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A apresentar mensagens correspondentes à consulta contos proibidos ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Contos proibidos (23)

“Naquele período, a resistência ao PCP representava um verdadeiro sorvedouro de dinheiro, que Mário Soares ia mandando entregar por intermédio dos seus colaboradores. E bem melhor do que a minha memória, os meus registos mostram as seguintes entregas em dinheiro para operações de resistência ao PCP: a 23 de Setembro, 300 contos depositados na conta da Associação António Ségio e, nesse mesmo dia, 1000 contos entregues a Gustavo Soromenho para o jornal A Luta. No dia 27 de Setembro, 1000 contos entregues ao cunhado de Mário Soares, José Manuel Duarte. Depois ao tesoureiro do PS entregaria 1000 contos a 30 de Setembro, 2000 contos a 28 de Outubro e 500 contos a 11 de Novembro. A 20 de Novembro seriam entregues quinhentos mil escudos mais. No rescaldo do 25 de Novembro, certamente para pagar despesas pendentes, seriam entregues, a 1 de Dezembro, 1800 contos à Administração Financeira do PS e, a 4 de Dezembro, mais 500 contos ao tesoureiro Carlos Carvalho.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p90

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Contos proibidos (41)

“Para que se tenha uma ideia, o financiamento da Fundação Friedrich Ebert a estas quatro instituições, só no ano de 1979, seria de 8800 contos para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento (IED), 13800 contos para a Fundação Azedo Gneco, 10000 contos para a Fundação Antero de Quental e 45 400 contos para a José Fontana. Na nota que a Fundação Ebert então enviou ao secretário-geral e ao Departamento Internacional do PS, esta previa adicionar, nesse ano, 1000 contos para um seminário a efectuar pelo IED, sete seminários de duas semanas e 20 participantes em cada um, mais um seminário de uma semana e 20 participantes, todos na Alemanha, a organizar com a Fundação Azedo Gneco. Previa-se aumentar o orçamento da Fundação Antero de Quental com um montante avaliado entre mais cinco a sete mil contos e juntar ao orçamento da Fundação José Fontana vários programas de convite para sindicalistas da UGT. (...) Os apoios da central sindical norte-americana, AFL/CIO, eram coordenados por Irving Brown e por Michael Boggs que, a 7 de Julho de 1977, visitou secretamente a Fundação. Por determinação de Mário Soares, o representante da Fundação Ebert em Lisboa e os escandinavos, estavam impedidos de ter conhecimento das relações cruzadas da Fundação José Fontana com os americanos.

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp150-151

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Contos proibidos (65)

“Quando ali cheguei já este se encontrava com Menano do Amaral. Tinha um cheque da Weidleplan em marcos emitido em seu nome e com obrigatoriedade de depósito, que pretendeu entregar-nos da parte de Richard Weidle. Menano do Amaral, responsável pelo administração financeira, recusou-se a recebê-lo alegando o facto de não vir emitido à Emaudio ou à FRI. Pedi então à directora administrativa que contactasse o banco, para saber o que fazer. O funcionário daquele banco, o Chase Manhattan em Lisboa, informaria que seria melhor ser Strecht Monteiro a depositar o cheque, já que vinha emitido em seu nome, podendo depois transferir aquela quantia para a conta da Emaudio. Strecht disse que ele próprio trataria do assunto e saiu disparado. Telefonaria mais tarde dizendo que tinha resolvido o assunto com o seu banco de Santa Maria da Feira, pedindo se o meu motorista o poderia ir
buscar ao aeroporto no dia seguinte. E assim aconteceria. No dia seguinte apresentar-se-ia na Rua da Palmeira com um saco donde retiraria massos de notas de cinco mil escudos, no total de cerca de cinquenta mil contos. Estariam presentes inicialmente João Tito de Morais e eu, chegando Menano do Amaral no momento em que eram contados os maços. Ao mesmo tempo que Strecht Monteiro partia com o seu saco, muito pouco tempo depois de ter chegado, seriam entregues numa pasta de cabedal
31 mil contos à directora administrativa que, juntamente com um cheque de quatro mil contos que Menano do Amaral trouxera consigo, os iria depositar na conta da Emaudio e transferir para a Portopress, a empresa editora da Face, do Notícias de Primeira Página, do Autosport e do Blitz(...)  Este episódio aconteceria numa altura de grande perturbação para mim e alguns dos seus contornos são um pouco nebulosos. Não porque, tanto quanto eu sei, a entrega daquela contribuição tivesse algo de invulgar — era exactamente igual a tantas outras que ocorreriam no âmbito do PS e das suas fundações, ao longo de inúmeros anos —, mas porque estava mais preocupado com a súbita doença de meu pai, que viria a falecer no dia 10 de Janeiro.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp 316-317

