Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

LEITURAS MARGINAIS

SE UMAS CENTENAS DE JOVENS


Se umas centenas de jovens insistem em montar tendas numa praça pública em protesto contra a crise na habitação estamos perante uma perturbação da ordem pública e crimes graves que exigem uma intervenção rápida e musculada das autoridades; se um alto funcionário do estado contrata uma empresa, a quem antes deu contratos públicos, para construir uma piscina e remodelar as casas de banho da sua casa de campo, trata-se, no pior dos casos, de um lamentável deslize de cavalheiro sanável com um pedido de desculpa.

Se meia dúzia de extremistas partem a montra de uma loja estamos perante uma acto de pilhagem e terror; se um fundo imobiliário compra 300 apartamentos e duplica as rendas no centro da cidade regista-se mais uma normal iniciativa económica. Se jovens grafitam a fachada de um banco é um acto hediondo de vandalismo; se o mesmo banco corre com os lojistas de bairro e os velhotes da mercearia para depois financiar lojas de sardinhas para turistas ou um coffeeshop para ex-pats é a economia de mercado a funcionar.

Quando os serviços públicos são mutilados e desmantelados por cortes de financiamento estamos num civilizado cenário de rigor orçamental, já uma argola no nariz ou cabelo pintado de vermelho são claros sinais de selvajaria. Quando a política fiscal beneficia grupos privilegiados trata-se de um saudável mecanismo para assegurar a competitividade, já o aumento de propinas e das taxas moderadoras é um imperativo incontornável que se resolve apertando o cinto à população.

Este sistema politico e económico precisa dos jovens como eleitores e consumidores, mas nega-lhes direitos, empregos dignos e meios de subsistência (quando a procissão da IA ainda vai no adro). Exige aos jovens flexibilidade, produtividade e disponibilidade total, mas nega-lhes o suficiente para uma vida independente e autónoma. Os jovens já perceberam isso.

Aos jovens é dito que se trabalharem muito, se reunirem as qualificações necessárias, irão realizar os seus sonhos. Se não os realizarem é por falta de iniciativa, de empenho e empreendorismo. Se as promessas não se cumprem é por fracasso individual. Os jovens estão fartos dessas justificações.

Mas a violência nas televisões é excelente: dá audiências e desvia a atenção das suas causas. E é eficaz: mostra que a contestação espontânea vinda debaixo é claramente um crime. Já destruição sistemática da sociedade vinda de cima é benéfica e necessária, não devendo passar nas televisões porque equilibra as contas, dá dividendos aos accionistas, financia os partidos, assegura avenças e sinecuras.

Sem comentários: