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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Reflexão - «Aqueles que estão a prejudicar o planeta não têm o direito de reivindicar o papel de serem os seus salvadores»

Aqueles que não estão familiarizados com a forma como Israel, particularmente a ocupação militar israelita da Palestina, está ativa e irreversivelmente a prejudicar o ambiente, podem chegar à conclusão errada de que Telavive está na vanguarda da luta global contra as alterações climáticas. A realidade mostra exatamente o contrário.

No seu discurso na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas COP26 em Glasgow, o Primeiro-Ministro de Israel Naftali Bennett propagandeou a marca israelita de "inovação e engenho" para "promover a energia limpa e reduzir os gases com efeito de estufa". Israel utiliza esta marca específica para vender tudo, quer para se promover a si próprio como salvador de África, para ajudar os governos a intercetar refugiados em fuga, para disseminar armas mortíferas no mercado ou, como Bennett fez na Escócia, fazer crer que salva o ambiente. 

Saliente-se que alguns estão de facto a comprar esta propaganda israelita. Um deles é o bilionário norte-americano, Bill Gates. No dia seguinte ao discurso de Bennett, Gates reuniu-se com o primeiro-ministro israelita à margem da COP26 para discutir a criação de um "grupo de trabalho" para estudar a potencial cooperação "entre o Estado de Israel e a Fundação Gates na área da inovação das alterações climáticas", noticiou o Times of IsraelSegundo o jornal, Gates, que tinha afirmado no seu encontro com Bennett que só a inovação pode resolver o problema das alterações climáticas, disse: "É realmente por isso que Israel é conhecido".

Contudo, a obsessão de Gates pela "inovação" pode tê-lo impedido de abordar outras questões pelas quais Israel também é "conhecido" - nomeadamente, por ser o principal violador dos direitos humanos a nível mundial, cujo horrível historial de apartheid racial e violência é conhecido de todos os membros das Nações Unidas. Contudo, há algo mais que Gates também pode não ter consciência - a destruição sistemática e propositada do ambiente palestiniano, resultante da ocupação israelita da Palestina e do apetite insaciável de Telavive pela superioridade militar, portanto uma "inovação" constante.

Cada acto levado a cabo para consolidar a ocupação militar consolida o controlo colonial de Israel e a expansão de colonatos judeus ilegais tem um impacto directo no ambiente palestiniano.Não há um único dia sem que uma árvore palestiniana ou um pomar sejam queimados ou abatidos. A "limpeza" do ambiente palestiniano é, e sempre foi, o pré-requisito para a construção ou expansão de colonatos judeus. Para que estas colónias sejam construídas, inúmeras árvores têm de ser 'removidas', juntamente com os palestinianos que as plantaramAo longo dos anos, milhões de oliveiras e árvores frutíferas palestinianas foram arrancadas na constante fome de Israel por mais terra. A erosão do solo em muitas partes da Palestina ocupada fala muito deste horrendo ecocídio.

Além disso, para que centenas de colonatos judeus ilegais sobrevivam, está a ser exigido um preço elevado ao ambiente palestiniano. Segundo Ahmed Abofouum investigador jurídico independente do grupo de direitos Al-Haq, os colonatos israelitas ilegais "geram diariamente cerca de 145.000 toneladas de resíduos domésticos". Abofou reporta que "só em 2016, foram bombeados cerca de 83 milhões de metros cúbicos de águas residuais em toda a Cisjordânia".

Além disso, Israel tem um controlo quase total dos recursos hídricos palestinianos. Depende dos aquíferos ocupados da Cisjordânia para ultrapassar a sua necessidade de água, negando ao mesmo tempo aos palestinianos o acesso à sua própria água. De acordo com a Amnistia Internacionalo israelita médio recebe 300 litros de água por dia, enquanto um palestiniano recebe uma quota muito menor de 73 litros. O problema acentua-se quando se tem em conta o consumo de água dos colonos judeus ilegais. O colono médio consome até 800 litros por dia, enquanto se negavam às comunidades palestinianas inteiras uma gota de água durante dias e semanas, muitas vezes como forma de punição colectiva.

A questão da água não é apenas a do roubo total, da negação de acesso ou da distribuição desigual dos recursos hídricos. É também a questão da falta de água potável limpa e segura, uma questão que tem sido destacada por grupos internacionais de direitos humanos durante muitos anos. O resultado destas políticas injustas obrigou muitos palestinianos a "comprar água trazida por camiões" a preços "entre 4 e 10 dólares por metro cúbico", descobriu a AmnistiaInternacionalsalientando que, para as comunidades palestinianas mais pobres, "as despesas de água podem, por vezes, constituir metade do rendimento mensal de uma família".

Mas a situação de Gaza sitiada é muito pior do que a da Cisjordânia ocupada. A pequena e superlotada Faixa de Gaza é o exemplo perfeito da crueldade israelita. Dois milhões de palestinianos vivem lá, enquanto lhes são negados os direitos humanos mais básicos, quanto mais a liberdade de circulação. Desde o bloqueio militar israelita a Gaza em 2007, o ambiente da região costeira tem estado em constante deterioração. Com pouca eletricidade e com estações de esgotos bombardeadas, os palestinianos têm sido forçados a despejar os seus esgotos não tratados no mar. As águas subterrâneas de Gaza estão agora poluídas na medida em que 97% da água disponível é agora não-potável, segundo relatórios das Nações Unidas.

Mas esta é apenas a ponta do iceberg. Desde a destruição de poços palestinianos ao envenenamento de árvores, à demolição de ecossistemas inteiros para dar espaço ao muro do apartheid de Israel, à utilização de urânioempobrecido nas suas várias guerras contra Gaza, Israel tem estado numa missão incessante para arruinar o ambiente da Palestina em todas as suas manifestações.

É por tudo isto, Sr. Bill Gates, que Israel é "conhecido" de todos aqueles que se preocupam em estar atentos. Permitir que Bennett apresente o seu país como um salvador potencial da humanidade, ao mesmo tempo que valida Israel com investimentos maciços em "inovação", descaracteriza - de facto, invalida - toda a campanha global para compreender verdadeiramente a natureza do problema em questão. Aqueles que estão a prejudicar o planeta não têm o direito de reivindicar o papel de serem os seus salvadores. Israel, no seu atual estado violento, é o inimigo do Ambiente, e é por isso que deveria ser "conhecido".

Ramzy Baroud, Dissident Voice.

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