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sábado, 3 de outubro de 2026

REFLEXÃO

COMO O SISTEMA VOLTA TROCOU A CIDADANIA AMBIENTAL POR UM NEGÓCIO DE INTERESSES PRIVADOS


Portugal atravessa um momento paradoxal na sua política de resíduos. Por um lado, pressionado pelas ambiciosas metas comunitárias, no âmbito da Diretiva (UE) 2019/904, o país vê-se obrigado a acelerar a transição para uma economia circular. Por outro, a resposta encontrada pelo poder político revela uma rendição preocupante: em vez de aprofundar a literacia ambiental e reforçar os sistemas públicos de recolha seletiva, optou-se por um mecanismo de depósito e reembolso que apela ao mais primitivo dos instintos humanos, a ilusão do ganho monetário imediato. O sistema “Volta”, sob a gestão da entidade privada SDR Portugal, é a materialização dessa escolha.

O Decreto-Lei n.º 78/2022, de 26 de setembro, criou o regime jurídico do sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas não reutilizáveis. A gestão foi concessionada a uma entidade gestora única, a SDR Portugal, uma sociedade de direito privado, sem fins lucrativos, mas composta exclusivamente pelos agentes económicos que colocam embalagens no mercado: produtores, distribuidores e retalhistas. Entre os associados fundadores encontram-se pesos-pesados como a Coca‑Cola Europacific Partners, a Unicer (Super Bock), a Sociedade Central de Cervejas, a Nestlé Waters, bem como as grandes superfícies: Jerónimo Martins (Pingo Doce), Sonae (Continente), Auchan e Lidl.

Ora, o traço definidor de qualquer sistema de responsabilidade alargada do produtor (RAP) é a separação clara entre quem financia e quem fiscaliza. No Volta, porém, os mesmos operadores que geram as embalagens são simultaneamente os donos da entidade que define as regras de operação, o valor do depósito (10 cêntimos por embalagem), a densidade da rede de recolha e a comunicação pública. Este entrelaçamento gera um conflito estrutural: os produtores têm todo o incentivo para calibrar o sistema de modo a maximizar o retorno de imagem, minimizar os custos logísticos e capturar as embalagens de maior valor material, deixando o restante fluxo de resíduos e os seus custos, para a esfera pública.

Acresce que as embalagens sujeitas a depósito são precisamente as mais valiosas no mercado de recicláveis (PET e latas de alumínio). Ao retirá-las do circuito municipal, o sistema priva os serviços públicos de uma fonte de receita crítica, ao mesmo tempo que os mesmos acionistas da SDR Portugal beneficiam do valor material recuperado e das margens geradas pelas embalagens não devolvidas (depósitos não reclamados), que permanecem na esfera privada.

Durante décadas, a política ambiental portuguesa assentou, ainda que com insuficiências, num paradigma de cidadania responsável, educar para separar, internalizar a norma social da reciclagem e criar infraestruturas de proximidade (ecopontos, recolha porta‑a‑porta). Esse caminho, lento mas estruturante, está a ser abandonado em favor de um modelo que reduz o cidadão a um agente económico que só age perante um estímulo financeiro. A psicologia ambiental designa este fenómeno de efeito de crowding out: recompensas extrínsecas (os 10 cêntimos) podem minar a motivação intrínseca para comportamentos pró‑ambientais, sobretudo quando o incentivo é percebido como controlador e de baixo valor.

A realidade diária já confirma os receios. Multiplicam‑se as imagens de pessoas a vasculhar papeleiras em busca de garrafas com o símbolo “Volta”, numa espécie de economia informal de sobrevivência que degrada o espaço público. Ecopontos amarelos aparecem tombados, abertos à força, não por um ato de vandalismo gratuito, mas para aceder apenas às embalagens com depósito. Em termos sociológicos, o sistema está a criar uma nova categoria de “catadores urbanos”, empurrados para uma atividade que o discurso oficial disfarça de “reciclagem cidadã”, mas que não passa de uma resposta a um incentivo pecuniário desenhado para servir metas estatísticas.

É precisamente este o retrato de um país que desistiu da literacia ambiental. Em vez de aprofundar o conhecimento sobre os ciclos dos materiais, as interações ecológicas e a responsabilidade intergeracional, o Estado português sinaliza que o gesto ecológico só tem valor se for monetizado. Trocámos a cidadania por dez cêntimos. E, ao fazê‑lo, deixamos aos nossos filhos um legado de degradação do espaço público e de esvaziamento do sentido coletivo da sustentabilidade.

