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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

LEITURAS MARGINAIS


«O país em que nasci tinha 30% de analfabetos. Bêbados a cair pelas ruas era um espectáculo permanente, bem como pessoas a pedir à porta das igrejas, a quem se dava uns trocos e paternalismo ao cubo. A juventude ia morrer em África ou fugia a salto para França, se não quisesse morrer prematuramente nos campos onde a vida seguia o seu curso medieval. Dois anos após a revolução em que a história ajustou contas com este passado ensimesmado, na escola a professora espancava-me ainda e aos meus colegas rotineiramente como técnica pedagógica, e obrigava-nos a rezar no final do dia. De tudo isto sobram hoje alguns lastros, como o flagelo da violência doméstica, o respeitinho e o andar-se com a cabeça entre as orelhas, e os bufos que da mesa do lado do café passaram para as redes sociais.

No país em que nasci era um escândalo (fora das duas únicas grandes cidades) as mulheres usarem calças, e era necessária a autorização do marido para poderem obter um passaporte, viajarem e abrirem uma conta bancária. Nesse tempo, as mulheres iam à missa vestidas de negro e com véu à cabeça, e em zonas do interior sentavam-se na igreja apartadas dos homens. Era como se o estarem vivas fosse uma razão para o luto, até porque delas não se esperava muito mais do que a maternidade, a submissão e o silêncio.

As portas que Abril abriu, que coincidem, no plano católico, com as aberturas possibilitadas pelo Concílio de Vaticano II, permitiram que as mulheres, bem como todos os cidadãos, possam exercer a sua fé (ou não ter fé sem ter que disso dar satisfações), viver a sua sexualidade e conduzir a sua vida sem o peso das tradições arcaicas. No entanto, passado meio século dessas conquistas, vivemos hoje num mundo em que elas enfrentam sérios riscos de regressão. Agentes políticos sem escrúpulos de novo se servem da religião como arma de arremesso e os direitos das mulheres, das pessoas transgénero e das pessoas que exercem uma sexualidade não heteronormativa são abertamente atacados na esfera pública e nos órgãos de soberania, inclusive por partidos fundadores da democracia e não obstante a palavra dada de que não se serviriam do poder para o fazer. A mentira é hoje, na arena política, o único entendimento que alguns têm da honra. E de novo vemos os nossos representantes políticos com a mão ao peito ou a persignarem-se durante atos de estado, promovendo uma promiscuidade entre estado e religião, e efetivamente validando a ideia inconstitucional de religião de estado.

Perante isto, a imagem da esposa do presidente da República envergando uma indumentária ao estilo pré-Vaticano II durante uma visita de estado a Roma, numa interpretação desnecessariamente rígida do protocolo em vigor no Vaticano, despertou-me repúdio. A esposa de António José Seguro é uma mulher bonita e que, nas poucas ocasiões em que aconteceu dar-me conta, se apresenta com elegância. É possível que a escolha desta para mim infeliz indumentária tenha obedecido ao seu gosto pessoal, e é também possível que não tenha para ela nenhum dos significados que tem para mim. Lamento se um post que fiz antes sobre esta questão tenha sido recebido como gratuito e/ou ofensivo, pois não era essa a minha intenção. Este meio é muito propício a equívocos e o significado das palavras mediadas por ecrâs teima em apegar-se à unidimensionalidade. Mas quero deixar bem claro que, no rescaldo de tudo o que nos vem acontecendo, do presidente em quem votei como única escolha possível perante as circunstâncias e a troco de considerável despesa de tempo e de recursos financeiros –porque a minha assembleia de voto se encontra a centenas de quilómetros de distância; benzer-se ao lado de membros do Governo durante uma inauguração de uma escola pública, de colocar a sua assinatura em leis iníquas –imigração e burcas – que fazem o jogo dos inimigos da democracia; um vestido negro com véu projeta a sombra pesada e violenta do retrocesso civilizacional em que as mulheres têm de conduzir-se como viúvas de si mesmas e que nos querem impor as forças mais sinistras que hoje uivam à solta. Uma coisa é eu saber que vivo aprisionado num tempo que é e não é o meu. Outra coisa é aceitá-lo, e eu não aceito. Nem hoje, nem nunca aceitarei viver sob essa sombra outra vez.»


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