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sábado, 3 de janeiro de 2026

EUA: DIQUES IMPOTENTES PERANTE IMPACTOS DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS


As falhas nos diques da costa oeste revelam um problema maior: as defesas contra inundações dos EUA são antigas, subfinanciadas e não foram construídas para as tempestades atuais. Um engenheiro civil que estuda infraestruturas hídricas explica por que milhões de pessoas estão em risco. Fonte.

BICO CALADO

  • De acordo com altos funcionários húngaros, o verdadeiro motor por trás do impulso da Europa para a escalada bélica não é a segurança, nem a democracia, nem a Ucrânia — mas as finanças. Os interesses bancários e financeiros europeus estão a pressionar para a guerra porque a estratégia para derrotar economicamente a Rússia falhou e as perdas são enormes. A guerra, argumentam, está agora a ser tratada como um mecanismo para recuperar custos irrecuperáveis, reestruturar a dívida e justificar novas transferências financeiras sob a bandeira da «segurança». Fonte.
  • Nos EUA, ativistas no noroeste do Pacífico estão a criar uma base de dados com matrículas utilizadas pelas autoridades de imigração, com o objetivo de acompanhar os movimentos dos agentes.
  • Grupo industrial belga interessado na produção militar nas instalações da Audi. Fonte.
  • Análise do IPPS-ISCTE calcula que a medida de alteração à duração dos contratos a prazo impedirá a cada ano 13 mil trabalhadores de ver contratos convertidos em contratos sem termo. Fonte.
  • "As pessoas com mais de 55 anos representam atualmente cerca de metade dos gastos globais dos consumidores, mas os mercados e os anunciantes ignoram-nas em grande parte. Os consumidores mais velhos não são passivos, desligados ou desinteressados no mundo. Muitos ainda trabalham, cuidam de outras pessoas, fazem voluntariado e são politicamente ativos. O que rejeitam é a rotatividade, a obsolescência planeada e a obsessão do capitalismo financeiro pela novidade em detrimento do valor. Queremos produtos que durem. Queremos simplicidade, fiabilidade e confiança. Queremos mercados organizados em torno do cuidado, da manutenção e da responsabilidade. E como esses produtos não estão a ser fabricados, os idosos recusam cada vez mais o que é vendido." Richard Murphy, Os consumidores mais velhos estão a rejeitar o mercado. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

POR QUE OS PEDÓFILOS SÃO OS CAPITALISTAS MAIS BEM-SUCEDIDOS
BettBeat Media, Substack. Trad. O’Lima.



A pergunta assombra todos os observadores honestos do poder: por que os predadores sexuais catapultam-se aos pináculos da sociedade capitalista com uma regularidade tão perturbadora? Por que o mesmo sistema que recompensa o pedófilo Jeffrey Epstein, o suposto molestador de crianças Woody Allen, o violador Harvey Weinstein e inúmeros outros monstros também os eleva a posições onde podem causar o máximo de danos? A resposta revela a verdade mais horripilante sobre o nosso sistema económico: o capitalismo não só tolera a predação sexual, como a seleciona ativamente.

O caso Epstein expõe um padrão aterrador que se estende muito além da ilha de horrores de um bilionário. Os mecanismos psicológicos que levam homens poderosos a abusar sexualmente de crianças — a forma definitiva de exploração, a necessidade de domínio absoluto, a completa desumanização dos outros, o divórcio da empatia — são precisamente os mesmos mecanismos que o capitalismo recompensa nos seus praticantes mais bem-sucedidos. Isso não é coincidência. É pressão seletiva.

A vantagem do predador

Veja-se o perfil psicológico do pedófilo bem-sucedido: eles devem ser mestres da manipulação, capazes de identificar e explorar vulnerabilidades. Devem possuir uma habilidade quase sobrenatural de compartimentar, mantendo uma persona pública enquanto cometem atos indescritíveis em privado. Devem ser hábeis em ler dinâmicas de poder, compreendendo instintivamente quem pode ser vitimado e quem deve ser cortejado. Devem sentir-se confortáveis com a objetificação completa de outros seres humanos, vendo-os como recursos a serem consumidos, em vez de pessoas que merecem dignidade.

Agora, considere o perfil psicológico do capitalista bem-sucedido: ele deve ser um mestre manipulador, capaz de identificar e explorar as vulnerabilidades do mercado. Deve possuir uma habilidade quase sobrenatural de compartimentar, mantendo a filantropia pública enquanto destrói comunidades em privado. Deve ser hábil em ler as dinâmicas de poder, compreendendo instintivamente quem pode ser explorado e quem deve ser cortejado. Deve sentir-se confortável com a objetificação completa de outros seres humanos, vendo os trabalhadores como recursos a serem consumidos, em vez de pessoas que merecem dignidade.

