quinta-feira, 18 de maio de 2017

Terceira-Açores: Militares norte-americanos deixam extenso rasto de contaminação

Imagem colhida no Diário Insular de 17mai2017.

«Nem as águas e os solos de Angra do Heroísmo escapam à contaminação por metais pesados provocada pela ação norte-americana na Base das Lajes: também havia tanques de combustível no concelho e esses tanques, como os outros, eram lavados de cinco em cinco anos. As lamas químicas, decorrentes das operações de limpeza, foram enterradas junto dessas estruturas. 

As afirmações são de Orlando Lima, funcionário da Secção de Ambiente da Base das Lajes entre1994 e 2002. (…)
A opção, adiantou em entrevista à Antena 1/Açores, foi tomada em 2008e ficou a dever-se aos "sinais claros de desresponsabilização dos Estados Unidos da América em relação à pegada ambiental deixada na Terceira. 
"Consta que numa reunião que eles lá tiveram (…) levavam a que as Lajes fossem consideradas um Super Fund Site. Estamos a falar de um local onde, no fundo, não existe um orçamento rígido - existe uma comissão de gestão em que a adjudicação é feita diretamente, de um modo muito expedito e rápido, sem necessidade de pré-aprovação de verbas. Nessa altura, ouvi que houve ameaça ao setor português de que se tivessem de descontaminar tudo o que havia na Base das Lajes iriam fechá-la e transformá-la num Super Fund Site", disse.
(…) Orlando Lima refere que, de facto, a contaminação está espalhada pela ilha e tem várias fontes: são aterros de lamas químicas, mas também de aditivos de chumbo (…) dois no Pico Celeiro, do lado oeste, entre os tanques e a Serra do Cume. (…) "O chumbo é um veneno, tem um elevado nível de lixiviação e, portanto, está aterrado numa zona de infiltração máxima, porque está numa falha. Existe captação de água na proximidade, na área das Fontinhas e do Pico Celeiro. Na altura, quando participei num estudo dos aquíferos da Praia, chegámos à conclusão que as bombas tinham uma sucção que poderia alcançar os 1200 metros, portanto, está dentro do raio de ação da captação de águas da Praia da Vitória", sublinhou. 
Já os aterros de lamas químicas são um fenómeno mais conhecido, embora igualmente preocupante. Estima-se que naquela altura, de cinco em cinco anos desde que a infraestrutura militar foi instalada nas Lajes, tenham sido produzidas cerca de 10 toneladas de lamas químicas (por tanque) que depois foram enterradas no solo. Trata-se, recorde-se, de águas misturadas com hidrocarbonetos e que tem, do mesmo modo, um elevado nível de metais pesados, consequência do revestimento dos tanques e da sua pintura.
"Essas lamas estão espalhadas em vários lados. Estão perto das bocas dos tanques, onde existiam na altura — eles não queriam ter muito trabalho, faziam uma cova junto do lugar mais perto e despejavam lá os seus resíduos. Cheguei a ver num relatório - que foi retirado da minha secretária - mapas topográficos, fotografias dos diversos agentes com os dosers a fazerem as escavações com as lamas químicas já lá dentro porque fizeram três aterros de lamas químicas de muito grande dimensão no South Tank Farm, na zona de armazenamento de combustíveis. Quando houve a renovação desse parque de combustíveis, nos anos 80, essas lamas foram transportadas e depositadas num parque que estava abaixo do nível da estrada, que é em frente à cabeceira da pista, do lado sul, onde na altura havia uma pista de atletismo que os americanos utilizavam. Era um terreno baixo que inundava muito recorrentemente e eles colocaram-nas aí", adiantou.
Os problemas estendem-se, aliás, a outras zonas, nomeadamente aos pauis da Praia e o do Cabo da Praia.  Dentro da Base das Lajes, o cenário mantém-se, com três aterros de contaminantes.
"Foram autorizados três aterros dentro da base, de amianto, que acabaram por ser utilizados pelo setor americano para meter várias coisas e algumas não tinham nada a ver com aquilo. Cheguei a ver, e insurgi-me contra isso mas nada consegui fazer, o aterro de um contentor inteiro que pertencia à engenharia americana e alguém tinha lá materiais que queria descartar e não sabia o que lhes fazer e aproveitou o buraco e meteu o contentor lá dentro com aquilo tudo" afirma Orlando Lima.
Também fora da infraestrutura militar estão enterrados contaminantes - para além das lamas químicas. No Cabouco é conhecido um destes aterros.
Orlando Lima não tem dúvidas de que o problema da radioatividade na Terceira também é conhecido das autoridades. O caso do suposto avistamento de um extraterrestre a um de fevereiro de 1968 - que na verdade terá sido o rebentamento de um explosivo radioativo -, o processo de um militar norte-americano aos EUA por exposição a radioatividade na Terceira e as análises aos contaminantes na Base das Lajes, não deixam, para o antigo funcionário da secção de Ambiente, muito espaço para dúvidas.
Para Orlando Lima, as consequências de todos estes problemas só deverão ser conhecidas daqui a duas gerações, com um aumento de casos de cancro e de mutações genéticas. 
Todo o problema da descontaminação, avança em entrevista à Antena 1/Açores, é difícil de resolver, mas exige, em primeiro lugar, uma maior consciencialização da sociedade.
"(…) A nossa perceção de risco geralmente não é real e não havendo essa perceção de risco também não existe uma mobilização social. Terá de ser ao nível das elites, mas as elites têm outras agendas que não são, obviamente, a preocupação com a saúde pública e com a descontaminação de uma pedra no meio do Atlântico", concluiu.
Entretanto, foram encontradas munições em areia dragada ao largo da Praia da Vitória. (…)
“Aquilo que existe em termos de conhecimento popular é que houve grandes transportes de armamento, nomeadamente de bombas — umas vinham em atrelados de uma, outras de duas, consoante a sua dimensão — que eram transportadas com todo o cuidado. Entravam nas barcaças aqui no porto da Praia e na altura em que lhes estavam a dar o destino final, a descartar o armamento, as barcaças andavam numa roda-viva (…)  [O aparecimento das munições] é um risco enorme para os trabalhadores, para os equipamentos, porque tanto quanto se ouve falar existem lá explosivos de grande dimensão. Não estamos a falar de granadas que existem no fundo, estamos a falar de explosivos de grande dimensão da II Guerra Mundial. As consequências disso podem ser muito, muito graves. Eu neste momento não penso em termos de cadeia alimentar, de contaminação, penso em termos de segurança para as populações e para as pessoas que lá estão. Os barcos que fazem a dragagem tem uma sucção muito, muito potente e largam âncoras naqueles espaços. Penso que isso exige da nossa autoridade marítima uma ação imediata na procura, na busca, deteção e avaliação se de facto isso se comprova. Talvez o primeiro passo fosse interditar a exploração de areia até que se saiba mais alguma coisa sobre isso. (…) Eu até fico admirado de não ter havido nenhuma interdição.”»
in Diário Insular de 17.05.2017

