por Raquel Varela.
Foto: Rádio Renascença
Chegou o espectáculo de Verão oferecido pelas celuloses. Para a qual trabalham, literalmente, uma parte dos especialistas em fogos que, sem assumirem conflito de interesses, - recebem parte do seu rendimento como consultores das celuloses -, nos entretêm a explicar que o eucalipto arde tanto como as couves, pelo que agora até se chama fogos “rurais” e não florestais.
Os jornais vendem emoções – as explicação são para Deus -, temos a Dona Maria, em directo, com 80 anos a chorar, devastada, em frente da casa queimada, a dizer “Ai meu Deus”, se for emigrante e tiver sido empregada de limpeza em Paris, a história pode aumentar a venda de anúncios no intervalo das “notícias”. Logo a seguir a esmagar a Dona Maria, em directo, temos as declarações do governo, que promete já uma linha de crédito que nunca chegará e toda a aviação dos EUA e da Rússia, juntos finalmente, para Arouca hoje, Vila de Rei ontem, Albergaria amanhã, é só esperar que o eucalipto que ardeu cresça de novo.
O PIB cresce também, – não há que ter medo – , porque se gasta roupa anti-fogo, carros tanque, e uma panóplia de meios ao dispor de bombeiros, jovens, destemidos, parte importante deles, talvez a larga maioria, voluntários sem experiência em florestas que, por isso, arriscam a vida. A eles vem também um governante, ou um líder fascista (que vai tentando organizar e ter influência nestas associações) chamar “soldados da paz” a agradecer darem o corpo às balas, perdão – às fitas embebidas em óleo do eucalipto.
A explicação que eu mais gosto, dos consultores, é a que as propriedades das celuloses não ardem. Ora, todo o país é propriedade das celuloses – as celuloses não querem ter o risco de ter propriedades que ardem, compram a famílias, pagam bem porque o risco é alto, que têm pequenos terrenos, muitos em zonas íngremes. Os milhares de pequenos proprietários são um franchize das celuloses, que dominam o mercado, o preço, o escoamento, tudo. E fazem-no porque não há política florestal, há lucro, e porque o Estado não somos nós, o Estado é uma representação de interesses de grandes empresas, entre elas a da exportação de pasta papel. Nós só pagamos no imposto dos combustíveis uma taxa para “prevenção de fogos”, é o nosso contributo solidário para os lucros das celuloses.. Arda o que arder. Mortes e casas são danos colaterais deste crime a céu aberto.
E tudo isto é ainda culpa de quem não limpa terrenos, já me esquecia. Ou de loucos que lançam fogo (os loucos não são as celuloses nem o Estado). Portanto uma máquina corta relva e muitas prisões, e o eucalipto – essa árvore que tornou o país todo igual, feio, e um cemitério – nunca arderia. Dizem os especialistas.
É como fechar urgências e dizer estar a salvar o SNS ou obrigar aos exames online e dizer que estão a melhorar a educação. É tudo uma questão de mudar o nome de florestas para couves.

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