriadamente, descartado pela Casa Branca como «a falsa agenda climática».

Santa Marta ocorreu à margem do processo da ONU porque este foi concebido para fracassar. Funciona com base no consenso: uma nação, um voto, um veto. Esta regra confere à Arábia Saudita (que detém as segundas maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, com a necessidade financeira de essas reservas serem queimadas) o mesmo poder de negociação que as Ilhas Marshall, que desapareceriam se isso acontecesse.

Esse único artifício tem regido todas as COP desde 1995. Foi assim que os países petrolíferos esvaziaram Glasgow, diluíram Dubai e garantiram que, na COP30 em novembro passado, as palavras «combustíveis fósseis» nem sequer chegassem a constar na página.

Santa Marta rejeitou essa manobra. Em vez disso, funcionou com base na regra da maioria.

O veto está morto.

A premissa era clara: o sistema dos combustíveis fósseis é estruturalmente pouco fiável. O Estreito fechou-se não porque o sistema falhou, mas porque funcionou exatamente como previsto.

Então, para começar, o mauzão não foi convidado.

Apresentar-se de boa-fé

No final de setembro de 2025, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente do país que mais carbono emitiu na história moderna subiu ao pódio e classificou as alterações climáticas como «a maior fraude alguma vez perpetrada no planeta». Seis meses depois, o seu ministro do Interior pagou a uma empresa petrolífera francesa quase mil milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes para garantir que dois parques eólicos offshore não fossem construídos. A condição do pagamento era que o milhão fosse reinvestido em petróleo e gás.

A administração desmantelou o departamento de fiscalização da Agência de Proteção Ambiental, esvaziou o departamento climático da NOAA e retirou o financiamento federal da Avaliação Nacional do Clima, que os cientistas vinham a elaborar há duas décadas. Uma força de intervenção da Marinha dos EUA encontra-se atualmente ao largo da costa da Venezuela, onde o sequestro de Nicolás Maduro abriu o acesso a trezentos mil milhões de barris de petróleo bruto pesado que as refinarias da Costa do Golfo foram originalmente construídas para processar. A Gronelândia recebeu ameaças de anexação mais de uma vez. E a guerra entre os EUA e Israel no Irão fechou o Estreito de Ormuz e deu início ao bloqueio energético.

Por isso, convidá-los (e a outros países produtores de petróleo, como a Rússia, o Irão, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, ou grandes poluidores como a China e o Japão) para uma reunião sobre o que virá depois dos combustíveis fósseis teria sido uma mentira grotesca e um insulto à própria ideia de participar de boa-fé.

Os maiores produtores de emissões

E se quiserem a prova mais clara de que os EUA nunca poderiam ter entrado naquela sala e fingido levar a sério «a falsa agenda climática», ela surgiu dez dias antes da abertura da Cimeira de Santa Marta, quando a Agência de Proteção Ambiental anunciou que Phoenix deixaria de ser penalizada por violar as normas federais de qualidade do ar. Porque o smog, explicou a EPA, vinha da Ásia.

Poluição do outro lado do mundo

Phoenix tem basicamente a forma de uma bacia. A poluição entra e fica ali parada. Em 2024, a cidade não cumpriu o padrão federal de ozono, o que normalmente significa que o governo tem de apertar o cerco às maiores fontes: carros, fábricas e refinarias. Mas Lee Zeldin, o administrador da EPA, colocada pela nova administração à frente de uma agência que estava simultaneamente a esvaziar, publicou que Phoenix e regiões semelhantes não deveriam ser punidas porque a poluição supostamente vinha de «fontes estrangeiras de emissões».

O senador John Curtis, do Utah, cuja região de Northern Wasatch Front estava prestes a obter o mesmo tipo de isenção, saudou a medida. E, surpresa!, a Associação de Petróleo do Utah aplaudiu a decisão num comunicado de imprensa publicado no mesmo dia.

O raciocínio é, à primeira vista, absurdo. Se todas as regiões (ou todos os países) puderem culpar os «ventos estrangeiros» pelo ar que os seus próprios residentes respiram, então a ideia de uma norma federal desmorona-se numa farsa. Três partes por bilião a mais de ozono ao longo de uma década causam os mesmos danos aos pulmões que fumar um maço de cigarros por dia durante vinte e nove anos. E os pulmões de uma criança em Salt Lake City não se importam se a molécula que os danifica foi produzida em Salt Lake City ou em Xangai.