A sobreposição não é acidental — é sistémica. O capitalismo recompensa a psicopatia porque a psicopatia é útil para a acumulação de capital. A mesma arquitetura emocional que permite a um homem violar uma criança também lhe permite executar a hipoteca da casa de uma família, despejar resíduos tóxicos em comunidades pobres, fazer lóbi contra o financiamento do tratamento do cancro enquanto lucra com produtos cancerígenos. A capacidade de desumanização não é um erro no sistema capitalista — é a sua característica essencial.

A Rede Epstein como Laboratório Capitalista

A operação de Jeffrey Epstein não era uma aberração, mas uma expressão perfeita da lógica capitalista. A sua ilha servia tanto como laboratório para dominação sexual como centro de networking para dominação económica. Os mesmos homens que violaram crianças nos aviões de Epstein estavam simultaneamente a saquear economias inteiras através dos seus fundos de investimento e empresas de capital privado. Bill Clinton, que voou muitas vezes no «Lolita Express», também defendeu a desregulamentação financeira que possibilitou o colapso económico de 2008. Donald Trump, que alegadamente violou uma menina de 13 anos na mansão de Epstein em Manhattan, construiu o seu império imobiliário através da exploração sistemática de empreiteiros e trabalhadores.

A relação ultrapassa a falência moral compartilhada. A predação sexual e a predação económica requerem ferramentas psicológicas idênticas: a capacidade de identificar os vulneráveis, a habilidade de isolá-los dos sistemas de apoio, a capacidade de explorar desequilíbrios de poder e a disposição de destruir vidas para satisfação pessoal. A genialidade de Epstein foi reconhecer que homens que aperfeiçoaram essas competências no âmbito económico as aplicariam avidamente no âmbito sexual.

Isso explica por que a lista de clientes de Epstein parece um quem é quem do capitalismo global: gestores de fundos de investimento, banqueiros, magnatas do setor imobiliário, executivos de media e seus facilitadores políticos. Não eram homens ricos que por acaso eram pedófilos — eram pedófilos que ficaram ricos precisamente porque as características psicológicas que permitem a predação sexual também permitem a predação económica no capitalismo. E porque o poder económico permite o poder sexual sobre crianças.

A conexão israelita: onde o imperialismo encontra a violência sexual

Os tentáculos da rede de Epstein inevitavelmente levam de volta a Israel, laboratório de brutalidade capitalista racista disfarçada de «democracia». Várias fontes sugerem que Epstein operava como um agente da Mossad, usando chantagem sexual para controlar as elites políticas e económicas em nome dos interesses israelitas. Esta ligação não é surpreendente — é inevitável. Israel representa a destilação mais pura do capitalismo predatório combinado com a violência colonial, um sistema que requer a completa desumanização das suas vítimas palestinianas.

O perfil psicológico do colono que queima crianças palestinianas vivas nas suas casas, sequestra e faz desaparecer meninas palestinas de 8 anos e espanca senhoras palestinas com risadas é idêntico ao perfil psicológico do bilionário que lucra com o trabalho infantil nas suas fábricas: ambos exigem o corte completo da empatia, a objetificação total das suas vítimas e a capacidade de justificar qualquer atrocidade a serviço dos seus desejos. O Estado israelita, que opera a maior prisão a céu aberto do mundo em Gaza enquanto afirma ser um farol da civilização, opera de acordo com a mesma lógica do capitalista que impõe salários de fome enquanto dá palestras sobre «liberdade económica».


As empresas ocidentais estão ligadas ao trabalho infantil em África, particularmente nas cadeias de abastecimento de cacau e cobalto na África Ocidental e na República Democrática do Congo (RDC). Grandes empresas como a Nestlé, Mars, Cargill, Apple, Google e Tesla enfrentaram processos judiciais e escrutínio internacional por seus supostos papéis nessas práticas.

Ghislaine Maxwell, a principal cúmplice de Epstein, era filha de Robert Maxwell, um magnata dos media com amplas relações com a secreta israelita. As sofisticadas capacidades de vigilância da operação, o seu alcance internacional e a proteção contra processos judiciais têm todas as características de operações de inteligência em nível estatal. Mas, mais do que apoio operacional, Israel forneceu a estrutura ideológica que tornou possíveis os crimes de Epstein: a crença de que alguns seres humanos são inerentemente superiores a outros e, portanto, têm o direito de usar seres humanos inferiores como objetos para o seu prazer.

ADN judeu superior

A mesma ideologia supremacista que permite aos israelitas disparar contra crianças palestinianas por diversão também permite que bilionários destruam as vidas dos filhos dos trabalhadores através da destruição ambiental, da negação de cuidados de saúde e do corte de financiamento à educação. A predação sexual e a predação imperial brotam da mesma fonte envenenada da supremacia humana da qual o capitalismo depende para a sua existência.

