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terça-feira, 30 de junho de 2026

LEITURAS MARGINAIS

ENQUANTO UNS FAZEM TUDO PARA RESGATAR VIDAS , OUTROS PROMOVEM A MORTE*

VÁRIOS EDIFÍCIOS DESABARAM EM MANDALAY, UMA DAS PRINCIPAIS CIDADES DE MYANMAR.

Há cerca de um ano, fui a uma das zonas mais pobres de La Guaira, com o jornalista argentino Sebastian Salgado, entrevistar Pedro Escobar, um jovem venezuelano que sendo emigrante nos Estados Unidos havia sido preso pelo ICE e deportado para um campo de concentração em El Salvador. Pedro Escobar está bem, assim como a sua corajosa mãe que nos contou de lágrimas nos olhos o horror que foi ter um filho sequestrado pelo ICE.

Fizemos essa viagem com a minha amiga Eadra Flores, viúva de Gustavo Rodríguez, um dos históricos revolucionários do Bairro 23 de Enero, bastião do chavismo em Caracas, que durante a minha estadia de meio ano me tratou como um filho. Desde que ocorreram os terramotos tratei de contactar a Eadra sem sucesso, suspeitando que ela estivesse na sua aldeia junto ao mar, La Sabana, no estado de La Guaira. Sem electricidade e sem cobertura móvel, só com muita dificuldade soube que estava tudo bem com ela e com a sua filha. Agora, desesperadamente, calcorreia as listas dos hospitais de Caracas e La Guaira à procura de Orelsy, Ilse e Rousse, os nomes da sua prima, da filha desta e da neta de quatro anos, que estavam em Caraballeda, no edifício Vargas, um dos epicentros do dantesco cenário que se vive em La Guaira.

Dentro de algumas horas, fecha-se o ciclo de 72 horas em que há maior probabilidade de encontrar sobreviventes entre os escombros. As equipas portuguesas de emergência estão, finalmente, na zona para receberem diferentes missões por parte das autoridades locais. A comunidade portuguesa na Venezuela é enorme e está presente em todas as partes, infelizmente também entre as vítimas.

Enquanto uns fazem tudo para resgatar vidas, outros promovem a morte. É o caso de Donald Trump que preferiu fazer ontem um comentário divertido dizendo que os venezuelanos "estão felizes e dançando nas ruasapesar da tragédia, mostrando-se depois mais focado em falar da quantidade de petróleo que extrai do país sul-americano. Simultaneamente a oposição venezuelana procura aproveitar-se da tragédia e criticar as autoridades por terem impedido o acesso generalizado da população a La Guaira.

Durante o dia de ontem, ficou evidente que o voluntarismo é bonito mas é um problema quando não há organização. Milhares de pessoas viajaram de carro e mota para fazer chegar material de resgate e mantimentos a La Guaira e com isso provocaram um engarramento tal que as ambulâncias e escavadoras demoraram horas a chegar aonde era precisas. A partir de agora, as pessoas devem deixar esse apoio em centros preparados para tal em Caracas e só depois de um registo obrigatório e autorização é que pode servir de voluntários em La Guaira. A isto a oposição e alguns jornalistas ocidentais chamam autoritarismo do "regime venezuelano". São os mesmos que nunca disseram uma palavra contra as sanções norte-americanas e europeias que depauperaram a economia e e destruíram o sistema venezuelano de saúde pública, assim como tudo o que diga respeito a emergências médicas e resgate. A melhor prova disso é o facto de os Estados Unidos terem anunciado uma suspensão de parte destas sanções para "facilitar" a entrada de ajuda na Venezuela.

Sim, as consequências das sanções não eram propaganda chavista. Haverá seguramente um tempo para o balanço sobre as falhas e os acertos da resposta do Estado venezuelano e esperemos que seja mais proveitoso do que os balanços inúteis que fazemos, ano após ano, sempre que acontece uma tragédia em Portugal, seja com incêndios, seja com tempestades.

*Título da responsabilidade do Ambiente Ondas3.

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