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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ESPINHO: FOZ ESTAGNADA É PERIGO PARA A SAÚDE PÚBLICA

  • A ribeira do Mocho, em Espinho, chega ao verão praticamente sem caudal. A água estagna antes de alcançar o mar, criando uma pequena lagoa sem renovação. Apesar disso, há quem insista em nadar ali, atraído pela temperatura amena daquela massa de água estagnada. O problema é que essa lagoa representa um risco sério para a saúde pública. As autoridades sanitárias conhecem bem o perigo. Os autarcas, eleitos para proteger a população, têm a obrigação de o saber também. No entanto, parecem mais preocupados com aquilo que rende boas selfies. É por isso que continuam a gastar uma pipa de massa na lavragem e massagem da praia da Baía — mesmo depois de perder a Bandeira Azul devido a falhas na manutenção da rede de esgotos. Enquanto isso, a lagoa da ribeira do Mocho permanece ali, discreta mas perigosa, à espera que alguém assuma responsabilidades. Não cremos que o fecho da foz desta ribeira tenha sido provocado com o objetivo de impedir a saída e descida de águas com menor qualidade para sul, o que poderia comprometer a existência da única bandeira azul do concelho naa Praia da Seca.
  • Barcelos: Presidente, vereadores e assessores com estacionamento à borla na Câmara. Estacionamento público “vedado” à população é ocupado na totalidade por eleitos e funcionários. Fonte.

BICO CALADO

  • Falar da Palestina tem um preço. Carlos Narciso fala-nos de casos de artistas, músicos, jornalistas independentes e criadores de conteúdos ocidentais que decidiram utilizar a sua visibilidade para denunciar a política de Israel e a destruição de Gaza. Alguns sofreram consequências concretas. Outros denunciam censura ou intimidação. Quando se juntam as histórias, torna-se difícil negar que estamos diante de um padrão: Sarah FriedlandTadhg HickeyNicole JenesIyah MayJulia Mai... 
  • O Reino Unido amplia discretamente uma base secreta de espionagem perto do Irão. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

MARCELO, O DEMOCRATA TARDIO
Jorge Rocha, Ventos semeados.


Nasceu filho de um subsecretário de Salazar que se tornaria governador de Moçambique nomeado por Caetano, e recebeu o nome do próprio Marcello, padrinho de casamento dos pais e quase padrinho seu, tão íntimo que lhe emprestou até o nome — pequenas duas letras de diferença guardam a distância exata entre a devoção e a discrição.

Cresceu, por isso, menos convertido do que ajustado: a democracia chegou-lhe depois, como um fato bem cortado que se veste com naturalidade quando o anterior já não serve. Mesmo não faltando testemunhos contraditórios quanto à sua condição de fura-greves nalgumas das lutas académicas do período de estertor do regime.

O 25 de Abril encontra-o no Expresso na apressada reciclagem de quem sempre soube nadar em qualquer maré, desde que o levasse a algum lado visível.

Já catedrático, sentou-se no júri que chumbou Saldanha Sanches na agregação de 2007, um "ajuste de contas" segundo o próprio visado; Marcelo nega hoje ter votado contra, mas recusa-se, "por delicadeza", a dizer mais. É a delicadeza mais conveniente da política portuguesa, a que protege sempre quem a invoca.

Décadas antes, tinha inventado para Paulo Portas um jantar inteiro em Belém, com ementa e vichyssoise incluídas, jantar que nunca existira — episódio que Portas descobriu ao telefone, praguejando, e que ficou na história como o "facto político" por excelência: aquele que se torna verdade só por ser repetido com convicção suficiente.

Jurou não liderar o PSD "nem que Cristo descesse à Terra", em 1996, e liderou-o um mês depois; jurou deixar a política de vez ao sair de Belém, e o país aguarda, cético, para ver se desta vez o milagre falha a tempo. Entretanto, provou uma tese académica com a própria carreira: que a televisão pode levar quem quiser à Presidência, bastam selfies certas e beijos suficientes na plateia certa.

Foi com esse beneplácito televisivo que pareceu só assistir, em silêncio cúmplice, ou distração genuína, ao parágrafo que Lucília Gago diz ter escrito sozinha, mas Marcelo conheceu antes do próprio António Costa — coincidência que a história ainda não resolveu inteiramente a favor de ninguém, e que devolveu aos socialistas a oposição e ao Chega a antecâmara do poder.

Fica o saldo, esse sim indiscutível: com atos, silêncios e intrigas bem cronometradas, ajudou a dar à extrema-direita portuguesa a dimensão que hoje tem. Ele fica para a pequena História como o democrata da última hora que chegou sempre a tempo de mudar de lado, menos o de evitar as consequências.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

ALEMANHA: RIOS SECOS ESPOLETAM DISPUTA ENTRE A ENGENHARIA E A RESTAURAÇÃO

O leito parcialmente seco do rio Reno em Düsseldorf, no oeste da Alemanha, a 28 de julho.
  • Uma forte onda de calor fez com que os principais rios alemães, incluindo o Reno, o Danúbio e o Elba,atingissem níveis extremamente baixos, expondo bancos de areia interrompendo o transporte de carga na maior economia da Europa. Esta crise desencadeou um conflito político sobre a forma como a Alemanha deve responder. Duas estratégias opostas emergem: o Ministro dos Transportes, Steffen Bilger (CDU/CSU) propõe o aprofundamento dos canais e o desenvolvimento de navios de calado reduzido. Como solução a curto prazo, levantou a proibição do transporte de camiões aos domingos para aliviar os estrangulamentos no transporte marítimo. Por outro lado, o Ministro do Ambiente, Carsten Schneider (SPD) defende a restauração dos rios a um estado mais natural, nomeadamente através da criação de braços sinuosos nos rios, zonas húmidas e planícies de inundação que retêm água. Fonte.
Foto: AFP/Getty Images.
  • Cuba enfrenta apagões devastadores em todo o país, à medida que o bloqueio petrolífero imposto pelos EUA estrangula o abastecimento de combustível. Mas esta crise poderá também estar a acelerar uma revolução da energia limpa apoiada pela China, que tem vindo a desenrolar-se discretamente nesta nação caribenha. Cuba está atualmente a concretizar uma das revoluções solares mais rápidas do planeta, com a ajuda da China. As importações de painéis solares e baterias chineses dispararam ao longo do último ano e, com o investimento chinês, Cuba construiu dezenas de parques solares. Fonte.
  • O Tribunal Constitucional da África do Sul bloqueou a exploração offshore de petróleo e gás liderada pela Shell ao longo da Costa Selvagem do país. Fonte
  • Mais um título que nos baralha. Querem ver que os meios aéreos tornaram os fogos mais fortes?