Um dos argumentos mais frágeis dos defensores do Volta é o de que o sistema complementará os esforços existentes, sem prejudicar a recolha seletiva tradicional. A evidência científica e a experiência comparada mostram o contrário. Vários estudos sobre sistemas de depósito em países como a Alemanha ou a Croácia revelam que a introdução de um SDR provoca um efeito de desvio, os cidadãos que antes separavam todas as embalagens no contentor amarelo passam a separar apenas as que possuem depósito, depositando as restantes (embalagens de iogurte, cuvetes e garrafões de PET, plásticos mistos) no lixo indiferenciado. Este efeito de seleção adversa diminui a qualidade e a quantidade dos materiais recolhidos nos ecopontos, comprometendo as metas de reciclagem globais e aumentando os custos de triagem.

Em Portugal, onde a recolha porta‑a‑porta e os sistemas de contentorização pública ainda lutam para atingir coberturas e taxas de captura satisfatórias, o Volta ameaça canibalizar exatamente o fluxo mais nobre que lhes conferia viabilidade económica. O resultado previsível será uma deterioração dos indicadores de reciclagem dos plásticos não‑depósito, precisamente aqueles que mais necessitam de redes estruturadas de recolha. A pressão para o cumprimento das metas comunitárias de reciclagem poderá, paradoxalmente, ser comprometida por uma medida que aparenta acelerá‑la.

Um dos aspetos menos discutidos na esfera pública é a dimensão financeira da transferência de competências, ou da ausência dela. A Lei n.º 75/2013 (Regime Jurídico das Autarquias Locais) atribui aos municípios a competência para a gestão dos resíduos urbanos. Contudo, os municípios portugueses, fragmentados e de reação tardia, não se coligaram a tempo de reivindicar ou de não permitir a operação do sistema de depósito como um serviço público municipal ou intermunicipal. Essa inação permitiu que a gestão fosse capturada pelo consórcio privado, privando as autarquias de receitas anuais que, nalguns casos, ascendem a milhões de euros precisamente aquelas que financiavam a recolha e o tratamento de outros fluxos, nomeadamente os resíduos indiferenciados.

A verdade incómoda é que os custos de recolha e tratamento dos resíduos urbanos não diminuirão com o Volta. As câmaras continuarão a suportar a recolha indiferenciada, as suas rotas, a sua triagem e embaçamento e o combate ao littering, agravado pelo comportamento oportunista que o sistema incentiva. Já as receitas da venda de materiais recicláveis sofrerão um colapso no segmento das embalagens de bebidas. O diferencial será pago por cada munícipe, via tarifas de resíduos, num fenómeno que os economistas ambientais descrevem como socialização de custos e privatização de benefícios.

Em suma, na minha modesta visão o sistema Volta não é um instrumento neutro de política ambiental, é uma escolha de sociedade. Ao colocar o depósito reembolsável nas mãos de um consórcio dominado pelos embaladores e pela grande distribuição, o Estado português transferiu um bem público, “a gestão de um fluxo estratégico de resíduos”, para entidades que não têm qualquer mandato democrático, mas que controlam a narrativa da “economia circular” enquanto expandem a sua influência. Ao reduzir o gesto ecológico a uma transação monetária de dez cêntimos, renunciou‑se ao projeto de formar cidadãos ambientalmente literatos, capazes de agir por dever e consciência, e não apenas por conveniência.

Sociologicamente, o que está em curso é uma regressão normativa, um recuo da interiorização de valores ambientais coletivos para um estado de heteronomia, em que o comportamento correto só ocorre perante um estímulo externo. O país que se orgulhava de ter transformado a reciclagem num hábito quotidiano arrisca‑se agora a ver as suas aldeias, vilas e cidades pontuadas por ecopontos vandalizados e por uma nova legião de “catadores” que, longe de qualquer preocupação ambiental, respondem apenas à lei do ganho imediato.

As metas europeias serão provavelmente atingidas no papel, contabilizando as toneladas que passam pelas máquinas de devolução instaladas nos hipermercados. Mas a pergunta que ninguém ousa fazer é: “a que custo social, territorial e moral?”

Quando a pressão dos grandes grupos embaladores se sobrepõe à pedagogia pública, quando o apelo ao instinto substitui a educação, e quando os municípios são remetidos ao papel de meros pagadores de um sistema que não controlam, o resultado não é um país mais sustentável. É um país que escolheu, deliberadamente, desistir de si mesmo.

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