Jeremy Kuzmarov, CovertAction. Rev. O’Lima.
No dia 3 de agosto, Alfonso Fanjul, Jr., faleceu aos 89 anos. Um obituário do New York Times referiu-se ao Sr. Fanjul (também conhecido como «Alfy») como o «patriarca de uma família que perdeu um dos maiores negócios açucareiros de Cuba na revolução de 1959 e fugiu para os EUA, onde, graças à determinação e aos apoios governamentais aos preços, construiu um império ainda mais vasto».
Referindo que os ambientalistas acusavam a empresa de Alfy, a Florida Crystals, de destruir os Everglades com o escoamento de produtos químicos provenientes dos seus 180 000 acres de cana-de-açúcar em torno do Lago Okeechobee, o obituário referia ainda que Alfy e o seu irmão José «Pepe» eram grandes doadores tanto dos republicanos como dos democratas, tendo Alfy desempenhado o cargo de copresidente da campanha presidencial de Bill Clinton na Flórida em 1992 e doado mais de 2,5 milhões de dólares às campanhas de Donald Trump.
Trump foi descrito como um «amigo de longa data cujas tarifas protecionistas beneficiaram os Fanjuls». No ano passado, Trump levantou uma proibição imposta pela administração Biden ao açúcar importado da Central Romana, uma empresa açucareira na República Dominicana na qual os Fanjuls detinham uma participação significativa, devido a acusações de que esta recorria ao trabalho forçado.
Alfy Fanjul com o ex-presidente Bill Clinton em 2021. [Fonte: nytimes.com]
Embora o The New York Times tenha apresentado uma análise crítica da carreira de Alfy, omitiu algo muito importante: que ele, o seu irmão e o seu pai, Alfonso Sr., colaboraram com a CIA na década de 1960, quando estiveram envolvidos em operações secretas para derrubar o governo revolucionário de Cuba liderado por Fidel Castro.
A história oculta do envolvimento dos Fanjul com a CIA é detalhada no livro de Joan Mellen, The Great Game in Cuba: How the CIA Sabotaged Its Own Plot to Unseat Fidel Castro.
Alfonso Fanjul, Sr. foi consultor do ditador cubano Fulgencio Batista (1940-1944 e 1952-1959), conhecido por impor regimes de trabalho brutais nas plantações de açúcar que herdara do próprio pai. Era amigo dos irmãos Dulles, cujo escritório de advogados Sullivan & Cromwell teve as empresas Fanjul como clientes durante mais de meio século.
Depois de a revolução ter levado à nacionalização das suas plantações, Alfonso Sr. juntou-se a uma equipa secreta liderada por David Sánchez Morales, um assassino da CIA que trabalhou infiltrado no consulado dos EUA em Havana entre 1958 e 1960 e esteve envolvido em operações anticastristas coordenadas a partir de Miami no âmbito da Operação JM-WAVE.
Segundo Mellen, Alfonso Sr. permitiu que a corretora da família Fanjul, a Czarnikow-Rionda, fosse utilizada como canal de financiamento da CIA e que um executivo da empresa, Jack Malone — amigo íntimo do agente da CIA David Atlee Phillips —, atuasse quase a tempo inteiro como informador da CIA.
Os fundos provenientes da Czarnikow-Rionda foram utilizados para adquirir um caça-submarinos da Marinha, que foi utilizado por Alberto Fernández de Hechavarría — um agente da CIA que dirigiu a indústria açucareira cubana após a revolução, antes de se virar contra Castro e tentar derrubá-lo durante a Invasão da Baía dos Porcos e no período que se seguiu — para transportar armas para Cuba.
Alfy e José Pepe aderiram à AMFAST, um grupo secreto de 100 empresários e advogados selecionados pela CIA para ajudar a formar uma nova agência de informações cubana após a «libertação» de Cuba, juntamente com a AMCHEER, outro grupo secreto de empresários recrutados para um projeto semelhante.
