«Já ouvi isto várias vezes, de um jornalista, de um amigo da família, de um vizinho: você deve estar feliz com tudo isto. A implicação é que, como sou cientista do Clima, tenho que me sentir entusiasmada com este período de redução da atividade económica e das emissões de gases de efeito de estufa.
A Terra está a curar-se, dizem eles. A natureza voltou. Não estou feliz por isso?
Amigos, definitivamente não estou feliz. Nem estou triste. Estou, acima de tudo, zangada.
Estou zangada com a ideia de se dizer que vai ficar tudo bem. Não vai. O dióxido de carbono tem uma vida tão longa na atmosfera que uma pequena redução nas emissões será inócua contra o seu enorme desde o início da Revolução Industrial. (…)
Estou zangada com os políticos por terem criado este sistema. Estou zangada porque eles ignoraram os cientistas e colocaram as suas próprias carreiras ou os seus bolsos à frente da sobrevivência dos seus cidadãos. (…)
Também estou zangada com os cientistas, ou pelo menos com as instituições que os empregam. Estou zangada com uma cultura de precariedade e medo que torna os cientistas tímidos, obedientes e relutantes em dizer a verdade ao poder. Fico zangada pelo facto de que dizer a verdade a alguém, poderoso ou não, seja desencorajado, a menos que resulte numa publicação, bolsa ou outra recompensa que enriqueça o currículo. Como podem os cientistas ser ouvidos se estamos com muito medo de levantar a voz?
Mas, acima de tudo, estou zangada com a implicação de que "nós" somos culpados. Há uma narrativa má, mas persistente, de que a crise climática e as pandemias são causadas não por gases de efeito de estufa e de vírus, mas pela natureza humana. Somos ávidos por comida, abrigo, aventura, autorrealização, contato humano e - diz essa narrativa – temos que ser punidos pelos nossos pecados.
Mas a situação atual - morte, pobreza, solidão - é um plano ineficaz para soluções climáticas. Nunca seríamos capazes de sacrificar o nosso caminho para sair da crise climática, especialmente não às costas das pessoas que historicamente fizeram a maior parte do sacrifício. Há um sistema entrincheirado que extrai o CO2 do solo e o bombeia para a atmosfera, um sistema que resulta não da maldade humana inerente, mas das escolhas de alguns humanos com poder. Confrontar esse sistema vai dar trabalho. Precisamos de construir coisas: turbinas eólicas, painéis solares, transportes públicos, cidades mais densas, sociedades mais justas. Não precisamos de purificação. Não precisamos de absolvição. Nós precisamos de trabalhar. (…)»
I Am a Mad Scientist, por Kate Marvel, cientista do Clima no
NASA Goddard Institute for Space Studies e na Columbia University.

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