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sábado, 18 de julho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

A COMPOSIÇÃO QUÍMICA DA IGNORÂNCIA

«Esquece o que eu disse antes! Come mais disto! Faz-te bem... e faz bem ao país! Espalha-o em tudo!»

Francisco Lima brindou-nos com uma verdadeira disenteria cerebral. Primeiro, diz que falar da contaminação prejudica a imagem da ilha Terceira. Depois, incapaz de rebater os factos, refugia-se no apelido do autor, como se a composição química de um osso dependesse de árvores genealógicas ou de cartões partidários. Felizmente, a ciência não depende do estado de espírito do Chega nem do humor de Francisco Lima.

Considera agora inaceitável que o Vice-Presidente do Governo apoie uma tese sobre a contaminação apenas porque quem a desenvolve, sendo formado na área, é filho e irmão de pessoas ligadas ao CDS. Pela lógica de Francisco Lima, um investigador só merece credibilidade se tiver nascido numa qualquer tribo isolada da Amazónia, sem família, sem contactos e sem nunca ter conhecido o próprio pai.

O Chega já nos habituou à sua iliteracia cientifica. Francisco Lima voltou a confirmá-la. Ainda assim, deixo-lhe uma nota de descanso: os esqueletos estudados por Félix Rodrigues estão ao serviço da ciência. Já os esqueletos que Francisco Lima guarda no armário (é uma metáfora, não vá o visado
ter dificuldades com figuras de estilo) contam uma história bem diferente. Félix Rodrigues procurou respostas e produziu conhecimento para a sociedade. Bem pior é legislar em matérias
que podem beneficiar interesses próprios. E o mesmo Chega que se apresenta como paladino da luta contra a corrupção, onde os corruptos são sempre os outros, nunca eles, porque se julgam donos da virtude. É também o mesmo Chega que tem um deputado, Francisco Lima, a legislar sobre glifosato enquanto é proprietário de uma empresa que comercializa produtos à base de glifosato. Confesso que a sua literacia cientifica me preocupa. Ainda acaba a beber glifosato por achar que faz bem à flora intestinal.

A ciência não precisa da aprovação de Francisco Lima para existir. Precisa apenas de investigadores que procurem a verdade. Já Francisco Lima precisa que a verdade se adapte às suas conveniências. Os factos têm um defeito terrível: não votam, não militam e não se deixam intimidar pela ignorância.


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