O sócio de Alfy e Pepe, Alberto Recio, administrador de uma dúzia de entidades empresariais da família Fanjul constituídas nas décadas de 1960 e 1970, trabalhava a tempo inteiro como agente secreto para a JM-WAVE, nomeadamente num «Projeto Brasil» para o qual a agência lhe transferiu 1 500 libras esterlinas, de acordo com um telegrama de outubro de 1961 que ele enviou à JM-WAVE.
Durante o verão de 1963, Jack Malone escreveu a Alfonso Fanjul, Sr., dizendo: «Continuo a acreditar que as nuvens vão dissipar-se antes de o Little Boy Blue se recandidatar.» Little Boy Blue era um codinome para John F. Kennedy, a quem os Fanjul odiavam e queriam ver assassinado, em parte porque ele não ordenou uma invasão militar total de Cuba para derrubar Castro.
Durante o verão de 1963, Jack Malone escreveu a Alfonso Fanjul, Sr., dizendo: «Continuo a acreditar que as nuvens vão dissipar-se antes de o Little Boy Blue se recandidatar.» Little Boy Blue era um codinome para John F. Kennedy, que os Fanjul odiavam e queriam ver assassinado, em parte porque ele não ordenou uma invasão militar total de Cuba para derrubar Castro.
Alfonso Fanjul, Sr., era sócio de Robert Kleberg III, um magnata da pecuária do Texas que financiou operações terroristas de exilados cubanos em colaboração com a CIA, depois de as suas propriedades pecuárias terem sido nacionalizadas pelo regime de Castro.
No início da década de 1960, Alfonso Fanjul, Sr., tentou garantir a libertação de uma prisão cubana de mais um agente da CIA, Gustavo de los Reyes, cuja rebelião mal sucedida contra Castro foi traída por Allen Dulles e que veio a publicar um artigo na Reader’s Digest a pedido da CIA, que dava a entender que ele tinha sido um prisioneiro político perseguido num gulag comunista.
Alfy casou-se com a filha de de los Reyes, Tina.
Para além da sua atividade secreta para a CIA, os empresários açucareiros da família Fanjul organizavam almoços regulares para a AREC, um grupo de empresários de direita anticastristas que angariava fundos para financiar e fomentar a solidariedade entre outros grupos de exilados.
De acordo com um memorando da CIA, Alfonso Fanjul Jr. e outros membros da AREC doaram fundos a um grupo liderado pelo terrorista Orlando Bosch, que coordenou o atentado bombista de 1976 contra um avião de passageiros cubano, no qual morreram 73 civis.
Numa reunião referida num memorando da CIA, a AREC anunciou uma meta de angariação de fundos de 200 milhões de dólares, estimando que esse montante correspondesse a apenas um décimo do património líquido dos seus membros.
Lobby anticubano e organizações de fachada para mais operações secretas
O facto de o New York Times não ter abordado a ligação dos Fanjuls às secretas coincide com a sua omissão em relatar o financiamento que estes concedem a grupos de pressão anticubanos sediados na Flórida, tais como a Fundação Nacional Cubano-Americana (CANF), que também foi financiada por organizações de fachada dos serviços de inteligência dos EUA, como a Fundação Nacional para a Democracia (NED).
A CANF foi fundada em 1981 por Jorge Mas Canosa, um abastado proprietário de uma empresa de construção civil e veterano da operação da Baía dos Porcos. A NED concedeu 390 000 dólares à CANF entre 1983 e 1988. Com uma estrutura semelhante à do Comité Americano-Israelita de Assuntos Públicos (AIPAC), a CANF possuía ramos separados dedicados à investigação, ao lobbying, à propaganda e à angariação de fundos. Um dos seus principais projetos consistiu em ajudar a financiar a Rádio Martí, que transmitia mensagens anticastristas e anticomunistas para Cuba. Entre 1981 e 1997, a CANF canalizou 3 milhões de dólares para campanhas políticas. Um dos seus políticos preferidos era Robert Torricelli (D-NJ), que representava uma grande comunidade cubano-americana no seu círculo eleitoral.
A CANF também foi utilizada como canal para financiar a subversão contínua da CIA e as atividades terroristas de extrema-direita em Cuba. Luis Posada Carilles, responsável, juntamente com Orlando Bosch, pelo atentado à bomba de 1976 contra um avião de passageiros cubano, admitiu ao The New York Times que pessoas afiliadas à CANF financiaram secretamente os atentados bombistas contra hotéis em Havana, um dos quais causou a morte de um turista italiano.