BICO CALADO

Foto: 
Eric Gay/AP
  • “André Ventura foi apanhado a mentir. Decidiu simular que trabalhava e fez um video aldrabado, dizendo que ninguém trabalhava no Parlamento. Questionado por uma jornalista, que lhe lembrou que existem outros locais onde os deputados trabalham, decidiu agora afirmar que não estava ninguém nas lideranças parlamentares. Para vos provar que ele bateu à porta do corredor apenas para aldrabar, decidi mostrar-vos como funciona o espaço destinado as lideranças parlamentares.” José Carlos Barbosa.
  • O estudo vergonhoso da entidade reguladora (ERSE) que defende que o governo de Luís Montenegro não deve intervir para permitir à Galp e outras petrolíferas continuarem a obter lucros enormes e a distribuir dividendos milionários aos acionistas à custa da espoliação dos consumidores. Eugénio Rosa.
  • Quercus exige pagamento do IMI das barragens.
  • O jornal catalão «La Directa», enfrenta uma ação judicial movida pela Agência Espanhola de Proteção de Dados por ter publicado detalhes sobre quatro agentes da polícia à paisana que se tinham infiltrado em movimentos sociais e políticos em Valência e na Catalunha. A agência alega que a publicação violou as leis de privacidade e exige a remoção da informação, bem como uma multa que pode ir até aos 7 000 euros. A La Directa e os seus apoiantes defendem que a investigação constituiu um exercício legítimo da liberdade de imprensa e uma função democrática essencial — a responsabilização das autoridades públicas. Consideram que o processo relativo à proteção de dados é uma «ação judicial estratégica contra a participação pública» (SLAPP), destinada a intimidar e censurar os media. Fonte.
  • Quando alguns lóbis de direita de duvidosa reputação publicaram relatórios ridículos alegando que o movimento pela independência da Escócia era financiado pelo Irão, o assunto foi amplamente divulgado pelos media. O governo do Reino Unido encobre informações fidedignas dos serviços secretos franceses sobre a interferência israelita contra a independência — e ninguém diz nada. Craig Murray.
  • “Acho que deveriam ser levados a cabo assassinatos seletivos em Gaza, eliminando entre 30 e 40 pessoas todas as noites. Não apenas aqueles que representam uma ameaça imediata; há pessoas lá que não merecem viver. Não deviam viver. Nem sequer são pessoas”. Itamar Ben Gvir.
  • «Um governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos»: Quase 60 altos responsáveis da administração Trump com um património de 100 milhões de dólares ou mais. Fonte.
  • O jornalista assassinado Danny Casolaro tinha um bilhete no sapato sobre o envolvimento da CIA no tráfico de droga e no terrorismo no Médio Oriente. Jeremy Kuzmarov, CovertAction Magazine.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

FRANÇA: INVASÃO DE MEDUSAS ENCERRA CENTRAL NUCLEAR

  • A central francesa de Gravelines, da EDF, situada perto de Dunquerque, foi obrigada a encerrar na segunda-feira para evitar uma catástrofe, depois de ter sido invadida por milhões de medusas ( Asian Moon Jellyfish) A invasão de medusas ocorre exatamente um ano depois de outro enxame destas criaturas ter levado à paralisação da central nuclear francesa durante dois dias. Fonte.
  • A Alemanha enfrenta calor recorde, secas, incêndios e milhares de mortes relacionadas com as altas temperaturas, mas a ação climática perdeu força. Movimentos como Last Generation praticamente cessaram os protestos, e o Fridays for Future luta para mobilizar pessoas. Apesar dos impactos graves — rios quase secos, perdas agrícolas e riscos para idosos — o governo é criticado por respostas tímidas e medidas apenas paliativas. Fonte.

BICO CALADO

  • Há 3 anos que a Comissão Europeia anda a negociar secretamente um acordo de partilha de dados com a polícia e os serviços de segurança de Israel, apesar de os seus próprios juristas o terem declarado ilegal. O acordo permitiria a transferência em massa de dados pessoais sensíveis — incluindo dados biométricos, informação genética, localização e opiniões políticas — dos sistemas da UE (através da Europol) para as autoridades israelitas, incluindo o Shin Bet. Este acordo alarga um acordo de 2018 que excluía explicitamente os dados pessoais e os territórios palestinianos ocupados. Em 2022, o Serviço Jurídico do Conselho concluiu que a Comissão tinha excedido o seu mandato, violado os tratados da UE e não tinha consultado o grupo de trabalho competente. Os juristas alertaram que a aplicação do acordo aos territórios ocupados desde 1967 violaria o direito à autodeterminação palestiniana e o direito internacional. A Comissão tomou nota destas objeções e, mesmo assim, prosseguiu com as negociações. Embora formalmente suspensas no final de 2022, os responsáveis da Comissão realizaram pelo menos sete reuniões com diplomatas israelitas entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026. A Europol recebeu pelo menos cinco delegações israelitas entre agosto de 2024 e março de 2026, ao mesmo tempo que se autodescrevia como um «observador passivo». A Comissão recusou-se a comentar o estado do processo ou se tinha dado resposta às objeções jurídicas. Os críticos alertam que os dados poderão ser utilizados como informação de inteligência para apoiar ataques contra palestinianos, tendo um jurista considerado «profundamente preocupante» a partilha de dados com um Estado «acusado de forma credível de genocídio». Fonte.
  • A MEO, que em 2025 facturou cerca de 2,8 mil milhões de euros, gerou 947 milhões de EBITDA (Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização), viu as receitas crescerem e, ainda assim, conseguiu do Governo o estatuto de “empresa em reestruturação” para facilitar um programa que prevê a saída de cerca de 1.200 trabalhadores. Fonte.
  • O capitalismo ensina-nos a culpar-nos uns aos outros pelos abusos sistémicos. Caitlin Johnstone, Substack.
  • «Há 35055 bebés órfãos em Gaza. O sangue deles vai assombrar-vos.» Ayman Odeh, membro do Knesset israelita, foi retirado à força do pódio depois de ter chamado ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu «um assassino em série da paz». Fonte.
  • Mário Ferreira é o dono da TVI, da CNN Portugal e do jornal Nascer do Sol. Precisamente o grupo de comunicação que iniciou há semanas atrás uma perseguição mediática intensa, à moda da antiga PIDE, ao ministro da Administração Interna, Luís Neves. E não é por acaso… Foi precisamente Luís Neves enquanto director nacional da PJ e os seus homens que caçaram Mário Ferreira por fraude fiscal qualificada num processo relacionado com a compra e venda do navio Atlântida. O empresário comprou aos estaleiros de Viana o Atlântida por 8,5 milhões e de seguida vendeu o navio a uma empresa da Noruega por 17 milhões, numa trasacção feita através de uma off-shore registada em Malta para fugir aos impostos devidos ao Estado Português.O Ministério Público pediu a condenação do empresário a uma pena de prisão e apontou uma alegada fuga aos impostos de 1 milhão de euros na venda do navio Atlântida. O processo está em julgamento no Tribunal de São João Novo, no Porto, a aguardar decisão final da justiça. (…)” António Dias. Via Manuel Santos.
  • Todos os anos, 15 de agosto é festa rija em Água de Pau, Açores. Confunde-nos ver a imagem da padroeira local carregar ao ombro argolas de notas de dinheiro apanhadas durante o trajeto da procissão.

