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terça-feira, 11 de novembro de 2025

REFLEXÃO

FOTOVOLTAICAS – COMPARAR PROJETOS AMBICIOSOS E PROJETOS FALTOSOS
por João Gomes


Da esquerda para a direita: deserto de Tengger Desert, província de Qinghai - Xinjiang; Kutch, estado de Gujarat, noroeste da Índia; 
Évora, Alentejo.

A energia solar é inegavelmente uma peça central da transição energética global. No entanto, nem todos os projetos fotovoltaicos são concebidos da mesma forma, e nem todos têm impactos semelhantes sobre o território e as populações. Ao comparar projetos ambiciosos da China e da Índia com iniciativas recentes em Portugal, a diferença de estratégia e de diálogo social torna-se evidente.

China: aproveita desertos, minimiza conflitos

Na China, grandes parques solares foram construídos em desertos e zonas áridas pouco usadas para agricultura, como o Tengger Desert e regiões da província de Qinghai. A escolha é estratégica: essas áreas permitem a instalação de enormes quantidades de painéis sem competir com a produção agrícola ou perturbar comunidades locais. O impacto direto sobre populações é reduzido, enquanto os ganhos energéticos são máximos. Além disso, há estudos que sugerem efeitos secundários positivos, como a redução da evaporação e a estabilização do solo desértico.

O modelo chinês é ambicioso e centralizado: concentra-se na eficiência territorial e energética, reduzindo conflitos sociais e preservando solos produtivos. É uma lição clara sobre como planeamento e escolha de localização podem ser determinantes para o sucesso de projetos energéticos massivos.

Índia: escala imensa em zonas marginalizadas

Na Índia, o projeto Khavda Renewable Energy Park em Gujarat é outro exemplo de grande ambição. Com planos para cerca de 30 GW de energia renovável combinando solar e eólica, o parque ocupa terrenos áridos e salinos próximos do deserto de Kutch. Tal como na China, o impacto sobre a agricultura é mínimo, e o conflito social direto é reduzido.

Ainda assim, a construção envolve desafios logísticos e impactos ambientais a médio prazo, mas a escolha do território demonstra que é possível conciliar escala massiva com menor efeito sobre o uso agrícola e sobre as comunidades locais.

Portugal: conflitos, contestação e falta de diálogo

Em Portugal, a realidade é outra. Grandes parques fotovoltaicos estão a ser projetados em regiões agrícolas produtivas, como o Alentejo ou a Beira Interior. Terras de monocultura, solos férteis e paisagens valorizadas estão a ser ocupadas por painéis, gerando tensões com agricultores, comunidades locais e ambientalistas.

Ao contrário da Índia e da China, aqui o conflito entre energia e agricultura é inevitável, e a ausência de diálogo e soluções alternativas é evidente. Embora a agrivoltaica ou “solar grazing” (pastagem integrada com painéis) seja uma proposta promissora, ainda está em fase incipiente e não foi amplamente adotada.

Parte da explicação para esta escolha de localização é económica e logística: áreas montanhosas ou mais afastadas de centros de recolha de energia seriam mais adequadas em termos ambientais, mas encareceriam a instalação e a transmissão elétrica. A política de “facilidade sobre sustentabilidade” tem custos reais: impactos sociais e contestação popular que atrasam e complicam os projetos.

A conclusão é clara: a energia solar não é o problema - a escolha do local e a forma como se integra na sociedade é que define o sucesso ou o fracasso de um projeto. Enquanto China e Índia conseguem grandes escalas com menor conflito social, Portugal ainda luta com tensões locais, escolha subótima de terrenos e falta de diálogo.

A política energética portuguesa precisa olhar para além da facilidade logística e considerar a justiça social, a preservação do território e a integração ambiental. Projetos bem planeados podem conciliar energia renovável com agricultura, paisagem e vida comunitária; projetos mal planeados, mesmo sendo tecnicamente viáveis, tornam-se fontes de conflito, contestação e desperdício de oportunidade.


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