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sábado, 8 de novembro de 2025

REFLEXÃO

COMO ELIMINAR 8 KMS DE GELO ANTÁRTICO EM APENAS DOIS MESES
Martina H, Medium. Trad. O’Lima.



Há dois anos, vi uma estrada desmoronar durante a noite. Uma artéria de duas faixas perto da cidade de Stenungsund, no sudoeste da Suécia, desabou após um deslizamento de terra. Três pessoas foram para o hospital. O resto de nós ficou a olhar para uma ferida no asfalto onde antes havia solo.

A estrada rachou com o degelo. O que parecia permanente tornou-se viscoso. Um dos amigos mais próximos do meu pai, um camionista que transportava madeira de Gotemburgo para Oslo, contou-me que tinha visto o solo ceder duas vezes na sua vida. «Uma vez quando as minas se expandiram em Kiruna», disse ele, «e agora aqui, quando a terra simplesmente decidiu ceder.» Ele sorriu, mas não era humor. Era o som de alguém a perceber que até o leito rochoso pode tornar-se um rumor.

A fissura começou pequena. Uma fissura no cascalho. Depois, um suspiro audível, como se a tundra tivesse exalado depois de prender a respiração durante séculos. Pela manhã, havia apenas uma mancha de lama e betão fraturado. Em questão de horas, 140.000 m2 de solo «sólido» fragmentaram-se como madeira sob o ataque de uma motosserra. (…)

Essa aceleração ficou gravada na minha memória: o que parecia inabalável ao anoitecer desapareceu ao amanhecer — um reflexo de como a velocidade em si mudou, de como o colapso já não se desenrola ao longo de gerações, mas nas páginas do calendário.

No entanto, enquanto olhávamos distraidamente para as nossas estradas destruídas, a Antártida fazia o mesmo, só que a sua estrada era composta por 8 kms de gelo, desaparecendo antes que alguém tivesse tempo de perceber.

Distâncias que podemos imaginar

Oito quilómetros é a distância percorrida num passeio dominical num parque urbano, se caminhar sem rumo, parando nos bancos, contornando poças e deixando a luz mudar ao longo dos caminhos. É também a distância que um ciclista casual percorre em cerca de vinte minutos, mais ou menos, ou um trecho de estrada que poderia acomodar 80 000 carros, um atrás do outro. (…)

Dois meses. Tempo suficiente para um feto humano desenvolver pálpebras, para uma raposa criar filhotes de criaturas cegas a caçadores furtivos, para mudas brotarem do solo, para hábitos se enraizarem — ou corações se partirem. Numa escala geológica, é um piscar de olhos, a largura de um fio de cabelo entre o Pleistoceno e o presente. No entanto, na Antártida, dois meses podem agora ser a diferença entre resistência e colapso, o suficiente para apagar toda a frente de um glaciar. O Glaciar Hektoria (185 Km2, aproximadamente o tamanho da Filadélfia) fez exatamente isso.

Em 2023, 8 Kms de gelo ruíram no mar, despejando água suficiente para abastecer dezenas de milhões de pessoas durante um ano, o suficiente para submergir Manhattan sob quase três metros de água. (…)

«Quando sobrevoámos Hektoria no início de 2024, não consegui acreditar na vastidão do que tinha desmoronado», disse Naomi Ochwat, autora principal de estudo recente: «As imagens de satélite sugerem fiordes e montanhas, mas nada prepara-nos para ver isso pessoalmente.» A equipa de investigação, incluindo o cientista sénior do CIRES Ted Scambos, vinha acompanhando o desprendimento de gelo marinho para outro estudo sobre o colapso da plataforma de gelo. Perante os dados recolhidos, Ochwat percebeu algo extraordinário: Hektoria havia quase desaparecido em dois meses. Então surgiu a pergunta que ninguém podia ignorar: porque é que esse glaciar recuou tão rapidamente?

O mecanismo de desaparecimento

Os glaciares marítimos da Antártida são como gigantes com os pés mergulhados no oceano: repousando no fundo do mar, as suas frentes geladas beijam a água, lançando icebergs na escuridão por baixo. Algumas deslizam sobre um submundo irregular de cânions e montanhas; outras, como Hektoria, estendem-se por planícies planas e implacáveis de rocha escondidas sob o gelo.

Isto é importante. Investigadores descobriram que, há 15.000 a 19.000 anos, os glaciares nessas planícies podiam recuar centenas de metros por dia, conforme mostram reconstruções paleoglaciológicas. A história repete-se. A planície de gelo de Hektoria estava prestes a entrar em colapso repentino.

A magia (ou o horror) acontece na linha de aterramento, onde o gelo se eleva do solo sólido para flutuar sobre o oceano. Os satélites revelaram que Hektoria não tinha uma, mas várias linhas de aterramento, um sinal revelador da topografia plana do leito de gelo. Quando um glaciar flutua, o oceano começa a corroê-la. Abrem-se fendas por baixo, encontrando fissuras na superfície, e o glaciar fratura-se como vidro sob pressão. O que era estável de repente torna-se catastrófico.

A equipa reuniu imagens de satélite ao longo do tempo, criando uma visão cinematográfica do colapso. «Se tivéssemos apenas uma imagem a cada três meses, talvez nunca soubéssemos que o glaciar perdeu dois quilómetros e meio em dois dias», explicou Ochwat. Ao sobrepor vários conjuntos de dados, a equipa reconstruiu o rápido recuo da Hektoria dia a dia.


Instrumentos sísmicos captaram os ecos da fúria do glaciar: terremotos glaciares que confirmaram que Hektoria estava assente sobre rocha, mesmo enquanto se fragmentava. Esses tremores mapearam a planície de gelo por baixo e provaram que cada evento de tutura contribuiu diretamente para o aumento global do nível do mar.

Hektoria é um aviso, não uma exceção. Há planícies de gelo em toda a Antártida. O estudo desse único e furioso glaciar fornece aos cientistas as ferramentas para antecipar que outros gigantes podem seguir o mesmo caminho. (…)

É impossível ignorar o elefante na sala. 2023 e 2024 foram os anos mais quentes consecutivos em 125 000 anos. A partir de 2025, os pólos registraram a menor massa de gelo alguma vez registada. Mais de 80% dos recifes de coral desapareceram, branqueados sem possibilidade de recuperação, e os cientistas afirmam que cruzamos o nosso primeiro grande ponto de inflexão: o colapso irreversível dos ecossistemas marinhos que sustentam quase um bilhão de pessoas, independentemente do que fizermos a seguir.

Estamos a caminhar a passos largos para o caos climático, um aquecimento global acelerado, que se intensifica cada vez mais, mesmo enquanto nos esforçamos para o desacelerar.

E a razão é dolorosamente clara. «Os recentes desenvolvimentos climáticos evidenciam a extrema insuficiência dos esforços globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e marcam o início de um novo capítulo sombrio para a vida na Terra», afirma uma equipa internacional de investigadores, autores do «Relatório sobre o Estado do Clima em 2025». (...)

O mundo vai aplaudir-se por ter comparecido

Enquanto as plataformas de gelo da Antártida racham e desmoronam como açúcar sob o peso de um planeta em aquecimento, o palco global prepara outro espetáculo de diplomacia climática.

A Cimeira Climática das Nações Unidas tornou-se menos um fórum para ações urgentes e mais uma exposição itinerante de teatro político e negociações obscuras. Sharm el-Sheikh, Dubai, Baku: cada uma delas um cenário glamoroso de petroestados, oferecendo uma imagem rica em petróleo para distrair da realidade inconveniente de que as suas economias são construídas com base na queima do planeta.

Agora, a COP30 vai acontecer em Belém, no Brasil, terra da Amazônia. E o Brasil, sempre ansioso por mostrar o seu compromisso, não vai apenas sediar uma cimeira: destruiu parte da Amazônia para construir uma estrada para que as autoridades pudessem chegar a tempo. Porque nada representa melhor a ação climática do que pavimentar os pulmões da Terra.

A conferência será aclamada como a «COP da verdade» pelo seu anfitrião, Luiz Inácio Lula da Silva, que acaba de escrever com ousadia que «a era dos belos discursos e das boas intenções acabou». Que admitável retórica admirável. Inspiradora, na verdade.

No entanto, se lermos com atenção, percebemos imediatamente a contradição: o resto do seu discurso é... uma série de boas intenções. O Brasil reduziu pela metade o desmatamento (sim, e devemos comemorar isso), mas não podemos esquecer a pequena e encantadora nota de rodapé: os leitos dos rios da Amazônia continuam abertos à extração de combustíveis fósseis. Ações ousadas entrelaçadas com compromissos convenientes; a salvação do clima embalada com conveniência económica. No fundo, tudo como dantes, revestido de retórica verde.

Entretanto, ninguém pode ficar surpreendido que os EUA, liderados por um homem que considera as alterações climáticas «a maior fraude de sempre», se recusem a enviar representantes de alto nível. Porquê enfrentar uma crise quando funcionários de nível médio podem sorrir para as câmaras, acenar educadamente com a cabeça a discursos ambiciosos e depois retirar-se para escritórios com ar condicionado para calcular os lucros trimestrais?

As cimeiras continuarão, repletas do teatro da responsabilidade. Ano após ano, os países anunciarão novas metas de redução de emissões para o ano dois mil e um zilhão, comprometer-se-ão a triplicar a capacidade de energia renovável e fornecerão fundos para preservar as florestas tropicais e proteger as nações pobres que nada têm a ver com a crise atual. Tudo cuidadosamente planeado para demonstrar compromisso. A Amazônia pode reduzir pela metade o desmatamento, as centrais solares podem brilhar e as turbinas eólicas podem girar infinitamente. Mas se tudo isso acontecer enquanto os nossos líderes (sempre mudando de lugar e fazendo grandes discursos) continuarem pregando a urgência enquanto celebram o empreendedorismo, tudo isso será sem sentido.

A equação é simples: os glaciares recuam. As florestas ficam em terreno instável. As estradas desmoronam no permafrost em degelo ou são pavimentadas através de copas de árvores para o momento selfie da diplomacia. E as nações cujas emissões moldaram a nossa crise saem completamente de cena. Se quisermos um modelo vivo do teatro geopolítico climático, agora temo-lo: os pólos a desmoronar-se, os anfitriões do petróleo substituídos por cenários de floresta tropical e os destruidores do planeta ausentes.

E, no entanto, imagino: o mundo vai aplaudir-se por ter comparecido. Porque nada diz «preocupamo-nos com o planeta» como vê-lo arder enquanto se negoceia sobre comunicados de imprensa e sessões fotográficas.

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