Margaret Katherine Henn salientou numa tese do Boston College que o financiamento da CANF pela NED refletia o engano dos contribuintes americanos, uma vez que estava a subcontratar operações secretas a uma organização privada e, assim, a garantir uma negação plausível.
Além disso, o financiamento da CANF pelos Fanjuls reflete a continuidade do seu papel ao permitirem que a sua corretora servisse de canal para as operações secretas da CIA na década de 1960, com o objetivo de derrubar o regime de Castro em Cuba.
Francisco José «Pepe» Hernandez na sede da Fundação Nacional Cubano-Americana, em Miami ( 27 de julho de 2009) [Fonte: sandiegouniontribune.com]
Strip Tease
Em 1993, Carl Hiaasen escreveu um romance, Strip Tease, uma sátira mal disfarçada sobre os Fanjuls e os políticos que lhes faziam o jogo. Uma das personagens da história observou que «o mais perto que a maioria deles chegou da verdadeira colheita [de açúcar] foram os cubos que deitavam no café no clube dos banqueiros. Os herdeiros dos produtores de açúcar nem por acaso se deixariam ver num campo de cana escaldante.»
Na vida real, entre os políticos que cumpriam as ordens dos Fanjul contava-se George H. W. Bush, o antigo diretor da CIA que também tinha utilizado as suas empresas como canal para a Operação Baía dos Porcos.
Durante a campanha presidencial de 1988, José «Pepe» foi um dos principais doadores da campanha de Bush e, posteriormente, desempenhou as funções de vice-presidente do comité financeiro de Bush.
Alfy angariou 100 000 dólares para Bill Clinton num jantar de angariação de fundos em Miami, enquanto presidia à campanha presidencial de Clinton de 1992 na Flórida. Clinton correspondeu às expectativas dos Fanjuls quando promulgou a Lei Helms-Burton de 1996, que impôs novas sanções punitivas contra empresas estrangeiras que operassem em Cuba e proibiu qualquer levantamento do embargo dos EUA. A administração Clinton promoveu ainda mais as políticas de comércio livre e visou a esquerda na América Latina, mantendo direitos aduaneiros, apoios aos preços e programas federais que garantiam a importação de cortadores de cana das Índias Ocidentais, aos quais podiam ser pagos salários baixos, entre outras leis que beneficiavam os lucros dos Fanjuls.
A mansão de Alfy Fanjul em Palm Beach — construída com dinheiro sujo e trabalho escravo. [Fonte: superyachtfan.com]
O «padrinho» de Marco Rubio
Para além dos Bush e dos Clinton, os Fanjul investiram parte da sua fortuna estimada em 8,5 mil milhões de dólares na promoção da carreira de Marco Rubio, a quem têm apoiado desde que este foi eleito pela primeira vez para a Assembleia da Flórida, em 2000. No total, estima-se que os Fanjul tenham doado diretamente a Rubio mais de 500 000 dólares e tenham organizado dezenas de eventos de angariação de fundos a seu favor.
Quando Rubio se candidatou ao Senado dos EUA em 2010, os Fanjuls ofereceram-lhe o montante máximo de doação permitido. Rubio mal conseguia atingir dois dígitos nas sondagens contra o governador Charlie Crist, antes de a doação dos Fanjuls o ter ajudado a impulsionar imensamente a sua campanha. Além disso, os Fanjuls começaram a organizar eventos de angariação de fundos para Rubio e apresentaram-no a figuras poderosas como Rudy Giuliani.
Os Fanjuls têm obtido um retorno significativo do seu investimento em Rubio, uma vez que este tem sido um defensor ferrenho de subsídios generosos à indústria açucareira, de medidas de apoio aos preços do açúcar e de restrições às importações, o que inflaciona artificialmente os preços do açúcar e enriquece os Fanjuls.
