NOVA IORQUE ESTÁ A FICAR SEM ESPAÇO PARA O LIXO
Lauren Dalban, ICN. Rev. O’Lima.
Seneca Meadows, na região de Finger Lakes, em Nova Iorque, é o maior aterro sanitário do estado. Crédito: Cortesia de Mark Pitifer
A cidade de Nova Iorque está a ficar sem locais para depositar o seu lixo. Na última versão preliminar do plano de gestão de resíduos sólidos da cidade — elaborado uma vez por década —, o departamento de saneamento alerta que os aterros que recebem grande parte do lixo da cidade estão a encher-se rapidamente. Mais de dois terços dos resíduos municipais da cidade são transportados para aterros a centenas de milhas de distância. No entanto, de acordo com as licenças atuais, prevê-se que o estado esgote a capacidade de aterro para esse lixo dentro de 16 a 25 anos.
À medida que as comunidades do norte do estado se opõem à criação de novos aterros e à expansão dos já existentes, a cidade poderá ter de enviar o seu lixo para locais mais distantes. Embora os esforços para desviar mais resíduos dos aterros tenham registado progressos, os especialistas afirmam que a cidade continua fortemente dependente dos aterros e da incineração de resíduos.
Quando os aterros sanitários se expandem, geram mais metano, um gás com efeito de estufa 86 vezes mais potente do que o dióxido de carbono a curto prazo. O aterro de Seneca Meadows é a maior fonte individual de emissões de metano no estado de Nova Iorque.
Outra preocupação ambiental é o lixiviado, uma mistura de água da chuva e toxinas provenientes dos resíduos do aterro. Embora deva ser bombeado para fora e tratado, alguns aterros mais antigos sofrem fugas para o solo subjacente e, eventualmente, para as águas subterrâneas, espalhando toxinas para os cursos de água locais.
Os aterros sanitários também emitem pequenas quantidades de sulfureto de hidrogénio e amoníaco, gases que podem causar odores desagradáveis e efeitos imediatos na saúde, tais como tosse e irritação ocular.
«Quem é que quer que o aterro sanitário perto de si se expanda?», perguntou Craig Benson, um engenheiro ambiental que passou grande parte da sua carreira a estudar aterros sanitários. «Mas toda a gente quer que o seu lixo seja levado embora.»
«Ninguém quer que cresça»
O maior aterro sanitário do estado, o Seneca Meadows, na região de Finger Lakes, solicitou uma licença para se expandir, mas as comunidades vizinhas opuseram-se à proposta. Trata-se da maior fonte isolada de emissões de metano no estado de Nova Iorque. (...)
O lixo da cidade de Nova Iorque representou cerca de 20 por cento dos resíduos transportados por camião para o aterro sanitário em 2024. Só o Queens enviou 221 000 toneladas de resíduos sólidos para lá.
Num projeto de declaração de impacto ambiental de 2024, a operadora do aterro, a Seneca Meadows Inc., afirmou que três condados da cidade de Nova Iorque enviam uma «quantidade significativa» dos seus resíduos para o aterro. A maior parte do lixo enviado para o aterro a partir da cidade de Nova Iorque nos últimos anos, segundo um porta-voz do Departamento de Saneamento da cidade de Nova Iorque, era «quase certamente de origem comercial», o que significa que provinha de empresas como restaurantes e supermercados. Os resíduos comerciais são geridos por empresas privadas, e não pelo departamento de saneamento da cidade.
O porta-voz do departamento de saneamento da cidade garante que o seu departamento não envia material diretamente para a Seneca Meadows, pelo menos desde 2018. No entanto, refere que alguns resíduos residenciais podem acabar por lá através de subcontratados da cidade.
No projeto de declaração de impacto ambiental, a Seneca Meadows Inc. referiu que a expansão permitiria ao aterro «continuar a fornecer a capacidade de eliminação» necessária não só na região de Finger Lakes, mas também em comunidades por todo o estado de Nova Iorque.
A cidade de Seneca, onde se situa o aterro sanitário da Seneca Meadows, aprovou uma lei em 2016 que exigia o encerramento do aterro quando a sua licença expirasse em 2025. Depois de a Seneca Meadows Inc. ter interposto uma ação judicial para contestar a lei, o Tribunal de Recurso do Estado de Nova Iorque acabou por declará-la inválida. Desde então, a empresa apresentou um pedido para expandir o aterro.
