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sábado, 25 de julho de 2026

REFLEXÃO

A FRAUDE DO GÁS NATURAL «LIMPO».
COMO AS GRANDES EMPRESAS DO PETRÓLEO E DO GÁS CRIARAM O MITO DE QUE O GÁS NATURAL É UMA SOLUÇÃO PARA O CLIMA.
Rebecca John, Rebecca Leber, Davis Allen – Center for Climate Integrity. Rev. O’Lima.


A indústria do gás sabia já em 1907 que o gás natural era uma fonte de problemas respiratórios quando queimado em espaços fechados e, na década de 1950, sabia que o gás causava problemas no ar exterior. A partir da década de 1960, a indústria do petróleo e do gás tomou conhecimento de outra ameaça — estudos científicos emergentes revelaram que o gás natural era um contribuinte potencialmente significativo para o metano na atmosfera. À medida que as empresas e os seus representantes acompanhavam de perto os desenvolvimentos científicos sobre o metano, o nome químico do gás natural, também descobriram que se tratava de um potente gás com efeito de estufa e prejudicial para o clima.

A indústria do gás ignorou estes avisos. Sabendo que a expansão do gás natural criaria poluição atmosférica e aumentaria os níveis atmosféricos tanto de metano como de dióxido de carbono, trabalhou para minimizar estas preocupações, posicionar o gás como a alternativa limpa e amiga do clima ao carvão e concretizar uma ambição que transformaria o gás natural de um combustível marginal numa força motriz do setor energético.

As empresas de gás conceberam a primeira campanha estratégica na década de 1970 para promover o gás natural como um combustível limpo, patrocinando e promovendo as suas próprias investigações e programas publicitários que sustentassem essa afirmação através da American Gas Association (AGA) e das suas empresas de relações públicas e publicidade. Com o passar do tempo, a campanha ganhou em ambição e alcance. Os principais produtores de petróleo e gás uniram forças com a AGA, tornando-se membros da sua principal organização de investigação e financiando novos esforços para posicionar o gás natural como uma solução tanto de energia limpa como climática.

No final da década de 1980, a indústria do gás e as principais empresas petrolíferas começaram a promover o gás como um «combustível de transição» — um combustível de combustão limpa para a transição para um futuro de energias renováveis. Na realidade, planearam um futuro a longo prazo para o gás natural, ao mesmo tempo que minavam as energias renováveis, obstruindo o destino para o qual a «ponte» do gás era suposto conduzir. Ao longo dos 20 anos seguintes, a

indústria consolidou efetivamente o mito do combustível de transição ao cooptar a ciência e a supervisão originalmente destinadas a manter as emissões de carbono e metano sob controlo.

Trabalhando em conjunto numa coligação em expansão que incluía as grandes petrolíferas e, por fim, vários importantes grupos ambientalistas, a indústria conseguiu atenuar as preocupações relativas ao metano, recorrendo a estratégias elaboradas pelas mesmas empresas que, durante décadas, minaram o consenso científico sobre os malefícios do tabaco. A AGA e os grupos aliados contestaram agressivamente os dados científicos relativos ao metano através de estudos financiados pela indústria e da criação do Gas Research Institute, cujo nome soa a objetividade.

Mas a sua abordagem foi multidimensional. Enquanto criava confusão em torno do problema do metano da indústria, a indústria do gás teve o cuidado de não negar abertamente a questão das alterações climáticas, concentrando, em vez disso, a atenção no dióxido de carbono. Acompanhou isto com a promoção incansável do conceito de que o gás é limpo — certamente mais limpo do que o carvão ou o petróleo — e posicionou o gás como um combustível de transição e uma solução climática. Nesse processo, a indústria do gás consolidou parcerias com a EPA com o objetivo explícito de afastar regulamentações em favor de uma gestão voluntária das emissões, ao mesmo tempo que recrutava organizações ambientais que conferissem legitimidade aos seus argumentos.

A estratégia foi um sucesso estrondoso. Fundamental para esse sucesso foi um estudo conjunto realizado em 1996 pela indústria e pela EPA sobre as emissões de metano do sistema de gás natural. Documentos recentemente divulgados revelam que a EPA dispensou a sua revisão técnica do estudo, que, segundo o gestor do projeto, a agência não possuía «os conhecimentos especializados» para realizar, cedendo, na prática, o controlo da análise à indústria do petróleo e do gás. O estudo publicado baseou-se numa avaliação altamente seletiva das emissões de metano, e concluiu que as emissões eram tão baixas que as preocupações relativas à contribuição do gás natural para as alterações climáticas eram injustificadas. A indústria do gás sabia que o estudo não representava a totalidade das emissões de metano provenientes do sistema de gás natural, mas utilizou-o para neutralizar as preocupações do público relativamente ao metano, consolidar a reputação do gás como um «combustível de transição» amigo do clima e abrir caminho para a expansão maciça da indústria na década de 2000.

Esta imagem do gás como uma fonte de energia limpa é uma fraude que vem sendo construída há pelo menos 50 anos. É fácil encontrá-la nas comunicações do setor ao longo das últimas cinco décadas, incluindo a publicidade dirigida aos consumidores e o lóbi político. A fraude do gás natural «limpo» tem sido essencial para o sucesso da indústria no mercado, e a ideia de que o gás é amigo do clima tem estado no cerne da rápida expansão das infraestruturas de gás nas últimas duas décadas, incluindo a explosão da fraturação hidráulica, a construção de gasodutos interestaduais e terminais de exportação de gás, e a absurda classificação do gás como energia renovável em vários estados, condenando os EUA a décadas de utilização adicional de combustíveis fósseis e de emissões prejudiciais ao clima.

Grande parte desta investigação centra-se em acontecimentos históricos, em que as emissões de metano surgiram como uma ameaça clara, e no legado do sucesso da indústria. Este relatório baseia-se em documentos recentemente descobertos, pedidos de acesso a registos públicos, comunicações internas da indústria, relatórios confidenciais, artigos científicos e entrevistas com cientistas climáticos, consultores da indústria e representantes de grupos ambientalistas. Embora inúmeros relatórios e investigações tenham demonstrado a forma como a indústria do petróleo e do gás respondeu ao problema do carbono com atrasos e negação, este é o primeiro a traçar a história da resposta da indústria do gás ao seu problema do metano e a situá-la no contexto de décadas de engano.

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