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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SINES: ALGA INVASORA PREJUDICA PESCA MAS HÁ POTENCIAL INDUSTRIAL

  • Uma invasão da alga Rugulopteryx okamurae está a perturbar a biodiversidade marinha e a subsistência dos pescadores na região de Sines. A comunidade científica defende que a solução passa pela valorização económica desta alga. Atualmente, já existem projetos em Portugal para aplicar estas algas no setor agrícola, sendo necessário lavá-las previamente para remover o sal e utilizá-las como fertilizante direto. Há ainda o potencial industrial da espécie para a extração de coloides, óleos e carragenas. Estas substâncias podem ser aproveitadas tanto para a produção de rações animais como para a indústria alimentar humana. Fonte.
  • A Quercus emitiu um parecer desfavorável à Unidade de Produção de Biometano de Abrigada, no concelho de Alenquer, juntando-se à contestação da autarquia e da população local. O projeto apresenta fragilidades ambientais significativas, nomeadamente ao nível dos recursos hídricos, solos, emissões, odores e impactes sobre as populações. O projeto prevê a afetação direta de uma linha de água de primeira ordem e do domínio hídrico de uma linha de água de segunda ordem, além de um consumo anual de 20.091 metros cúbicos de água da rede pública. A associação defende que o projeto seja reformulado de forma a eliminar a afetação das linhas de água e a privilegiar fontes alternativas de água não potável, como a reutilização de águas residuais tratadas. Fonte.
  • A petição pública que exige o fim do sistema Volta, de devolução de embalagens, reuniu 37 mil assinaturas. O documento aguarda discussão no parlamento. Fonte.
  • A União Europeia decidiu continuar a exportar grandes volumes de resíduos plásticos para a Turquia, apesar de a sua própria avaliação admitir problemas ambientais e regulamentares significativos na forma como estes resíduos são tratados. A Turquia é o maior importador de resíduos plásticos da UE, tendo exportado 510 000 toneladas em 2025 — mais de um terço de todas as exportações de resíduos plásticos da UE. Apenas cerca de 10% destes resíduos são realmente reciclados na Turquia, acabando a maior parte em aterros sanitários, mal gerida ou a verter para o ambiente. Fonte.

REFLEXÃO

DAS ÁGUAS BALNEARES


Agora que o verão que nunca verdadeiramente começou começa oficialmente a acabar, talvez seja tempo de fazer um breve balanço do que fica desta temporada estival.

Um dos indicadores mais reveladores, mais até do que essas multidões de turistas que também nunca chegaram, é a velha questão da qualidade das águas balneares. Um problema que nos atormenta ano após ano e que, este verão, voltou a revelar uma dimensão particularmente preocupante.

Das vinte e cinco águas balneares classificadas em São Miguel, apenas uma, as Piscinas Naturais da Lagoa, conseguiu apresentar uma folha limpa nas análises de qualidade da água. Se juntarmos as treze águas balneares não classificadas, mas igualmente sujeitas a análises periódicas, apenas mais uma, a Praia do Lombo Gordo, no Nordeste, conseguiu passar com distinção no teste do papel higiénico marítimo.

Ainda sem alguns dos resultados finais, que à data em que escrevo não foram publicados pelo competente departamento do Governo Regional, uma leitura preliminar dos dados disponíveis deixa-nos um quadro francamente inquietante.

Das trinta e oito localizações analisadas, sete apresentaram, pelo menos uma vez, valores de Escherichia coli ou Enterococos superiores a 500, quando o valor de referência é inferior a 15. Pelo menos quatro estiveram periodicamente encerradas durante a época balnear. Nem sequer lugares tradicionalmente associados ao cartão-postal dos Açores escaparam ao problema, como foi o caso da Caloura ou, um dos meus lugares de banhos prediletos, do Portinho do Faial da Terra.

Outros parecem ter adquirido já o estatuto de casos crónicos de insalubridade balnear, como são os casos da Vinha da Areia, Ribeira dos Pelames, Monte Verde, Mosteiros, Baixa da Areia e Ilhéu de Vila Franca do Campo.

Este último é particularmente significativo. Depois de um ano encerrado e de um sem-número de promessas atiradas ao vento por políticos de ambos os lados do azimute partidário, o Ilhéu, a pouco menos de um mês do final da época balnear, apresentava apenas quatro resultados, em dezassete análises realizadas, abaixo do limite legal. E, mais uma vez, terminará o ano sem que pareça existir uma explicação convincente para o problema, muito menos uma solução para o resolver.

Comissões de inquérito e grupos de trabalho. Investimentos de vulto em estações de tratamento e redes de esgotos anunciados por autarquias e Governo Regional. Declarações comovidas e juras de contrição. No fim, o resultado é invariavelmente o mesmo: nada. Ou, mais precisamente, mais poluição na água e ninguém verdadeiramente responsável por ela.

É difícil conciliar esta realidade com a imagem dos Açores como destino de natureza, sustentabilidade e excelência ambiental. Continuamos a vender natureza enquanto, literalmente, despejamos no mar a incapacidade de a proteger. Continuamos a dinamitar, a bombas de esgoto, o ouro que nos calhou na sorte, como se o mar não nos devolvesse sempre, mais cedo ou mais tarde, o lixo que teimamos em lhe atirar.

Esta irresponsabilidade coletiva, que tem nos responsáveis políticos os seus principais promotores, tornou-se quase uma assinatura da marca Açores. Lavamos a face em promessas e anúncios que, no fim, não dão em nada. Faz-se de conta que o problema é pontual, varre-se para debaixo do tapete e aguarda-se que a próxima análise, o próximo verão ou a próxima legislatura resolvam aquilo que todos sabem, mas teimam em não resolver.

Talvez seja mesmo uma sorte que as épocas balneares em São Miguel sejam tão ridiculamente curtas para uma ilha que se apresenta como destino de mar e de natureza. Porque, com análises destas, mais vale manter alguma distância da água. Não vá alguém mergulhar à procura dessa natureza pura e intacta açoriana e acabar, literalmente, a nadar no esgoto da nossa indiferença e incivilidade.

Ou então a estratégia é transformar a gastroenterite em produto de animação turística regional.

LEITURAS MARGINAIS

TODA A GENTE MIJA
Cory Doctorow, Medium. Rev. O’Lima.


O Jeff Bezos e eu somos pessoas muito diferentes. Para começar, ele é um bilionário sociopata que construiu a sua fortuna monopolizando a venda de livros, enquanto eu sou um autor de livros sem um tostão. Ele nasceu em 1964 e tem 62 anos; eu nasci em 1971 e tenho 55.

Encontrámo-nos algumas vezes e até trocámos algumas mensagens nos primeiros anos da Amazon, embora não tenha tido contacto com ele há décadas. Apesar deste breve contacto e deste longo hiato na nossa história de mensagens, posso afirmar com certeza uma coisa sobre Jeffrey Preston Bezos: ele precisa de urinar a toda a hora.

Como é que eu sei? Porque urinar a toda a hora é uma característica inevitável do envelhecimento, e o Bezos tem mais oito anos do que eu, e eu preciso de urinar a toda a hora. Jeff Bezos, como todas as pessoas mais velhas, tem de lidar com uma bexiga cada vez mais fraca. Honestamente, é um pequeno preço a pagar pelo milagre diário de envelhecer (em vez de morrer).