Surpreendentemente, mas sem surpresa, Epstein era um crente devoto da eugenia — a ideologia racista pseudocientífica do século XIX da qual os seus próprios antepassados judeus haviam sido vítimas — e alimentava fantasias grandiosas de semear a raça humana com o que considerava o seu «ADN judeu superior». A ironia passou-lhe despercebida: um homem que encarnava todos os estereótipos antissemitas sobre manipulação financeira judaica e degeneração sexual reinventou-se como a raça superior. A obsessão de Epstein pela eugenia revela a peça psicológica final do quebra-cabeças do capitalista predador — a crença megalomaníaca de que a riqueza prova a superioridade genética, que o domínio económico justifica qualquer forma de programa de reprodução humana e que o direito de violar e reproduzir-se decorre naturalmente do direito de comprar e vender.

A sua quinta no Novo México teria sido concebida como um centro de reprodução onde ele engravidaria várias mulheres para espalhar os seus genes «superiores» — a fusão definitiva entre predação sexual, acumulação capitalista e ideologia fascista. O homem que traficava crianças para bilionários violadores não se via como um criminoso, mas como um benfeitor evolutivo, usando a sua riqueza para «melhorar» a espécie através da reprodução forçada. O capitalismo distorcera tanto a sua psicologia que ele acreditava genuinamente que o seu sucesso financeiro provava o seu valor genético.

O silêncio pelo capital

A prova mais contundente da cumplicidade do capitalismo na predação sexual não é o que ele faz, mas o que se recusa a ver. Apesar das provas esmagadoras de abuso infantil sistemático entre a elite global, os grandes media tratam cada revelação como um escândalo isolado, em vez de uma característica sistémica. Apesar dos padrões claros que ligam o poder económico à violência sexual, o meio académico recusa-se a examinar a conexão. Apesar dos sinais óbvios de que redes de pedofilia operam nos mais altos níveis do governo e das finanças, as autoridades policiais consistentemente deixam de investigar ou processar.

Este silêncio não é incompetência — é autopreservação. O capitalismo não pode dar-se ao luxo de reconhecer que os seus praticantes mais bem-sucedidos são também os seus predadores mais depravados, porque isso exporia a falência moral no cerne do sistema. Os mesmos media corporativos que celebram a “filantropia” dos bilionários não podem simultaneamente expor o estupro de crianças, o genocídio e o roubo cometidos por bilionários sem minar toda a mitologia da criação virtuosa de riqueza.

O sistema jurídico que protege os criminosos corporativos da responsabilização não pode, de repente, desenvolver uma consciência sobre os criminosos sexuais sem chamar a atenção para o seu preconceito sistemático a favor da riqueza e do poder. O sistema político que serve os interesses corporativos não pode processar os crimes sexuais dos seus financiadores sem cortar as suas próprias fontes de financiamento e apoio.

A trajetória fascista

Os mesmos mecanismos psicológicos que permitem o abuso de crianças individuais também permitem o abuso de populações inteiras. O bilionário que pode violar uma criança sem qualquer conflito moral também pode provocar fomes, financiar genocídios e destruir democracias com igual indiferença emocional.

É por isso que todos os movimentos fascistas da história foram financiados e apoiados pelas elites capitalistas: o fascismo é simplesmente o capitalismo sem máscara, o reconhecimento aberto de que alguns seres humanos existem apenas para servir aos prazeres e lucros de outros. Os campos de concentração da Alemanha nazi foram construídos pelos mesmos executivos corporativos que construíram as fábricas que exploravam os trabalhadores até à morte. O genocídio em Gaza é financiado pelos mesmos bilionários que lucram com a destruição da sociedade palestiniana.

A predação sexual contra crianças representa a expressão máxima dessa lógica fascista: a negação completa da autonomia, dignidade e direito de outro ser humano de existir como algo além de um objeto de consumo. Uma vez que essa barreira psicológica é ultrapassada — quando uma pessoa se torna capaz de abusar sexualmente de uma criança —, nenhum outro limite moral é capaz de contê-la. Ela torna-se capaz de qualquer atrocidade para satisfazer os seus desejos.

Quebrando o silêncio, quebrando o sistema

A relação entre pedofilia e sucesso capitalista não é uma teoria da conspiração — é um padrão observável que exige explicação. Essa explicação revela a verdade mais incómoda sobre o nosso sistema económico: ele não recompensa a virtude, a inovação ou a contribuição social. Ele recompensa a capacidade de predação, a disposição de tratar outros seres humanos como recursos consumíveis e a capacidade de romper toda ligação emocional com o sofrimento que se causa.

Jeffrey Epstein não era um monstro que por acaso era rico — ele era rico porque era um monstro. A sua riqueza não vinha de uma atividade económica produtiva, mas da sua disposição para fornecer a outros monstros acesso a vítimas que eles não poderiam obter pelos seus próprios meios. Os seus clientes não eram homens ricos que por acaso eram pedófilos — eram pedófilos que se tornaram ricos porque o capitalismo recompensa os traços psicológicos que permitem a predação sexual e económica.