A Câmara de Comércio do Arizona apresentou o argumento decisivo. O seu presidente disse à EPA que regras mais rigorosas em matéria de poluição constituíam uma «ameaça económica e estratégica», porque o estado está empenhado na construção de centros de dados de IA que consomem a quantidade de eletricidade equivalente à de uma pequena cidade — e não produzem nada que uma pessoa possa comer, beber ou respirar.

Portanto, sim: o país que bombardeou o Irão e bloqueou o Estreito de Ormuz culpa agora a China por queimar carvão, para que Phoenix possa consumir mais energia em máquinas de treino para manipular algoritmos. Isso faz algum sentido?

Já não lhes estamos a dar o nosso almoço

É isto que os governos de Santa Marta estão a começar a compreender — embora a maioria ainda não governe com base nisso — e que a administração dos EUA não consegue: existe algo chamado energia suficiente, consumo suficiente, infraestruturas suficientes, calor suficiente. A premissa básica da economia dos EUA em 2026 é que não existe nada em quantidade suficiente.

O FMI estima que, em 2025, concedemos cerca de sete biliões de dólares em subsídios aos combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, estamos a correr para construir centenas de centros de dados de IA que consomem muita energia, apesar de a indústria ainda não ter provado que consegue pagar as suas próprias despesas.

Estamos a tentar construir um futuro limpo utilizando o mesmo velho motor do crescimento infinito e ilusório. E o próximo sistema exige saber quando é que basta, sem que a economia entre em colapso.

A transição para as energias renováveis é uma questão de soberania antes de ser uma questão climática. A energia que cai do céu ou sopra com o vento não pode ser bloqueada porque não pode ser possuída. Um agricultor no Paquistão com painéis solares na sua bomba de irrigação não se pergunta se Teerão está a disparar contra petroleiros esta manhã.

Mas a soberania sem suficiência é uma soberania adiada. Um mundo que funciona com painéis solares enquanto consome ao mesmo ritmo, cresce ao mesmo ritmo, constrói centros de dados ao mesmo ritmo, é um mundo que mudou a sua fonte de combustível sem mudar a sua direção. O Estreito fecha-se e o telhado alimenta a irrigação. O centro de dados executa o modelo. Os pulmões da criança em Phoenix continuam a sua contabilidade. O cigarro foi substituído por um charuto, e o fumo tem a mesma cor.

O que a sala de Santa Marta procura alcançar, de forma muito imperfeita e muito tardia (mas não demasiado tarde), é um vocabulário em que a palavra «basta» possa ser proferida sem provocar uma convulsão no mercado. A Alemanha ainda consome demasiado, o Brasil ainda consome demasiado, o Reino Unido ainda consome demasiado, eu ainda consumo demasiado, e nenhum desses governos resolveu o problema de uma relação diferente com a suficiência. Cada um deles permanece dentro da lógica económica que criou a situação difícil. Mas estão numa sala onde a palavra «basta» pode ser proferida sem que um embaixador saia imediatamente ou um mauzão o castigue por não lhe dar o seu almoço.

E essa é uma sala diferente daquela em que o mundo tem estado há trinta anos.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

REINO UNIDO: FOSSEIS LIDERAM FINANCIAMENTO DO PARTIDO REFORM

Foto: BBC
  • O partido Reform recebeu 24 milhões de libras de interesses ligados aos combustíveis fósseis. O partido anticlimático de Nigel Farage obteve dois terços das suas receitas de investidores do setor petrolífero. Fonte.
  • Sete bancos — Natixis, BNP Paribas, Crédit Agricole CIB, Citigroup, Intesa Sanpaolo, JPMorgan e Mediobanca — financiaram graves violações dos direitos humanos, bem como danos climáticos e ambientais, através de um empréstimo «verde» no valor de 1,25 mil milhões de dólares destinado à fábrica de aço e gás da Ternium no México. Fonte.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

PTRR – 9 ANOS PARA COMBATER ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, FALHAS DE ENERGIA E CIBERATAQUES

Passageiros esperam no exterior de um terminal do Aeroporto de Lisboa durante um corte de energia, em Lisboa, Portugal, 
a 28 de abril de 2025. REUTERS/Pedro Nunes.

O Governo de Luís Montenegro 'anunciou' um programa de investimento de 22,6 mil milhões de euros a ser implementado ao longo de nove anos, com o objetivo de mitigar riscos como as alterações climáticas e as falhas de energia. A iniciativa, denominada «Transformação, Recuperação e Resiliência de Portugal», visa reforçar as infraestruturas, as instituições, as habitações e as empresas contra ameaças relacionadas com as alterações climáticas, a segurança energética, a atividade sísmica e os ciberataques. Será financiada em 37 % pelo orçamento do Estado, representando o financiamento privado 34 % do total e os fundos europeus cobrirão 19 %. O plano foi lançado na sequência das fortes tempestades que atingiram a região central do continente português em janeiro e fevereiro, causando prejuízos estimados em 5,3 mil milhões de euros, e de uma falha de energia devastadora em Espanha e Portugal há exatamente um ano. Fonte.