Enquanto o Departamento de Conservação Ambiental do estado analisa o pedido, o aterro pode continuar a funcionar — desde que não exceda a sua capacidade atual.
No final de 2024, o aterro tinha apenas oito meses de capacidade autorizada restantes, de acordo com o relatório mais recente apresentado às entidades reguladoras estaduais.
Mas essa estimativa não é definitiva. Benson, professor emérito da Universidade de Wisconsin, em Madison, e reitor emérito da Faculdade de Engenharia da Universidade da Virgínia, afirmou que os operadores de aterros sanitários podem, muitas vezes, aumentar a capacidade autorizada de um local através de uma maior compactação dos resíduos à medida que estes se decompõem. A vida útil restante de um aterro sanitário pode variar consoante a forma como é gerido e a quantidade de resíduos que recebe num determinado ano.
Documentos que a Seneca Meadows Inc. apresentou às entidades reguladoras estatais revelam que a empresa pretende aumentar a altura do aterro em cerca de 70 pés, elevando-a para mais de 840 pés — quase tão alto quanto o Rockefeller Center, em Nova Iorque. A expansão prolongaria a vida útil do aterro em 15 anos, segundo as estimativas da empresa.
«É uma ideia horrível», afirmou Yvonne Taylor, vice-presidente da Seneca Lake Guardian, uma organização ambiental sem fins lucrativos que se opõe à expansão do aterro. «Ninguém quer que ele cresça, exceto as pessoas que trabalham no aterro.»
Embora os registos da EPA indiquem que o aterro emite benzeno, um conhecido agente cancerígeno, uma investigação realizada em junho, promovida pela Seneca Lake Guardian, não encontrou uma ligação direta entre o aterro e as taxas elevadas de cancro.
A organização intentou uma ação judicial contra o aterro em 2024 para impedir a sua expansão, alegando que os maus cheiros que este emite constituem um incómodo e violam os direitos dos residentes locais de respirar ar puro, tal como previsto na Emenda Verde do estado. Um juiz indeferiu partes das queixas de ambas as partes e suspendeu o processo enquanto a Seneca Lake Guardian e a Seneca Meadows Inc., a empresa responsável pelo aterro, recorrem da decisão. (…)
Benson consdiera que a oposição local o principal obstáculo à construção ou expansão de aterros sanitários. A expansão é muitas vezes a melhor opção, especialmente se a empresa gestora tiver um historial sem problemas, sublinha.
O Aterro Sanitário do Condado de Ontário, que em 2019 recebeu 144 000 toneladas de resíduos sólidos urbanos provenientes de Queens, recebeu apenas 2 100 toneladas de entulho de construção da cidade em 2024, de acordo com relatórios apresentados ao Departamento de Conservação Ambiental do estado.
Em 2024, a Câmara Municipal votou a favor do encerramento do aterro sanitário quando a sua licença expirar em 2028. Uma análise encomendada pelos líderes do condado concluiu que o encerramento obrigaria a região a enviar os seus resíduos para outros aterros, aumentando os custos devido ao transporte de longo curso.
O potencial encerramento de Seneca Meadows poderá constituir um problema significativo não só para o estado, mas para toda a região.
«Se esta capacidade for perdida em Seneca Meadows, estas toneladas serão desviadas para os aterros e instalações [de valorização energética de resíduos] restantes, o que poderá provocar uma redução drástica da capacidade de eliminação disponível na região», concluiu a análise encomendada pelo Condado de Ontário.
O encerramento de aterros tem implicações significativas em todo o Nordeste, onde a capacidade dos aterros já é limitada. Metade dos resíduos geridos pelo departamento de saneamento da cidade de Nova Iorque acaba em aterros na Virgínia e na Carolina do Sul.
«Temos assistido a um aumento drástico do transporte ferroviário de resíduos para fora do Nordeste, em parte devido à limitação do espaço disponível», afirmou Bryan Staley, presidente da Environmental Research & Education Foundation, que tem vindo a investigar aterros em todo o país.