LEITURAS MARGINAIS

A GEOGRAFIA INVISÍVEL DO PODER ISRAELITA
Lorenzo Maria Pacini, Strategic Culture Foundation. Rev. O’Lima.


O mapa ocultado pelos servidores e a ilusão das fronteiras digitais

A 10 de junho de 2025, dois executivos da Microsoft França compareceram perante uma comissão de inquérito do Senado francês encarregada de analisar os contratos públicos e a soberania digital. A audiência decorreu no habitual tom tranquilizador até que surgiu uma pergunta que alterou completamente o ambiente: poderia a empresa garantir que os dados dos cidadãos franceses — mesmo que alojados em servidores localizados em França — nunca seriam transferidos para uma autoridade estrangeira sem o consentimento do governo francês? Anton Carniaux, diretor de assuntos públicos e jurídicos da filial, respondeu sob juramento com seis palavras: «Não, não posso garantir isso.»

Essa declaração desmontou anos de retórica empresarial construída em torno de expressões como «regiões de nuvem locais», «infraestrutura fiável» e «residência de dados». A França poderia alojar os servidores, os cidadãos franceses poderiam gerar os dados e as instituições francesas poderiam pagar pelo serviço — mas a autoridade final poderia ainda residir noutro local. A comissão chegou a uma conclusão clara. A Microsoft não conseguiu garantir a soberania sobre os dados que alojava. Essa troca de palavras revela uma realidade com consequências específicas, incluindo — e talvez acima de tudo — para a Ásia Ocidental: a localização física dos dados já não coincide com a sua localização política.

A geografia clássica do poder ensina que a soberania ocupa o território. O petróleo pertence ao Estado sob cujo solo se encontra; os portos estão sob a autoridade do país em cujas margens se situam; os oleodutos seguem as fronteiras que atravessam. Nesta tradição, o poder é interpretado na superfície da Terra. Os dados seguem uma geografia diferente.

Um registo médico pode ser criado em Riade, armazenado no Bahrein, processado por um algoritmo treinado nos EUA e gerido através de uma filial europeia. Que Estado o controla verdadeiramente? A resposta convencional atribui os dados ao indivíduo, à empresa ou ao governo que os gerou. Na prática, a propriedade importa menos do que o controlo. O poder real pertence a quem for capaz de aceder, processar, transferir, restringir ou obrigar legalmente à divulgação da informação.

Este princípio é afirmado de forma inequívoca pelo próprio Departamento de Justiça dos EUA. Ao abrigo da Lei CLOUD, os prestadores de serviços sujeitos à jurisdição dos EUA podem ser obrigados a entregar dados através de processos judiciais válidos, «independentemente do local onde a empresa os armazene». Washington apresenta a lei como uma ferramenta legítima para a obtenção de provas eletrónicas. A nível geopolítico, permite que a jurisdição dos EUA se estenda através do controlo corporativo, alcançando informações armazenadas muito além do território norte-americano. O novo mapa do poder é traçado não só por fronteiras, cabos e centros de dados, mas também por sedes sociais, chaves de encriptação, obrigações legais, administradores de sistemas e pelos Estados capazes de os obrigar a cooperar.

Em toda a Ásia Ocidental, os governos estão a investir fortemente na computação em nuvem, na inteligência artificial, na identidade digital, nas cidades inteligentes e nos serviços públicos baseados em dados. A Arábia Saudita pretende tornar-se uma economia de dados líder; os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Bahrein, Omã e a Turquia estão a expandir as suas capacidades de gestão e governação da informação. A capacidade física também se concentra em alguns centros regionais: uma avaliação de 2025 do Banco Mundial contabilizou trinta e nove centros de dados nos Emirados Árabes Unidos e trinta e três na Arábia Saudita — números inferiores à média dos países de rendimento elevado (oitenta e um), mas significativamente superiores aos do resto da região.

A transição é mensurável. De acordo com a União Internacional das Telecomunicações, em 2024, 70% da população dos Estados árabes utilizava a Internet, em comparação com 68% a nível global. A média regional, no entanto, esconde uma diferença de 82% entre as economias menos conectadas e as mais conectadas, enquanto as assinaturas de banda larga fixa continuam a ser menos de metade do valor global. A expansão digital é rápida e, ao mesmo tempo, profundamente desigual.

O panorama dos fornecedores, por outro lado, é altamente concentrado. De acordo com o Synergy Research Group, no terceiro trimestre de 2025, a Amazon, a Microsoft e a Google representavam 63% dos gastos empresariais globais em infraestruturas na nuvem, num mercado trimestral que tinha crescido de 68 mil milhões de dólares para 107 mil milhões de dólares apenas dois anos antes. Os países que estão a construir rapidamente os seus próprios sistemas digitais estão a entrar num mercado já estruturado em torno da dependência. Um governo pode exigir que os dados dos cidadãos permaneçam dentro das fronteiras nacionais, ao mesmo tempo que confia a uma empresa estrangeira a gestão da plataforma, a atualização do software, o fornecimento do modelo de IA ou o controlo de camadas críticas do sistema. Isto cria a aparência de soberania sem a sua essência.

A localização de dados responde apenas a uma pergunta: onde é que a informação está armazenada? Deixa, porém, em aberto as questões cruciais. Quem controla as chaves de encriptação? Quem atualiza o software? Quem pode suspender o serviço? As leis de que país regem o prestador de serviços? Quem pode obrigar à sua divulgação e quem possui o poder computacional necessário para extrair valor estratégico da mesma? Manter os servidores dentro das fronteiras nacionais não os coloca sob controlo nacional.

A Palestina e os dados como arma

Em nenhum outro lugar as consequências desta geografia oculta são mais evidentes do que na Palestina ocupada. A guerra moderna depende cada vez mais da recolha, do cruzamento de dados e da interpretação de enormes quantidades de informação. Registos telefónicos, identificadores biométricos, comunicações interceptadas, históricos de localização e imagens aéreas podem ser transformados em informações militares através da computação em nuvem e da inteligência artificial.

A utilização combinada de produtos da Microsoft e da OpenAI pelas forças armadas israelitas, em março de 2024, tinha atingido um nível quase duzentas vezes superior ao da semana anterior a 7 de outubro de 2023. Os dados armazenados nos servidores da Microsoft mais do que duplicaram, ultrapassando os 13,6 petabytes em julho de 2024, enquanto a utilização dos servidores cresceu quase dois terços durante os primeiros dois meses da guerra. A plataforma Azure terá sido utilizada para compilar, transcrever e traduzir informações obtidas através da vigilância em massa, tendo algumas dessas informações sido cruzadas com sistemas de aquisição de alvos.

