«O desprendimento de blocos de gelo, as quedas no meio de um rugido tão antigo como o planeta, faziam parte da vida natural de algo que se deveria chamar Grande Parque Natural da Patagónia, da Terra do Fogo e da Antárctica, de algo que teria de ser necessariamente património de toda a humanidade, como também o deveriam ser as grandes florestas tropicais, e que hoje se encontram à mercê da voracidade do mercado. — Agora — assinala Victor - chegam cá milhares de turistas para ver como caem cada vez mais blocos de gelo, como os glaciares desaparecem, e vêm alegremente para atestar a morte destas paisagens. Meu amigo, hoje paga-se para ser testemunha da morte do mundo. (…)
Uma empresa espanhola planeia a construção de barragens na Patagónia, ou seja, desviar, conter, alterar o curso dos rios que nascem dos degelos cada vez maiores. Um turismo que não considere a fragilidade da região também é responsável pela deterioração ambiental, porque, em menos de dez anos, aumentar cem vezes a navegação pelas águas que delimitam o Glaciar de San Rafael, para que alguns afortunados possam ir de barco pneumático beber um whisky com um pedaço de glaciar no copo, não é uma maneira responsável de promover as belezas da região. A Patagónia, a Terra do Fogo, os confins de Fin del Mundo estão em perigo. Uma visão irracional do progresso e do desenvolvimento sustentado, a que se acrescenta um turismo irresponsável, fazem destes territórios extremos lugares condenados.»
Luis Sepúlveda, Plataforma Larsen B – in histórias daqui e dali, Porto Editora 2010

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