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terça-feira, 6 de outubro de 2026

LEITURAS MARGINAIS

QUANDO O DONO DO JOGO COMPRA O ESTÁDIO: A LIBERDADE DE IMPRENSA EM PORTUGAL ESTÁ À VENDA?


Enquadramento e Cenário:

Em dezembro de 2023, a Cofina Media — dona de títulos como CMTV, Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios e Sábado — foi vendida por cerca de 70 milhões de euros a um consórcio liderado por antigos quadros da empresa e... Cristiano Ronaldo. CR7 detém 30% da holding Expressão Livre (agora Medialivre), sendo o acionista individual com maior participação.

A questão que se coloca é simples: quem controla um império mediático pode continuar a ser escrutinado por ele?

O cenário atual sugere que não. Vários sinais têm sido apontados como evidência de que a liberdade editorial do grupo está comprometida:

1. O "abrandamento" das críticas — Durante anos, a CMTV foi um dos órgãos que mais criticava Cristiano Ronaldo e a sua família. Após a aquisição, analistas e antigos colaboradores notaram um "súbito abrandamento das perseguições a ele". O apresentador Flávio Furtado comentou publicamente que, antes da compra, Ronaldo e a família eram "muito arrasados" na CMTV.

2. Demissões e despedimentos — Em abril de 2025, a Medialivre anunciou um despedimento coletivo de 10 fotojornalistas, afetando meios como o Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios e Sábado. O Sindicato dos Jornalistas classificou a decisão como "inqualificável", especialmente por ter sido comunicada na véspera do Dia do Trabalhador, e questionou como um grupo com resultados positivos podia despedir. Fontes ligadas ao meio jornalístico referem ainda o afastamento de comentadores que criticaram Ronaldo, como Otávio Lopes.

3. Declarações reveladoras — Em visita às instalações da Medialivre, em março de 2025, Cristiano Ronaldo declarou: "Espero que nesta casa a crítica seja quase nula". A frase, que pode ser lida como uma piada, ganha outro peso quando o autor é o maior acionista individual do grupo.

4. O silêncio ensurdecedor — O comentador Luís Vilar, da CNN Portugal, afirmou recentemente que Ronaldo tem "os seus próprios pivôs de comunicação dentro do seu canal", sugerindo que a linha editorial da Medialivre está alinhada com os interesses do acionista.

O contexto português:

Portugal tem hoje três grandes grupos privados de media: Medialivre (de Ronaldo), Media Capital (TVI/CNN) e Impresa (SIC/Expresso). A concentração da propriedade mediática nas mãos de grandes empresários — e agora de uma superestrela do futebol — levanta questões sérias sobre pluralismo, independência editorial e o direito à informação.

A pergunta que fica:

Se um jornalista da CMTV ou do Correio da Manhã quiser investigar ou criticar Cristiano Ronaldo, fá-lo-á com a mesma liberdade com que criticava antes? E se o fizer, sobreviverá na empresa?

O dinheiro não compra apenas ações. Compra silêncios.

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