Em setembro de 2025, a Microsoft desativou determinados serviços de nuvem e IA prestados a uma unidade militar israelita, depois de uma auditoria interna ter confirmado que os seus produtos estavam a ser utilizados para a vigilância em massa de palestinianos; os dados em questão estavam armazenados nas instalações de nuvem da empresa localizadas na Europa. Esta cadeia de acontecimentos é reveladora: informação recolhida na Palestina, processada por uma unidade militar israelita, alojada na Europa e, em última instância, sujeita a uma decisão tomada por uma empresa norte-americana. A limitação desta medida é igualmente reveladora. Como observou Hossam Nasr, um antigo funcionário da Microsoft e defensor da campanha «No Azure for Apartheid», a maior parte do contrato com o aparelho militar israelita permaneceu intacta. As grandes empresas tecnológicas ocupam agora posições outrora reservadas quase exclusivamente aos Estados: fornecem capacidades utilizadas em operações secretas, decidem se um cliente mantém o acesso, investigam alegados abusos e impõem restrições além-fronteiras.

Israel admite a importância estratégica do controlo sobre a nuvem. O projeto Nimbus, adjudicado à Google e à Amazon Web Services, foi concebido para fornecer aos ministérios israelitas e às agências públicas relacionadas uma infraestrutura de nuvem abrangente. O contrato, no valor de 1,2 mil milhões de dólares, exigia infraestrutura local e foi apresentado como um meio de manter a informação governamental dentro das fronteiras do país. Os principais fornecedores, no entanto, continuam a ser empresas norte-americanas, integradas nos sistemas jurídicos e tecnológicos dos EUA.

O Nimbus personifica o paradoxo central da soberania dos dados: um governo pode exigir que a informação permaneça dentro do seu território, ao mesmo tempo que confia o armazenamento, a computação e a gestão da plataforma a empresas sediadas noutro local. Israel negociou arduamente para reduzir esta vulnerabilidade. A maioria dos países da Ásia Ocidental carece do poder de negociação de Israel, da sua integração tecnológica com Washington ou da sua capacidade de exercer pressão sobre as grandes empresas norte-americanas. Neste contexto, a soberania é também uma função do poder de negociação.

A disputa em torno dos dados é, em última análise, uma luta por três direitos estratégicos. O primeiro é o direito de recolher: governos, plataformas digitais, operadores de telecomunicações, bancos e serviços de segurança acumulam informações sobre identidade, deslocações, comunicações, saúde, consumo e comportamento. O segundo é o direito de processar: os dados brutos só adquirem valor estratégico se o interveniente possuir os chips, os algoritmos, as plataformas na nuvem e o pessoal qualificado necessários para os processar. O terceiro é o direito de obrigar: a autoridade, reivindicada por governos e tribunais, para obrigar os fornecedores a divulgar, reter, remover ou restringir informações.

A concentração económica subjacente a estes três direitos está a intensificar-se. A UNCTAD relata que as cinco maiores multinacionais digitais aumentaram a sua quota combinada das vendas do setor de 21% em 2017 para 48% em 2025, enquanto a sua quota de ativos subiu de 17% para 35%. O controlo sobre os dados e a computação está a acumular-se mais rapidamente do que a infraestrutura se está a expandir. Um país que controla apenas o primeiro direito é um fornecedor de matérias-primas digitais; aquele que controla a recolha de dados e a computação pode tornar-se uma potência digital; um interveniente capaz de exercer os três direitos possui algo próximo da soberania digital.

Os interesses económicos estão a aumentar rapidamente. A UNCTAD estima que o mercado global de inteligência artificial cresça de 189 mil milhões de dólares em 2023 para 4 800 mil milhões de dólares em 2033 — um aumento de vinte e cinco vezes ao longo de uma década. As regiões que fornecem dados, mas carecem da infraestrutura informática e da propriedade intelectual necessárias para os processar, correm o risco de reter apenas uma parte mínima desse valor. No século XX, o valor estratégico residia não só na extração de petróleo, mas também na sua refinação, transporte, fixação de preços e financiamento. No século XXI, a mesma distinção aplica-se aos dados: a Ásia Ocidental pode gerar a matéria-prima, mas o poder decisivo reside nas «refinarias de dados» – ou seja, nas plataformas na nuvem, nos modelos de IA e nos sistemas informáticos que convertem a informação em lucro, inteligência e influência geopolítica.

Para além do colonialismo digital

A solução não é o isolamento tecnológico. Nenhum Estado da Ásia Ocidental consegue, por si só, reproduzir todas as camadas da pilha tecnológica global, e substituir a dependência dos fornecedores norte-americanos por uma dependência total de plataformas chinesas ou de outras origens apenas deslocaria o centro de gravidade externo. O risco a evitar é que a libertação da dependência do petróleo se transforme em colonialismo digital: um cenário em que as empresas da região geram os dados, enquanto as plataformas estrangeiras detêm a infraestrutura, extraem o seu valor e mantêm o controlo sobre o acesso. O que é necessário é uma autonomia tecnológica distribuída.

Nesta base, é possível estabelecer uma ordem concreta de prioridades. A aquisição de serviços na nuvem deve ser tratada como uma decisão de segurança nacional, e não como uma atividade rotineira de TI: os contratos devem especificar quem controla as chaves de encriptação, como serão tratados os pedidos legais estrangeiros e se os dados e as aplicações podem ser migrados para outro fornecedor. Os dados relativos à saúde, à defesa, à biometria, ao sistema judicial e ao registo civil exigem uma proteção mais rigorosa do que a informação comercial comum. Os governos devem investir em capacidades regionais de nuvem interoperáveis, em normas abertas, em auditorias independentes e na capacidade de manter serviços essenciais caso um fornecedor estrangeiro revogue o acesso. Acima de tudo, a soberania dos dados deve ir além do armazenamento para abranger toda a cadeia: recolha, classificação, processamento, acesso, partilha e eliminação.

Há mais de um século que a importância geopolítica da Ásia Ocidental tem sido definida por campos petrolíferos, oleodutos, portos, estreitos e bases militares. Essas estruturas continuam a ser fundamentais, mas outra rede estratégica espalhou-se por cima delas — uma rede composta por bases de dados, contratos de serviços na nuvem, jurisdições legais, sistemas de identificação, modelos de IA e autorizações invisíveis. O controlo sobre os dados confere aos Estados e às empresas o poder de mapear as sociedades, interpretar os seus comportamentos, antecipar as suas mudanças políticas e económicas e traduzir esse conhecimento em ação.

Os Estados da Ásia Ocidental estão a construir rapidamente a infraestrutura digital sobre a qual assentarão as suas economias e instituições públicas. Grande parte da autoridade que rege esses sistemas, no entanto, permanece fora da região. No século XXI, o controlo sobre um território dependerá cada vez mais do controlo sobre os dados que revelam a sua população, as suas instituições e os seus recursos.

A questão colocada ao Senado francês em junho de 2025 estende-se claramente muito além da França: quem não consegue garantir para onde os seus dados irão parar não governa plenamente o seu próprio território. E com esses dados, pode-se fazer literalmente tudo.

domingo, 16 de agosto de 2026

AÇORES: LAGOA LIDERA RECOLHA SELETIVA DE RESÍDUOS URBANOS POR HABITANTE


Lagoa é o município regional com maior quantidade de resíduos urbanos recolhidos seletivamente por habitante. Em 2024, foram 371 kg por habitante, um valor acima da média dos Açores (210 kg) e da nacional (122 kg). Fonte.