"A operação foi de propaganda primária (...). Montenegro apresentou como novidade aquilo que já fora anunciado tantas vezes desde os efeitos das tempestades de há dois meses. Prometeu apoios, proclamou investimentos, garantiu transformações. Tudo muito bonito em powerpoint, tudo muito convincente em slides bem desenhados, tudo muito impressionante em gráficos coloridos. E tudo completamente desligado da realidade que as pessoas vivem. Porque na realidade (...) não há nenhuns apoios efetivos às pessoas e às empresas para reerguerem as suas vidas. Os que perderam casas continuam sem saber como as reconstruir. Os que viram negócios destruídos continuam sem apoio concreto. Os que ficaram sem nada continuam com nada. E as seguradoras fazem aquilo que muito bem sabem: rápidas a cobrarem os prémios dos seguros, especialistas em encontrar cláusulas que lhes permitem escusar-se a indemnizar os clientes quando estes se veem sinistrados (...). Mas o cúmulo da desfaçatez — aquilo que transformou conferência de imprensa em farsa inqualificável — foi Montenegro recusar-se a responder a qualquer pergunta dos jornalistas. (...) Chamou os ministros. E ali, perante jornalistas atónitos e uma nação que assistia incrédula, obrigou-os a cantar em coro o hino nacional. Coisa nunca vista. Nunca. Em décadas de democracia portuguesa, em centenas de conferências de imprensa, em milhares de momentos de comunicação governamental — nunca se tinha visto tamanha instrumentalização patética de um símbolo nacional para fugir a perguntas incómodas. É a expressão de um nacionalismo serôdio que, como bem se sabe desde Samuel Johnson, costuma ser o último refúgio dos canalhas. Quando não tens argumentos, agitas a bandeira. Quando não tens respostas, cantas o hino. Quando não tens competência para governar, escondes-te atrás de símbolos pátrios como se isso compensasse a tua mediocridade. (...) quando um primeiro-ministro precisa de transformar conferência de imprensa em número de circo, quando tem de obrigar ministros a cantar o hino para evitar responder a jornalistas, quando substitui prestação de contas por teatralização patriótica — é porque já não tem nada de substancial para dizer. É patético. Mas é também perigoso. Porque este tipo de nacionalismo performativo — esse que substitui governação por símbolos, que troca políticas por folclore, que esconde incompetência atrás de pátria — é o mesmo que historicamente sempre antecedeu derivas autoritárias Não que Montenegro seja fascista. Não é. É apenas incompetente e desesperado. Mas a incompetência desesperada que recorre a nacionalismo barato para se legitimar cria condições para que verdadeiros autoritários — esses sim, como Ventura — se apresentem como alternativa credível. (...) aquilo não foi conferência de imprensa de um Governo que governa. Foi o canto do cisne de quem já sabe que está a afundar-se e tenta disfarçar o naufrágio com hinos e bandeiras. Não resultará. Nunca resulta. Mas pelo menos ficará registado para a História: o dia em que um primeiro-ministro português, incapaz de responder a jornalistas, transformou uma conferência de imprensa em sessão de karaoke patriótico."  Jorge Rocha, Ventos semeados.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