A única razão pela qual menciono aqui a bexiga cada vez mais insistente de Jeff Bezos é a dificuldade em conciliar as circunstâncias muito diferentes da bexiga de Bezos com as bexigas das centenas de milhares de estafetas e funcionários de armazém da Amazon que não estão autorizados a urinar. Os estafetas e os funcionários de armazém da Amazon são "centauros ao contrário", monitorizados por uma constelação de aplicações e câmaras, e são severamente punidos por não atingirem o ritmo estabelecido pelo software da Amazon, e este robô cronometrista não tem em conta as pausas para urinar.

Isto não é segredo, e a Amazon tem sido muito criticada por isso. Mas a "solução" da Amazon é acrescentar mais penalizações para quem urina. Os condutores que regressam ao armazém com garrafas cheias de urina nas suas carrinhas são punidos tão severamente como seriam se parassem para usar uma casa de banho. A questão é que o simples facto de o robô do seu chefe dizer que não pode urinar não interessa à sua bexiga ou aos seus rins, e quando a vontade aperta, não há como.

É por isso que as estradas que levam aos armazéns da Amazon estão cheias de garrafas de mijo que os condutores atiram pelas janelas antes de chegarem à doca de carregamento. Há tantas garrafas destas que o ativista dos media britânico Oobah Butler conseguiu recolhê-las e oferecer uma linha de "bebidas energéticas de limão amargo" na Amazon, feitas com urina engarrafada dos condutores. A bebida foi um sucesso de vendas na Amazon e a empresa até perguntou a Butler se queria que o ajudassem a aumentar as suas entregas.


O facto de Bezos precisar de urinar e também o facto de comandar um exército de centenas de milhares de trabalhadores que estão proibidos de mijar corrobora realmente a minha hipótese de que os multimilionários não acreditam que as outras pessoas sejam reais. Se Jeff Bezos acreditasse que a necessidade de urinar dos seus motoristas era a mesma que a sua própria, Jeff Bezos deixaria esses motoristas mijar.


A necessidade de urinar é um princípio fundamental da própria existência, estendendo-se para além dos humanos e alcançando os nossos "irmãos e irmãs horizontais" (o termo que John Muir deu aos outros animais com quem partilhámos este planeta). Qualquer pessoa que já teve um cão compreende isso. Não sou propriamente uma pessoa de cães, mas quando vejo um que precisa mesmo de sair de casa, a minha bexiga contrai-se em solidariedade. Quando penso nos rins e bexigas dos motoristas e estafetas de Bezos, sinto uma dor aguda e persistente que começa um pouco abaixo do meu umbigo.

Acho que o solipsismo bilionário é incontornável. O simples facto de lidar com as pessoas como abstrações estatísticas em massa — centenas de milhares de funcionários da Amazon, milhares de milhões de utilizadores de redes sociais e de pesquisas na Google — transforma a maioria dos outros humanos do mundo em fantasmas, bots defeituosos cujos salvadores são irritantemente pouco determinísticos e subóptimos.

Acrescente-se a isto o facto de que faturar milhares de milhões de dólares exige que inflija dor a milhares ou mesmo milhões destes fantasmas cujo dinheiro, privacidade e trabalho extraiu, e é fácil compreender como acabaria num mundo onde não consegue suportar a ideia de que a dor alheia é tão real como a sua. O solipsismo é um risco ocupacional mortal e corrosivo para a consciência dos ricos e poderosos. Nenhum visitante da Ilha Epstein tê-la-ia visitado se a dor daquelas jovens fosse tão real para ele como a dor das suas próprias filhas e amigas.

Há uma linha ténue entre este solipsismo e o entusiasmo dos multimilionários pela IA. Quando não se acredita que as outras pessoas são realmente reais, é fácil acreditar que podem ser substituídas por chatbots. A busca de Mark Zuckerberg para substituir os Teus amigos por chatbots faz sentido quando se percebe que, para Mark Zuckerberg, tu e os teus amigos já são apenas chatbots problemáticos e maus.


A crença de que os robôs podem ensinar os teus filhos, aconselhar-te sobre os teus problemas psicológicos ou cuidar da tua saúde é perfeitamente compatível com a crença de que é, em maior ou menor grau, um robô, e também de que os professores, médicos e terapeutas em quem confia são, no fundo, robôs.


A grande crise da oligarquia não reside apenas na transferência de poder dos funcionários públicos democraticamente responsáveis ​​e dos representantes eleitos para os oligarcas. A verdadeira crise é que alcançar o estatuto de oligarca é incompatível com a visão das outras pessoas como seres humanos reais. Foi assim que chegámos ao ponto em que o homem mais rico do mundo massacra centenas de milhares das crianças mais pobres do planeta por puro prazer.

Toda a gente mija. Quando eu morrer, quando o Jeff Bezos morrer e quando tu morreres, as nossas bexigas vão ceder e vamos fazer xixi nas calças. Declarar guerra ao direito dos outros de urinar é declarar guerra à própria humanidade.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

ESPANHA: FERROVIA COM REDE RÁPIDA MAS POUCO CAPILAR

Foto: ÁLVARO MINGUITO.
  • Embora conste que a Espanha tenha a segunda rede de alta velocidade mais extensa do mundo, as ligações entre as aldeias e as cidades médias foram abandonadas durante décadas. Criou-se assim uma rede rápida, mas pouco capilar, que não serve para deslocações diárias dentro de províncias ou entre cidades médias, havendo estações encerradas e territórios internos sem alternativa ao automóvel. A rede ferroviária espanhola está quase totalmente eletrificada, sendo a energia consumida pela Renfe 100% renovável. O custo do bilhete e do quilómetro do comboio convencional é de 0,029 €, muito inferior ao automóvel (0,13 €) ou ao avião (0,081 €). O que falta para que o comboio volte a ser útil? Não faltam vias, faltam comboios. Pau Noy (Alianza Ibérica por el Ferrocarril) sugere a aquisição de mais comboios para aumentar a frequência de modo a garantir um mínimo de 4 serviços diários em cada estação até à capital provincial, e desenvolver um abono único nacional, que facilite a utilização combinada dos transportes públicos em todo o país. Fonte.
  • O Canal do Panamá vai reduzir novamente o tráfego marítimo devido ao agravamento da seca provocada pelo fenómeno climático El Niño, congestionando ainda mais uma das rotas de navegação mais importantes do mundo. O canal movimenta 5% do comércio marítimo global e cerca de 40% do tráfego de contentores dos EUA; é preferido pelos exportadores e importadores porque reduz os custos e os tempos de trânsito, especialmente para as empresas que comercializam entre a China, a Ásia e os EUA. Fonte.
  • O presidente e o diretor da Chubu Electric Power, operadora da central nuclear de Hamaoka, renunciaram aos seus cargos para assumir a responsabilidade por anos de manipulação de dados de segurança sísmica relativos aos reatores nº 3 e nº 4 daquela central. Uma investigação independente constatou que os funcionários alteraram os dados sísmicos para que os reatores parecessem cumprir os requisitos de segurança. Os principais executivos da empresa não estiveram directamente envolvidos, mas a sua forte pressão para reiniciar os reactores pode ter criado uma pressão que contribuiu para a má conduta. A central de Hamaoka é particularmente sensível por se encontrar numa área considerada vulnerável a um grande sismo na Fossa de Nankai. Isto torna a falsificação de informação sobre o risco sísmico especialmente grave. O escândalo surge numa altura em que o Japão tenta reativar mais reatores nucleares para reduzir os custos de energia e as emissões de carbono, após as paragens causadas pelo desastre de Fukushima em 2011. Atualmente, o Japão tem apenas 11 dos seus 54 reatores comerciais em funcionamento. Fonte.
  • À medida que a indignação pública contra o governo nepalês vai aumentando na sequência dos deslizamentos de terra mortíferos no Nepal, documentos revelam que o novo primeiro-ministro do país e vários dos seus colegas chegaram ao poder graças, em parte, a um programa secreto patrocinado pelo governo dos EUA. Fonte.
  • Petição contra tribunais corporativos secretos usados pelas gigantes multinacionais para processar governos em milhares de milhões por decisões que moldam o nosso futuro coletivo.