BICO CALADO

  • As ‘pedras da fome’ são rochas no leito de rios da Europa Central, especialmente no Elba, Danúbio e Reno, que só ficam visíveis quando o nível da água desce drasticamente durante períodos de seca extrema. Ao longo dos séculos, comunidades gravaram nelas datas e mensagens para assinalar anos de fome, dificuldades económicas e níveis historicamente baixos dos rios. Brenda Haas, DW.
  • A tentativa dos EUA de dominar a América Latina avança a todo o vapor. O presidente colombiano Abelardo de La Espriella é o mais recente líder latino-americano a aderir à coligação de extrema-direita apoiada pelos EUA que procura controlar o Hemisfério Ocidental. Arturo Dominguez, MediumE agora a besta quer declarar o Estreito de Ormuz território dos EUA.
  • As reclamações dos consumidores contra empresas financeiras dispararam nos últimos três anos, e essa tendência levou o Gabinete de Proteção Financeira do Consumidor (CFPB) do presidente Donald Trump a tomar medidas, mas não contra as empresas acusadas de cobrar comissões abusivas, de não resolverem disputas relativas a cobranças de cartões de crédito, de tentarem cobrar dívidas indevidamente e de outras infrações. Em vez disso, o CFPB anunciou que deixará de publicar as «narrativas» das queixas — a descrição escrita pelo queixoso da sua interação com a empresa financeira — ou visualizações de dados na base de dados de queixas, ocultando do público os comentários dos consumidores sobre as práticas comerciais das instituições. Cá por Portugal, o primeiro ministro Luís Montenegro afirmou: “O país tem de ter a coragem de falar mais das grandes coisas que estamos a fazer bem e falar menos das pequenas coisas que, por ventura, não corram tão bem”. 
Fotografia de Elliot Adams (Equipa pela Paz da VFP na Coreia) no exterior da base do Exército dos EUA, Camp Humphreys. Trinta autocarros cheios de polícias estão alinhados na extremidade esquerda da fotografia. 13 de agosto de 2026.
  • Na Coreia do Sul, estão a decorrer ações de protesto a nível nacional nas bases norte-americanas espalhadas por todo o país, no âmbito da campanha «US Out of Korea», organizada por uma vasta coligação de grupos pacifistas. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

BOLIEIRO, CERTAMENTE UM DOS MAIS BARROCOS POLÍTICOS PORTUGUESES DA ATUALIDADE *

Imagem criada por IA

José Manuel Bolieiro, certamente um dos mais barrocos políticos portugueses da atualidade, aderiu, mais ou menos recentemente, à tendência do pequeno vídeo político.

Inaugura-se uma estrada? Lá temos o videozinho singelo do modesto governante a calcorrear o alcatrão ainda fumegante, como se tivesse acabado de descobrir a engenharia do pavimento.

Entrega-se um apartamento? Surge o político engravatado, qual agente da Remax, a abrir portas, mostrar assoalhadas e explicar, com a solenidade de quem apresenta uma penthouse em Manhattan, as virtudes da nova habitação.

Lança-se um navio? Temos o político em pose de almirante, ao comando da nave, rodeado da mais alta tecnologia, provavelmente a imaginar que está a preparar a próxima expedição de Vasco da Gama à Índia.

E, finalmente, chegamos ao peripatético aperto de mão ao robô chinês da mais alta tecnologia, numa espécie de encontro entre o futuro da humanidade e o passado da comunicação política.

A arte do spot político é antiga e não tem, evidentemente, nada de novo. Desde o alvor da televisão nos Estados Unidos que políticos de todas as gamas e feitios perceberam que, para além de governar, era preciso saber aparecer. Obama, aliás, fez disso uma arte. De Trump a Bolsonaro, de Macron a Zelensky, muitos foram os políticos que transformaram a presença online numa extensão quase permanente da sua atividade política.

O problema, portanto, não está no meio. Está no conteúdo.

Porque a câmara é inclemente. E reveladora. Amplifica tiques, expõe maneirismos, denuncia hesitações, torna visíveis pequenas fragilidades que, no discurso escrito ou num palco preparado, poderiam passar despercebidas. A linguagem, o ritmo, o tom de voz, o sotaque, a pose e até a maneira de caminhar e de gesticular acabam por construir uma personagem que talvez o próprio político não tivesse intenção de revelar.

Assistir a alguns destes vídeos é, assim, um pouco como assistir a uma telenovela portuguesa dos anos oitenta, em que os atores pareciam todos amadores e os diálogos saíam lentos e atabalhoados, como crianças com pânico de palco, numa sucessão de momentos de involuntária vergonha alheia.

E talvez seja esse o problema maior desta nova política de proximidade digital. A política deixou progressivamente de ser a arte de convencer alguém de que se tem uma ideia para governar para se transformar numa espécie de concurso permanente de popularidade, em que os candidatos a políticos se submetem voluntariamente ao ridículo público em troca de um punhado de likes, e uma mão cheia partilhas e comentários, mesmo que de ódio.

O problema não é a tecnologia, mas uma questão de escala e, sobretudo, de substância.

Que um candidato à presidência de uma grande nação recorra às redes sociais para chegar a milhões de eleitores que jamais poderia cumprimentar pessoalmente é perfeitamente compreensível. Que os populistas demagogos se alimentem do vazio viral dos cinco segundos de atenção do ecrã digital é natural. Mas que um político regional, responsável por governar uma comunidade onde, literalmente, conhece ou pode encontrar muitos dos seus eleitores, transforme o pequeno vídeo de propaganda numa metodologia recorrente de comunicação política é outra coisa. É a substituição da política pela representação da política. É travestir a razão e a natureza da política. Talvez fosse isso que Bolieiro se estava a referir quando apelidou o seu governo de transformista.

E esse é o paradoxo maior. Quanto mais a política tenta parecer próxima, espontânea e humana através destas encenações digitais, mais artificial se torna.

Governar não é inaugurar estradas diante de uma câmara, abrir portas de apartamentos ou apertar a mão de robôs em bem iluminados vídeos de tik-tok. Governar é tomar decisões, resolver problemas, assumir responsabilidades e, sobretudo, ter alguma coisa para dizer.

E quando não se tem nada para dizer, talvez a melhor comunicação política continue a ser a mais antiga de todas: ficar calado.

