quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Bico calado

«(…) Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível — doenças desconhecidas, mutações virais —, nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro. Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a catástrofe, a rutura sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a espetar-se em antebraços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia. (…) Criticamos a manifesta agenda política, legítima — mas nunca assumida — nos canais privados, mas, em absoluto, inaceitável na televisão pública. Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.» 

Carta aberta às televisões generalistas nacionais.

4 comentários:

OLima disse...

Resposta da RTP:
«(...) Não alimentamos polémicas, sobretudo quando percebemos de onde vêm e que fins visam na circunstância (...) Repudiamos os ataques à RTP e ao bom nome dos seus profissionais, bem como a tentativa de condicionamento do nosso trabalho. (...) Os estranhos apelos à “contenção” correm o risco de se confundir com mordaça. (...) não permitiremos que um manifesto avulso tente manchar um património que todos os dias honramos.»
via Clube de Jornalistas
https://www.clubedejornalistas.pt/?p=20547

OLima disse...

Resposta do ECO:
«(...) talvez isto explique a liberdade com que umas quantas “personalidades” de esquerda — entre os quais jornalistas (!) — exijam a censura e o ‘respeitinho’ de jornalistas e meios de comunicação social relativamente ao Governo e à forma como tem conduzido a gestão política da pandemia. Deixo-vos aqui alguns excertos deste ‘tratado’, dirigido às televisões, mas que é na prática uma pressão sobre todos os jornalista (...) Poderíamos ter uma de duas atitudes: Desvalorizar esta carta aberta, remetê-la para a gaveta das patetices que desaparecerão com a espuma dos dias ou, pelo contrário, levá-la muito a sério, e não deixar cair estas tentações que, no contexto em que vivemos, ganham espaço e até parecem normais nos tempos que correm. Não são. São mesmo anormais e insuportáveis. (...) este grupo de “personalidades” fez-nos a todos um enorme favor. Aos mais distraídos, aos céticos, a todos, este grupo de mostrou que é mesmo preciso garantir a independência e a defesa da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão, porque haverá sempre alguém disposto a defender a censura ao serviço dos seus interesses pessoais.(...)
via Clube de Jornalistas.
https://www.clubedejornalistas.pt/?p=20548

OLima disse...

«(...) Não é estranho que esse mesmo conselho, tão seguro de si e da qualidade da informação que produz, confunda contenção com mordaça? Não sabem, ou já esqueceram os membros daquele conselho, que o tempo da mordaça terminou em abril de 1974? E que, desde então, existe um direito fundamental que só a Democracia garante, que é o direito à liberdade de expressão? E que isso inclui o direito de um cidadão criticar o trabalho de alguns jornalistas?
E não é intrigante que o conselho afirme que não alimenta polémicas, para logo acrescentar, em tom velado de denúncia, “quando percebemos de onde vêm e que fins visam na circunstância”? Perceberam mesmo? Sabem mesmo de onde vêm muitos dos subscritores da carta, ou não apreciam o lugar de onde vêm muitos deles? Então, eu recordo: vêm do combate à censura e da luta pela liberdade de expressão. (...)»
Abílio Hernandez, um dos subscritores da carta aberta à RTP.
https://www.facebook.com/Icarus.Daedalus.27/posts/3855588107797783

OLima disse...

«(…) Os qualificativos usados para fazer referência aos iniciadores e coautores da “carta aberta” põem em evidência a falta de cultura, maturidade e tato dos autores das reações. Falar de censura, de mordaça de salazarismo ou salazarento e mais outros termos da mesma têmpera para se referirem a gente que, em tempos de salazarismo, viveu na clandestinidade, foi prisioneira política, exilada e refugiada política, ou vítima da censura, é no mínimo uma falta de decência. Sobretudo quando tais qualificativos vêm de gente que, tudo leva a pensar, tiveram a sorte de nunca ter conhecido tais situações de repressão. (…)há numerosos antigos jornalistas pré-reformados ou reformados, gozando de um certo prestígio, mas nenhum até agora achou por bem, não necessariamente de dizer maravilhas da “carta aberta”, mas de vir dizer que há de facto um problema que se põe com a informação praticada pelas televisões generalistas portuguesas. Que jornalistas no ativo não o façam, compreende-se perfeitamente: há que evitar problemas internos com a propriedade dos média, com as direções de informação e até com colegas com quem se trabalha. Mas o que explica esta total ausência de reações dos que já estão fora das redações e não contam voltar a integrá-las?… os meios jornalísticos, que se permitem falar de tudo e criticar o que muito bem lhes apetece, não suportam os reparos ou críticas em relação ao seu trabalho vindas do exterior, de simples cidadãos, sejam quais forem as competências destes na matéria em questão. E esta realidade, também conhecida nos meios jornalísticos de outros países, toma em Portugal uma dimensão manifestamente exagerada, com a expressão de uma suscetibilidade dificilmente aceitável em democracia…» J.-M. Nobre-Correia, A melhor defesa é o ataque, pensam eles…
- https://notasdecircunstancia2.blogspot.com/2021/02/a-melhor-defesa-e-o-ataque-pensam-eles.html