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sábado, 11 de abril de 2026

REFLEXÃO

VOLTA, ELES FATURAM MAIS


O Lidl lançou o programa «Volta», que promete devolver dinheiro ao consumidor por cada embalagem comprada e depositada nas suas lojas. À primeira vista, parece uma iniciativa amiga do consumidor e do ambiente: incentivar a reciclagem com um pequeno reembolso. Mas, olhando com mais atenção, há muito mais truque do que virtude.

Primeiro: o greenwashing. Em vez de reduzir as embalagens descartáveis, filmes multicamada difíceis de reciclar ou os produtos de utilização única, a loja empurra a responsabilidade para o consumidor. É o velho truque: recicla tu, que eu continuo a produzir lixo. A pegada ambiental mantém-se, mas a imagem da marca fica mais verde.

Segundo: um programa feito à medida da própria loja. O «Volta» não é um sistema universal: só aceita embalagens vendidas no Lidl ou de marcas parceiras. Ou seja, exclui grande parte do que realmente consumimos. O logótipo do programa serve mais para filtrar do que para incluir. O Ambiente agradece pouco; a fidelização à marca agradece muito.

Terceiro: a devolução é uma fidelização forçada. A loja admite acrescentar dez cêntimos ao preço do produto para depois os ‘devolver’ — não em dinheiro, mas num vale de compras, utilizável apenas através de uma aplicação exclusiva. É menos incentivo ambiental e mais mecanismo de retenção de clientes.

Quarto: processo pouco prático e muito frustrante. Guardar embalagens sujas, transportá-las até à loja, lidar com máquinas que recusam embalagens ligeiramente amassadas ou com códigos de barras ligeiramente danificados, para no fim receber dez cêntimos por unidade — mais parece penitência do que incentivo. E quando a máquina avaria, o que não é raro, o stresse e o tempo perdido em filas é um custo real que ninguém devolve.

Quinto: o paradoxo logístico. Deslocar-se de carro para depositar meia dúzia de embalagens pode gerar mais emissões de CO₂ do que a recolha porta-a-porta pelos sistemas municipais. Ao criar um sistema paralelo, o «Volta» arrisca prejudicar a adesão aos circuitos públicos, sem trazer ganhos ambientais líquidos.

Sexto: a desigualdade social. Consumidores com menor poder de compra sentir-se-ão pressionados a acumular embalagens para obter pequenos reembolsos, enquanto os de maiores rendimentos poderão ignorar o programa. E quem vive longe de um Lidl fica automaticamente excluído. Não é um sistema para todos, é um sistema para quem já está dentro.

O ecoponto de rua — esse herói anónimo da reciclagem portuguesa — continua a ser mais eficiente, mais inclusivo e com menor pegada carbónica. Pode não dar vales de desconto, mas pelo menos não exige carregar lixo no porta-bagagens. Faz apenas aquilo que deve: recolher para reciclar. Por isso, continuo fiel a ele. Pode não ser bonito nem moderno, mas funciona — e não precisa de marketing para provar isso.

1 comentário:

OLima disse...

"Por cada garrafa ou lata, tiram-te 10 cêntimos do bolso.
Faz as contas comigo:
Num simples pack de seis águas, pagas mais 60 cêntimos à cabeça.
Levas dois packs? São mais 1,20 € que ficam retidos.
Dinheiro teu.
Dizem que é pela ecologia, mas a verdade é que acabaste de ser recrutado como operário não pago das grandes superfícies.
Primeiro, vão entulhar-te a casa.
Estás proibido de esmagar as garrafas.
Vais ter sacos enormes a ocupar a cozinha, porque a máquina “inteligente” recusa plástico comprimido.
Depois, vais carregar lixo e perder tempo em filas humilhantes, só para mendigar o dinheiro que já era teu.
E o golpe de mestre?
O reembolso vem num pedaço de papel.
Tiram-te dinheiro vivo da carteira e devolvem-te um talão que te obriga a gastar o dinheiro na loja deles.
O teu dinheiro deixou de ser livre.
Agora é um vale de consumo refém do supermercado.
Milhões de euros em depósitos nunca vão ser devolvidos.
Entre talões perdidos e pessoas que desistem das filas, o sistema lucra com o teu cansaço.
Isto não é salvar o planeta.
É usar o teu esforço, o teu espaço e o teu dinheiro para financiar a logística dos outros.
Vais mesmo aceitar trabalhar de graça?"

Pedro Filipe https://www.facebook.com/pedro.miguel.5661/posts/pfbid03XEPRaC8xChyJqwWPLUpJurtFeWHAazWdLp78Lh5ZndoNvNwFyxr2GA3nBz6mdjbl