REFLEXÃO

NEGOCIATA DE ENERGIA: DEFESA DO BARREIRO METEU SEIS MUNICÍPIOS NA MIRA DO TRIBUNAL DE CONTAS
Pedro Almeida Vieira e Elisabete Tavares. Página Um.


O Barreiro celebrou um contrato de 6,5 milhões de euros, por 20 anos, com um consórcio formado pelas empresas Amener Eficiência Energética e HUB7 Energy Services, para instalar e explorar painéis fotovoltaicos em espaços municipais. O contrato poderia, através de renovações, chegar aos 50 anos.
A autarquia tratou o negócio essencialmente como uma cedência de espaços municipais. O Tribunal de Contas (TdC), porém, entendeu que a realidade era diferente: estava também a ser contratado um serviço de produção de energia, pelo que deveriam ter sido aplicadas regras de contratação pública mais exigentes.
Como o valor ultrapassava os limiares europeus, o TdC considerou que deveria ter existido concurso público ou concurso limitado com publicação no Jornal Oficial da União Europeia. A hasta pública realizada teve apenas uma proposta.
O Tribunal recusou, por isso, o visto prévio ao contrato. Considerou ainda particularmente problemática a duração, já que os 20 anos iniciais poderiam chegar a 50 anos.
Na sua defesa, a Câmara do Barreiro argumentou que não era um modelo inédito e que outros municípios (Figueiró dos Vinhos, Guimarães, Belmonte, Almodôvar, Moita e Lisboa) e entidades públicas já tinham celebrado contratos semelhantes.
Essa tentativa de defesa acabou por ter um efeito contrário ao pretendido: o Tribunal decidiu averiguar outros municípios que tivessem utilizado modelos semelhantes, verificando se os contratos foram gratuitos ou onerosos e se foram submetidos à fiscalização prévia.

BICO CALADO

  • Treinador da águia do Benfica traficava no aeroporto de Lisboa. Fonte.
  • A televisão francesa censura a atriz Adèle Haenel depois de esta ter condenado o genocídio perpetrado por Israel na Palestina. Fonte.
  • O governo britânico arrecada 5 mil milhões de libras por ano com as taxas de imigração, enquanto os requerentes são forçados a endividar-se. As taxas de visto e de cidadania do Ministério do Interior chegam a ser 10 vezes superiores ao custo de processamento – e aumentam todos os anos. Fonte.
 
  • O argentino Fernando Cerimedo, especialista em interferência eleitoral de extrema-direita, foi detido na Bolívia depois de ter contratado assassinos para tentar matar a sua ex-namorada grávida, Nadia Beller. Eles falharam, e ela está agora a revelar a verdade. Cerimedo tem fortes ligações com o governo norte-americano e com os principais aliados de Donald Trump, como Marco Rubio. Cerimedo trabalhou para muitos líderes de direita apoiados pelos EUA na América Latina, incluindo Javier Milei, da Argentina, Rodrigo Paz, da Bolívia, a família Bolsonaro, do Brasil, e Nasry "Tito" Asfura, das Honduras. Cerimedo está também a ser investigado por tráfico de droga. Ben Norton explica este escândalo insano, que expõe como poderosos grupos de direita apoiados pelos EUA, com financiamento de oligarcas ricos, estão a manipular as eleições e a destruir a democracia.
  • Seis organizações de solidariedade britânicas registadas estão a angariar fundos para atividades e infraestruturas em colonatos israelitas ilegais. Fonte.
  • Por que razão já não querem estar na escola? Luís Ochoa

LEITURAS MARGINAIS

O AR DO TEMPO (2) E EM PORTUGAL (1)
José Pacheco Pereira, Público, 12set2026

Cartune: IA / Ambiente Ondas3

"Em janeiro de 2022, o PS ganhava as eleições com maioria absoluta. De 2015 a 2019, com o Governo da «geringonça», a que se seguiu o XXII Governo Constitucional, que caiu com a rutura da «geringonça», o PS chegou à maioria absoluta, o que significa que não houve rejeição do eleitorado dessa experiência.

Nestes mesmos anos eleitorais, de 2015 a 2026, o PCP tornou-se um partido residual, embora mantenha uma pequena parte da sua influência social através do movimento sindical. O Bloco de Esquerda (BE) praticamente desapareceu, quer em termos eleitorais, quer em termos de influência. O Livre ocupou parcialmente o seu espaço, mas não contrariou o declínio comunista e bloquista.

Ou seja, a esquerda, que era largamente maioritária há quatro anos, tornou-se minoritária, e o PSD prosseguiu a viragem à direita que começara com o Governo de Passos Coelho, foi interrompida por Rui Rio, mas se consolidou com Montenegro. Continuou a ser o primeiro partido desde o colapso do PS, absorveu o CDS, mas sofre de uma erosão na sua base de apoio e de uma paralisia governativa sem precedentes.

Claro que houve muitos erros cometidos, pelo PS em particular, a que se seguiu o facto de o PCP, ao apoiar a invasão russa na Ucrânia, e o BE, com os temas «fraturantes», cavarem a sua sepultura eleitoral. Mesmo assim, tudo isto não justifica a aceleração da queda, que tem também muito que ver com aquilo a que chamo o «ar do tempo» ou, para ser mais fino, o Zeitgeist. Esse ar do tempo não é apenas português, mas está cá e «nacionalizou-se».

Qual foi o principal instrumento nesta mudança? Um novo partido, o Chega, que do nada chegou a líder da oposição parlamentar, com 60 deputados na Assembleia. O crescimento parlamentar do Chega é um reflexo de um crescendo de influência com uma rapidez sem paralelo, que vai muito para além do voto.

O Chega mudou a ecologia política portuguesa, e não foi apenas pelo seu papel como partido «populista», mas pela introdução de um conjunto de temas que são de uma outra herança: a da ditadura do Estado Novo, a mais longa da Europa Ocidental, que durou de 1926 a 1974.

O Chega é hoje um partido de extrema-direita, designação que me parece mais correta do que o epíteto de «fascista», e estendeu a sua influência, radicalizando toda a direita, a começar pelo PSD. No debate que teve comigo, Ventura referiu-se pela primeira vez à Revolução do 25 de Abril como uma «revolução miserável» e, após uma prudência inicial, abriu as comportas não só à justificação da ditadura, como à assunção de uma continuidade de temas, lemas, símbolos e posições políticas salazaristas.

