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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

RAQUEL VARELA, O CANTO DO MELRO – A VIDA DO PADRE JOSÉ MARTINS JÚNIOR (5)


Junto com a mãe, de lenço na cabeça, partiu o Zeca do velho cais do desembarcadouro de Machico num pequeno batel que os levou ao vapor costeiro Gavião, que fazia a cabotagem Machico-Funchal. Levava uma trouxa de roupa numa maleta feita de quatro pedaços de madeira, que nunca soube como a mãe conseguira arranjar.

O Gavião pertencia aos Blandy Brothers & Co. John Blandy era um militar britânico que viera para a Madeira quando das campanhas contra Napoleão, no início do século XIX. A Inglaterra e a França batiam-se pela supremacia na Europa. Blandy chegou com 23 anos. Pouco depois começou a emprestar dinheiro ao escrivão da alfândega, José João Veríssimo. Em 1831, John Blandy foi um dos três comerciantes britânicos nomeados para a Comissão de Revisão da Pauta da Madeira. Era trustee e tesoureiro da comunidade britânica. Começando com um negócio de «venda de dinheiro» — a Igreja já não condenava ninguém por viver da usura —, a família Blandy abriria depois uma agência de viagens e uma casa bancária, os Blandy Brothers. Esta — ah, a história, sempre a história — seria adquirida em 1966 pelo Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa — o mesmo BES cujos negócios privados seriam salvos da falência pelo Estado português na crise de 2008. Levantai hoje, de novo, os esplendores de Portugal!

Raquel Varela, O canto do melro – A vida do Padre José Martins Júnior – Bertrand 2024, pp 55-56

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