O AR DO TEMPO (2) E EM PORTUGAL (1)
José Pacheco Pereira, Público, 12set2026
"Em janeiro de 2022, o PS ganhava as eleições com maioria absoluta. De 2015 a 2019, com o Governo da «geringonça», a que se seguiu o XXII Governo Constitucional, que caiu com a rutura da «geringonça», o PS chegou à maioria absoluta, o que significa que não houve rejeição do eleitorado dessa experiência.
Nestes mesmos anos eleitorais, de 2015 a 2026, o PCP tornou-se um partido residual, embora mantenha uma pequena parte da sua influência social através do movimento sindical. O Bloco de Esquerda (BE) praticamente desapareceu, quer em termos eleitorais, quer em termos de influência. O Livre ocupou parcialmente o seu espaço, mas não contrariou o declínio comunista e bloquista.
Ou seja, a esquerda, que era largamente maioritária há quatro anos, tornou-se minoritária, e o PSD prosseguiu a viragem à direita que começara com o Governo de Passos Coelho, foi interrompida por Rui Rio, mas se consolidou com Montenegro. Continuou a ser o primeiro partido desde o colapso do PS, absorveu o CDS, mas sofre de uma erosão na sua base de apoio e de uma paralisia governativa sem precedentes.
Claro que houve muitos erros cometidos, pelo PS em particular, a que se seguiu o facto de o PCP, ao apoiar a invasão russa na Ucrânia, e o BE, com os temas «fraturantes», cavarem a sua sepultura eleitoral. Mesmo assim, tudo isto não justifica a aceleração da queda, que tem também muito que ver com aquilo a que chamo o «ar do tempo» ou, para ser mais fino, o Zeitgeist. Esse ar do tempo não é apenas português, mas está cá e «nacionalizou-se».
Qual foi o principal instrumento nesta mudança? Um novo partido, o Chega, que do nada chegou a líder da oposição parlamentar, com 60 deputados na Assembleia. O crescimento parlamentar do Chega é um reflexo de um crescendo de influência com uma rapidez sem paralelo, que vai muito para além do voto.
O Chega mudou a ecologia política portuguesa, e não foi apenas pelo seu papel como partido «populista», mas pela introdução de um conjunto de temas que são de uma outra herança: a da ditadura do Estado Novo, a mais longa da Europa Ocidental, que durou de 1926 a 1974.
O Chega é hoje um partido de extrema-direita, designação que me parece mais correta do que o epíteto de «fascista», e estendeu a sua influência, radicalizando toda a direita, a começar pelo PSD. No debate que teve comigo, Ventura referiu-se pela primeira vez à Revolução do 25 de Abril como uma «revolução miserável» e, após uma prudência inicial, abriu as comportas não só à justificação da ditadura, como à assunção de uma continuidade de temas, lemas, símbolos e posições políticas salazaristas.
Resolveu, assim, um dilema da direita, que era não ter um passado apresentável, e que com o Chega começou a ter, com um papel relevante na propaganda da trilogia «Deus, Pátria e Família». O retorno à ideologia autoritária do Estado Novo, o revisionismo histórico sobre Salazar, a guerra colonial, a censura, os «feitos» do regime, acompanhado dos interpretadores económicos da escola do «Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas», passaram a servir de inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.
Este tipo de procura de história e memória molda os temas do «ar do tempo» português. Não é diferente do ar do tempo internacional, a começar por Trump purgar a história americana da escravatura e retomar os símbolos da Confederação, ou pela AfD alemã querer voltar a Bismarck para esconder Hitler, ou pelo Vox espanhol reabilitar o franquismo.
Igualmente como acontece no ar do tempo internacional, o «outro» é o inimigo próximo e imediato. O nacionalismo pseudopatriótico, traduzido na «defesa» dos portugueses e na luta contra a «invasão» estrangeira, os imigrantes, os muçulmanos, a associação do «outro» ao incremento da insegurança, pessoal e nas ruas, incorpora medos ancestrais e vive da ignorância e das falsidades. (...)"
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