Resolveu, assim, um dilema da direita, que era não ter um passado apresentável, e que com o Chega começou a ter, com um papel relevante na propaganda da trilogia «Deus, Pátria e Família». O retorno à ideologia autoritária do Estado Novo, o revisionismo histórico sobre Salazar, a guerra colonial, a censura, os «feitos» do regime, acompanhado dos interpretadores económicos da escola do «Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas», passaram a servir de inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.

Este tipo de procura de história e memória molda os temas do «ar do tempo» português. Não é diferente do ar do tempo internacional, a começar por Trump purgar a história americana da escravatura e retomar os símbolos da Confederação, ou pela AfD alemã querer voltar a Bismarck para esconder Hitler, ou pelo Vox espanhol reabilitar o franquismo.

Igualmente como acontece no ar do tempo internacional, o «outro» é o inimigo próximo e imediato. O nacionalismo pseudopatriótico, traduzido na «defesa» dos portugueses e na luta contra a «invasão» estrangeira, os imigrantes, os muçulmanos, a associação do «outro» ao incremento da insegurança, pessoal e nas ruas, incorpora medos ancestrais e vive da ignorância e das falsidades. (...)"

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

INGLATERRA: DIRETOR DE COMPANHIA DE ÁGUAS JULGADO POR FRAUDE


O antigo diretor executivo da Southern Water, Matthew Wrightcompareceu em tribunal, acusado de conluio com intenção de defraudar, na sequência de alegações de que os testes de qualidade da água foram manipulados para evitar sanções. Fonte.

BICO CALADO

  • Vários bancos centrais europeus estão a transferir as suas reservas de ouro para fora dos EUA, motivados por duas preocupações principais: (1) Risco geopolítico e fiabilidade dos EUA – Receios de que os ativos detidos noutra jurisdição possam ficar temporariamente inacessíveis durante um cenário extremo de sanções, questões jurídicas ou geopolíticas; as preocupações com a imprevisibilidade das políticas da administração Trump e a sua crescente antipatia em relação à UE (incluindo ameaças relativas à Gronelândia) vieram agravar estas preocupações; (2) Preparação para situações de crise – A necessidade de manter o ouro mais perto de casa, ou num centro de negociação dinâmico, para que possa ser rapidamente mobilizado e aproveitado em caso de crise. O Banco Central dos Países Baixos transferiu cerca de 86 toneladas de ouro de Nova Iorque para Londres, invocando «instabilidade geopolítica» e uma melhor «preparação para situações de crise». França retirou a sua exposição remanescente em ouro do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque entre julho de 2025 e janeiro de 2026 (embora a França tenha afirmado que tal não teve motivação política). Alemanha e Itália: Os políticos de ambos os países (que detêm a segunda e a terceira maiores reservas de ouro do mundo) apelaram também para que o seu ouro fosse retirado dos EUA. Fonte.
  • A menos de dois meses da primeira edição do MEO Commedia a La Carte Fest, vários artistas nacionais cancelaram os respetivos espetáculos num gesto de contestação à presença de Jerry Seinfeld, um defensor de Israel que já afirmou que "a Palestina não existe". Fonte.
  • Israel mantém 37 jornalistas palestinianos nas suas prisões, incluindo 19 em detenção administrativa, sem acusação nem julgamento. Fonte.
  • ‘Eis a idade de consentimento para as raparigas, em 1880, em todo o mundo: 7 a 12 anos nos EUA, 10 anos na Rússia, 12 anos na Austrália, no Canadá, na Dinamarca, em Portugal, na Escócia e em Espanha, 13 anos na Bulgária, na Inglaterra e no País de Gales, em França e na Polinésia Francesa, 14 anos na Alemanha e na Áustria, 15 anos na Roménia e na Turquia.’ Quando a idade de consentimento para as meninas era de 10 anos nos Estados Unidos. Linda Caroll, Medium.

LEITURAS MARGINAIS

DE GUIMARÃES AO GENOCÍDIO



O presidente da câmara de Guimarães, município com o cognome ‘cidade berço de Portugal, recebe o embaixador de Israel, para estreitar a cooperação, entre outras áreas, na “protecção civil”.
Sim, Guimarães vai recorrer a Israel para “explorar novas possibilidades de cooperação em áreas estratégicas para o desenvolvimento do território”, e a autarquia destaca “a protecção civil” (ler texto infra).

Como o presidente da câmara é identificado com o nome “Ricardo Araújo” pensei, por um instante, que fosse mais uma boa pilhéria do nosso RAP e que faltava só o último nome dele neste número burlesco. Mas não. Trata-se mesmo do presidente da câmara de Guimarães e não do cómico homónimo.

Israel é obviamente a parceria que os municípios portugueses devem procurar para reforçar a segurança dos seus cidadãos, sobretudo se forem lusitanos da primeira hora, claro.

O governo de Netanyahu dispõe dos maiores especialistas na área da protecção civil. O seu trabalho está bem patente na Palestina (Faixa de Gaza e Cisjordânia), mas também no Líbano, na Síria e até em remotas aldeias do Iraque e Irão. Onde houver casas ainda de pé, onde houver mercados, aldeias, hospitais, escolas, onde viverem famílias com crianças, o governo de Netanyahu tem uma solução para acabar, de vez, com o problema.

Outras autarquias que queiram resolver os seus problemas urbanos, por exemplo bairros étnicos ou minorias contestatárias que exijam água e comida ou direitos cívicos, deviam, desde já, aderir a esta iniciativa do autarca de Guimarães.

Mas também noutras áreas, como “a inovação” e “a tecnologia” a câmara municipal de Guimarães e o seu autarca querem estreitar as relações com Israel. Ora sabemos que programas de reconhecimento facial, para identificar minorias e delinquentes, tal como drones guiados por Inteligência Artificial que atacam zonas residenciais, podem ser programados para reconhecer e atacar outros alvos. A imaginação será o limite para o senhor presidente da câmara Ricardo Araújo. Quanto à imaginação do embaixador de Israel, não tenho grandes dúvidas quanto aos alvos que tem na mira. A história repete-se, uma e outra vez, primeiro como tragédia, depois como número de comédia stand up dum autarca oportunista.

domingo, 13 de setembro de 2026

AZAMBUJA: EXPLORAÇÕES PECUÁRIAS AUTUADAS POR POLUÍREM RIBEIRA

Foto: Correio de Azambuja
  • Explorações pecuárias foram alvo de três acções de fiscalização relacionadas com denúncias de poluição causada por efluentes pecuários na zona de Azambuja que deram origem a autos de contra-ordenação por infracções que, nos casos mais graves, podem levar a coimas entre 24 mil e 144 mil euros. As fiscalizações surgem num contexto de queixas sobre a poluição da ribeira do Valverde, que atravessa Azambuja e que é há vários anos motivo de preocupação. Nas últimas semanas, os maus cheiros voltaram a provocar protestos, com um munícipe a denunciar em reunião pública do executivo da Câmara de Azambuja, um odor intenso associado a efluentes pecuários. Fonte.
  • “17 horas de sábado, 35 graus em Monte Córdova. Um vento quente e perigoso que se levanta. Na festa de Valinhas prepara-se mais um bombardeamento dos nossos ouvidos, que matará também passarada, deixará outros animais abalados, surdos, etc. Este ano a festa tem também o apoio da Edilages, a pedreira que vai ser responsável pelos próximos rebentamentos, bem ali perto de casas e de onde hoje o fogo de artifício vai iluminar o céu de uma noite de verão e ventania. Já não é o primeiro ano que este fogo provoca incêndio nesta zona. Boa sorte para logo. E como não há vigilância nem autoridades para suspender o fogo, até um ateu como eu não tem escolha senão confiar na nossa senhora de Valinhas.” Ricardo Meireles.