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Contos proibidos (40)

“A Fundação José Fontana seria constituída em Outubro de 1977, por vinte e cinco fundadores com um capital inicial de mil contos. Dirigida por Maldonado Gonelha viria a movimentar algumas centenas de milhares de contos, oriundos principalmente da Alemanha mas também da Suécia, da Noruega e dos Estados Unidos. A ideia da constituição desta fundação seria da sua congénere alemã, que desde logo tinha o movimento sindical em mente. Uma ideia que era igualmente compartilhada pela CIA e pela confederação sindical americana, AFL/CIO.

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p149

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Contos proibidos (47)

"Quatro anos depois, em 1990, teria conhecimento que aquele artista (João Gomes) tinha processado a Fundação com a alegação que esta lhe deveria ter devolvido os originais das caricaturas. (...) As caricaturas tinham sido pagas e quem negociou os seus termos fora o jornalista e dirigente socialista João Gomes. Pedi a Roque Lino, fundador do PS e advogado, que se encarregasse do assunto e pediria a João Gomes que o informasse dos termos em que fizera o «contrato». Caso se verificasse que aquele artista tinha direitos sobre os originais, contrariamente ao que me fora dito sete anos antes, não haveria outra solução senão pedir a Mário Soares para os devolver ao artista, conforme era solicitado. Longe de mim qualquer intenção de ficar com um trabalho de tão alegado valor artístico. Mas Mário Soares não devolveria os seus originais e eu acabaria por ter que ir a tribunal enquanto presidente da FRI (Fundação de Relações Internacionais). Tanto quanto me seria então dito, o artista estava disposto a trocar a autoria dos seus «cartoons» por uma compensação de quinhentos contos, que eu teria de pagar do meu bolso logo ali, uma vez que então a Fundação não possuía meios para pagar esta dívida. A Mário Soares, que detém o livro, ninguém lhe ouviu uma única palavra não obstante toda a publicidade que jornais, com relevo para o Público — de que o artista então era colaborador — dariam àquele caso."

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp243-244.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Contos proibidos (72)

"Segundo afirmariam os acusados e a Inspecção Geral de Finanças em grande parte confirmaria, os cinquenta mil contos da Weidleplan seriam um donativo político igual a milhares de outros. Entrariam nos cofres da Emaudio e nenhum dos acusados dele beneficiaria directamente. Porquê então a minha acusação? E, nesse caso, porque não semelhante procedimento quando Stanley Ho, que tem vindo a ganhar todas as grandes adjudicações em Macau, admite ter financiado a Fundação Mário Soares?"

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p368

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Contos proibidos (68)