1 comentário:

OLima disse...

Limpar e descontaminar é difícil e caro. Mas é fácil e barato comprar armas de defesa anti-aérea: «O Exército português vai comprar armas, radares e mísseis para defesa antiaérea num valor de 32 milhões de euros até 2026, prevê um despacho do ministro da Defesa, Azeredo Lopes. o texto do despacho assinado por José Azeredo Lopes, afirma-se que os sistemas de armamento se destinam à "proteção antiaérea de forças militares e à proteção de pontos e áreas sensíveis e de eventos de alta visibilidade".

As armas serão compradas através da agência de compras da NATO (NSPA) numa despesa "até ao montante de máximo de 32 milhões de euros", que será paga faseadamente até 2026. Em 2017, estão previstos 500 mil euros e no ano seguinte quatro milhões de euros.

No despacho, a que a Lusa teve acesso, o ministro da Defesa justifica a compra daquele armamento com a necessidade de edificar a Capacidade Proteção e Sobrevivência das Forças Terrestres.

No contrato com a `NATO Support Procurement Agency´ incluem-se oito terminais de armas do Sistema de Comando e Controlo de Artilharia Antiaérea, dois radares, oito sistemas de mísseis e oito viaturas táticas blindadas para os transportar.

A compra destes sistemas de armas "permite ainda colmatar lacunas na proteção antiaérea de baixa e muito baixa altitude", um "ativo essencial e relevante no Sistema de Defesa Aérea Nacional", salienta o ministro.

Ao longo do processo de compra, Portugal será representado pelo chefe do Estado-Maior do Exército, o general Rovisco Duarte.»
https://www.noticiasaominuto.com/pais/808365/governo-vai-comprar-sistema-de-defesa-antiaerea-de-32-milhoes-de-euros