DENGUE: MOSQUITO DETETADO EM 28 CONCELHOS

  • O mosquito Aedes albopictus, transmissor de doenças como dengue, chikungunya, febre-amarela e Zika, foi detetado em 2025 em 28 concelhos de Portugal, informa o mais recente Relatório REVIVE, divulgado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que confirma a expansão da espécie no território nacional. O número representa um aumento face a 2024, quando a espécie invasora estava identificada em 18 concelhos, refletindo uma tendência de crescimento contínuo da sua presença em Portugal. Fonte.
  • Cientistas britânicos da Universidade de Manchester estão a investigar uma técnica de geoengenharia denominada «clareamento de nuvens marinhas». Pretendem lançar uma névoa fina de água salgada a grande altura no céu para tornar as nuvens mais claras, de modo a que estas reflitam mais luz solar de volta para o espaço e ajudem a arrefecer o planeta. O projeto REFLECT é financiado pela Agência de Investigação Avançada e Inovação (ARIA) do Reino Unido, que atribuiu 57 milhões de libras a 22 projetos de geoengenharia. Os investigadores e a ARIA salientam que a descarbonização continua a ser a única solução sustentável para a crise climática e que esta investigação apenas tem como objetivo criar uma base de dados objetivos que sirva de suporte para a tomada de decisões seguras. Tudo isto porque há empresas privadas, apoiadas por capital de risco, que já estão a entrar neste setor sem qualquer quadro regulamentar, o que cria uma necessidade urgente de investigação independente financiada com fundos públicos. Quaisquer ensaios futuros exigirão avaliações de segurança independentes e uma conceção conjunta com a comunidade. Ainda não foi escolhido nenhum local, e as experiências ao ar livre não terão lugar antes de 2028. Fonte.
  • A administração Trump anunciou mais dois pagamentos a empresas do setor energético para que abandonem projetos eólicos offshore em desenvolvimento nos EUA. A Bluepoint Wind e a Golden State Wind concordaram em rescindir os seus contratos de arrendamento eólico offshore em troca de reembolsos que totalizam quase 900 milhões de dólares. Fonte.
  • O ministro do Ambiente do Líbano acusou as forças armadas de Israel de cometerem «um ato de ecocídio» no prefácio de um relatório que detalha os danos causados aos recursos naturais do país durante a invasão de 2023 a 2024.
  • A tribo Stillaguamish, a norte de Seattle, está a devolver terras agrícolas ao mar para salvar o salmão e ajudar a proteger contra inundações uma comunidade que tem enfrentado dificuldades devido à subida do nível do mar causado pelas alterações climáticas. Fonte.

sábado, 18 de abril de 2026

REFLEXÃO

PAINÉIS SOLARES ESTÃO A PROVOCAR CHUVAS NUM DOS LOCAIS MAIS SECOS DO PLANETA
Efosa Udinmwen, TechRadar. Trad. O’Lima.


Nos Emirados Árabes Unidos, onde a água é mais valiosa do que o petróleo, uma nova investigação sugere que os grandes parques solares podem provocar as suas próprias tempestades.

Um estudo de modelação liderado pelo cientista climático Oliver Branch, da Universidade de Hohenheim, descobriu que os painéis solares escuros absorvem mais calor do que a areia refletora do deserto circundante.

Esta diferença de temperatura gera correntes ascendentes que podem provocar chuva, fornecendo potencialmente água a dezenas de milhares de pessoas.

Os investigadores modelaram os painéis solares como superfícies quase negras que absorvem 95% da luz solar incidente.

Quando os parques solares ultrapassavam os 15 quilómetros quadrados, o aumento do calor contrastava fortemente com a areia refletora à sua volta, intensificando as correntes ascendentes que impulsionam a formação de nuvens, mas é necessária uma fonte de humidade atmosférica.

No entanto, o modelo demonstrou que os ventos húmidos de alta altitude provenientes do Golfo Pérsico seriam suficientes.

Um parque solar de 20 quilómetros quadrados aumentaria a precipitação em quase 600 000 metros cúbicos nas condições certas. Se essas tempestades ocorressem dez vezes num verão, forneceriam água suficiente para mais de 30 000 pessoas durante um ano.

«Algumas centrais solares estão a atingir a dimensão adequada neste momento… Talvez não seja ficção científica conseguirmos produzir este efeito», afirmou Branch.

Uma limitação é que os painéis solares simulados eram mais escuros do que a maioria dos fabricados atualmente, uma vez que alguns painéis solares modernos são concebidos para serem refletores, de modo a arrefecer o ambiente circundante, o que reduziria o efeito de produção de chuva.

Zhengyao Lu, cientista climático da Universidade de Lund, considerou o novo trabalho «muito estimulante», mas manifestou esta preocupação.

Branch acredita que a ideia possa ser testada no mundo real, salientando que os parques solares que estão a entrar em funcionamento na China têm dimensões quase suficientes.

Ele sugere o plantio de culturas escuras e resistentes à seca, como arbustos de jojoba, entre as linhas de painéis para potenciar o efeito.

Os Emirados Árabes Unidos financiaram a investigação de modelação de Branch, mas o país continua empenhado no seu programa de semeadura de nuvens, realizando aproximadamente 300 missões por ano.

Isto implica que as autoridades locais ainda não estão convencidas de que a precipitação induzida pela energia solar seja uma alternativa prática.

Segundo Branch e a sua equipa, este modelo poderia funcionar noutras regiões áridas, incluindo a Namíbia e a Península da Baixa Califórnia, no México.

Se futuras investigações validarem estas conclusões, o potencial de produção de chuva dos parques solares poderá proporcionar um incentivo inesperado para a expansão das energias renováveis nas regiões mais secas do mundo.

terça-feira, 14 de abril de 2026

REFLEXÃO

LER A PAISAGEM PARA ENFRENTAR O CLIMA
Carla Gonçalves, O Maio.

