Explosivos rebentavam durante semanas e, às vezes, dias seguidos, sem que Azeredo conseguisse dar cobro nem notícia. Machico estava na mira dos terroristas da FLAMA. E corria o alarme: «se eles tentarem avançar, temos de apanhá-los». Era praxe assente que as bombas eram precedidas de inscrições murais separatistas e os «comandantes» usavam jovens como operacionais avançados do arsenal bombista.
Dito e feito. Durante a noite, os vigilantes noturnos ao serviço da Matur-Grão Pará viram uns seis ou sete rapazes a pichar as paredes das várias residências daquele estabelecimento turístico. Comunicaram ao subchefe da PSP, que os trouxe às 9 horas da manhã ao posto policial para identificação e apresentação ao presidente da Câmara, superior hierárquico da PSP nos termos da lei então vigente. Martins Júnior, atarefado com tantos problemas apresentados pelos munícipes, mandou os jovens almoçar e que voltassem às 15 horas. Telefonou ao governador civil e militar da Madeira, Carlos Azeredo, e estabeleceu-se uma acesa discussão telefónica entre os dois, com o subchefe ali presente.
- Meta-os já no calabouço - ordenou Azeredo a Martins.
- Não será preciso. Vou somente identificá-los e o resto é consigo. Além disso, um deles é menor, tem 16 anos. E não posso prendê-lo, disse-me aqui o subchefe.
- É uma ordem minha. Diga a esse subchefe que, se não os meter no calabouço, ele levanta o rabo da cadeira - respondeu, rude, Azeredo.
Martins não cumpriu a ordem. Enquanto o subchefe procedia ao termo de identificação, chega uma carrinha da PSP para levar os rapazes ao Funchal. Só que, ao chegarem à carrinha, verifica o condutor que a dita não pega. Azeredo manda então uma viatura militar. Já passava das 18 horas, começaram a chegar os trabalhadores da construção civil da Matur, ainda com a cesta do almoço enfiada no braço. Juntou-se uma multidão enorme à frente da Câmara exigindo conhecer os rapazes que, ali mesmo diante de toda a gente, confirmaram que a seguir às inscrições murais viriam as bombas. A multidão mais se enfureceu quando dois desses jovens declararam ser filhos de um tal engenheiro Moura, da FLA açoriana, associada à FLAMA madeirense, os quais tinham chegado nessa mesma noite à Madeira para a tarefa das pichagens.
Pelas 11 horas da noite, chegaram os militares que desancaram em toda a gente e levaram os rapazes para o Funchal. A isto se resume o que foi badalado pela comunicação social como «tribunal popular».
- Ninguém queria agredir os rapazes - conta Martins. - Nem eu consentiria. É verdade que se ouviam, do meio da multidão, palavras de ordem temerosas «Morte à FLAMA, Justiça Popular», mas não passava de vozes isoladas. No entanto, foi dos momentos mais dramáticos que vivi na minha vida — continua Martins. O povo queria invadir a Câmara para conhecer os «eventuais futuros bombistas». Tive que vir cá fora acalma os ânimos, implorar emocionado que não forçassem as portas. E, por isso trouxe-os cá fora perante a multidão. Os jovens estavam calmos, falaran desinibidamente sobre as suas intenções independentistas:
- É para o dinheiro dos impostos ficar aqui na Madeira-explicaram, sem vergonha.Ao que, vozes repetidamente batidas pela multidão respondiam:
- Para teu pai ficar com ele e nós sem nada!
Fosse como fosse o caso - concluiu Martins - este acontecimento evitou que a FLAMA pusesse alguma bomba em Machico.
Só mais tarde, com o protecionismo militante de Azeredo, rebentaram com o Volkswagen do cunhado de Martins, o Borges.
Raquel Varela, O canto do melro – A vida do Padre José Martins Júnior – Bertrand 2024, pp 153-154.

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