Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

LEITURAS MARGINAIS

IRÃO E EUA: DOIS PAÍSES E O PISTÁCIO QUE OS SEPARA
Fatemeh Roshan, DW. Rev. O’Lima.

Os pistácios vendidos em todos os EUA têm uma história surpreendente: as árvores da Califórnia têm as suas raízes no Irão. Agora, ambas as regiões enfrentam a mesma ameaça — as suas terras agrícolas estão a afundar-se à medida que as águas subterrâneas desaparecem

Imagem: Svetlanasf/Pond5 Images/IMAGO

Fendas com a largura de uma mão atravessam o pomar de pistácios de Armin, no sudeste do Irão, danificando os tubos de irrigação e engolindo água preciosa à medida que o solo sob os seus pés afunda.

«Olhamos e vemos que a terra abriu a boca, e a água simplesmente jorra para dentro», diz Armin. Ele tem visto as fendas alastrarem-se rapidamente nos últimos cinco anos e receia que os seus filhos possam não conseguir cultivar a terra como o seu pai e o seu avô fizeram antes dele.

Armin, cujo nome verdadeiro não se revela por razões de segurança, vive na região árida de Rafsanjan. Há várias gerações que os agricultores da região cultivam a árvore de pistácio pelas suas pequenas sementes verdes comestíveis, utilizadas em tudo, desde gelados até ao famoso chocolate do Dubai.

Há muito que a região satisfaz grande parte da procura mundial de pistácios, mas uma combinação de seca e extração de águas subterrâneas para irrigação tornou Rafsanjan uma das áreas que mais rapidamente se afunda no Irão. Um estudo revelou que algumas partes do solo estão a afundar-se até 37 centímetros por ano. E isso está a afetar a produção.

O quadro é semelhante na Califórnia, onde alguns produtores de pistácios também estão a assistir ao afundamento dos seus terrenos. A família de Joe Coelho cultiva esta fruta desde 2000 e, segundo ele, embora a sua exploração em Fresno não esteja diretamente afetada, «os produtores estão bem cientes do risco».

Algumas áreas nas proximidades enfrentam graves problemas hídricos, afirma Coelho, que é diretor de sustentabilidade da American Pistachio Growers. «O afundamento é, sem dúvida, um problema grave em algumas partes do Vale de San Joaquin.»


O mesmo pistácio e os mesmos problemas

A ligação entre os produtores dos dois países remonta à década de 1960, quando os agricultores norte-americanos começaram a desenvolver a indústria do pistácio. Fizeram-no utilizando uma variedade iraniana — o pistácio que hoje domina a maioria dos pomares californianos chama-se Kerman, em homenagem a uma cidade próxima da quinta de Armin.

A Califórnia ultrapassou recentemente o Irão como o maior produtor mundial de pistácio, sendo a maior parte da colheita cultivada no Vale Central, onde Coelho tem o seu pomar. E embora seja uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo, há locais onde o solo está a afundar-se até 20 centímetros por ano.

Tal como no Irão, o problema reside no facto de estar a ser bombeada mais água dos aquíferos subterrâneos para a irrigação das culturas do que a que volta a infiltrar-se.

«À medida que a fiabilidade das águas superficiais tem vindo a diminuir, os produtores têm dependido cada vez mais das águas subterrâneas», explicou Coelho, acrescentando que testemunhou a transformação do terreno. «Em certas áreas, o solo já não tem a mesma estrutura nem o mesmo movimento de água que tinha outrora.»

Os pomares de pistácio no Vale Central consomem cerca de 4% da água destinada às culturas do vale. Em Rafsanjan, mais de nove em cada dez litros de águas subterrâneas são destinados aos pomares de pistácio.

À medida que os níveis das águas subterrâneas baixam devido à extração excessiva, os espaços no interior do aquífero colapsam e o solo acima começa a afundar-se, num processo denominado subsidência do solo.

«O afundamento do solo no Irão é um risco provocado pelo homem, não um fenómeno natural como um terramoto», afirma Ali Beitollahi, que lidera a investigação sobre afundamento no Centro de Investigação de Estradas, Habitação e Desenvolvimento Urbano do Irão. «Grande parte dos danos é irreversível. Quando um aquífero colapsa, nunca mais consegue reter tanta água como antes.»

