- «(…) As audições da comissão continuaram a mostrar a mesma falta de decoro, memória selectiva, a ocultação velhaca e até a pesporrência que fica mal aos que não cumprem as suas obrigações financeiras. Como provou Luis Filipe Vieira na sessão desta semana, ser-se caloteiro dispens sentimento de culpa e humildade. (…) Luís Filipe Vieira deixou um calote de 225 milhões, mas diz-se vítima de “calúnias” por parte de uma outra elite que jamais lhe perdoará ser benfiquista, ter nascido “pobre” e “ter vencido”. (…) na essência, Maia, Leão e Vieira são iguais: criaturas de uma cultura de impunidade, compadrio e facilitismo, exemplos de uma elite empresarial que considerava a ética, o trabalho ou a responsabilidade social para com os seus trabalhadores meras alíneas dos relatórios e contas. (…)» Manuel Carvalho, A narrativa dos calotes ao vivo no Parlamento – Público 11mai2021.
- «(…) Sobre Odemira, demorou-se a passar da cerca sanitaria imposta às freguesias onde trabalham e vivem imigrantes para a perceção de um agrocapitalismo de estufa feito de abuso laboral generalizado e de ilegalidade descarada (salários, alojamentos, sequestro de documentos). (…) Este é o modelo que há 30 anos caracteriza o agroindustrial por toda a Europa, das estufas de Çores holandesas aos campos franceses, alemães, espanhóis, portugueses. E vem de longe. A implantação histórica do capitalismo nos campos fez-se acompanhada de um desprezo de classe que, sendo difícil, superou sempre aquele que o patrão da fábrica tinha pelos seus operários. Se 150 anos de batalhas pela propriedade coletiva da terra e pela dignidade do trabalho rural conduziram, no caso português, à Reforma Agrária de 1976, o desmantelamento desta acompanhado por uma globalização neoliberal fez com que o capitalismo mais obsceno regressasse ao Sul. (…)» Manuel Loff, Agrocapitalismo de estufa – Público 11mai2021.
- «(…) Os “proprietários” do Zmar conseguiram esta desmesurada atenção porque, neste país classista, quem tem acesso à elite tem direito à atenção. Foi assim sempre que as escolas reabriram e o debate se centrou imediatamente nos colégios, volta a ser assim agora. Conhecimentos nas redações e contacto direto com o bastonário da Ordem dos Advogados (que por sua vez lhes deu acesso ao Presidente da República) fizeram que um drama irrelevante vivido por umas poucas dezenas de donos das cabanas de verão se transformasse num drama acompanhado pelo país inteiro que, parece-me, tem coisas bem mais importantes com que se preocupar. (…) Quando a polícia entra em bairros pobres, muitas vezes usando a força, está a impor a lei; quando impõe a lei num “resort”, não usando a força, é ditadura. (…) Mas já que conseguiram tanta atenção, que se dedique a atenção toda a um empreendimento que é um símbolo do chico-espertismo nacional. Os autointitulados “proprietários” não são proprietários. São das suas casas, como são os donos de roulottes que estão num parque de campismo. Porque é isso mesmo que aquele espaço é: um parque de campismo. Foi para isso que foi licenciado. Naquele terreno não é permitida nem construção, nem loteamento. As pessoas que vimos na televisão não são donas de um centímetro que seja daquele terreno (que lhes é apenas cedido). E, no entanto, sentiram-se no direito de tentar barrar a entrada. E invocar o direito de propriedade (na providência cautelar não o fizeram, claro) que não é para aqui chamado. A sua propriedade é das casas, que neste caso são um bem móvel, e ninguém entrou nelas. (…) Aquele parque de campismo, construído em plena Rede Natura 2000 e cheio de peripécias onde se cruza quase tudo o que está errado neste país, não deveria existir com aquela dimensão e natureza. E os donos das cabanas sabem-no. A esperteza é conhecida, mas aqui teve dimensões maiores do que o habitual (talvez pelas pessoas envolvidas no negócio): consegue-se um licenciamento para parque de campismo e depois aquilo vai mudando de natureza com o silêncio cúmplice de todos. Mas há coisa que dificilmente acontecerá: aqueles que vieram a público gritar pelo seu direito à propriedade serem proprietários daquela terra. Fomos enganados, porque a única coisa que podiam dizer era demasiado desagradável: que não queriam ter migrantes saudáveis como vizinhos numa terra que não é sua. E isto mobilizou três partidos políticos e as aberturas de todos os telejornais.(…)» Daniel Oliveira, Um país mediaticamente sequestrado pelos pequenos dramas de umas dezenas de proprietários que afinal nem o são – Expresso 11mai2021. Algo parecido foi aqui citado em 10mai2021.

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