Quantas portas separam um homem da liberdade? De cada vez que uma delas se fecha nas minhas costas, conto-a com os dedos da mão. Diante do portão metálico do exterior, uma voz pergunta quem sou e quem venho visitar. “Me llamo Bruno Carvalho y vengo a ver a James Cox Chambers”. É estranho dizê-lo dessa forma. Não me lembro de um único momento em que o tivéssemos tratado assim no Donbass. Para todos nós, era o Jim. Lembro-me daquele jantar no restaurante Happy Life, em Donetsk, estranho nome para um restaurante no epicentro da guerra, onde eu, o Texas e o Jim deitámos umas quantas canecas de cerveja abaixo. Pode dizer-se que a nossa amizade se forjou no meio das bombas. Ele colaborava com o meio anti-imperialista Toward Freedom e chegámos a viajar juntos ao lado do então repórter da Telesur, Alejandro Kirk. Acabávamos os dias com lama até ao pescoço e com a pressa de contarmos ao mundo o que havíamos visto. Ao longo dos anos, acabei a tratá-lo por Fergie como a larga maioria.
A prisão de Aranjuez está a uma hora de Madrid, no meio do nada. A paisagem desértica faz-me pensar como é que há 90 anos mulheres e homens combatiam o fascismo em plena canícula. Poucos dias antes, havia escrito ao Fergie uma carta desde Lisboa em que explicava que, na minha opinião, a Palestina é uma das grandes causas do nosso tempo e que, por cada dia de inércia, toda a humanidade se aproxima um pouco mais da barbárie.
“As gerações futuras perguntarão como pudemos nós permitir tal coisa, mas de ti, e de tantos outros que com sacrifício pessoal não aceitaram ficar de braços cruzados, dirão que estiveram do lado certo da história. Em 1938, durante a guerra civil, na Batalha do Ebro, milhares de trabalhadores norte-americanos atravessaram o rio a nado durante a noite para surpreender as forças fascistas. Muitos morreram na batalha mais sangrenta desse conflito onde a Brigada Lincoln mostrou que a classe trabalhadora norte-americana pode lutar dignamente. Ficaram na história das Brigadas Internacionais e da luta contra o fascismo”.
Deixo todos os meus pertences num cacifo e sou inspeccionado com um detector de metais. Pedem-me a impressão digital. Ao longo de um enorme corredor envidraçado, vejo as vedações, as torres de vigilância e as pequenas janelas de onde pouco ou nada podem ver os que vivem no cárcere. Não é a primeira vez que entro numa prisão, não é a primeira vez que entro nesta prisão. À minha frente, seguem duas crianças. Uma leva a camisola da selecção argentina com o nome de Diego Maradona, a outra leva a do Rayo Vallecano. Sorrio. Olho para as vedações, cheias de ninhos, e pergunto-me: como será para os pássaros verem humanos dentro de gaiolas?
Na canção Txoria Txori, de Joxean Artze, o basco Mikel Laboa canta sobre alguém que decide cortar as asas de um pássaro para que não fuja e possa ser apenas dele. Contudo, se assim fosse, “deixaria de ser pássaro”. É o que querem fazer com o meu amigo Fergie Chambers acusado de financiar o Hamas quando, na verdade, contribuiu com mais de um milhão de dólares para projectos humanitários em Gaza. Desde que a barbárie se abateu sobre aquele território, financiou clínicas médicas, padarias, escolas, ginásios e uma estação de dessalinização de água. Fez o que todos os governos do mundo deviam estar a fazer.
Se é certo que vivemos numa época de assassinos sem escrúpulos, a espécie humana consegue produzir gente extraordinária. Através do materialismo histórico, olhando para trás, podemos dizer que caminhamos sobre os ombros de gigantes. Desde o tempo de Espártaco que empurramos a história através da luta contra a opressão. Os Estados Unidos e Israel, com o silêncio cúmplice ou a colaboração mais ou menos envergonhada do restante Ocidente, perseguem a solidariedade com o povo palestiniano. Fergie nasceu no seio de uma das famílias mais ricas dos Estados Unidos, rompeu com o negócio familiar e escolheu pôr o seu dinheiro ao serviço da luta dos oprimidos. Ainda adolescente começou a ler Karl Marx e a estudar os Panteras Negras. Apoiou dos índios americanos à população negra do seu país, apoiou as manifestações pelo direito à habitação em Atlanta e meios digitais anti-imperialistas, assim como pagou as custas judiciais e fianças de revolucionários em todo o mundo.
Começou a aparecer nas revistas como louco. O comunista rico que dá dinheiro a causas revolucionárias. “Fergie Chambers é o herdeiro de uma das famílias mais ricas dos Estados Unidos — e está determinado a ver a queda dos EUA”, escreveu a Rolling Stones. “Com centenas de milhões de dólares à disposição, um fervor revolucionário e um instinto inato para o confronto, está a tornar-se o comunista radical de referência nos Estados Unidos”, apresentou a Vanity Fair.
Do outro lado do vidro, os olhos de Fergie brilham quando me diz que viu na televisão o despejo de Maricarmen, de 87, da casa onde viveu 70 anos e que agora pertence a um fundo imobiliário. Pede-me que lhe faça chegar uma mensagem: "Maricarmen, ouvi as tuas palavras na televisão na minha cela e também vi como todas aquelas pessoas defendiam a tua casa. Quero enviar-te um abraço solidário e muita força”.
Pode conhecer-se um homem pelo que lê? Fala-me de livros. Está agora a reler "Por Quem os Sinos Dobram”, de Hemingway, que lhe comprei numa livraria de Madrid. Também tem lido George Jackson e voltou a ler “Peles Negras, Máscaras Brancas” de Frantz Fanon. Digo que lhe vou oferecer o Partido com Paredes de Vidro, de Álvaro Cunhal, em inglês. Está orgulhoso do canto da cela em que reuniu tudo o que tem de Che Guevara.
Não esconde a revolta por saber que a mulher está grávida de três meses. E por saber que corre o perigo de ficar 30 anos preso se for extraditado para os Estados Unidos. Ainda não sabe que os movimentos pró-Palestina do Estado espanhol começaram uma campanha para lhe fazerem chegar milhares de cartas de apoio. Uma vez mais, recordamos juntos as palavras de Georges Abdallah, o comunista libanês que esteve preso 41 anos em França, que numa entrevista, em Beirute, me explicou que um revolucionário nunca está sozinho nem desligado da organização sempre e quando estiver conectado com a luta exterior.
Despedimo-nos como sempre. “Venceremos” e os nossos punhos cerrados. Atravesso cada uma das portas até ao exterior e conto-as novamente. São exactamente dez.
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