EPSTEIN E OS BALLET ROSE DE SALAZAR
Leonel Pedro Pedroso GonçalvesMuito me tem surpreendido que a propósito do caso Jeffrey Epstein, ninguém em Portugal se tenha lembrado do escândalo 'Ballet Rose', dos salazarentos anos sessenta neste lindo jardim à beira mar plantado.
O escândalo 'Ballet Rose' foi desvelado, para quem não sabe, quando um jornalista britânico do Daily Telegraph investigou e denunciou um hediondo esquema de pedofilia, prostituição e abuso de menores que envolveu altas figuras do Estado Novo, ministros do governo de Salazar e outros altos cargos do Estado e teve ramificações no excelso mundo empresarial da época, com gradas figuras das primeiras famílias do país, como então se dizia, envolvidas.
Ou seja, lambuzou de fétida sordidez toda a élite do regime ditatorial do velho botas de Santa Comba, impoluto, beato e cheio de virtudes, como hoje dizem os seus numerosos seguidores, liderados pelo grande André de Mem Martins e que quereriam ver tudo de novo e multiplicado por três.
Ora o bom do velho espátula de rapa-tachos, incorruptível, como eles dizem, fez tudo para abafar o caso, calou a justiça, que já pouco o era no seu regime, para proteger os seus ministérios, os ricaços das famílias que ele apoiava e que em troca o apoiavam a ele e, enfim, para se proteger a si próprio e ao seu poder.
Não conseguiu evitar a demissão (melhor dito, o discreto afastamento) de Antunes Varela, ministro da justiça de então, que se lhe opôs (ao velho baboso) e exigia que se fizesse justiça. Mas, de resto, conseguiu um enorme silenciamento. E a limpeza do nome dos criminosos seus amigos.
O caso ainda foi investigado pela Polícia Judiciária e, posteriormente, pela PIDE por decisão de Antunes Varela. A PJ entrevistou algumas das vítimas, incluindo uma prostituta e a filha que denunciaram a lista de clientes que incluía figuras políticas e membros do exclusivo jet-set da ditadura fascista. Nomes importantes.
Assim que Salazar tomou conhecimento do caso, tomou medidas para o abafar. Protegeu, à outrance, nomeadamente o ministro de Estado José Gonçalo Correia de Oliveira, um dos envolvidos.
A Polícia Judiciária acabou, pasme-se, por levar o caso a tribunal em 1967, apenas com a acusação de atentado ao pudor, sendo acusados várias mulheres e homens, mais ou menos anónimos. Apenas três pessoas serão condenadas: uma modista da Avenida de Roma (!), um administrador bancário (do Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa) e um proprietário hoteleiro.
O caso Ballet Rose envolveu a prostituição ou o lenocínio, mais exatamente, de crianças de idades dos 8 aos 12 anos, mais jovens, bem mais jovens, do que as atuais vítimas do caso Epstein , na sua maioria.
E os crimes foram sumariamente encobertos por um regime político que se dizia de uma inabalável moralidade católica.
Havia pagamentos para "desflorar" crianças (tirar a sua virgindade) a professoras e outros responsáveis pelas crianças oriundas de meios pobres.
No início dos anos 1960, uma das raparigas, de 16 anos, abusada desde os 9, decide denunciar o caso à Polícia Judiciária, acompanhada por um advogado.
A partir daí, e sobretudo por ação do jornalista inglês, destapou-se um véu que custou muito ao velho ditador manter no sítio, sobre a putrefacta lama do seu corruptíssimo regime.
Advogados da oposição, nomeadamente, Mário Soares e Francisco Sousa Tavares, tal como o jornalista e escritor Urbano Tavares Rodrigues, ainda tentaram levar a denúncia do sucedido, do envolvimento das élites portuguesas, e do encobrimento feito pela ditadura de Salazar, a instâncias internacionais.
Mário Soares foi acusado de traição à pátria por revelar ao repórter britânico Barry O'Brien, do Daily Telegraph, informações sobre o caso Ballet Rose. A sua prisão ocorreu no dia seguinte à publicação da reportagem no jornal britânico, sendo enviado primeiro para Caxias e, mais tarde, para São Tomé e Príncipe.
Francisco Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues foram ambos presos por denunciar o caso.
O escândalo Ballet Rose, típico caso de abuso de poder por élites que, de tão acima do homem e da mulher comum, se sentem totalmente impunes é de uma semelhança enorme, na sua escala nacional, com o que se passa no de Epstein, até na suposta troca de informações altamente confidenciais como forma de pagamento por tenebrosos favores indizíveis.
Ambos os casos revelam que sem pelo menos alguma justiça social, não haverá, de facto, qualquer tipo de justiça.
Como com quase tudo o que diz respeito a Salazar e ao seu regime, o caso caiu quase no esquecimento da democracia que lhe sucedeu, que não deveria ter parado de repetir incessantemente tais factos para pedagogia popular.
Hoje, a esquerda atordoada não é capaz de pegar nos Ballet Rose para, com a oportunidade de Epstein, mostrar o que era a verdadeira corrupção sem limites do Estado Novo e para contrariar o branqueamento da figura hedionda do baboso botas feito nos media e com a sua colaboração, - noblesse oblige (hahaha e hhh), pelos sequazes do ex-seminarista, ex-comentador do Benfica, de Mem Martins.
PS- ‘Vidas Proibidas – Ballet Rose’, série de 10 episódios da RTP.
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