BICO CALADO

  • Entidades públicas entregam mais de 1,2 milhões de euros ao jornal britânico Financial Times. O P1 identificou pelo menos 22 operações financeiras entre entidades públicas portuguesas e o universo Financial Times, num valor nominal superior a 1,22 milhões de euros desde 2019. Só o Turismo de Portugal concentrou 766.643 euros em "acções de promoção". Entre os melhores clientes nacionais seguem-se a Nova SBE, presença assídua e quase sempre elogiosa nas páginas do jornal britânico, e a Câmara do Porto, com mais de 200 mil euros em contratos.

LEITURAS MARGINAIS

COMO A GRÃ-BRETANHA PERMITIU QUE PINOCHET ESCAPASSE À JUSTIÇA PELAS ATROCIDADES COMETIDAS
JOHN McEVOY, Declassified UK. Rev. O’Lima.


Há 25 anos, o governo do Reino Unido permitiu que o antigo ditador do Chile escapasse à extradição para Espanha. Documentos desclassificados revelam como essa decisão foi tomada. Documentos revelam que Margaret Thatcher fez um acordo secreto com Pinochet durante a década de 1980. Um conselheiro sénior de Tony Blair comentou: «Seria obviamente embaraçoso se tudo isto viesse a público»

A 2 de março de 2000, Augusto Pinochet atravessou com passos vacilantes a pista da base aérea da RAF Waddington, em Lincolnshire, e embarcou num jato da Força Aérea chilena, dando assim os seus últimos passos em solo britânico. O antigo ditador acabara de ser declarado inapto para ser julgado pelo ministro do Interior britânico, Jack Straw, e foi autorizado a regressar ao Chile com efeito imediato. Pinochet tinha passado os 16 meses anteriores em prisão domiciliária na Grã-Bretanha, aguardando o desfecho de um pedido de extradição espanhol por violações dos direitos humanos cometidas sob o seu regime.

Entre 1973 e 1988, agentes do Estado chileno foram responsáveis por mais de 3 000 mortes ou desaparecimentos e por dezenas de milhares de casos de tortura e detenções políticas. O pedido de extradição espanhol relativo a Pinochet incluía acusações de homicídio e tortura. A decisão do governo britânico de permitir que Pinochet escapasse à justiça foi, consequentemente, recebida com indignação, especialmente depois de o ditador ter dado sinais milagrosos de recuperação à chegada a Santiago. Muitos suspeitaram que tivesse sido alcançado um acordo político para permitir o regresso de Pinochet ao Chile, sob o pretexto de um relatório médico controverso que alegava que ele estava incapaz de dar instruções aos seus advogados.

Documentos recentemente desclassificados revelam agora como o processo judicial tinha sido complicado por um acordo secreto feito com Pinochet por Margaret Thatcher durante a década de 1980. Segundo os documentos, Thatcher teria prometido ao ditador assistência médica no Reino Unido em troca do apoio militar e dos serviços secretos do Chile durante a Guerra das Malvinas, em 1982. Os documentos revelam ainda como a ideia de libertar Pinochet por motivos de saúde tinha sido discutida em pormenor à porta fechada, com as autoridades chilenas a defenderem uma solução «humanitária» para a crise.

O deputado Jeremy Corbyn, um proeminente apoiante da campanha pela extradição de Pinochet, comentou: «Houve sempre pressão para permitir que Pinochet regressasse… Esta história inventada sobre a sua saúde foi elaborada e disseram-nos que ele era um homem que estava a perder a memória, que a idade estava a fazer-se sentir e que não estaria apto para ser julgado».

«Seria embaraçoso se isto viesse a público»

O mandado de detenção de Pinochet foi executado pouco antes da meia-noite de 16 de outubro de 1998 na London Clinic, um hospital privado na capital inglesa. Foi emitido tão tarde porque «os serviços secretos indicavam que Pinochet planeava deixar o hospital e o país de forma iminente», segundo uma nota informativa desclassificada da Polícia Metropolitana. Os agentes britânicos à paisana destacados no hospital estavam também «discretamente armados» para impedir a «fuga assistida de Pinochet da custódia policial» para a embaixada chilena nas proximidades.

À medida que os agentes de polícia cumpriam os seus deveres legais, as notícias da detenção de Pinochet começaram a chegar a Whitehall, desencadeando discussões internas frenéticas que antecipavam uma potencial tempestade política.

Uma das comunicações mais notáveis foi enviada ao então primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, pelo seu secretário particular principal, John Holmes, no dia da detenção de Pinochet. «Deve saber que as autoridades espanholas solicitaram a extradição do general Pinochet, que se encontra atualmente em Londres a receber tratamento médico», soube Blair. «A situação é um pouco mais complicada do que pode parecer», continuou Holmes. «Aparentemente, temos um acordo com ele, estabelecido no passado, devido à nossa cooperação com os chilenos contra a Argentina na altura da crise das Malvinas, no sentido de o ajudarmos com o tratamento médico em Londres». Holmes observou de forma ameaçadora: «Seria obviamente embaraçoso se tudo isto viesse a público».

Temendo o expansionismo argentino, o regime de Pinochet tinha prestado apoio militar e de informações à Grã-Bretanha durante a guerra das Malvinas, em troca de lucrativos negócios de armas que incluíam a venda de jatos Hawker Hunter e de aviões de reconhecimento fotográfico Canberra.

Vários documentos relativos ao apoio do regime chileno à Grã-Bretanha durante a guerra continuam classificados como confidenciais pelo Ministério da Defesa e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido.

Apesar destas complicações, Holmes manteve-se cautelosamente otimista em relação ao caso Pinochet. «Com sorte, tudo isto pode acabar por não dar em nada», disse ele a Blair. Holmes acrescentou: «O Ministério do Interior partilha a minha opinião de que é melhor que o pedido de extradição não vá para a frente», aparentemente contrariando a posição inicial de Jack Straw sobre o assunto.

Motivos humanitários

O otimismo de Holmes era infundado. Pinochet foi colocado em prisão domiciliária enquanto os tribunais britânicos deliberavam sobre como proceder relativamente ao pedido de extradição. A Câmara dos Lordes proferiu uma decisão histórica segundo a qual os antigos chefes de Estado não podiam gozar de imunidade judicial relativamente aos crimes internacionais mais graves.

Ao longo deste período, as autoridades chilenas pressionaram constantemente o governo britânico para que libertasse Pinochet por motivos «humanitários», ao mesmo tempo que salientavam que as relações entre o Reino Unido e o Chile ficariam prejudicadas caso Pinochet fosse extraditado, revelam os arquivos desclassificados.

Em novembro de 1998, o ministro dos Negócios Estrangeiros chileno, José Miguel Insulza, reuniu-se com ministros britânicos em Downing Street, informando-os de que o seu governo «pretendia defender a libertação por motivos humanitários». Pinochet era «um homem doente de 83 anos» e «deveria ser libertado» por razões de saúde, declarou ele. Insulza salientou ainda que «o Chile mantinha melhores relações com o Reino Unido do que com qualquer outro país europeu há 150 anos», e que essas relações seriam prejudicadas por qualquer decisão de aprovar a extradição de Pinochet.