Um comboio de tempestades atlânticas varreu Portugal, em especial a região Centro, em menos de duas semanas. Deixou um rasto de calamidade do qual já não havia memória.

A nossa memória tende a ser seletiva, e, se fenómenos extremos sempre existiram, é hoje sabido que a sua intensidade e a frequência se irão agravar devido às alterações climáticas. Talvez estes episódios já sejam parte dessa transformação. Só séries temporais longas o confirmarão.

O que os dados científicos já nos dizem há bastante tempo, no entanto, é algo essencial: o risco não resulta apenas da intensidade dos eventos. Resulta das escolhas que fizemos e continuamos a fazer sobre como ocupar, gerir e transformar a paisagem. E, sobre isso, há pouco debate público e ainda menos literacia.

Portugal foi pioneiro, ainda na década de 1980, ao criar a Reserva Ecológica Nacional, impulsionada pela visão de arquitetos paisagistas como Gonçalo Ribeiro Telles, António Viana Barreto e Ilídio de Araújo. A par da Reserva Agrícola Nacional, esta estrutura permitiu, em muito, salvaguardar sistemas dunares, linhas de água, zonas húmidas, encostas com risco de erosão e deslizamento e os melhores solos agrícolas, ou seja, a base biofísica que sustenta o território e minimiza os riscos para pessoas e bens. Era, antes do tempo, aquilo a que hoje chamamos uma solução baseada na natureza.

Ainda assim, várias destas áreas têm vindo a ser destinadas a fins que contrariam a sua aptidão ecológica. As imagens recentes de habitações e infraestruturas destruídas em leitos de cheia ou em encostas instáveis mostram, de forma brutal, o custo dessas decisões. Veja-se ainda o caso da Costa Azul, entre Troia e Melides, progressivamente transformada de bem público comum em ativo (quase) privado, apesar da sua reconhecida vulnerabilidade ecológica e climática. Num cenário de subida do nível médio do mar e de maior frequência de eventos extremos, é provável que o Estado venha a ser chamado a proteger o que antes foi autorizado a construir, a custos que provavelmente não foram ponderados.

Se o pensamento sobre o ordenamento e a gestão da paisagem marcou, de forma diferenciadora, parte da legislação do pós-25 de Abril, a adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, trouxe novas agendas e prioridades. Fomos progressivamente substituindo visões integradas do território e da paisagem por abordagens mais setoriais, muitas vezes orientadas por financiamentos específicos. A palavra “paisagem” manteve-se nos diplomas, nas estratégias e nos planos. O conteúdo e a forma holística de olhar para o território nem sempre. E não deixa de ser irónico que, em 2005, Portugal tenha ratificado a Convenção Europeia da Paisagem, reafirmando o compromisso com a necessidade de termos uma visão integrada do território e da paisagem. Vinte anos depois, o sentido dessa ratificação continua por cumprir.

O problema não está na falta de planos. Está na aplicação desigual, na ausência de avaliação sistemática, antes e depois da implementação, e na dificuldade em corrigir o que falha.

Mas há algo ainda mais básico que os planos não resolvem: a falta de gestão da paisagem. Aquilo que determina, dia após dia, se uma linha de água se mantém limpa, se uma encosta está estabilizada, se uma floresta é menos suscetível ao fogo. Essa gestão exige continuidade, recursos e uma visão que ultrapasse os limites administrativos dos territórios, as fronteiras de política entre ministérios e os ciclos eleitorais.

A nossa governação organiza-se por limites administrativos e lógicas setoriais. A paisagem não reconhece nem obedece a nenhum deles. A paisagem não é apenas o suporte biofísico do território, nem apenas o resultado visível da ação humana. É a interação contínua entre ambos e depende sempre de quem a lê, de como a habita e de como a gere diariamente.

Ler a paisagem como um sistema socio-ecológico permite identificar vulnerabilidades construídas ao longo do tempo, antecipar efeitos cumulativos e perceber como soluções num lugar podem agravar a vulnerabilidade noutro. Sem essa leitura integrada, a adaptação torna-se fragmentada, reativa e, muitas vezes, ineficaz. A paisagem não é o cenário onde os impactos ocorrem; é o sistema que determina a sua magnitude. É também, e por isso mesmo, o nível em que as políticas precisam de se encontrar (ambiente, agricultura, florestas, energia, ordenamento do território), porque é na paisagem que as suas consequências se tornam indissociáveis.