“Naquele dia, passada menos de meia hora da minha entrada, ser-me-ia anunciado que o procurador-geral-adjunto, Rodrigues Maximiano, munido de um mandato de busca passado vinte dias antes, estava na recepção e pretendia falar comigo. Mas, apesar de então ter pedido para falar comigo diria, depois, que a minha presença não seria obrigatória. Dir-me-ia, então, existirem suspeitas de difamação do governador de Macau ou de burla à Weidleplan. Perguntar-me-ia pelo fax do qual eu imeditamente lhe disse ter conhecimento mas não possuir comigo. Mandou então proceder à busca no meu gabinete e, cinco segundos passados, o subinspector António Coutinho da PJ, exclamando «cá está ela», encontra num compartimento sem fechadura da mesa do telefone, uma caixa de cartão ainda com cintas de maços de notas. Perante a minha estupefacção perguntaria aos funcionários se alguma vez tinham visto aquela caixa. Todos negariam alguma vez terem visto aquela caixa e em especial a minha secretária, que tinha acesso ao meu gabinete assim como as mulheres da limpeza, de uma firma exterior à Emaudio. Eu guardava medicamentos naquele compartimento e não era verosímil tal caixa ali ficar esquecida desde Janeiro de 1989! Servia, contudo, perfeitamente, a tese da «burla» preparando-se então o procurador-geral-adjunto e sua comitiva para abandonar o edifício. Eu há muito estava desconfiado de que algo estava a ser tramado contra mim. Assim, antes de partir para os EUA a 15 de Abril, colocara quatro recibos de pagamentos a Carlos Melancia num envelope branco com o meu nome e mandara-os colocar na casa forte. Outros documentos que eu ali mandara colocar, não despertariam o menor interesse. Mandara-os lá colocar para o que desse e viesse. Aliás, estou hoje fortemente convencido de que se eu não tivesse provocado o aparecimento daqueles documentos, teria sido logo ali detido e o rumo da chamada investigação, que então eu baralhara, iria conduzir-me a mim e a Menano do Amaral ao banco dos réus acusados de ter «burlado» a Weidleplan e «difamado» o governador de Macau. Mas quando vi a caixa ser produzida, além de surpreendido tive a nítida sensação de que fora lá recentemente colocada por alguém e que o subinspector sabia o que procurava. Assim, num ápice, quando Rodrigues Maximiano já se preparava para dar por terminada a sua rápida busca e, convencido de que aquele procurador me iria deter ali mesmo, vi a palavra «burla» diante de mim e «forçá-los-ia» a continuar a busca e a visitar a caixa forte, para encontrar os documentos. Esta caixa deveria ter sido um elemento fundamental na investigação mas, lamentavelmente, Rodrigues Maximiano só lhe ligaria importância para a considerar no quadro das declarações de Stercht Monteiro, isto é, que fora «aquela» caixa que transportara os cinquenta mil contos embora se enquadrasse, perfeitamente, no timing do complot que eu penso ter sido fabricado contra mim e já descrito. Considerei o desinteresse de Maximiano e a falta de isenção em não querer aprofundar as investigações sobre a referida caixa, como chocantes. Por esse motivo ficaria sempre com as maiores dúvidas sobre se o procurador, ao contrário do que acontecera comigo, não saberia antecipadamente que ali iria encontrar aquela caixa.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp335-336

domingo, 7 de julho de 2013

Contos proibidos (44)

“Tivemos então os três (Rui Mateus, Mário Soares e Isabel Soares) uma conversa sobre o Partido Socialista que jamais esquecerei. Seria a primeira vez que me zangaria seriamente com Mário Soares e que perceberia que, para ele, o Partido Socialista não era um instrumento de transformação do País baseado num ideal generoso, mas sim uma máquina de promoção pessoal.
Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p229.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Contos proibidos (39)

“Acometido de certo progressivismo pacóvio, o primeiro-ministro deu instruções ao embaixador Themido para mandar desconvocar o aparato policial que o Governo americano tinha mandado colocar para sua segurança. A explicação para aquela insólita decisão foi a de que se não sentia ameaçado pela população e, pelo contrário, o seu passado habituara-o a desconfiar das polícias.
Depois de negociações embaraçosas para o representante de Portugal, o responsável pela segurança, que estava a obedecer a ordens superiores, foi autorizado de Washington a reduzi-la, tendo para o efeito obrigado Mário Soares a assinar um documento assumindo todas as responsabilidades por essa decisão. Mas a verdadeira razão prendia-se com o facto de ele ter combinado para essa noite um encontro em casa da milionária Victoria Kent, na 5.a Avenida, com o velho grupo de que faziam parte Marvin Howe e Louisa Grant, que lhe promovera contactos com correspondentes estrangeiros no Overseas Press Club, em 1970. Dada a curta distância do hotel, ele pretendia fazer o percuso a pé e não queria chegar àquele encontro privado de velhos amigos com o enorme aparato policial que tinha sido montado para sua segurança.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp141-142

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Contos proibidos (37)

“Quem iria representar o PS a Madrid seriam então Salgado Zenha e eu tendo, à última hora, Mário Soares decidido enviar a sua mulher em sua representação. Teve então o ensejo de ouvir a monumental assobiadela dos congressistas do PSOE, que considerariam a ausência do primeiro-ministro português como uma falta de solidariedade.

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p134

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Contos proibidos (26)

Edmundo Pedro não era só membro do Secretariado Nacional do PS. Era, na altura em que foi detido, deputado e membro do Conselho de Administração da RTP. Mas, enquanto antifascista, desde os 13 anos de idade que conhecera várias prisões políticas e passara quase uma década no campo do Tarrafal. Depois da sua aberrante detenção, em Janeiro de 1978, ainda passaria mais seis meses na prisão, por não querer contar a verdade sobre as armas. Embora não morresse de amores pelo Presidente Ramalho Eanes receava comprometer o secretário-geral do seu Partido, então primeiro-ministro. Este, por sua vez, com receio de ser comprometido, nunca sentiu necessidade de «obrigar» Edmundo Pedro a revelar toda a verdade que incluía, obviamente, a co-responsabilização dos então Presidente da República e primeiro-ministro no «Processo das Armas», para a resistência à tentativa de tomada de poder pelo PCP e forças da extrema-esquerda. Mas, vinte anos depois, ambos apareceriam a querer protagonizar a liderança daquele processo. Absolvido em Novembro de 1978, Edmundo Pedro seria, ironicamente um dos raros heróis do 25 de Novembro e o primeiro preso político do regime democrático que o 25 de Novembro viabilizara!

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p93

sábado, 8 de junho de 2013

Contos proibidos (28)

“O papel da CIA em Portugal, de apoio à democratização do nosso país, tinha para os americanos uma importância muito especial. Ainda a traumática intervenção americana no Vietname estava bem presente no dia a dia da América, quando foi revelado o papel da CIA e do próprio secretário de Estado, Kissinger, contra Salvador Allende, no Chile. O apoio ao PS e à democracia em Portugal ajudariam de alguma maneira a dissipar o pesadelo daquelas aventuras e marcaria o início de uma nova política externa dos Estados Unidos. Começaria com Portugal, em 1975, durante a vigência de um governo republicano profundamente desacreditado, mas seriam os democratas James Cárter e Walter Mondale, a partir de 1977, quem melhor a simbolizaria.

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p104

domingo, 18 de agosto de 2013

Contos proibidos (67)

“No seguimento da publicação do fax, o procurador-geral da República declararia a 21 de Fevereiro a abertura de um inquérito «na defesa da legalidade e no próprio interesse da dignidade e bom nome da Administração do Território de Macau», que seria levado a cabo pelo procurador-geral-adjunto, Rodrigues Maximiano. O Ministério Público tem obrigação de mandar arquivar o inquérito «logo que tiver recolhido prova bastante de se não ter verificado crime» ou se não obtiver «indícios suficientes da verificação do crime», embora segundo a lei penal a prova seja «apreciada segundo as regras
da experiência e a livre convicção da entidade competente». Assim, no espaço recorde de seis meses, para o que é alegadamente regra geral dos inquéritos conduzidos pelo Ministério Público1, o procurador-geral-adjunto. Rodrigues Maximiano, deduziria acusação contra Carlos Melancia pelo «crime de corrupção passiva por acto ilícito» e contra mim, Richard Weidle, Peter Bier, Strecht Monteiro, João Tito de Morais e Menano do Amaral pelo «crime de corrupção activa» em co-autoria.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p330