A rede Epstein revela o capitalismo na sua forma mais pura: um sistema em que os mais dispostos a infligir sofrimento ascendem a posições onde podem infligir o máximo de sofrimento. As crianças destruídas na ilha de Epstein não são fundamentalmente diferentes das crianças destruídas nas fábricas exploradoras, das crianças envenenadas pela poluição industrial, das crianças assassinadas pelas bombas norte-americanas compradas com o dinheiro dos contribuintes. Todas são vítimas do mesmo sistema, sacrificadas aos mesmos deuses do lucro e do poder.

Quebrar este sistema requer mais do que processar predadores individuais — requer reconhecer que a predação não é um defeito do capitalismo, mas a sua característica essencial. Requer reconhecer que o mesmo sistema que eleva pedófilos a posições de poder supremo nunca se reformará voluntariamente. Requer compreender que a escolha perante nós não é entre diferentes tipos de capitalismo, mas entre o capitalismo e a sobrevivência humana.

As crianças que choram nas masmorras de Epstein e as crianças que morrem em Gaza clamam com a mesma voz, exigindo que escolhamos entre preservar um sistema que recompensa monstros e construir um mundo onde a dignidade humana se torne a base da organização económica e política. Os seus gritos ecoam através do tempo e do espaço, fazendo a mesma pergunta que assombra cada momento da nossa crise histórica: por quanto tempo toleraremos um sistema que recompensa os nossos destruidores e castiga os nossos protetores?

A resposta não está em reformar o capitalismo, mas em substituí-lo por um sistema económico baseado na cooperação humana, em vez da predação humana, na prosperidade partilhada, em vez da concentração de riqueza, na proteção dos vulneráveis, em vez da sua exploração. Só quando construirmos esse sistema é que os Jeffrey Epsteins do mundo perderão o seu poder de transformar crianças em mercadorias e o sofrimento em lucro.

Até lá, cada dia que permitimos que este sistema continue é mais um dia em que escolhemos os predadores em vez das suas vítimas, os monstros em vez das crianças, o sistema em vez das nossas almas. A escolha nunca foi tão clara. O tempo para escolher nunca foi tão curto. O custo de escolher errado nunca foi tão alto.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

INGLATERRA: RADIOACTIVIDADE AMEAÇA LITORAL DE CUMBRIA

Ravenglass

Há um alerta para evitar todo o contacto com a água ao longo da costa de Cumbria, perto de Whitehaven e Ravenglass. Partículas radioativas da central nuclear de Sellafield — incluindo plutónio — contaminam as praias e a água do mar, representando um risco significativo para a saúde. A monitorização oficial da segurança é condenada como um esforço enganoso para minimizar o perigo e proteger a indústria do turismo. O público é instado a boicotar as águas da região e a contestar o que descreve como um «encobrimento» oficial. Fonte.

BICO CALADO

  • Espinho – banho de ano novo 2026. Fonte: Gazeta de Espinho.
  • Câmara da Lagoa deu como sem efeito o projeto do Centro de Cuidados Renais, declarando a caducidade do processo. A decisão da Câmara Municipal surge após meses de silêncio por parte da empresa promotora, a Medifarma – José Horácio Rego Sousa, Lda., que havia solicitado um alargamento substancial dos prazos para o início da operação da unidade. As suspeitas em torno deste investimento foram levantadas originalmente pelo Bloco de Esquerda (BE). O deputado António Lima denunciou que o projeto privado é promovido pelo irmão da presidente do Conselho de Administração do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), Paula Macedo. Para os bloquistas, a intenção de externalizar o serviço de hemodiálise do hospital público coincidia com o avanço deste centro privado e com a retirada das verbas para obras na unidade pública do Plano de Investimentos para 2026. FonteÉ trágico constatar este esboroar dos serviços públicos em prol de entidades privadas, cujo objetivo primordial é o lucro – obtido, neste caso, à custa do bem-estar das pessoas. É, portanto, digno de elogio a frontalidade e a determinação das instituições que trouxeram este caso a público, empenhadas em salvaguardar os direitos conquistados com o 25 de Abril.
  • Município de Lagoa, Açores, lidera a construção de casas novas em Portugal, mas o recorde de oferta é acompanhado por uma escalada de preços: no último triénio, a avaliação imobiliária disparou 23,4%. Fonte: Diário da Lagoa, Janeiro de 2026.

LEITURAS MARGINAIS

FRANCESCA ALBANESE E O CAMINHO SOLITÁRIO DA REBELDIA
Chris Hedges, Substack. Trad. O’Lima.



(…) Francesca (…) é a bête noire de Israel e dos EUA. Foi colocada na lista do Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA — normalmente usada para sancionar os acusados de lavagem de dinheiro ou envolvimento com organizações terroristas — seis dias após a publicação do seu relatório, “Da economia da ocupação à economia do genocídio”.