A Política Nacional de Arquitetura e Paisagem (PNAP), aprovada em 2015, reconhecia isso mesmo: a necessidade de abordagens holísticas e de integração da paisagem nas políticas sectoriais. Uma década depois, a PNAP permanece um documento de intenções, sem os instrumentos nem a autoridade necessários para vincular os sectores que, na prática, mais determinam a transformação da paisagem.

O diagnóstico não é novo. Adaptarmo-nos às alterações climáticas não significa apenas reforçar infraestruturas ou responder de forma reativa a emergências. Significa compreender como funcionam os sistemas que regulam a água, estabilizam os solos, moderam as temperaturas e sustentam as atividades económicas e sociais. A paisagem é o nível em que essas interações se tornam visíveis. É nela que se cruzam processos ecológicos e culturais, decisões políticas e os usos que fazemos do território para viver e produzir.

Sabemos o que falhou. A questão é o que fazemos com isso.

Temos agora a oportunidade e a obrigação de nos perguntarmos: que tipo de país queremos ser num contexto de mudança climática acelerada? Essa escolha não se faz apenas através de legislação avulsa ou de respostas de emergência. Faz-se também por meio da construção de uma visão partilhada da paisagem e do território, que procure alinhar políticas públicas, o conhecimento científico e a ação regional e local numa mesma direção.

Essa visão tem de ser supramunicipal. Tem de ser construída à escala dos sistemas naturais e sustentada por mecanismos de governação que assegurem continuidade para além dos ciclos políticos. A paisagem não se transforma ao ritmo de um mandato. E a adaptação climática também não.

A construção coletiva de uma estratégia para a paisagem portuguesa não pode continuar a fazer-se município a município, projeto a projeto, tempestade a tempestade, incêndio a incêndio. Exige coordenação, compromisso político sustentado e responsabilidade intergeracional. Porque a adaptação climática é também uma questão de justiça ambiental: os custos das decisões acumulam-se, mas raramente recaem sobre quem as tomou.

A última tempestade passou. A próxima já se forma algures no Atlântico. O que decidirmos enquanto o céu está limpo determinará o que resistirá quando ela chegar. Mas para decidir bem, primeiro é preciso saber ler a paisagem.

sábado, 14 de março de 2026

REFLEXÃO

QUE MODELO DE DESENVOLVIMENTO ESTÁ A ORIENTAR A TRANSIÇÃO CLIMÁTICA?
Teresa Calix, O Maio.


As tempestades que atingiram Portugal em janeiro e fevereiro evidenciaram fragilidades acumuladas no território, expondo vulnerabilidades infraestruturais, ambientais e sociais perante fenómenos climáticos extremos. Estes episódios e a crescente instabilidade climática reforçam a urgência de repensar os modelos de planeamento e de gestão territorial, colocando no centro do debate adaptação e resiliência. Obrigam, também, a questionar decisões que continuam a promover a artificialização do solo, a fragmentação ecológica e a fragilização de sistemas naturais, produzindo cenários de risco e de desastre, em vez de fortalecer a capacidade coletiva de resposta.
Nos últimos meses, decisões governamentais relacionadas com expropriações para grandes infraestruturas, expansão de projetos energéticos e autorização de abate de milhares de árvores protegidas reacenderam uma questão essencial: que modelo de desenvolvimento está a orientar a transição climática? A transição energética é indispensável – parques solares e eólicos são fundamentais para reduzir emissões e dependência de combustíveis fósseis –, mas quando implica a artificialização extensiva de solos agrícolas férteis, a destruição de árvores adultas ou a fragmentação de habitats, instala-se um paradoxo inquietante: descarbonização à custa da degradação ambiental.

O abate de milhares de sobreiros e azinheiras dificilmente é compensado por plantações jovens noutro local. Árvores com décadas de crescimento desempenham funções ecológicas – sombra, evapotranspiração, fixação de carbono, habitat – que não são replicáveis no curto prazo. A lógica de compensação quantitativa ignora a dimensão temporal e a complexidade dos ecossistemas.

Importa, por isso, questionar a forma como é invocado o ‘interesse público’. A sustentabilidade não pode ser entendida de modo setorial, mas, sim, sistémico e intergeracional, reconhecendo que cada contexto, processo ou decisão contribui para o equilíbrio do sistema global de correlações em que se inscreve. O debate não opõe progresso a conservação, mas questiona se o modelo de desenvolvimento atual é coerente com os objetivos climáticos que proclama ou, antes, se perpetua lógicas de crescimento e fragmentação do passado sob novas justificações?

