Diário Liberdade
“(…) António José Seguro, que teria repetido o acordo com Passos Coelho se pudesse voltar atrás, e José Luís Carneiro, com a abstenção “exigente” perante o Orçamento de Montenegro, inscrevem-se nesta linhagem da capitulação.
Quando o PS anuncia querer conciliar liberdade económica com igualdade social, usa uma linguagem que poderia ter sido extraída dos manifestos de Blair. É a mesma preguiça da imaginação, o mesmo abandono do horizonte transformador. E as consequências desta rendição ideológica não são abstratas.
O caso de Alcácer do Sal mostra-o de forma brutal. A ausência de controlo efetivo sobre a exploração capitalista dos recursos naturais está a produzir uma catástrofe ambiental irreversível na Bacia do Tejo/Sado. Megaplantações de culturas intensivas substituíram pinhais e culturas de sequeiro, extraindo água do aquífero muito além da sua capacidade de recarga. O resultado é o abatimento irreversível dos terrenos e a perda da capacidade de reserva do aquífero.
Há uma discrepância alarmante entre os dados oficiais de consumo e as estimativas de especialistas, sugerindo furos ilegais e captações não autorizadas. A pressão turística agrava o problema, com dezenas de milhares de camas nos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal a consumir milhões de metros cúbicos adicionais. E paira agora o risco crescente de contaminação salina nas áreas próximas aos estuários, ameaçando mesmo o abastecimento público. A falta de um sistema de monitorização fiável impede uma avaliação rigorosa da situação. O Estado, capturado pelos interesses que deveria regular, assiste passivamente enquanto o capital privado suga lucros à custa do futuro de todos.
Este é o rosto concreto do neoliberalismo que a Terceira Via aceitou como horizonte inultrapassável: destruição ambiental irreversível, dados ignorados ou adulterados, ausência de controlo democrático sobre decisões que comprometem gerações futuras. A diferença entre administrar o neoliberalismo e combatê-lo não é retórica. É a diferença entre assistir à catástrofe e tentar evitá-la. (…)”

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