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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO

COLONIALISMO CLIMÁTICO SOCIAL: O NOVO CERCO DO IMPÉRIO
Sammy Attoh, Dissident Voice. Trad. O’Lima.


Invocação

A crise climática não é uma tempestade neutra. Não é um acidente climático infeliz ou uma reviravolta trágica do destino. É o mais recente campo de batalha do império — um cerco lento e sufocante no qual o Sul Global paga pela poluição do Norte Global. A subida do nível do mar, as florestas em chamas, o colapso das colheitas e o desaparecimento de espécies não são convulsões aleatórias da natureza. São as consequências previsíveis de séculos de exploração, ganância industrial e arrogância colonial.

A atmosfera tornou-se a nova fronteira da conquista. O colonialismo climático é o cerco silencioso da nossa era — uma guerra sem declarações, uma violência sem balas, uma dominação mascarada de diplomacia.

Fundamentos históricos

A história é antiga, embora o cenário tenha mudado.

Antigamente, as potências coloniais saquearam o ouro da África, as especiarias da Ásia e a prata das Américas. Dividiram continentes, escravizaram povos e extraíram riquezas com precisão implacável. Hoje, saqueiam a atmosfera com o mesmo direito. A revolução industrial — alimentada pelo carvão, pelo petróleo e pelo trabalho escravo — enriqueceu a Europa e a América do Norte, ao mesmo tempo que lançou as bases para o colapso planetário.

As nações que construíram impérios com base na escravatura, na extração de recursos e na hierarquia racial dominam agora as negociações climáticas. Elas ditam os termos da sobrevivência, ao mesmo tempo que se recusam a assumir a responsabilidade. Antes, as instituições de Bretton Woods impunham dívidas; agora, as cimeiras climáticas impõem atrasos. A linguagem mudou, mas a lógica permanece a mesma: os poderosos decidem, os impotentes sofrem.

A retórica verde tornou-se o novo dialeto imperial — polido, diplomático e profundamente desonesto.

Incêndio contemporâneo

A crise climática é global, mas os seus encargos são violentamente desiguais. As inundações no Paquistão deslocaram milhões de pessoas, embora o país contribua com menos de 1% das emissões globais. As secas no Sahel devastam os agricultores que nunca lucraram com os combustíveis fósseis. As nações insulares do Pacífico enfrentam a subida do nível do mar que ameaça a sua própria existência, embora não tenham sido elas que provocaram o aumento das emissões.

Moçambique, as Ilhas Dominicanas, as Filipinas reconstruem-se repetidamente após tempestades intensificadas pelo aquecimento dos oceanos. Entretanto, o Norte Global continua a queimar petróleo, expandir oleodutos e subsidiar empresas de combustíveis fósseis. As promessas de «financiamento climático» permanecem por cumprir ou são reembaladas como empréstimos — aprofundando a dívida que estrangula o Sul. O Sul é instruído a adaptar-se com migalhas, enquanto o Norte se banqueteia com os lucros da destruição.

A face humana

Por trás de cada estatística há uma vida, uma família, uma nação lutando para respirar. Crianças em Bangladesh atravessam as águas da enchente que engoliram as suas escolas. Mães no Quénia veem as colheitas murcharem sob uma seca implacável. Pescadores nas Caraíbas regressam com as redes vazias enquanto os recifes de coral branqueiam e morrem. Famílias nos Andes veem os glaciares — as suas torres de água ancestrais — derreterem até se tornarem memória. Os pobres não emitem o carbono que causa a catástrofe, mas respiram as suas consequências. O colonialismo climático garante que os menos responsáveis sejam os que mais sofrem. Isto não é azar. É injustiça.

Polémica profética

O império adapta-se. As suas ferramentas evoluem, mas as suas intenções permanecem inalteradas. Os mercados de carbono mercantilizam a atmosfera, transformando o céu numa bolsa de valores. O greenwashing disfarça a destruição como sustentabilidade, permitindo que as empresas poluam enquanto se apresentam como salvadoras. A dívida climática obriga as nações a contrair empréstimos por desastres que não causaram, aprofundando a dependência. Os esquemas de geoengenharia ameaçam transformar o céu numa arma, permitindo que nações poderosas manipulem o clima sob o pretexto de «inovação». A apropriação de terras para a «energia verde» desloca comunidades indígenas, repetindo o mais antigo roteiro colonial. O ciclo repete-se com precisão assustadora: extração → poluição → catástrofe → dívida → controlo. O colonialismo climático não tem a ver com salvar o planeta. Tem a ver com preservar os privilégios do império.

Manchetes

“Os pobres respiram o fumo, os poderosos acumulam lucros”

“Marés em alta, desigualdade em alta”

“Colonialismo climático: o novo cerco do império”

Bênção final

Que a crise climática não seja considerada um destino, mas uma injustiça. Que os poluidores sejam responsabilizados e as vítimas sejam indemnizadas. Que a atmosfera seja libertada da mercantilização e a terra da extração. Que todos os seres humanos respirem ar puro, bebam água pura e comam alimentos cultivados em solo fértil. Que o mundo desperte para a verdade de que a justiça climática não é caridade — é reparação, restauração e o renascimento da dignidade global.

Que a justiça corra como as águas e que toda a terra respire novamente.

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