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Contos proibidos (42)

“A partir da sua eleição em Genebra, em 1976, os vice-presidentes da Internacional Socialista Bettino Craxi e Mário Soares estabeleceriam uma relação de grande amizade pessoal. Um tipo de relacionamento descontraído, comum a pessoas com gostos e pontos de vista semelhantes. O PSI tinha ajudado bastante a Acção Socialista através de Manuel Tito de Morais, que vivera exilado em Roma, mas, depois do 25 de Abril esse apoio seria relativamente modesto. Assim, eu seria surpreendido quando Mário Soares informou que a situação mudara e que o seu cunhado e eu nos deveríamos deslocar a Milão no dia 15 de Setembro (1977), a fim de receber uma considerável quantia de dinheiro. Naquele dia, Fernando Barroso e eu teríamos à nossa espera um dos acessores de Craxi para assuntos financeiros, Ferdinando Mach, que nos levaria numa agradável viagem de carro à cidade de Lugano na Suíça, onde nos seria entregue aquele dinheiro. Meio milhão de dólares que deixavam o partido numa situação desafogada. Nunca me foi dito qual a razão dessa generosa dádiva e nem a mim me competia fazer quaisquer «investigações». (...)Tivesse eu questionado o secretário-geral do PS, naquela data, sobre assuntos desta natureza e ser-me-ia dito tratar-se de assuntos que me não diziam respeito. Pior, no voltar da esquina perderia o lugar no Secretariado, sem apelo nem agravo. Aliás era o domínio sobre estas matérias que garantia o poder no PS e todos sabiam muito bem que Soares tinha uma «poderosa rede de influências sobre o aparelho de Estado através da colocação de amigos fiéis em postos-chaves escolhidos não tanto pela competência mas porque podem permitir a Soares controlar aquilo que ele, efectivamente, nunca descentralizará — o poder»”.

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp151-152

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Contos proibidos (20)

“O PS poderia, se quisesse, desempenhar um papel fundamental para a defesa da democracia em Portugal e dos interesses ocidentais. Os EUA estariam na disposição de ajudar o PS a atingir esse objectivo. Foi isso mesmo que o embaixador [Frank Carlucci] disse a Mário Soares, a Salgado Zenha e aos vários dirigentes socialistas com quem foi, rapidamente, estabelecendo contacto. Uma das suas primeiras medidas foi a substituição de todo o pessoal político-diplomático da embaixada por homens de grande «qualidade» e só habitualmente encontrados nas capitais de interesse prioritário para os Estados Unidos. A cada um cabia acompanhar um partido ou um sector que Carlucci coordenava. Todas as manhãs, segundo ele próprio me contaria, ainda o país estava a dormir e já ele e os seus homens reuniam na Avenida Duque de Loulé para fazer o ponto da situação. (...) E das reuniões matinais sairiam informações e recomendações para Washington, para a Casa Branca, para o Departamento de Estado, Langley ou Pentágono no quadro do plano de acção definido para o restabelecimento da democracia em Portugal. As embaixadas dos EUA espalhadas pelo mundo tinham igualmente instruções para comunicar todos os aspectos relacionados com a situação em Portugal tendo, em 1976, Kissinger declarado que, a partir de certa altura, a maior parte das informações que lhe chegavam às mãos das suas embaixadas, em 1975, falavam do nosso País.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p76

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Contos proibidos (38)

“Mas na cena política nacional, onde realmente se ganhavam e perdiam as batalhas eleitorais, ao fim de apenas quatro meses, Lopes Cardoso, então ministro da Agricultura, demitia-se. Seria substituído por António Barreto. De uma política para a agricultura contestada pela direita do partido e pela maioria do país, passar-se-ia para uma política de agricultura contestada pela esquerda do partido e pela maioria dos trabalhadores agrícolas. Em Dezembro, Aires Rodrigues votaria contra o OGE e, pouco depois, à semelhança de Lopes Cardoso, abandonaria o partido. Não sem antes lhe ter sido movido um «processo interno», conduzido em termos «macartianos» por António Reis do Secretariado Nacional.