O presidente do Senado do Chile, Andrés Zaldívar, também exerceu pressão sobre o governo do Reino Unido para que libertasse o antigo ditador por motivos humanitários. No início de dezembro, Zaldívar disse a Blair que o Senado lhe tinha dado «apoio unânime» na pressão para a libertação de Pinochet, sublinhando que «fatores políticos e humanitários» deveriam ser utilizados para recusar a extradição.

Os argumentos das autoridades chilenas foram, em alguns aspetos, apoiados por pareceres jurídicos internos fornecidos a Blair e a Straw. A 27 de novembro de 1998, o ministro do Governo Charles Falconer informou Downing Street de que a decisão de Straw sobre a extradição deveria ter em conta questões como «a saúde de Pinochet» e «o efeito noutros países… caso estes sentissem que os seus antigos líderes poderiam estar em risco desta forma». Falconer, que é casado com a filha do antigo embaixador britânico no Chile, David Hildyard, acrescentou: «A vantagem de tratar deste assunto agora é que o regresso seria provavelmente mais fácil do que após uma longa batalha judicial em que as atrocidades fossem detalhadas e Pinochet saísse derrotado».

«Perigo nacional extremo»

Não foram apenas as autoridades chilenas que pressionaram pela libertação de Pinochet. Margaret Thatcher escreveu a Blair a 25 de novembro de 1998 para afirmar que «a decisão certa neste momento é agir rapidamente para o libertar e permitir que regresse a casa». Pinochet era «um homem idoso e doente que, apenas por razões humanitárias, deveria ser poupado ao que o futuro lhe reservaria de outra forma», declarou ela. Referindo-se à guerra das Malvinas, Thatcher acrescentou que «só poderia prejudicar a reputação deste país se se soubesse que aqueles que, tal como o senador Pinochet, foram nossos amigos íntimos em momentos de perigo nacional extremo, podem posteriormente esperar ser tratados desta forma».

Até o Vaticano se pronunciou. Poucas semanas após a detenção de Pinochet, o equivalente ao secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros da Santa Sé escreveu a Blair para sublinhar a sua convicção de que «existem todos os requisitos para um gesto humanitário a favor de um homem de 83 anos, doente e que se tinha deslocado a Londres para uma operação cirúrgica grave».

Em meados de 1999, a pressão conjunta sobre o governo britânico para libertar Pinochet parecia estar a dar frutos quando foi elaborado um acordo entre o Chile, a França, a Espanha e o Reino Unido para que Straw rejeitasse o pedido de extradição e «devolvesse Pinochet ao seu país por “razões humanitárias”». O ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Robin Cook, terá dito ao seu homólogo espanhol, Abel Matutes, que «não o deixaria [Pinochet] morrer na Grã-Bretanha», ao que Matutes respondeu: «Não o deixarei vir para Espanha».

Após o regresso de Pinochet ao Chile, este tornou-se alvo de dezenas de processos judiciais relacionados com violações dos direitos humanos e corrupção. No entanto, nunca foi condenado e faleceu em 2006.

sábado, 12 de setembro de 2026

CAÇADORES PAGOS POR ABATEREM JAVALIS

  • Governo vai pagar a caçadores por cada javali abatido, para travar prejuízos na agricultura. Fonte.
  • A Chemours, a DuPont e a Corteva chegaram a um acordo no valor de 455 milhões de dólares com a Carolina do Norte e 11 entidades locais relativamente a queixas de contaminação por PFAS associadas à fábrica «Fayetteville Works» da Chemours e a outras descargas históricas. Fonte.

BICO CALADO

  • Isto de entrentar pela frente tem muito que se lhe diga. Está claramente visto.
  • Cristiano Ronaldo no vermelho: 29 empresas e prejuízos de 264 mil euros. P1.
  • A fiscalidade nos combustíveis é um escândalo nacional. P1.
  • ERC: três asnas e dois jumentos confundem associação com causalidade. Pedro Almeida Vieira, P1.
  • A imprensa israelita publicou três revelações significativas sobre o holocausto de Gaza, relatando (1) que Benjamin Netanyahu ocultou o facto de ter conhecimento prévio do ataque do Hamas a 7 de outubro, (2) que Israel rejeitou uma proposta do Hamas para libertar todos os reféns civis imediatamente após 7 de outubro e (3) que, segundo um operador de drones das Forças de Defesa de Israel (IDF), as forças armadas israelitas estavam a disparar intencionalmente contra civis em toda a Faixa de Gaza durante as suas operações no território palestiniano. Caitlin Johnstone, Substack.
  • O presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu enviar a cada adulto norte-americano um cheque no valor de 5 000 dólares, caso os republicanos mantenham o controlo do Congresso nas próximas eleições intercalares. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

CONCLUSÕES SOBRE O NOVO RELATÓRIO DA ONU
Ayana Elizabeth Johnson, Substack. Rev. O’Lima

(...)

Em breve ultrapassaremos os 1,5 °C de aquecimento global.

De forma contundente, o relatório começa com: «Não há cenários favoráveis com um aumento da temperatura global superior a 1,5 °C.» E explicam: «Mesmo num cenário otimista baseado nos atuais compromissos dos governos (implementação total de todos os planos nacionais para o clima, além do cumprimento de metas adicionais de emissões líquidas nulas), o aumento máximo previsto da temperatura situa-se nos 1,8 °C [3,2 °F].»

Deixam também claro que «os compromissos climáticos nacionais estão longe de ser suficientes» e que «a implementação dos compromissos existentes é fraca». Isto é, estamos a caminhar para um aquecimento superior a 2,0 °C, a menos que ocorram mudanças radicais. Uma situação extremamente insegura e instável. Entretanto, «muitas das premissas de planeamento existentes já não se sustentam. As políticas, as instituições, os sistemas financeiros e de planeamento foram concebidos com base em pressupostos de mudança gradual e de relativa estabilidade climática», etc.

A remoção de dióxido de carbono (CDR) não nos vai salvar.

A CDR (plantação de árvores + algumas tecnologias muito mais avançadas que ainda não foram comprovadas em grande escala) é um dos principais focos deste relatório, mas o PNUA é muito claro ao afirmar que não se trata de uma solução milagrosa. E certamente não é um «livre trânsito» para continuarmos a queimar combustíveis fósseis. Nas suas próprias palavras: «Em termos gerais, mesmo uma expansão otimista da CDR dificilmente conseguirá reverter a tendência de aumento da temperatura para além de algumas décimas de grau neste século. Isto sublinha a importância de nos concentrarmos na redução das emissões de gases com efeito de estufa agora.»

O relatório é firme na sua posição de que a CDR é uma componente necessária, mas certamente não se trata de um «Viva a CDR!», como os tecnólogos poderiam sentir-se tentados a interpretar. Em vez disso, o relatório afirma que poderá ajudar um pouco, mas que precisamos de ser muito cautelosos. Há uma grande ênfase na necessidade de uma governação «cuidadosa» e «a longo prazo», algo que, definitivamente, não temos em vigor neste momento.

Os combustíveis fósseis têm de desaparecer.