Num cenário de crise climática e de crescente exposição a fenómenos extremos, o progresso territorial deve assentar na preservação de ecossistemas autóctones, na renaturalização e na restauração ecológica (rewilding), condições decisivas para a mitigação (captura e armazenamento de carbono), a adaptação (conservação de solos e resiliência de ecossistemas) e a biodiversidade. Simplificar procedimentos administrativos, sob o argumento da urgência económica, não pode significar fragilizar avaliações ambientais ou limitar a participação pública, instrumentos criados precisamente para garantir que decisões de curto prazo não comprometam o equilíbrio territorial de longo prazo.

Naturalizar os territórios implica reconhecer o valor intrínseco dos ecossistemas, não apenas o seu valor instrumental, e pressupõe, também, planear cidades onde a natureza seja infraestrutura essencial. A impermeabilização excessiva do solo urbano e a persistência de modelos de intervenção ultrapassados comprometem a drenagem natural e aumentam o risco de cheias e ilhas de calor. Cidades com mais árvores, solos permeáveis e linhas de água integradas em sistemas naturais são mais resilientes, saudáveis e qualificadas. A integração de soluções baseadas na natureza contribui para a estratégia estruturante de adaptação climática, representando, simultaneamente, uma oportunidade de qualificação.

Portugal assumiu compromissos de neutralidade carbónica, restauração ecológica e proteção da biodiversidade. Cumpri-los exige coerência política entre discurso e prática, entre metas e decisões concretas de ordenamento.

As políticas públicas devem garantir a integração de uso do solo, biodiversidade e adaptação climática. Em vez de as tratar separadamente, definindo soluções rápidas que sacrificam património natural, as medidas a implementar devem privilegiar a reabilitação urbana, a ocupação de solos já artificializados e a densificação inteligente das cidades, promovendo modelos energéticos distribuídos.

A transição climática exige legitimidade social: transparência, participação efetiva e equilíbrio entre interesses. Existem alternativas técnicas capazes de conciliar desenvolvimento e preservação ecológica. A questão central permanece: a transição climática será o motor de uma visão estratégica sistémica e integradora que se traduza num novo modelo territorial mais resiliente ou continuará a ser conduzida por lógicas que reproduzem as fragilidades que as tempestades tornaram impossíveis de ignorar?

domingo, 1 de março de 2026

OURÉM: GRUPO VERDASCA ALVO DE PERÍCIAS AMBIENTAIS

  • A IGAMAOT realizou perícias ambientais em várias empresas do grupo Verdasca, incluindo recolha de amostras de águas e resíduos no âmbito de uma investigação sobre eventuais crimes ambientais associados à atividade das empresas. Estão em investigação suspeitas de violação de regras urbanísticas, poluição com perigo comum, corrupção, fraude na obtenção de subsídios e branqueamento de capitais. A inspeção já tinha analisado denúncias anteriores sobre obras e aterros em área da REN, em Fátima, promovidas por empresas do grupo, e remetido os resultados ao Ministério Público. Em 2024, a Quercus denunciou a construção de um aterro e pavilhões para fabrico de betão sem licenciamento em área protegida, alertando para riscos de contaminação do aquífero do Maciço Calcário Estremenho. A Câmara de Ourém afirma ter embargado a obra três vezes. Fonte.
  • “’A Vila de Água de Pau [Lagoa, S. Miguel-Açores] é a única no país com quatro fontenários a correr 24 horas por dia há mais de cem anos’, destacou Roberto Medeiros, reforçando o valor estratégico e histórico deste património hídrico onde ainda se podem observar espécies como os tritões.” Diário da Lagoa, março 2026.
  • O glaciar Hektoria, na Antártida, recuou o Kms em apenas dois meses, com quase metade dela a desmoronar-se em tempo recorde. A rápida ruptura foi causada por uma superfície rochosa plana subaquática que permitiu que o glaciar flutuasse repentinamente e se fraturasse por baixo. Dados de satélite e sísmicos captaram a dramática reação em cadeia quase em tempo real. As descobertas levantam preocupações de que glaciares muito maiores possam um dia desmoronar-se com a mesma rapidez. Fonte.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO

COLONIALISMO CLIMÁTICO SOCIAL: O NOVO CERCO DO IMPÉRIO
Sammy Attoh, Dissident Voice. Trad. O’Lima.


Invocação

A crise climática não é uma tempestade neutra. Não é um acidente climático infeliz ou uma reviravolta trágica do destino. É o mais recente campo de batalha do império — um cerco lento e sufocante no qual o Sul Global paga pela poluição do Norte Global. A subida do nível do mar, as florestas em chamas, o colapso das colheitas e o desaparecimento de espécies não são convulsões aleatórias da natureza. São as consequências previsíveis de séculos de exploração, ganância industrial e arrogância colonial.