Os agricultores mais velhos de Rafsanjan lembram-se de terem acedido a água a profundidades de apenas 20 metros, diz Armin. Hoje em dia, muitos têm de perfurar até aos 300 metros. Algumas terras agrícolas próximas das de Armin estão mortas ou a morrer, afirma ele, enquanto outros pomares foram abandonados à medida que os poços secaram.

É mais um golpe para os agricultores em dificuldades, que afirmam que o boom impulsionado por tendências alimentares como o chocolate de Dubai nunca chega até eles, porque as sanções internacionais e a concorrência global privaram o Irão dos mercados que outrora detinha enquanto maior produtor mundial de pistácios.

«Costumávamos ser conhecidos pela qualidade», diz ele. «Agora somos conhecidos pelo preço baixo.»


Duas regiões produtoras de pistácio, duas respostas diferentes

A maior diferença entre as duas regiões reside na forma como estão a responder à crise. Na Califórnia, a Lei de Gestão Sustentável das Águas Subterrâneas (SGMA), aprovada em 2014, exige que as agências de água equilibrem a captação e a recarga nas bacias hidrogeológicas até 2040.

A recarga controlada dos aquíferos é um dos métodos que o estado está a utilizar para o efeito. Consiste em permitir que a água recarregue os aquíferos em anos chuvosos — por exemplo, inundando terras agrícolas —, servindo assim de reserva para períodos de seca. Coelho está a participar num projeto-piloto que faz exatamente isso.

A SGMA tem registado alguns progressos. De acordo com o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia, os níveis das águas subterrâneas subiram em quatro dos dez poços monitorizados. No entanto, grandes partes do Vale Central continuam a afundar-se.

Helen Dahlke, professora de ciências hidrológicas integradas na Universidade da Califórnia, em Davis, afirma que a recarga, por si só, provavelmente não será suficiente para compensar décadas de sobreexploração das águas subterrâneas. «A agricultura é, de longe, o maior consumidor de água no Vale Central, pelo que restabelecer o equilíbrio nas bacias de águas subterrâneas exigirá, provavelmente, alinhar a procura de água para as culturas com a disponibilidade hídrica a longo prazo num clima mais quente e mais variável.»

No Irão, a sensibilização para a gestão das águas subterrâneas e o afundamento tem vindo a crescer ao longo da última década entre os cientistas, mas continua a ser limitada, afirma Ali Beitollahi. Ele trabalhou na elaboração de um projeto de regulamentação sobre o afundamento que se encontra atualmente a aguardar aprovação do governo.

Citando o exemplo de Tóquio, onde as taxas de subsidência diminuíram drasticamente depois de as autoridades terem restringido a captação de águas subterrâneas, ele acredita que o problema poderia ser gerido se o Estado agisse rapidamente. No entanto, dada a atual situação política no Irão, é improvável que se tomem medidas rápidas.

Outra medida urgente, afirma ele, «é mudar imediatamente a forma como os agricultores regam os seus campos e ensinar-lhes por que razão isso é importante». A maioria dos pomares de Rafsanjan ainda é irrigada por inundação, o que significa que grandes quantidades de água se perdem por evaporação antes de chegarem às raízes das plantas.

Armin afirma que está a tentar aprender com os produtores norte-americanos, mas que muitos agricultores mais velhos estão agarrados aos seus hábitos.


O significado de um pistácio

Em todo o Vale Central da Califórnia, é difícil ignorar as pressões decorrentes do aquecimento climático, da seca e da diminuição dos recursos hídricos subterrâneos.

«Vivemos com isso todos os dias», afirma Coelho, acrescentando que os produtores de pistácio da Califórnia também precisam de uma melhor política hídrica, bem como de melhores infraestruturas e da proteção dos direitos sobre a água. «A sustentabilidade financeira, a sustentabilidade hídrica e a sustentabilidade ambiental estão interligadas», disse.

Armin não vê futuro no cultivo de pistácios. Mas quando olha para um único pistácio, vê mais do que uma cultura a competir pela água ou um petisco numa prateleira do outro lado do mundo. Vê a história e o presente da sua família e da sua região. «Este pistácio provém, por vezes, de uma árvore com 100 anos», diz ele. «Pagou um casamento, a educação de uma criança, a felicidade de alguém. O dinheiro que gera cria uma vida.»

Sem comentários: