COMO A INSTABILIDADE CLIMÁTICA, A POBREZA, AS CRENÇAS TRADICIONAIS E O DESESPERO SE COMBINAM PARA TRANSFORMAR FIGURAS ESPIRITUAIS RESPEITADAS EM BODES EXPIATÓRIOS — E, EM ALGUNS CASOS, EM VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA LETAL.
RODNEY MUHUMUZA e JOSEPH FALZETTA, AP. Rev. O’Lima.
Em algumas regiões do Uganda e do Sudão do Sul, os «fazedores de chuva» são figuras espirituais tradicionais que, segundo se acredita, têm o poder de provocar ou impedir a chuva. Os agricultores pagam-lhes por esses serviços.
À medida que as secas e as inundações se tornam mais imprevisíveis, os agricultores culpam cada vez mais os feiticeiros da chuva quando o tempo corre mal — mesmo que o problema subjacente seja a alteração dos padrões climáticos.
No Uganda, o feiticeiro da chuva David Nabutsilili foi uma vez perseguido por aldeões furiosos depois de uma chuva forte ter inundado as suas colheitas. Ele caiu e partiu a perna e, ainda hoje, por vezes tem de fugir de casa quando as pessoas o culpam pelo mau tempo.
A situação é ainda mais extrema no Sudão do Sul, onde pelo menos dois feiticeiros da chuva foram mortos nos últimos dois anos, incluindo homens que, segundo consta, foram enterrados vivos durante períodos de seca.
As alterações climáticas estão a tornar o sistema tradicional particularmente instável: algumas regiões estão a registar menos dias de chuva, mas precipitações mais intensas, o que gera um ciclo de secas, inundações e quebras nas colheitas.
O facto de a invocação da chuva ser frequentemente um serviço pago agrava as tensões. Quando a chuva não chega — ou chega e destrói as colheitas —, os agricultores podem exigir o reembolso do dinheiro ou pedir que sejam aplicadas sanções.
Existe também concorrência entre os próprios feiticeiros da chuva, com alguns a acusarem os rivais de interferirem deliberadamente nos seus rituais.
As comunidades que dependem da agricultura de sequeiro estão sob enorme pressão, e os feiticeiros da chuva podem tornar-se bodes expiatórios convenientes para fenómenos meteorológicos que não conseguem controlar.
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