A lista da OFAC — usada pela administração Trump para perseguir Francesca e em clara violação da imunidade diplomática concedida aos funcionários da ONU — proíbe qualquer instituição financeira de ter alguém da lista como cliente. Um banco que permita que alguém da lista da OFAC realize transações financeiras é proibido de operar em dólares, enfrenta multas multimilionárias e é bloqueado dos sistemas de pagamento internacionais.

No seu relatório, Francesca lista 48 empresas e instituições, incluindo a Palantir Technologies, a Lockheed Martin, a Alphabet Inc., a Amazon, a International Business Machines Corporation (IBM), a Caterpillar Inc., a Microsoft Corporation e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), juntamente com bancos e empresas financeiras como a BlackRock, seguradoras, imobiliárias e instituições de caridade, que, em violação do direito internacional, estão a ganhar milhares de milhões com a ocupação e o genocídio dos palestinianos.

O relatório, que inclui uma base de dados com mais de 1.000 entidades corporativas que colaboram com Israel, exige que essas empresas e instituições rompam os laços com Israel ou sejam responsabilizadas por cumplicidade em crimes de guerra. O relatório descreve a «ocupação eterna» de Israel como «o campo de testes ideal para fabricantes de armas e grandes empresas de tecnologia — proporcionando oferta e procura ilimitadas, pouca supervisão e zero responsabilização — enquanto investidores e instituições privadas e públicas lucram livremente».

Francesca, cujos relatórios anteriores, incluindo «Genocídio em Gaza: um crime coletivo» e «Genocídio como apagamento colonial», juntamente com as suas denúncias apaixonadas do massacre em massa de Israel em Gaza, tornaram-na um alvo fácil. Ela é criticada sempre que se desvia do guião aprovado, incluindo quando manifestantes pró-Palestina invadiram a sede do jornal diário italiano La Stampa enquanto estávamos em Itália.

Francesca condenou a invasão e a destruição de propriedade — os manifestantes espalharam jornais e pintaram slogans nas paredes, como «Palestina Livre» e «Jornais cúmplices de Israel» —, mas acrescentou que isso deveria servir como um «aviso à imprensa» para que fizesse o seu trabalho. Essa qualificação expressou a sua frustração com o descrédito dos media em relação às reportagens dos jornalistas palestinianos — mais de 278 jornalistas e profissionais dos media foram mortos por Israel desde 7 de outubro, juntamente com mais de 700 membros de suas famílias — e a amplificação acrítica da propaganda israelita. Mas isso foi aproveitado pelos seus críticos, incluindo a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, para linchá-la.

O secretário de Estado Marco Rubio impôs sanções a Francesca em julho.

«Os EUA condenaram e opuseram-se repetidamente às atividades tendenciosas e maliciosas de Albanese, que há muito a tornam inadequada para o cargo de Relatora Especial», dizia o comunicado de imprensa do Departamento de Estado. «Albanese tem espalhado antissemitismo descarado, expressado apoio ao terrorismo e desprezo aberto pelos EUA, Israel e o Ocidente. Esse preconceito tem sido evidente ao longo de toda a sua carreira, incluindo a recomendação de que o TPI, sem base legítima, emitisse mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant.»

«Recentemente, ela intensificou esses esforços escrevendo cartas ameaçadoras a dezenas de entidades em todo o mundo, incluindo grandes empresas norte-americanas dos setores financeiro, tecnológico, de defesa, energético e hoteleiro, fazendo acusações extremas e infundadas e recomendando que o Tribunal Penal Internacional investigasse e processasse essas empresas e os seus executivos», continuou. «Não toleraremos essas campanhas de guerra política e económica, que ameaçam os nossos interesses nacionais e a nossa soberania.»

juntamente com dois juízes, por emitirem mandados de prisão contra Netanyahu e Gallant.

Francesca está proibida de entrar nos EUA, mesmo para comparecer na Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, para apresentar um dos seus dois relatórios anuais. O outro é entregue no Gabinete das Nações Unidas em Genebra.

Os bens de Francesca nos EUA foram congelados, incluindo a sua conta bancária e o seu apartamento nos EUA. As sanções excluíram-na do sistema bancário internacional, incluindo o bloqueio do uso de cartões de crédito. O seu seguro médico privado recusa-se a reembolsar as suas despesas médicas. Os quartos de hotel reservados em seu nome foram cancelados. Ela só pode operar usando dinheiro ou pedindo um cartão bancário emprestado.

Instituições, incluindo universidades norte-americanas, grupos de direitos humanos, professores e ONGs, que antes cooperavam com Francesca, romperam relações, temendo as penalidades estabelecidas para qualquer cidadão norte-americano que colabore com ela. Ela e a sua família recebem frequentes ameaças de morte. Israel e os EUA montaram uma campanha para removê-la do seu cargo na ONU.

Francesa é a prova de que, quando se mantém firme ao lado dos oprimidos, será tratado como um oprimido.