A obtenção de licenças para um novo aterro pode demorar entre cinco e dez anos, afirmou Benson, pelo que a expansão de um aterro já existente pode parecer uma alternativa atraente para as empresas privadas — embora isso também possa demorar anos devido às regulamentações estatais.
Staley afirmou que isto levou à «regionalização» da gestão de resíduos. Os resíduos não são eliminados localmente num «depósito de lixo» próximo, mas sim num aterro de grandes dimensões que recebe lixo de toda a região.
«É muito difícil obter licenças para o que chamamos de instalação greenfield — em que se vai para um terreno novo e se desenvolve um novo aterro», afirmou Benson. «É simplesmente difícil porque, honestamente, ninguém quer um novo aterro perto de onde vive.»
Vincent Gragnani, porta-voz do Departamento de Saneamento da cidade de Nova Iorque, afirmou que, embora a cidade envie resíduos para aterros no norte do estado e noutros locais em todo o estado, essas instalações tratam de uma «parte relativamente pequena» dos resíduos que a cidade gere.
«À medida que a capacidade continua a diminuir na região, é provável que venhamos a exportar lixo para locais mais distantes», escreveu Gragnani. (...)
O problema do lixo
O problema crescente do lixo na cidade de Nova Iorque também tem consequências para os seus residentes. Os camiões a gasóleo que transportam o lixo das instalações de transferência de resíduos — onde o lixo local é separado — para os aterros expõem os residentes a partículas finas, o que pode contribuir para a asma infantil, o cancro e doenças cardiovasculares e respiratórias.
Outra preocupação ambiental é o lixiviado, uma mistura de água da chuva e toxinas provenientes do lixo dos aterros. Embora deva ser bombeado para fora e tratado, alguns aterros mais antigos apresentam fugas para o solo subjacente e, eventualmente, para as águas subterrâneas, espalhando toxinas para os cursos de água locais.
Estas preocupações levaram os legisladores e as autoridades municipais a promover políticas destinadas a reduzir a quantidade de lixo que chega aos aterros.
O estudo mais recente sobre a caracterização dos resíduos da cidade revelou que 73% dos resíduos da cidade poderiam ser desviados dos aterros sanitários através da reciclagem ou da compostagem. No entanto, no ano fiscal de 2023, apenas cerca de 20 por cento dos resíduos da cidade foram desviados. Os nova-iorquinos deitaram fora dois terços dos materiais de plástico, metal e vidro que poderiam ter sido reciclados.
Grupos ambientalistas têm apoiado legislação para resolver o problema. No ano passado, um projeto de lei destinado a reduzir as embalagens de plástico esteve prestes a ser aprovado pela Assembleia Legislativa estadual, apesar da forte oposição por parte de grupos industriais. Esse projeto teria reduzido as embalagens não recicláveis no estado em 30% ao longo dos próximos 12 anos e obrigado os produtores de embalagens a contribuir financeiramente para os custos de reciclagem e eliminação de resíduos.
Sacos de reciclagem e de lixo estão alinhados junto ao passeio em Brooklyn, na cidade de Nova Iorque.
Crédito: Lauren Dalban/Inside Climate News
No início de 2026, o presidente da câmara Zohran Mamdani relançou o programa obrigatório de compostagem da cidade — o mais recente capítulo na abordagem intermitente de Nova Iorque em relação à compostagem. Gragnani, porta-voz da cidade, afirmou que o departamento de saneamento tem registado um «aumento constante da participação» no programa.
Cerca de um terço dos resíduos da cidade é compostável. O programa poderá reduzir significativamente a quantidade de resíduos enviados para aterros, ao desviar os restos alimentares, afirmou Ana Baptista, professora associada de justiça ambiental e climática na Parsons School of Design da The New School.
Políticas como estas podem beneficiar as comunidades de justiça ambiental localizadas perto de infraestruturas de resíduos, incluindo aterros. Para os residentes que vivem perto de Seneca Meadows, as mudanças na forma como os nova-iorquinos eliminam os seus resíduos não podem chegar depressa o suficiente.
«Não queremos que esses resíduos se tornem mais um fardo para outra comunidade», afirmou Taylor. «Podemos mudar o rumo deste navio...»




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