Rubio também tem sido, há muito, um firme opositor das regulamentações ambientais que teriam impedido os Fanjuls de poluir os Everglades, na Flórida. Além disso, Rubio está agora a promover as políticas externas agressivas na América Latina que os Fanjuls há muito desejavam, incluindo a intensificação dos esforços para uma mudança de regime em Cuba.
O jovem Marco Rubio. Ascendeu rapidamente graças aos seus poderosos patrocinadores ligados à CIA. [Fonte: washingtonpost.com]
Quando, na década de 1980, a empresa enviou um advogado para inspecionar as condições dos campos de trabalho na República Dominicana, numa plantação propriedade dos Fanjuls, este descreveu-as à revista Vanity Fair como «a um passo de Dachau». [Os Fanjuls eram os principais acionistas da empresa proprietária da plantação, a Central Romana].
Décadas mais tarde, um artigo publicado na revista The American Prospect sublinhava que «praticamente nada tinha mudado». Os trabalhadores da plantação da Central Romana recebiam apenas 3 dólares por dia por um trabalho árduo e extenuante e continuavam a ser obrigados a viver em casas sem eletricidade, água potável ou sequer colchões para dormir.
Um grupo de Irmãs de Maryknoll que lá viajou na década de 1980 constatou que as latrinas nas casas eram de condição deplorável e que as doenças e a desnutrição eram endémicas.
O Departamento do Trabalho dos EUA, durante a presidência de Reagan, investigou a empresa dos Fanjuls, a Flo-Sun, depois de os trabalhadores que tentaram entrar em greve terem sido deportados. A investigação concluiu que os Fanjuls pagavam menos do que o devido aos trabalhadores de forma regular, pagavam os salários mais baixos de todas as explorações açucareiras e participavam numa «falsificação sistemática dos registos de folha de pagamentos para encobrir esta situação».
Um artigo publicado em agosto de 2026 no The New York Times, da autoria de Ana Swanson, salientou que a maioria dos trabalhadores das plantações que trabalhavam em condições horríveis na Central Romana, na República Dominicana, eram migrantes haitianos sujeitos a intimidações e ameaças por parte dos seus supervisores e a práticas de trabalho forçado que faziam lembrar a escravatura. O artigo de Swanson sublinhou ainda que os Fanjuls tinham investido mais de um milhão de dólares em atividades de lóbi entre 2023 e 2025 e doado milhões de dólares à campanha de Trump, com o objetivo de garantir a revogação da proibição de importação imposta pela administração Biden.
Como mais uma recompensa pelo apoio financeiro dos Fanjul, Trump convidou José Pepe para um jantar de Estado na Casa Branca com o rei Carlos III e a rainha Camilla e agradeceu a Pepe pelas suas contribuições durante um jantar na Casa Branca, afirmando que «Pepe, foste fantástico, ele tem um pequeno negócio de açúcar. Tem o monopólio do açúcar mundial — diria que é um bom negócio.»
Monstros Bilionários
É importante contar a história dos Fanjul porque lança luz sobre a grave injustiça que resulta do sistema político norte-americano, saturado de dinheiro, incluindo a prática de exploração laboral flagrante e a degradação ambiental.
As ligações secretas dos Fanjuls aos serviços secretos e o seu envolvimento de longa data em operações secretas refletem a forma como a CIA e as suas filiais servem os interesses de uma elite financeira predatória, desprovida de qualquer compaixão humana ou consciência.
Embora muitos americanos estejam hoje, com razão, revoltados com o comportamento de políticos como Donald Trump, as pessoas não devem perder de vista o facto de que Trump e os seus contemporâneos estão nas mãos de oligarcas como os Fanjuls, que são, em última análise, aqueles que detêm o verdadeiro poder.
Os movimentos sociais devem centrar o seu ativismo neles e exigir uma redistribuição justa da riqueza na sociedade através de políticas socialistas (ou seja, leis antitrust para desmantelar os monopólios empresariais, redistribuição de terras, nacionalização da indústria, tributação elevada sobre os ricos), a par de alterações nas leis de financiamento eleitoral e de lobbying, o que ajudaria a minar a influência política de monstros bilionários como os Fanjuls.













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