Ela não tem a certeza se o seu livro, «When the World Sleeps: Stories, Words, and Wounds of Palestine» (Quando o mundo dorme: histórias, palavras e feridas da Palestina), que foi traduzido para inglês e tem lançamento previsto para abril do próximo ano, será distribuído nos EUA.

«Sou uma pessoa sancionada», diz ela com tristeza.

Mas ela não se intimida. A sua próxima salva será um relatório que documenta a tortura de palestinianos nas prisões israelitas. Embora a tortura, segundo ela, «não fosse generalizada» antes de 7 de outubro, agora tornou-se omnipresente. Ela está a recolher testemunhos de pessoas libertadas da detenção israelita.

«Isso lembra-me as histórias e os testemunhos que li sobre a ditadura argentina», diz Francesca. «É tão ruim assim. É tortura sistémica contra as mesmas pessoas. As mesmas pessoas são levadas, violadas e trazidas de volta, levadas, violadas e trazidas de volta.»

«Mulheres?», pergunto.

«Ambos», responde ela.

«Ter mulheres a contar-lhe que foram violadas, várias vezes. Que lhes pediram para masturbar soldados. Isto é incrível», diz Francesca. «Para uma mulher dizer isso. Imagine o que elas passaram? Há pessoas que perderam a voz. Não conseguem falar. Não conseguem falar depois do que passaram.»

As organizações mediáticas dominantes, diz ela, não só repetem obedientemente as mentiras israelitas, como bloqueiam rotineiramente as reportagens que refletem negativamente sobre Israel.

«Em abril, denunciei os primeiros casos de assédio sexual e violação que ocorreram em janeiro e fevereiro de 2024», diz ela. «As pessoas não queriam ouvir. O New York Times entrevistou-me durante duas horas. Duas horas. Não publicaram uma linha sobre isso.»

“O Financial Times tinha — devido à relevância do tema — uma versão embargada de ‘Da economia da ocupação à economia do genocídio’”, diz ela. “Não publicaram. Nem sequer publicaram uma resenha, um artigo, dias após a conferência de imprensa. Mas publicaram uma crítica ao meu relatório. Tive uma reunião com eles. Eu disse: ‘Isso é realmente deprimente. Quem são vocês? São pagos pelo trabalho que fazem? A quem são leais, aos seus leitores?’ Eu pressionei-os. Eles disseram: ‘Bem, não achamos que estava de acordo com os nossos padrões’.”

É assim, digo-lhe eu, que o New York Times censura as matérias dos repórteres que os editores consideram demasiado incendiárias.

«Eles desacreditam as suas fontes, independentemente de quais sejam», digo-lhe. «Isso torna-se o pretexto para não publicarem. Não é uma discussão de boa-fé. Eles não estão a fazer uma análise justa das suas fontes. Estão a rejeitá-las categoricamente. Não estão a dizer a verdade, que é: «Não queremos lidar com Israel e o lóbi israelita.» Essa é a verdade. Eles não dizem isso. Dizem sempre: «Não está de acordo com os nossos padrões.»

«Já não há media livre, nem imprensa livre na Itália», lamenta Francesca. «Existe, mas é marginal ou periférica. É uma exceção. Os principais jornais são controlados por grupos ligados a grandes poderes, financeiros e económicos. O governo controla — direta ou indiretamente — grande parte da televisão italiana.»

A tendência para o fascismo na Europa e nos EUA, diz Francesca, está intimamente ligada ao genocídio, assim como a resistência emergente.

«Há uma raiva e insatisfação crescentes com a liderança política na Europa», diz ela. «Há também um medo que persiste em muitos países devido à ascensão da direita. Já passámos por isso. Há pessoas que têm memórias vivas do fascismo na Europa. As cicatrizes do nazifascismo ainda estão lá, até mesmo o trauma. As pessoas não conseguem processar o que aconteceu e por que aconteceu. A Palestina chocou as pessoas. Os italianos em particular. Talvez porque somos quem somos, no sentido de que não podemos ser silenciados tão facilmente, não podemos ser assustados como aconteceu com os alemães e os franceses. Fiquei chocada em França. O medo e a repressão são incríveis. Não é tão mau como na Alemanha, mas é muito pior do que era há dois anos. O ministro da Educação em França cancelou uma conferência académica sobre a Palestina no Collège de France — a instituição mais importante de França. O ministro da Educação! E gabou-se disso.

Francesca diz que a nossa única esperança agora é a desobediência civil, representada por ações como greves que perturbam o comércio e o governo ou as tentativas das frotas de chegar a Gaza.

«As frotas criaram essa sensação de 'Ah, algo pode ser feito'», diz ela. «Não somos impotentes. Podemos fazer a diferença, mesmo que seja abalando o chão, balançando o barco. Então os trabalhadores entraram em ação. Os estudantes já foram mobilizados. Houve uma sensação, através dos vários protestos, de que ainda podemos mudar as coisas. As pessoas começaram a ligar os pontos.»

