- Lido num semanário: «Na rua 33, a PSP interviu (sic) com multas sobre as viaturas que se encontravam estacionadas no espaço destinado às bicicletas.» Muito bem, até que enfim. Já agora, quando é que passam multas para quem viola regras de conjugação do verbo intervir?
- «(…) Há mais de dois mil anos que não desce à terra um iluminado, sabedor para além dos demais. A regra para progredir continua a ser a capacidade para ouvir os outros e aprender. Crescer continua a derivar de um planeamento integrado, sustentado por pessoas que se complementam e contribuem, de acordo com o seu saber e experiência. Aquele que se isola nas suas presunções não gera caminhos fecundos. Nem na vida, nem no urbanismo. Nem na gestão territorial, que tão cara nos devia ser. Eu estudei urbanismo vários anos. Escrevi uma tese. Disse-me a minha orientadora, antes da defesa, que estivesse tranquila perante o júri, pois ninguém naquela sala saberia mais do assunto do que eu. Fiquei-lhe grata pelas palavras, mas nunca me arroguei de tais certezas. No urbanismo, como na vida, há sempre outras crenças e outras opiniões. E, mesmo as que são contrárias às nossas, importam. Quando se consegue ouvir, há sempre alguma coisa para aprender.» Cláudia Quaresma, Maré Viva 13jul2021.
- «Nas artes, o espetáculo tomou conta dessa generalizada ausência de conteúdo. Pouco importa a voz da cantora. Quem escuta a desafinação se ela rebola os quadris com sedução de gata? Quem disse que uma boa cantora tem que cantar? Numa nação em que pouco dinheiro pode salvar vidas, patrocínios chorudos foram aplicados em programas mediáticos de procura do rosto mais bonito, do corpo mais bonito. As próprias letras das canções e os respetivos videoclipes são um culto da ostentação oca e bacoca. Meninos de fatos italianos, cheios de penteados (a mostrar que lhes pesa mais o cabelo que a cabeça) e com dourados a pender dos dedos e do escoço (a mostrar que precisam apenas de mostrar), meninos que cantam pouco e se repetem até à exaustão, fazem o culto deste vazio triste em que o que brilha é falso e o que é verdadeiro é mentira. Valores se veiculam? O carro de luxo (dado pelo papá), a vida fútil, a riqueza fácil.» Mia Couto, O universo num grão de areia (O País, 2011) – Editorial Caminho 2019

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