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quarta-feira, 22 de julho de 2026

REFLEXÃO

IMAGENS ALTERADAS POR IA EM FÓRUNS DE OBSERVAÇÃO DE AVES COLOCAM A INVESTIGAÇÃO EM RISCO
Patrick Greenfield, The Guardian. Rev. O’Lima.

«Ninguém acredita que se tenha avistado um tucano na Sibéria»… Esta imagem foi gerada por IA, utilizando o ChatGPT. Ilustração: ChatGPT

Para muitos observadores de aves, registar uma espécie fora da sua área de distribuição normal é o Santo Graal. No Reino Unido, estas descobertas costumam ser notícia a nível nacional. A garça-dos-recifes-ocidental, por exemplo, normalmente encontrada em África e no sul da Europa, foi avistada numa cidade costeira no norte do País de Gales em junho e amplamente comemorada nos fóruns de observação de aves.

Mas um novo flagelo ameaça perturbar a diversão: o uso indevido da IA.

Os cientistas estão a apelar aos observadores de aves para que limitem o uso da IA na edição de imagens, devido ao receio de que isso possa comprometer a credibilidade de plataformas populares de ciência cidadã, como o iNaturalist e a Macaulay Library, que são habitualmente utilizadas na investigação científica para monitorizar a área de distribuição das espécies.

A ascensão de plataformas de IA generativa levou a um aumento acentuado de imagens falsas e retocadas de aves raras e célebres nos fóruns de fotografia da vida selvagem. Os utilizadores podem criar imagens falsas de alta qualidade em segundos — ou retocar uma fotografia, pedindo à IA para remover um ramo ou uma folha que possa estar a obscurecer parte do objeto, o que pode, inadvertidamente, introduzir alterações significativas.

Num comentário recente publicado na revista científica Nature, os investigadores denunciaram a descoberta de centenas de imagens falsas em bases de dados populares destinadas ao registo de espécies. Afirmaram que a verdadeira dimensão do problema é desconhecida — uma vez que muitas podem passar despercebidas — e que isso pode contaminar os registos recolhidos pelo público.

«A minha experiência ao navegar no Facebook nos últimos tempos é que um volume enorme de fotografias de vida selvagem são agora simplesmente imagens geradas por IA», afirmou o Dr. Alexander Lees, ecologista da Universidade Metropolitana de Manchester e autor do artigo científico. «A ideia de que poderíamos talvez utilizar essas fotografias para nos ajudar a compreender onde as espécies se encontram no espaço e no tempo é muito difícil de concretizar.»

As fraudes evidentes continuam a ser raras e são frequentemente fáceis de identificar, afirmou Lees — ninguém acredita num avistamento de um tucano na Sibéria —, mas ele refere que os observadores de aves utilizam frequentemente a IA para editar e melhorar uma imagem, e o algoritmo pode então introduzir partes de diferentes espécies de aves para criar a nova imagem.

Lees refere o exemplo de um falso avistamento de um melro-de-asa-vermelha no centro do Brasil, ave que normalmente se encontra na América do Norte e que nunca tinha sido vista nesta região do Brasil até ao avistamento relatado. A ave era, na verdade, um papa-figo-de-epauletas — uma espécie comum do Novo Mundo —, mas o fotógrafo tinha pedido a uma plataforma de IA para tornar a fotografia «mais bonita», o que levou à adição de partes do melro-de-asa-vermelha, resultando no avistamento falso.

«Os fotógrafos de vida selvagem podem ficar bastante obcecados em conseguir uma fotografia bonita, mas existe o risco de que a imagem possa, na verdade, causar problemas no futuro, quando for editada com recurso à IA», afirmou Lees.

As organizações de ciência cidadã continuam a trabalhar para compreender a dimensão do problema. No iNaturalist, uma rede social onde os entusiastas da natureza podem registar observações de plantas e animais, apenas 1 400 das mais de 610 milhões de imagens na plataforma foram sinalizadas para utilização de IA. Desde monitorizar a forma como as plantas e os animais se movem em resposta às alterações climáticas até registar novos comportamentos nas espécies, foram feitas dezenas de descobertas através da ciência cidadã.

Tony Iwane, diretor de apoio à comunidade do iNaturalist, que foi coautor do artigo publicado na revista Nature, afirmou que era improvável que a maioria destes casos fosse maliciosa, mas apelou aos utilizadores para que se mantivessem vigilantes.

«Em plataformas como a nossa, pessoas comuns estão a publicar informações que um cientista provavelmente nunca conseguiria obter em grande escala. É também quase como um sensor do que está a acontecer na Terra em tempo real: as plantas estão a florescer mais cedo? As espécies estão a deslocar-se para norte à medida que o clima aquece? Quanto mais soubermos sobre a localização das espécies, mais bem informados poderemos estar enquanto conservacionistas. Mas a informação tem de ser precisa», afirmou.

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