Historicamente, os documentos da ONU têm evitado abordar a necessidade de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, sem conseguir que todos os países membros concordem com essa formulação. Por isso, receava que este relatório fosse fraco nesse ponto. Mas, embora eu tivesse utilizado uma linguagem mais agressiva, o texto é firme e inequívoco: «A transição para longe dos combustíveis fósseis é, portanto, um investimento fundamental na resiliência e no bem-estar público.» O relatório aprofunda este ponto: «Evitar o “lock-in” do carbono nas infraestruturas é fundamental para este esforço. Os investimentos em infraestruturas de longa duração e de elevadas emissões, tais como centrais elétricas a combustíveis fósseis, sistemas de transportes e instalações industriais, podem limitar as futuras reduções de emissões e prender os países em trajetórias de elevado carbono. Só as infraestruturas de combustíveis fósseis existentes e planeadas poderiam exceder em 120 % as emissões de CO₂ compatíveis com o objetivo de 1,5 °C em 2030.»

Ou seja, acabem-se os oleodutos de combustíveis fósseis, acabem-se as centrais elétricas a combustíveis fósseis. Referem que «a redução da procura é uma peça importante do quebra-cabeças» e que «a redução do metano e de outros gases com efeito de estufa superpotentes e de vida curta é fundamental». De facto.

E depois... apelam a uma revolução: Acelerar a revolução das energias renováveis é crucial. Do lado da oferta, os cenários de «overshoot» limitado sugerem aumentar a quota das energias renováveis para 60–70% da produção global de eletricidade até 2030, apoiada pela expansão da rede, pelo armazenamento e pela flexibilidade da procura. Estas são PALAVRAS FORTES por parte das Nações Unidas.

Precisamos de resolver os problemas da agricultura.

A agricultura é afetada pelas alterações climáticas, ao mesmo tempo que constitui um dos principais fatores que as impulsionam. Este relatório aborda a agricultura de forma superficial, centrando-se na importância de «reduzir as emissões de metano “difíceis de abater”, particularmente as provenientes da agricultura». O relatório é pouco enfático quanto à necessidade de uma transição para dietas à base de vegetais («Mudanças na alimentação poderiam reduzir significativamente as emissões e libertar terras para o sequestro de carbono») e, curiosamente, não menciona o uso de combustíveis fósseis pelo setor nem o impacto da pecuária no desmatamento. Por isso, permitam-me complementar com alguns factos essenciais:

A agricultura é responsável por, pelo menos, 90 % da desflorestação tropical.

O sistema alimentar industrial é responsável por 33 % da poluição global por gases com efeito de estufa, sendo cerca de metade desse valor proveniente da produção de carne e lacticínios, que utiliza mais de um terço das terras habitáveis a nível mundial.

A agricultura industrial levou à libertação de mais de 133 mil milhões de toneladas métricas de carbono presente no solo. Grande parte da camada superficial do solo dos EUA perdeu entre 30% e 50% da sua matéria orgânica nos últimos 100 anos.

Só os fertilizantes azotados sintéticos (112 milhões de toneladas por ano) são responsáveis por 2,1% das emissões globais de gases com efeito de estufa.

Esta questão merece muito mais atenção.

Precisamos de investir fortemente na adaptação.

O segredo já foi revelado. Os fenómenos meteorológicos extremos já estão aqui. Os elementos de ponto de viragem correm o risco de atingir esse ponto. «O desencadeamento de elementos de ponto de viragem pode conduzir a alterações irreversíveis. A possibilidade de reduzir os riscos a longo prazo em componentes do sistema terrestre de resposta lenta, através da reversão do aquecimento global, é especialmente relevante para os elementos de ponto de inflexão — sistemas em grande escala que podem sofrer alterações irreversíveis assim que forem ultrapassados limiares críticos. Estes incluem as camadas de gelo da Antártida Ocidental e da Gronelândia, a AMOC e o sistema clima-biosfera da floresta amazónica.»

Por isso, não podemos concentrar-nos apenas na redução das emissões (embora também seja realmente necessário fazê-lo); precisamos igualmente de investir fortemente na construção de um mundo capaz de lidar com a nossa nova e em evolução realidade climática. Apelam a uma «adaptação transformacional», que requer «uma adaptação que altere os atributos fundamentais de um sistema socioecológico em antecipação às alterações climáticas e aos seus impactos — uma reorganização fundamental e abrangente de todo o sistema que vai além da tecnologia e das estruturas económicas, estendendo-se a paradigmas, objetivos e valores, e que aborda os fatores subjacentes ao risco climático de forma inclusiva, reforça a capacidade de lidar com os impactos futuros e de recuperar deles, e protege contra resultados de adaptação inadequada, agora e no futuro»

Por outras palavras, «Em vez de depender de ajustes faseados, a adaptação deve abordar os fatores subjacentes à vulnerabilidade e apoiar uma mudança transformacional.» Isto pode parecer-lhe insípido, mas pode ser a coisa mais radical que já li da ONU.

Resumindo

Em muitos aspetos, este relatório não traz grandes novidades para quem tem vindo a acompanhar a ciência e as políticas climáticas a nível global. Há muito que se considera quase certo que se ultrapassará o limite de 1,5 °C, e há muito que o objetivo tem sido minimizar o aumento da temperatura global e a consequente desestabilização dos ecossistemas e proliferação de fenómenos meteorológicos extremos. A ONU também tem sido clara, desde há muito, quanto às implicações desta situação em termos de justiça e responsabilidade: «Os países com maior responsabilidade histórica pelas alterações climáticas e maior capacidade para as enfrentar devem agir com maior determinação e rapidez.»

Este relatório é tão contundente e tão claro. (É realmente muito fácil de ler, não hesitem em lê-lo.) Não só os cientistas nos têm alertado, repetidamente e em pormenor, como também têm vindo a apresentar continuamente planos de ação para evitar a catástrofe. Este relatório é mais um desses planos de ação. É preciso dar crédito a quem o merece.

E atribuir a culpa a quem a merece.

As empresas de combustíveis fósseis, obviamente. (Sinceramente, não faço ideia de como é que aqueles executivos conseguem dormir à noite.) E já dei a minha opinião sobre o agronegócio.

E ainda:

Grandes bancos: desde que o Acordo de Paris foi assinado em 2015, 60 bancos concederam 7,9 biliões de dólares em financiamento a empresas de combustíveis fósseis, tendo só os quatro maiores bancos — JPMorgan Chase, Citi, Wells Fargo e Bank of America — concedido mais de 1,64 biliões de dólares.

Grandes empresas tecnológicas: os centros de dados de IA estão a consumir imensa, e a frenética construção que se verifica não quer esperar que passem a ser alimentados por energia limpa. Na sua newsletter, Bill McKibben referiu uma análise da Bloomberg segundo a qual «a construção prevista do centro de dados irá aumentar as emissões de gases com efeito de estufa do setor da eletricidade em, pelo menos, vinte por cento, e talvez até um terço.»

E, tal como Emily Atkin relatou na HEATED, «o problema climático da IA é pior do que pensávamos», porque: as emissões resultantes da utilização da IA pela indústria dos combustíveis fósseis são provavelmente muito superiores às emissões geradas pelo consumo energético da IA no seu conjunto. Mais concretamente, descobriram que a utilização da IA pelas grandes petrolíferas para produzir mais petróleo e gás poderia gerar 3,3 a 13,3 vezes mais poluição climática do que o consumo energético dos centros de dados da IA.»

Entretanto, Elon Musk voltou subitamente a preocupar-se com as alterações climáticas, mas também afirma, de forma absurda, que não precisamos de nos preocupar com isso durante 50 anos e diz que vai resolver o problema com satélites... catapultados a partir da Lua. Mais uma manobra desonesta para ganhar dinheiro.

