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terça-feira, 16 de junho de 2026

REFLEXÃO

DIZ-ME ONDE MORAS E EU DIGO-TE QUANTAS ÁREAS VERDES TENS
Eduardo Robaina, Climática. Rev. O’Lima.


O código postal determina o acesso à natureza em Espanha, de acordo com um relatório publicado pelos Amigos da Terra. A organização alerta que 60% da população urbana não cumpre as normas da OMS e propõe soluções para reverdecer os bairros de rendimentos baixos sem provocar uma «gentrificação verde».

60% da população em dez das principais cidades espanholas não tem acesso suficiente a zonas verdes. É o que conclui um relatório publicado pela organização ambientalista Amigos da Terra, elaborado em colaboração com os investigadores do Grupo de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Sustentabilidade da Universidade Politécnica de Madrid. Em Espanha, 80% da população reside em cidades.

O estudo analisa a disponibilidade de espaços naturais à luz da chamada «regra 3-30-300», uma recomendação apoiada pela Organização Mundial da Saúde. De acordo com esta norma, cada habitante deveria poder ver três árvores da sua janela, o bairro deveria ter 30% de cobertura vegetal e deveria existir um parque com pelo menos um hectare a uma distância máxima de 300 metros da habitação. Em Espanha, isto está longe de ser cumprido.

Cerca de 80 % dos habitantes de Valência e Ourense e 70 % dos de Badajoz não dispõem de uma grande área verde perto das suas habitações. Uma percentagem que contrasta com Santiago de Compostela, que apresenta os melhores indicadores de extensão e acessibilidade por habitante. Valladolid também atinge uma boa cobertura por habitante e superfície, embora apresente alguma desigualdade na distribuição da natureza em torno do eixo este-oeste. Ainda assim, o problema central deste relatório não se limita apenas à quantidade de áreas verdes existentes, mas à sua distribuição territorial e social.


O fosso da desigualdade e as «zonas de ação prioritária»

A investigação sublinha que, nos bairros de rendimentos mais baixos, a área de natureza por habitante é sistematicamente inferior, um facto habitualmente agravado por uma maior densidade habitacional. Ao cruzar as variáveis do poder de compra com a disponibilidade de zonas verdes, surgem mapas de desigualdade que revelam as chamadas «zonas de ação prioritária».

Estas áreas críticas, salienta a ONG, são espaços onde a renaturalização já não é apenas uma questão de equilíbrio ecológico, mas sim uma ferramenta urgente para o bem-estar e a adaptação às altas temperaturas das populações mais vulneráveis. O relatório insiste que a falta de vegetação e a exposição contínua ao asfalto prejudicam a saúde física e mental, enquanto a presença de grandes parques se revelou vital para reduzir a pressão arterial, a ansiedade e a depressão.

Através de mapas interativos, a organização formulou propostas de intervenção concretas e imediatas para estas zonas de ação prioritária em todo o país:

Madrid: as carências afetam sobretudo o sul e o leste. As ações prioritárias devem concentrar-se em bairros densamente povoados como Puente de Vallecas, Carabanchel-Usera, Tetuán e San Blas-Canillejas. Aqui, a estratégia passa por redesenhar as zonas de transição para criar «ruas-parque», ecologizar os espaços verdes já existentes e promover percursos pedonais arborizados.

Valência: com quase 80% da sua população sem acesso a um grande parque nas proximidades, a necessidade é premente em Quatre Carreres, Patraix, L’Olivereta, Poblats Marítims, Camins al Grau, Rascanya, La Saïdia, Benicalap e Jesús. Propõe-se recorrer à jardinagem móvel e modular («verde tático»), abrir os recintos de equipamentos públicos e reutilizar grandes espaços industriais ou militares encerrados.

Sevilha: o asfalto castiga especialmente a Macarena, o Distrito Sul, Cerro-Amate e San Jerónimo. As soluções para combater as temperaturas tórridas de Sevilha nestes bairros de quarteirões abertos exigem reverdecer as tradicionais praças pavimentadas e instalar coberturas verdes acessíveis nos edifícios.

Saragoça: o défice histórico sufoca o Centro Histórico, Delicias, Las Fuentes, San José, Torrero, Oliver-Valdefierro e parte de Miralbueno. Nestes tecidos urbanos tão compactos, a sobrevivência passa por operações agressivas de pedonalização verde e pela renaturalização de pátios e espaços livres em equipamentos institucionais.

Palma: apesar dos seus grandes parques periféricos, bairros como Pere Garau, Son Canals, Son Cotoner, Camp d’en Serralta, Camp Redó e Son Cladera carecem de espaços verdes de proximidade. Perante a falta de espaço e a pressão urbanística, a proposta fundamental consiste em dar um uso temporário como zonas verdes aos terrenos baldios.

Valladolid: as zonas de ação prioritária concentram-se a leste e a sul, em Pajarillos (Altos e Bajos), Delicias-Canterac e San Isidro. Nestes bairros, é necessário contornar as infraestruturas através de passagens pedonais verdes, transformando antigas vias de tráfego em corredores ecológicos que liguem espaços fragmentados.

Badajoz: é uma das cidades com os piores dados globais em termos de acessibilidade. A intervenção é crítica em San Roque, Suerte de Saavedra e nos bairros da Margen Derecha (Los Colorines, El Gurugú e El Progreso). A principal exigência técnica consiste em reconverter os seus eixos rodoviários inertes em corredores verdes contínuos.

Ourense: apresenta a pior cobertura vegetal entre as cidades analisadas, com 80% dos residentes sem acesso suficiente. A urgência recai sobre O Vinteún, O Couto, A Carballeira e San Francisco. É necessária uma reformulação profunda que crie novos «centros verdes» nestes bairros, atenuando o isolamento causado pelo asfalto.

Ibiza: Embora apresente melhores dados gerais, a altíssima pressão turística isola zonas de baixos rendimentos como Ca n’Escandell e Cas Serres. As propostas exigem tornar os parques mais permeáveis (eliminando vedações e melhorando os acessos) e consolidar corredores urbano-periurbanos que protejam a paisagem contra a especulação.

Santiago de Compostela: é a única exceção do estudo. Graças a um planeamento urbano historicamente articulado em torno dos seus rios e cinturas florestais acessíveis, não foram identificadas zonas de ação prioritária com base nos critérios de baixos rendimentos e acesso nulo. No entanto, o relatório recomenda dar continuidade à gestão inovadora e reforçar a rede com espécies mais compatíveis com o ecossistema local.

Para implementar estas mudanças sem necessidade de grandes demolições, propõem-se aproveitar ao máximo o espaço existente, ecologizando zonas residuais, abrindo grandes recintos fechados para uso público e transformando o antigo solo industrial no núcleo da infraestrutura verde urbana.

Contra a «gentrificação verde»

A revitalização dos bairros acarreta frequentemente o risco de provocar a «gentrificação verde», um processo em que a reabilitação urbana valoriza agressivamente os terrenos, atraindo capital especulativo. Isto leva à expulsão dos residentes originais de baixos rendimentos para novas periferias de betão.

«Exigimos políticas de habitação justas que evitem que o reverdecer das cidades implique a expulsão das pessoas das suas casas», adverte Miguel Díaz, porta-voz dos Amigos da Terra, sublinhando que é necessário promover a construção de refúgios climáticos comunitários.

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