Francesca apresentou o seu relatório de 24 páginas intitulado «Genocídio em Gaza: um crime coletivo» à Assembleia Geral da ONU em outubro, um relatório que teve de ser entregue remotamente a partir da Fundação Desmond e Leah Tutu Legacy, na Cidade do Cabo, África do Sul, devido às sanções.

Danny Danon, embaixador de Israel nas Nações Unidas, após a apresentação, disse: “Sra. Albanese, a senhora é uma bruxa e este relatório é mais uma página do seu livro de feitiços”. Ele acusou-a de tentar “amaldiçoar Israel com mentiras e ódio”.

«Cada página deste relatório é um feitiço vazio, cada acusação, um encantamento que não funciona, porque você é uma bruxa fracassada», continuou Danon.

«Isso desencadeou um momento de iluminação», diz Francesca sobre os insultos. «Eu relacionei isso com a injustiça que as mulheres têm sofrido ao longo dos séculos. O que está a acontecer aos palestinianos e àqueles que se manifestam em defesa dos palestinianos é o equivalente em 2025 à queima de bruxas na praça pública”, continua ela. “Isso foi feito a cientistas e teólogos que não se alinhavam com a Igreja Católica. Foi feito a mulheres que detinham o poder das ervas. Foi feito a minorias religiosas, a povos indígenas, como o povo Sámi. A Palestina abriu um portal para a história, para as nossas origens e para o que arriscamos se não travarmos”.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

BOM ANO DE 2026

2025, foi intenso. Agradeço a tod@s os que aqui vieram partilhar ideias comigo. 
Entre um ano e outro, há mais do que o simples virar de uma página do calendário. Há um momento suspenso no ar, uma ponte feita de esperança.

Agora, dou um salto de coração aberto para 2026! Que ele nunca seja pior do que o que agora termina. Bom Ano Novo!

TEJO INTERNACIONAL: APA CHUMBA FOTOVOLTAICA DA BEIRA

  • A comissão de avaliação coordenada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) chumbou o projeto da central fotovoltaica da Beira após identificar impactos negativos significativos ao nível dos sistemas ecológicos e do uso de solo. A promotora do projeto dispõe agora de 6 meses para introduzir as alterações que entender adequadas para minimizar os impactes negativos identificados e compatibilizar o projeto com os valores em presença. Fonte.
  • A energia solar barata está a transformar vidas e economias em toda a África. Os painéis chineses estão agora tão acessíveis que as empresas e as famílias estão a comprá-los depressa, reduzindo as suas contas e desafiando as empresas de serviços públicos. Fonte.
  • Os centros de dados de IA estão a recorrer a motores a jato e diesel porque a rede elétrica não consegue acompanhar. A alimentação da IA está a tornar-se mais barulhenta, mais poluente e mais complicada. Fonte.

BICO CALADO

  • A Força Aérea Portuguesa adjudicou a construção de um alojamento para Sargentos na Base Aérea 8, em Maceda, Ovar. Além de alojamento, o projeto inclui instalações e equipamentos elétricos e mecânicos, infraestruturas de telecomunicações, e arranjos exteriores. A empreitada vai custar cerca de 3 milhões de euros sendo o prazo de execução de 365 dias.
  • Documentos governamentais recém-divulgados sugerem que o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair pressionou autoridades para impedir que soldados britânicos acusados de abusar de detidos iraquianos fossem julgados em tribunais civis. Fonte.
  • Pela primeira vez desde a fundação do Estado de Israel, o governo anunciou um boicote ao jornal Haaretz, acusando-o de apoiar «inimigos» em tempo de guerra. O governo decidiu cortar relações com o Haaretz tanto em questões publicitárias como editoriais. Ministérios, agências de publicidade e empresas financiadas pelo Estado receberam instruções para interromper todas as formas de contacto com o jornal. Fonte.

LEITURAS MARGINAIS

PORTUGAL À DERIVA NA TEMPESTADE
Viriato Soromenho-Marques, Jornal de Letras (5 MARÇO 2025)


Imagem criada por IA

As grandes crises revelam os grandes líderes. Contudo, apenas quando os povos têm a sorte e a capacidade de os produzirem. A guerra da Ucrânia, que já entrou no seu quarto ano é, sem dúvida, a maior crise existencial de toda a história portuguesa, pois é a primeira vez que Portugal tem um governo que se deixou, com entusiástica estultícia, enrolar num confronto com a Rússia, totalmente contrário ao interesse nacional mais elementar, o salus populi suprema lex esto (seja a salvação do povo a lei suprema), imortalizado no De Legibus, de Cícero. Nem os fanáticos que queriam declarar guerra ao império britânico, na sequência do Ultimato de 1890, nem o furioso Afonso Costa, colocando Lisboa a ferro e fogo em maio de 1915 para enviar, por decisão unilateral, milhares de soldados analfabetos para a Flandres, se comparam à façanha do mesquinho consenso nacional que vai de António Costa a Rui Tavares, numa contemporânea demonstração da veracidade da tese de Unamuno que considerava ser Portugal um país de suicidas. O que continua em causa é a possibilidade de Portugal ser destruído num conflito total com a Rússia, o país com o mais poderoso e moderno arsenal nuclear do planeta.

