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sexta-feira, 24 de julho de 2026

REFLEXÃO

QUANDO OS OSSOS SÃO TESTEMUNHAS

Mário Freitas, Diário dos Açores, 22 julho 2026.

RTP

Uma tese de doutoramento defendida em Junho, na Universidade de Coimbra, fez o que 20 anos de relatórios não tinham feito - foi procurar a contaminação da Base das Lajes, não no solo nem na água, mas dentro dos corpos das pessoas da Praia da Vitória. Nos seus ossos. (...)
Durante quase 2 décadas soubemos duas coisas sobre a Praia da Vitória, e vivemos com elas com uma serenidade que hoje me parece excessiva. Soubemos que os solos e os aquíferos do concelho estavam contaminados por décadas de atividade militar norte-americana na Base das Lajes - pela circulação de cerca de 800 milhões de litros de combustível, pela Soutk Tank Farm (o maior complexo de tanques da força aérea norte-americana na Europa), por uma rede de oleodutos que atravessa a própria cidade. Soubemos que dessa herança ficaram no ambiente hidrocarbonetos, aromáticos, voláteis e metais. A pergunta que faltava, porem, não era se o ambiente estava doente - era se as pessoas estavam. Entre «o solo está contaminados e e as pessoas adoeceram» há um elo do meio que ninguém tinha testado: a exposição humana. A contaminação chegou, de facto, aos corpos?

É esse elo que a tese de Félix Rodrigues veio preencher. E começou por construir aquilo que nem sequer existia: a primeira Coleção de Esqueletos Identificados dos Açores (CEI/Açores). A partir de
remanescentes não reclamados dos cemitérios da Terceira, reuniu-se e caracterizou-se um acervo de 171 esqueletos identificados - com sexo, idade e última residência conhecidos -, hoje um verdadeiro património cientifico da Região, já publicado em revista internacional. De ossos
anónimos, que ninguém reclamou, fez-se ciência que fala por todos nós.
Sobre esta coleção, o autor mediu, por espectrometria de fluorescência de raios X portátil - técnica validada e não destrutiva -, as concentrações de metais no osso. E aqui está a intuição feliz do trabalho: o osso e a memória longa do corpo. Cerca de 95% de todo o chumbo que um ser humano acumula ao longo da vida deposita-se no esqueleto, onde permanece durante décadas; o osso é, literalmente, o arquivo mineral de tudo o que uma pessoa bebeu, respirou e comeu. Interrogar o osso é interrogar uma vida inteira de exposição.
O desenho foi rigoroso, e importa dizê-lo: comparou 26 indivíduos da Praia da Vitória (zona de risco) com 71 de Angra do Heroísmo (grupo de comparação, sem risco identificado, a 23km), com distribuições de idade e de sexo semelhantes e sem diferença de idades médias entre os grupos.
Trabalho, de resto, já publicado em revista de primeiro quartil. Isto não é uma opinião de circunstancia; é método.
O resultado é inequívoco na sua direção. Onze metais apresentaram concentrações significativamente superiores no grupo da Praia da Vitória - antimónio, arsénio, cádmio, crómio, ouro, chumbo, molibdénio, prata, estrôncio, estanho e urânio -, todos, sem exceção, mais elevados no grupo exposto. O chumbo, por exemplo, subiu de uma média de 12,3 para 17,6 partes por milhão; a análise multivariada confirmou que o próprio local de residência separa estatisticamente os dois grupos. Pela primeira vez, uma suspeita de 20 anos converteu-se num número.
E convém saber de que metais falamos. O cádmio, o arsénio e os compostos de crómio hexavalente são classificados pela Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC, volume 100C) como cancerígenos comprovados para o ser humano - Grupo 1. Os compostos inorgânicos de chumbo estão no Grupo 2A, provavelmente cancerígenos. Não são metais indiferentes: são precisamente aqueles que uma autoridade de saúde não quer encontrar acumulados nos ossos da sua população.
(…)

Este estudo não prova que a Base das Lajes tenha provocado o cancro de quem quer que seja. A tese di-lo sem rodeios: os resultados são insuficientes para estabelecer uma relação de causa e efeito. Não é um estudo epidemiológico - mede biomarcadores de exposição nos que já morreram, não taxas de doença nos que vivem. Não consegue, pelo seu desenho, atribuir os metais especificamente às Lajes e não a outras fontes históricas, porque a história de vida de cada individuo (profissão, anos de residência, consumo de água) é largamente desconhecida. A amostra
da Praia é pequena. (...)”

Para aprofundar o assunto, convirá consultar o que o blogue Ambiente Ondas3 tem publicado:


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