Caros políticos dos Açores deixem-se de versões b do homem da Regisconta e trabalhem. O povo agradece e vão ver que tem melhor resultado nas urnas…

*O título é da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3


sábado, 15 de agosto de 2026

ESPANHA: NUCLEAR DE ALMARAZ VAI FUNCIONAR ATÉ 2030

  • A central nuclear de Almaraz, perto da fronteira portuguesa, vai poder funcionar pelo menos até 2030. O governo espanhol utiliza a crise no Médio Oriente como desculpa, citando a volatilidade do preço do gás como uma das razões mais significativas para esta decisão. O pedido de prolongamento do funcionamento das instalações tinha sido feito já em outubro de 2025 pelas empresas Iberdrola, Endesa e Naturgy. A Quercus e a Zero alertam para eventuais impactos negativos em caso de avaria/acidente com fuga de radiotividade. Fonte.
  • O Reino Unido está a pagar valores recorde pela importação de eletricidade da Europa este verão, devido a uma combinação de seca, ondas de calor e baixa produção eólica interna. Em maio, o país pagou £439 milhões por importações de energia, um aumento de 54% em relação a abril. A fatura total para os primeiros cinco meses do ano já atinge £1,7 mil milhões, e deve superar os £3,6 mil milhões de 2025. Fonte.
  • As faíscas provenientes da rede elétrica envelhecida da Grécia são responsáveis por uma percentagem desproporcional dos incêndios florestais mais destrutivos do país, de acordo com dados preliminares da Direção de Investigação de Crimes de Fogo Posto da Grécia e com as provas recolhidas em investigações recentes sobre incêndios. Fonte.
  • A Roménia encerrou a sua única central nuclear devido aos níveis de água extremamente baixos no rio Danúbio, causados por um período prolongado de calor que tem afetado grande parte da Europa. Não se prevê que a central de Cernavodă, onde dois reatores produzem cerca de 20 % da eletricidade da Roménia, volte a entrar em funcionamento nos próximos 10 dias. Fonte.
  • A África do Sul quer expandir a exploração de petróleo e gás offshore para impulsionar a economia, mas enfrenta forte oposição de comunidades costeiras, pescadores e organizações ambientais. Dois processos judiciais — contra a Shell e a TotalEnergies — podem travar os projetos por falhas nas consultas públicas e riscos ambientais. Críticos alertam que a exploração ameaça ecossistemas marinhos, meios de subsistência locais e compromete metas climáticas, enquanto o governo insiste que é essencial para o desenvolvimento económico. Fonte.
  • A Quercus vai apresentar queixa formal à Comissão Europeia sobre aprovação de projeto de citrinos em Alcácer do Sal. A Quercus alega que este projeto agroflorestal intensivo é altamente consumidor de água, numa região já sob severo stress hídrico, pondo em risco a sustentabilidade dos recursos hídricos e a biodiversidade local. Além disso, considera que a decisão foi feita contra a vontade expressa de praticamente todos os participantes na consulta pública, o que põe em causa a credibilidade dos processos de participação. A Quercus pondera ainda recorrer aos tribunais administrativos nacionais para solicitar a suspensão imediata da eficácia da DIA emitida e travar qualquer arranque ou execução de trabalhos no terreno. Fonte.
  • Consulta pública até 10 de setembro: Processo de Licenciamento Único Ambiental - Navigator Paper Figueira, SA (507747313), em Lavos, Figueira da Foz. Isto até parece sigiloso. Não é um processo público no sentido rigoroso do termo, será só para ‘peritos’ na matéria e não cremos que o façam pro bono. Mas ler a lista de resíduos produzidos (vd pp 49-53 do Formulário PL ) é de por os olhos em bico. É assim que se facilita a lavagem verde de uma empresa que abusa dos truques de tipo ‘greenwashing’.
  • O Ministério da Economia, a SCOF II Investments, a Entidade Nacional da Reserva Agrícola deram luz verde à construção de um hotel rural na Quinta Solar da Pousada, em Freguim, Amarante, promovido pela SCOF II Investments, empresa imobiliária local. Fonte.

BICO CALADO

Foto: Ronen Tivony/NurPhoto/Shutterstock
  • Os democratas de ambas as câmaras do Congresso juntaram-se aos defensores dos direitos humanos para denunciar veementemente os planos da Agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) de adquirir à Compliant Technologies 20 milhões de dólares em «luvas capazes de aplicar choques elétricos dolorosos». Fonte.
  • As dez maiores empresas farmacêuticas do mundo registaram cerca de 300 mil milhões de dólares em lucros durante o primeiro semestre de 2026, enquanto milhões de pessoas nos EUA — o país com os preços dos medicamentos mais elevados do mundo racionavam as doses para poderem pagar os seus medicamentos. Fonte.
  • A administração Trump enfraquece de forma permanente a lei «concebida para impedir os criminosos de branquear dinheiro», após pressão de Elon Musk. «Trump está a facilitar que os cartéis, os criminosos e os adversários dos EUA abusem do nosso sistema financeiro», afirmou o senador Andy Kim. «Porque está nas mãos de bilionários como Elon Musk, que poderão vir a beneficiar com isso.» Fonte.
  • O Royal College of Nursing alerta para o facto de haver enfermeiros a desmaiar e a ser hospitalizados devido a locais de trabalho com temperaturas elevadas. Fonte.
  • Jacinto investe três milhões em unidade para produzir veículos de defesa. FonteFábrica em Esmoriz.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

APENAS 15% DOS PORTUGUESES TÊM ACESSO ADEQUADO A ESPAÇOS VERDES URBANOS

Parque urbano de Paços de Ferreira

Segundo o relatório Lancet Countdown 2026as ondas de calor aumentaram 318% nos últimos 10 anos. Perante este agravamento, quer em termos de assiduidade, quer de intensidade, é urgente deixar de encarar os espaços verdes urbanos como um mero elemento paisagístico e sim como uma infraestrutura essencial de adaptação climática, capaz de arrefecer as cidades e proteger a saúde de quem nelas vive. De acordo com um estudo da Comissão Europeia em parceria com a Universidade de Copenhaga, abrangendo 862 cidades europeias, nenhum município português ultrapassa os 15% de população com acesso adequado a espaços verdes urbanos. Coimbra surge como o melhor exemplo nacional, ainda assim entre apenas 8% e 15%, enquanto Porto, Viseu e Paredes se situam num patamar intermédio, entre 4% e 8%. O panorama agrava-se nas maiores cidades: Lisboa não ultrapassa os 4%, e Setúbal e Faro registam os piores resultados do país, com menos de 2% da população a beneficiar de proximidade adequada à natureza. Estes números colocam Portugal entre os países europeus com pior desempenho neste indicador.
Seguindo o referencial 3-30-300 que cada pessoa consiga ver pelo menos 3 árvores a partir de sua casa; que cada bairro tenha, no mínimo, 30% de cobertura de copa arbórea; e que nenhum residente esteja a mais de 300 metros de distância de um parque ou espaço verde de qualidade.

Em relação a Portugal, o documento da Lancet destaca as normas nos riscos relacionados com o calor e os seus impactos na saúde, as alterações nos riscos de doenças infeciosas sensíveis ao clima e aumento do perigo de incêndios florestais, demonstrando como as alterações climáticas estão a moldar os riscos para a saúde em diferentes partes do país, ao mesmo tempo que considera as alterações ambientais a longo prazo, como a perda de cobertura arbórea.