Estamos a falar de acontecimentos vertiginosos, desde a chegada de Trump à Casa Branca. Vejamos, apenas, alguns das dimensões mais permanentes, neste quadro de incerta mudança.

Primeira. As negociações de paz, iniciadas por Trump com a Rússia, são boas notícias para os povos da Europa e do mundo. Afastam, pelo menos provisoriamente, o pior cenário, para onde estaríamos a rumar caso a linha de escalada bélica seguida por Biden tivesse prosseguido. Essas negociações, onde nem Zelensky nem a UE contam, revelam a justeza dos analistas, entre os quais me encontro desde sempre, que consideraram esta guerra como uma guerra de procuração (proxy war) dos EUA contra a Rússia, usando o território e o sangue ucranianos como instrumentos. Bruxelas protesta, porque Trump deixou cair o véu de Maia, a cortina ilusória, que fazia do apoio da UE à Ucrânia um assunto de direito internacional. Na verdade, tratava-se da prova de que os nossos governantes europeus não hesitam em sacrificar a qualidade de vida e a segurança dos seus povos, para servirem o império americano, e o seu desígnio persistente de fragmentar a Rússia.

O caso mais aberrante de autoflagelação europeia é o da Alemanha, quando o governo de Scholz tudo fez para manter a lealdade canina com Washington, imolando para isso a qualidade de vida e a saúde económica do seu próprio país.

Segunda. As perspetivas de “paz imperfeita”, mil vezes melhor do que a continuação do conflito, só foram possíveis, para além das mudanças em Washington, pela clara superioridade militar das forças convencionais russas, apesar da valentia das tropas ucranianas e das correntes inesgotáveis de material bélico recebido dos países da NATO ao longo destes três anos. Os EUA nunca acreditaram, ao contrário da ignara arrogância de Bruxelas, que a máquina de guerra russa poderia ser derrotada no plano convencional. Como o secretário da Defesa L. Austin afirmou, logo em maio de 2022, o objetivo dos EUA era o de fazer “sangrar a Rússia”, enquanto Kiev tivesse capacidade para o fazer. No cenário, altamente improvável, de as tropas de Kiev com o apoio de “voluntários” ocidentais se aproximarem de uma derrota das forças convencionais russas, Moscovo não se renderia. Faria o que a sua doutrina há décadas promulga: escalaria ao uso limitado do nuclear, para obrigar o inimigo a pensar duas vezes antes de prosseguir até à guerra total. Por outras palavras, a vitória convencional e limitada da Rússia, parece ter salvo os povos da Europa de serem vítimas da irresponsabilidade estratégica dos seus dirigentes.

Terceira. A paz que está a ser negociada só poderá ser duradoura se se traduzir num tratado que defina as regras do jogo no sistema internacional europeu, pretensão que a Rússia sempre perseguiu, mesmo desde os tempos de Gorbachev. Há, contudo, dois obstáculos no caminho. Por um lado, aquilo que prevalece no discurso europeu (com apoio da administração Trump) é a ideia de a UE fazer da corrida armamentista o novo objetivo estratégico (rasgando e substituindo o famoso Pacto Ecológico, onde a minha derradeira credulidade se esgotou). A Rússia jamais permitirá que uma nova guerra seja preparada à sua vista, sem nada fazer. Por outro lado, Trump está a jogar perigosamente não só com os seus aliados, mas também com o próprio aparelho de Estado federal e com alguns dos poderosos interesses nele instalados. Considero bastante provável que um atentado contra Trump, desta vez bem-sucedido, possa desencadear uma segunda guerra civil americana, cujas consequências são totalmente imprevisíveis.

Quarta. Só um milagre poderia impedir as forças centrífugas dentro da UE de prevalecer. Não sei quanto tempo ainda teremos antes de este edifício, cheio de fissuras, nos tombar sobre a cabeça. A zona Euro, totalmente dependente de Wall Street e da Reserva Federal, irá contribuir para que governos e povos fiquem paralisados à espera do pior. Curiosamente, os furiosos governos anti-russos do Leste da Europa, darão, provavelmente, lugar a novos governos favoráveis à colaboração com Moscovo. A UE será a grande vítima da guerra da Ucrânia. Os insensatos que em Bruxelas abraçaram uma política totalmente oposta às realidades históricas e geopolíticas da Europa, serão, pelo menos, testemunhas do imperdoável caos em que nos fizeram mergulhar.