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p136

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Contos proibidos (15)

“Willy Brandt não esteve presente nem enviou qualquer mensagem a este congresso fundador e os únicos representantes do SPD seriam a funcionária da fundação Ebert para as questões ibéricas, Elke Esterse, no último dia, o secretário internacional Hans Eberhard Dingels que é igualmente funcionário e não pertence aos quadros dirigentes daquele partido. O SPD não acreditava então, nem na viabilidade do Partido Socialista enquanto partido de massas, nem na queda do regime.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p43

terça-feira, 28 de maio de 2013

Contos proibidos (17)

“Quando o secretário-geral do Partido Social-Democrata Sueco, Sten Andersson, visitou Portugal no mês de Junho à frente de uma importante delegação dos secretários-gerais de vários partidos escandinavos, comentaria a situação que observara no Palácio de Belém, onde se encontrara com Spínola, como a de «um estado caótico com oficiais a tropeçar uns nos outros», situação que ele associou a «uma cena tirada de um velho filme de piratas»! (...) E se a visita ao Palácio de Belém lembrara ao sueco Sten Andersson «uma cena tirada de um velho filme de piratas», a sede do Partido Socialista na Rua de S. Pedro de Alcântara onde «reinavam», em crescente incompatibilização, Manuel Tito de Morais e Manuel Serra,  fazia lembrar uma cena tirada de um saloon de um velho filme do far west.

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp60-61

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Contos proibidos (8)

“Segundo Manuel Tito de Morais, todas as respostas que eu procurava estavam contidas no livro que era forçoso ler e divulgar, de Vitorino Magalhães Godinho, O Socialismo e o Futuro da Península. Vitorino Magalhães Godinho era considerado, em1970, «o nosso teórico» mas, curiosamente, acabaria por cair praticamente no «esquecimento». Não será alheio a isto, mais do que o seu radicalismo, a sua oposição a Mário Soares, que ele considerava «não ter uma ideia consistente». Mas contribuiu para a confusa definição ideológica da Acção Socialista, cujo oportuno lançamento não assenta embase smuito sólidas, nem define com rigor as suas origens. Reclama-se herdeira de Marx e da Primeira Internacional, do minúsculo e elitista Partido Socialista criado em 1875 por Antero de Quental e José Fontana e até do Movimento Republicano que dominaria de forma anárquica a cena política portuguesa até ao aparecimento da ditadura em1926.”

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, p29

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Contos proibidos (61)

"Quando Murdoch chegou a Lisboa ao fim da manhã desse mesmo dia, vindo de Los Angeles no seu avião particular, vinha munido de um memorando em que se podia ler Portuguese Project/Strictly Confidenticil. A sua leitura, para além dos vários cenários de investimento, não oferecia qualquer dúvida quanto à paternidade da Emaudio. «A News Corporation tem a oportunidade de investir num número de empresas de comunicação social em Portugal, nas ex-colónias portuguesas de Macau, Angola e Moçambique e no Brasil» estando «um grupo de amigos íntimos e apoiantes do presidente Soares» disposto a colaborar com Murdoch «através de uma nova companhia (a estabelecer em Portugal) — a "Atlantic Media Investments". Esta seria um "joint venture" entre a "News Corporation" (ou uma das suas subsidiárias) e o grupo dos apoiantes de Soares sob os auspícios da Fundação de Relações Internacionais (FRI), uma organização sem fins lucrativos próxima do presidente Mário Soares. Uma nova empresa, chamada Emaudio, está em vias de constituição pelos apoiantes de Soares para através dela fazerem os seus investimentos», sendo o principal objectivo «maximalizar o lucro de cada um dos seus investimentos» e «garantir o controlo de interesses na comunicação social favoráveis ao presidente Soares e, assumimos, apoiar a sua reeleição em 1991."

Contos proibidos, por Rui Mateus – Publicações D. Quixote lda, 1996, pp292-293.