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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

LEITURAS MARGINAIS

CABEÇAS FALANTES: OS COMENTADORES


“(…) Hoje, chocado com um artigo de opinião, em destaque num jornal ‘de referência’ da autoria de alguém só identificado com fotografia e nome, fui ver quem é e o que faz a personagem. Aproveitei e continuei a pesquisa, durante mais meia hora, para ver quem são e o que fazem alguns dos opinadores e comentadores nas principais televisões e jornais que habitualmente me irritam. O primeiro, apologista da repressão policial e da nova lei das rendas, que aparece, com ar de genro perfeito, de fato e gravata, é actualmente gestor do sector privado ligado a fundos de investimento, outro é dono de uma agência de comunicação, ou seja, faz campanhas para os clientes que lhe pagam, um terceiro trabalha para um grande escritório de advogados, um quarto está ligado a institutos privados que representam os interesses dos EUA, o quinto é lobista duma federação, o sexto administrador duma empresa ligada à indústria do armamento e o professor universitário é regularmente convidado para viagens aos EUA e a Israel, depois aparecem alguns lobistas, assessores e avençados disto e daquilo. Nada disto é dito ou explicado pelas televisões ou jornais no espaço que conferem a estes ‘analistas’ e ‘especialistas’.

Tirando algumas ‘vedetas’ do comentário, especializadas em generalidades e posicionadas em destaque para concorrerem mais tarde a cargos políticos, a maioria dos colunistas e opinadores não precisam de ser autoridades nas suas áreas, muito menos reconhecidas. A sua importância advém, aparentemente, de terem a sua fotografia no jornal ou busto na televisão.

Quando um serviço é ‘gratuito’, o ‘produto’ somos nós, neste caso como receptores da opinião e das narrativas que permitimos que os donos da imprensa e da televisão nos imponham. O ‘produto’ são os eleitores, que, nas próximas eleições, votarão de acordo com as opiniões que lhes foram apresentadas, dia após dia, em permanente repetição, até se tornarem factos, verdades e princípios.

Ao contrário de um jornalista que leve o código deontológico a sério (tarefa cada vez mais dificultada pela falta de autonomia editorial das redacções e a crise de emprego na Comunicação Social), os opinadores, comentadores, ‘analistas’ e ‘especialistas’ são convidados pelos donos das televisões e jornais para opinarem aquilo para que foram escolhidos. O que dizem e escrevem passa a ser relevante, porque aparece permanentemente nos jornais e nas televisões (o ‘pluralismo’ atinge-se com uma ou duas vozes, isoladas e em segundo plano, a servir de álibi).

Em vez do actual excesso de opiniões deveria obviamente haver mais jornalismo de investigação e jornalismo especializado (mas aí os resultados são incertos). Para aquilo que se pretende é mais eficaz ter pessoas a debitar opiniões e ‘análises’ em torno da sua visão do mundo que, em destaque online e em ‘prime-time’ nas televisões, fazem eco, só por coincidência, claro, das agendas e dos interesses dos donos e dos anunciantes das televisões e jornais.

Uma dúzia de cabeças a opinar sai muito mais barato e é mais fácil de manipular do que o trabalho de jornalistas, aliás, a maioria dos opinadores e comentadores opinam e comentam de borla. O filho duns amigos, muito mais novo do que eu, perguntou-me, há anos, se devia aceitar escrever uma crónica regular num jornal que não lhe pagava nada. Desaconselhei-o. Disse-lhe que, na minha opinião, o trabalho deveria ser remunerado. Ele ignorou o meu conselho e, após anos de colunas gratuitas a comentários de borla, acabou na vice-presidência dum partido.”


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