OS TRABALHADORES EXPLORADOS QUE CONSTROEM OS CENTROS DE DADOS DA EUROPA
Mei-Ling McNamara e Jan Daalder, Investigate Europe. Rev. O’Lima.
O projeto de construção de um centro de dados da Google, no valor de 6 mil milhões de euros, em Saint Ghislain, na Bélgica.
Crédito: Shutterstock
Uma investigação de cinco meses realizada em nove países, revela graves casos de exploração laboral e falhas de segurança nos estaleiros de construção de centros de dados por toda a Europa, onde as gigantes tecnológicas norte-americanas (Google, Microsoft, Amazon) contratam empresas de construção irlandesas e uma rede de subcontratados.
Principais conclusões:
1 Lesões graves e falhas de segurança
O trabalhador romeno Sandu Dumitrescu sofreu um choque elétrico (400 volts, 12 000 amperes) num local da Google em Saint Ghislain, na Bélgica, depois de lhe ter sido pedido que realizasse um teste de última hora sem equipamento de proteção. Sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus em 12 % do corpo e esteve em coma induzido durante cinco dias. Não foram aplicadas multas nem sanções; a inspeção do trabalho belga arquivou o caso sem o ter ouvido.
2 Condições de vida precárias e doenças
Numa unidade da Microsoft em Gävle, na Suécia, os trabalhadores relataram infestações de ratos, avarias nos sistemas de aquecimento e ventilação e sobrelotação (24 pessoas por cozinha, 14 homens por casa de banho). Foi confirmado um caso de tuberculose, mas não foi oficialmente comunicado qualquer surto e o rastreio de contactos não foi realizado conforme exigido. Os trabalhadores afirmam que outras 10 a 12 pessoas foram infetadas e que cerca de 40 homens — alguns com testes positivos para a tuberculose — foram transferidos para uma instalação da Microsoft na Dinamarca.
3 Terror psicológico e táticas de controlo
Os trabalhadores descreveram uma cultura de intimidação sob a supervisão das empresas subcontratadas irlandesas Collen e Benbau, incluindo um sistema de sanções de «cartão amarelo/cartão vermelho», confissões escritas forçadas e relatórios obrigatórios «Good Save», acompanhados de ameaças de deduções salariais. Um antigo gestor afirmou que as confissões foram «concebidas para humilhar» os trabalhadores.
4. Roubo de salários e exclusão sindical
Mais de 30 trabalhadores partilharam recibos de vencimento que revelavam semanas de trabalho de cerca de 60 horas sem pagamento de horas extraordinárias, numa aparente violação da legislação sueca. Um sindicato acusou a Benbau de reter quase 900 000 € em salários de 78 trabalhadores romenos. Dias antes da publicação, chegou-se a um acordo histórico no valor de 1,3 milhões de euros — o primeiro acordo coletivo da Suécia celebrado por e para trabalhadores migrantes. Sindicatos na Bélgica, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Itália relataram que lhes foi negado o acesso aos locais de trabalho; um sindicato dinamarquês afirmou que os locais estão «mais fechados do que uma prisão estatal».
5. Lacunas na aplicação da lei
A Autoridade Europeia do Trabalho não possui poderes de inspeção nem de aplicação da lei e conta com menos de 140 funcionários para toda a UE. A UE está a preparar uma «Lei dos Empregos de Qualidade» para abordar a responsabilidade solidária nas cadeias de subcontratação e promover o emprego direto.

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