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domingo, 16 de agosto de 2026

LEITURAS MARGINAIS

BOLIEIRO, CERTAMENTE UM DOS MAIS BARROCOS POLÍTICOS PORTUGUESES DA ATUALIDADE *

Imagem criada por IA

José Manuel Bolieiro, certamente um dos mais barrocos políticos portugueses da atualidade, aderiu, mais ou menos recentemente, à tendência do pequeno vídeo político.

Inaugura-se uma estrada? Lá temos o videozinho singelo do modesto governante a calcorrear o alcatrão ainda fumegante, como se tivesse acabado de descobrir a engenharia do pavimento.

Entrega-se um apartamento? Surge o político engravatado, qual agente da Remax, a abrir portas, mostrar assoalhadas e explicar, com a solenidade de quem apresenta uma penthouse em Manhattan, as virtudes da nova habitação.

Lança-se um navio? Temos o político em pose de almirante, ao comando da nave, rodeado da mais alta tecnologia, provavelmente a imaginar que está a preparar a próxima expedição de Vasco da Gama à Índia.

E, finalmente, chegamos ao peripatético aperto de mão ao robô chinês da mais alta tecnologia, numa espécie de encontro entre o futuro da humanidade e o passado da comunicação política.

A arte do spot político é antiga e não tem, evidentemente, nada de novo. Desde o alvor da televisão nos Estados Unidos que políticos de todas as gamas e feitios perceberam que, para além de governar, era preciso saber aparecer. Obama, aliás, fez disso uma arte. De Trump a Bolsonaro, de Macron a Zelensky, muitos foram os políticos que transformaram a presença online numa extensão quase permanente da sua atividade política.

O problema, portanto, não está no meio. Está no conteúdo.

Porque a câmara é inclemente. E reveladora. Amplifica tiques, expõe maneirismos, denuncia hesitações, torna visíveis pequenas fragilidades que, no discurso escrito ou num palco preparado, poderiam passar despercebidas. A linguagem, o ritmo, o tom de voz, o sotaque, a pose e até a maneira de caminhar e de gesticular acabam por construir uma personagem que talvez o próprio político não tivesse intenção de revelar.

Assistir a alguns destes vídeos é, assim, um pouco como assistir a uma telenovela portuguesa dos anos oitenta, em que os atores pareciam todos amadores e os diálogos saíam lentos e atabalhoados, como crianças com pânico de palco, numa sucessão de momentos de involuntária vergonha alheia.

E talvez seja esse o problema maior desta nova política de proximidade digital. A política deixou progressivamente de ser a arte de convencer alguém de que se tem uma ideia para governar para se transformar numa espécie de concurso permanente de popularidade, em que os candidatos a políticos se submetem voluntariamente ao ridículo público em troca de um punhado de likes, e uma mão cheia partilhas e comentários, mesmo que de ódio.

O problema não é a tecnologia, mas uma questão de escala e, sobretudo, de substância.

Que um candidato à presidência de uma grande nação recorra às redes sociais para chegar a milhões de eleitores que jamais poderia cumprimentar pessoalmente é perfeitamente compreensível. Que os populistas demagogos se alimentem do vazio viral dos cinco segundos de atenção do ecrã digital é natural. Mas que um político regional, responsável por governar uma comunidade onde, literalmente, conhece ou pode encontrar muitos dos seus eleitores, transforme o pequeno vídeo de propaganda numa metodologia recorrente de comunicação política é outra coisa. É a substituição da política pela representação da política. É travestir a razão e a natureza da política. Talvez fosse isso que Bolieiro se estava a referir quando apelidou o seu governo de transformista.

E esse é o paradoxo maior. Quanto mais a política tenta parecer próxima, espontânea e humana através destas encenações digitais, mais artificial se torna.

Governar não é inaugurar estradas diante de uma câmara, abrir portas de apartamentos ou apertar a mão de robôs em bem iluminados vídeos de tik-tok. Governar é tomar decisões, resolver problemas, assumir responsabilidades e, sobretudo, ter alguma coisa para dizer.

E quando não se tem nada para dizer, talvez a melhor comunicação política continue a ser a mais antiga de todas: ficar calado.

Caros políticos dos Açores deixem-se de versões b do homem da Regisconta e trabalhem. O povo agradece e vão ver que tem melhor resultado nas urnas…

*O título é da responsabilidade do blogue Ambiente Ondas3


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