Estes postes foram escritos na mesma semana em que o aquecimento do nosso planeta derreteu o permafrost que mantinha um glaciar no seu lugar no Nepal e no Tibete. O colapso causou tantas mortes e tanta devastação. Uma injustiça climática, se é que alguma vez houve uma.

O que me leva a…

Grandes bilionários: Há dinheiro suficiente no mundo para resolver esta crise. É necessário investimento governamental, claro. É necessário eleger políticos empenhados em soluções climáticas e que não tenham medo de responsabilizar as empresas. (Além disso, acabem com o «Citizens United»!) É necessário pôr fim aos investimentos especulativos desenfreados em IA. (A vossa resistência aos centros de dados está a dar frutos, não desistam!). É necessário que os megamilionários deixem de acumular riqueza e de comprar mega iates. Neste momento, a nível global, apenas 2% do financiamento filantrópico é destinado ao clima — nos EUA, apenas 0,5%. (Tributem os ricos!) Podemos financiar a revolução e a transformação.

(…)

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

AÇORES: ORGANIZAÇÃO DO FESTIVAL DE MÚSICA ABANDONA RESÍDUOS


O Bloco de Esquerda  formalizou uma queixa junto da Inspeção Regional do Ambiente devido à presença de grandes quantidades de resíduos abandonados na zona da praia do Monte Verde, no concelho da Ribeira Grande. A denúncia surge cerca de um mês após a realização do festival de música naquele local, registando-se a permanência de plásticos dispersos pelo recinto e amontoados de materiais no extremo leste da praia.


EUA: MISSISSIPPI NÃO GARANTE O DIREITO À ÁGUA POTÁVEL

  • Tribunal de recurso indefere ação judicial movida por residentes de Jackson que alegavam que a água potável contaminada violava os seus direitos. O tribunal decidiu que a Constituição federal não garante o direito à água potável. FonteMais um caso de racismo ambiental, uma vez que a região é de maioria negra. Já o antigo CEO da Nestlé defendia o mesmo.
  • A Pensilvânia multa a Shell em 15 milhões de dólares por poluição causada pela fábrica de plásticos do Condado de Beaver. Fonte.

BICO CALADO

  • “(…) um membro do Governo pode ter opiniões, naturalmente. Pode expressá-las politicamente, em conferências de imprensa, no Parlamento, em entrevistas ou nas suas próprias redes sociais. Não faltam lugares e momentos para se expressar. O que não pode, ou pelo menos não deveria, é ocupar regularmente espaço editorial na comunicação social para comentar a atualidade política enquanto exerce funções governativas. Muito menos quando esse membro do Governo é precisamente o responsável político pela tutela da comunicação social. Não é uma questão de censura, nem de liberdade de expressão. É uma questão de bom senso, de separação de papéis e, sobretudo, de aparência de imparcialidade. Quem tem a responsabilidade política de tutelar a comunicação social deve ser particularmente cuidadoso para não transformar essa posição numa espécie de lugar privilegiado de comentário sobre a própria realidade política que integra. (…)” Pedro Arruda.
  • CONTOS DO ESQUECIMENTO - Documentário. Argumento e realização: Dulce Fernandes. RTP2, 27 de agosto de 2026, 22h53. O papel de Portugal no tráfico transatlântico de africanos escravizados. Achados arqueológicos recentes em Lagos, no sul de Portugal, revelaram o passado esquecido do papel de Portugal no tráfico transatlântico de africanos escravizados. Numa manhã quente de verão em 1444, na aldeia piscatória de Lagos, no sul de Portugal, foi desembarcado um grupo de pessoas africanas. No campo junto ao porto, foram entregues como escravos aos nobres e comerciantes locais. Durante os 400 anos seguintes, mais de seis milhões de africanos seriam traficados em navios portugueses para a Europa e para o outro lado do Atlântico. Numa tarde chuvosa de inverno de 2009, em Lagos, arqueólogos que escavavam o local onde estava a ser construído um parque de estacionamento subterrâneo, começaram a encontrar esqueletos humanos. Trabalhando no local durante os cinco meses seguintes, enquanto o parque de estacionamento estava a ser construído à sua volta, os arqueólogos descobriram os esqueletos de 158 homens, mulheres e crianças africanos escravizados. Os seus corpos tinham sido depositados numa lixeira do século XV. Entrelaçando estas duas histórias, Contos do Esquecimento cruza histórias de violência e brutalidade do passado com imagens e sons do presente.
  • Donald Trump afirmou que irá pedir aos países europeus que reembolsem os EUA pela ajuda militar e pelas munições anteriormente enviadas à Ucrânia, e pareceu insinuar que as vendas aos países aliados seriam suspensas. Fonte.
  • O Procurador-Geral da Ucrânia demitiu-se. É acusado de encobrir centros de chamadas fraudulentos que roubaram milhares de milhões a idosos na UE e nos EUA. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

A MENTIRA TEM PERNA CURTA


Entre Outubro de 1941 e Outubro de 1942, a propaganda alemã mentiu desavergonhadamente às tropas, ao povo e à comunidade internacional, asseverando que ganhara a guerra e que a Rússia estava derrotada. Da primeira vez, anunciou que as pinças blindadas estavam prestes a entrar em Moscovo. Dois meses depois, os russos empurraram-nos das cercanias da sua capital e inflingiram aos alemães a primeira grande derrota na guerra. Um ano volvido, anunciaram que Estalinegrado caíra e qwue a URSS perdera a guerra. Três meses volvidos, estes rendiam-se.

A propaganda de guerra deve assentar no equilíbrio de ouro entre a verdade e o realismo. Não deve mentir, senão em aspectos acessórios, deve preservar o essencial que garanta a credibilidade de quem a usa para infundir segurança, esperança e ânimo elevado entre os soldados da frente e a confiança da frente interna, mas, sobretudo, nunca deve correr o risco de desautorização internacional do governo que a produz. A Ucrânia tem mentido repetidamente desde 2022, movimento no qual é acompanhada e incentivada pelos ocidentais. Desde a Ilha das Serpentes, do levantamento do cerco russo a Kiev (resultado do cumprimento russo dos gorados acordos de Istambul), dos falsos massacres de Bucha e Irpin, das grandes batalhas pelas cidades do Donbas, da tão anunciada contra-ofensiva de 2023, das mil mentiras sobre o esgotamento militar russo, da iminente derrocada económica russa e do anedotário que insistia que os russos combatiam com pás, recorriam ao canibalismo, trocavam munições por víveres, a Ucrânia esgotou a sua reputação. Hoje, ninguém assisado acredita numa palavra de Zelensky e destes propagandistas atoleimados que enxameiam a comunicação social ocidental.

Tomo conhecimento do ataque devastador que hoje fez tremer Kiev. Centenas de alvos tocados, edifíos, instalações militares, unidades industriais e grandes superfícies logísticas arrasadas. Após semanas de propaganda em que nos fizeram crer que a Rússia estava a ser destruída pelos ataques ucranianos a refinarias na Rússia, a Ucrânia está desesperada. Não há luz, gás, circulação ferroviária, as estantes dos supermercados vazias. A mentira tem vida curta e quanto maior for, maior a factura de credibilidade exigirá. É aí que estamos.