A atmosfera tornou-se a nova fronteira da conquista. O colonialismo climático é o cerco silencioso da nossa era — uma guerra sem declarações, uma violência sem balas, uma dominação mascarada de diplomacia.

Fundamentos históricos

A história é antiga, embora o cenário tenha mudado.

Antigamente, as potências coloniais saquearam o ouro da África, as especiarias da Ásia e a prata das Américas. Dividiram continentes, escravizaram povos e extraíram riquezas com precisão implacável. Hoje, saqueiam a atmosfera com o mesmo direito. A revolução industrial — alimentada pelo carvão, pelo petróleo e pelo trabalho escravo — enriqueceu a Europa e a América do Norte, ao mesmo tempo que lançou as bases para o colapso planetário.

As nações que construíram impérios com base na escravatura, na extração de recursos e na hierarquia racial dominam agora as negociações climáticas. Elas ditam os termos da sobrevivência, ao mesmo tempo que se recusam a assumir a responsabilidade. Antes, as instituições de Bretton Woods impunham dívidas; agora, as cimeiras climáticas impõem atrasos. A linguagem mudou, mas a lógica permanece a mesma: os poderosos decidem, os impotentes sofrem.

A retórica verde tornou-se o novo dialeto imperial — polido, diplomático e profundamente desonesto.

Incêndio contemporâneo

A crise climática é global, mas os seus encargos são violentamente desiguais. As inundações no Paquistão deslocaram milhões de pessoas, embora o país contribua com menos de 1% das emissões globais. As secas no Sahel devastam os agricultores que nunca lucraram com os combustíveis fósseis. As nações insulares do Pacífico enfrentam a subida do nível do mar que ameaça a sua própria existência, embora não tenham sido elas que provocaram o aumento das emissões.

Moçambique, as Ilhas Dominicanas, as Filipinas reconstruem-se repetidamente após tempestades intensificadas pelo aquecimento dos oceanos. Entretanto, o Norte Global continua a queimar petróleo, expandir oleodutos e subsidiar empresas de combustíveis fósseis. As promessas de «financiamento climático» permanecem por cumprir ou são reembaladas como empréstimos — aprofundando a dívida que estrangula o Sul. O Sul é instruído a adaptar-se com migalhas, enquanto o Norte se banqueteia com os lucros da destruição.

A face humana

Por trás de cada estatística há uma vida, uma família, uma nação lutando para respirar. Crianças em Bangladesh atravessam as águas da enchente que engoliram as suas escolas. Mães no Quénia veem as colheitas murcharem sob uma seca implacável. Pescadores nas Caraíbas regressam com as redes vazias enquanto os recifes de coral branqueiam e morrem. Famílias nos Andes veem os glaciares — as suas torres de água ancestrais — derreterem até se tornarem memória. Os pobres não emitem o carbono que causa a catástrofe, mas respiram as suas consequências. O colonialismo climático garante que os menos responsáveis sejam os que mais sofrem. Isto não é azar. É injustiça.

Polémica profética

O império adapta-se. As suas ferramentas evoluem, mas as suas intenções permanecem inalteradas. Os mercados de carbono mercantilizam a atmosfera, transformando o céu numa bolsa de valores. O greenwashing disfarça a destruição como sustentabilidade, permitindo que as empresas poluam enquanto se apresentam como salvadoras. A dívida climática obriga as nações a contrair empréstimos por desastres que não causaram, aprofundando a dependência. Os esquemas de geoengenharia ameaçam transformar o céu numa arma, permitindo que nações poderosas manipulem o clima sob o pretexto de «inovação». A apropriação de terras para a «energia verde» desloca comunidades indígenas, repetindo o mais antigo roteiro colonial. O ciclo repete-se com precisão assustadora: extração → poluição → catástrofe → dívida → controlo. O colonialismo climático não tem a ver com salvar o planeta. Tem a ver com preservar os privilégios do império.

Manchetes

“Os pobres respiram o fumo, os poderosos acumulam lucros”

“Marés em alta, desigualdade em alta”

“Colonialismo climático: o novo cerco do império”

Bênção final

Que a crise climática não seja considerada um destino, mas uma injustiça. Que os poluidores sejam responsabilizados e as vítimas sejam indemnizadas. Que a atmosfera seja libertada da mercantilização e a terra da extração. Que todos os seres humanos respirem ar puro, bebam água pura e comam alimentos cultivados em solo fértil. Que o mundo desperte para a verdade de que a justiça climática não é caridade — é reparação, restauração e o renascimento da dignidade global.

Que a justiça corra como as águas e que toda a terra respire novamente.