PORTO RICO: CRESCIMENTO DO TURISMO DE CRUZEIROS TESTA CAPACIDADE DE ACOLHIMENTO EM CIDADE HISTÓRICA

Brandon Cruz González/Centro de Periodismo Investigativo
  • O rápido crescimento do turismo de cruzeiros na Velha San Juan, em Porto Rico, está a sobrecarregar as infraestruturas da cidade histórica e a alimentar a frustração dos residentes. Há cada vez mais engarrafamentos, as ruas de calçada degradam-se e os residentes queixam-se da baixa pressão da água quando os navios de cruzeiro estão a ser abastecidos. A cidade também carece de casas de banho públicas suficientes e de forças de segurança adequadas para gerir as multidões. Embora o governo promova ativamente a indústria dos cruzeiros - 30,8 milhões de dólares foram atribuídos em incentivos às companhias de cruzeiros entre 2023 e 2025 -, o impacto económico é considerado superficial, uma vez que os passageiros costumam comer e beber a bordo. Este crescimento está a transformar a Velha San Juan de um bairro vivo num «parque temático flutuante». Muitos estabelecimentos que serviam os residentes, como mercearias e consultórios médicos, foram substituídos por lojas de lembranças, restaurantes e bares. Isto contribuiu para um declínio de 32% na população do núcleo urbano da Velha San Juan entre 2010 e 2020. Os residentes queixam-se de que o governo impôs este modelo turístico sem participação pública nem estudos rigorosos para determinar a capacidade da cidade histórica. Um projeto proposto para um hotel-casino da Hard Rock também é alvo de críticas por não se adequar à arquitetura histórica de Velha San Juan. Fonte.
  • As autoridades da Gronelândia obrigaram uma empresa petrolífera norte-americana ligada a Donald Trump a adiar a perfuração de poços no território Ártico, contrariando as afirmações do enviado do presidente dos EUA de que os norte-americanos poderiam estar a extrair petróleo bruto já no próximo ano. Fonte.
Foto: Ezra Acayan/Getty Images
  • Dias de intensa chuva provocaram inundações generalizadas em Manila, a capital das Filipinas, e encheram os cursos de água da cidade de detritos. Está em curso uma operação de limpeza em grande escala, que envolve equipas de trabalhadores e maquinaria pesada. Fonte.
  • Não é verdade que os painéis solares deixam de funcionar ao fim de 25 anos. Um novo estudo liderada por Ebrar Özkalay na Universidade de Ciências Aplicadas e Artes do Sul da Suíça revela que o fim da garantia não significa o fim da vida útil e que o desempenho na prática pode prolongar-se por décadas. Fonte.

REFLEXÃO

SE JÁ ESTÁS COM MEDO, ESPERA SÓ ATÉ OUVIRES FALAR DO PROJETO MANHATTAN 2.0
Kristen Thomason, BNG. Rev. O’Lima

O presidente dos EUA, Donald Trump, ladeado por diretores executivos do setor da energia nuclear e responsáveis governamentais, discursa durante um anúncio sobre a inovação nuclear americana no Salão Oval da Casa Branca, a 24 de julho de 2026, em Washington, DC. Trump está a assinar várias ordens executivas que visam o setor da energia nuclear e que flexibilizam as regras relativas a novos reatores e às cadeias de abastecimento de combustível nuclear. (Foto de Eric Lee/Getty Images)

O “Projeto Manhattan 2.0” da administração Trump — um conjunto de decretos executivos emitidos entre 2025 e 2026 — acelera drasticamente o desenvolvimento de reatores nucleares para satisfazer as necessidades energéticas dos centros de dados de inteligência artificial das empresas tecnológicas, ao mesmo tempo que desmantela proteções de segurança, ambientais e regulamentares de longa data. Isto pode expor os trabalhadores e o público a riscos significativos de radiação e criar problemas de resíduos nucleares a longo prazo.

O Projeto Manhattan 2.0 e2xiste porque os gigantes da tecnologia (Amazon, Meta, Google, Microsoft) querem energia nuclear barata e abundante para alimentar centros de dados de IA em rápida expansão. A ONU prevê que estes centros dupliquem o consumo de electricidade e de água até 2030.

Ao assinar vários decretos executivos, Trump permitiu que empresas privadas construam reatores experimentais em terrenos federais, ignorando as normas ambientais e a supervisão da Comissão Reguladora Nuclear (NRC). O passo seguinte foi reestruturar a NRC e remover as normas de segurança para acelerar as aprovações, reduzir a revisão independente de segurança e enfraquecer os limites de exposição à radiação.

As novas regras questionam o consenso científico de que nenhum nível de radiação é completamente seguro. Estudos com centenas de milhares de trabalhadores da indústria nuclear mostram que mesmo a exposição a baixos níveis de radiação aumenta o risco de cancro. O Departamento de Energia (DOE) aumentou discretamente os limites de exposição permitidos para os trabalhadores e o público em geral, o que poderá elevar as taxas de cancro.

As startups selecionadas para o programa piloto vão testar Pequenos Reatores Modulares (SMRs) e novos combustíveis como o TRISO. A indústria afirma que estes combustíveis são seguros sem as estruturas de contenção tradicionais, mas as análises independentes mostram que podem sobreaquecer. Os SMR produzem resíduos nucleares mais reativos e de armazenamento mais difícil do que os reatores tradicionais.

Além disso, o Departamento de Energia (DOE) reduziu os requisitos de gestão de resíduos, condensando um manual de 59 páginas em 25 tópicos. A monitorização da contaminação das águas subterrâneas é agora opcional. Os limites de exposição pública foram aumentados, o equivalente a 50 radiografias adicionais por ano.

Devido à insuficiência de urânio, as empresas podem converter o plutónio das ogivas nucleares desmanteladas em combustível para os reatores. O plutónio é extremamente tóxico, difícil de manusear em segurança e atrativo para as armas — contudo, as normas de segurança foram flexibilizadas.

A administração Biden propusera anteriormente a expansão da capacidade nuclear com mais funcionários na NRC e processos de consentimento da comunidade, e não a desregulação. Outros países (Canadá, Finlândia, China) estão a expandir a energia nuclear, mas mantendo padrões rigorosos de segurança e ambientais.

Embora o Projeto Manhattan original tenha mantido os seus custos em segredo durante uma geração, o custo total para a saúde e o ambiente do «Projeto Manhattan 2.0» — alcançado através de uma onda imprudente de desregulamentação — poderá ser devastadoramente elevado.

