VOLTA, ELES FATURAM MAIS
O Lidl lançou o programa «Volta», que promete devolver dinheiro ao consumidor por cada embalagem comprada e depositada nas suas lojas. À primeira vista, parece uma iniciativa amiga do consumidor e do ambiente: incentivar a reciclagem com um pequeno reembolso. Mas, olhando com mais atenção, há muito mais truque do que virtude.
Primeiro: o greenwashing. Em vez de reduzir as embalagens descartáveis, filmes multicamada difíceis de reciclar ou os produtos de utilização única, a loja empurra a responsabilidade para o consumidor. É o velho truque: recicla tu, que eu continuo a produzir lixo. A pegada ambiental mantém-se, mas a imagem da marca fica mais verde.
Segundo: um programa feito à medida da própria loja. O «Volta» não é um sistema universal: só aceita embalagens vendidas no Lidl ou de marcas parceiras. Ou seja, exclui grande parte do que realmente consumimos. O logótipo do programa serve mais para filtrar do que para incluir. O Ambiente agradece pouco; a fidelização à marca agradece muito.
Terceiro: a devolução é uma fidelização forçada. A loja admite acrescentar dez cêntimos ao preço do produto para depois os ‘devolver’ — não em dinheiro, mas num vale de compras, utilizável apenas através de uma aplicação exclusiva. É menos incentivo ambiental e mais mecanismo de retenção de clientes.
Quarto: processo pouco prático e muito frustrante. Guardar embalagens sujas, transportá-las até à loja, lidar com máquinas que recusam embalagens ligeiramente amassadas ou com códigos de barras ligeiramente danificados, para no fim receber dez cêntimos por unidade — mais parece penitência do que incentivo. E quando a máquina avaria, o que não é raro, o stresse e o tempo perdido em filas é um custo real que ninguém devolve.
Quinto: o paradoxo logístico. Deslocar-se de carro para depositar meia dúzia de embalagens pode gerar mais emissões de CO₂ do que a recolha porta-a-porta pelos sistemas municipais. Ao criar um sistema paralelo, o «Volta» arrisca prejudicar a adesão aos circuitos públicos, sem trazer ganhos ambientais líquidos.
Sexto: a desigualdade social. Consumidores com menor poder de compra sentir-se-ão pressionados a acumular embalagens para obter pequenos reembolsos, enquanto os de maiores rendimentos poderão ignorar o programa. E quem vive longe de um Lidl fica automaticamente excluído. Não é um sistema para todos, é um sistema para quem já está dentro.
O ecoponto de rua — esse herói anónimo da reciclagem portuguesa — continua a ser mais eficiente, mais inclusivo e com menor pegada carbónica. Pode não dar vales de desconto, mas pelo menos não exige carregar lixo no porta-bagagens. Faz apenas aquilo que deve: recolher para reciclar. Por isso, continuo fiel a ele. Pode não ser bonito nem moderno, mas funciona — e não precisa de marketing para provar isso.
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