“Sabem o que ensinam os professores antes de um exame? Leiam atentamente as perguntas todas antes de começar a responder a cada uma delas, no fim revejam o exame todo, se há uma questão difícil passa para a próxima, e volta a esta mais tarde. Verifica os erros ortográficos. Dorme e come bem antes do exame. Quando sair a nota fazemos a correcção colectiva, na aula, e em cada exame está a correcção individual, se tens dúvidas vem falar comigo no final da aula e ficamos a ver juntos o exame e, ao teu lado, demonstro o que está mal, bem, o que podia ser melhor.
Sabem o que disse o Ministro aos professores? Classifiquem dia e noite itens de resposta múltipla e perguntas ignorantes, não podem ver o exame todo, não durmam nem comam, se não há resposta classifiquem na mesma, se não há nota dêem na mesma, classifiquem em vez de corrigir, não sublinhem nem apontem os erros, basta classificar métricas, se o aluno tem dúvidas paga 25 euros.
O buraco destes exames é de longe o momento mais baixo da história da educação deste país porque este buraco não é sobre educação. É sobre “competências” (não conhecimento, nem currículo) para o mercado de trabalho automatizado – mede a quantidade de vezes que o aluno carregou num botão e mandou o computador fazer algo, mede a quantidade de vezes que o professor carregou num botão e mandou o computador fazer algo. Que é o que se espera deles no mercado de trabalho: se forem ser cozinheiros no Carregado carregam num botão; se forem montar drones para matar na Palestina carregam num botão; se forem montar carros na Auto Europa carregam em botões. Mas – e aqui chegámos com a IA – se forem jornalistas ou professores carregam em botões. Chegámos ao pompt. (…)
É irrelevante, diz o Ministro, se a nota saiu, se há erros da IA na escolha múltipla, se faltam folhas, o que interessa é que saia, mandou ele! Que todo este teatro seja afixado, enquanto uma mão cheia de oportunistas, com o qual este Ministro se reuniu estas semanas e acenou com a cenoura, se prepara para em setembro começar a carreira de director não eleito, e com um salário mínimo de 4 mil euros. Por isso “deram o seu melhor” para dia e noite esta fraude (assim o dizem os grandes pedagogos), este escarro na cara dos professores, alunos e pais, ser realizado.
Não chegámos aqui do nada. As grelhas e os excel demenciais, os descritores de avaliação métrica; na Universidade os papers parcializados contam mais do que livros; nas crianças os jogos de vídeo, as play stations, os reels; na medicina, o médico a preencher descritores no computador em vez de nos tocar e olhar; no jornalismo a “isenção” da linguagem, padronizada, e os comunicados de imprensa; tudo isto abriu portas ao massivo número de dados da IA e à maior operação de proletarização das classes intelectuais da história do capitalismo, e do treinamento das crianças para “gostarem” de estar horas a fio de pescoço dobrado a carregar, como viciados em cocaína, em botões.
A epidemia de saúde mental que se vive no mundo é o reflexo da alienação massiva introduzida pela metrificação da vida e IA. Mas a resistência começou já – há manifestações por esse mundo fora contra a IA, os centros de dados, o tempo ao computador, a manipulação das crianças e jovens. Resistiremos. (…)” Raquel Varela, Vamos amar-nos sem parar.
Sem comentários:
Enviar um comentário