BICO CALADO

  • “Não impedimos o Holocausto. Não impedimos o genocídio no Ruanda. Não impedimos o genocídio em Srebrenica. Temos de impedir o genocídio em Gaza. Já não há desculpas. Nenhuma.” A Presidente da Eslovénia, Nataša Pirc Musar, na ONU. Fonte.
  • Israel forneceu à CIA uma informação falsa sobre um plano iraniano para assassinar Donald Trump, com o objetivo de manipular a política externa dos EUA e prejudicar as relações cada vez mais estreitas de Trump com a Turquia. As autoridades turcas acreditam que a informação foi inventada para sabotar as negociações de Trump com o Irão e impedir a aquisição dos F-35 pela Turquia. Os EUA foram enganados. A Turquia ficou de mãos atadas. E Israel conseguiu o que queria. Fonte.
  • Em 13 de agosto de 1937, trabalhadores em greve foram massacrados na plantação de cana-de-açúcar Union Flacq, nas Maurícias. Os trabalhadores, na sua maioria indianos, das plantações de cana-de-açúcar da ilha — na altura uma colónia britânica —, tinham-se organizado para exigir melhores salários, e a polícia estava a ser utilizada para intimidar os trabalhadores e reprimir as greves. Fonte.
  • Um resgate de 2,5 mil milhões de dólares vai ser concedido à Rio Tinto, proprietária maioritária da Tomago Aluminium, pelo Governo australiano (primeiro-ministro Anthony Albanese) e pelo Governo de Nova Gales do Sul (primeiro-ministro Chris Minns). A Tomago consome mais de 10% de toda a rede elétrica de Nova Gales do Sul, o que a torna o maior consumidor individual de eletricidade do estado. A Rio Tinto, que registou recentemente um lucro líquido de 6,7 milhões de dólares americanos no semestre (um aumento de 47%), informou o governo de que a eletricidade de substituição a tarifas comerciais iria praticamente duplicar os custos energéticos da Tomago assim que o seu contrato anterior expirasse, ameaçando o encerramento e, com ele, 1 000 postos de trabalho diretos. Fonte.
Cisjordânia, Julho 2002
  • Se esta foto tivesse sido tirada na Ucrânia e o tanque fosse russo, esta criança seria chamada de herói e lutador da liberdade. Mas como a foto foi tirada na Palestina e o tanque é israelita, esta criança é chamada de terrorista.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

ESCÓCIA: AUTOCARROS ELÉTRICOS SUBSTITUEM AUTOCARROS A HIDROGÉNIO

  • A Câmara Municipal de Aberdeen, na Escócia, decidiu substituir a sua frota de 25 autocarros de dois andares a hidrogénio por autocarros elétricos, apenas cinco anos após a sua introdução. Os autocarros a hidrogénio estavam fora de serviço desde setembro de 2024 devido à disponibilidade limitada de hidrogénio. Esta decisão põe também fim à colaboração da Câmara com a BP, que teve início em 2022 como parte de uma estratégia para tornar Aberdeen num centro de hidrogénio do Reino Unido. A Câmara referiu que os fabricantes e operadores se estão a inclinar cada vez mais para os veículos elétricos e salientou que, embora o reabastecimento de hidrogénio seja mais rápido, a produção de hidrogénio limpo requer uma enorme quantidade de eletricidade verde. Os novos autocarros elétricos serão alimentados diretamente pela rede elétrica, e a Câmara planeia reforçar a infraestrutura urbana de carregamento elétrico. Fonte.
  • O executivo camarário de Azambuja invocou a falta de estudos e o princípio da precaução para rejeitar o estatuto de Potencial Interesse Nacional a investimento de dois mil milhões de euros para um mega centro de dados em Alcoentre. Vereadores do PSD recusaram participar na votação, acusando a maioria socialista de falta de transparência. Fonte.
  • Samuel Alito obteve até 2,9 milhões de dólares com ativos do setor do petróleo e do gás desde que integrou o Supremo Tribunal. Estas conclusões surgem num momento em que o Supremo Tribunal se prepara para analisar um processo no qual as petrolíferas Suncor Energy e Exxon solicitaram aos juízes que determinassem que a legislação federal impede os governos subnacionais de intentarem ações judiciais contra os produtores de combustíveis fósseis pelos efeitos de aquecimento global dos seus produtos. Fonte.
  • A Justiça Federal brasileira determinou que a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis suspenda em definitivo a oferta de 39 blocos exploratórios terrestres da oferta permanente do órgão regulador. As áreas estão localizadas nas bacias Potiguar, Sergipe-Alagoas e Espírito Santo, e algumas já foram concedidas. Fonte.
  • As costas iranianas, em particular na zona da Ilha de Qeshm, encontram-se agora cobertas por espessas camadas de petróleo bruto e alcatrãona sequência de repetidos derrames de petróleo provenientes de petroleiros danificados durante o conflito em curso no Estreito de Ormuz. Fonte.

REFLEXÃO

ISRAEL ESTÁ A PROVOCAR DELIBERADAMENTE INCÊNDIOS FLORESTAIS NO SUL DO LÍBANO
William Christou, The Guardian. Rev. O’Lima.
Guardian graphic. Source: Nasa FIRMS VIIRS data to 11.00 GMT 11 Aug 2026

Os bombeiros, os residentes e os grupos ambientalistas do sul do Líbano acusam as forças armadas israelitas de provocarem deliberadamente incêndios florestais na região. De acordo com as equipas de primeira intervenção, as forças armadas israelitas têm lançado sinalizadores e materiais incendiários, bem como disparado granadas de fósforo branco, provocando incêndios que devastam florestas, olivais e terras agrícolas. Estas ações terão continuado desde que o cessar-fogo com o Hezbollah entrou em vigor, a 17 de junho.

A situação tem sido agravada pelas restrições impostas aos esforços de combate aos incêndios. Num caso, os bombeiros foram obrigados a retirar-se quando um drone atingiu uma zona próxima enquanto tentavam extinguir um incêndio. Noutro caso, as equipas só receberam autorização para combater os incêndios em dois locais, deixando outras áreas a arder. Os grupos ambientalistas descrevem os incêndios como parte de um padrão de longa data de ataques israelitas contra o ambiente natural do Líbano, tendo um especialista referido que se trata de um «ecocídio» que ameaça a biodiversidade, degrada os ecossistemas e compromete os meios de subsistência locais.

BICO CALADO

Agosto 12, 2026. [Ramiz Dallah – Anadolu Agency]
  • As forças israelitas bombardearam edifícios no sul do Líbano na madrugada de ontem, incluindo uma escola, e atacaram um local utilizado para comemorar o Ashura, causando feridos, apesar das negociações de cessar-fogo em curso. Fonte.
  • "Uma semana após assumir o cargo de primeiro-ministro, Andy Burnham cumpriu a missão que lhe foi atribuída: intensificar o militarismo britânico e o apoio à Ucrânia na guerra por procuração da NATO contra a Rússia. Receber Zelensky a bordo do porta-aviões HMS Queen Elizabeth — e não em Downing Street — foi um sinal calculado de que Londres «não vai recuar». Burnham está a pressionar por um envolvimento mais profundo: mais mísseis antibalísticos, fabrico de drones, acesso ao sistema de guerra eletrónica «Stone Cloak» para ataques no interior da Rússia e treino naval para ataques no Mar Negro. A nomeação de Burnham foi um golpe do sistema — orquestrado depois de a demissão de John Healey ter forçado Starmer a sair por não ser suficientemente belicista. Com Healey como ministro das Finanças para financiar as despesas militares, os gestos populistas de Burnham (tarifas de autocarro mais baratas, cerveja) são meras manobras de diversão. A Grã-Bretanha é agora governada por um regime fantoche cujo objetivo é vender a guerra — conduzindo o país para um conflito total, enquanto ignora a crise do custo de vida no país." Finian Cunningham.